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História

Aumentando as raízes da família

História de: Irene Uehara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/12/2013

Sinopse

A entrevista de Irene Uehara foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 23 de maio de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Irene Uehara nasceu em Santos dia 22 de agosto de 1963. Cresceu rodeada de irmãos, primos e outros familiares e adorava brincar com o cachorro da casa. Sua trajetória como bandeirante e o intercâmbio para o Canadá que fez aos 18 anos estão entre os fatos mais marcantes de sua juventude. Cursou Geografia na USP, trabalhou muitos anos como Design e hoje é Chef. Irene é casada e tem três filhas.

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História completa

É tudo muito longínquo porque todos os meus avós vieram na primeira imigração japonesa para o Brasil, em 1908. Somos então a terceira geração da família desde a vinda para cá e, praticamente, já estamos total aclimatados. Os meus antepassados vieram para Santos de navio, provavelmente indo trabalhar no interior do São Paulo, mas logo o meu avô descobriu que a realidade do trabalho não era como aquilo que havia sido prometido e eles se mudaram para Santos, onde toda a família foi se instalando. Como o meu pai foi criado sem o pai, ele era o homem da casa. Era o filho mais novo e tinha duas irmãs mais velhas. A minha avó tinha uma vendinha, onde o meu pai sempre ajudou. Trabalhou também num mercado e passado um tempo, se formou e acabou virando líder da comunidade japonesa em Santos. Ele teve uma projeção política até que importante. A minha mãe ajudou bastante neste processo e também coordenava toda a casa. Nós éramos em sete irmãos, mais a minha avó, que morava com a gente. Lá em Santos a gente convivia apenas com Okinawanos, praticamente. Nunca estudamos em escola japonesa, até porque elas foram todas fechadas na época da guerra, o que impactou muito na continuidade da cultura japonesa. Eu mesmo não me lembro de ter amigos japoneses na infância e adolescência que não fossem japoneses. Mesmo no clube Japoneses, eram quase todos de Okinawa. É uma coisa engraçada porque o meu marido é judeu, onde a mãe judia, assim como a italiana, é muito conhecida por ser super apegada aos filhos, que é totalmente oposto à japonesa, então a gente acha que chegou em um equilíbrio. Uma peculiaridade da maternidade japonesa é que não se vangloria o filho na frente dos outros. Você não aplaude o seu filho porque ele ganhou uma medalhinha. Se diz “muito bem, é isso que você tem que fazer” e tal. Então isso me marcou porque eu também sou um pouco assim. Já levei até umas reprimidas das minhas amigas, dizendo que eu sou dura com as minhas filhas. Eu tento equilibrar essas coisas, a ser moderada. Eu adquiri muito disso com a minha mãe. Mais velha, eu fiz o programa que se chama AFS, American Field Service. Uma ONG (Organização Não Governamental) que começou na segunda guerra, junto com o Médicos Sem Fronteira. É um programa sem fins lucrativos que visa realmente que as pessoas saiam do seu mundo e levem para outros lugares a cultura do seu local de origem. Então quando você sai do Brasil, você não está indo lá estudar inglês, você está indo representar o seu país. Então não se pode ir qualquer pessoa, tem que ser alguém que minimamente vai representar o país e mais, vai ficar na casa de uma família, não está indo apenas para aprender inglês. Você ia para uma casa com imersão total, chamaria o pai da casa de ‘pai’, a mãe de ‘mãe’ e o irmão de ‘irmão’. Então após aprovado, você preenchia um formulário buscando nas famílias o mesmo perfil do estudante intercambista. Eu tive sorte de encontrar uma família muito legal no Canadá. Uma senhora, que era a minha conselheira lá, eu me correspondo até hoje. Antigamente muito por carta e cartão de natal, depois perdemos um pouco o contato, mas no Facebook a gente se reencontrou e conversa. È muito legal porque estamos falando de uma senhora que hoje tem 80 anos. Ela já veio duas vezes para o Brasil e então guardo muito essa lembrança, de conhecer jovens do mundo todo. Uma coisa muito legal eram os encontros entre intercambistas. As únicas músicas que todo mundo sabia cantar eram as do Beatles, muito engraçado ver como o trabalho deles se espalhou para o mundo todo. Depois entrei na faculdade. Entrar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo é entrar em contato com toda libelú e formação do PT (partido dos trabalhadores) latejando. Mas por mais que eu gostasse do curso e tivesse amizades, não acho que eu vivi intensamente como gostaria. Não sei se por adaptação, mas hoje não sei se eu faria a mesma faculdade. Eu fui assistente de uma professora. Fazia parte de um grupo de pesquisas que ela tinha. Tive bolsa de iniciação científica pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e comecei também a dar aula no estado. Tinha e parece que tem até hoje uma deficiência de professores de Geografia para ensino médio. E eu gostava. Depois consegui um estágio na CETESB (Companhia Tecnologia de Saneamento Básico), fiquei lá por um ano e no final do estágio consegui uma vaga em uma empresa de estudo de impacto ambiental, onde fiquei por um ano. Ou seja, no total eu tinha experiência de uns três anos na área de Geografia. Eu estava de férias nesta empresa, que fazia parte do grupo Camargo Correia, quando me ligaram falando que o departamento em que eu estava havia sido extinto. Ou seja, eu e a torcida do Flamengo estávamos na rua. Nessa época, o hoje meu marido, que é arquiteto, havia me medido pra fazer uma coisa para ajudá-lo no trabalho e comecei a mexer com isso. Acabei migrando totalmente de área. O que ficou de importante contar é de uma história forte para mim. Estou pensando em uma história que aconteceu no meio do caminho, que quando a minha filha nasceu e eu conheci a minha sogra, a minha filha teve câncer. Então ficamos dois anos e meio no processo de tratamento, que foi uma coisa muito mais marcante pra gente do que qualquer outra coisa. O câncer se curou e tudo mais, mas a cada vez que se dá um tropeço você acaba revendo várias coisas. Existem algumas dificuldades que te fazem reviver tudo com outros valores. Quando descobri que ela estava com leucemia, eu estava grávida da minha segunda filha, então foi muita coisa ao mesmo tempo. Entramos no processo de praticamente morar no Hospital Sírio Libanês por um tempo, mas sempre se aprende muito sobre isso. Você acaba vendo a história do outro, que é sempre pior que a sua, e vai ganhando forças para vender as dificuldades. Hoje, sonho é uma palavra que eu não gosto de usar porque parece uma coisa distante. Mas eu tenho o desejo de sempre ter paz. A gente vive no stress dessa cidade grande e eu sou meio Tim Maia: eu só quero sossego!

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