Busca avançada



Criar

História

Através dos danos

História de: Francisco de Paula Machado de Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2016

Sinopse

Piracicabano “por acaso”, cresceu em São Paulo. Dentre os conturbados momentos políticos que enfrentou, a Revolução de 32 se destaca, tendo sido a ocasião responsável pela morte de oito de seus companheiros, incluindo um de seus primos. Conviveu com a esposa por cinquenta anos, mas a perdeu, ao lado do filho, em um acidente de carro ao qual sobreviveu. As grandes ideias e importantes cargos públicos que ocupou não puderam ser impedidos pelos reveses da vida: nem a boiada disparada, na infância; nem o tremor de terra e o bombardeio, na juventude; nem a perda da esposa e de um dos filhos na vida adulta detiveram os sonhos de Francisco.

Tags

História completa

P/1 – Senhor Francisco, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1- A gente poderia começar com o senhor falando seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?

 

R – Eu me chamo Francisco de Paula Machado de Campos. Nasci na cidade de Piracicaba, no estado de São Paulo, no dia 7 de fevereiro de 1912.

 

P/1 – Senhor Francisco, o senhor poderia falar o nome dos seus pais e as atividades deles? Falar um pouco sobre eles e das lembranças que o senhor tem?

 

R – O meu pai era engenheiro civil formado pela Escola Politécnica e minha mãe é uma senhora da cidade de Limeira, ambos casados. Viveram juntos durante 50 anos, meu pai sempre trabalhando como engenheiro − no começo da vida dele − e mais tarde como empreendedor de obras aqui em São Paulo. Posteriormente como grande comerciante em São Paulo, fundou várias companhias e teve uma atividade relacionada com assistência social muito grande, principalmente voltada para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

 

P/1 – E em qual ramo de comércio ele atuou?

 

R – Meu pai, durante mais de dez anos, foi sócio de uma casa comercial muito conhecida, chamada Casa Dodsworth. A Casa Dodsworth tinha sido um estabelecimento criado por uma firma inglesa e estabelecida no Rio de Janeiro. Posteriormente meu pai e mais dois companheiros compraram os direitos da Casa Dodsworth e a transformaram. Trouxeram para São Paulo e ela ficou durante muitos anos estabelecida com a parte comercial na Rua Boa Vista, de São Paulo. Pode imaginar? Interessante. Eles tinham representações magníficas, tanto de firmas americanas, francesas... Alemãs principalmente, e comercial também, com as coisas que não eram ainda fabricadas em São Paulo, porque nessa época nem as lâmpadas eram fabricadas em São Paulo.

 

P/1 – E como se deu esse interesse dele pela área social? Pela Santa Casa de Misericórdia?

 

R – Desde o começo da vida dele. Foi um homem que sempre pensou nos problemas sociais e mais tarde acabou sendo convidado para ingressar na Santa Casa, não propriamente como médico, mas como administrador, fazendo parte do conselho da Santa Casa, e lá esteve durante longos anos, terminando até como provedor da Santa Casa. Era uma grande estima que ele tinha pelos problemas sociais.

 

P/1 – O senhor falou que seus pais são de Limeira?

 

R – Meus pais são de Limeira.

 

P/1 – Qual é a origem da família? O senhor pode contar um pouco da história?

 

R – Bem, a família... Limeira é uma cidade muito curiosa, porque tem várias formações e hoje é uma cidade extraordinariamente desenvolvida e tudo mais. O meu avô paterno foi um grande propagandista da República, foi um homem que levou para o interior essa idéia republicana e lá se estabeleceu. Ele se chamava Joaquim Antônio Machado de Campos, enquanto que o meu avô materno chamava-se Coronel Flamino Ferreira de Camargo, elefazia parte do grupo ainda do Império, mas ambos se respeitavam mutuamente, tanto é que meu pai acabou se casando exatamente com a filha de um coronel do partido da oposição. É isso que eu posso lembrar a respeito deles.

 

P/1 – E o senhor chegou a conhecer os seus avós, Senhor Francisco?

 

R – Não, eu me referi agora a pouco ao meu bisavô Antônio, que foi uma pessoa muito importante. Os meus avós paternos, eu os conheci, meu avô chamava-se Antônio Machado de Campos, minha avó chamava-se Ana Machado de Campos e eu conheci somente a minha avó materna, porque o meu avô já era falecido quando minha mãe se casou.

 

P/1 – E a sua infância? O senhor passou onde?

 

R – Bem, o começo da minha vida foi muito interessante, como eu disse. Eu acabei nascendo em Piracicaba por acaso. Meu pai era engenheiro da Estrada de Ferro Mogiana e estava com uma responsabilidade muito grande na construção de uma ponte metálica sobre o Rio Pardo. E, às vésperas do meu nascimento, meu pai, temeroso de que ela pudesse não ser bem atendida, mandou-a para Piracicaba, onde minha avó estava residindo, e foi lá que eu nasci. De maneira que eu nasci casualmente em Piracicaba, o que me honra muito, porque nasci no centro da cidade que hoje é uma grande cidade, e ao lado da casa onde a minha mãe sofria as dores do parto tinha um grande circo de cavalinho que tocava músicas,  eu nasci sobre esse movimento muito curioso da minha vida.

 

P/1 – E o senhor veio logo pequeno para São Paulo?

 

R – Não, não, voltei então para a fazenda, meu pai trabalhava na Mogiana e continuou a trabalhar na Mogina durante vários anos. Até que, em 1915, ele se mudou para São Paulo, então veio a família toda para São Paulo, onde ele acabou se estabelecendo em outras atividades.

 

P/1 – O senhor cresceu aqui em São Paulo?

 

R – Aqui em São Paulo.

 

P/1 – Como era a casa? Onde era? O senhor poderia descrever a casa?

 

R - Com muito prazer. Meu pai, por vários anos, locava uma casa perto de onde é hoje a Avenida São João, mas posteriormente, com as suas economias - ele era muito econômico, levando uma vida muito regrada -, acabou comprando um terreno e construindo uma casa no bairro da Aclimação. A Aclimação, naquela época, era uma área ainda aberta, ventava muito, eu me lembro muito bem. Mas tinha um parque logo abaixo que nos atraía muito quando crianças, era o parque que hoje é chamado Jardim da Aclimação, mas que na época era particular, era do Senhor Arruda Botelho. Então nós passávamos lá dias interessantes, porque não tinha nem calçamento na rua nem nada. Mas vivíamos sempre muito sujeitos às ventanias e resfriados, razão pela qual, em um belo dia, um médico do meu pai, me atendendo, disse: “Olha, você precisa tirar seu filho daqui de São Paulo, mande ele para uma outra cidade do interior para fazer um colégio no interior”. Meu pai então foi a Campinas e escolheu um colégio em Campinas, onde eu passei dois anos num colégio interno.

 

P/1 – E como foi esse período, para o senhor, no colégio interno? Como era o colégio?

 

R – Foi um período muito curioso, porque na primeira vez que o meu pai me levou – eu era menino, tinha 10 anos, em 1922 –, ele me embarcou com a minha bagagem toda na Estação da Luz, na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, e recomendou ao guarda do trem que me fizesse descer na cidade de Campinas. Lá eu tive que, de modo próprio, pegar minha bagagem, e era uma bagagem grande, por causa de um ano de colégio interno. Contratei uma carroça que me levou para o colégio e lá no colégio, então, me apresentei, meu pai já tinha estado lá, então me apresentei e lá fiquei durante dois anos, naturalmente fazendo férias em São Paulo.

 

P/1 – O senhor se lembra do dia a dia no colégio? Qual era o tempo de estudo e o tempo de lazer?

 

R – Lembro-me muito. Eu gostava muito de futebol, já naquela época o futebol era uma coisa que... O colégio tinha três classes de alunos, tinha os maiores, os médios e os menores, e eu era dos menores. E lá fiquei, conhecendo... Fiquei com amizade com um homem que se tornou, mais tarde, um homem muito importante, que é o dono, o que deu origem ao Unibanco, que era o...

 

P/1 - O Moreira Salles.

 

R – É, exatamente, Moreira Salles, e ficamos muito amigos, passamos o resto da vida assim: ele fazendo sua carreira política brilhante – foi até embaixador em Washington e banqueiro –  e, de vez em quando, nos encontrávamos, recordando os tempos que nós passamos lá no colégio.

 

P/1 – E o futebol, nessa época? O senhor já tinha um time de preferência? Como é que era, tinha a rivalidade que tem hoje?

 

R – Não, naquele tempo não tinha. Um fato muito empolgante que os alunos todos do colégio assistiram foi o seguinte: naquele tempo, a cidade de Campinas recebia praticamente uma, duas vezes por semana uma grande boiada que ia para os matadores da cidade e que passavam exatamente em frente à área do colégio, que era muito ampla e não tinha nenhum tipo de vedação. Os campos de futebol eram distribuídos em três partes e, uma tarde, uma boiada dessas passando, entrando na cidade, disparou no meio dos alunos, foi uma coisa terrível, uma correria tremenda. Eu lembro muito bem que o padre reitor – era um colégio religioso, católico – fez um esforço tremendo para salvar os alunos quanto ao disparo dos animais que encheram a cidade de Campinas. Os animais entraram pela cidade de Campinas. Esse foi um fato que eu recordo com muita...

 

P/2 – Morreu algum aluno?

 

R – Não, felizmente, felizmente, foi uma coisa extraordinária, a ação dele para poder defender os alunos contra... Sabe o que é uma boiada disparada? Ela vai desesperadamente para qualquer lugar.

 

P/1 – E mesmo na época que o senhor estava em São Paulo ou em Campinas, quais eram as brincadeiras? O passatempo preferido do senhor e seus colegas?

 

R – Bem, posso lhe dizer que o futebol era o principal atrativo. Já tinham os timinhos, mas os jogos eram internos, e depois surgiram lá em Campinas os primeiros jogos de futebol entre os colégios campineiros, porque a cidade de Campinas é uma cidade muito valiosa pela quantidade de escolas e tinha... Principalmente uma delas, era muito importante, que se chamava Culto à Ciência, onde então os colégios faziam os exames finais para poder ver o grau de aprendizado dos alunos, e é isso que tinha lá.

 

P/1 – E depois do colégio o senhor volta a São Paulo?

 

R – Dois anos depois eu já estava em São Paulo, e quando chegou 1924 houve um fato muito importante na minha vida. Em 24 eu tinha doze anos e estava passando férias na cidade de Limeira, na casa de meus tios, que eram nossos amigos, quando, uma noite, se não me engano no mês de julho, toda a casa foi acordada subitamente pelo meu tio, que gritava em altas vozes: “Todos para a rua, todo mundo para a rua”, de maneira que eu estava deitado e me tiraram da cama correndo para a rua. Tinha havido um tremor de terra, e esse tremor de terra causou uma situação muito importante na região do Estado de São Paulo. Meu pai, que nessa época morava em São Paulo, acordou com o tremor de terra e, abrindo a janela do seu vizinho, que era um francês, o vizinho virou-se para o meu pai e disse: “Tremblement de terre” [terremoto], falando em francês para o meu pai, e era uma coisa formidável. Pois bem, pode imaginar que, depois do que aconteceu nessa região do Estado de São Paulo, ninguém mais quis entrar em casa, porque um tremor de terra pode ser um prenúncio de um segundo tremor de terra, e geralmente nos tremores de terra os acidentes são a destruição da construção sobre as pessoas. A cidade de Limeira inteirinha, todas as cidades vizinhas, todo mundo na rua, e passamos então a noite seguinte dormindo também na rua, por medo da repetição desse fenômeno. Pois bem, no dia seguinte, os jornais de São Paulo todos noticiaram o tremor de terra, e presumia-se, naquela época, que o epicentro provável desse tremor de terra teria sido Poços de Caldas, cuja formação geológica é própria de uma antiga cratera de vulcão que vocês conhecem perfeitamente bem. Mas posteriormente eu vim saber, e hoje está perfeitamente confirmado, que o epicentro foi na cidade de Mogi Mirim, que era mais ou menos a mesma região. Mas foi um fato empolgante, registrado hoje como talvez o tremor de terra mais importante que o Brasil sofreu.

 

P/1 – O senhor tocou em 1924, o senhor era criança ainda, lembra algo sobre a revolução que houve em São Paulo nesse período, ou não?

 

R – Muito, muito bem. Em 1924 nós morávamos na Rua Veiga Filho, exatamente onde hoje tem grandes construções e, uma manhã, por volta das sete horas da manhã, meu pai estava em casa, minha mãe e o resto da família estavam passando uns dias em Poços de Caldas, quando meu pai acordou e disse: “Meu filho, que coisa tremenda, venha ver, venha para fora”. Eram tiros de canhão, era a revolução de Isidoro Dias Lopes que, com seus canhões calibre 72 – me lembro muito bem – estava atirando sobre a cidade de São Paulo, tendo como objetivo o Palácio Campos Elíseos, sede do governo, que nessa época era presidido – chamava-se presidente, e não governador – pelo Presidente Carlos de Campos. Foi um movimento revolucionário muito forte, súbito, que atacou a cidade de São Paulo com bombardeio. Grande parte da população de São Paulo fugiu, cerca de 50% da população, você pode imaginar? Quem pôde sair de automóvel, saiu de automóvel, grande parte saiu de trem, saíram de carroças também, e muita gente saiu a pé, por causa do bombardeio que teve. Esse bombardeio cessou no momento em que o Presidente Carlos de Campos abandonou a cidade com todo o seu governo e se localizou no Vale do Paraíba – que antigamente não tinha esse número de cidades formidáveis – com a esperança do apoio que veio do Governo Federal. O General Isidoro Dias Lopes, apoiado por uma parte da polícia do Estado de São Paulo, chamava-se... Tinha o nome de... Daqui a pouco eu lembro o nome. Eles ficaram donos da cidade de São Paulo durante 14 dias, e a cidade de São Paulo ficou a Deus dará, então, nessa ocasião o Prefeito de São Paulo, se não me engano... Como era o nome dele?  Daqui a pouco eu lembro o nome do prefeito, ele corajosamente foi procurar o General Isidoro Dias Lopes, que era o chefe da revolução em conjunto com outros oficiais do exército, e disse: “A cidade de São Paulo não pode ficar a Deus dará, eu preciso que se organize uma força civil capaz de manter ordem”, porque todos os estabelecimentos comerciais grandes foram saqueados, e não havia mais nenhum controle sobre a propriedade particular. Este homem conseguiu, com coragem, num período revolucionário, fazer com que a cidade passasse a ter certa tranquilidade, principalmente na matéria de segurança pessoal, limpeza, água e energia elétrica, enquanto a revolução dominava a cidade de São Paulo. O presidente da República, que era Artur da Silva Bernardes, contra quem os revolucionários lutavam, movimentou o mais poderoso corpo de artilharia pesada chefiada pelo General chamado Sócrates, que veio pelo Vale do Paraíba imediatamente. Só artilharia, destinado a destruir, se fosse necessário, a cidade de São Paulo, para retomá-la contra os revolucionários. E foi um grande bombardeio, a cidade de São Paulo sofreu um duplo bombardeio pela segunda vez. Quando os revolucionários perceberam que não tinham conseguido nada, resolveram então abandonar a cidade de São Paulo, então o Isidoro dividiu: uma parte dos revolucionários foram em direção a Alta Sorocabana, com trens especiais da Alta Sorocabana, e o restante foi em direção à Columbia, lá no limite do Estado de São Paulo. Deram origem, então, à campanha do Luís Carlos Prestes, que veio do Rio Grande do Sul. Ele era oficial no Rio Grande do Sul, e veio se encontrar... Fizeram a campanha Prestes, todo mundo sabe bem disso. E a cidade de São Paulo, aos poucos, foi retomando as suas atividades. Meu pai ficou apavorado de ver o que tinha acontecido nos depósitos da firma que ele trabalhava, mas felizmente era material que pouco interessava. A firma que mais sofreu naquela ocasião, eu me lembro muito bem, foram os depósitos da grande Indústria Matarazzo, naquela época a Indústria Francisco Matarazzo era predominante no Brasil, em São Paulo. São essas as minhas recordações da revolução de 24.

 

P/1 – O senhor passou aqui em São Paulo esse período todo?

 

R – Nós fomos embora.

 

P/1 – Ah, o senhor também foi embora?

 

R – Meu pai também foi embora, fomos embora de medo da situação.

 

P/1 – E senhor Francisco, como que foi a escolha da sua profissão? A relação com o seu pai teve algo a ver?

 

R – Teve muita influência. Meu pai sempre foi engenheiro e sempre trabalhou na atividade profissional de engenheiro, e eu era o filho mais velho. Fui entrando, gostando daquilo tudo. Mas quando chegou no meio do meu curso na Politécnica, comecei a desenvolver o desejo de uma outra atividade, eu comecei a pensar em me tornar um engenheiro aeronáutico, não um simples piloto, mas me dedicar à Engenharia Aeronáutica  e consegui formar um pequeno grupo de amigos para, terminado o curso de Engenharia Civil, entrarmos em cursos de Engenharia Aeronáutica para poder prosseguir na profissão. Mas qual não foi surpresa quando eu fui dizer ao meu pai que ia seguir outra profissão e ele disse para mim: “Eu pensei que você fosse me ajudar na Engenharia”, naquele dia eu pensei bem e disse: "É verdade, é meu pai quem eu tenho que ajudar" e passei então a dedicar-me inteiramente a Engenharia Civil.

 

P/1 – E voltando um pouquinho, Senhor Francisco, talvez abordar outro aspecto. Um pouco antes, a sua adolescência, como foi? O senhor tinha grupo de amigos?

 

R – Sabe, eu nunca fui assim, um indivíduo expansivo. Tinha amigos, colegas e tudo mais, principalmente na Politécnica, eram muitas amizades, nós tínhamos amizades muito grandes. Eu vou contar uma passagem muito curiosa que aconteceu no tempo em que nós estávamos na Politécnica, depois que São Paulo já tinha sido derrotada na revolução de 32 e que estava sujeito a interventores federais. Havia em São Paulo um interventor federal que se chamava Coronel Manoel Rabelo, um oficial do Exército, interventor de São Paulo, e nós estávamos lá na Politécnica, eu fazia parte do grupo do grêmio politécnico, que era um grêmio ativo e tudo mais quando, num belo dia, um dos primeiros atos desse novo interventor foi dobrar a taxa anual de inscrição para escolas superiores, que era 200 mil réis, para 400 mil réis, e então houve uma efervescência muito grande lá no nosso grêmio. “Onde é que já se viu? Agora o que vai acontecer? Muitos não vão poder pagar essa taxa e tal, vamos fazer uma revolução.” E imediatamente o diretor da Escola Politécnica, Professor Alexandre Albuquerque, foi pela primeira vez nos visitar lá e disse: “Olha uma coisa, estudantes da Politécnica não fazem revolução, vocês têm que agir pelo direito, a forma legal que tem que ser feita” "Mas qual é a forma legal?" “Vocês tem que fazer um ofício ao interventor, justificando a razão do aumento, protestando contra ele, e entregar esse ofício no Palácio Campos Elíseos, como se deve fazer normalmente, não pela violência.” Então foi feito o ofício e foi levado lá com protocolo. Ficamos todos nós lá esperando, e os dias foram passando. Se passaram mais ou menos uns dez dias e saiu no Diário Oficial" “negado”, e quando chegou negado: “Ah, agora é nosso dia”. No primeiro sábado seguinte, nós promovemos uma coisa que era muito comum naquela época, pelo menos a Politécnica e o Direito faziam muito disso, promover o enterro do interventor. Então lá na Escola Politécnica, na Rua Três Rios, nós compramos o caixão de defunto, compramos velas e tudo mais, banda de música para tocar marcha fúnebre e saímos a pé, com cartazes e tal. Subimos a rua em direção à cidade, atravessamos o Largo São Bento, atravessamos a rua São Bento inteirinha e depois viramos a Praça Patriarca com a banda tocando, e eu carregava um cartaz que, se eu contar para vocês, vocês não podem imaginar o que estava escrito, além de outros que nós preparamos. “Na cabeça, cabelo; no rabo, Rabelo” (risos) Você pode imaginar? E nós íamos terminar o enterro em cima do Viaduto do Chá, então do Chá jogava-se o caixão lá para baixo e aí encerrava. Quando meu pai soube disso: “Meu filho, daqui a pouco a polícia está aqui para te prender”. Felizmente ninguém foi preso.

 

P/1 – Como era a relação dos alunos da Politécnica com a política? Tinha movimentação política? Como era, senhor Francisco?

 

R – A movimentação política sempre existiu, e é uma coisa muito boa. Meu pai foi sempre filiado a um partido político, ele sempre nos educou: “Filho, cada um de nós deve estar filiado a um partido, partido esse que você deve estudar e verificar se os ideais do partido são os seus ideais, aí você então se filia a esse partido”. E havia muita política naquela época, porque havia, em São Paulo, uma corrente política muito forte que dominava a política em São Paulo, que se chamava Partido Republicano Paulista, o PRP. O PRP é que fazia toda a política do Estado de São Paulo inteirinho, elegia os presidentes, elegia lá no interior... E meu pai pertencia, nessa época, ao Partido Democrático de São Paulo, então havia uma corrente política muito grande, muito grande. E nessa época se fazia campanha fazendo comícios públicos, grandes comícios públicos, não havia o que há hoje, os recursos das técnicas que permitem usar a televisão e outros meios para substituir, era o comício em que havia grandes oradores... Grande parte dos grandes mestres do Direito de São Paulo faziam parte do Partido Democrático. Foi nessa ocasião, em 1930, que Getúlio Vargas se apresentou como candidato à Presidência da República, a época em que Washington Luis era o Presidente da República e pretendia que o seu sucessor fosse Júlio Prestes de Albuquerque. Quando houve a eleição em que Getúlio Vargas se apresentou, o Partido Democrático de São Paulo lutou por Vargas, para ver se conseguia mudar a política. No dia da eleição, como era comum, havia toda a sorte de falcatruas e tudo mais, a tal ponto que meu pai, que era um homem tranquilo, quando viu os resultados da eleição que ele também havia participado e que havia participado da verificação e verificado a fraude, virou-se para mim e disse: “Meu filho, agora só mesmo com a revolução.” E veio a revolução de Getúlio, que mais tarde nós tivemos que combater tremendamente, porque os ideais que ela trouxe não foram os ideais que nós queríamos que fossem, ideais de liberdade para o país e tudo mais. Aí veio então a revolução de 32.

 

P/1 – E o senhor participou?

 

R – Eu participei intensamente.

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – Eu era estudante da Politécnica quando rebentou a revolução, no dia 9 de julho, e eu imediatamente procurei saber onde é que os estudantes estavam se reunindo. Estavam se reunindo na Faculdade de Direito, onde todos, reunidos... Fomos então conduzidos – todos aqueles que aderiram – para o Quartel da Força Pública, onde se formou então o primeiro batalhão de universitários, eram estudantes da Politécnica, de Medicina, de Direito e do Mackenzie. Formamos o batalhão chamado Batalhão 14 de Julho, porque foi o dia que nós partimos para Itararé, e foi uma luta tremenda, todos nós estávamos desejosos de lutar por nossos ideais. Vale aí uma crítica importante, nós embarcamos na estação da Sorocabana, os 400 estudantes, eram todos estudantes, chegamos a Itararé de madrugada, fomos alojados em Itararé e verificamos que havia, da antiga revolução de 30, as antigas trincheiras e tudo mais que nunca tinham sido usadas, porque Getúlio conseguiu entrar no estado de São Paulo sem dar um tiro sequer, quando Washington Luís foi deposto. Mas nós verificamos uma coisa: havia o comando, naquela época, por oficiais da Força Pública de São Paulo que não estavam à altura da luta que iria se apresentar. O Batalhão 14 de Julho era um batalhão cheio de vigor, de desejo de lutar. Ele só conseguiu se tornar uma força realmente importante quando foi dirigido por um oficial do Exército. Vários oficiais do Exército saíram do Rio de Janeiro, entraram no Estado de São Paulo para ajudar e vários deles foram distribuídos para a zona azul. Foi enviado um coronel do Exército chamado Coronel Taborda, que trouxe vários companheiros dele. O Batalhão 14 de Julho passou a ser um batalhão vigoroso, e nós lutamos, já no meio da revolução, já longe de Itararé, o Estado de São Paulo já tinha sido invadido sem quase nenhuma resistência, porque o que trazia na frente da luta geralmente era a artilharia, e a artilharia é uma coisa tremenda, muito mais artilharia do que propriamente infantaria. Mas aí nós lutamos tremendamente, e nessa luta morreram oito dos nossos companheiros, inclusive meu primo, morreu vitimado da... Bem, acabou a revolução, voltou-se outra vez ao regime anterior.

 

P/1 – Senhor Francisco, voltando um pouco para a vida pessoal, o senhor poderia falar um pouco como foi o seu casamento? Como o senhor conheceu a sua esposa, foi nessa época? Quando foi?

 

R – Bem, eu já tinha trinta anos de idade e já tinha visto dois irmãos mais moços casarem, eu digo: “Deve estar chegando a hora do meu casamento” e casualmente, estando lá em São Pedro, em um fim de semana lá em São Pedro, fiquei conhecendo uma moça pela qual eu me apaixonei, chamada Helena da Costa Machado, ficamos noivos durante mais ou menos uns seis meses e nos casamos. Vivi com esta querida mulher durante 50 anos, até o dia em que ela e o meu filho, no dia 4 de outubro, morreram num acidente de automóvel. Os dois morreram. Acidente em que eu estava junto e que fui o sobrevivente. Eu tive a felicidade de passar 50 anos com ela, era uma grande e querida companheira que me deu três filhos: duas filhas que estão vivas e o filho que morreu, ele já tinha 36 anos e morreu também nesse acidente, e essa foi nossa vida.

 

P/1 – Voltando um pouco ao período da formação do senhor: uma vez terminada a revolução, o senhor tinha acabado o curso, como foi o encaminhamento para o trabalho, para o emprego? Como o senhor escolheu o primeiro emprego?

 

R – O meu primeiro emprego foi na companhia que meu pai havia fundado. Meu pai, dentro das outras várias atividades, participou de atividades importantes, fundou uma companhia de energia elétrica chamada Companhia Elétrica Caiuá em sociedade com outras pessoas, e essa companhia foi a que estabeleceu serviços modernos em toda a Alta Sorocabana e a Alta Paulista, que eram antigamente pequenas instalações a vapor, transformando tudo aquilo em instalações modernas. Eu fui trabalhar com ele e trabalhei os primeiros anos, como eu disse, quatro anos na construção de uma usina hidrelétrica na beira do Rio do Peixe, e posteriormente passei a administrar a companhia em vários níveis, e realizamos outras obras importantes, também.

 

P/1 – O senhor pode descrever para a gente como foi esse trabalho na construção dessa hidrelétrica? Afinal, como era a região do Rio do Peixe, nessa época?

 

R – Bem, o Estado de São Paulo, em 1937, 38, ainda tinha grandes regiões com matas virgens, e duas regiões pouco conhecidas eram a região da Alta Sorocabana, que já estava atravessada pela Estrada de Ferro Sorocabana, que ia até Presidente Epitácio, que chamava Porto Epitácio; e tinha a outra região, que é a que ficava entre o Rio do Peixe e o Rio Aguapeí ou Feio, chamada de região da Alta Paulista, que era toda ela de mata virgem e que foi sendo desenvolvida lentamente com abertura de estradas para carroções, para animais e, no fim das contas, para caminhões. Eu participei intensamente do desenvolvimento dessas duas áreas, conheci muito bem as duas regiões, eletrificamos toda essa parte. Fizemos linhas de transmissão para a cidade que se chama hoje Osvaldo Cruz, e que foi o primeiro local onde recebeu energia elétrica da nossa companhia, já do lado do Espigão da Paulista. Trabalhamos intensamente. Construí outra usina hidrelétrica e, além do mais, instalei três usinas termoelétricas, exatamente para prevenir os apagões. Houve uma crise em São Paulo muito grande em que numerosas firmas não estavam mais conseguindo arranjar fornecimento de energia elétrica aqui em São Paulo. Era a Light que estava fazendo a usina de Cubatão, essa grande Usina de Cubatão, de maneira que, prevendo um fato muito desagradável que é o apagão, eu propus à companhia e fomos instalando usinas termoelétricas para suprir a falha, até que pudéssemos receber um suprimento grande que veio muito atrasado da Usina de Salto Grande, no Rio Paranapanema. Isso foi muitos anos depois. As usinas termoelétricas foram, depois, vendidas para outros municípios do interior do Estado, do Brasil, principalmente Mato Grosso.

 

P/1 – E o senhor continuou na sua carreira de engenheiro?

 

R - Continuei.

 

P/1 – Alguma área específica?

 

R – A minha carreira foi interrompida algumas vezes por ocupar alguns cargos públicos. Eu tenho lembrança extraordinária do período em que fui Secretário de Viação de Obras Públicas do governo Carvalho Pinto, foi um período em que eu pude dar ensejo à realização de obras importantes para o Estado de São Paulo, todas elas contidas dentro de um planejamento anteriormente feito, foi o governo mais bem organizado que eu tenho conhecimento. O Governo Carvalho Pinto tinha um plano de ação em que estava previsto a execução de obras, benefícios e tudo mais, e eu, como Secretário de Viação e Obras Públicas, me encarreguei de executar um grande volume de obras públicas para o Estado, principalmente as estradas de rodagem.

 

P/1 – O senhor falou antes que, durante o período da Politécnica, o senhor teve interesse em aviação.

 

R – Muito.

 

P/1 – É daí que vem o seu interesse pela tecnologia? De onde veio esse interesse pela aviação?

 

R – Bem, começou quando eu frequentava a cidade de Presidente Prudente, que era a sede regional da companhia, quando houve uma grande campanha promovida, se não me engano, por Assis Chateaubriand, para promover o aumento da aviação no Brasil. E foram criados então vários clubes, aeroclubes, inclusive um em Presidente Prudente, e esse aeroclube recebeu de presente um pequeno avião – por sinal, muito bom –, onde nós tomávamos aula de pilotagem, e aí é que cresceu o meu grande entusiasmo pela aviação, e isso é até hoje. Eu aprendi a pilotar e pilotei bastante, tive a oportunidade de, inclusive, participar de um voo do mais extraordinário avião que o mundo já produziu, que é o Concorde, e de estar sentado na cabine do comandante voando a 18 mil metros de altitude a uma velocidade de 2130 quilômetros por hora. Isso é uma coisa que nunca consegui esquecer. Veja bem, 2130 quilômetros por hora.

 

P/2 – Qual foi o primeiro avião que o senhor pilotou?

 

R – Avião de ensino. Eram aviões fabricados aqui no Brasil, se não me engano. Se não me engano esses aviões foram fabricados por um período pela firma Pignatari. A Pignatari andou fabricando uma série de aviões pequenos para cursos de pilotagem, muito bons.

 

P/1 – Senhor Francisco, o senhor falou que foi secretário de Obras Públicas. O senhor poderia explicar qual foi a sua atuação como secretário, quais foram as obras que foram tomadas e como foi esse período na vida do senhor?

 

R – Com muito prazer. Eu nunca tinha participado de nenhuma atividade política, eu sempre fui profissional e, certo dia, recebi uma proposta através de um amigo do Governador Carvalho Pinto, um convite para ocupar o cargo de uma diretoria do Estado. E foi a primeira vez que eu tive contato com o Professor Carvalho Pinto, porque eu não o conhecia pessoalmente. Ele queria que eu assumisse imediatamente essa diretoria e eu disse: “Mas Excelência, eu prefiro que a Assembléia Legislativa aprove o meu nome”, e ele disse: “Não tenha dúvida nenhuma, eu tenho maioria, vou mandar imediatamente o seu nome para lá”. Mas aconteceu que a Assembléia Legislativa impediu, negou a autorização achando que eu estava impedido de ocupar aquele cargo pelo fato de ter sido diretor de uma empresa de eletricidade, e aquilo envolvia outras políticas. Eu fiquei muito satisfeito de ter me livrado daquilo, mas, poucos dias depois, ele me convidou para ser secretário de Viação e Obras Públicas em substituição ao Faria Lima. Ele tinha deixado a secretaria e eu pude, então, aceitar. Aceitei com uma condição, eu disse: “Senhor Governador, o senhor me permite propor uma condição que eu acho importante? Que o seu governo complete todas as obras paralisadas por governos anteriores, estão cheios de obras aí, paralisadas”. É muito comum na política um governo abandonar a obra do governo passado e querer fazer a sua própria obra, e ele disse: “Perfeitamente bem, com exclusão do Palácio em Campos do Jordão, não quero que faça" – nessa época estava em obras. E assim o Governo do Estado executou todas as obras. Fizemos grandes poços na construção das rodovias pavimentadas, fizemos 2500 quilômetros de estradas novas, pavimentadas para todos os pontos do Estado de São Paulo. A quantidade de obras públicas das outras secretarias que estavam na minha mão era de tal quantidade e variedade que eu tive necessidade, para ganhar tempo, de organizar blocos de obras na mesma região para serem postas em concorrência no bloco, e consegui. Uma coisa que eu me considerava muito feliz naquela ocasião é de ter dado obras sempre por concorrência pública para grupos grandes de grandes, médios e pequenos empreiteiros, quer dizer, preenchendo... Havia obras que poderiam ser executadas por toda gama da engenharia e, com isso, rapidez. A coisa mais importante que eu propus ao Governo do Estado e que até hoje, cada vez que acontece um fato relativo, eu fico pensando: eu propus, naquela ocasião, que o Governo do Estado de São Paulo estabelecesse balanças nas entradas das estradas de São Paulo para a verificação da tonelagem dos caminhões. Estudou-se qual era a capacidade de cada caminhão de acordo com os eixos. Por exemplo, um caminhão de um eixo só podia transportar perfeitamente bem até, não sei, sete ou oito toneladas; dois eixos, podendo transportar cem toneladas se quisessem, desde que houvesse a distribuição para não massacrarem as nossas estradas. E agora eu vejo que o resto do Brasil está todo esburacado, porque não obedecem mais essa determinação e, dentro do Estado de São Paulo, há estradas boas por causa disso. É imperioso que se controle as cargas dos caminhões, pode-se transportar o que quiser. Eu próprio, por exemplo, aqui no Museu da Tecnologia do qual eu sou responsável, transportei três cargas de mais de cem toneladas perfeitamente bem em carretas especiais, e com o número de eixos que permitem você percorrer toda estrada sem causar dano nenhum ao pavimento. Agora há poucos dias disseram que iam aumentar, que o Governo Federal deu liberdade e agora vão aumentar. Se não houver controle, dentro de pouco tempo as estradas ficam todas esburacadas. Ou a gente tem uma estrada boa e gasta-se bastante para conservar, ou as coisas se destroem.

 

P/1 – Senhor Francisco, além dessa atuação no setor público, quais foram os outros trabalhos que o senhor teve? Os outros empregos, em quais áreas?

 

R – Eu fui presidente de várias companhias. Fui presidente da Comgás, fui presidente da VASP [Viação Aérea São Paulo], fui presidente de uma companhia federal de construção e uma porção de coisinhas por aí.

 

P/1 – Alguma que o senhor destaque mais, que o senhor queira lembrar?

 

R – Bem, eu vou dar um destaque curioso. Quando secretário da Viação, a VASP era uma companhia regional. Veja bem, do Governo do Estado. Ela tinha a grande ligação entre São Paulo e Rio, que era a ponte aérea. Foi a VASP que criou essa grande ligação São Paulo-Rio. Podia voar para Belo Horizonte e para o Sul, se não me engano, até Curitiba. E não podia sair dessa ordem, porque havia uma concorrência aeronáutica muito grande de outras linhas e, embora ela tenha tentado fazer outros voos, ela não conseguia. Então, numa ocasião, o presidente da VASP chegou para mim e disse: “Secretário, a nossa companhia está numa situação terrível: ou nós ampliamos ou então será melhor o Governo vender para outras empresas maiores”. Eu então disse: "Ampliar?", disse ele: “Só há uma solução: comprarmos outra empresa” "Mas existe alguma empresa que o Estado de São Paulo possa comprar?", e ele disse: “Existe uma empresa, existe uma empresa muito boa que tem autorização para voar no Brasil inteirinho, uma organização muito sadia, muito boa, e cujo presidente está gravemente enfermo, então é um momento oportuno de, quem sabe, sondar se ele resolveu.”. E foi o que aconteceu: a VASP comprou, chamava-se Aero Lloyd. A  Aero Lloyd era uma companhia muito bem estruturada, com aviões principalmente cargueiros. Eram mistos cargueiros, maiores do que a VASP tinha. Já eram quadrimotores, e abrangeu todo o Brasil, toda a volta. Eu justifiquei essa compra, porque foi muito boa, comprada a prazo, com pagamentos parcelados. Dizia ainda o Governador Carvalho Pinto: "É uma maneira do Estado de São Paulo prestar serviços e estar presente no Brasil inteiro". O Estado de São Paulo é um Estado muito grande e essa era uma forma... Feito assim, foi um sucesso muito grande. Dessa data em diante a VASP se transformou numa empresa nacional. Houve também uma briga muito grande entre a Varig e aquela companhia, a Panair. A Varig e a Panair do Brasil disputavam a linha aérea para a Europa, porque nessa ocasião – eu era secretário – a Varig tinha a ligação para a América e não tinha Europa. A Europa era da Panair e as duas viviam lutando tremendamente. Foi nessa ocasião que eu consegui acomodar a situação entre as duas. Mais tarde a Panair acabou sendo engolida pela Varig, que agora está numa situação tão difícil.

 

P/1 – Só para esclarecer, como foi o seu contato com a Varig, como se deu esse contato? Por intermédio de onde o senhor virou diretor?

 

R – Chamando as duas diretorias, no caso, a diretoria da Varig e a diretoria da Panair do Brasil para poder estabelecer um acordo.

 

P/1 – Perfeito. Vamos entrar na idealização do Museu da Tecnologia. Como que foi?

 

R – Bom, essa é outra história muito comprida. Eu fiz muitas viagens a trabalho para a Europa e Estados Unidos – para o Oriente eu nunca fui – e cada vez que eu tinha um tempinho, ia conhecer os museus do mundo, e nenhum com tanto suplemento como o da Alemanha, o Deutsche Museu. Várias vezes eu fui ao Deutsche Museu, e ficava pensando que um dia a gente podia fazer alguma coisa interessante, principalmente porque o Estado de São Paulo é um Estado bastante industrializado. Mais tarde fiquei conhecendo outro museu importante, o grande Museu de Chicago, que é fantasticamente importante, onde mantive um relacionamento muito grande. Tive a oportunidade de visitar, por causa disso, cerca de uns trinta, quarenta museus no mundo todo. Chegando aqui no Brasil, resolvi levantar essa ideia. Reuni um grupo de amigos para formarmos uma associação. Então, um belo dia, o prefeito Paulo Maluf, numa reunião social... O meu irmão dava-se muito bem com o Maluf e me apresentou a ele, contou ao Paulo Maluf e ele imediatamente falou: "Amanhã de manhã, cedo, você passa no meu gabinete". No dia seguinte, rapidamente, criou uma Fundação que é a Fundação Museu da Tecnologia de São Paulo, eu fiquei muito feliz, mas me vi nomeado para aquele cargo e não pude mais largar até hoje, faz mais de 32 anos. Nós estamos tendo uma luta muito grande, eu consegui do Governo do Estado de São Paulo uma área de terreno que era uma lagoa. Vocês conhecem bem a USP [ Universidade de São Paulo]? Conhece a raia olímpica, o que era a raia olímpica? Era o antigo leito do Rio Pinheiros, antes da reedificação, porque a reedificação do rio Pinheiros foi feita pela Light para levar o excesso de água do rio Tietê para o alto da serra, onde fez a grande represa Billings para a alimentação da usina Hidrelétrica de Cubatão. Muito bem. Ficou então o leito, e o leito era riquíssimo em pedregulhos e areia e centenas e centenas de empresas aqui em São Paulo entraram no leito e tiraram o que puderam de todo o material, deixando exclusivamente as argilas, as terras que não interessavam. O terreno que eu consegui do Governo do Estado era continuação. Ela também foi limpa depois, e eu obtive uma concessão de uso desse terreno por 20 anos. Fiz um trabalho em conjunto com a USP – que tinha sido criada –, a regularização do fundo da raia olímpica, que era todo irregular, jogando material para esse terreno. Transportei cerca de 60 mil metros cúbicos por dragagem, vejam bem, durante um ano e meio regularizei completamente essa área de terreno, onde estabelecemos a Fundação do Museu da Tecnologia. É um terreno de esquina ali, da esquina da Avenida hoje chamada de Politécnica com a Marginal, que tem 42 mil metros quadrados que foi completamente regularizado por nós e onde, então, fizemos aquele prédio. Aquele prédio foi construído com recursos iniciais muito pequenininhos, que foram dados no dia da fundação, no mais, com recursos que eu obtive principalmente de firmas particulares. Eu tive um relacionamento público muito grande na época em que fui secretário, em que fui diretor de empresa e consegui arranjar dinheiro e tudo mais. Até o dia em que, estando com a estrutura mais ou menos pronta, consegui do antigo Prefeito [de?] Setúbal a doação, por parte da Prefeitura, de um lote de ações abandonadas e muito antigas que a antiga Light tinha dado à Prefeitura em virtude de uns contratos antigos. Com essas ações, durante três anos, cuidadosamente fui colocando na Bolsa pequenas quantidades e consegui revigorar. Com esse dinheirinho e mais ajuda das pessoas amigas, principalmente de uma irmã minha, que era uma senhora rica, fazer esse prédio. Fizemos então uma construção valiosa, grande, ela tem um prédio que tem 7500 metros quadrados. Conseguimos também, sempre por doações, salvar três velhíssimas locomotivas que estavam sendo vendidas como ferro velho em Jundiaí. Tiramos essas três locomotivas completamente destruídas e elas foram levadas para uma cidade onde eu tinha um amigo que tinha um terreno com um desvio ferroviário e, mais tarde, vim trazendo cada uma delas para São Paulo para restaurá-las. Eu convidaria vocês a uma hora qualquer ir lá visitar o acervo que nós fizemos, que restauramos, não só das locomotivas, também de outras coisas, um acervo muito grande. Pois bem, agora, passados todos esses anos de luta e tudo mais, o secretário de Ciência e Tecnologia quer mudar a sede do Palácio Campos Elíseos para lá. Eu acho completamente inoportuno, mas em todo caso o terreno é do Estado e venceu o prazo legal que eu tinha para ocupação. Estamos então esperando que isso aconteça, fizemos lá um acerto para ver como vamos ficar, nós estamos restritos a uma área bem menor, mas, em todo caso, vale a pena ver o acervo que está lá. Esse é o Museu da Tecnologia de São Paulo. Se vocês quiserem ver, tem informações muito importantes lá.

 

P/1 – O senhor, inclusive, chegou a adquirir um submarino, não? Como foi essa história?

 

R – Ah, eu tive uma coragem muito grande, fui um homem muito corajoso nessa minha vida, sabe?

 

P/1 – Como foi essa história?

 

R – Eu, num belo dia, vi uma notícia muito curiosa, foi uma coisa muito curiosa. O Governo, a Marinha Brasileira, estava devolvendo para os Estados Unidos o submarino Bahia, que tinha sido arrendado para o Brasil para compor a Força Submarina Brasileira. Eram exatamente iguais aos que tinham vindo da... Eu, então, me apressei e fui ao telégrafo e fiz um telegrama ao departamento de Estado de Defesa Americano propondo a eles comprar o submarino para fazer desse submarino terminantemente aberto para a visitação pública e tudo mais. Pois bem, tive um entendimento muito interessante com o Governo Americano, na qual interveio também o embaixador americano no Brasil, e acabei então comprando para a fundação o submarino Bahia. Para fazer esse tipo de negociação, o Governo Americano nos disse que não podia, por lei americana, vender navio de guerra para outros terceiros a não ser de Governo para Governo, mas então entrei em entendimento com a Marinha Brasileira e a Marinha comprou o submarino com o nosso dinheiro. Pois bem, fizemos um projeto muito bonito em Guarujá, onde tinha tudo preparado para se fazer lá um parque muito bonito onde o submarino ficaria permanentemente aberto, preparado para a visitação pública. Lamentavelmente, depois de quatro anos de luta e de trabalho, o submarino veio para Santos e eu não consegui apoio de mais ninguém, não tive condições de continuar e acabei vendendo o submarino como sucata.

 

P/2 - Como que o senhor conseguiu tirar o submarino do mar e transportar?

 

R – Não, o submarino vinha flutuando. Ele iria entrar flutuando na maré alta, já estava tudo estudado, e depois iria assentar sobre estrutura metálica que já estava preparada, grandes vigas de metais. Baixava-se o nível da represa, formava-se um lago, baixava-se o nível e então ele assentava definitivamente sobre a estrutura metálica, aí ficava permanentemente. Além do mais, eu ia trocar a água do mar que tinha entrado para o canal com a água doce, por causa de um rio que estava próximo, então iria aos poucos trocando com bombas, de maneira que ele ficava assentado num lago com água doce lá em Guarujá. A Prefeitura de Guarujá me ajudou muito, deu concessão de uso por um período longo e seria uma atração turística extraordinária para Guarujá, mas infelizmente...

 

P/2 – Quantas pessoas cabiam no submarino?

 

R – O submarino... Cabiam mais de cem pessoas, era um submarino de 1500 toneladas. Tinha dez cubos lança torpedo. Esse submarino era igual aos que estavam na Marinha Brasileira.

 

P/1 – E ele foi desmontado, então?

 

R – Não, foi vendido como sucata. Eu pedi à própria Marinha que fizesse leilão e que vendesse como sucata, porque não tinha outro jeito. Depois de quatro anos.

 

P/1 – Como essa história do submarino, o senhor deve ter outras histórias de outras peças do Museu. O senhor tem um canhão? Um DC-3?

 

R – Tenho. Eu tive um contato muito bom com a Marinha Brasileira, principalmente com o Ministro da Marinha e, numa ocasião, consegui dele um despacho, dando autorização para eu tirar um canhão da Marinha, aliás, dois canhões, um de artilharia antiaérea, muito bonito, e foram retirados do Cruzador Barroso quando ele foi desativado. Eu tive muita dificuldade para transportá-lo, porque era uma peça de 50 toneladas, mas consegui transportar.

 

P/1 – Como foi isso, senhor Francisco?

 

R – Eu transportei e está lá, completamente restaurado. Mas o mais importante de todos é o avião que está lá. Tenho um DC-3 que eu consegui restaurar. De três aviões velhos abandonados, conseguimos fazer um, que é a delícia das crianças que vão lá dentro, está perfeitinho o avião. Mas são essas coisas que a gente faz, luta muito, mas infelizmente não sabe como vai acabar.

 

P/1 – Qual a perspectiva que o senhor tem para o Museu, de agora em diante, senhor Francisco?

 

R – É difícil de dizer, porque, veja bem, o edifício que eu construí, que tem cem metros de comprimento, 50 metros de largura, é uma estrutura muito bem construída de concreto e tem dois vãos livres de 25 metros. Tem oito metros de altura para eu poder guardar lá dentro dois aviões que eu tinha conseguido, esse, que está lá, e um outro que, lamentavelmente, se perdeu. E também todo esse material, tudo dentro desse prédio. Mas aconteceu o seguinte: eu verifiquei que, sem a ajuda, sem recursos de renda, nós não tínhamos meios para sobreviver. Então, o que eu fiz? Eu não levei para dentro. Deixei o espaço livre e passamos a alugar para festas, principalmente para festas de formaturas de estudantes de Direito, Medicina e tudo mais, que usavam o salão por um ou dois dias e nos pagavam. E com esse dinheiro nós podíamos fazer a manutenção, não só da área, a manutenção das peças e também a restauração de outras coisas. Isso nos foi proibido no dia em que o secretário disse que vai mudar-se para lá. Nós estamos, no momento, sem receita nenhuma, não sabendo como é que vai ficar lá. Eu acho uma pena, porque são empreendimentos, entidade sem fins lucrativos e tudo mais, que devia receber apoio, ajuda, como existe em toda parte, e o Estado de São Paulo é um Estado forte, poderoso, podendo nos ajudar, mas não temos tido ajuda nenhuma.

 

P/1 – Senhor Francisco, teve algo que o senhor queira colocar na entrevista que não foi perguntado? Alguma questão?

 

R – Não, eu acho que falamos um pouco sobre tudo. Se você tiver mais alguma coisa para me perguntar, pergunte.

 

P/1 – Se o senhor tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que o senhor mudaria?

 

R – Eu sugeriria, como já fiz, ao governo do Estado de São Paulo que não pretendesse estabelecer sede de uma secretaria importante num prédio inadequado, e que fizesse –porque eu vou ter que gastar dinheiro para transformar aquilo numa repartição pública – uma construção ao lado do terreno que lá está e que nos deixasse trabalhar, fazendo os nossos programas tal qual o governo faz na Estação da Luz ou a Estação da Sorocabana, transformando-as em salões adequados onde realizam eventos pagos para poder se manter, onde tem salões ao lado das salas de concerto alugados pelo próprio governo. Não há lugar no mundo, até as igrejas precisam se manter, se locar, fazer alguma renda daquilo que é moralmente possível. Nós estamos impedidos de fazer isso, isso é lamentável, vivendo sem saber o que vai acontecer daqui a um mês ou um ano.

 

P/1 - Senhor Francisco, o que o senhor achou de dar esse depoimento?

 

R – Não muito, fraco, pouca coisa de interessante.

 

P/1 – Eu agradeço pelo seu depoimento em nome do Museu da Pessoa. Muito obrigado.

 

R – Você acha que valeu a pena alguma coisa, o tempo que vocês perderam?

 

P/1 – Imagina, foi muito interessante, muito interessante. Obrigado, senhor Francisco.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+