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História

Atrás do balcão desde os nove anos

História de: Antônio Peres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Infância no interior de Minas Gerais. Pai era administrador de fazenda e, depois, proprietário de empório. Brincadeiras da infância e o trabalho no empório. Lembranças da escola. Produtos comercializados e formas de pagamento. Trabalho em bicicletaria. Migração para São Paulo e trabalho em loja de tecidos e, posteriormente, em empório. Produtos comercializados e distribuição. O comércio atacadista e varejista e a relação com os fornecedores. O início do trabalho no Supermercados Sirva-se. Dinâmica e funcionamento dos supermercados. Perfil do consumidor. Importância do surgimento das embalagens no desenvolvimento de auto-serviços. Crescimento dos supermercados e surgimento dos hipermercados. Sonhos. Importância do registro de seu depoimento.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Antônio Peres. Nasci em 28 de julho de 1930, em Campos Gerais, Minas Gerais. Meu pai era Aníbal Peres Memberg e minha mãe, Helena Ságio Peres. ATIVIDADE DOS PAIS Meu pai fez alguns trabalhos, conseguiu alguma coisinha. No início ele era administrador de fazenda. Depois, no final, era um comerciante. Ele foi pro comércio porque as terras que ele tinha foram desapropriadas por Furnas e ele teve que sair. Naquele tempo ele tinha uns 100 alqueires de terra perto de Furnas e com aquela construção, a escritura número um de Furnas, ele transformou o negócio dele, vendeu e comprou um comércio em Campo do Meio. Nesse comércio tinha a parte de alimentos, a parte de tecidos e também um pouco de ferragens, quer dizer era um misto, um negócio bastante grande para aquele momento. INFÂNCIA A gente morava numa cidade muito pequena, mas praquela época era bastante divertido. A gente tinha os amigos e logo que eu pude comprar uma bicicleta. Então, na cidade, ou a gente estava a cavalo, ou de bicicleta. E mais tarde, num Ford 29. Então a gente nunca andava a pé, o que é uma das coisas curiosas daquela época. Minha infância foi assim, uma infância normal, de um garoto que tinha um quintal muito grande em casa, chupava laranja no pé e tinha aqueles brinquedos bem simples, porque na época não existiam coisas muito avançadas. Então tínhamos o arco de barril, a bola... E coisas assim. Mas eu brinquei muito pouco porque eu tinha que trabalhar pra ajudar meu pai, que tinha 14 filhos. Então, eu fui um garoto que brincava algumas horas, mas tinha muita responsabilidade. E eu gostava disso, sentia um interesse, tinha curiosidade. E naquele tempo não se usava máquina de calcular, era tudo feito com papel ou de cabeça, bem diferente de hoje. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – TRABALHO E ESCOLA Meu primeiro trabalho foi com nove anos. Eu trabalhava no balcão, ajudava no que podia. Apesar de ser ainda pequeno e ter algumas dificuldades, eu ajudava, participava. Eu era um pouco adulto. Na loja também trabalhavam os meus tios e outros parentes. A escola era de manhã, depois eu vinha pra trabalhar. Eu não tinha um horário rígido na loja. Era um negócio quase espontâneo meu, mas eu gostava. E à noite eu fazia os meus exercícios pra aula do outro dia. Eu morava perto da minha avó, da minha tia, e elas e os parentes me ensinavam um pouco, até mais que a minha mãe, que não tinha muito tempo. O TRABALHO COM OS IRMÃOS Meu irmão mais velho gostava mais de lavoura, de mexer com gado. Na cidade onde nós morávamos, só não pertenciam à nossa família a igreja e o padre, porque não existia um padre na família (risos). O restante era tudo nosso: a agência dos correios era da minha tia, um não sei o quê era do meu primo... Aquela coisa que existia no passado e que, no final, acabou praticamente no zero. O pessoal antigo estava acostumado a trabalhar num esquema, mas depois as coisas se modernizaram e a gente chegou numa situação bem diferente. EDUCAÇÃO Eu me lembro muito bem da fisionomia de uma das minhas professoras. E tinha até uma outra, que era bem mais jovem, loira, bonita e chamava-se Lourdes Vilela. Eu era apenas um garoto e a minha professora era minha namorada (risos). Era uma coisa de criança e ela alimentava aquilo. Então, lembro que eu tive uma infecção renal, ou qualquer coisa assim, e ela passava na minha casa pra me ver, batia lá: "Como é que você vai, Toninho?" Meu apelido era Toninho. Não tenho muitas lembranças. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – CASA PERES Naquela época tinham alguns concorrentes, não eram muitos. Mas nós trabalhávamos de uma maneira mais dinâmica: o que aqui se chama liquidação, lá se chamava "queima", porque nós estávamos queimando o estoque. Então fazia-se uma faixa e a gente movimentava bastante a loja naquele período, principalmente se era tecido, o nosso forte naquela época. Nós tínhamos um crédito muito bom. Naquele tempo tinham os viajantes, que nos vendiam tecidos a um preço bom e nos davam bons prazos. E também não havia grande consumo, então quem tinha crédito tinha mais facilidade de desenvolver seu próprio negócio. CLIENTES Eu comecei garoto, mas fui crescendo e ganhando conhecimento com todos os clientes e eles tinham um respeito muito grande. Tinha aqueles senhores de mais idade que conversavam com a gente e contavam aquelas histórias e casos, o que é muito comum em Minas. A gente se relacionava muito bem e produzia sem problema nenhum. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – BICICLETARIA Eu trabalhei na Casa Peres até os meus 21 anos. Paralelamente eu também administrava uma bicicletaria. Era uma sociedade minha, particular, porque eu já tinha alguma economia. Eu comecei com três bicicletas. Não me lembro quanto era, se eram mil reais ou se eu ganhei uma bicicleta e transformei aquilo, só sei que fui fazendo e comprava peças em São Paulo, pelo correio. Por exemplo, um raio que custava um cruzeiro, eu vendia por dez, e assim acabei formando um pequeno capital. Depois acabei comprando uma motocicleta na Mesbla, na Rua do Passeio no Rio de Janeiro. Era uma motocicleta importada de 125 cilindradas. Mais tarde eu achei que aquela já era pequena, mas aí eu já estava mocinho, já estava pra ir embora. Os negócios até iam bem, mas dentro de uma proporção que ninguém sabia. As medidas daquele tempo não eram como hoje que você projeta e tal. Era um negócio muito misturado, com muito parente no meio e ficava muito confuso. Meus primos também estavam entrando no negócio e começando a fazer aquela confusão como em todas as famílias. DESEJO DE SAIR DA CIDADE E também, quando eu comprei a motocicleta, a pressão aumentou. Vinha o vizinho, o tio, o primo: "Olha, o fulano subiu a rua em tal velocidade, e não sei o que, e tava com não sei quem!”. Então começou a fechar muito o cerco, a minha vida, porque em cidade pequena todo mundo conhece a gente, sabe de tudo e aquele horizonte pra mim era muito curto. Então juntava a pressão da família e a falta de liberdade, eu queria mesmo procurar um outro canto. Mas naquele tempo não se podia sair de casa antes dos 21 anos. O meu pai até tinha um pouco de razão: ele dizia que se a gente deixar, a cidade pequena acaba levando a gente pro vício. Hoje é o tóxico, é a maconha, é a cocaína, mas naquele tempo era a bebida: eu perdi quatro primos que entraram na bebida e não saíram mais. A cidade não tinha uma vida muito agitada, era monótona. Pra assistir um cinema, por exemplo, tinha que andar mais de 36 quilômetros. Então, o que tinha pra fazer era beber, era jogar. A gente ficava muito limitado e podia caminhar nessa direção mesmo. MIGRAÇÃO PARA SÃO PAULO Então, quando eu completei 21 anos, no mesmo dia peguei o ônibus e vim pra São Paulo, onde estou até hoje. Os negócios lá ficaram com meu pai e meus irmãos. Eu vim de ônibus, por Poços da Caldas, que não é muito longe. Chegando aqui fui morar na Rua São Joaquim, 466, numa pensão onde meu primo morava. Naquele tempo havia muitas pensões em São Paulo, acho até que ainda existem, as chamadas vagas. Fiquei ali por algum tempo. ADAPTAÇÃO À CIDADE GRANDE Naquela época São Paulo só tinha uns 2.500 habitantes. Tinha bonde, ônibus e alguns carros. Mas eu senti uma diferença enorme. No começo me encantava cidade grande, mas também me dava medo aquele barulho, que me deixava um pouco assustado. O pior que hoje é milhões de vezes mais! Mas não era isso o que mais me maltratava. Em pouco tempo já estava adaptado. O que mais maltratava era a saudade da minha casa. Eu ficava lá pensando naqueles acontecimentos todos que tinham passado na minha vida... E isso durou mais ou menos uns três ou seis meses. É como a perda de alguém: você tem que curtir aquela perda. Então eu curti a minha perda e depois toquei a minha vida. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – LOJA DE TECIDOS Quando cheguei, primeiro eu procurei um amigo chamado Max Zuco, da Casa Mercúrio, na Alameda Glete, se não me engano. Eu já tinha tido negócio de peças com ele, que me dizia: "Quando você vier pra São Paulo, me procura!". Ele era judeu. Eu fui lá, ele conversou comigo de uma maneira, mas depois as coisas aconteceram de outra, então eu não quis prosseguir. Eu e meu primo começamos a procurar anúncios no Diário Popular, que era o jornal que tinha empregos, e foi através de um deles que começamos a trabalhar. A gente procurava o que pagasse na base de um salário mínimo, que naquela época era 1.200, não sei se cruzeiros ou reais. Então você pagava de pensão 800 ou 900 pra comer uma travessinha de arroz, feijão e um bife pequenininho. Mas era uma vida boa, quer dizer, a gente tinha a cabeça leve. O primeiro trabalho foi numa loja de tecidos, com um senhor libanês, o seu Salim Mussa, e seu filho, Benedito Mussa, que era solteiro. A loja ficava na Teodoro Sampaio, 2.748 ou 2.548, algo assim. Era próxima do Largo de Pinheiros. O velho já estava mais fora do negócio, então eu trabalhava com o filho, que era excelente como pessoa, mas muito ruim para pagar. Pagava muito mal e sempre com atraso (risos), e isso me atrapalhava. Pouco depois eu já estava morando em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, num apartamento que aluguei de uma senhora do Rio de Janeiro. Acabei alugando uma parte para outro colega e era assim que a gente vivia. Mas já tinha mais conforto, era outro ambiente. Eu continuava ganhando os 1200 já citados e dava pra viver, mas ali eu também sabia que eu não tinha futuro. Fiquei lá um ano e pouco. Mas ele foi uma pessoa muito boa pra mim. Eu tive um problema de apendicite aguda e ele me levou pro hospital, me internou, pagou a cirurgia. Tudo bem que depois eu repus pra ele os 6 mil devidos (naquele tempo eu tinha uma economia de uns 40 mil), mas mesmo assim, o cara não me conhecia, não sabia de nada, fazia pouco tempo que eu estava com ele e ainda assim me ajudou. Há poucos dias eu liguei pra lá pra ver se eu conversava com ele porque nunca mais nos encontramos e deu saudade, mas eu tive a triste informação de que ele tinha falecido de repente. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – CASAS CARVALHO Quando saí de lá fui trabalhar nas Casas Carvalho, também no ramo de tecidos. Mas aí já era uma firma mais dinâmica, uma loja nova que estava abrindo. Eu ajudei na montagem da loja e na preparação dos tecidos, que vinham em peças e a gente enrolava naqueles cartões, naqueles quadros, pra ficar tudo direitinho. Trabalhei ali uns três meses. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – CASA RIO PRETO Quando faltavam uns dois ou três dias pra inaugurar (e eu ia ser vendedor da loja porque entendia bastante de tecidos naquela época), apareceu o meu tio com um cunhado dele, que tinha comprado um empório no Cambuci chamado Casa Rio Preto. Ficava na Rua Lavapés, 1.128. Eu já conhecia ele e, quando me chamou pra trabalhar, eu disse: "Ah, tudo bem". Não foi tão difícil mudar do ramo de tecidos para o empório porque, lá em Minas, nós também tínhamos a parte de mercearia, de alimentos. Eu conhecia açúcar, café, arroz, feijão, óleo. A diferença era apenas o mercado, mais dinâmico, num bairro de classe média onde a clientela era muito conservadora. A minha função era tipo de gerente e eu resolvia praticamente tudo. Ele não conhecia nada de São Paulo, não conhecia nada de nada, tinha uma dificuldade muito grande. Isso porque ele já não era tão criança quando veio pra cá: tinha muitos filhos e não tocava a coisa assim com facilidade. Eu já estava mais treinado. O COMÉRCIO DA REGIÃO No bairro tinha uma mercearia, a farmácia, o açougue, a quitanda, que é a casa de frutas, e a feira. Então a dona de casa tinha cinco pontos de abastecimento ao redor da casa dela. Poucos possuíam carro então a pessoa se abastecia por ali, daquela forma. Tinha também as padarias, que na época vendiam pão, leite e café somente. Podia ser que uma ou outra vendesse lanches ou alguma coisa parecida, mas eram poucas. Hoje as padarias são pequenos supermercados, pequenos mercadinhos, tudo bem diferente. Era tudo muito limitado: quando precisava de um vinho português, ia no Depósito Circular, na Praça da Sé, ou no Agênzio, ou na Feira das Nações, que ficava ali pela Praça João Mendes, onde tinha várias lojas de mercearias finas, como chamavam na época. CONCORRÊNCIA Naquele tempo existiam três empórios grandes em São Paulo: o Empório Rossi, o Ao Barateiro e o nosso, Casa Rio Preto. O Empório Rossi, na Penha, era uma casa muito grande, muito forte, com uns 40 ou 50 vendedores, telefone para entrega em toda a São Paulo e ainda um preço muito bom. O segundo, Ao Barateiro, ficava na Rua Domingos de Moraes, Vila Mariana, e também era famoso por trabalhar no mesmo sistema. PRODUTOS Os produtos mais vendidos pelo bairro eram os de grande consumo, como arroz, feijão, sabão, óleo, farináceos, enfim, os produtos básicos e esse era um grande problema: o mix era muito pobre e não dava pra sustentar só com ele. Agora, não tinha aquela variedade que existe hoje, tinha o essencial pra se trabalhar. E também não tinha aquela variedade de marcas que existe hoje, tinha o essencial pra se trabalhar. FORNECEDORES Nossos fornecedores do empório eram: a Companhia União de Refinadores, que já existia naquele tempo; a Indústria Química Duas Âncoras, da cera Parquetina, que hoje é Atlantis; a Martini, que também já existia; a Fleischmann Royal, de quem comprávamos bem. Por sinal, acho que comprei gelatina pra uns 50 anos (risos), naquelas negociações de “se comprar cinco eu te dou mais cinco”. E como eu não tinha experiência, ia comprando. DIFICULDADES DO NEGÓCIO O nosso empório estava numa localização um pouco pior, além do que não tínhamos o mesmo fôlego que nossos concorrentes. Então sobrava uma fatia muito pequena do mercado porque eles entregavam com grande facilidade em qualquer parte da cidade. A gente então tinha que trabalhar dentro do nosso campo, tínhamos que sobreviver mais dos clientes do Cambuci. Então eu trabalhei muito ali. Nós tínhamos que fazer entrega em domicílio, atender telefone, trazer vasilhame, comprar, vender. Se a gente fazia um pequeno anúncio, uma oferta ou um folheto vendíamos bem e aumentávamos um pouquinho. Voltava alguma coisa, ou trocava, a venda caía. Ficamos naquela gangorra muito tempo e não sabíamos como sair daquilo, até que chegou num ponto em que começamos a pensar em vender. Porque trabalhava-se muito, o prédio era próprio, mas não tínhamos muito resultado e, para aquele momento, era um péssimo negócio. Além da localização ruim, tinha o fato de ser um bairro intermediário, muito próximo do Centro. E naquela época, São Paulo era dominada pelo comércio atacadista trabalhando com cereais, bebidas, conservas, etc. Então, o abastecimento dos comerciantes ou dos pequenos merceeiros eram nesses atacadistas, que era quem comandava. E essa era a posição daquela época: o atacado muito forte e o varejo muito fraco, muito pulverizado. Então podemos dizer que um dos problemas era o preço. Uma forma para se conseguir alguma coisa era comprar diretamente, só que nós não tínhamos fôlego pra comprar de uma companhia que exigia quantidade, então estávamos sempre em uma posição inferior. E o segundo problema era a proximidade com o centro da cidade, onde acontecia toda a vida de São Paulo. Existia a Feira das Nações, o Depósito Circular e mais uma outra organização, a Agênzio, se não me engano. Então, se você precisasse de um produto de melhor qualidade ou de uma maior variedade, recorria àquelas casas. E era muito simples ir do Centro para o bairro, pro Ipiranga, pro Cambuci. Eram uns dois minutos de bonde. Essa posição intermediária era muito difícil de enfrentar para que os clientes dessem um volume satisfatório. Diante desse quadro, resolvemos parar por aí. Fiquei lá três anos, de 1953 a 1956. Então, meu tio resolveu vender a mercearia e cada um tomou seu rumo: ele voltou pra Minas, foi cuidar de uma outra loja de calçados numa outra cidade, e eu me retirei do ramo e fiquei sem trabalho. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – SIRVA-SE Meu irmão tinha uma barbearia ali na Rua da Consolação em frente ao Sirva-se. Ele tinha como cliente um fabricante de balcões frigoríficos para supermercados e outros tipos de negócios. Esse senhor assessorava o pessoal do Sirva-se. E meu irmão conversou com ele: "Ah, meu irmão está aí precisando trabalhar, ele é do ramo de mercearia, será que o senhor não o encaminhava?" "Ô, pois não!". Ele era argentino. Marcou um dia comigo e lá fui eu, usando um terno marrom. Entrei no carro dele (ele tinha um Hudson naquela época, aqueles carros antigos) e fomos até a Gabriel Monteiro da Silva. Lá ele me apresentou e então sentei e preenchi uma ficha. Comecei a trabalhar naquele dia mesmo. Não lembro a data, mas sei que era no começo do ano de 1957. E foi assim que eu comecei a minha carreira em supermercados. Na época o Sirva-se era administrado peço Doutor Osvaldo Ribeiro Franco, que era médico. Ele era casado com uma senhora de origem hispânica e todo aquele pessoal de lá que queria trabalhar, vinha pro Sirva-se. Então era uma colônia espanhola, tanto que eu só fiquei lá porque eu tinha o sobrenome Peres, senão eu não teria entrado. Inicialmente eu era auxiliar de compras e fazia todo o trabalho de informação pro comprador: levantamento de estoques, preços e calculava tudo. Tinha a maquininha lá, aquela de rodar que ia pra frente e pra trás e eu achava aquilo ótimo. Trabalhando na parte de compras eu fui criando experiência com o sistema, que era completamente diferente de uma mercearia. Era muito mais rápido e tudo tinha que ser pensado com muita antecedência. Pensava-se ontem pra acontecer amanhã, não se podia deixar pra resolver no outro dia porque tudo era muito dinâmico, apesar de ser um negócio novo. DIFICULDADES DO NEGÓCIO Toda a parte que hoje é vendida em balcão frigorífico, nós vendíamos em lata: era sardinha em lata, pêssego, palmito, camarão seco salgado (não havia camarão congelado naquela época). Então comprávamos da empresa na época da safra e armazenávamos para vender o ano todo. A única exceção eram as carnes porque tinha os frigoríficos Wilson, Swift e Armour, os três mais fortes da época. Então, uma dificuldade que nós enfrentávamos naquele momento eram justamente essas embalagens de auto-serviço porque não se trabalhava mais com produtos no balcão: tudo era vendido em conservas, em latas. Também tínhamos problemas para fazer o fornecedor entender que precisávamos trabalhar com auto-serviço. Boa parte achava que supermercado era apenas uma substituição de mercearia. Em parte sim, mas a filosofia de supermercado era vender muito com pouco lucro. As pessoas também achavam que nós tínhamos um custo mais baixo porque não tínhamos balconista. Elas só não sabiam que nos bastidores tinha um trabalho enorme, principalmente numa época em que nem tudo vinha pronto. Tínhamos que embalar mercadoria de vários tipos. EMBALAGENS ADAPTADAS PARA O AUTO-SERVIÇO Na mercearia, por exemplo, tivemos que induzir os fabricantes a produzirem embalagens porque na época só existiam papel, celofane e cartão. Assim, a gente induzia o fornecedor de arroz a empacotar o arroz, por exemplo. Conseguimos embalagens de sacos de papel e por muito tempo foi assim. Aos poucos fomos mostrando para eles o nosso modo de trabalhar em auto-serviço. Fizemos isso com o arroz Brejeiro, depois o arroz Delta e o arroz Vitória. Depois do arroz, automaticamente vieram também as embalagens de feijão, ainda no papel. Para os farináceos não tinha muito problema porque já existia o celofane, então fazíamos os saquinhos com ele. E naquela época já existiam a Matarazzo e a Votorantim que produziam e vendiam esses pequenos pacotinhos de celofane já prontos. Depois foi a vez dos fabricantes de biscoitos, que até então só vendiam a granel ou em latas de dois ou quatro quilos. E finalmente chegamos aos chocolates, quando o Sirva-se da Gabriel Monteiro da Silva lançou a embalagem de quatro unidades do chocolate Diamante Negro, da Lacta (ainda não existia Nestlé). Tínhamos uma bomboniere que vendia uns 600 tabletes de chocolate por mês, mais ou menos. Fizemos a experiência em um fim de semana, colocando uma embalagem que consistia num cartão com quatro tabletes envolto em celofane e tinha um ferro que soldava atrás. Como resultado, vendemos em uma semana o que vendíamos em um mês. Então fomos mostrar pra Lacta e daí a pouco eles começaram a desenvolver a embalagem de auto-serviço. OS GRANDES NOMES DOS SUPERMERCADOS Quem entendia de supermercado nesse país eram Fernando Pacheco, Raul Borges e Ermínio Ferreira Neto. Nessa época o senhor Ermínio Ferreira Neto já tinha assumido a direção do Pão de Açúcar. Ele era um homem já de uma certa idade, mas quando a família Simonsen assumiu o Sirva-se, ele foi para os Estados Unidos e ficou lá uns dois anos pra ver como eram os supermercados. Ele hoje deve estar com uns 85 anos e foi um professor de supermercado nesse país. O senhor Fernando Pacheco e o senhor Raul Borges, que era do Peg-Pag, montaram o Sirva-se da Consolação. A diretoria do Sirva-se tinha primeiramente esse doutor Osvaldo Ribeiro Franco, que não era do ramo, e depois trouxe o senhor Ermínio Ferreira Neto. EMBALAGENS ADAPTADAS PARA O AUTO-SERVIÇO Quando ele assumiu vendia-se um pouquinho de cada mercadoria nos supermercados. Então, primeiro fomos desenvolver essa parte de auto-serviço, mas eu segui uma orientação do seu Ermínio de que isso não era na minha função. O gerente de lojas seguia a orientação dele, que ensinava por seções. Primeiro, a mercearia. Nós temos que complementar a mercearia com tudo aquilo que for possível para que o freguês chegue e leve o produto pré-embalado. Em segundo, vinha a seção de carnes, que naquela época chamávamos de “seção dois”. Então era embalar a melhor carne possível, selecionada, limpa e conservada no balcão refrigerado. Naquele tempo já existia uma boa refrigeração, era só cuidar. E eu acompanhava. Muitos funcionários foram embora porque não seguiam a orientação de ter a qualidade ou de não ter o produto em auto-serviço. Na seção dois nós tínhamos, por exemplo, um Bife Paris, que você podia comprar e levar pra casa, o que era uma coisa excepcional, e outros tipos de carnes preparadas também. Tínhamos uma grande variedade de carnes. Na seção três, tínhamos as frutas e verduras, onde não dava pra fazer muito o auto-serviço. Mas laranja, por exemplo, a gente já começava a empacotar. Naquele tempo ainda era difícil encontrar o plástico, tinha que importar matéria-prima. Então aos poucos nós íamos treinando os funcionários pra embalar. Também tinha o trabalho de limpar e arrumar as verduras e protegê-las com celofane. Por exemplo, quando você ia pegar uma alface, você não tocava nela: tinha um invólucro que a gente envolvia na alface, punha um durex pra colar e a cliente pegava a alface (lavada, limpa) sem colocar a mão nela. DIFERENCIAIS Serviço e qualidade era o que tínhamos de diferente. Nós não vendíamos muito barato no Sirva-se, mas vendíamos qualidade. A clientela que ia no supermercado naquele tempo era, na maioria, quem tinha carro, gente de maior poder aquisitivo, que pra encontrar variedade tinha que se locomover pela cidade. EMBALAGENS ADAPTADAS PARA O AUTO-SERVIÇO Então começamos a desenvolver a seção quatro, de frios e laticínios. Na parte de frios existia o frigorífico Santo Amaro ou Frigo Eder. A Sadia praticamente já existia, mas estava muito distante do mercado – estava mais no atacado do que no varejo. O Frigo Eder, mesmo não sendo ainda um frigorífico dos maiores, tinha muita qualidade. E mais uma vez nós fomos mostrando a eles o caminho a seguir. Mas eles não mudaram. Alemão tem a cabeça dura, acha que o produto dele é bom, que tem que ser vendido a granel e isso não mudava. Já os frigoríficos Wilson e Swift, entre outros, percebendo que o mercado estava crescendo, começaram a desenvolver as embalagens. A primeira a surgir foi a Cryovac, o que já era meio caminho pra nós. Ela trazia facilidade na conservação, era mais protegida e já não tinha aquele trabalho todo de estar pondo na caixinha ou de estar envolvendo antes de vender para o cliente. Então continuávamos vendendo o Santo Amaro, mas era pouca coisa. Grande parte era mesmo em auto-serviço: já se podia vender 400 gramas de salsicha ou 200 gramas de outro tipo de mercadoria. Ficava mais difícil quando chegava no patê, que era uma coisa pequena e teria que ser embrulhada ou envolta num celofane. Na parte de laticínios, naquele tempo existia o caminhão de leite que trazia tudo em vidro. Leite, creme de leite ou iogurte: tudo era em vidro. Então tinha que vender e receber o vasilhame. Mas mesmo enfrentando tud isso, enquanto a padaria vendia dez litros de leite nós vendíamos 100, 200, 500 litros. O supermercado tem uma força de vendas que ninguém acredita. Isso porque há venda por impulso: você vai no supermercado, vê muitas coisas que não estavam na sua memória e acaba levando. E isso a gente explorava mesmo. MODELO DE NEGÓCIO DO SUPERMERCADO Mas não fazíamos o que deveríamos fazer. Por exemplo, ao invés de vender 20 litros com lucro de 50 centavos, nós vendíamos apenas 10 com lucro de 1, de 10 ou de 50 centavos. Vendíamos com lucro de um real. E o supermercado está muito errado em trabalhar nesse sistema. O certo é você vender quantidade, o dobro da quantidade que você tem condições de vender. Por exemplo, você vai vender 10, então vender 20 com a metade do lucro é mais importante do que você vender só dez e se acomodar. Se amanhã alguém vende um pouquinho menos, com uma pequena diferença, você acaba perdendo cliente. A grande força do supermercado deveria ser isso: vender muito com pouca margem. Agora nós, além disso, vendíamos com qualidade e dávamos segurança ao cliente de que ele estava comprando essa qualidade. Qualquer mercadoria que ele estivesse levando em auto-serviço tinha a nossa exigência de qualidade. Por exemplo, mesmo quando comprávamos a segunda marca (que não era líder), essa tinha que ter produtos de boa qualidade. É o caso de Cica, Etti, Olé, Arisco. Eram produtos que nós sabíamos da qualidade que possuíam, mas que tinham preços inferiores. E tínhamos que dar opções de variedade e de preços aos clientes. Então, nessa fase o nosso grande trabalho era, primeiro, embalar. E segundo, comprar quantidade, conseguir desenvolver uma política de compra com melhor volume, mesmo não atingindo o máximo com o melhor preço. Então os supermercados vieram para tirar a intermediação. E acho que se isso não existisse até hoje (apesar de alguns supermercados aplicarem uma margem exagerada), o preço seria muito mais alto. O problema é que muitos acabaram transferindo para o seu bolso uma pequena diferença, quando quem deveria ser realmente beneficiado com isso seria o consumidor final. E chegamos finalmente à seção cinco: o bazar. Meu professor Ermínio Ferreira Neto chegava pra mim, muito calmo: "Peres, agora nós precisamos desenvolver uma linha de louças assim e assim” ou “Peres, agora eu preciso desenvolver uma linha..". A cada momento ele dizia uma coisa: "Uma linha de plástico tal e isto e aquilo.”, “Agora uma linha de produtos de limpeza...". O comprador que estava na firma saiu. Como espanhol, não se ajustou bem com o seu Ermínio e eu fiquei como substituto lá, temporariamente. Ele ia trazer um cara do Rio de Janeiro. Aí, um amigo meu, Ernesto Fransquine, que ainda hoje está no ramo de supermercados e, na época, era gerente da loja, disse: “Ah, por que você não deixa o Peres lá? Parece que ele está tocando bem." E eu fui ficando e desenvolvendo de acordo com o que deveria ser, e não como ele queria. E o negócio cresceu e foi muito bem. OS PRIMÓRDIOS DOS HIPERMERCADOS Então os supermercados começaram a ter uma participação maior de produtos não-alimentícios. Já era possível comprar uma panela, uma frigideira, o pano de chão, o pano de louça, a vassoura. E aí vieram os palitos, os copos de plástico e, à medida em que a indústria foi desenvolvendo produtos, sentia-se a necessidade de vender onde tivesse ligado, principalmente, ao consumo doméstico. E esse lugar era o supermercado. Foi em supermercados que os pães de centeio tiveram grande sucesso, ou que os salgadinhos encontraram guarita pra vender seus produtos. Os Kellogg's da vida, por exemplo, você só conseguiria comprar indo na Praça da Sé, na Feira das Nações. E os supermercados abriram esse mercado, dando oportunidade para novos lançamentos e novos produtos que de maneira nenhuma chegariam tão fácil para o consumidor. O supermercado abriu as portas pra levar o produto na mão do consumidor. E essa foi uma das suas grandes forças. Primeiro, porque tinha tudo num só local pra você comprar. A dona de casa era levada a onde ela podia comprar praticamente tudo que ela precisasse, com possibilidade de escolha. Segundo, se ela tivesse o desejo de comer um biscoito amanteigado mais refinado, não precisava ir muito longe, ela encontrava no supermercado. Tinha supermercados de poder aquisitivo mais alto com uma grande linha de variedades. A nossa ia de 1 a 13 por tipo de produto. Então, mesmo que se abrisse uma loja no centro de Guarulhos, eu nunca ia deixar de ter um produto de qualidade porque lá também tem gente com dinheiro pra comprar produto importado, mesmo que não seja muitos, como é no Jardim Paulista. VITRINE PARA NOVOS PRODUTOS O supermercado deu muita força para produtos novos. Por exemplo, o óleo de milho. O consumidor achava um absurdo consumir óleo de milho. Então o supermercado colocou na prateleira e começou a vender. Era passar por lá e ver: "Puxa, óleo de milho, nunca ouvi falar.". Tenho a impressão de que se fosse na prateleira de uma mercearia, ele ficaria escondido lá e nunca iam descobri-lo. E é diferente quando você pega o produto na mão, lê quais sãos os outros componentes do óleo e verifica então que vale a pena experimentar. Como acontece hoje com o óleo de girassol. EXPANSÃO DAS LOJAS Em 1965 o Sirva-se foi vendido para o Pão de Açúcar e eu me transferi para lá. Naquele tempo a minha organização era do Canal 9, do Banco Noroeste e da Companhia Paulista de Café, que era da família Simonsen. Era um grupo muito forte. Na época o nosso amigo Herbert Levi fez uma denúncia política contra o Mário Simonsen, sobre o envio de uma exportação de café que ele fez. Ele tinha filiais em todo o mundo e esta seria uma grande exportação de café, mas a denúncia acabou com a empresa. E ele embarcou em Santos, não sei se com 300 mil ou 3 milhões de sacas, mas ali foi o fim da carreira dele. Então o Pão de Açúcar comprou as duas lojas, incorporando-as às outras cinco lojas que eles possuíam naquele momento. E esse foi o grande impulso. Naquela época chamavam essas duas lojas de dois bancos, porque qualquer um sabia que tratava-se de lojas grandes e muito lucrativas, devido principalmente à localização e por serem as primeiras e mais bem organizadas. Quando o Pão de Açúcar assumiu, havia a projeção da loja sete, no Pacaembu, que eles também resolveram tocar. E tiveram um desenvolvimento fabuloso, abrindo lojas do dia pra noite. Em 30 dias abria-se uma loja nova ou comprava-se outras, fazíamos o inventário naquela mesma noite e no outro dia já abríamos com um novo letreiro. Nessa época trabalhávamos muito. Eu trabalhava domingo, fim de semana, fazia o inventário em Ribeirão Preto, em São José dos Campos... E a firma foi crescendo. E o Pão de Açúcar sempre gostou de inovar. SURGIMENTO DOS HIPERMERCADOS Então surgiram os hipermercados, na Argentina. No começo teve grande sucesso: tinha Canguro, na Argentina, e um outro que eu não me recordo agora. Eram lojas de 12.000 metros, até exageraram um pouco, como também exagerou por aqui o Paes Mendonça. O hipermercado é pra ser grande, mas não pode ter 30.000 metros. É um absurdo! Uma dona de casa precisaria de patins (risos). Nos Estados Unidos a ideia de hipermercado não era bem aceita. Os franceses não tinham vindo para o Brasil, mas já haviam feito pesquisas sobre hipermercados, principalmente na Argentina, que estava sendo sucesso naquele momento. Mas se não me engano hoje todos fecharam por lá e só permanece o Carrefour, que tem um método muito avançado. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL - JUMBO O Brasil, nessa época, estava indo de vento em popa. Era mais ou menos 1974. Politicamente o país parece que ia bem. Tudo o que se produzia vendia e tudo que se abria era sucesso. Foi aí que abrimos o primeiro hipermercado em Santo André, o Jumbo. Era uma grande loja e foi uma coisa fora do comum: além da mercearia, incorporava também o não-alimentício, com uma participação de 40% (no supermercado o bazar representava apenas 7%). Eram geladeiras, televisores, barco, acessórios pra carro, etc.. Inclusive tinha loja de carro, autopeças e aquele negócio todo. Foi um sucesso fantástico. ESTÍMULOS DO GOVERNO Me lembro que foi o Delfim quem fez a inauguração daquela loja. E o pensamento dele naquele tempo era diminuir e fazer fusão de empresas. Ele achava que tínhamos que ter grandes empresas, fazer fusões, formar grandes grupos. E as firmas pequenas seriam como é na França, na Europa: o dono, o marido, a mulher, o filho. Uma empresa familiar. Paris tem até hoje mercearias pequenas que existem há uns 500 anos. Ninguém ficou rico, ninguém ficou pobre. Só que lá está tudo delimitado. Você até pode abrir uma aqui e outra lá e não tem mais. Já aqui no Brasil abre-se uma perto da outra não tem isso, sem delimitação de medidas, pode ser próximo ou não: cada um faz o que bem entende e esse é um grande erro. Em compensação, Delfim estimulava muito o grande comércio e naquele tempo o governo era um pai rico que dava dinheiro, que emprestava e a quem você podia recorrer se tinha problema com a sua empresa. Ele te dava o dinheiro para você não mandar ninguém pra rua, por exemplo, e isto perdurou por muitos anos. Mas agora esse tipo de coisa já não acontece mais. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL - JUMBO O Jumbo foi um grande sucesso, uma grande inovação. Aos poucos fomos expandindo, com mais ou menos uma loja dessas em cada estado. O único erro é que ele começou a abrir mais de uma loja em cada estado e adaptou mais de uma loja para hipermercado. Então não podia ter, por exemplo em Brasília, três lojas e três Jumbos: podia-se ter um Jumbo e duas lojas convencionais. Agora, se o Jumbo era melhor, tinha que abrir mais um com a mesma dimensão e o mesmo sistema, porque cada mercado é diferente um do outro. Se você verificar hoje o que tem em Brasília, com exceção do Carrefour, de um Jumbo Extra e do Pão de Açúcar, todos aqueles prédios construídos eram pequenos, com três ou quatro andares. Então você operar um supermercado de quatro andares é uma coisa do outro mundo. Era muito difícil, era tudo verticalizado, uma construção que a gente não entendia porque era feita daquele modo. Também fizeram um shopping center lá verticalizado, difícil de trabalhar, tudo apertado. E isso com tanto espaço! Então houve alguns erros que naturalmente se refletiram agora no final. Foram criadas dificuldades, entrou um concorrente mais com uma loja ampla, com um grande estacionamento, com tudo dentro das medidas e dentro daquilo que deve ser. A empresa vai crescendo muito e acaba perdendo um pouco também da eficiência. CONCORRÊNCIA - CARREFOUR Outro dia fui no Carrefour e esperei abrir a loja, que é uma loja muito limpa e que tem uma disciplina muito parecida com a do Sirva-se. A loja abriu às 9 horas e estava todo mundo a postos, de roupa limpa, avental branco. Deu o sinal e todo mundo ocupou os seus lugares. Eu fiquei arrepiado porque há muitos anos na minha vida eu não tinha visto isso. No Sirva-se nós tínhamos isso, mas eram duas lojas comandadas de cima, do escritório. Era fácil, tinha aquela lateral onde a gente ficava e dava pra ver tudo o que se passava lá em baixo: não podia faltar carrinho, não podia isso, não podia aquilo. E não só eu, mas também o administrativo da loja, acompanhávamos. Agora ali no Carrefour eu vi o que é organização. Em compensação, eles pecam numa coisa: qualidade. Hoje a carne está muito boa, alguns outros produtos também, mas eles trabalham com fornecedores que eu jamais trabalharia na minha vida e jamais colocaria o meu logotipo naquele produto, principalmente marca própria. Não estou falando mal do Carrefour, mas acho que alguns hipermercados vendem produtos de um frigorífico que não tem responsabilidade. Uma coisa sou eu trabalhar com Sadia, outra coisa é trabalhar com um frigorífico desconhecido. Não dá pra fazer isso, principalmente com produtos perecíveis. Mas é uma loja muito bem administrada e muito dinâmica. Eles mudam a coisa assim rapidamente: é preto, é preto; é branco, é branco. Não tem meio termo, não tem depois. Tenho certeza que isso era melhor tempos atrás. Hoje está ficando difícil, houve muita troca de pessoal, muita gente saiu e foi para outras organizações, e vice-versa. E treinar pessoal pra isso não é fácil, principalmente em seção de perecíveis. Ontem mesmo eu visitei um hipermercado que eu achei que tivesse melhorado e quando eu fui ver no detalhe, não era aquilo que eu pensava. Estava com uma aparência muito boa, mas nos detalhes, principalmente na parte perecível... Isso aí é um problema do gerente, eu tenho certeza que a administração não admite esse tipo de coisa. Assim como nem Pão de Açúcar, nem Eldorado vão querer que aconteça alguma coisa desse tipo. O problema é que o material humano é muito fraco. QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL Eu fui várias vezes pros Estados Unidos, quase todo ano para o “SMI – Supermarket Institute”. A gente aprendia muita coisa na operação de loja, na qualidade e uma coisa que não me esqueci até hoje falava de pessoal, que a pessoa pra trabalhar em supermercado tem que ser agressiva, tem que ser uma pessoa com muita disposição, porque não é brincadeira! Então, se a pessoa tem essa característica, ela vai muito bem. Mas têm gente que não tem o dom pra trabalhar em supermercado porque lá é tudo muito rápido, precisa de muita atenção, não pode dormir, não pode ficar conversando, tem que trabalhar. E se trabalhar, vai muito bem. SONHOS E OBJETIVOS Eu gosto muito de supermercado e o meu sonho era voltar novamente a trabalhar em um, em qualquer tipo de administração: venda, compras, operações ou o que for, exceto a parte financeira, que está fora dos meus planos. Se isso não acontecer, eu vou ter que ir tocando a minha vida como está hoje, quer dizer, com a minha representação que está dando pra eu empurrar o meu tempo. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu tinha um nó na garganta, sinto que precisava mesmo falar sobre tudo isso e agora eu realmente consegui. Muitas dessas lembranças guardadas eu já nem me lembrava mais. Estou muito satisfeito.

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