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História

Ator: coisa de outro mundo

História de: Rodolfo Corrêa Amorim
Autor: Grupo XIX de Teatro
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

A fantasia sempre presente na infância foi o fermento para sua formação como ator: as histórias contadas pela mãe e a companhia de um primo criativo levaram Rodolfo a fazer um curso de teatro no Sesi de Sorocaba. Ingressa num curso de processamento de dados numa escola técnica e logo percebe que não deveria dar continuidade. Na época, já produzindo peças, resolve se dedicar inteiramente ao teatro. Aos 19 anos, torna-se pai e é aprovado no curso de Escola de Arte Dramática, na USP. Os finais de semana em Sorocaba seriam de dedicação ao filho, a quem se ausentava durante a semana para estudar em São Paulo. É convidado para participar do Grupo XIX de Teatro, onde logo de início se surpreende com a metodologia do grupo.

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História completa

Na minha infância, todos os primos brincavam juntos na rua. A gente criava cenário, contava história. Tinha um primo que era da mesma vibe que a minha: brincar de guerra não era só “entrar e atirar”, não! Os outros primos ficavam de saco cheio porque a gente ficava dando a sinopse e a história de cada personagem, desde subir no helicóptero, que era o limoeiro, até descer no Vietnã. As galinhas eram os vietnamitas. Sempre tinha uma missão, só que o combinado era maior do que a missão. Eu acho que isso tem uma ligação com o teatro. Minha mãe foi a responsável pela fantasia na minha vida: ela sempre criava atmosferas fantasiosas, como o pezinho do coelho da páscoa, contar história, ler livros. Sinto muito orgulho dela.

 

Depois de um curso de teatro no Sesi, fiz uma esquete. Ensinei a peça, que era do Sherlock Holmes, a todos os meus primos. Foi a primeira vez que eu pensei em ser ator! Eu usava os casacos da minha mãe para parecer o Sherlock. Na história tinha um assassinato e um cachorro que farejava o crime. Apresentamos a peça durante a festa de aniversário de um tio, que gostou muito! Ele falou: “Nossa, você devia seguir carreira”. Eu nem sabia o que era carreira.

 

Comecei a fazer um curso com a Mônica Grano, uma professora formada na Unicamp que montou um grupo em Sorocaba. Ela falava: “Se alguém aqui for seguir a profissão...” Eu pensava: “Ninguém aqui vai seguir, ninguém aqui é ator”. Eu achava que pra ser ator tinha que ser uma coisa do outro mundo. “Aqui, não, nessa sala, imagina! Essas pessoas aqui vão ser atores? Não vão ser atores”.

 

Minha vó ajudava minha mãe a pagar o curso. Quando ela foi assistir nossa apresentação, a peça Filme triste, do Vladimir Capell, falou que se eu fosse igual aos outros atores, não ia mais bancar o curso! No final, todo mundo veio falar comigo. Meu irmão: “Eu sou irmão do Gaspar”, que era meu personagem de óculos, bem caricato. Só que aí meu irmão falou tão orgulhoso que eu fiquei tão cheio! Eu falei: “Ah, meu irmão gostou do que eu estou fazendo!”

 

No colegial, entrei numa escola técnica para estudar Processamento de Dados na turma da noite, a mais disputada. Minha mãe ficou toda orgulhosa. Eu ia ser técnico em processamento de dados! Mas aí percebi que meu universo não era esse. Na época, eu estava fazendo cinco peças amadoras! Pensei: “Vou parar a escola e ano que vem eu volto”. Tinha uma professora de teatro muito libertária. Eu falei: “O que você acha, Nanaia? Vou deixar a escola!” Ela: “Ah, no frigir dos ovos, um ano na sua vida não vai fazer diferença!” Nem imaginava que, anos mais tarde, meu filho, com a mesma idade, também ia repetir de ano e eu quase morri com isso!

 

Eu passava o dia na Fábrica de Atores, essa escola da Nanaia. Tinha o curso de História da Arte, umas coisas muito legais pro lugar que era Sorocaba na época. Decidi sair da escola: “Nanaia, eu vou sair”. Ela entendeu que não teria condições para continuar pagando. Ela falou: “Você quer continuar e trabalhar na escola?”, vi, ali, uma oportunidade. Continuei a frequentar os cursos e fazendo os trabalhos paralelos, como panfletar em restaurante, bar.

 

Um lugar onde eu me aprofundei mesmo foi no Espaço Cultural dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região. Tinha o Mantovani, Carlos Roberto Mantovani, já falecido. Ele era um gênio, um negro operário que fazia balé. Ele criou um festival na cidade que chamava Curta Teatro. É um tipo de figura que é o alimento de uma cidade. As pessoas de Sorocaba só foram entrar em contato com a dança e o teatro porque ele criou esse festival. Ele tinha um treinamento corporal, de voz. Foi quando eu me senti do teatro de grupo e do teatro experimental, de fazer coisas malucas.

 

Com o Mantovani, passei a pensar no que eu estava fazendo. Foi a primeira vez que eu pensei se realmente eu precisava ser ator e pensar no que dizer, no que trocar, no que propor. A reflexão que vem a partir daí. Foi uma mistura de um encontro com o teatro e um encontro comigo também.

 

Paralelo a esse do Mantovani, tinha o grupo do Mário, que era Companhia Clássica de Repertório. Enquanto o Mantovani criava coisas muito interessantes, mas muito fechadas, o Mário fazia umas peças pra vender, pra ganhar dinheiro e que eram muito práticas. Ele tinha uma gana de viajar e apresentar que era uma experiência muito legal. Então a gente entrava numa besta com todo o cenário e saía de Sorocaba às cinco da manhã, chegava no lugar, montava, apresentava de manhã, à tarde e à noite, voltava de madrugada, ganhava um dinheirinho que na época achava muito. Só que pra fazer isso eu tinha que faltar da escola. Aí eu já não tinha mais dúvida, eu sabia que ia ser ator. Fui ficando ali e abandonei a escola técnica.

 

Era teatro o dia inteiro. Teatro, teatro, teatro. Não bebia, só saía com o pessoal do teatro. O meu apelido era Guaraná Bacana porque o pessoal do teatro bebia e eu ainda não! Até hoje, todo mundo que eu me relaciono é do teatro! A minha primeira namorada foi a Mariana. A gente fazia teatro juntos, ela foi fazer Psicologia na PUC-SP, mas voltou pra Sorocaba pra fazer um curso. A gente começou a namorar e depois de dois anos tivemos um filho. Eu tinha 19 anos quando ela engravidou. Ela tinha 21, os dois bem jovens.

 

Com a gravidez, sabia que precisava ganhar dinheiro! Como eu ainda não tinha feito faculdade, comecei a pensar em ter um carrinho de cachorro quente ou então trabalhar na Via Oeste. Começaram a aparecer umas coisas. É uma emergência, né? Mas acabei indo para um grupo de dança, um grupo muito legal que chegamos a ganhar prêmio Mapa Cultural Paulista e o Prêmio Nacional de Dança. Só que eu queria fazer teatro e, nesse meio tempo, o Frederico nasceu.

 

Acabei entrando na Escola de Arte Dramática, da USP, e o grupo de dança foi contratado pela prefeitura de Votorantim. A gente ia ter um salário bom e uma sede. Eu tinha que escolher: ou ir com o grupo ou ir pra São Paulo, sem nada, pra fazer a Escola. Fiquei nessa indecisão! Ou fico aqui perto do meu filho com trabalho ou vou estudar teatro. Fui estudar teatro.

 

Eu gastava 50 reais por semana. Um amigo em Sorocaba tinha um grupo que fazia peça pra empresas, pra indústria, pra ensinar funcionário a não se cortar, a não ter acidentes, usar o capacete. Comecei a fazer peças com essa temática, então eu ia pra Sorocaba, ganhava 50 reais, voltava pra São Paulo e tinha dinheiro pra mais uma semana. Minha mãe decidiu fazer uma troca: “Eu não pago nada pra você em São Paulo pra pagar a pensão do Frederico”. Todo final de semana eu ia pra Sorocaba e ficava com ele. Ou ele ia lá pra casa. Era uma coisa meio maluca porque eu era muito novo e não tinha uma referência de paternidade. Então a gente inventava uma relação ali juntos.  Por ter que ir pra Sorocaba ver o Frederico, criei um grupo de teatro lá.

 

A ideia era ter um grupo pra entregar pro Mantovani que, nessa época, foi despedido. Ele estava sem trabalho e produzia peça com 600 reais! A gente fez um projeto, ganhamos 32 mil, na época uma fortuna, pra fazer Romeu e Julieta. Só que ele morreu no meio desse processo. E aí o grupo virou Grupo Manto e o grupo ganhou uma proporção muito grande em Sorocaba porque fazia uma pesquisa com circo-teatro.

 

Fizemos uma pesquisa com todas as famílias de circo que moravam na região e montamos uma peça sobre o circo-teatro, usando o clássico E o céu uniu dois corações. Os veteranos que, a princípio, a gente achou que só iria filmar pra pegar depoimentos, entraram na peça. Tinha o palhaço Fedegoso, que é pai do palhaço Cochicho, que hoje é um palhaço bem famoso. O Fedegoso é um palhaço muito legal, típico brasileiro que toca violão, faz piada obscena, fala muito. A peça toda era lembrança dele. E também da Guaraciaba, uma senhora cujo pai, o palhaço Pirulito de São Paulo, do Jaçanã, colocou esse nome no circo em homenagem a ela. Foi uma loucura, tinha uma fila gigante, vinha ambulância, vinha polícia pra tomar conta. A gente mexeu numa coisa que a gente não tinha consciência do que era. Então o grupo cresceu muito.

 

Nessa época, eu já conhecia o XIX. Eu tinha assistido Hysteria e tinha gostado muito!  Eles iam começar o Hygiene e convidaram três atores. Depois me chamaram: eu fui o último, com a portinha fechando. Lembro que a gente teve uma reunião na casa do Lubi. Nessa reunião, eles falaram como eles gostariam de funcionar. E isso foi o que mais me pegou, que era a autoria coletiva: “Todo mundo vai ganhar igual”. Acho que isso é fruto de um pensamento de um teatro que foi se construindo um pouco antes da gente com o Latão, o Folias, o Vertigem.

 

Pra apresentar Hysteria, eles visitaram muitas casas, então o projeto chama Residência, que era tanto a residência do grupo quanto pensar a casa. E nesse pensar a casa, chegou-se nos cortiços e nessa vila que é um modelo. A gente achava bucólico e bonito e hoje olha com uma certa ternura para esse passado, mas se você olhar friamente é uma imposição muito violenta. A Vila Maria Zélia e qualquer outra vila operária é uma violência.

 

O XIX tinha autorização pra fazer uma apresentação de Hysteria, mas no espaço tinha muito lixo! Alguns moradores, junto ao grupo que fazia Hysteria, limparam o espaço, uma limpada por cima para apresentar uma vez só! Mas ficamos com esse documento de autorização: entramos e não saímos mais! Pra todo mundo que vinha falar alguma coisa, a gente mostrava o papel. Foram passando os anos e fomos nos legitimando pela ocupação.

 

O público não sai das nossas peças como sai de uma peça normal. Não só das nossas, mas todas essas que têm esse caráter de ser diferente, de existir um encontro. Eu lembro que, no começo, há muito tempo, as pessoas perguntavam para o Lubi, no final da peça: “Como eu passo por isso de novo? Eu quero isso!” A gente divide uma inquietação. O público que participa não é só um mero fetiche nosso, ele se engaja, às vezes ele constrói junto, ele altera. E isso está no nosso desejo de encontro com essas pessoas. A gente não tem nada a ensinar. A gente quer realmente encontrar, quer que a pessoa saia pensando e pense junto com a gente! E quando a pessoa se vê nesse lugar, é tocada também no sensível.

 

Me sinto privilegiado por essa possibilidade de viver dentro desse mundo, nesse contexto de uma experiência tão sutil. É muito intenso! A gente está sempre mudando, mudando, mudando, é tão legal ver os seres humanos se transformando! Acho que isso aqui foi sempre feito e acompanhado de uma forma tão generosa, às vezes violenta e má, mas com a intenção nobre, se é que posso dizer isso. Mas desde aquela reunião do XIX na casa do Lubi, sinto essa integridade, de que existe um interesse no nosso desenvolvimento. Não sei se eu fosse ser um técnico de processamento de dados eu teria isso. Então é uma sorte muito grande, eu agradeço muito aos meus companheiros do XIX.

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