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Atleta depois dos 40

História de: Vanda Alves Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/06/2014

Sinopse

Vanda Alves Rocha nasceu em 03/11/1953 em Fortaleza (CE). Prestou concurso para os correios com 20 anos de idade. Hoje é agente postal e atleta. Ganhou mais de dez corridas com atleta, maratonista dos correios e foi a primeira mulher dos correios a ganhar a prova dos 10km.

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História completa

Meu pai foi preso político. Preso político porque ele não sei se foi os federal que madrugada carregaram ele, levaram ele, uns homens de preto, tudinho, por que ele não sei, porque ele era carpinteiro, ele falava com todo mundo. Aí tinha um líder sindical lá da Refesa, pediu pra ele fazer uns jazigos, umas coisas de madeira, aí ele teve que acertar, conversar com ele. Aí entregaram ele dizendo que ele estava conversando, era subversivo, estava conversando com um subversivo, naquela época da Revolução de 64. Aí foi preso, aí pra não passar fome, sabe como é casa de pobre? Não falta galinha no quintal, não falta farinha, carne de sol, carne pendurada. Aí a gente se virou com isso porque nem as mercearia, ninguém, papai era considerado como subversivo, ninguém ajudava. Os vizinhos, a gente era muito discriminado. Aí foi que minha mãe salvou a gente com cuscuz, milho, pisava o milho e fazia fubá. Mãe, tudo ela fazia coisa assim, que ela aprendeu mesmo no sertão. A gente não passou fome por causa dessa vivacidade da minha mãe.

  Meu pai ficou preso pouco tempo, e eu não fui atrás desse negócio. Papai é anistiado, né? Porque o papai, mesmo que o papai era vivo, dizia assim: “Não vai atrás”. Papai sofreu tanto, sofreu tortura, que ele disse que eu não fosse atrás. Ele não queria se lembrar, não queria, “Não, não vai atrás”,  e viu, tem até uma carta, você encontra uma carta, ele escrevendo pra ela pra procurar, se a gente passar fome, um determinado lugar, uma mercearia, pra gente pegar uns mantimentos, sabe? Mas aí eu não acho essa carta. Ele dizendo que estava preso, não sei o que. Ele foi preso assim, rapidamente, a gente não sabia nem por que ele foi preso. Foi preso inocentemente, torturaram inocentemente.

  Eu sempre gostei de correr, ser uma atleta, viajar pelo mundo afora mostrando o que eu sei. Porque sempre no colégio eu participava de atletismo. Mas meu pai nunca deixava eu viajar, papai tinha medo. Eu participava, ganhava, mas ficava por ali mesmo, eu corria só nos colégios mesmo. Depois dos 40 anos, meus filhos já estavam crescidos mesmo, aí eu comecei a participar das corridas aqui dos Correios. Aí sempre tirava, passei mais de oito anos ganhando e tirando o primeiro lugar aqui nos Correios. Eu fui a primeira mulher a correr os dez quilômetros aqui dos Correios. Porque as mulheres aqui que ganhavam, elas não se interessavam em correr dez quilômetros, nem viajar pra Brasília. Aí eu disse assim: “Peraí, mulher aqui que corria só cinco quilômetros, homem dez quilômetros e o dinheiro era menos da mulher, o do homem era mais, corria dez”. Aí eu fui. O primeiro ano ainda corri cinco quilômetros, ganhei. “Não, o próximo ano eu vou treinar junto com os homens e vou ganhar o mesmo tanto dos homens”. Foi um desafio, né, eu sei que uns ficavam assim sem acreditar que eu ia correr os dez quilômetros. Aí eu aceitei o desafio, disseram “Vanda, você vai correr os dez quilômetros? Tá aqui a premiação pra mulher igual do homem. Você vai correr os dez quilômetros”. Aí eu corri, ganhei e fui pra Brasília. Ainda fiquei entre os 15 classificados e aí depois comecei a participar da São Silvestre. Corri também umas oito São Silvestre e sempre ficava entre os dez colocados, e sempre internacionalmente eu ficava entre as dez na faixa etária. Aí agora que eu tô tirando o terceiro lugar, eu tô cuidando da minha saúde, eu não tô mais ganhando o primeiro lugar. Assim, na empresa, pela empresa, que é aberto. Aí quem chegar primeiro, tem de 20,30, 40 anos, eu já quase 60, né?

 Hoje meu sonho é sair, conhecer pelo menos... eu não consegui conhecer o mundo lá fora, pelo menos o Brasil por aí afora.

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