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História

Atleta de palavra

História de: Adhemar Ferreira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2014

Sinopse

Adhemar Ferreira da Silva conta sua história de vida em depoimento concedido para o Museu da Pessoa em 1993. Fala da infância em São Paulo no bairro da Casa Verde e do início da vida esportiva no futebol. Escola e a profissão de escultor. Os primeiros contatos com o atletismo e os primeiros treinos no São Paulo Futebol Clube. O seu casamento. As desavenças com Jânio Quadros. A relação com os filhos. O salto triplo: recordes e mais recordes. Experiências nas edições dos Jogos Olimpicos: Londres, Helsinki. O primiero lugar no ranking mundial. A primeira volta olímpica de todos os tempos. Mais olimpíadas: Melbourne e Roma. O fim da carreira. Diagnóstico: tuberculose ganglionar. O carinho pelo clube do São Paulo. São-paulino do clube, não do futebol.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

 

P - Por favor, podia me dizer seu nome, o lugar onde nasceu e a data do nascimento?

 

R -  Eu sou Adhemar Ferreira da Silva, nasci em São Paulo, capital, no bairro da Casa Verde, no dia 29 de setembro de 1927.

 

P - Nome, local de nascimento e atividade de seu pai e sua mãe.

 

R - Meu pai, Antônio Ferreira da Silva, minha mãe, Augusta Nóbrega da Silva, ambos falecidos. Meu pai foi um ferroviário da estrada de ferro Sorocabana, carregador de sacos na Barra Funda, e minha mãe, doméstica, lavadeira, cozinheira, passadeira, costureira, enfim, tudo aquilo que uma pessoa humilde faz.

 

ORIGENS AFRICANAS

 

P - E seus avós, você se lembra deles, conheceu os seus avós?

 

R - Não, os meus avós não conheci, apenas por citação, e, o que eu sei, que o meu avô era africano, de uma linhagem tradicional da África. Segundo dizem, ele era um rei, e eu sou um príncipe...

 

P - Não sabe de que local da África?

 

R - Hoje, com estas mudanças todas que se fizeram no mapa geográfico é difícil se dizer o local, mas ele era, vou simplificar dizendo, do ex-Congo Belga. Ou seja, Congo.

 

P - Agora vamos voltar à sua infância: como é que era a sua vida quando era criança, a sua casa, as brincadeiras...

 

INFÂNCIA

 

R -  Bem, como eu disse, meus pais eram trabalhadores e nós morávamos no porão de uma casa, no centro da Casa Verde, eles saíam para trabalhar e eu ficava cuidando da casa. Como filho único que fui, então cabia a mim cuidar da casa. E cuidar da casa significava lavar, passar, cozinhar, inclusive para o meu pai, que ia almoçar em casa. E aí eu acho que cabe uma historiazinha para dizer bem como eu era no tempo de criança. Eu via, eu tinha sete para oito anos, os outros garotos, nas ruas, brincando, e eu tinha essa vontade de brincar também. Só que as minhas obrigações de casa não me permitiam fazer isso. Então eu lembro muito bem que no bairro da Cachoeirinha existia um chamado Buracão, e esse Buracão era o lugar onde eles iam nadar. Eu tentei algumas vezes resistir, mas num determinado momento eu não resisti. Fui com eles, fui nadar. Quando eu voltei, meu pai já estava em casa para o almoço, e o feijão estava queimado... Não é preciso dizer que eu levei uma surra. Foi a primeira e única que eu lembro de ter levado dos meus pais. Então o que eu posso dizer é que eu fui um garoto com uma infância normal, mas talvez pela própria índole, eu era um elemento voltado à disciplina. Sabia o que os meus pais estavam fazendo, eu sabia o que tinha que fazer. Então cada um cumpria a sua obrigação.

 

P - Então, na vizinhança, havia muitos meninos que faziam esportes, como você estava dizendo, eu queria um pouco mais de detalhes.

 

 BRINCADEIRAS DE ESPORTE

 

R - Não, nessa idade, nós não fazíamos esporte, nós brincávamos de esporte. E a brincadeira de garoto de rua era jogar futebol, jogar futebol com bola de meia, jogar futebol chutando lata, jogar futebol com qualquer coisa que a gente encontrasse para chutar. Nós tínhamos as brincadeiras que hoje em dia já não se vê, mas eram pular, chamava "uma-na-mula", pular amarelinha, enfim, era tudo que as crianças costumavam fazer. Agora a medida que eu fui passando na idade, depois dos sete, oito, nove dez anos, aí a coisa se modificou. Então o esporte que eu pratiquei, junto com os demais jovens da minha época, era o futebol. E com o futebol eu cheguei a ser fundador de um clube, e esse clube era o "Grêmio Esportivo Centenário", oriundo de um grupo que era de congregados marianos da Igreja de São João Evangelista. Então tinha essas duas partes: era o momento da missa, em que nós orávamos, cantávamos, eu fazia parte do coro, e depois então nós saíamos, despedíamos do padre, e íamos para o campo de futebol, na várzea da Casa Verde.

 

P - Você era muito religioso?

R -   Eu não só era como eu sempre tive o temor a Deus, temor que eu digo não medo, mas obediência a Deus. E até hoje eu tenho isso: eu acho que existe um ser superior, e este ser superior a gente deve cultuar, deve cultivar.

 

ESCOLA

 

P - E a escola? Você estudou, freqüentou a escola?

 

R -  Eu estudei entre...ou seja, no jardim de infância de uma escola na Casa Verde, uma escola que era controlada por freiras, e ali então eu tive os meus primeiros conhecimentos com as letras, com os números... Até um determinado momento, em que, ao chegar ao dez anos, eu entrei para a Escola de Aprendizes-Artífices, hoje Escola Técnica de São Paulo, e esta Escola de Aprendizes Artífices era o que permitia aos meus pais, estando no trabalho, eles tivessem uma segurança, porque eu entrava às 7:15 da manhã, e saía às 7:30. E nós tínhamos duas partes: a parte que eu chamaria de Humanas, onde nós aprendíamos a Geografia, o Português, a História, a Aritmética, a Matemática, e a outra parte era gasta nas oficinas. Existiam várias oficinas de mecânica, latoaria, vimaria e belas artes. E eu enveredei-me para a parte de belas artes, artes decorativas, e em belas artes foi que eu recebi o meu diploma daquela escola, como escultor.

 

PRIMEIRO EMPREGO

 

P - Você seguiu essa sua profissão de escultor?

 

R -  Nós trabalhamos durante três anos após a minha formatura, eu lembro-me que o nosso grupo, nós éramos em seis os formandos, nos trabalhávamos nos bustos do Matarazzo. Então, foi um trabalho feito de bronze, e existia, não sei se ainda existe, em cada uma das fábricas da Matarazzo, um busto, em homenagem ao velho Matarazzo. Depois eu fui trabalhar num ateliê de artes, chamava-se "Brasilarte", andei trabalhando um certo tempo com alguns escultores famosos, e enquanto eu trabalhava nesta oficina, que era durante o dia, à noite eu passava a estudar datilografia, taquigrafia e correspondência. Principalmente porque eu achava que eu gostava da arte como arte, e infelizmente eu não ia ser um grande escultor, porque eu sei que até hoje todos os artistas passam mal, até que eles consigam ser o maior dos artistas, dos grandes escultores, e por essa razão, estudando à noite eu passei depois de três anos, deixei a oficina de artes e passei a trabalhar num escritório comercial.

 

P - O que você sentia como escultor? Você gostava daquilo, teve pena de ter que largar para poder ganhar o seu sustento?

 

R -  Eu não só tive pena como eu ainda espero ter algum tempo para modelar alguma coisa que eu goste, alguma coisa que eu queira, sem ter a preocupação de ter que ganhar dinheiro para viver.

 

P - Esses artistas famosos, você poderia citar alguns com quem você trabalhou?

 

R -   Locoselli, Capinelli, Bruno Giorgi, enfim são alguns dos nomes de trabalhos que foram feitos nos seus ateliês, onde nós fazíamos a parte de fôrma, a parte de fundição, e, naturalmente, o retoque.

 

P - Sua família tinha algum plano para você, influiu na sua vida profissional, artística, enfim, ou deixou você à vontade para escolher?

 

INICIAÇÃO PROFISSIONAL

 

R -  Eu acho que meus pais eram tão modestos que eles não sabiam realmente o que pedir a que eu fizesse. Então eu tive uma vida bem livre, livre para fazer não o que eu quisesse, mas aquilo que fosse determinado por Deus. Como eu já disse, eu procurei fazer a minha parte estudando, e de estudar, dei satisfações a eles, mas a grande satisfação mesmo que eu dei foi quando eu comecei no atletismo, nos idos de 1946, no bairro do Canindé, e não mais no futebol, mas diretamente no atletismo.

 

P - Como é que foi este começo, pra você e pra eles?

 

R -   Eles estavam acostumados a me ver sair da missa, ou então me dirigir à missa, levando uma sacolinha, e nessa sacola eu costumava levar as chuteiras, que na época eram chamadas de chanca, as tornozeleiras, meias, enfim, todos os apetrechos necessários para se jogar o futebol. Agora eu confesso que, talvez por ser filho único, os meus pais, principalmente o meu pai, tinha medo que algo de mau acontecesse para mim. Esse algo de mau, quem conhece o futebol sabe, e está visível nas câmeras, são as jogadas bruscas, porque é um esporte viril, e eles achavam que eu poderia a qualquer instante também ser alvo de uma destas jogadas, e ter uma perna fraturada, enfim, ter uma lesão séria, e isso iria influir, decididamente, no orçamento da família, porque eu penso que eles pensavam assim: caso ele venha a sofrer algum mal jogando futebol, ele terá que ficar de licença do emprego, e esta licença do emprego naturalmente ela redundará em descontos, e estes descontos, então volto a dizer, iria influenciar o orçamento da família. Mas, ao mesmo tempo, meu pai gostava de me ver jogar, então ele ia assistir. Só que, num determinado dia, eu, ao invés de sair levando a chuteira, a chanca, ou a meia de futebol, a tornozeleira, eu saí apenas com um par de tênis, levando um calção, e ele quis saber porque eu não estava levando aquele material de futebol. Então foi quando eu disse: "Hoje eu vou tentar um outro esporte." Ele disse: "Que esporte?"  "Atletismo." E ele me perguntou: "O que é isso?" Eu digo: "Eu também quero saber. Eu sei que é correr, saltar, arremessar, mas realmente eu não tenho nenhum conhecimento da coisa." Isso tudo aconteceu porque durante aquela semana, eu encontrei-me na Avenida São João com um rapaz que trabalhava comigo na Liga Eleitoral Católica, era uma época de eleições e nós saíamos com panfletos para distribuir nas igrejas, numa orientação eleitoral. E então, quando eu estava conversando com ele, passa um negro esguio, e ele me disse: "Esse é Benedito Ribeiro, atleta do São Paulo Futebol Clube." Eu achei a palavra "atleta", bonita, e disse a ele: "Eu quero ser atleta também." Por coincidência, ele era uma das pessoas que treinava atletismo no São Paulo, e ele prontificou-se a me levar e me apresentar no São Paulo, na parte do atletismo. E foi o que aconteceu. Naquele domingo, em vez do campo de futebol, eu fui encontrar no Canindé um grupo enorme de jovens correndo, saltando, arremessando. E aí eu comecei a minha carreira no atletismo.

 

P - Você neste tempo ainda era solteiro, ainda era muito jovem, situe mais ou menos a época.

 

R -   Eu estou falando dos idos de 46. 46, eu só me casei no ano de 53. Em 46, eu tinha 18 para 19 anos, quando comecei, e eu me casei em 53, portanto já estava com 25 para 26 anos. 26 anos já.

 

P - Você continuou em casa de seus pais até o dia do casamento?

 

R -   Eu continuei não só até o dia do casamento, como na época como atualmente, era bem difícil contrair matrimônio e formar uma família. E nós tínhamos uma casa no Parque Peruche, uma casa em que eu fui morar quando tinha sete anos de idade, que foi comprada a prestação, e era uma casa que, numa promoção, os donos daqueles terrenos, eles ofereciam uma certa quantia de tijolos, abriam um poço, abriam um tanque, e também uma privada. Era um terreno de onze de frente por quarenta e dois de fundo. E o resto então cabia àquele elemento que comprava o que eles acabavam entregando até era um quarto, cozinha, mais o que eu disse, privada, poço e tanque. O resto cabia ao comprador construir. E nós, eu digo nós porque eu também ajudei a pagar essa casa. Então nós fomos com muito sacrifício, mas com muito sacrifício mesmo, chegamos num determinado momento a pensar seriamente se, eu digo chegamos mas realmente, quem estava sentindo fortemente a coisa eram os meus pais. Então eu lembro que eles conversavam, "infelizmente vamos perder a casa". E perder a casa porque não tinha dinheiro para pagar a prestação mensal, e estas prestações mensais já estavam em atraso quase um ano, ou talvez mais de um ano. Então eram empréstimos que se faziam de elementos usurários, que cobravam juros pesados para que a gente pudesse pôr a prestação em dia. Mas, felizmente, como a gente sempre tem que ter uma esperança, nós conseguimos passar aquela fase. A casa foi paga, e a partir de então começamos a melhorar a casa. Então, da sala e quarto que era, a casa chegou a ter três quartos, duas salas, cozinha, banheiro, e não mais a privada, enfim, passou a ser uma casa decente. Uma casa grande para nós três. Portanto, ao casar, cabia mais uma pessoa, e eu continuei morando na casa, com a minha esposa. Mas num determinado momento da vida, e é natural depois de dois anos mais ou menos,  eu senti que, quem casa quer casa. E a minha mulher, conversou comigo, se não daria jeito da gente ter a casa livre para morar. Ou seja, eu morar num outro lugar, somente o casal. Isso era uma coisa dificílima, creio que qualquer um pode compreender, porque seria romper os laços de um filho único com os seus pais. Ao mesmo tempo, não havia condições de dizer aos meus pais: "Nós vamos sair, eu vou deixá-los porque eu quero fazer, quero formar a minha casa. Então aconteceram várias coisas: primeiro eu falo de 1953, uma terrível coisa que aconteceu, terrível naquele momento, mas depois eu dei graças a Deus que aquilo tivesse acontecido. Eu saí para uma viagem representando o Brasil, isto por volta de, foi em 53, representando o Brasil na equipe atlética do Brasil num Sul-Americano no Chile, e eu era um funcionário da prefeitura municipal. Passei uma semana, foi o tempo necessário para participar daquele campeonato sul-americano. E ao regressar, o prefeito havia cortado o meu ponto e descontando o meu salário. Eu não achei justo, reclamei, e de reclamar, talvez eu tenha reclamado de uma forma muito dura, mas o prefeito, foi o senhor Jânio Quadros, o senhor Jânio Quadros tinha como o seu estandarte, uma vassoura, que era fazer a limpeza, que ele chamava, em São Paulo. Então, nesse tempo eu já estava trabalhando no jornal Última Hora, e estava também como radialista da rádio Panamericana, hoje conhecida como Jovem Pan. Eu fazia a locução comercial, e fazia também a crônica esportiva,  reunido com, nós éramos três. Eu, Tetsuo Ocamoto e Clara Miller. E o programa chamava-se Esporte por Esporte, Clara Miller comentava a parte do esporte feminino, Tetsuo Ocamoto a parte de natação, e eu, do atletismo. Mas diante do que aconteceu, o jornal Última Hora me procurou para uma entrevista, mas uma entrevista que fosse contundente,  e isso aconteceu. Como o slogan daquele senhor era uma vassoura, e pretendia limpar, eu não sei bem o que, principalmente em mim que não tinha sujeira nenhuma, então eu entrei dentro de um latão de lixo e, um dos meus colegas, com uma vassoura, tentando me bater, e a fotografia estampada foi aquela vassoura em minha direção, e eu, tentando me defender da vassoura. Fui para um programa de televisão, e ali eu disse que eu tinha saído para defender o Brasil. Apregoavam que o senhor Jânio Quadros era o novo Messias; disso eu não concordava. Apregoavam que ele era um novo Lincoln; então eu comecei a dizer que como Lincoln, talvez, eu pudesse aceitá-lo, porque o que ele estava fazendo comigo fazia com que eu lutasse como um negro para sair da escravidão dele. Talvez nessa parte ele pudesse ser um Lincoln. É lógico,  tudo isto saindo nos jornais, estampado nos programas de televisão, nos programas de rádio, e isso chega ao gabinete daquele senhor prefeito e, logicamente, eu perdi o meu emprego com um inquérito administrativo. Eu adorei, porque, alguns meses depois, ou algum tempo depois, ele passou a ser presidente da República, como presidente da República ele abandonou a presidência, ou teve que abandonar,  não sei, mas nesse tempo eu já estava numa outra bem melhor. Eu estava a caminho da África para ser o adido cultural da nossa embaixada. São fases, são partes, da história da minha vida.

 

CASAMENTO

 

P - Voltando um pouquinho na parte de seu casamento. Então, dá pra você contar como foi que o senhor conheceu a sua esposa, como foi o casamento.

 

R -  Isso é muito fácil, contar como foi que eu conheci minha esposa. Do bairro, meu pai trabalhava na Sorocabana, o pai dela trabalhava na Sorocabana, e ela trabalhava na Sorocabana. E então havia uma coincidência de horário, principalmente o horário da volta. Ela tomava o mesmo bonde, o bonde 55 da Casa Verde, que eu tomava. E, às vezes com o pai, ou geralmente com o pai dela. E nós fazíamos o mesmo trajeto porque éramos vizinhos. E então, é lógico que depois de algum tempo de descer do bonde e andar 15, 20 minutos sempre conversando, as coisas foram se modificando. Eu era uma espécie de confidente dela sobre o namorado dela. Eu também confidenciava como estava com a minha namorada ou com as minhas namoradas, e num determinado momento ela rompeu com o namorado dela, e eu tinha rompido com a minha namorada. E aí, nos juntamos, e em menos de um ano nos casamos. Então isso foi a questão do casamento. Agora podem imaginar que isto foi em 1953, e em 1952, eu ganhei os jogos em Helsinque. Portanto, tudo isto que eu contei da minha fase na prefeitura, eu já era um campeão olímpico, e eu estava recebendo em paga do que eu fiz, aquilo que aquele senhor estava fazendo. Eu lembro-me que um jornal de Los Angeles estampou "Quem é esse prefeito louco que tem coragem de punir um campeão olímpico?" Principalmente porque nós tínhamos tido uma primeira medalha de ouro em 1920, nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, através do Guilherme Paraense numa prova de pistola livre, tiro ao alvo. Mas eu só entrei nesta partezinha para dizer como foi o casamento. O casamento aconteceu no dia 12 de dezembro de 1953, um casamento que distribuídos... foram mil convites, e logicamente com os penetras, nós tivemos aproximadamente 1500 pessoas, num salão de festas no próprio bairro da Casa Verde, em cima de uma padaria, cujo nome era Padaria Baruel. O casamento para mim foi uma coisa magnífica, porque realmente eu encontrei aquela mulher que foi e é a minha esposa, e que foi e é ainda uma grande mãe, e que hoje já é uma grande avó. Infelizmente, neste momento ela não está bem, sofre em razão da morte de um filho que se deu há dez anos, o Júnior, que estaria hoje com 34 anos para 35, e este choque levou-a a uma depressão, e da depressão ela hoje está com uma esclerose múltipla, e já não é, infelizmente não é mais aquela mulher que fora todo tempo da nossa vida.

 

FAMÍLIA

 

P - Você tem mais uma filha também, não é?

 

R -   Tenho uma filha, e esta filha é Adyel. Adyel, hoje, é uma pessoa eu diria conhecida; não tão conhecida, não tão famosa, mas lutando por um lugar ao sol no show business. Ela canta muitíssimo bem, só que não teve ainda a sorte de encontrar um patrocínio para uma gravação. E essa Adyel é a mãe do Diego. O Diego é o meu neto, que neste dia em que estou prestando este depoimento, Diego está com 9 anos, vai completar 10, e que é a alegria do lar.

 

P - Como era o nome de seu filho?

 

R -Adhemar Ferreira da Silva Júnior, conhecido por Júnior. Excelente pessoa, um senhor relações públicas nato, trabalhou no SESC, e SESC e SESI, eu encontro diretores destas organizações que se referem a ele com muito respeito, com muita saudade. Porque realmente o Júnior, ninguém podia ficar triste ao lado dele. E eu lembro-me, quando ele era pequeno, as peraltices que ele fazia, próprias de uma criança. Eu às vezes investia contra ele, mas não chegava a concluir, porque, com um sorriso, ele me desmanchava. Assim era o nosso Júnior, que era muitíssimo ligado à mãe, e surpreendia durante o dia de trabalho chegando, em determinados momentos, a casa, dizendo: "Gatinha eu vim só para ver como você está." E em seguida voltava para o seu local de trabalho.

 

ATLETISMO

 

P - Você poderia dizer os passos que você deu no atletismo a partir daquele momento em que você leva o seu tênis e vai querendo ser atleta, dizer assim como foram estas passagens até você se tornar campeão.

 

R -  Levado por José Mazucatto, eu cheguei ao Canindé, e fui apresentado ao técnico. Técnico, eu não sabia seu nome, eu só podia ver que era um alemão forte, cabelos loiros, olhos azuis, e que ao ser apresentado a ele, ele me disse: "Ah, tudo bem. Vá lá, troque de roupa e volta aqui." Eu, desconhecendo tudo, eu achei que aquilo não era uma recepção muito boa para quem pretendia ser atleta. Mas isso, só na minha cabeça. Então fiz o que ele mandou, fui, troquei roupa, voltei, e ele disse: "Agora você dê três voltas na pista." Dei as três voltas na pista, que depois eu vim saber chamar-se aquecimento, e aí voltando a ele, ele disse: "Junte-se àquele grupo e faça ginástica." Eu fui lá, juntei-me ao grupo, tentei fazer aquilo que eu não sabia, eu não sabia fazer ginástica, mas fui copiando os demais. E depois, então, eu fui participando de uma espécie de oficina, ou seja, passei por corridas de 100, de 200, de 1000 metros; saltei distância, altura, só que eu não sabia que o nome era de distância, o nome era altura. Entrei num chamado revezamento, a única coisa que eu via é que um tratava de passar um bastão para o outro em determinados momentos da corrida. Enfim, naquele ano de 1946, meados para o fim de 46, eu participei de competições, competições amistosas, e não consegui dar nenhum ponto ao Clube. Ou seja, eu teria que chegar pelo menos até o sexto lugar para dar um ponto, então eu estava sempre chegando no sétimo. Se havia um último, eu chegava depois deste último. E assim era a minha situação dentro do atletismo, aquilo que eu resolvera mudar, ao invés do futebol, para o atletismo.

Em 1947, numa determinada noite, eu vejo alguém fazendo alguma coisa que eu não conhecia. E perguntei a esse atleta o que era, e ele disse: "Isso é salto triplo, salto triplo". "Salto triplo. E como é que faz?" Aí ele me explicou que eu deveria tomar uma certa distância, correr, chegar até aquela tábua branca que delimitava o início dos saltos, bater com o pé direito ou pé esquerdo naquela tábua, alçar o meu corpo, cair sobre a mesma perna, alçar novamente, mudar de perna e terminar no tanque de areia. Eu achei muito interessante, só que pedi a ele que me explicasse novamente porque eu não tinha entendido absolutamente nada. Mas, tomei distância, corri, saltei. Quando eu caio no tanque de areia, ele, ao invés de me dizer alguma coisa, foi atrás do técnico. E veio ele com o técnico, em seguida, dizem: "Faça novamente isso." Eu fiz, e foi quando eles mediram. Ao medir, deu 12,84 metros. 12,84, três dias depois havia uma competição amistosa entre o São Paulo Futebol Clube e o Espéria, naquela época, em razão da guerra, chamava-se Floresta, e eu repeti aquilo de três noites atrás, só que eu saltei 13,05 metros. Mais uma semana, eu saltei 13,56 metros, numa competição de estreantes. Eu deixava de participar da competição da parte de juvenis, e passava à categoria de adultos. Então, com 13,56, eu ganhei o título, bati o recorde e me tornei campeão. Quinze dias mais tarde, 13,98 metros, eu ganhei a competição e bati o recorde da categoria de novos. Um pouco mais, menos de um mês, categoria de júniors, saltei 14,22 metros, com 14,22 metros eu me tornei campeão e recordista. E naquele mesmo ano de 47, dois meses depois eu estava com 14,77 metros, e me tornava campeão paulista. Eu devo dizer que depois que eu saltei pela primeira vez acima dos 14 metros, a curiosidade despertou-me e, passando numa casa de material esportivo, eu vi um livrinho sobre atletismo. Comprei aquele livrinho, e fui procurar saber se dizia alguma coisa sobre salto triplo. E encontrei. Ali dizia: "salto triplo - uma das modalidades mais difíceis do atletismo, onde um atleta dificilmente consegue chegar aos 11 metros no seu início." Então, o que o livrinho dizia era sobre 11 metros, e minha primeira marca medida deu 12,84 metros. Bom, 47, terminei como campeão paulista. Em 48 nós teríamos os Jogos Olímpicos. E aí eu vou entrar na fase de Jogos Olímpicos.

 

JOGOS OLÍMPICOS

 

P - Como é que foi a sua emoção de ver que você já começa um esporte acima daqueles 11 metros previstos no livrinho? Como você se sentiu?

 

R -   A minha emoção em começar numa parte já de destaque, ela pode ser contada da seguinte maneira. 48, Jogos Olímpicos, e nós tínhamos pré-Olímpicos. Esses pré-olímpicos, eles serviam para que o atleta tentasse conseguir o índice estabelecido pelo comitê olímpico brasileiro para fazer parte da delegação. O índice estabelecido para o salto triplo era de 14,80 metros. Então, diziam os meus colegas de Clube: "Daqui, deste Clube, o único que poderá ir a Londres é você." Eu ria na cara deles. Ria por uma razão muito simples: eu tinha uma vontade louca de conhecer o Rio de Janeiro, e eles estavam falando em Londres - Londres, Inglaterra. Eu lembro-me que quando eu tinha o dinheiro para a passagem, eu não tinha o dinheiro para ficar um, ou dois, ou três dias no Rio de Janeiro. Sempre faltava alguma coisa. Lembro-me também uma vez, quando eu tinha dinheiro, que daria pra ficar pelo menos uns três dias, naturalmente, ajudados por ficar em casa de colegas dos outros Clubes, Clubes do Rio, que competiam conosco de vez em quando, os meus pais tiveram necessidade de usar o dinheiro, e aí foi o meu sonho de conhecer o Rio de Janeiro. Pois bem, os meus colegas diziam: "Você tem condições de ir a Londres."  No dia do pré-Olímpico, eu teria que saltar 14,80 para fazer parte da delegação brasileira. E naquele dia eu estava encontrando, pela primeira vez, os dois grandes saltadores de triplo do Brasil: Geraldo de Oliveira e Hélio Coutinho da Silva. Geraldo de Oliveira que, em 46, um ano antes, tinha se tornado campeão sul-americano no Chile, em Santiago, e ganhara, através dos jornais, o apelido de "canguru brasileiro". Então com eles é que eu iria me defrontar. 14,80 metros era o índice. Na minha primeira tentativa eu saltei 15,03 metros, e com 15,03 eu ganhei o direito de fazer parte da equipe olímpica brasileira, e isso eu guardei até hoje. Fui conhecer o Rio de Janeiro em trânsito para Londres. Quatro anos mais tarde nós teríamos os Jogos Olímpicos em Helsinque, na Finlândia. Mas no meio disso tudo os meus resultados foram se sucedendo. Dos 15,03 metros, eu cheguei aos Jogos Olímpicos de Londres, não fiz absolutamente nada naquele estádio de Wembley, completamente lotado. Na minha cabeça não dava para entender que mais de 120 mil pessoas estivessem assistindo uma competição de atletismo, porque nas nossas competições no Brasil, campeonatos brasileiros, troféu Brasil, nós estávamos acostumados a ver 1000 a 1500 pessoas assistindo e, normalmente, esses faziam parte dos familiares dos atletas. O atletismo não tinha público, como até hoje não tem, a não ser nas grandes, grandes competições, que é o caso do Meeting Internacional, mas, fora disso, não tinha. Então eu lembro que o juiz gritava: "Mister da Silva!" Eu saía correndo, dava os três saltos, e ficava novamente olhando o público, porque eu achava que a qualquer instante haveria um jogo de futebol, e não podia aceitar que aquele pessoal estivesse vendo atletismo. Terminado aquela parte, então na classificação geral, eu tive um décimo primeiro lugar. Isso foi em 48. 49, o meu técnico, e agora já posso declinar seu nome, Dietrich Gerner, pediu uma tentativa de recorde; a tentativa era para tentar quebrar o recorde paulista. Esse recorde paulista era de 15,13 metros, e pertencia a Geraldo de Oliveira. Na minha primeira tentativa no Canindé, com a presença de um campeão olímpico norte-americano do arremesso do disco, Fortuin Gortween, na primeira tentativa saltei 15,51 metros, e com 15,51 eu bati não somente o recorde paulista, como o brasileiro e o sul-americano. O sul-americano estava em poder de um argentino, Luis Ankel Bruneto, desde os Jogos Olímpicos de 1924. Então, 25 anos depois, eu estava quebrando aquele recorde. Eu creio que é interessante citar que ele saltou 15,425 metros, em 1924, eu nasci em 1927. Então eu fui quebrar um recorde que ele havia estabelecido antes do meu nascimento. Os 15,53 metros, além de ser recorde paulista, brasileiro e sul-americano, naquele ano de 53 foi o melhor resultado do mundo. Então eu ocupei o primeiro lugar no ranking mundial. E aí foi uma sucessão de recordes e vitórias, mas de vitórias já no grande mundo do atletismo. Em 1952, Helsinque. Helsinque, um lugar que logicamente eu não conhecia, procurei no mapa, procurei nos livros de geografia, e como eu sempre fazia, procurei também me inteirar do que era a Finlândia, do que era Helsinque, como vivia seu povo. Numa São Silvestre em 52, veio um corredor da Finlândia, e logicamente este corredor teve intérpretes. E esses intérpretes pertenciam à família Lehto. Então me dirigi à família Lehto, e conversei com eles: "Eu vou estar em Helsinque, e gostaria de aprender algumas palavras em Finlandês." Eles não tiveram dúvidas, quiseram me ensinar, e eu aprendi não só algumas palavras naturais, "bom dia, boa tarde, como vai, onde é tal rua, o que é que eu posso comer", como também me ensinaram uma canção em finlandês. Então aí vêm curiosidades da minha parte esportiva. Ao desembarcar em Helsinque, eu quis testar os meus conhecimentos em finlandês, e fiz a primeira tentativa dizendo: "terve, terve". Terve, terve quer dizer "salve, salve". Ali estavam os carregadores do aeroporto, e uns poucos elementos do comitê organizador. Eu notei no semblante deles um semblante muito sério, e eu imaginei que aquela família finlandesa tivesse me ensinado palavrões, e que eu teria soltado um palavrão. Mas "terve, terve" felizmente queria dizer salve, salve. Mas como eles estavam sérios, então eu entrei para uma segunda tentativa, perguntando a eles: "unko tela quiuma?" "- como é que está a temperatura?" E aí eles responderam já com um meio sorriso: "hive, hive" - boa, a temperatura está boa. Aí, como no salto triplo, eu fui para a terceira tentativa, o terceiro salto. Eu estava com o meu violão, e comecei a dedilhar e a cantar a canção que a família Lehto havia me ensinado em São Paulo, e, logicamente, aquela canção era como "Luar do Sertão", "Meu Limão meu Limoeiro", era uma música popular, e aí o aeroporto todo, aqueles finlandeses todos, cantaram junto comigo. Agora, a expressão do olhar deles inicialmente, é fácil entender, porque eles, naquele país que dá 30, 40 graus abaixo de zero, onde os cabelos são louros para brancos cor da neve, de repente chegar um negrão, falando alguma coisa do idioma deles, e depois cantando, então no dia seguinte, manchetes dos jornais, do Usissuomi, que é notícias da Finlândia, ou então Helsinque Sanomati, o jornal da semana de Helsinque, e diziam: "Da Silva do Brasil chegou falando terve, terve, e cantando "nime nareitoni sino ne lana". Aí a coisa passou a ser, no cotidiano, eu andando pelas ruas, as famílias, ou as pessoas, normalmente com um recorte daquele jornal, e conferiam se aquele que estava estampado no jornal era o "da Silva". Uma curiosidade, um casal com uma criança pequena, a mãe vira-se para a criancinha e diz: "cuka cuka mustapoica" " - Olha, olha o rapaz negro." Só que musta em finlandês é um preto tão preto, que o asfalto fica moreno perto dele. Então, para a surpresa deles eu respondi: "Antexi, musta e suska carpa brasiliasta poika"   " - desculpe, mas eu não sou tão negro assim como este musta que vocês dizem. Eu sou moreninho, da cor do café brasileiro". E com isso eu ganhei mais alguns amigos. E até o momento da minha competição era um tal de aumentar responsabilidades em meu ombro, porque a cada finlandês que eu encontrava, esse finlandês dizia: "Existem cerca de 6 mil atletas aqui na Finlândia participando dos Jogos Olímpicos. Nós não sabemos quem vai ganhar, e qual prova. Apenas estamos seguros que kolmiloica, kolmi para três, loica para saltos, tradução "salto triplo", vai ganhar o da Silva". No dia 23 de julho de 1953, com os adversários que eu não conhecia, principalmente Cherbakov, o russo.  Bati por quatro vezes o record mundial e olímpico: 16,05 m, 16,09 m, 16,12 m e 16,22. Com 16,22 metros, eu me tornei campeão olímpico, fui para o pódio, recebi a medalha de ouro, recebi as flores, em seguida voltei-me para o local onde seriam içadas as três bandeiras do primeiro, segundo e terceiro, e, ali, com os acordes do Hino Nacional brasileiro, eu vi a bandeira do Brasil subir no posto de honra. A seguir, um enorme barulho, e esse barulho vinha da arquibancada, vinha daqueles que estavam assistindo, e que gritavam em uníssono, "da Silva, da Silva, da Silva", até que o juiz da competição dirigiu-se a mim e pediu que eu desse uma volta, porque a platéia, os assistentes, assim estavam pedindo. Eu fiz isso debaixo dos aplausos de toda aquela assistência, e foi a primeira vez que tivemos a volta olímpica. E naquele ano de 52, um outro atleta também deu a volta olímpica. Foi Emil Zatopec, da Tchecoslováquia, por razão de ganhar os 5.000, os 10.000, e ganhar a maratona. E a família Zatopec levava quatro medalhas de ouro, porque sua mulher, Dana Zatopec, ganhava a prova do arremesso do dardo, então foram quatro medalhas de ouro. Emil Zatopec foi convidado, tal como da Silva, a dar a volta olímpica.

 

A VOLTA OLÌMPICA

 

P - O que é que você sentiu quando você  estava dando essa volta olímpica?

 

R - O que eu senti quando estava dando a volta olímpica. Eu, eu costumo ser verdadeiro nas minhas coisas. O público não aceita, mas eu não senti absolutamente nada. Explico por que: eu sabia o que estava sabendo, mas não dava para interfectar, porque eu estava vindo de uma concentração de quatro meses, quatro meses com o pensamento voltado para aquele instante. Então a partir do término da competição, eu comecei a desmanchar dentro de mim. Voltei para a Vila Olímpica, da Vila Olímpica tomei o meu banho, eu tinha uma namorada e, nós fomos jantar, me divertir, depois de toda aquela preocupação, me divertir. No dia seguinte, aí sim, vendo o meu nome estampado nos jornais, vendo as fotografias, lendo os resultados, aí sim é que eu senti a grande emoção. E eu diria mais, senti a satisfação de um dever cumprido. Cumprido para comigo, cumprido para com os meus familiares, cumprido para com os meus amigos, cumprido para com toda a população do Brasil. Então foi realmente o meu grande momento, mas no dia seguinte, não na hora, como muitos acham. Quem vibra com os feitos, são aqueles que estão sentados nas arquibancadas, porque eles têm condições de acompanhar mais os passos. E o atleta, naquele momento, ele está num estado de tensão tão grande que, eu penso, se ele demonstrar alguma coisa, ele faz por um instinto natural, não porque ele esteja realmente sentindo. Tudo isso, eu tenho que começar a dizer também, que começou no Canindé. Começou na Avenida São João com esse José Mazucatto, começou dentro do São Paulo Futebol Clube porque o São Paulo estava lá. Começou com aquele alemão de olhos azuis, Dietrich Gerner, que passamos a ter tanta afinidade, que eu passei a chamá-lo de "meu pai". Chamar de meu pai por quê? Não pelos ensinamentos que ele me transmitia na parte esportiva, não somente por isso. Mas é porque ele além de um técnico, ele era um grande psicólogo, um grande orientador, e foi o homem que fez de mim um campeão. Mas antes disso ele fez de mim um homem, na acepção da palavra.

 

P - E, você ganhou dinheiro com isto?

 

PARCIPIPAÇÃO NAS OLIMPÍADAS

 

R -  Graças a Deus não! Você pergunta se eu ganhei dinheiro, não. Eu explico por que não. No meu tempo não era permitido o atleta receber qualquer dinheiro. E mais do que isso. O bonde Canindé, não era permitido receber um passe de bonde pra se chegar ao Canindé. Não era permitido receber um vale-refeição após o término do treino. E isso, se acontecesse, o atleta era considerado profissional. Para que tenha uma idéia da dureza do regulamento olímpico, na minha volta de Helsinque, depois de todo aquele feito que o Brasil todo acompanhou e vibrou, a Gazeta Esportiva havia aberto uma subscrição popular, com a finalidade de arrecadar fundos para uma compra de uma casa que me seria dada de presente em razão do meu feito olímpico, da minha vitória olímpica. Ainda em Helsinque, mas sabendo que meus pais estavam no Rio, à minha espera, por uma deferência do jornal O Globo, eles foram levados de São Paulo para o Rio e lá estavam numa belíssima mordomia, dentro de um belíssimo hotel, com um carro à disposição, fazendo os passeios turísticos, aguardando a minha chegada. Então lá mesmo, eu fiquei sabendo que eu não iria receber a casa, em razão do regulamento do amador. Ao chegar no Rio, encontrando a minha mãe, ela, com lágrima nos olhos, com um sorriso estampado na boca, ela disse: "Meu filho, vamos ganhar uma casa." Eu disse: "Como assim, mamãe?" Ela disse: "A Gazeta Esportiva está arrecadando fundos e agora já tem um tanto de dinheiro, já mandaram que nós procurássemos a casa, etc., etc.." Eu digo: "Tudo bem mamãe, eu tenho que explicar uma coisa à senhora - nós não vamos receber esta casa." "Por quê?" "Porque se recebermos, eu serei considerado profissional." No encontro com a minha mãe eu disse a ela que nós não iríamos receber a casa, e ela quis que eu explicasse por que, e eu disse que as leis amadorísticas não permitiam, que se eu recebesse a casa, ou se ela recebesse a casa, eu seria considerado profissional. Ela me perguntou o que era ser profissional, e eu disse que ser profissional significa não mais poder participar das competições, e possivelmente não mais dar uma alegria da senhora estar aqui visitando o Rio, com esta mordomia toda, etc., e além do mais eu terei que devolver a medalha de ouro. Então, diante disso, a minha mãe disse: "Bem, meu filho, não vamos receber essa casa. Essa casa talvez não traga a felicidade que a gente espera." Então eu fiquei satisfeitíssimo porque ela de pronto entendeu. Agora podem notar o que era dificuldade, quer dizer um atleta não ganhava, não podia ganhar, não podia ter auxílios, e eu trabalhava pela manhã, trabalhava à tarde, estudava à noite, e treinava em hora de almoço. Eu creio que mais ou menos no início desse meu depoimento, eu fiz um relato sobre 1953, o Sul-Americano, o fato de ser funcionário público municipal, os dias que eu perdi defendendo o Brasil, e a recompensa que eu tive em ser demitido do emprego por defender o Brasil. 52 acabou, 56, Jogos Olímpicos em Melbourne, na Austrália, a terra dos cangurus, e eu tive a felicidade de ganhar então, pela segunda vez, com um recorde olímpico, a medalha de ouro. E aí nós vamos para 1956, 1960. Em 60, seria a minha quarta participação em Jogos Olímpicos, como de fato foi a minha quarta participação. Roma! Eu saí daqui com uma marca de 16,08 metros, uma marca boa ainda na época, e o nosso drama começou no momento em que começou a competição. Do lado de fora, Dietrich Gerner. Dentro, eu. Corria, saltava, e o resultado não aparecia. E o Gerner dizia: "Faz força! Reaja!" E eu, dava mais força, reagia, mas o resultado não aparecia. E assim se passaram aquelas três primeiras tentativas da fase classificatória, no final do que, eu não me classifiquei para a final. Então juntei meu material e fui deixando a pista... Uma coisa me chamou a atenção: uma salva de palmas ensurdecedora. A prova de salto triplo estava com Schmidt, um polonês, muito bom saltador. E, eu olhei para o local do salto triplo, para saber; eu achava que o Schmidt havia batido o recorde olímpico, ou mundial, e os aplausos seriam para ele. Mas, ao olhar bem, a prova estava paralisada, como

as demais provas estavam paralisadas. E à medida que eu ia deixando o estádio, as palmas aumentando. Aí rapidamente eu fiz um retrospecto da minha vida, e concluí que aqueles que estavam aplaudindo eram aqueles que me conheceram em Londres, que me aplaudiram em Helsinque, na Finlândia, que voltaram a me aplaudir em Mellborne, e que estavam então aplaudindo, desejando, um feliz fim de carreira.

 

FINAL DA CARREIRA

 

Isto tudo, três meses depois, nós tivemos o diagnóstico. Encontrando-me com um médico, no Jockey Clube no Rio de Janeiro, ele notou algo de diferente em meu pescoço, perguntou o que era, e eu disse: "Não sei." "Não, mas ele está um pouco mais alto." Bom, eu havia já feito atletismo já por quinze anos, e fazer atletismo significa fazer ginástica, educativos, há um desenvolvimento muscular, e eu achava que também aquilo era parte de um músculo desenvolvido. Mas ele disse: "Não, isso está me parecendo gânglios." Eu não sabia o que era gânglios. E ele fez um convite: "Amanhã cedo você poderia estar no Hospital do Câncer, porque eu gostaria de te examinar, mas com outros médicos." No dia seguinte eu estava, estavam os demais médicos, examinaram e chegaram à conclusão de que eu deveria passar por uma biópsia. Essa biópsia eu não sabia o que era, mas eles me explicaram, e inclusive brincaram, dizendo que como eu era um bicampeão olímpico, eles iam cuidar bem de mim, que eu não tivesse nenhuma preocupação, porque eu não iria sentir dor. Tudo bem. Eu deixei que eles fizessem o que eles tinham que fazer, e depois de feito tudo, eles chegaram a um diagnóstico: eu estava tuberculoso, com uma tuberculose ganglionar. Tuberculose ganglionar que tem dois nomes: escropulose, ou anemia profunda. E diz o médico: "No momento em que eu estava te operando, eu não agüentei, e chorei, porque todos os sintomas pareciam ser de linfoma." "Linfoma?", perguntei o que era, e ele disse: "Câncer nos pulmões." Câncer nos pulmões eu vim a saber depois que poderia durar um dia, uma semana, um mês, mas que não haveria volta. Disse o médico: "Agora eu sei por que você fracassou em Roma. Teu organismo já estava minado." Aí eu pensei, os cuidados que não se tem com o atleta, com o esportista brasileiro. Porque se houvesse uma preocupação médica, eu não teria ido para Roma. Eu passaria por um exame sério, e neste exame teria que ser detectado essa anemia, e eu não teria ido para Roma. Enfim, coisas do esporte, coisa do esporte de Terceiro Mundo, coisas de esporte de um Brasil. Eu gostaria, neste final de depoimento, dizer alguma coisa bem, bem, bem séria. Durante muitos anos eu enverguei, eu participei com a camisa do São Paulo Futebol Clube, a ponto de, a diretoria reunida, modificar estatutos, e que fosse colocada na bandeira do São Paulo, logo após 52, uma estrelinha de ouro. Depois, em 1956, no México, ao recobrar para o Brasil o recorde mundial, o São Paulo colocou a segunda estrelinha. São as duas estrelas que têm na bandeira do São Paulo. Eu encontro sãopaulinos que se zangam comigo, porque me dizem: "E o nosso São Paulo, como é que está?" E eu digo: "O nosso São Paulo acho que está bom." "Mas eu não te vejo na torcida!" Eu digo: "Bom, então vamos parar, vamos explicar." Eu sou sãopaulino, e sempre dei o meu sangue para o São Paulo Futebol Clube. Tenho grandes e grandes amigos dentro do São Paulo. Até hoje, se eu falo de um velho Aranha nos idos de 46, 47, 48, de um Adulcilnio  dos Santos, mas tenho que falar de um Cícero Pompeu de Toledo, tenho que falar de um Laudo Natel, tenho que falar dum Werneck, o Dr. Werneck, o grande advogado Dr. Werneck, como tantos outros em Henri Aidar, como tantos outros que eu encontro. Então eu não aceito quando o torcedor fanático, sãopaulino, se investe contra mim, porque eu não torço pelo futebol. Eu não torço pelo futebol pura e simplesmente porque eu não gosto do futebol. E não gostar do futebol não significa não gostar do São Paulo. Então eu gostaria, não sei, o momento em que vocês estiverem vendo esse depoimento, que compreendessem a minha situação. Eu fiz pelo São Paulo. Eu gostaria de dizer que se eu não torci por esse São Paulo do futebol, aqui está o Diego, o meu neto, que vocês podem ver, ele é um torcedor, é um fanático. O que ele quis? Que eu comprasse uma camisa do São Paulo Futebol Clube, que ele queria pegar as assinaturas dos jogadores. Levei-o num jantar, onde se comemorou 50 anos da moeda que caiu de pé, e essa moeda que caiu de pé, no jantar ele foi encontrar com todos aqueles que ele estava acostumado a ver, pura e simplesmente, pelas telas da televisão, ouvir os seus nomes, ou ler nos jornais. E ele exultou quando ele viu Palhinha, que eu não sabia quem era, Zetti, que eu não sabia quem era, e com todos eles. Então aqui está o sãopaulino que vocês que gostam do futebol, querem: é o meu neto. Eu não sou torcedor de futebol. Isso não significa dizer que eu não gosto do São Paulo: adoro o São Paulo, tenho as minhas amizades, e creio que eu fiz pelo São Paulo aquilo que o São Paulo talvez não fizesse por mim.

 

P - Muito obrigada pelo seu depoimento.

 

R -   Obrigado digo eu pela oportunidade que me deram. Culpem os admiradores do São Paulo que não sabem compreender a minha situação. Eu não torço para o São Paulo do futebol, porque eu não gosto de futebol, eu não vou assistir nenhuma partida de futebol. Eu tenho os meus amigos dentro do São Paulo, tenho a minha admiração, logicamente, pelo São Paulo, gosto do São Paulo como uma família, mas a cobrança que de vez em quando me fazem, me aborrece muitíssimo. Para isso, tudo isso que eu não torci para o São Paulo, aqui está o Diego. O Diego, que é o meu neto, ele vibra com o futebol do São Paulo, de tal maneira que, nós fomos a uma festa que era o cinquentenário da comemoração da moeda que caiu de pé, e para esse jantar eu comprei uma camisa do São Paulo Futebol Clube, e ele foi ao encontro dos jogadores e pegou os autógrafos. Então aqui está um sãopaulino, da maneira como vocês querem: um torcedor de futebol. Eu sou o sãopaulino que dei o sangue pelo Clube, que fiz pelo Clube o que talvez o Clube não tenha feito por mim.

 

P - Obrigada pelo seu depoimento.

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