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História

Atirando em peixe

História de: Geraldo Apolo Mafra Carneiro Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

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História completa

P - Para começar Apolo eu queria que falasse o nome completo do senhor, a data e o local de nascimento?



R - Bom; o meu nome completo é Geraldo Apolo Mafra Carneiro Monteiro. Data de nascimento 18 do 10 de 1960. Nasci em Maués, estado do Amazonas.



P - E os seus pais são da onde?



R - Também; os meus pais são de Maués. Tanto o pai como a mãe, né, são os dois.



P - Qual é o nome deles?



R - Angenor Carneiro Monteiro e Araci Mafra Monteiro. Ele é descendente de pernambucano, e ela, a minha mãe, é de paraense.



P - O que eles faziam? Qual a profissão deles?



R - Bom; ele foi agente de estatística, trabalhou no IBGE por um longo período e isso num certo período porque antes ele era trabalhador de exploração de pau-rosa, né, trabalhava em usina de pau-rosa. Depois então que veio o IBGE e depois aposentou-se como comerciante.



P - A sua mãe?



R - A minha mãe fazia cabeleireira, cabeleireira e depois comerciante e aposentou-se também como comerciante.



P - Você têm irmãos?



R - Irmãos eu tenho quatro irmãos.



P - O que eles fazem?



R - Quatro irmãos. Um trabalha é funcionário bancário. Trabalha no Bando do Brasil. O outro é funcionário público e o outro trabalha com artesanato, que é o Barrô e eu sou comerciante.



P - Você mora em Maués ainda?



R - Moro em Maués, passei quatro anos fora, período de 78 a 82, passei esse período estudando em Manaus e depois retornei para Maués e hoje trabalho em Maués.



P - O que você faz lá?



R - Bem; eu sou comerciante, trabalho no comércio. Tenho uma distribuidora de refrigerantes também e trabalhamos nesse ramo: comércio de um modo geral.



P - E hoje você está no barco indo pra aonde, para Manaus?



R - Sim, hoje estamos indo para Manaus porque estou indo visitar um filho que estuda em Manaus que ele não pôde passar o final de ano conosco, com os pais, e nós estamos indo a Manaus para visitar esse filho. E também a prioridade é que eu estou indo para participar de um congresso em Manaus.



P - Tem quantos filhos?



R - Dois. Dois filhos. É o filho, o Igor, esse que estuda em Manaus, e tenho a Iara e no início do ano foi para São Paulo e está em São Paulo. Ela vem fazendo uma experiência espiritual.



P - Em São Paulo?



R - Sim. Na Mariápolis Ginetta, Vargem Grande.



P - Fala uma coisa. Conta um pouco como que era a sua cidade de Maués, a sua casa na infância, como que era a cidade, as brincadeiras?



R - Na minha infância as brincadeiras basicamente eram os estilingues, que pra nós aqui é baladeira, era peão, eram as bolas de gude, as pipas, que pra nós é papagaio de papel. Então essas eram as nossas brincadeiras porque nesse período não havia televisão. Só rádio, não havia internet. Então só se ouvia notícia através de rádio e era muito raro uma casa ter um rádio em Maués nesse período. Então a nossa infância foi marcada por essas brincadeiras, brincadeiras de carrinho, de praia, brincadeira de fazer as casas, as tocas, as malocas, brincava de tribo contra tribo. Eram essas as nossas brincadeiras porque não tinham, como eu falei, não tinha chegado ainda o avanço tecnológico que hoje tem. Então a brincadeira era uma criatividade dos garotos, se criavam com plantas, bichos, era basicamente isso.



P - E a cidade como é que era?



R - Bom; a cidade era realmente pequena. Hoje Maués tem mais de 40 mil habitantes e nessa época, pra se ter uma idéia, Maués tinha quatro ruas, né, tanto é que nós chamávamos a rua da frente e rua de trás que eram as maiores digamos. Depois tudo era guaranazal, era mata, era...Mas basicamente essas duas ruas, a cidade pequena, muito pequena mesmo. Hoje se desenvolveu mais, está mais desenvolvida.



P - Era difícil estudar naquela época? Poucas escolas, como é que era?



R - Não. Tinha o primário, o ABC que chamava e depois o primário. A parte da escola não era difícil, a dificuldade vinha depois quando se conclui o segundo grau e aí sim. Até hoje ainda tem um pouco de dificuldade porque; mas na época era mais porque não tinha nenhuma faculdade. Então você terminava o segundo grau e tinha que se quisesse continuar os estudos tinha que procurar na capital do estado, tinha que viajar, tinha que... Aí era toda uma história, deixar o pai e a mãe, uma aventura mesmo de procurar. Era essa a dificuldade. Hoje já tem faculdade, ainda não tem todos os cursos, mas tem muitos que já conseguem ficar em Maués e estudar.



P - Você trabalhava desde cedo?



R - É. Eu sempre ajudei meus pais. Desde jovem ajudava meus pais no comércio, ele era comerciante. Depois vim para Manaus e passei um período estudando e quando retornei, retornei com comércio. Abri um comércio pra mim e hoje continuo no comércio.



P - Como é que foi a experiência de Manaus?



R - Foi uma experiência boa porque a gente é um filho jovem que sai, né, enfrenta toda uma outra realidade sendo uma capital e tudo, mas foi uma experiência bacana porque a gente aprendeu a ter novos conhecimentos, novas amizades e acabou que nós muito jovens, talvez, sei lá, não conseguimos superar muito aquela ausência do pai, da mãe, acabou que nós retornamos. Não deu certo, não conseguimos levar pra frente os estudos, mas foi uma experiência boa porque realmente foi um aprendizado.



P - Fala uma coisa. Contaram pra gente aqui que você é um ótimo atirador de pirarucu, conta o que é isso, conta um pouco?



R - Bom; não é pirarucu, pirarucu peixe grandão, pirarucu de 40, 60 quilos, mas era o tucunaré realmente. Porque na época da cheia, da enchente, a água quando sobe ela vinha até o quintal do meu pai, invadia o quintal. E a casa do meu pai é alta, tem janelas e nós adolescentes ficávamos esperando lá de cima da janela, com uma arma, com um rifle, para tirar nos tucunarés que passavam embaixo. Então era muito normal isso, era eu e os outros colegas fazíamos isso. Cada um ficava numa janela e se fazia isso toda a época das enchentes. Em vários anos isso acontecia porque os peixes vem, você sabe que nessa época da cheia os rios enchem muito, os lagos, e os tucunarés que e um peixe que se alimentam de outro peixe, ele procura os peixes menores para comer. Então os peixes menores vem tudo para a margem do rio, então os tucunarés vem atrás e ele está faminto, ele procura. Ele vem próximo mesmo até onde for possível, da margem. Então nós ficávamos aguardando ele vir próximo e quando vinha próximo o mais possível nós conseguíamos fazer o tiro, e muitas das vezes acertava, matava os tucunarés. E, lógico, dava um bom prato, dava um bom almoço. Era mais ou menos assim.



P - Matavam pra comer então?



R - Pra comer, pra comer. Porque era um tucunaré fresquinho, não se perdia de jeito nenhum, aproveitava, sempre era pra comer mesmo.



P - O seu irmão contou que você era um campeão de tiro. Por que tem essa fama, era muito bom mesmo?



R - Olha; é porque era um divertimento pra nós. Na época não se tinha essa idéia, na se tinha essa conscientização de ecologia. Naquela época não tinham não se ouvia falar nisso. Então era um divertimento você sair com um rifle pra ir “passarinhar”, como nós chamávamos, pra ir pra ver quem é que matava mais. A gente fazia isso com a maior naturalidade. Não tinha essa consciência que hoje tem. Então nós saíamos pra fazer esses tiros. Então de tanto se praticar, praticar nós acabamos sendo assim um dos bons, entre outros que tinham também. Tínhamos, a gente sempre se sobressaia que matava mais. Depois reunia quem matou mais, outro matava dez, outro oito. Então fazia tipo um campeonato, pra tirar os pássaros, os peixes, era assim, era mais um divertimento mesmo. Divertimento.



P - E ainda hoje se for atirar você é bom ainda?



R - Olha; para falar a verdade faz um bom tempo que eu não pego em arma. Mas também agora com essa conscientização eu acho que não cabe mais, não vale a pena. Aquilo foi um momento na época. Agora eu acho que não vale a pena mesmo. Faz muitos anos que eu não faço isso. Eu não sei se acertaria, se conseguiria fazer um tiro certeiro, não sei, teria que ver.



P - Qual foi o seu recorde assim, qual foi o máximo? Uma história boa dessa época, conta pra gente?



R - Eu me lembro bem que uma vez nós estávamos fazendo um passeio desses atirando nos pássaros e tinha sempre um ou outro, ou até eu mesmo, que não gostaria de dar um tiro e, digamos assim, errar o alvo, porque ia passar vergonha na frente do colega. Então tinha um pássaro, um tucano, que estava muito distante, mas muito distante mesmo e ninguém queria atirar, ninguém queria arriscar porque depois o outro ia pegar no pé do cara. Então eu resolvi arriscar. Mesmo naquela “lonjura” e tal resolvi arriscar e foi um tiro certeiro, impressionante. Eu mesmo fiquei impressionado e consegui derrubar aquele pássaro. Então aquilo foi realmente uma façanha, todo mundo tal dando os parabéns e tal porque realmente estava muito distante, muito distante. Todo mundo estava com aquele medo de errar o alvo. Mas foi um tiro certeiro. Não é que se faz todo dia um daquele. Então foi uma façanha aquela.



P - Qual era a distância?



R - Acho que, talvez, uns 150 metros, 150 metros, mais ou menos.



P - Você tinha quantos anos nessa época?



R - Ah, tinha 14 anos, 14 anos de idade.



P - Você falou que foi para Manaus estudar, estudar o que?



R - Eu fui para terminar o segundo grau completo, concluir o segundo grau.



P - Conta uma coisa, estamos na terra do guaraná e como é que o guaraná entra na sua vida? Conta um pouco pra gente?



R - O guaraná eu fui produtor no período da minha juventude. Eu comprei alguns terrenos, dois terrenos, e consegui produzir guaraná por um bom período, portanto, eu tenho hoje assim um contato direto com o guaraná, mas a questão da produção foi nesse período de 22 anos, 25 anos produzia mesmo. Depois não deu certo. O guaranazal pegou não sei como pegou fogo e eu não consegui recuperar mais, abandonei os guaranazais. Mas hoje o guaraná é uma coisa muito presente na minha vida porque eu tomo ele desde os nove anos de idade, guaraná em pó. Ainda hoje, 46 anos, todos os dias a primeira coisa pela manhã quando acordo é o guaraná ralado. E eu digo pra você que eu me dou bem, eu me sinto bem com o guaraná porque eu não tenho dor de cabeça, dor de estômago, me alimento assim basicamente de tudo, não tenho problemas com estômago, dor de cabeça, nunca tomei um Sonrisal, nada não, não sei o que é isso. Me sinto bem, portanto, o guaraná é muito presente na minha vida, além de que na nossa economia do município também o guaraná é o principal produto da economia no município. Então de qualquer forma eu como comerciante sempre torço muito para que o guaraná dê bom preço, dê produção para que as pessoas possam melhorar a sua renda, principalmente produtores, aqueles que produzem, que trabalham que realmente suam a camisa para produzir o guaraná que dá tanto trabalho, então é muito presente nesse sentido. De que tanto faz tomando, como também a produção para que possa melhorar a renda das famílias, principalmente das famílias mais pobres, que trabalham com esse produto.



R - Você toma quantas vezes por dia?



P - Não; eu só tomo uma vez por dia porque o guaraná ele é energético, guaraná ele é muito forte. Então se você toma uma vez no dia, pela experiência que eu tenho, basta. Eu nunca senti nada, nuca senti nenhum problema, não sei, sistema nervoso, nada, nada, mas só tomo uma vez no dia.



P - Como é que é a preparação?



R - O guaraná em pó você coloca uma colher de sopa não muito cheia e o açúcar a gosto. Tipo quando você faz o leite Ninho, digamos assim, leite em pó, mistura o pó com o açúcar primeiro e depois vai colocando a água até chegar encher o copo. Mexe bem, açúcar a gosto e basta.



P - E pode fazer mal de alguma maneira o guaraná?



R - A experiência que eu tenho é que se você tomar duas vezes, três vezes ou muito forte, isto é, acrescentar muito pó ele faz mal, ataca o sistema nervoso. Até o coração, ele fica palpitando mais porque o guaraná você sabe que ele contém muita cafeína, teor grande de cafeína, portanto, não é bom que tome repetido, duas, três vezes. Por exemplo, existe guaraná que fazem em muitos lugares misturados com amendoim, não sei com o que. Mistura muita coisa, faz uma misturada. Eu tenho visto pessoas passarem mal e indo para o hospital porque aquilo ali realmente deixa de ser o guaraná puro, passa a ser uma mistura e aquilo eles prepararam muito forte porque muitos lanches. Maués mesmo, mas mais em Manaus que eu vejo que tem muito esse tipo de guaraná com misturas. Mas se você tomar ele como muitas pessoas tomam, como eu tomo, que é só ele mesmo o pó puríssimo com água, não tem problema nenhum. Você fica mais à vontade, você trabalha mais, não sente muito o peso, não sente aquele cansaço que normalmente sente. É isso que eu sinto quando eu tomo o guaraná.



P - Eu queria que você contasse pra gente alguma história, algum causo que você conhece que tem a ver com o guaraná ou então com a cidade, qualquer causo que você lembre agora.



R - Há muitos anos atrás chegou em Maués a agência de um banco. Pela primeira vez um banco foi instalado em Maués, uma agência bancária. Os funcionários vieram todos do sul, eram quatro funcionários. Vieram do sul do país pra trabalhar nessa agência. E teve um que foi experimentar o guaraná, teve um deles que foi experimentar o guaraná e ele tomou em um lanche em algum local lá em Maués, mas ele fez de uma forma muito forte, colocou bastante pó, o guaraná ficou muito forte e ele tomou. E quando ele foi trabalhar com meia hora ele estava se sentindo mal e a minha casa era bem vizinha a essa agência bancária e aí levaram ele lá para a minha casa e perguntavam o que ele tinha e ele estava muito tonto, querendo vomitar, sentindo enjôo. Disse que não tinha nada, que estava bem, que estava de saúde e tudo. “Mas não pode, alguma coisa você ingeriu, alguma coisa lhe fez mal, você tomou um líquido ou comeu alguma coisa que lhe fez mal.” “Não; não achei nada ainda, cheguei agora no banco.” E aí depois lembrou: “olha, o que eu tomei lá no local ta foi um guaraná, guaraná em pó.” “E em que quantidade você tomou?” “Duas colheres de sopa.” A pessoa tinha colocado em pó pra ele. Aí eu disse: “pronto, logo sabiam. Então é o guaraná.” Mas ele estava em estado de choque mesmo, querendo desmaiar. Aí nós tivemos que levar para o hospital pra ficar um pouco no período da manhã. Então esse foi um caso assim com relação ao guaraná. Era um gaúcho. Realmente ele exagerou, não sabia. O pessoal não deveria ter feito daquela forma. Então ele passou mal. Passou mal mesmo.



P - Só pra finalizar agora Apolo, o que você achou de ter participado dessa entrevista? Qual a sua impressão sobre isso?



R - Eu acho que vale a pena a gente contar nossas histórias, nossas raízes pra vocês que estão fazendo esse trabalho. Então eu acredito que assim vocês possam conhecer mais a nossa cultura, conhecer mais a história do Amazonas, a história de Maués e eu me sinto feliz de poder ajudar e colaborar nesse sentido porque as pessoas hoje dificilmente querem conversar ou querem ser abertas a outras pessoas. Então eu penso que nós, as pessoas que nos procuram nós devemos estar sempre pronto a esse diálogo, a essa comunhão. Estar aberto mesmo com as pessoas que nos procuram como foi no caso de vocês. Então a gente se sente feliz de poder estar podendo dar esse bate papo aqui e, quem sabe, para ajudar outras pessoas que também irão ver ou irão, não sei, ler alguma coisa a respeito desse trabalho de vocês.



P - Obrigado Apolo.



R - Obrigado.

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