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Atento ao comportamento sustentável 24 horas por dia

História de: Marcelo Morgado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2008

Sinopse

Marcelo Morgado narra como o tema da responsabilidade ambiental passou a fazer parte da sua atuação profissional, em meio a uma tomada de consciência dos impactos ambientais da indústria nos anos 1990. Reflete que a natureza do trabalho em favor do meio ambiente e da sustentabilidade dentro do meio corporativo e do terceiro setor deve ser prática, mas sem perder de vista a discussão de políticas públicas. Ressalta, porém, que há muito por ser feito ainda neste campo. Comenta que adotou hábitos sustentáveis em sua vida pessoal como padrão e relaciona este comportamento à sua história geracional, pessoal e a valores como a democracia e a justiça social. 

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História completa

Projeto Instituto Ethos

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Marcelo Morgado

Entrevistado por Júlio Bastos

São Paulo, 28 de maio 2008 C

ódigo: ETH_CB007

Transcrito por Augusto César Mauricio Borges

Revisado por Claudia Guarnieri 

 

P-  Então Marcelo, para começar eu quero que você me diga o seu nome completo, a data e o local onde você nasceu.


R - O meu nome é curto. É Marcelo Morgado. Eu nasci no Rio, em quatro de novembro de 1960, Rio de Janeiro.

P-  E qual é a sua formação?

R - Engenheiro químico, me formei no IME [Instituto Militar de Engenharia], em 1983.

P-  Hoje em dia você trabalha com o que?

R - Meio ambiente e um pouco com segurança, mas eu sou assessor de meio ambiente na presidência da Sabesp.

P-  E como que você conheceu o Ethos?

R - O Ethos está na mídia, está bem projetado. Sinceramente, eu nem lembro do primeiro contato. Eu creio que foi na Câmara Britânica. Nós fizemos contato, eu era o coordenador do comitê de meio ambiente e nós convidamos um dos coordenadores para fazer uma palestra. Assim de contato mais próximo, de ligar para o Instituto Ethos. Mas de ouvir falar é só estar antenado, o Instituto faz um ótimo trabalho então você tem a obrigação até de saber o que é o Instituto Ethos.

P-  E você me falou e me respondeu imediatamente que trabalha com meio ambiente. Como que foi isso na sua formação? Esse seu interesse como aconteceu?

R - Eu trabalhava numa multinacional, na Pilkington. Trabalhei lá 17 anos e meio. A trajetória de todas as corporações transnacionais levou-as, num determinado momento, a  se preocuparem com a questão ambiental. Um monte de pressões, né, isso é uma coisa bem sabida, essas pressões dos investidores, dos bancos, do público, da comunidade, o próprio despertar para a questão ambiental depois de tanto burrada aí que o pessoal fez, principalmente na indústria química. Acumularam-se passivos que tiveram um certo efeito bumerangue: parte dos impactos acabaram redundando em mais gastos. É sabido, por exemplo, que você compromete a qualidade da água como corpo receptor, mas ele também é o seu ponto de captação; então, de qualquer forma, esse despertar, acho que geral, afetou as empresas. As empresas maiores tiveram aquela preocupação também de manter uma postura mais ou menos homogênea nos vários países em que elas atuam, o que levou-as a traçar essas políticas corporativas. Decidiu-se que ia ter um gerente corporativo para o meio ambiente. Eu na época cuidava de qualidade e desenvolvimento, mas sempre fui muito ligado a essa questão ambiental, também no plano pessoal: montanhista, não gostava nada assim de muito radical não, mas gostava de fazer montanhismo e eu era de uma ONG ambientalista. Na época o diretor, que seria o chamado responding director, o cara que daria o apoio e o patrocínio para esse cara que seria mais o operacional, já bateu direto em mim. Falou: "Olha, você é um cara que tem interesse nesse tema. Tem vontade de trabalhar e de ser o nosso coordenador para esse assunto?" E era uma função em tempo parcial, mas acabou que, tanto pelo meu interesse quanto pelo crescimento do escopo da atividade eu virei gerente de meio ambiente logo. Eu era um cara coordenador, né? E depois eu também enveredei pela área de segurança; são duas áreas que tem uma sinergia e um vínculo muito forte. Basta dizer que um problema, por exemplo, de ruído é um problema ocupacional na esfera do trabalho, em ambiente intramuros. Saiu da cerca perimetral é poluição sonora. Então a ação, que é normalmente atuar na fonte, resolve o problema tanto para o funcionário como para a comunidade. É a mesma coisa com o odor, tem uma ligação. Eu venho atuando desde 1990, 1991 com isso. Mas sempre fui muito sensível a esta questão no Rio, por exemplo. De lá eu lembro de quando eu era adolescente, do Programa para Plantar Árvores na Reserva do Grajaú. Fomos eu e a minha irmã, sempre ligados, gostando disso.

P-  E como foi a saída? Você lembra de algum episódio marcante?

R - Eu lembro. Eu lembro porque foi a decepção total. O colega que foi lá era até colega de turma do presidente da associação de moradores. Organizou e teve, claro, uma busca, uma propaganda do evento, uma chamada geral, com uma mobilização muito fraca; mas isso não era desculpa para termos eu, ele e a minha irmã saído, sendo que ele se mandou porque tinha um outro compromisso. Tinha umas enxadas, eu e ele que ficamos ajudando. Então se a gente fizer um retrospecto, isso foi do início da década de 1980 para cá, acho que hoje tem muito mais engajamento, embora eu seja um crítico como membro do movimento ambientalista; eu não sei nem se isso vai ficar gravado, é até chato, eu fui até um pouco hostilizado num determinado momento por isso, mas eu procuro ser bem franco  e não tem problema nenhum falar aqui. Não estou ofendendo ninguém, mas ainda há muita distância entre discurso e prática, ainda há muita ação, principalmente nas ONG's [Organizações Não Governamentais] que as pessoas são mais aguerridas nisso de usar aqueles velhos recursos: fazer revistinha, seminário, encontro e vai todo mundo, as  mesmas pessoas. Não é crítica a esse encontro particular porque aí você vê uma cara diferente, internacional, é bom, tem que ter um fórum, mas você não pode ficar vivendo de fazer isso porque se fosse isso que resolvesse os problemas do Brasil estavam todos resolvidos; nós temos um encontro e seminários diariamente sobre este assunto. E acho também que esse negócio de ficar fazendo jornalzinho, revistinha, também não é muito a saída. A nossa ONG, por sinal, não é ligada nessa questão da criação, concepção, de projetos. Nós temos uma cara um pouco diferenciada, nós buscamos participar da formulação das políticas públicas, opinando. É um grupo todo de pessoas que estão lidando com o meio ambiente sob o ponto de vista profissional. Então, a gente procura usar um pouco da nossa bagagem, experiência, conhecimento acadêmico, sempre tem alguns professores. Eu falo isso do ponto de vista, digamos, de cidadão, porque eu trabalho com meio ambiente, eu procuro ser voluntário numa ONG, e no lazer eu gosto muito de montanhismo. Então são 24 horas por dia ligado ao meio ambiente.

P-  É. A prática não pode ser a reunião. A reunião que tem que organizar a prática.

R - Tem que ter o desdobramento, tem que ter algo prático. Eu sou fã, acho que tem que todo mundo sair e fazer mutirão de catar lixo, claro que isso daí é um pouco, às vezes, meio sonho porque tem uma série de dificuldades. Não vai sair na Paulista catando lixo ____________ mendigo. Eu até vou confessar um negócio: eu estou ficando tão fanático nesse negócio de diminuir pegada ambiental que às vezes eu vou para algum lugar e se eu vejo uma lata... eu não procuro catar todo o lixo porque se não eu vou ficar maluco, mas de uns tempos pra cá, de um ano pra cá, eu estou ficando... Acho que já estou virando "eco-xiita" [risos]. O pessoal lá de casa até fala: "Nossa, você está ultrapassando as barreiras do razoável". Mas eu, por exemplo, se vejo pet, lata de alumínio e fio elétrico no chão eu tenho hábito... E a minha equipe, o meu departamento lá onde eu trabalhava ficou também fanático. Pra você ter uma ideia, a minha ex-secretária está fazendo Engenharia Ambiental, o outro técnico, Engenharia Ambiental. Eu acho que a gente vai ficando meio missionário  do meio ambiente, né? E eu conheço gente até muito mais. Eu tenho alguns heróis. Eu tenho um amigo meu professor do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] que em um hábito que eu acho fantástico: ele enxuga a mão e coloca o papel no bolso, seca e usa de novo. Então ele reutiliza o papel, isso é fantástico. Eu procuro reciclar esse papel. Agora reusar é melhor, é o segundo "R", né? Então você vê que tem muita gente querendo fazer diferença no mundo, dormir tranquilo, contribuir para as próximas gerações.

P-  Poxa, que legal. Muitas histórias boas, hein.

R - A gente vai vendo e procura cobrar muita coerência, cobrar que seja "ecochato". No nosso grupo mesmo a gente tem, às vezes, essas discussões entre visões mais pragmáticas, visões mais radicais. O engraçado é que a visão radical das pessoas muitas vezes não é naquilo que importa, não é o prioritário. É claro que na medida em que você faz a sua parte, que nem na campanha do 2001, no "apagão" - para todo mundo foi bem compulsório. Não era porque era ambientalista de carteirinha, mas as pessoas apagavam a luz ao sair. Tinha que fazer se não a luz era cortada. Passou um pouco dessa pressão e hoje você vê absurdos. Eu mesmo sou um dos últimos a sair de onde eu trabalho e vou apagando  a luz e vou convencendo o pessoal que tem que fazer. Tem que trabalhar muito na educação. É fundamental, senão o mundo não muda.

P-  E como que você vê esse alinhamento da sua atuação com as ações do Instituto Ethos? Em que ponto eles convergem mais?

R - Eu sou muito mais digamos apaixonado, obcecado, pela questão ambiental, mas sou supersensível à questão social. Talvez até mais pela minha geração, não peguei 1968 pelo  que estou falando, mas peguei aquela paúra generalizada da ditadura, experiência que marca. O pessoal lá de casa, a minha mãe pegando os discos de música clássica, aqueles Lps [Long Play] grandes. Como era do Tchaikovsky,  um __________ fosse. E a gente quebrando tudo, a gente sapateando, brincando de pular em cima dos discos do meu pai. Todo mundo tinha medo, foi um clima de medo que a gente viveu. Na escola, no colégio. Eu estudei numa escola modelo no Rio, o Colégio Aplicação. Mas eu me lembro que a gente foi obrigado a marchar na quinta da Boa Vista porque um professor de física era capitão do exército; e tinha um negócio lá que alguns professores foram presos, foi um pouco antes, uns anos antes, mas foi um clima de medo. Então, essa discussão de trabalhar com esse tripé, você pode falar que a sustentabilidade tem um tripé social, econômico e ambiental. Mas tem que ter um fundo, a base de tudo é a democracia. Se não tem liberdade os avanços são muito difíceis. O caminho é a democracia, você tem um tripé. Eu acho até que falta colocar isso: a questão da liberdade de todas as formas de expressão, opinião. O que eu digo, até como um depoimento para a minha geração, é que incluindo a questão ambiental nós, que somos filhos de Monteiro Lobato - todo mundo que fala, todo mundo que lê Monteiro Lobato -, mas nós fomos criados, apaixonados pelo Brasil, patriotas, acreditando que a vinda da democracia era a panaceia, e os nossos problemas estavam resolvidos e  foi um engano. Nós estamos apanhando ainda hoje...hoje em uma situação um pouco melhor, mas o mundo está vivendo sob as ameaças do aquecimento global, um cenário aterrorizador.

P-  Você voltou um pouquinho aí no final da década de 1970 e começo dos 1980 e como que você vê então essa história da sustentabilidade dessa época pra cá? Quais foram os marcos, as coisas que você se lembra que ou inauguraram  essa participação ou que foram trazendo essa preocupação à tona. Você se lembra?

R - Eu vou dizer tudo do meu ponto de vista pessoal. Percepção é a realidade, né? Você sente o mundo pelos seus olhos. Eu lembro que o que me marcou bastante, além do meu pai que influenciava e se preocupava com meio ambiente, com árvore, coisa assim já autêntica, foi um livro, era Ameaça Invisível. Não, foi aquele livro famoso. Não. Era A Ameaça Ecológica. Um livro que marcou época foi daquela bióloga americana que foi super perseguida e agora deu um branco. Esqueci. Mas de qualquer forma já fez a minha cabeça. Aí eu começo a me interessar pelo meio ambiente. A gente faz tanta digressão que até perde o rumo. A gente também acompanha, a gente também é levado pelo todo porque você tem a sociedade caminhando junto, né? Todo mundo mais preocupado com o meio ambiente, com valores democráticos, com combate à corrupção que é um negócio que a gente está patinando hoje vergonhosamente como país, né? Eu falo como país porque não adianta ficar culpando os caras de Brasília, os políticos. Nós estamos em ano eleitoral, somos nós que elegemos. É ledo engano pensar que nós não somos parte do todo e que nós cumprimos o nosso dever de cidadão nesse aspecto, clicando o nosso voto na urna eletrônica. Então os principais momentos que eu diria, antes até de falar dos principais momentos... Falando assim de uma trajetória como um todo, eu vejo avanços e vejo retrocessos. Eu lembro que quando eu era pequeno tinha umas freirinhas lá perto de casa e elas pediam pra gente guardar aqueles lacres das garrafas de leite. Então hoje na Inglaterra ainda a garrafa é aquela tradicional, ___________ de leite. Nós hoje estamos na embalagem longa vida e, apesar dos esforços dos fabricantes, o percentual de reciclagem é muito baixo. E eu sou do tempo que se usava uma garrafa de leite com o lacre, o Brasil não produzia tanto alumínio, que é uma coisa também super impactante, intensiva em energia, e as freirinhas precisavam lá para ajudar não sei que pobre e a gente lembrava de guardar. O saco de supermercado era de papel, era um negócio super alto.


P-  Isso até eu lembro. [risos]

R - E que quando molhava era um problema que ia soltando as coisas. Eu lembro de minha mãe ir comprar e hoje _____de sacolinhas. Então, muita coisa a gente perdeu. A gente se preocupava. Desperdício de comida. E aí fazendo uma análise do fundamento disso: muita influência americana. Eu sou do tempo que a gente aprendia francês na escola, tinha mais influência européia e não sei o quê... O europeu passou por guerra e aí eu fui fazer uma análise psicológica dos povos, dessa psique coletiva. Passou por guerra, passou fome, você tem uma visão diferente do mundo. Você pega a nossa classe média com valores americanos, de desperdício. Eu já fui diversas vezes aos Estados Unidos e até em conferência de meio ambiente, era tudo descartável. Nem a latinha sobrava, eu não acreditava no desperdício…. E hoje isso está entrando, permeado toda a nossa sociedade  e mudando os nossos valores. Então quando eu falo de meio ambiente até sob o prisma da  nova legislação, eu encontro patrimônio histórico como ________________. Eu sou fanático, até saudosista da arquitetura do passado, eu gosto. Eu vejo essa questão cultural. Para você ter uma idéia todo mundo adora  música estrangeira. Eu ignoro, não é nem só ojeriza. Eu não conheço nem os nomes, eu não sei. Se me falarem: "Cite uma música dos Rolling Stones" eu não sei. Não é nem questão de gostar. É a mesma postura que eles têm às vezes com a nossa música. "Não ouvi, não gostei". Eu tenho um pouco com relação à música estrangeira. Eu criei o hábito. Só ouço Nova FM, música brasileira, MPB. Acho que é a melhor música do mundo  e acho que a gente está desvalorizando e pegando essa criançada que não sabe nem falar. A gente organizava passeios ecológicos infantis todo ano lá onde eu trabalhava. Com dois ônibus, às vezes três. Dezenas de crianças, experiências para elas fantásticas. A primeira vez numa trilha, a primeira vez num barco, a primeira vez num trem, principalmente a criançada mais urbanóide da capital. A gente fazia isso. E às vezes eles pediam: "Ah, coloca música ambiente lá no ônibus, liga aí o rádio, ‘Motô’, liga o rádio". A gente colocava numa música de qualidade, e perguntava quem era Maria Bethânia; não sabem quem é. Aí eu falava: "O mundo está perdido, né? Não tem futuro". Mas não é bem assim.  A gente tem que trabalhar a criançada para ter futuro.

P-  Falando em futuro você fez uma lembrança muito legal aí desses 20, 25 anos. Pensando em futuro, tanto nesses dois níveis da sua atuação mesmo pessoal, da sua empresa, pessoal e profissional, quanto das grandes empresas ou das redes de empresas como o Instituto Ethos mobiliza, quais são os desafios. O maior desafio para cada uma dessas esferas? Tanto pra você pessoalmente quanto para uma ação mais global?


R - Eu acho que para as empresas é tentar inserir a questão ambiental no negócio em todas as atividades operacionais e administrativas. Trabalhar com números, indicadores do sistema de gestão. Ou seja, uma forma sistemática, objetiva. A ISO 14000 é um bom guarda-chuva pra isso, mas que ela seja algo realmente posto em prática para todo mundo fazer a sua parte. Na área da divulgação tem muito campo. Aí eu falo só das empresas industriais, que são as maiores consumidoras de recursos naturais geradores. Mas isso tem que envolver obviamente o  comércio, setores de serviços, hotelaria que estão até, acho, um pouco defasados. Eu acho que a indústria química, a responsável por mais problemas, foi a que primeiro tomou vergonha na cara e teve as iniciativas, atuação responsável e aí foi disseminando. Esse papel de você levar mensagem para vários públicos é importante, mas que seja uma coisa genuína, que não seja propaganda enganosa, que não seja marketing institucional. Leva a imagem lá no alto, mas com pés de barro. E no plano pessoal eu acho que dada a situação do mundo a gente tem que trabalhar firmemente e ser meio um missionário, às vezes até um soldado, não do ponto de vista  muito agressivo. Eu agora estou trabalhando na Sabesp. Eu vejo alguém lavando calçada, o que é uma coisa absurda, que é proibida em vários países do mundo num cenário de escassez crescente de recursos hídricos, eu já vou falando. Eu, antes, até tinha, por ser um cara introvertido, um pouco de receio de abordar. Procuro abordar numa boa, mas não deixo de passar isso. Até o nosso presidente nos cobra que nós sejamos agentes ambientais, ou seja, não dá pra você ser um cara que segue as regras do jogo internas, normas, procedimentos de uma forma mecânica internamente; e quando vai para a sua casa, para o lazer, para o trânsito, você não se preocupa com segurança, não se preocupa com o meio ambiente. E a gente sabe que hoje em dia uma empresa não pode ter sucesso e chegar à excelência se ela é só boa financeiramente ou só boa pela qualidade dos produtos. Está tudo conjugado e tem uma sinergia muito forte. Então eu procuro fazer a minha parte e vou continuar fazendo. Agora, se eu estou hoje otimista ou pessimista: eu diria que eu estou bastante pessimista. Eu vou estar um pouquinho mais otimista quando o Bush sair e, se Deus quiser, entrar um democrata, um cara um pouco melhor na presidência americana, porque é o país que faz diferença no mundo. O que eu digo é o seguinte: eu sou engenheiro, acho que tecnologia é a forma, eu não sou ecologista romântico, eu acredito em tecnologia para resolver os problemas do mundo. Assim como a tecnologia, a revolução industrial, criou o CO2 que a gente ainda respira, desde lá das  primeiras máquinas a vapor do James Watt, mas eu acredito em tecnologia. Mas eu acho o seguinte: se não mudar o comportamento de consumo, se as pessoas não  abdicarem de algumas coisas, conforto, qualidade ou de um falso conforto, não resolve. E também se não resolver o problema da explosão demográfica. São duas bombas. Mais gente nascendo e mais gente querendo mais um padrão de consumo melhor. O planeta não agüenta outra China, não aguenta outro Estados Unidos.

P-  Marcelo, você quer falar um pouco mais das suas expectativas? Quer falar de alguma coisa que a gente não tocou ainda?

R - Uma mensagem no final? Nossa, eu já tive mais esperto. Bem, a mensagem que eu deixaria pra quem vier a me ouvir em algum momento é procurar parar, refletir, entender o seu papel no mundo não só no momento atual, mas entender que o que você faz hoje tem consequência, tem consequência para você e para quem vier depois de você. A humanidade, até por eu ser agnóstico, acreditar numa presença humana como um animal, animal que teve a chance de evoluir, galgar tantos degraus na escala da evolução nos torna particularmente responsáveis pela qualidade de vida. Não falo só humano, mas de todos os seres vivos nesse planeta, né? Não tem  outro planeta habitável num raio de milhões de anos luz. Não dá pra montar uma arca de Noé pra levar todo mundo pra outro lugar e então a gente tem uma obrigação que não se estende só à espécie humana ou só às próximas gerações. É uma obrigação de um ser racional que pode pensar, e que pensando pode agir de forma melhor. E a forma melhor é buscar os valores democráticos, buscar os valores da justiça social e os valores de um ambiente sadio para todo mundo.

P - Legal. E o que você achou de falar um pouquinho, contar um pouquinho da sua trajetória pra gente?

R - Foi meio como ir no divã, né? [risos]

P - Tá bom Marcelo. A gente quer agradecer em nome do Museu da Pessoa e por você compartilhar com a gente essa parte da sua história.

R - É parte da ideia de fazer diferença. Compartilhar.

P - Obrigado.

R - Obrigado você.

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