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História

Atenta aos sinais

História de: Marcia Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2018

Sinopse

Marcia transborda uma calmaria confiante. Parece, com o olhar, responder suas demandas e passar uma confiança de que tudo será resolvido. Prestativa, está sempre em alerta, em busca dos sinais da vida. Não à toa. Por necessidade, se entrega à carreira de secretariado, o que rendeu a oportunidade de aprender inglês, indo estudar fora. Mais tarde, por uma questão de destino - divisão do andar com outra empresa -, recebe uma nova proposta de emprego, daí para frente, se deslanchando e se encontrando na profissão. O encontro com a Marcia da infância traduz a sua personalidade: nos dias de pescaria com o pai, lá ficava ela, sem se importar com o silêncio, apenas à espera da fisgada e o primeiro sinal de que ali estava seu objetivo cumprido, à espera do seu puxão. Marcia, sem dúvida, sabe ler a vida.

História completa

A vida é eclética e nos leva a situações que você nunca espera. E numa dessas eu fiquei sem emprego - e sem emprego, como que eu podia estudar? Para continuar estudando, eu passei a ser o que eu sou hoje: secretária. Saí da área de Informática e comecei como secretária júnior fui galgando, galgando; eu queria trabalhar com Comércio Exterior, área que me formei, mas eu não falava inglês. Então fui estudar Secretariado.

 

As vagas de emprego saíam nos jornais, de secretária júnior, sem experiência. Comecei a trabalhar em escritório de Advocacia, em consultório dentário, e assim foi. Você vai fazendo a sua história, fazendo seu currículo pra partir para coisas maiores. Depois fui pra banco, aí eu fui trabalhar como trainee no BNL, na Banca Nacionale del Lavoro, e eu lembro que, na época, eles iam me dar curso de Italiano e Inglês.

 

Quando eles me efetivaram, a Odebrecht me chamou de volta, onde eu cobria férias e licença maternidade de uns funcionários. Foi quando a minha história começou a  ter um pouco mais de peso. Eu já tinha estudado, feito Inglês, mas ainda era secretária sênior, não tinha nenhum plus. E eu tinha um chefe que era um senhor já, ele já tinha 40 anos de CBPO que era Companhia Brasileira de Projetos e Obras do Grupo Odebrecht e era uma pessoa muito boa. E eu sempre dizia pra ele que eu só conseguiria falar Inglês se eu tivesse uma oportunidade de estudar fora do Brasil. Eu falei pra ele: “Mas eu nunca vou conseguir, porque eu preciso trabalhar, eu não posso fazer isso!” “Você quer?” “Eu adoraria!” “Então você vai juntar duas férias e eu vou deixar você estudar fora!”

 

Foi nesse momento que eu ousei. Eu tinha comprado um carrinho na época, que era um Escort Hobby e era o meu xodó. Decidi: “Eu vou fazer isso: vou juntar duas férias, agora, como eu vou fazer pra pagar eu não sei”, porque era muito caro. O quê que eu fiz? Eu vendi tudo. Vendi meu carro, vendi coisas que eu tinha e era exatamente o valor que eu precisava para pagar o meu curso lá fora e eu fui. Eu fui para Atlanta, fiquei lá estudando por dois meses e eu conversava muito com meu chefe por e-mail, na época, isso foi em 1997, e ele falava: “Nossa, acho que tem alguém não querendo voltar para o Brasil!” “Doutor Bueno, acho que eu não quero voltar mais, mesmo, aqui é muito bom!”, mas eu voltei e aí, as coisas começaram a acontecer.

 

Trabalhava num prédio da família Oscar Americano e aquele prédio todo era do Grupo Odebrecht e eu lembro que alguns andares foram vagando e foram tendo umas reestruturações e nós fomos para um determinado andar, muito pouco habitado. E o Grupo Odebrecht tinha muitas joint ventures com outras empresas de outros ramos de atividades e uma delas que veio a ser no período em que eu estava nesse andar, foi uma empresa de celulose que se juntou com o Grupo Odebrecht, que era um grupo sueco que se chamava Stora Enso. A Stora Enso veio e ficou naquele andar e o presidente, Anders Borg, ficou numa sala em frente a minha. E todo dia ele passava pela minha sala e falava: “Hello, good morning”, e eu falava: “Hello, good morning”, tímida, e eu tinha acabado de voltar de Atlanta! Todo dia, ele me convidava pra tomar um café e eu agradecia, porque eu pensava: “Nossa, como que eu vou falar com ele?”, e depois de um mês, nesse bom dia dele, ele falou assim: “Eu queria falar com você um pouco hoje, você aceita?” “Aceito!” “Pode ser na minha sala?”, ele não falava português. Aí, eu perguntei pra ele assim, com vergonha, mas eu já falava um pouco: “É sobre o quê?” “É um convite.” Depois do almoço, eu fui lá na sala dele. Ele começou a conversar comigo que gostaria muito que eu fizesse parte daquela nova equipe. “Mas eu não falo Inglês!” “Não fala Inglês? E nós estamos falando o quê?” “Mas a gente tá aqui numa conversa informal, como vai ser o meu dia a dia?”, ele fez: “It doesn’t matter”, nunca me esqueço. E aí, ele falou: “Você aceita? Would you like to join us?”, eu falei assim: “Eu aceito, mas eu tenho o meu chefe aqui.” “Mas eu falo com o seu chefe, eu peço pra ele!” E assim foi, ele falou com o meu chefe e o meu chefe ficou muito feliz, ele parecia um pai. Ele falou: “Eu tô feliz…”, eu fico até emocionada porque ele foi um precursor que me deu oportunidade de estudar fora e foi por essa oportunidade que as coisas aconteceram.

 

Claro que eu estava no lugar certo, na hora certa, mas se eu não tivesse pronta eu não teria como aceitar esse convite. Ele podia até ter simpatizado comigo, mas se eu não tivesse o preparo, eu não poderia. E foi muito bacana porque o meu chefe falou: “Você vai continuar fazendo parte da Odebrecht, só que lá é outro CNPJ, é outra empresa e ainda mais, eu vou te mandar embora para você receber os 40%, todos os seus direitos e você vai ser registrada lá, e ainda assim vai dar continuidade às suas férias, mesmo você não tendo um ano lá de Stora Enso, eu já falei isso com o Anders e eu quero que seja assim pra você”, e assim foi.

 

Eu tenho certeza que eu estou hoje na Allergan por eu ter sido ousada, por eu ter tido oportunidade. Mas, acima de tudo, eu quis. As pessoas vão e vêm, mas ao mesmo tempo que elas vão e vêm, a vida não volta, ela não retroage e  de certa forma, elas têm que seguir, é cronológico, ir em frente. E na empresa também é assim, as pessoas têm os momentos difíceis, mas o que passou, passou. As coisas só avançam, se modificam e se reestruturam. E a vida lá fora é a mesma coisa. A vida vai pra frente, ela se transforma, ela se reestrutura, ela muda de cenário, aqui muda de cenário e lá fora também, você querendo ou não querendo. Você pensa: “Ah, tô numa empresa, tô com aquela minha sala, só porque eu entrei aqui daquela forma vai ser assim”, mas não, não é assim. O mundo muda, as coisas mudam. Eu aprendi que se adequar às novas situações, aos novos momentos na vida é extremamente importante e também faz crescer.

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