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História

Atender com gentileza

História de: Roberto Carlos Bezerra Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Roberto lembra em seu depoimento da infância pobre na cidade de Bacabal, no Maranhão. As histórias e as brincadeiras da infância são lembradas por ele com nostalgia. Recorda a mudança para casa dos tios na sede do município, motivada pelo desejo de continuar estudando. Recorda os empregos que teve ao longo de sua juventude e a migração para Monte Dourado em busca de melhores condições de vida e trabalho. Conta como ingressou nos Correios e o trabalho que fazia e ainda faz, atendendo os clientes com toda gentileza.

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História completa

Roberto Carlos Bezerra Oliveira, nascido em 17 de junho de 1979, Bacabal, Maranhão. Eu fiquei em Bacabal até os 18 anos. Meus pais e meus avós maternos também são de lá. Meus avós paternos são descendentes de cearenses. Naquela época o Ceará estava com muita dificuldade, eles foram procurar uma vida melhor e ficaram lá no Maranhão. O meu avô, por parte de pai, ele fundou vários interiores lá no Maranhão: Vertente, Santa Luzia e o nome dele era Regino. Aí ele terminou fundando o Centro do Regino, até onde ele ficou bem velhinho, e depois que ele foi embora para outra cidade chamada de Pio XII, no Maranhão também. Ele trabalhava na roça. A minha avó era dona de casa, cuidava dos filhos que eles tinham. Os pais da minha mãe moravam bem próximo lá também, mas o convívio mesmo foi pouco porque o meu avô por parte materna morreu muito cedo. Ele era vaqueiro. Aí ele pegou uma chifrada de uma vaca, não se cuidou, virou câncer e ele morreu. A minha avó já morreu bem depois. Ela se aposentou, ficou lá na cidade. Meus pais se conheceram por acaso lá. É que uma prima da minha mãe casou-se com um irmão do meu pai. Aí minha mãe foi visitar a prima dela e conheceu meu pai, no interior.

Aí começaram a namorar e terminaram casando. Nós somos quatro filhos, eu sou o mais velho. Quando eu conheci Bacabal já era bem desenvolvida já. Hoje tem mais de cem mil habitantes e já era bem desenvolvida, mas de uns dez anos para cá desenvolveu bem mais. É uma cidade, onde tinha várias cidadezinhas pequenas ao redor e às vezes naquelas cidadezinhas pequenas não tinha o que Bacabal tinha, como supermercado bom, loja para vender eletrodoméstico, essas coisas assim. O pessoal ia para lá para fazer essas compras. A minha mãe era funcionária da Prefeitura e todo mês ela ia receber o dinheiro dela e a gente ia. Às vezes eu ia com ela. Minha mãe era merendeira. Trabalhava de merendeira na escola no interior, na Escola Municipal São Francisco. O meu pai trabalhava de roça. Ele ainda tem terra ainda. Hoje ele está aposentado.Minha casa era na roça e feita de taipa. O material é barro amassado, a gente faz tipo uma cercazinha do talo do coco, aí coloca o barro amassado dentro e deixa secar. Aí já é uma parede. É chamada casa de taipa. Hoje a casa do meu pai é de alvenaria. A casa tinha dois quartos. Eu dormia com meus dois irmãos e a irmã. Meu pai, ele era daquele modo antigo ainda. A conversa dele era pouca. Senão respeitasse ele metia porrada mesmo e a gente vivia assim.

A gente respeitava muito ele e tinha muito medo dele. Mas ele também não deixava faltar nada dentro de casa, não. A minha mãe era mais calma dentro de casa. E trabalhava nessa escola e ajudava ele na compra das coisas. Ele só conseguia colocar o arroz, o feijão, a fava, o milho. Ele vivia da roça e os derivados da roça, abóbora, essas coisas. Tinha ano que quando a safra era ruim, não dava nem para gente acompanhar outra safra, aí tinha que comprar. Aí ele dava um jeito. Ele tinha criação de gado, ainda hoje tem. Aí ele vendia uma, duas cabeças de gado e comprava aí de arroz, feijão, aí completava o resto do ano.Tivemos uma infância com dificuldade, não passava fome, mas era bem regrado mesmo. A gente jogava muito bola. Gostava muito de jogar bola e brincadeira com as outras crianças também. A gente brincava de bandeira. Bandeira é dividir um determinado terreno e para um lado fica um time, para um lado fica outro.

Aí punha um pedacinho de pau de um lado e do outro. Esse time tem que pegar aquele pau lá sem esse daqui tocar. O objetivo era pegar a bandeira e trazer para o terreno e quando conseguisse passar já é um ponto. Eu estudei lá, numa cidadezinha próximo. A escola era bem próximo de casa. Eu ia sozinho. Era bem próximo, lá não tem carro lá. Minha a mãe era merendeira nessa escola. Ás vezes dava briga na hora da escola com as outras crianças, disputando a merenda. Às vezes dava briga e porrada, mas era coisa de criança mesmo, ninguém tinha raiva um do outro não.  Um queria mais, um jogava merenda no outro às vezes, por querer, às vezes sem querer, o outro reagia. Onde eu morava era pequeno, era uma vilazinha com umas 25 casas e tudo, e era só família. Era não, é ainda só família lá.

Eles têm uma herança que meu avô por parte de pai deixou, aí ficaram os filhos lá, foram tendo outros filhos, netos, uns foram embora. Na merenda era mingau de milho, sardinha. Era cada dia era um tipo. Tinha dia que era mingau de milho. Era um mingau que tinha uns carocinho, que esse era o mais cobiçado, era o mais gostoso. E também eles faziam a sardinha com arroz branco, macarrão. Era esse tipo de merenda. Biscoito com suco, às vezes. Eu gostava muito de estudar. Eu não faltava e eu gostava de estudar mesmo. Terminado a quarta série, não tinha mais como estudar lá, eu fui estudar numa cidadezinha próxima. Aí eu lembro dessa professora que quando eu cheguei lá na escola eu era muito pequeno ainda e eu não conseguia levantar a cadeira para colocar na sala. E eu estava tentando levantar a cadeira, aí a professora disse assim: “Ajuda o coleguinha que o coleguinha não consegue levantar a cadeira”. Aí o outro aluno já bem maior, pegou a cadeira e colocou para mim lá. Eu nunca esqueci essa cena. Aí eu me identifiquei com ela, com a Dona Luzia. Ela já lecionava da quinta série para cima.Eu ia para outra cidade de ônibus. Eu acordava cinco horas da manhã, colocava minha roupa dentro de um saco plástico para não molhar. Aí eu andava quatro quilômetros a pé, pegava o ônibus e andava mais uns dez quilômetros de ônibus, e quando era para voltar eu voltava o trajeto todinho a pé.

Chegava em casa por volta das 14 horas, às vezes sem tomar café, sem nada, porque não tinha às vezes. Quando a mãe tinha uma moedazinha ela dava para gente chupar um chup, que lá no Maranhão é chamado de dim dim. E aí a gente chegava em casa, quando terminava de almoçar ia para roça ajudar o pai. A gente limpava, fazia a derruba. Limpava, plantava, ficava fazendo limpeza até o arroz crescer. A gente colhia o arroz, armazenava, esperava ele secar e batia ele. Aí trazia para casa e armazenava em casa. Aí ficava pilando ele.Eu fui morar em Babacal, na casa do tio Alexandre. Foi ruim e foi bom ao mesmo tempo. Foi ruim porque morar na casa dos outros era constrangedor. Eu dormia no corredor. Todo mundo que passava me sacudia, porque eu dormia numa rede, eu batia do lado da parede. Fiquei três anos lá. Aí logo eu comecei a trabalhar também para ajudar nas despesas dele e mandar dinheiro para mãe. Eu comecei estudar de manhã, e no ano seguinte eu transferi para noite para trabalhar de dia, em depósito de material de construção. Eu entregava telha, tijolo, areia, pedra brita, essas coisas. Era um depósito, eles vendiam e a gente entregava no carro. Eu era ajudante deles lá.

Eu trabalhei dois anos lá. Aí foi que eu terminei o segundo grau.Eu tenho um primo que veio para Monte Dourado. A gente tinha combinado de ir para Manaus, que ele é formado em administração e quando ele arrumasse um emprego, ele ia me chamar para alugar um quarto porque era para gente morar junto e eu ver se eu conseguia arrumar um emprego. Ele veio para cá em agosto de 98. Em outubro ele conseguiu fichar na Cadan que é uma empresa que faz caulim. Aí em Fevereiro de 99 ele me chamou para cá. Aí eu vim, fiquei com ele. Já trabalhei em várias empresas aqui. Trabalhei no Supermercado Pague Pouco. Lá eu era repositor, pegava mercadoria lá no depósito e colocava nas prateleiras. Depois eu passei para motorista e depois para fiscal de caixa. E aí passei quase três anos no supermercado, eu fichei numa empresa que trabalha para Jari. Ela é quem fazia a limpeza dos eucaliptos. Eu arrumei na NDR, eu era chefe de turma. Tomava conta de 50 peões no ônibus, tinha dois encarregados. Eu era encarregado de turma. Eu senti muita dificuldade nesse emprego. Porque os peões bebiam cachaça, vamos supor, no domingo aí iam ressacado na segunda trabalhar e não queriam trabalhar, um problemão.

Eu trabalhei oito meses só lá. Eu saí porque acordava muito cedo. Acordava quatro horas da manhã, chega só 18 horas em casa, 18, 19. Era muito puxado. Aí eu saí de lá, fui trabalhar na Canto Engenharia, que mexe com construção civil, lá no Munguba, lá prestando serviço para Cadan. Trabalhei de motorista lá quase três anos. Morava no Planalto já essa época, que é onde tem o aeroporto aqui. Depois senti muita dificuldade no deslocamento na ida e na vinda. Aí eu mudei para Vitória do Jari. Nessa mudança, eu trabalhando na Canto, aí me chamaram para trabalhar em outra empresa, que mexe com a extração do caulim. Eu pedi para sair dessa Canto e ia trabalhar nessa outra empresa, mas aí o pessoal da prefeitura me chamou lá de Vitória do Jari, para trabalhar com eles lá no Fórum, prestando serviço no Tribunal de Justiça do Amapá. Eu fui trabalhar para lá. Aí a prefeitura começou a atrasar o pagamento depois de dois anos e pouco, aí eu saí. Aí eu fiz o concursos do Correios.Aí um dia eu fui nos Correios deixar correspondência lá em Vitória, o rapaz lá me disse: “Olha, saiu o edital do concurso dos Correios”.

Aí eu fiz e passei. Eu fui trabalhar em Vitória mesmo. Trabalhei.  Na prova caiu muita regra de três, equação de segundo grau. Eu percebi que eu ia passar porque era aquilo que eu tinha revisado. Aí fui o primeiro colocado no concurso. Quando eu cheguei lá eu comecei trabalhar de carteiro também, porque tinha um gerente. O gerente gerenciava e atendia. Era unipessoal a agência. Não tinha carteiro. Aí eu ia para rua entregar. Passei três meses entregando. Eu gostava de ser carteiro. Porque não é um serviço repetitivo, está sempre interagindo com as pessoas. As pessoas te procurando e assim, você está sempre vendo novidade e aí está acompanhando o movimento da cidade também.Uma vez eu fiquei chateado porque a bicicleta caiu dentro da água, com as cartas, com tudo também. Quando a gente vai deixar a carta, a gente põe o tripé da bicicleta. Aí eu fui colocar o tripé ela escorregou numa brecha da ponte e virou e caiu dentro da água. Uma criança pulou na água e apanhou para mim. Eu estava de sapato, não tinha como pular na água. Levei lá para agência, coloquei para secar e entreguei depois. Ficou direitinho, não rasurou não, porque só molhou, não deixei esfregar uma na outra.

E tinha bem pouco, já estava no final do distrito. Eu trabalhei três meses de carteiro, aí eu fui efetivado, o rapaz me entregou a agência para gerenciar. Porque eu já tinha feito para atendente, ele me passou as instruções lá e eu passei logo para gerenciar, porque ele foi embora. Atender e gerenciar ao mesmo tempo. Eu atendia ao público, depois ficava fazendo serviço interno. Ás vezes eu ia para rua entregar Sedex. Era muito puxado. Eu só saía de lá 20 horas, 21 da noite. Acontecia do cliente chegar e dizer: “Eu esqueci o número da minha casa”, eu digo: “Não, é na rua tal e o número é esse”. As outras pessoas ficavam me olhando: “Mas como é que tu sabe o número da casa dele?”. Lá eu conhecia praticamente 85 por cento da população, conhecia quase todo mundo. Vinha muita encomenda o pessoal compra pela internet, que vinha muito, e Sedex para os órgãos, o Fórum, Prefeitura e o Ministério público e fatura, muita fatura de banco. As cartas em si diminuiu bastante. Carta escrita para alguém era bem pouca. Eu gosto de fazer o cliente sair sorrindo.

Eu acho que eu nunca fiz recursos humanos, essas coisas para atendimento de pessoal, mas eu sempre me saí bem nisso. Gosto de atender porque eu vejo que a gente tem que tratar ele bem o cliente. Todo mundo me conhece. Isso é gratificante. Ás vezes eu recebia presente, ganhei um relógio, cliente de uma loja me deu um relógio. Ele gostava do atendimento que eu fazia para ele. Aí ele me chamou lá na loja dele, abriu a vitrine assim, disse que era para eu escolher um relógio. Um outro me deu celular. Ganhava muito presente. Acho que da maneira que a gente explicava os clientes ficavam satisfeitos, e com isso não sei, acho que foi por isso que eu consegui ganhar esses brindes. Consegui ganhar também uma viagem para Gramado, no Rio Grande do Sul. Porque a Hermes tem uma parceria com os Correios. Eu consegui atingir minha meta e ganhei a viagem.

Eu fui sozinho. Fui eu e mais três colegas do Amapá. Aí depois desse período eu retornei para Vitória e foi que eu vim com gás mesmo para trabalhar. Eu tenho dez anos de casado já. Quando eu entrei nos Correios eu já tinha esposa e três filhos. Eu a conheci em Monte Dourado. Na época eu trabalhava no mercado Pague Pouco. Eu fui numa festa de confraternização do mercado lá na casa do dono do mercado e ela trabalhava lá na casa. Começamos conversando, passamos um mês namorando, aí a gente já foi morar junto. Hoje eu penso sair daqui e ir para uma cidade maior, para estudar. Fazer faculdade que aqui é mais difícil. Em Macapá, por exemplo, ou então voltar para minha terra, transferido, ir lá para Bacabal. Meus sonhos é terminar de criar meus filhos, viver em paz, ir sempre à igreja, ter paz no trabalho também.Ter amizade com os colegas, um bom relacionamento e, se possível, passar num concurso que ganhe mais também. Porque a gente almeja melhoria para gente e para família também. Ou então seguir carreira nos Correios mesmo, que é uma empresa que não atrasa, tem um plano de saúde muito bom.

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