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História

Assistência social na rua

História de: Rosana Biscaro Baesso Brunetti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/11/2013

Sinopse

Rosana Biscaro Baesso Brunetti narra que quando criança adorava brincar de mãe da rua, pega-pega, amarelinha e tinha um triciclo que era utilizado para brincar de ônibus com seus amigos. Durante sua adolescência começou a envolver-se com projetos sociais e nunca mais parou. Como assistente social iniciou o seu trabalho de coordenadora na Associação Minha Casa Minha Rua que entre os seus serviços escreve, envia e recebe cartas para pessoas em situação de rua. Rosana lembra com muito carinho da emoção de ler e escrever cartas.

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História completa

Meu nome é Rosana Biscaro Baesso Brunetti, tenho 47 anos, nasci em São Paulo, capital, no dia 14 de julho de 1965. Meu pai é Gerson Baesso e minha mãe Elide Bíscaro Baesso. Eu sei que minha avó por parte de mãe, a Rosa Fioravante, veio da Itália, não me lembro agora, mas acho que ela deve ter encontrado meu avô aqui, que também tem origem italiana. Por parte do meu pai, meus bisavós vieram da Itália, mas eles já são nascidos aqui do Brasil. Meus avós acabaram se instalando em Minas e depois no interior de São Paulo na região de Presidente Bernardes perto de Prudente. Meu pai é mineiro também, da cidade de Miraí, do cantor Ataulfo Alves, veio de lá muito pequeno para a Presidente Bernardes.

 

O fato é que meus pais se conheceram em Presidente Bernardes, começaram a namorar, meu pai veio pra São Paulo, minha mãe ficou, meu pai começou a trabalhar como alfaiate, embora essa não fosse a profissão que ele gostaria de ter, eles ficaram se correspondendo e resolveram se casar. Foi meu pai que me mostrou a cidade de São Paulo. Ele me levava lá na Consolação, muito bonito, de noite, tudo iluminado... Adorava quando ele me pagava Bauru, adorava esse lanche (risos). Ele me levava em Santana, porque no começo ele não era autônomo, trabalhava costurando para outros alfaiates. Ele costurava tantas peças e depois ia entregar... Desde que a gente era criança, íamos para Presidente Bernardes e meu pai gostava de fazer essa viagem de trem. Era da Luz, de Sorocabana, demorávamos 16 horas para chegar sendo que de ônibus leva oito horas, sete horas, mas era uma viagem bem gostosa. E tinha aquele barulho do trem eu ficava pra lá e pra cá à noite, criança, não queria saber de dormir.

 

Durante a minha infância eu brincava muito de mãe da rua, amarelinha, de pega-pega, eu tinha um triciclo e eu ficava brincando de ônibus, todo mundo subia no triciclo, uma vez o triciclo tombou porque tinha muitas crianças em cima e a gente pegou um desnível da calçada e eu fiquei por último, todo mundo caiu por cima de mim e eu me ralei toda, machuquei o nariz, tudo que tinha direito. Eu me lembro que eu fiz uma amizade com umas meninas de Santa Rita do Passa Quatro, quatro garotas, por cartas, a gente nunca se viu, mas a gente sempre se falava por cartas, era super legal. Uma colega também na adolescência, que morava na minha rua, mudou para Rondonópolis, a gente adorava escrever cartas uma pra outra. O duro era começar a carta, como ia começar, falando o que, ai meu deus! Depois que começava, pegava no embalo e ia, escrevia uma ou duas folhas. Era esse o meio que a gente tinha para se comunicar, depois veio o telefone, mas meus avós não tinham telefone no sítio, então eram cartas mesmo, para saber se estava tudo bem, perguntar da saúde. E era uma festa quando chegava carta: “Mãe, a carta da vó chegou!”. Era bem legal.

 

Teve uma época que colecionei selos, adorava, tinham vários selos que eu ia tirando das cartas. Até outro dia eu acabei jogando fora esses selinhos, fiquei com uma dó, mas ia ficar fazendo o que com eles. Ia Então esse era o meio de comunicação, mandava fotos às vezes de algum evento. Minha mãe tinha o costume de tirar foto minha uma vez por ano, no dia do aniversário, ia ao fotógrafo, tirava a foto e mandava para os avós para ver como estava; a neta, crescendo (risos). Eu queria ser guia turística quando crescesse. Mas depois as coisas foram se encaminhando, já tinha terminado o colégio, acho que já estava um ano sem estudar, e uma amiga falou: “Ah Rô, abriu a inscrição para o serviço social, vamos fazer?”. Eu fui fazer um estágio nessa época da faculdade, em 89, fui fazer estágio na prefeitura de São Paulo, a Luiza Erundina que era Prefeita de São Paulo e na Sé ela desenvolveu esse trabalho mais focado para a população de rua. E eu me interessei porque questionava muito “por que essas pessoas na rua, esses andarilhos?”. Eu aprendi mesmo, pelo menos na minha visão, a exercer a profissão de serviço social na rua. Isso foi uma opção, eu tinha a possibilidade de trabalhar em empresa, em hospital ou no poder público, mas diante da minha escolha de vida eu preferi a comunidade, porque também já tinha essa vivência antes, eu já tinha esse caminho, e apareceu.

 

Quando eu fui fazer o estágio na prefeitura acabou aparecendo esse contato com a OAF [Organização de Auxílio Fraterno] e quando eu terminei meu estágio na faculdade a organização acabou me chamando para fazer parte dessa equipe. Em 1994, quando eu vim pra cá, eu vim para o viaduto, eu conheci como era o viaduto. Na época de estágio eu não gostava de vir pra cá, eu sabia o que acontecia, mas não vinha pra cá. Desde o centro comunitário, quando a gente não estava de vento em polpa aqui na associação, as pessoas nos procuravam para escrevermos cartas para seus familiares, para dizerem que estavam bem, porque nunca queriam dizer exatamente como estavam, querem passar uma boa imagem para as pessoas, para os familiares que estão longe. Esse momento das cartas sempre houve na comunidade. Lembro-me que no estágio devo ter escrito uma carta ou outra, mas não era muito minha tarefa escrever carta. Aqui na associação nós já tivemos algumas voluntárias que já tiveram esse foco, vir aqui só para escrever cartas. Uma voluntária da própria diretoria dos empresários vinha e era uma coisa que ela adorava fazer porque é uma coisa que as pessoas procuravam e, primeiro, vai contar a história de vida, depois lembrar coisas, daí “Ah! A Carta!”. Aí vamos escrever a carta. Daí essa coisa de ser literal na carta, porque a pessoa fala uma palavra e você quer melhorá-la, mas não, você tem que fazer a carta com as palavras que a pessoa está ditando. Por mais que você não concorde, que não tenha muita concordância, mas isso é o mais difícil de escrever a carta, porque a gente letrada, estudada, você quer fazer exatamente, florear.

 

Esse era o difícil, escrever literalmente o que a pessoa esta lhe dizendo. E depois você ler a carta para a pessoa e ela se emocionar com a carta, porque ela vai ouvir o que ela disse, porque, às vezes, na hora de dizer a pessoa vai falando, vai jogando as palavras, mas quando ela ouve o que ela escreveu, o mundo desaba. A carta para o povo da rua tem muito esse sentido, essa função, não só levar notícias “estou bem, estou mal, estou morto, estou em maus lençóis aqui em São Paulo”, mas poder se ouvir, “puxa, eu estou mesmo assim, desse jeito que eu estou falando?”. É bem interessante, e esse momento da carta sempre foi bem respeitoso na associação. Você poder fornecer um papel pra pessoa poder enxugar as lágrimas dela, ficar quieta em quanto ela está pensando no que vai dizer, ficar quieta em quanto ela chorava, curtir aquele momento, era um espaço bem interessante essa oficina das cartas, e depois a alegria de receber a carta do parente, ou então a tristeza da carta voltar porque não encontrou mais o destinatário. Mas também a alegria de receber a carta, eles estão lá ainda, estão bem, e poder ler a carta para a pessoa, ver ela se emocionando com esse contato de alguma maneira com seus familiares, é um momento ímpar, muito interessante.

 

A associação é um núcleo de serviço de convivência. A gente atende 200 pessoas adultas, pessoas de rua, a gente atende famílias de rua. Aqui no centro de convivência temos a refeição, os lugares para banho e para lavar roupa, temos algumas oficinas, temos a biblioteca, que é a possibilidade deles fazerem leituras, temos um funcionário que conta histórias, tem aquela sala que chamamos de multiuso, que é usada para assembleias, para vídeos, esses encontros com contador de histórias, e basicamente as pessoas procuram esse centro de serviço para poder se alimentar todos os dias, se higienizar, nós temos o atendimento social, que possibilita tirar documento, fazer uma ligação da família, procurar cartas que eles recebem, Nas minhas horas de lazer eu gosto de ouvir música, apesar de não sair muito, eu gosto de ir a shows, ao cinema, no cinema menos, mas eu gosto, teatro, restaurante, ir ao parque, adoro o campo, eu gosto muito desde a infância tenho essa ligação, gosto muito de ir a parques, mas do que ir à praia, então vez ou outra eu abraço uma árvore para me refazer (risos).

 

Tenho minha filha e eu gosto muito de estar com ela. Eu acabo me dividindo muito entre ser mãe e cuidar aqui da associação. Eu estou trabalhando minha cabeça agora para ver se eu consigo mudar de profissão, mas é difícil, porque é minha história, está tudo na minha cabeça, está muito simbiótico, a associação tem a cara desses 19 anos, coisas que eu e os outros associados achamos importante, então aproveitar a água da chuva, a compoteira, jardim, as cores da associação, o jeito de fazer isso ou aquilo.

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