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História de: Jalma Fernandes de Queiroz
Autor: Ana Paula
Publicado em: 17/07/2021

Sinopse

Jalma descreve infância de muitas mudanças e depois a vida em Brasília, cidade onde faz curso superior e inicia a vida política e sindical. Conta como o DF passou pelos anos de ditadura e como acontecem as mudanças durante e depois da volta do regime democrático, focando nos processos de independência da cidade e da militância sindical e no Partido dos Trabalhadores.

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História completa

Projeto Memória Compartilhada: A luta pela autonomia política do DF Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Jalma Fernandes de Queiroz Entrevistada por Luís Egito e Lenir Justo Brasília 12 de março de 2009 Entrevista MDF_HV029 Transcrito por Karina Medici Barrella Revisado por Valdir Canoso Portásio P/1 – Boa Tarde, Jalma. R – Boa tarde. P/1 – Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Eu queria que você, por favor, começasse dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R - Meu nome é Jalma Fernandes de Queiroz, nasci em Areia Branca, no Rio Grande do Norte, e a data do meu nascimento é 9 de dezembro de 1949. P/1 – O nome dos seus pais, por favor. R – José Fernandes de Queiroz, já falecido, e Maria Martins de Queiroz. P/1 – E qual era a atividade do seu pai? R – Meu pai era pequeno comerciante na cidade de Areia Branca. P/1 – Comércio de quê? R – Ele tinha uma bodega, como a gente diz lá no Rio Grande do Norte. Secos e molhados, uma coisa assim. P/1 – Eu esqueci de te fazer uma pergunta anterior: Qual é a sua atividade atual? R – Sou professor; hoje, desempenhando mandato sindical. P/1 – Aqui no Distrito Federal? R – No Sindicato dos Professores no DF. P/1 – Voltando à bodega do seu pai, como era o nome dele mesmo? R – José Fernandes de Queiroz. P/1 – E a sua mãe? R – Maria Martins de Queiroz. P/1 – Como é que era essa bodega do Seu José Fernandes? R – Duas portinhas estreitas. Essa é uma memória que eu adquiri depois, porque quando os meus pais se separaram eu tinha cinco anos de idade e ele foi para o Amazonas, atrás de borracha, na época da borracha. E a lembrança que eu tenho é posterior, da bodega, porque somente alguns lapsos, algumas imagens que sobraram desse tempo de criança. Eu tinha entre quatro e cinco anos quando eles se separaram. P/1 – Você tem irmãos? R – Tenho. Eu tenho dois irmãos vivos e um outro irmão faleceu. P/1 – Você se... R – Eu sou o caçula. Apesar de não ser dengoso, mas eu sou o caçula [risos]. P/1 – Jalma, como era a sua cidade, Areia Branca? Que cidade era essa? R – Olha, Areia Branca se caracterizava... é uma cidade litorânea, o comércio lá era o sal, ou seja, salinas eram todas ali, artesanais, feitas com a mão. Hoje, não, hoje se faz com trator de esteira, aquela coisa toda. Mas era região salineira. Normalmente, a cidade de Mossoró, que fica a mais ou menos 50 quilômetros, no Rio Grande do Norte, ela beneficiava o sal, ou ele ia grosso. E aquilo era carregado, num primeiro momento, em balaios, nas costas de carregadores. E depois, com carrinhos de mão de madeira, porque tinha que ser de madeira, o sal é altamente corrosivo, né? E a atividade principal lá era essa: salina e botar sal dentro das grandes barcaças e levar pra outros estados. P/1 – Seu pai não tinha relação com essa produção de sal? R – Não, ele nunca foi salineiro, não. Ele criava gado, mas nunca trabalhou em salinas, não. P/1 – Você conheceu os seus avós? R – Conheci a avó materna e o avô paterno. Eu não conheci o avô materno nem a avó paterna. P/1 – Você tem notícia de onde eles vieram, se eles eram da região, se foram pra lá? R - Segundo informações que a gente tem, a parte do meu pai veio da região de Messejana, no Ceará, a região dos Queiroz, Raquel de Queiroz. Dessa região, o pessoal vinha normalmente fugindo da seca. Messejana é sertão, e vinham pra mais pra perto do litoral. E eles moravam numa cidade chamada Pau dos Ferros, "municipiozinho" no Rio Grande do Norte. P/1 – E como era a sua casa, em Areia Branca? R - A minha casa tem uma característica que a gente sempre brinca: as casas do Nordeste, por ser uma região muito quente, Mossoró, Areia Branca, elas eram todas geminadas, ou seja, elas são encostadinhas uma na outra. A gente dizia: “Em um lugar tão quente como esse, por que não tem nenhum beco aqui [risos]?" Mas só que isso é substituído porque a porta da frente sempre dá vista pra porta do fundo, ou seja, um grande corredor e os outros cômodos tudo de um lado só. Ou seja, essa característica interessante. Exatamente pra ventilar. E as paredes não vão até o teto. É uma engenharia do povo que mora em cidades muito quentes pra ventilar a casa, essa é a característica. Estreitinha, a casa, um terreno que saía nas duas ruas, com uma cacimba no meio. A gente chama de cacimba o poço. Tanto pra guardar água da chuva. Essa imagem ficou, assim. P/1 – E como é que eram as diversões do garoto Jalma? Você brincava de quê, como é que era? R – A rua era de areia. A cidade se chama Areia Branca porque é uma região das dunas caminhantes, ou seja, as dunas que se transferem de um lugar para o outro. Isso é interessante. Por exemplo, a casa da minha avó materna teve de mudar de lugar várias vezes, porque o morro vinha se formando, eles tinham que sair dali e ir para outra localidade. Aí, você tem os coqueiros de 20 metros de altura, o morro vinha subindo e depois você pegava o coco com a mão. É uma imagem, assim, muito interessante, que marca muito a infância da gente. Então, o brinquedo era na rua. A gente brincava de correr, como todo menino, as calçadas normalmente altas porque era uma região que inundava quando a chuva vinha, e era brincar com bola de pano. A gente fazia com meias e a garotada brincava assim. E tomar banho no porto, as barcaças ficavam no porto e a gente subia nelas e ficava pulando dentro d´água. Essa era uma diversão. P/1 – E a sua primeira escola lá em Areia Branca? R - Em Areia Branca eu não frequentei escola porque com seis anos eu saí de Areia Branca e fui pra Pernambuco, em Casa Amarela. Depois eu retornei ao Rio Grande do Norte, mas aí já morando em Mossoró. A escola era Grupo Escolar Dix-Sept Rosado, que é uma família de políticos de Mossoró. Tem uma coisa interessante: Esse camarada botava o nome dos filhos de números em francês. Chique, né [risos]? Dix-Sept, Dix-Huit [risos]. As pessoas, às vezes, não percebem isso, né? Quem não conhece essas características não percebe que eles são números em francês. Interessante. P/2 – Mas essa foi a sua primeira escola ou você estudou lá quando estava... R - Não, foi a minha primeira escola. A minha mãe, quando foi pra Pernambuco, ela era costureira e foi trabalhar para um conhecido dela, o conhecido dela tinha uma alfaiataria. Nessa época ninguém comprava roupa pronta, isso em 1956, todo mundo ia pra alfaiataria mandar fazer camisas e calças. Dificilmente as pessoas usavam roupa comprada feita em lojas, isso é uma coisa mais pra frente. E ela trabalhava pra essa alfaiataria em Casa Amarela, o nome do bairro, em Recife. Ela costurava e nessa época nós éramos em quatro irmãos. Eu tinha seis pra sete anos e os outros irmãos todos mais velhos. E todo mundo trabalhava; quando não era ajudando a mãe a costurar as calças, porque tinha determinados serviços que as crianças podiam fazer. E sábado e domingo ia pra feira pra vender feijão verde, laranja - me lembro até hoje-, o fósforo marca Olho, que era o sucesso do momento. O fósforo marca Olho, que acendia muito bem, era da Fiat Lux. Hoje a gente sabe que é uma multinacional, uma coisa impressionante [risos]. P/1 – E nesse trabalho pra ajudar a sua mãe, qual era a sua responsabilidade, o que você tinha que fazer? R - Ou eu saía com a caixinha cheia de fósforos pra caminhar na feira de Casa Amarela e vender o fósforo marca Olho. E tinha a banquinha fixa com feijão verde e laranja. E era isso. P/1 – E na parte da costura, lá? R - Na costura tem hoje as máquinas que fazem o acabamento pra não desfiar, a gente “alxuriava”?... A palavra... P/2 – “Chuleava”? R – Nordestino já fala... P/2 – Pelo menos eu aprendi “Chuleava”. R – [risos]. Eu acho que o nordestino acrescentou o “al” no ”xuliava” [risos]. A gente fazia isso. Os outros irmãos mais velhos já faziam casas. As braguilhas, todas eram com casas. Esse negócio de zíper é uma coisa moderníssima, o negócio não chegava em Pernambuco naquela época, não. Eram casas que formavam o fechamento da braguilha. E pregar botão, também. P/1 – E isso era o dia todo, todo dia? R - Quando não estava na escola, os irmãos que já tavam na idade estavam fazendo isso. E minha mãe rodava a noite quando tinha encomendas grandes. Eu me lembro muito, uma máquina Singer, que até hoje ela tem, ela rodava a noite costurando calça, né? Característica interessante. P/1 – E em que ponto a família se transferiu pra Mossoró? R - A minha mãe conheceu um companheiro, que era marinheiro. Ela normalmente costurava pra marinheiro; queria costurar, costurava. E ela começou a namorar com um marinheiro, que morava no Rio de Janeiro. Eles se entenderam e resolveram ir morar no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias, na Vila São Luís. E a minha mãe entendeu que num primeiro momento, pra adaptação, nos mandaria para o Rio Grande do Norte, pra Mossoró. Minha avó materna morava em Areia Branca ainda. E meu pai já tinha retornado da Amazônia e tinha um bar e mercearia na ZBM de Mossoró, na Zona de Baixo Meretrício. Tinha um bar onde ficavam as mulheres, ou seja, era um bar dentro do prostíbulo, falando o português bem claro [risos]. A gente veio pra Mossoró, minha avó também, pra cuidar da gente e ele é quem mantinha a casa de aluguel. A gente ficou quase três anos com o meu pai nessa época, foi aí que eu comecei a estudar, primeiro fiz a cartilha. Até hoje eu tenho a cartilha guardada e o livro do primeiro ano. Está lá em casa. Podia até ter trazido, mas não me lembrei. P/1 – E não causava nenhum estranhamento o fato do negócio do seu pai ser na zona e essas crianças pequenas ali? R – Não. Não porque, eu acho que, nesse aspecto, o nordestino é bem liberal. Seja a zona, ou seja periferia, não tinha muito essa censura porque a coisa funcionava mais à noite, e à noite a gente não ia. Não é verdade? Então, a gente não tinha nem essa noção de: “Ah, ali é um local onde as mulheres vendem seu corpo.” A gente não tinha essa noção; ali é onde as pessoas se divertem. Os homens principalmente. Era esse o entendimento que a gente tinha, não tinha essa consciência que ali era um local condenável. P/1 – E depois desses três anos, qual foi o destino? R – Nós fomos pro Rio de Janeiro pra ficar com minha mãe. Menos um dos irmãos, o mais velho. Em 1959, a gente tava em Mossoró ainda, ele veio pra Brasília. O irmão mais velho, José Arimatéia era o nome dele. Ele veio pra Brasília e fomos os três pra ficar com a minha mãe. P/1 – Uma mudança radical, né? R – Foi uma mudança radical porque primeiro que todos nós, nordestinos no Rio de Janeiro, éramos pau-de-arara. Chegamos ao Rio em 1959. E até você se adaptar….Incrível que naquela época nós viajamos de avião, em vez de pau-de-arara, uma coisa meio diferenciada. O meu pai era comerciante, arrumou um dinheirinho lá e a gente viajou de avião para o Rio de Janeiro numa companhia que hoje acho que ninguém nem tem ideia do que seja. Era NAB, N-A-B, Navegação Aérea Brasília. E era um bimotor que parava em todas as capitais. P/1 – Um DC-3, você tá falando? R – Deve ser, eu não lembro muito o modelo da coisa, sei que eram dois motores com hélice. E uma senhora negra, sentada do meu lado... eu comecei a conversar com ela e falava o "nordestinês" claro. E eu me lembro que ela me ensinou: “Olha, quando você chegar lá no Rio, você não chama as pessoas de “Seu José”, nem de “Dona Maria”, porque no Rio é moço e moça." “Ô moço, me dê” “Ô moça”. Ela ensinou isso pra gente. E também ensinou pra gente não falar, porque isso que identificava o pau-de-arara no Rio de Janeiro: “Esse ‘ia pois’ você tenta não falar muito, senão os meninos vão brincar com você, vão mangar de você.” Era mangar [risos]. Vão gozar você [risos]. Carioca falava, né? E a gente entendia isso como mangava: “Vão mangar de você.” P/2 – E vocês viajaram sozinhos? R – Nós viajamos os três irmãos, com um endereço, para nós pegarmos um táxi e irmos para um endereço para depois ele nos ensinar como chegar na casa da nossa mãe. P/2 – E que idade tinha o mais velho? R – Eu tinha... Isso em 1959, eu tinha 10 anos, o mais velho tinha 14 ou 15 anos. P/2 – Interessante irem sozinhos os três. R – É, porque naquela época o pai autorizava e a pessoa, no avião, se responsabilizava. E tinha o endereço já pra onde a gente iria, isso facilitou um pouco. P/1 – E esse Rio de Janeiro que você encontrou, como é que era esse Rio? R - Era uma realidade completamente diferente. Na verdade, o centro do Rio de Janeiro...acho que a gente nem viu direito, não viu nada do centro e foi direto pra Duque de Caxias. Na época tinha uma pessoa famosa em Duque de Caxias, que era o Tenório Cavalcante, o homem da metralhadora. P/1 – Da “Lurdinha”... R – Da Lurdinha, exato. Coronel de Duque de Caxias [risos]. A casa dele era mais uma fortaleza que uma casa, e a gente já sabia, esse aspecto a gente ligeiramente sabia. E no Rio de Janeiro eram casas completamente diferentes. A gente foi morar em uma das muitas vilas, era um lote com casas de um lado e do outro e alugavam a casinha. Era Vila Florisbela, uma coisa assim. O nome eu não me lembro muito. P/1 – E a adaptação, escola, amizades... R – A gente brincava muito, a brincadeira mais comum era jogar bola. E a gente começava a jogar bem, já. Depois da experiência de bola de pano, era bola de borracha. Não era nem de couro, era borracha. Entre vermelho e marrom. E brincava muito de salve bandeira, era uma equipe contra a outra. E a adaptação, eu até brinco: o nordestino, depois que escapa da seca do Nordeste, nem bomba atômica mata mais; ele se adapta a qualquer tipo de coisa. E como a gente já tinha a mãe adaptada lá, a gente ficou lá. P/1 – E a escola? R - Minha primeira escola mesmo foi perto de Casa Amarela. Eu me lembro que a gente andava muito pra chegar na escola. Mas quando eu estava no meio do primeiro ano, a minha mãe se separou do companheiro dela e foi nessa época que a gente voltou, do Rio de Janeiro, a gente foi para Brasília. Nesse meio, o meu irmão, o mais velho dos três que estavam no Rio, já tinha vindo pra Brasília, trabalhar num banco de office-boy. O meu irmão mais velho...como em Brasília tinha uma carência de mão-de-obra escolarizada, o meu irmão já tinha estudado até a quarta-série primária e foi trabalhar na Vasp, Viação Aérea de São Paulo, que naquela época oferecia muitas vantagens. Duas passagens de ida e volta pro Nordeste pra quem trabalhasse lá, de graça e tal, o meu irmão ia lá. E ele nos trouxe pra cá. Nós viemos todos pra cá, depois de morar no Rio em um comodozinho; eram quatro pessoas em um cômodo só. Naquelas famosas vilas que normalmente ou era de português, ou era de espanhol [risos]. P/1 – E quanto tempo vocês ficaram no Rio? R – Nós ficamos de 1959 a 1962. P/1 – E essa vinda pra Brasília, como é que se deu? Foi por terra ou... R - Foi de ônibus. A mudança veio em um caminhão e nós viemos pra Brasília e fomos morar no Gama, isso em abril de 1962. P/1 – Dois anos da Capital. R – Que cidade você encontrou? R - Olha, era algo completamente novo. Eu me lembro que quando eu cheguei na rodoviária e vi uma escada rolante, eu nunca tinha visto aquilo, morava no subúrbio do Rio de Janeiro, foi impressionante. Era um outro mundo. Eu via os carros passando pelo que é atualmente chamado aqui em Brasília, “buraco do tatu”, passava por debaixo da rodoviária. Eu ficava imaginando: “Onde é que esse troço vai sair?” Eu pensava assim: “Um dia ainda vou passar aí embaixo." Essa imagem eu me lembro. A gente ficava subindo e descendo a escada rolante da rodoviária e olhando os carros passando por debaixo do “buraco do tatu” e desaparecendo, não sabia pra onde é que ia. Antes de pegar um carro e ir pra cidade satélite do Gama, que não tinha nenhuma casa de tijolo, era tudo tábua, ou, mais precisamente, restos de tábua da construção de Brasília. Um local que pra gente parecia um deserto, pra quem tinha como referência o Rio. Chovia seis meses por ano e um vento que parecia mais os ventos dos filmes de faroeste, assoviando, “sssss”. Isso era durante seis meses, o negócio não era fácil. Um friiio terrível, pra quem já tinha morado no Rio. E seco, né? Eu lembro que a pele da gente virava um... Parecia mais uma lixa que pele, no tempo seco, clima de deserto, a gente não estava acostumado com aquilo. Mas... P/1 – E o que significou viver no Gama, com essa nova realidade? Foi fazer o quê? Como é que a vida transcorreu daí pra diante? R - É, porque daí já tinha dois irmãos que estavam trabalhando e razoavelmente bem, apesar de não terem nenhuma infraestrutura para receber a gente. A gente foi morar em um barraco alugado. Alugado não, emprestado, porque ninguém queria vir pro Gama naquela época. Isso era 1962, o Gama era uma coisa muuuito distante e perigosa. Não tinha asfalto pra chegar na cidade. O local que a gente foi morar não tinha nem água, nem luz. No barraco tanto entrava vento frio por baixo como por cima; era um piso suspenso feito de tábuas que tinham brechas. Então, aquele frio era de doer nos ossos, e a nossa mudança não chegou logo. Demorou uns dez dias pra chegar a mudança [risos], e nós dormimos em coisas improvisadas. E isso em pleno abril, que era terrível o frio. Eu me lembro que nessa época eu já tinha completado 13 anos, e nós mesmos, eu e o meu irmão é que furamos o poço com a ajuda dos vizinhos, nós furamos o poço pra ter a nossa água. E fomos estudar numa escola, nessa época a gente já fazia a quarta série primária. E fomos estudar, eu e o meu irmão. A gente entrava na aula às sete e meia da manhã, mas nos levantávamos às quatro horas da manhã pra ir pra padaria, pegar o pão, vender pão e, às sete e meia, estávamos na sala de aula. Eu lembro que era quatro horas da manhã e a gente comia aquele... Botava 250 pães em um cesto, botava na cabeça e ia vender. Tinha que chegar cedo porque a peonada, os candangos que construíam Brasília, saíam muito cedo pra chegar no centro de Brasília pra trabalhar nas obras. E um detalhe interessante: como a minha mãe não tinha filhas mulheres, ela escalava a gente: uma semana um arrumava a casa, outro varre, outro arruma as camas - porque ela trabalhava costurando também -, e o outro lavava a louça. E eu lembro de outra coisa interessante também: o terror da louça. Quem pegasse, era a tal da sopa que fazia com osso. E aquilo criava uma gordura, meu amigo [risos]. Aquela gordura impregnava nos pratos [risos]. O terror era a louça da sopa. Depois minha mãe começou a inventar coisa e fazia tapioca, puxa-puxa, cuscuz pra gente vender na rua. E foi assim. P/1 – A molecada nunca deixou de trabalhar? R – Não. A gente lá sempre trabalhou, sempre trabalhou. Mas nunca deixou de ir pra aula, uma coisa não atrapalhava a outra. E brincar muito, jogava bola. Acabavam as obrigações rapidinho, a gente ia ficando esperto, trabalhava rápido. Eu me lembro que a gente juntou a molecada e capinou o campo, fez um estádio e o pau comia, né? A tarde era toda pra jogar bola, enquanto a gente tava vendo a bola, tava jogando. P/1 – E como é que evoluíram os seus estudos a partir daí. A sua mãe fazia questão dos garotos estudarem, né? R – Ah, sim. Isso, pra ela, era uma coisa sagrada, ou seja: “Vocês podem faltar tudo, menos o estudo”. A gente começou a estudar e a gente sempre foi muito bem na escola. Eu estava entre os três primeiros alunos da sala. Tem até uma fotografia que eu trouxe, recebendo um prêmio da professora de primeiro colocado na sala. E o meu irmão, nessa época, já tinha saído da Vasp, trabalhava num jornal. Ele trabalhava como teletipista, trabalhava com teletipo, uma maquininha que furava um papelzinho e passava a mensagem para o Correio do Povo, um jornal do Rio Grande do Sul, jornal importante. E ele trabalhava na Inter Press, que passava notícia para o jornal. P/1 – Uma agência? R – É uma agência, Inter Press Service. Em teletipo, recebia notícias do mundo todo e ele ia digitando. O meu irmão era um exímio datilógrafo, sempre foi muito admirado por isso. P/1 – E como era a sua visão, um adolescente já, 13, 14 anos, da cidade de Brasília. O que ela sugeria pra você? R - A gente morava na periferia e começava a entender o mundo melhor. Qual era o objetivo da gente? Estudar, ter um bom emprego e ter um futuro melhor. Isso é o que a gente perseguia. Como todos os outros que vinham pra Brasília: você saiu da sua terra e aqui você quer conquistar alguma coisa. E era isso que a gente perseguia. Tinha o exemplo dos irmãos que estavam estudando e trabalhavam em escritório. Porque a gente teve a sorte de ter uma mãe que cobrava essa questão do estudo. E a gente tinha o exemplo dos irmãos que liam, traziam revistas e que, pra progredirem no trabalho, tinham que estudar. E a gente sempre estudava de dia. Eu terminei a quarta série e fiz a quinta que era a admissão. Admissão ao Ginásio. O curso de admissão. Na primeira série ginasial, que hoje seria a sexta série, eu estudei de dia. Os outros não, os outros, todos, estudavam à noite. Na segunda série eu já passei a estudar de noite. Trabalhava de dia, estudava à noite. Era assim que a coisa funcionava, ninguém perdia tempo, na verdade. P/1 – E qual era o seu trabalho nessa época, quando você já estava no Ginásio? R – Eu vendia pão, depois o meu irmão mais velho terminou o curso de Contabilidade e foi ser contador. Antigamente Contabilidade era um curso técnico, não um curso superior como é hoje. Ele já assinava balanço, essas coisas. E os irmãos colocaram um escritório de contabilidade em sociedade e eu fui ajudá-los. Depois o meu irmão fazia a contabilidade do Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários de Brasília. Um nome enorme, né? O Sindicato dos Taxistas. Eu fui "fazer" auxiliar de escritório lá. Depois, ele deixou de fazer a contabilidade desse sindicato e eu trabalhava aqui no Plano Piloto; Brasília ainda tava sendo toda construída, né? Nessa época eu tinha entre 15 e 16 anos, voltei pro Gama, eu mesmo fui procurar emprego. Eu fui trabalhar em uma loja de tecidos de um grego, que até hoje é muito meu amigo, a gente se gosta muito. Comecei a trabalhar e vendia tecido, sapato e chapéu. Foi uma fase interessante porque aí você já conquista uma liberdade, foi aí que eu consegui comprar uma bicicleta usada para eu me deslocar. E nessa época, direito trabalhista era um negócio complicado. Eu me lembro que a gente trabalhava até domingo ao meio-dia, na loja do grego. Ele dizia pra gente: “Olha, se eu pudesse não abrir no domingo, eu não abriria, porque eu acho que isso não é uma coisa muito correta.” Mas o concorrente dele, um libanês [risos], abria todo domingo. Ele falava: “Se eu não abrir, o cara vai...” [risos]. A gente ficava até convencido disso. Foi aí que a gente começou a perceber o mundo do trabalho e o mundo da injustiça. A gente começou a dividir as coisas. Isso já era 1964 e tinha uma coisa interessante na cidade do Gama, tinha aquele serviço de alto-falante. O locutor, o dono do serviço de alto-falante, chamava-se Oliveira. Eu já estava na primeira série ginasial e algumas pessoas, alguns alunos... isso em 1964, antes e depois do golpe militar, tinha alguns alunos mais idosos no ginásio. Porque hoje as pessoas chegam muito cedo à oitava série, a gente antigamente não chegava tão cedo assim, as pessoas já eram mais maduras. E eu me lembro das pessoas fazendo os primeiros discursos, indo contra a ditadura, defendendo o socialismo. E aí, eu não tinha noção do que significava aquilo, mas a coisa vai... E no dia do golpe, foi dia 31 pra dia 1º, ou foi do dia 30 para o dia 31. P/1 – Dia 30 pro 31. R – É. Eu me lembro que, antes mesmo disso, só pra registrar isso...: Porque eu já começava a fazer redações com crítica social, analisando as diferenças sociais, os tratamentos. E tinha um padre que dava aula de português, o Padre José Dumont, e ele era um contestador, já naquela época, do celibato na Igreja. E eu ficava ouvindo, ele dizia: “Olha Jalma, a sua redação tá legal, porque você está tocando em uns pontos que eu também concordo com eles”. E juntamos um grupo, que tinha um colega que era amigo desse camarada, do Oliveira, que era o cara do serviço de alto-falante. E ele ouvia, camarada, à meia-noite, um programa na Rádio Havana de Cuba, que falava as verdades que estavam acontecendo no Brasil. A gente não sabia das notícias de quem tinha sido preso, cassado, essa coisa. E a Rádio Havana, de Cuba, tinha um programa de quase uma hora, em português, para o Brasil. E aí, que a gente começou a se enfronhar nessa história: “Uai, que negócio é esse?”, né? E eu me lembro que o Oliveira foi cassado, desapareceu da cidade e ninguém sabe para onde ele foi. Foi aí que a gente começou a perceber que tinha alguma coisa errada na história. P/1 – Certo. E aí, quer dizer aqui, sobretudo, pelo fato de ser a Capital do país, acaba se refletindo num modo muito mais ostensivo, digamos assim. E como é que ficou a vida aqui? R – Olha, a gente começou a perceber uma mudança, primeiro, nos professores da escola. Tinha uma disciplina chamada EMC, Educação Moral e Cívica, que os professores, ou eram sargentos, ou eram pessoas ligadas à espionagem e tal. Ou seja, eles diziam pra gente o que significava o comunismo e o que significava a democracia. Eles pregavam que eram democratas e que tinham salvado o Brasil dos comunistas e tal, que comiam gente e iam entrar na casa dos outros e pegar: “Você tem dois sofás, um é nosso, você precisa só de um, não de dois.” E tem um episódio interessante, eu tinha amizade com um menino, um colega meu de ginásio chamado Paulo Amorim. O pai dele tinha uma fábrica de artefatos de cimento, fazia aqueles ladrilhos, ou seja, era uma das pessoas ricas da cidade. Eu me aproximei dele, a gente brincava muito, principalmente bola de gude. A gente era muito bom em bola de gude, tinha latas de bola de gude, jogava apostando, né? Era pra valer o negócio, então, quem era bom, ganhava, quem era ruim, perdia e tinha que comprar mais [risos]. E eu me lembro que o pai dele, mineiro, com outro amigo mineiro também, que era funcionário público, funcionário do GDF, Governo do Distrito Federal, que na época era uma prefeitura e as cidades satélites tinham subprefeitos. O prefeito nessa época era Israel Pinheiro, nomeado pelo Juscelino Kubistchek. E eu me lembro do José Rita, que era o pai desse meu amigo, conversando com o amigo dele, jogavam buraco todo dia. Depois eu aprendi a jogar buraco, uma maravilha. E ele comentando: “Olha compadre, se os comunistas tomarem o poder, eles vão entrar na nossa casa e vão tomar as nossas coisas. O senhor se prepare porque a gente não pode permitir isso. Eles vão vir armados e vão invadir a casa da gente.” Aí, eu fiquei: “Como é que pode o cara invadir a casa dos outros e tomar as coisas? Esse negócio deve ser perigoso.” Imaginava. Essas coisas foram se somando e a gente percebendo um lado e outro. Eu terminei o ginásio, em plena ditadura, em 1967. Em 1968 fui fazer o primeiro ano do Científico no Elefante Branco, uma escola de Segundo Grau aqui do Plano Piloto. Trabalhava de dia no Gama, na loja desse grego, e estudava no Elefante Branco. Estava completando 18 anos, isso em 1968, e saí da loja desse grego pra ir pra Aeronáutica. Entrei na Aeronáutica em julho de 1968, estudando no Elefante Branco no primeiro ano do científico e lá aconteceram algumas coisas que aí a gente começou a perceber melhor, o que acontecia, no ambiente político de Brasília. A perseguição, o Dops [Departamento de Ordem Política e Social], arrastava aluno de dentro da sala de aula: “Quem é fulano? Venha cá.” Pegava o cara e já ia [estala o dedo]. No início do ano eu percebendo aquilo e depois eu fui pra Aeronáutica, entrei como Recruta, Serviço Militar Obrigatório e a coisa lá era lavagem cerebral mesmo, eles dizendo: “Olha, a qualquer momento vocês têm que pegar em armas pra combater o comunismo.” E o Comandante, todas sextas-feiras dizia no boletim: “Os comunistas ameaçam pê-pê-pê, pê-pê-pê...”. Mas, nesse ínterim foi que eu sofri o acidente. Eu jogava bola e era da equipe de atletismo dos recrutas da Aeronáutica aqui em Brasília, na base aérea de Brasília. Eu sempre fui muito brincalhão, moleque, às vezes até meio exagerado. E era muito punido pelo sargento, porque com o militarismo, você não podia brincar, né? E eu me lembro que eu me destacava muito nessa questão do aproveitamento teórico, porque tinham provas teóricas no recrutamento, e tinha a questão de tiro, treinamento de tiro com os mosquetões, os fuzis, também no aprendizado daquelas coisas dos militares. Eu jogava bola, na minha cidade, no Gama onde eu morava, já tinha jogado futebol de salão, já tinha sido campeão na cidade com o time que a gente criou lá, o Pentágono. Pentágono a gente se referia à figura geométrica e não ao Pentágono americano [risos]. Era o Pentágono por ter cinco lados e no futebol de salão serem cinco jogadores. E a gente foi campeão da cidade. Eu era atleta, fazia corrida rasa, de 100 metros, corridas de até três mil metros, e jogava bola na seleção dos recrutas. Eu comecei a ver que quem era atleta tinha tratamento diferenciado dentro dos quartéis, comiam a comida melhor, porque precisavam se cuidar [risos], tinha lá o mel que eles ofereciam para a gente. A gente tava treinando para a Brasilíada, Olímpiada de Brasília, a primeira Brasilíada. Eu treinava corrida rasa e a gente treinava na Vila dos Oficiais. E o oficial que tava com a gente permitiu que a gente fosse tomar banho na piscina dos oficiais. Eu tô dizendo isso porque depois tem um detalhe que, o coronel que mandou a gente ir pra piscina, depois negou que tivesse autorizado a gente a ir porque eu sofri o acidente. E na sindicância, eu disse: “Eu não fui pra mim, o coronel autorizou.” E ele negou que autorizou. Eu entrei com recurso e demorou uns cinco anos para eles me reformarem como deveria ser. (TROCA DE FITA) P/1 – Estamos nesse momento em que você foi convidado pelo oficial pra tomar banho de piscina dos Oficiais. R – Exato, na piscina dos Oficiais. Aí, aconteceu o acidente; um colega pulou na minha frente no trampolim e a gente, naquela euforia, sem prestar atenção, pulei sem prestar atenção, pulei de ponta e bati com a cabeça no ombro dele e deu luxação da cervical. Só acordei fora da piscina, mexendo somente a cabeça. Andei de cadeira de rodas, duas muletas, uma muleta. E os médicos, o primeiro diagnóstico foi de tetraplegia, o prognóstico era: “Olha, tá difícil. É arriscado ele continuar a não movimentar braços e pernas”. Mas depois de dois meses eu comecei a movimentar os braços e tal, e fui... Essa recuperação se deveu ao fato da lesão não ter sido tão grave como os médicos imaginavam. Mas na radiografia que eles fizeram tava luxada, a coluna cervical fez isso, né? E amassou a medula, isso aqui. E aí, mesmo assim, eu tava no primeiro ano do científico lá no Elefante Branco. P/1 – O que é Elefante Branco? R – Elefante Branco é um colégio aqui, escola pública de Segundo Grau. P/1 – Mas o nome dele é Elefante Branco? R - É Elefante Branco porque era no formato de um elefante, o prédio era quadrado e tinha as rampas de acesso que parecia uma tromba. E essa figura arquitetônica parecia realmente um elefante. Não é essa conotação que se tem hoje, de elefante branco como uma coisa que é demasiadamente grande. E esse Elefante Branco tinha uma tradição: Era um colégio em que o Grêmio Estudantil era extremamente ativo. Pra vocês terem uma ideia, o Grêmio Estudantil, no primeiro semestre, decretou a escola como território livre em plena Ditadura, em 1968. Uma loucura! E tiramos o Diretor. Quer dizer, nessa época eu não participava do Grêmio, eu assistia muito mais que participava, não tinha noção, eu estava chegando no mundo novo de contestação. E os caras do Grêmio convenceram que a gente tinha que decretar território livre, e assim foi. A Direção saiu, eles identificaram que a direção era toda de agentes que estavam ali intervindo no.... Era uma verdadeira intervenção branca. E aí, meu amigo, esse território livre durou mais ou menos uns 15 dias, a polícia chegou e o pau comeu. Eu me lembro que o melhor divertimento que a gente tinha era sair pra Avenida W-3, que era a avenida mais movimentada de Brasília naquela época, em 1968, onde tinha a Thomas Jefferson, uma escola de inglês. O nosso divertimento era descer pra lá e quebrar aquele negócio todo, jogar pedra. E eu me lembro de uma imagem, que nunca sai da minha cabeça: o ônibus parava na parada com a peonada, que tava saindo da obra naquele momento. Acabava a aula e vinha quebrar a Thomas Jefferson. Eu sei que o pessoal saía e gritava: “Desçam vocês também! Vamos fazer a Revolução!” Principalmente o pessoal do PCdoB [Partido Comunista do Brasil] e tal. Vamos fazer a revolução, pra ganhar. Eles falavam: “Rapaz, eu tô cansado, sai daí”, não sei o que... [risos]. Os caras não estavam... Mas eram umas figuras interessantes. P/1 – Como é que começa a sua militância mais orgânica, como é que vai cair isso? R - A partir do segundo ano do científico, a gente passa a ter acesso a determinadas leituras e pelas próprias notícias que a gente já começa a assimilar... E as músicas, tinham muita festa e músicas de protesto. Aí, começa Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, e a gente começa a realmente entender, através desses meios de comunicação, o que era. E a convivência também, nesse Elefante Branco, que começa... Eu me lembro que o PT [Partido dos Trabalhadores], ainda clandestino, em Brasília. Bom, tem um intervalo aí que fica, porque no Elefante Branco eu terminei o científico em 1971. Eu não perdi nenhum ano de estudo. Tinha a tal da segunda chamada. E me levaram, eu quis ir de cadeira de rodas. O Sarah Kubitschek já existia nessa época e eles tinham uma kombi pra levar os pacientes pra escola. Eu ia numa cadeira de rodas na escola e fiz a prova na segunda chamada, segunda época. E passei, estudei, passei, e não perdi nenhum ano de estudo. Voltei pra trabalhar com os meus irmãos, isso depois de um ano e tanto de recuperação. Foram dois anos de tratamento e eu comecei a andar, já sem bengala, sem nada. Foi quando começou a minha militância política. Eu comecei a participar de associações de moradores na cidade onde eu morava, no Gama. Depois, comecei a trabalhar de Auxiliar de Contabilidade, e a ter contato com pessoas que tinham a militância no PCdoB, no “pecebão.” Naquela época quem tinha mais evidência era o “pecebão”, depois que o pessoal migrou pro PC do B. Mas a minha iniciação na militância política foi pelo movimento social. E também na participação nas escolas. P/1 – Já havia alguma busca por essa profissão de professor, uma vontade de se dedicar a isso? R - Não. Isso veio depois. Quando eu fiz vestibular, em 1972, fiz vestibular da UnB [Universidade de Brasília] pra Biomédicas, eu imaginava: “Eu quero entender como é que o meu organismo pode...”. Pensando, através da pesquisa, resolver essa coisa. Quando eu chego na UnB, passei três semestres fazendo Biomédicas, e sempre trabalhando. Trabalhava de dia, ou trabalhava de noite com os meus irmãos e voltava pra... Quando eu tava fazendo Biomédicas na UnB, fui participar do Projeto Rondon. O Projeto Rondon era uma coisa da ditadura, uma política, mas era uma coisa interessante porque a gente começava a ver o que acontecia nas periferias do Brasil. Eu fui pro Espírito Santo fazer o projeto Rondon quando estava na UnB, passamos 40 dias lá. E a gente começava a perceber. E dentro da UnB a coisa fervilhava, era um local importante, muitas coisas aconteceram e onde começou muito essa questão da contestação. A história da invasão da UnB, é uma história que hoje a gente... P/1 – Você estava lá? R – Na época da invasão, não. Não estava mais. A invasão aconteceu antes... eu não estava mais não, eu não estava. Nessa época o reitor já era um coronel da Marinha [risos]. Esse Projeto Rondon começou a mostrar pra gente também... E tem umas figuras que eu me lembro, Pompeu de Souza. E começava a se destacar um “negrinho” na liderança sindical de Brasília. Naquela época a gente entendia o Chico Vigilante como um fenômeno: saiu lá do interior do Piauí e fundou a Associação dos Vigilantes de Brasília. Ele era uma figura. (PAUSA NA ENTREVISTA) P/1 – Você estava se referindo ao Chico Vigilante. R - É. Tinha umas assembleias de estudantes na UnB e, em uma delas, falou o Pompeu de Souza e depois veio um convidado, que era o Chico Vigilante. O Chico Vigilante era um baixinho, tem as características todas do piauiense mesmo: negrinho, baixinho, cabeça chata. Mas o cara falou pros estudantes, no seu linguajar, deu um show: “Nós temos que enfrentar essa Ditadura” e “pererê, pererê, pererê.” Foi nesse momento que a gente falou: “Pô, uma pessoa dessa vir pra cá e ensinar para os estudantes universitários e se expõe desse jeito”. E a gente começa a ter essa consciência de: “Olha, a gente vai ter que entrar nessa briga também;” E foi aí que começou tudo, na verdade. A gente começou a participar nas associações, em grupos, na Igreja, de movimentos pra corrigir as injustiças que aconteciam. E a gente participava de associações, grêmios e essas coisas aí. E começou essa militância, principalmente no movimento comunitário. Mas o despertar mesmo para a militância partidária aconteceu em 1983, que o PT, já como... E aí, claro, que em 1979. Outro dia eu tava pensando: “1979... como tem 1968 o ano que não acabou, eu imagino 1979 como o ano que começou tudo”. Não é verdade? Porque aí teve a greve, a primeira greve do ABC e a Fundação do Sindicato dos Professores aqui, passou a ser sindicato e não associação. A demissão de professoras grávidas. Professoras que estavam de licença-gestante foram demitidas. E aí, na Igreja, porque eles não permitiam que fizessem nem assembleia, reunião de professores dentro das escolas. Os professores faziam... como eu era estudante, os professores faziam reuniões no salão paroquial da Igreja. E nessa época o meu irmão já dava aula, ele tinha uma formação mais de direita. Interessante que, na família, quem militava na esquerda era somente eu, os outros assistiam, achavam que tinha injustiça, mas não militavam. E imagina, isso é interessante: Numa escola de freiras começou um curso de formação que algumas pessoas do PT ofereciam. Chamavam as pessoas que já militavam no movimento estudantil, que conhecia, tal. E a gente ia domingo de manhã pra essa, Instituto Pax. É uma escola que tem até hoje lá no Gama. Eles iam dar aula de formação de militantes. Um deles era o Rossi, que já foi presidente do PT em Brasília, professor da Universidade de Brasília, e o outro era o Carlos, um negro, forte. Eu me lembro do Carlos, assim, muito... E pessoas da Igreja, que também já... A Igreja tem esse papel importantíssimo, né? Porque o pessoal das pastorais, Pastoral da Juventude, da Criança, participavam já desse movimento organizado de formação de quadros. P/1 – E você já tava pensando em ser professor, já tinha assumido a ideia? R - Aí, sim. Eu saí do curso de Biomédicas na UnB e fui pro curso de Psicologia, na UnB. Nesse momento, também pensando muito mais em mim, como eu ia resolver esse conflito que a gente tinha e fui fazer Psicologia. Fui trabalhar de auxiliar de Contabilidade numa empresa chamada Sopremaco, que era a empresa do pai desse meu amigo, e fui estudar no Ceub [Centro Universitário de Brasília], uma escola particular, e terminei Psicologia. E aí vi um curso duríssimo de cinco anos, com laboratório, aquele negócio todo. E depois vi que não era a minha praia. E comecei tudo de novo. Durante esse tempo, com os meus irmãos, a gente abriu uma pequena fábrica de artefatos de cimento em sociedade com meus irmãos. Porque o pessoal da Sopremaco passou a fabricar outro tipo de coisa e passou uma parte de coisa de cimento pra gente. A gente fez um negócio lá com eles. Aí, eu comecei a militância política e descobri que comércio não era a minha praia e comecei a fazer História. Voltei pra UnB pra fazer História e, antes de terminar o curso, eu fiz um contrato especial pra dar aula. A minha esposa já dava aula de Português e a gente fazia esses cursos de formação política e foi juntando tudo a gente sempre teve muita facilidade pra discursar, falar e a gente começou a liderar alguns grupos, eu e minha esposa. Quando foi em 1984, eu fiz o concurso pra professor de História e, em 1985, eu entrei na Secretaria de Educação. P/1 – E como é que foi o processo de formação? Esse já é um momento de ebulição do movimento social como um todo e que começa a se articular de um modo mais consistente. E como é que foi o processo de construção do Sindicato dos Professores que não existia? R - Eles já tinham uma associação. Em 1979, o Sindicato dos Professores pegou a carta sindical. Ele já era associação e, com esse grande episódio, que foi a demissão, quem era o Secretário da Educação? Era Eurides Brito. Quem trouxe Eurides Brito pra Brasília? Jarbas Passarinho. Ela é paraense, ele também; e a trouxe do Pará porque já a conhecia. E trouxe pra cá, primeiro como Assessora no Ministério da Educação [risos], ele foi Coronel e Ministro da Educação numa época... [risos] e trouxe ela e ela terminou sendo indicada Secretária de Educação no Distrito Federal. Quando o Sarney, na época, indicou o Roriz pra ser Governador e o Roriz trouxe a Eurides Brito pra ser a Secretaria de Educação. Ela era uma técnica de Educação. E essa mulher era uma preposta da ditadura, ela fazia um serviço pro Jarbas Passarinho. E ela jogou pesado contra a ousadia de se fazer uma greve dos professores, em plena ditadura, foi o que desencadeou essa questão das demissões de professores que foram readmitidos depois de seis anos. E aí, eu comecei realmente na militância, me filiei ao partido em 1984, já militava no partido e o Sindicato dos Professores, aliás, todos os sindicatos em Brasília, aí começou o movimento, desde 1979 e a coisa começou a crescer. Os sindicatos todos, dos Bancários, UnB; o Sindicato dos Médicos começa a ser ocupado por pessoas de esquerda. A esquerda começa a “tomar” os sindicatos. P/1 – Via eleições? R – Via eleições, claro. Tomar os sindicatos e ocupar associações de moradores, associações de bairros, formar os núcleos. Porque hoje o PT se descaracterizou nessa questão das instâncias de base. Antigamente você tinha núcleo mesmo, tinha núcleo de professores, núcleo de vizinhança, e você debatia ali e a coisa acontecia. E foi nesse momento de efervescência que a gente começa essa militância. P/1 – E a construção do sindicato se dá no bojo disso... R - Se dá no bojo disso tudo. Por exemplo, eu entrei no dia 25 de outubro de 1985 na Secretaria de Educação, como concursado e, entre dez e quinze dias depois, já estava em uma greve. Nós fizemos uma greve de 54 dias e isso ainda tava no regime de exceção, né? Porque o Sarney era o “bam-bam-bam” da direita e, começamos esse movimento. Eu era delegado sindical, porque havia as instâncias de base também, dos sindicatos e era uma coisa muito séria. A gente ia pras assembleias e a gente normalmente defendia pela deflagração de greve e as pessoas foram confiando na gente. Era eu e minha esposa. P/1 – Você conheceu a sua esposa no movimento social? R – Não, depois nós entramos os dois porque ela sempre foi uma contestadora também. E a gente sempre ia junto pra tudo. Ela era professora, entrou antes de mim na Secretaria da Educação. P/1 – Como é o nome dela? R – Maria Conceição. P/2 – Professora de quê? R – Professora de Português e Francês. Veja só, né? A mãe dela era costureira e ela conseguiu uma bolsa pra fazer Aliança Francesa. Ela trabalhava de dia em um hospital, no laboratório, quando era à tarde ela ia pra Aliança Francesa e à noite vinha estudar. Ah, rapaz. A vida era meio complicada. P/1 – Jalma, me diga uma coisa: A ascendente, isso é, o movimento social se articulando, ganhando posições, num processo em que a ditadura começa a esmorecer. Todo esse movimento e toda essa grande aliança, digamos, já tinha, em algum momento, o olhar posto sobre o problema de uma cidade cassada como Brasília? Isto é, falta de representação política, nenhuma perspectiva, pelo menos até então, de uma autonomia política efetiva? Esse movimento tinha essa preocupação também em buscar essa conquista? R - Sim, essa preocupação estava sempre presente porque a gente defendia a sociedade socialista. Logo, todas as instâncias tinham que ser representadas via o voto ou a vontade de cada um dos cidadãos. Na verdade, Brasília era uma cidade cassada, o governador era nomeado pelo Presidente da República e as cidades satélites, naquela época eram cidades satélite mesmo, cidades-dormitório, a peonada trabalhava aqui e ia dormir na cidade. E o PT, quando se organiza, nessa questão das instâncias de base, e começa a ocupar as associações de moradores, dentro do movimento social e no movimento partidário, tudo isso já começava a ser discutido. Ou seja, a gente tem que fazer autonomia de Brasília e avançava mais, autonomia das cidades satélites. Porque a cidade satélite, até hoje, os administradores são garotos de recado do Governador, não têm autonomia nenhuma. P/1 – Nesse momento você ainda residia no Gama? R - Sim, eu sempre residi no Gama, continuo residindo. Eu fui Presidente do partido no Gama, de 1985 até cinco anos atrás, eu participei de todas as direções do PT no Gama também em Brasília. Eu fui da Executiva do Partido em Brasília antes da eleição do primeiro governador petista aqui em Brasília, Cristovam Buarque. P/1 – Esse contexto de início dos anos 1980: Campanha das Diretas na rua, o movimento social se fortalecendo, criando musculatura, até o ponto em que finalmente consegue a aprovação, antes da Constituinte, da representação política de Brasília pra votar a Constituinte. Como é que foi esse processo e a sua inserção nele? R – O processo começa principalmente dentro dos partidos políticos de esquerda. E, claro que a emancipação interessava também à direita, representada pelos comerciantes e empresários de Brasília. Por quê? Claro que os empresários tinham interesse em estar no poder. Eles queriam poder para administrar também a cidade politicamente. Claro que política, economia e poder econômico, tinha todo um campo pra eles estarem encastelados e conquistarem mesmo o poder. Ou seja, eles lutavam. Em algumas reuniões, eu até disse isso, em um curso de formação nosso. Eu dizia: “Tinha um interesse político-ideológico da esquerda, e tinha também...”. Naquela época, eu acho que a direita de Brasília era representada mais por comerciantes e empresários. Tanto é que a Associação Comercial de Brasília teve um papel importantíssimo na emancipação política do Distrito Federal. A minha opinião é que eles tinham interesse diferenciado do interesse das forças progressistas, ou forças de esquerda, da cidade. A gente queria a representação democrática, a democracia exercida na sua plenitude, e eles, claro que queriam a independência política de Brasília, mas para eles estarem no poder. Ou seja, pra facilitar, como hoje a gente vê, quem é que manda economicamente em Brasília, e também, quem é que manda nos meios de comunicação em Brasília. Com essa emancipação política, você pega os Governadores que assumiram Brasília, quase sempre foi o Roriz, porque se repetiu, só ficou quatro anos fora, quando o PT e a esquerda elegeram o Cristovam como Governador. E a emancipação naquele momento era uma coisa que era boa pra todo mundo. Todo mundo se uniu, como se uniu na campanha das Diretas. Claro que na campanha das Diretas você tem que dividir, não é uma coisa só. Tinha muita gente que hoje aparece na foto daqueles grandes comícios de São Paulo e Rio de Janeiro, que não tinham nada a ver com a questão de defesa da Democracia. Como o Sarney pulou do barco também. O Sarney era Presidente do PDS [Partido Democrático Social] e na última hora sai [risos] e vai ser o vice de Tancredo ele dá um golpe na Direita, que ele sempre esteve lá. É nesse contexto todo, por todos os lados, todas as forças se unem para a conquista da redemocratização. E a gente lutava por uma coisa muito maior, a gente queria uma sociedade socialista, ou seja: a gente vai junto nesse momento, mas depois a gente quer... P/1 – Certo. Circunstancialmente as forças estavam juntas naquele momento. R – Estavam juntas porque o interesse era o mesmo. P/1 – Passada a Constituinte, conquistada a representação de Brasília na Constituinte, aprovada a autonomia política de Brasília, finalmente caímos numa eleição para Governador e Legislativo Distrital em 1989. Como é que o movimento social, já tão articulado em ascensão, como é que ele influi e participa nesse processo eleitoral? R - A participação do movimento de esquerda, de todos os movimentos. A esquerda já tinha uma influência muito grande em todas as instâncias, tanto de política comunitária, lideranças comunitárias, onde se destacavam as pessoas de esquerda por dominarem a questão do “fazer política”, de praticar a democracia, de não deixar que as associações fossem usadas para fazer a política da direita. E o Sindicato dos Professores elege sua ex-Presidente, que é a companheira Lucia Carvalho, é eleita Deputada Distrital; professora que é eleita com uma votação expressiva. A gente participou ativamente, tanto bancando quanto a categoria naquele momento, a esquerda já tinha ocupado, porque o Sindicato dos Professores também, de 1979 até 1986. Em 1986 é que a esquerda ocupa o Sindicato dos Professores, na verdade. A diretoria desse ano é formada, em sua maioria, por pessoas ligadas à esquerda. Antes não, a diretoria era composta por pessoas ligadas à direita, ou, no máximo, progressistas [risos]. Naquela época não tinha esse negócio de progressista, não. Hoje que juntou tudo: “Ah, todo mundo é progressista.” Naquela época, não: ou você era de esquerda ou de direita. P/1 – E essa representação legislativa distrital, no que impactou na vida da cidade e do Distrito Federal. Qual avaliação você faz disso? R - A gente hoje tem condições de fazer essa análise. Em um primeiro momento era de um entusiasmo muito grande de fazer tudo diferente, era um momento de construção da Lei Orgânica da cidade, de montar tudo. Começar tudo, porque Brasília estava começando tudo, não tinha experiência nenhuma. O Legislativo não existia aqui, você tinha uma comissão que representava Brasília lá no Congresso, por Senadores e Deputados. E aí, é claro, que você queria fazer tudo novo, tudo era revolucionário. A esquerda queria impor a sua democracia, que era representativa em tudo. O chamado “reunismo”, “assembleísmo”, “tatata, tatata” [risos]. No início do primeiro mandato da Lucia Carvalho, por exemplo, tudo era decidido coletivamente. O grupo de apoio, nessa época... E aí começa, claro, a se evidenciar, os vários segmentos dentro do Partido dos Trabalhadores: A articulação de esquerda da luta, a vertente socialista, convergência socialista, todas as correntes de pensamentos dentro do PT começam a se articular melhor, a se mostrar. E naquele primeiro momento, aqui em Brasília, os mandatos eram todos muito coletivos, o Deputado era o porta-voz da vontade da sua base, ou seja, o deputado tinha uma base. A Lucia Carvalho, no nosso caso dos professores, a base dela era os professores. Reunia todo mundo e falava: “Olha, para onde vai o seu mandato? É por aqui, por aqui e por aqui.” E isso era algo muito novo e muito bonito, muito interessante. Mas depois, é claro, e isso é uma avaliação minha, eu participei de um mandato na Câmara Legislativa durante sete anos. Eu era diretor do sindicato, isso aí, antes do final da primeira legislatura em Brasília, nós fomos eleitos para a diretoria do sindicato no período 1992 a 1995, essa diretoria que eu participei. E a gente, naquele momento, começa a defender a candidatura de um companheiro que era completamente desconhecido no meio educacional, no segmento de educação, que era o companheiro Wasny de Roure. É “Uasní”, com W. P/1 – Com “i”? R – W-a-s-n-y de R-o-u-r-e. O Wasny era uma pessoa interessante. Ah, o nosso contato: a irmã dele era professora. Eu me lembro que na primeira legislatura ela chegava e falava: “Ah, o meu irmão é candidato” “Mas quem é?” “Wasny” “Ele trabalha na antiga Conab [Companhia Nacional de Abastecimento] e ele era da Associação dos Servidores da Conab”. (PAUSA NA ENTREVISTA) P/1 – Nós estávamos falando sobre a conquista dessa autonomia política, também impulsionada pelo movimento social organizado que tinha isso como foco. Eu queria que você fizesse uma avaliação. Tudo bem que foi todo um primeiro momento, como você disse, de grande novidade, movimento bonito, mas hoje temos uma autonomia política consolidada e como é que você avalia esse tipo de representação, hoje? Como é que, com toda essa tua história, é capaz de olhar pra trás e ver como essa representação política do Distrito Federal está sendo exercida agora? R - Olha, a impressão que a gente tem...e aí é preciso que a gente faça uma leitura política bem cabeça fria, que pode haver. É claro que existem interesses dizendo o seguinte: “Olhe, essa Câmara Legislativa aí é uma porcaria.” Mas aí não é a questão da importância do Poder Legislativo, acho que ela tem que continuar. A Democracia, ela passa por esses riscos também. Agora, os 24 deputados que estão lá representam exatamente a composição da sociedade que está aqui. Com todos os vícios. E a gente entende que hoje, Brasília - essa é minha avaliação- assimilou uma política interiorana, uma política que, por incrível que pareça, insiste em ser preservada. Eu que sou nordestino, a gente conversa com pessoas de cidades do interior, e o que leva as pessoas a votarem em determinadas pessoas que chegam lá e não representam coisa nenhuma. Ou seja, existe, claro, a responsabilidade dos eleitores, que na verdade aqui em Brasília, são oriundos desses sertões, essas periferias brasileiras, que ainda usam o voto como moeda de troca. Às vezes, as mais espúrias possíveis. Brasília ainda não escapou disso. Naquele primeiro momento, os votos em Brasília eram ideológicos, eram muito mais ideológicos, nas primeiras legislaturas. Você sabia quem era quem e quem estava falando ali. Ou seja, normalmente ou eram empresários que tinham visibilidade na cidade, oriundos da Associação Comercial e Industrial, que tinha uma militância nos clubes de serviço, Rotary, Lions, essas coisas, a maçonaria. E que tinham base. A gente sabia de onde estavam vindo cada peça daquelas, que estavam ali na Câmara Legislativa. Diferentemente, hoje Brasília cresceu muito, a população é muito heterogênea e chegam figuras lá que podem não ter nenhuma representatividade, ou nenhuma militância, que diga assim: “Olha, aquela pessoa vai representar bem o seu segmento.” Não é verdade? Hoje, a gente tá muito preocupado, a esquerda perde campo. Se você pegar todas as legislaturas hoje, a esquerda começa a ficar muito parecida com a direita, a militância hoje da esquerda é militância profissional. Como profissional? Isso eu quero deixar bem claro: a maioria dos militantes que carregam as bandeiras hoje são, ou funcionários, ou tem cargos no governo, ou estão em algum sindicato, ou estão em alguns gabinetes e cargos de governo mesmo. Brasília, depois de algum tempo e quando o PT governou, os administradores, foram todos indicados por este ou aquele segmento, ou pior, por este ou aquele deputado. Não é verdade? Muitas vezes nem eram as pessoas que tinham um trabalho na comunidade, mas sim pessoas que eram amigas deste deputado, ou, que era daquele partido. Isso, de certa maneira, desencantou um segmento importante da militância. Eu queria me reportar até a minha cidade mesmo, porque a gente lembra como é que a gente fazia essa militância: dinheiro, a gente contribuía, o PT tinha uma contribuição, tem um “dízimo.” Claro, é 1% do seu salário, você contribui voluntariamente, tem aquilo no estatuto, você contribui. E os funcionários, as pessoas que depois assumiram o cargo, tinham uma contribuição, para o partido, diferenciada. E essa militância se dava mesmo, as pessoas eram reconhecidas, pela representatividade que tinham na cidade, ou que tinham no partido. E aí, as pessoas que eram conhecidas na cidade do Gama, eram conhecidas pelo quê? Pelo trabalho que tinham, por exemplo: eu fui sondado pra ser o administrador da cidade, pelo trabalho que a gente tinha, passou 20 anos no partido. Mas quem foi ser administrador, foi ser uma pessoa indicada por um setor majoritário do partido, mesmo não tendo a mesma representatividade que eu e outros tínhamos. Eu não estou defendendo aqui que eu teria, é somente registrando um fato, pra dar um exemplo. E isso aconteceu em várias cidades. A pessoa que mais era reconhecida pela população como aquela pessoa que trabalhava, que estava nos movimentos e estava em todas as horas que a cidade precisava, defender, por exemplo, asfalto, um hospital melhor, participar dos conselhos de saúde, “pa-ra-rá”, aquela coisa toda, né? Necessariamente, já naquele momento da eleição do Cristovam, necessariamente não eram as pessoas que o partido colocava na Administração. Começa, aí, a ficar muito parecido com as práticas da direita e da política brasileira que estava aí há 500 anos, desde a Carta de Caminha. P/1 – A gente é obrigado a concordar que é “ruim com ele, pior sem ele”. É uma instância de representação que, mal ou bem, existe e foi uma conquista. E mesmo com essa avaliação e você, digamos, com uma inserção tão poderosa no movimento social de um lado também numa comunidade importante que é o Gama. Como é que você enxerga, quais são os grandes desafios que Brasília e o Distrito Federal vão ter que enfrentar pra que essa representatividade, enfim, seja de fato uma coisa que melhore a vida das pessoas, dos cidadãos. Quais são os desafios que estão colocados para esse movimento? R - Eu encaro. Por exemplo, hoje uma coisa que se coloca e é sério, é a questão da formação, mesmo. Formação política das pessoas também, hoje, um abandono da inserção na comunidade. E eu quero fazer um corte, antes de responder mais diretamente a sua pergunta. Com isso não quero dizer, não tô querendo diminuir o papel do meu partido. Eu sou filiado e continuo filiado e contribuindo para o partido. Afastado hoje da direção do partido, por uma questão, na minha avaliação, de coerência. Eu não concordo com o que acontece, porque acho que acontece de maneira equivocada. A gente tá perdendo contato com a comunidade. Cada vez mais a gente se afasta do movimento real pra ficar no movimento, mais “por cima”, não é verdade? E a gente prefere muito mais conversar com quem está no poder do que conversar com as bases, porque o Partido dos Trabalhadores, no seu estatuto, diz: “Esse é um partido de massa.” A gente num período vaaaaiii pra conquistar essa massa e depois vemmmm o partido que não tá muito preocupado em estar inserido nos movimentos de base. Hoje ele está perdendo essa característica, mas tem muita gente ainda que defende: “Não, você tem que estar ali, junto com a cidade, em todas as instâncias.” Mas, o que é que precisa pra essa representação política cumprir a sua obrigação, na minha avaliação? O que precisa é que a população cobre isso. Mas como é que essa população cobra isso? Se ela estiver preparada pra cobrar. E em que instância se cobra isso? Essas instâncias começam a desaparecer. Porque as associações de bairro, ou mesmo no partido, os núcleos de base, eles não existem. Existem muito menos nesse momento. Eles começaram a existir e depois começaram a ser núcleos liderados por preposto deste ou daquele deputado, ou seja: “Esse é o núcleo do fulano”, “esse é o núcleo do sicrano”. Isso enfraqueceu e a gente não tá se isentando de culpa nisso. Eu podia estar muito bem: “Não, não vamos fazer por aí”. Mas hoje, a gente entende que mesmo os partidos de direita ou de centro, perderam também esses contatos com a base e são partidos de cúpula. Eles foram partidos de quadros, hoje não são partidos de quadros, nem de quadros são mais, porque não existe a formação de quadros. Hoje são partidos que estão na dependência de quem se compuser melhor com esse ou aquele segmento. Normalmente está junto com a maioria do Governo. P/1 – Eu estou entendendo exatamente esse quadro que você está traçando e estou preocupado com a seguinte questão: Que futuro tem Brasília e o Distrito Federal dentro desse cenário que precisa ser modificado? Sem te pedir nenhum exercício de futurologia, não. O que isso pode redundar adiante. O que a tua experiência aponta que é possível ocorrer com Brasília e o Distrito Federal no futuro? R - Alguém já disse que as soluções saem do caos. Eu acho que Brasília está perto do caos na representação política. A coisa vai ficar tão ruim que começa uma reação a isso. Porque hoje em Brasília está acontecendo o mesmo fenômeno que acontece em grande parte do Brasil. Você hoje não tem mais o voto ideológico, hoje você vota nas pessoas. Você pega, por exemplo, pessoas que não têm base, ou que o partido não tem, por exemplo, um deputado que era professor da UnB que hoje é Deputado Distrital, o Reguffe. Só pra citar, sem querer, ou elogiar, ou depreciar. Mas o Reguffe é eleito por um discurso: “Não. Eu vou moralizar o salário dos deputados, as comissões, a verba de gabinete. Isso eu vou mudar tudo” e “pêrêrê-pêrêrê-pêrêrê”. E foi eleito com esse discurso. Mas não tem espaço hoje ainda pro Reguffe. Ele é diferenciado hoje na Câmara? Já foi mais [risos]. Ou seja, ele está sendo abafado por uma maioria, e a maioria sempre ligada ao governo. Os Governadores, aqui, sempre fizeram a maioria na Câmara Distrital. O atrelamento aqui é, na minha avaliação, é vergonhoso, porque hoje o Governador faz o que quer porque compra com o preço que lhe pedem. P/1 – Como você avalia, nesse contexto, esse projeto de recuperação da história da autonomia política de Brasília? R – Até na pergunta anterior eu poderia ter usado um exemplo que é do movimento sindical de Brasília. O movimento sindical de Brasília foi extremamente forte, ele é que dava norte à população de Brasília, se juntavam todos os servidores. Pra ir mais longe ainda, quem se lembra de uma coisa chamada greve geral dos trabalhadores? Quem é que tem, hoje, a petulância - o termo não é nem muito bem adequado - de chamar uma greve geral nesse país? Ou de chamar uma greve dos servidores do GDF? E aí vou trazer até ali. Quem é que junta, hoje, saúde e educação? Oras, a gente sai de um momento que a gente chamava de uma greve geral, depois a gente chamava uma greve de todos os servidores de um Estado. Depois a gente chamava segmentos: segurança, saúde e educação. E hoje a gente não consegue fazer de uma categoria. Qual é a categoria hoje que repercute alguma coisa na cidade? Dos professores. Que fizeram um ato ontem, dia 11 de março, com aproximadamente seis mil pessoas, para garantir o cumprimento de uma lei assinada pelo próprio governador que se nega a cumprir. Que foi negociada, a Câmara aprovou por unanimidade um plano de carreira, que nem é reajuste salarial, não. Isso é um discurso que ele joga para a população. A intenção do plano de carreira dos professores hoje é a isonomia com os segmentos de nível superior do GDF, Governo do Distrito Federal. P/1 – Cristalino... R - É. E o governo se nega a cumprir. Eu disse nas escolas: É a primeira vez que a gente vai fazer uma greve, e deverá sair essa greve pra fazer o Governador cumprir uma lei que ele mesmo assinou. Isso é um exemplo do extremo do movimento social. Se a gente tivesse uma Câmara Distrital, um Poder Legislativo e ver um Governador negar uma lei que ela aprovou por unanimidade, se houvesse uma reação realmente e se fosse dada importância aos segmentos ali representados saúde e educação, hoje não tem... Quem tem de professor ali? É um cara que era do PSD , que a gente entendia que era uma pessoa de centro-esquerda, por exemplo. E tem a Eurides Brito, a velha senhora Eurides Brito, deputada... Representando a educação? Hoje, a realidade colocada é essa: uma categoria que luta isolada, que vai pra rua isolada, e que tem a obrigação de ser a vanguarda dos movimentos, tanto sindical como comunitário, porque ela tem a comunidade todo dia a sua frente. Nós temos um terço da população na nossa frente, sem contar com os pais. E é uma categoria que tem tudo. E aí é uma avaliação que a gente faz em off, a pedra de toque hoje do governador é derrotar a única categoria que faz movimento aqui nessa cidade, que tem a ousadia de fazer movimento nessa cidade, que é a categoria dos professores. Com isso eu tô querendo dizer, a representação política de Brasília, ela está, hoje, ameaçada pela inanição. Ela não manda o governo, não sinaliza para o governo para onde ele tem que ir. O governo manda nele, o governador manda no Legislativo, por uma troca de favores, claro. Ninguém vota no governador pelos belos olhos dele, isso tem uma troca e as trocas, às vezes, mais condenáveis possíveis, de facilitar, por exemplo, que é uma prática: Aqui é um lote para uma escola, aqui é um lote para uma praça. Deputado entra com o projeto, muda a destinação daquele pedaço de terra para, por exemplo, posto de gasolina. E ele vai receber, ou vai ser um sócio do posto de gasolina; isso é uma prática. É complicado isso. E aí você me pergunta: “Como é que a gente vai reagir a isso?” Só tem um caminho, que é o da formação e o da organização. Quem vai fazer isso? Esse é o problema. P/1 – Muito bem, meu caro. Você deu, pra gente, uma história muito consistente, muito importante e a gente tem muito a agradecer a sua boa vontade em vasculhar a sua memória pra contar essas histórias que você contou pra nós. Pra finalizar, eu só queria que você dissesse como é que você se sentiu dando esse depoimento? O que significou essa entrevista pra você? R - A gente pensa o seguinte: Eu, particularmente, e um grupo de companheiros, a gente sempre lutou pra... Só tem uma saída: ou você faz uma parceria com a população, ou não tem saída. Isso eu digo pros meus amigos que hoje ainda insistem em fazer política partidária sem esse princípio. Às vezes eu digo até que na época do mensalão, se o Dirceu tivesse feito uma parceria com uma população e de onde tinha saído o dinheiro pra comprar os caras, e barato, talvez ele hoje estivesse sendo o candidato do Lula: “Não, a gente comprou com o dinheiro da mídia, dinheiro de propaganda. E ficou barato porque a gente comprou por 30 mil e Fernando Henrique comprava por 200 mil reais. A gente conseguiu bem mais barato”. É claro que isso é um exercício meio complicado, mas eu vou continuar defendendo isso: Que a única coisa que pode mudar essa representação que você me perguntou é política na cidade e no país é a parceria com a população, com a base da população. Ninguém vai dizer de cima pra baixo, como é que a sociedade tem que agir. Ou você vai junto com ela ou não tem mudança, não tem transformação. Essa é a saída, a população tem que estar junto. Hoje, por exemplo, a população de Brasília protesta por uma coisa que bate nela muito, que é a questão da saúde. Você vai em um Pronto Socorro e não é atendido. E passa nas lindas propagandas do Governo que está tudo maravilhoso, isso aqui é uma Ilha da Fantasia. Pra finalizar e agradecer a oportunidade, eu acho que diante de vocês está uma pessoa que não desistiu da luta. Mas que discorda dos caminhos que estão colocados hoje pra essa luta. P/1 – Jalma, em nome do Museu da Pessoa, da Abravídeo e da Fundação Banco do Brasil, a gente agradece bastante essa sua ótima entrevista e a sua recordação de momentos muito especiais na história do Distrito Federal. Muito obrigado. R – Eu é que agradeço. FINAL DE ENTREVISTA
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