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História

As sirenes de Itaipu

História de: Enes Donizetti Negrão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

Enis Donizete Negrão nasceu na cidade de Londrina, Paraná no ano de 1955. Mudou-se para Foz do Iguaçu em 1977 onde atua como torneiro mecânico, começando a partir da Unicom e em sua história fala sobre como foram os anos de construção da usina.

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História completa

P1 – Bom Donizete, eu gostaria que você começasse falando pra gente o seu nome completo, local e data do seu nascimento.
R – O meu nome é Enes Donizete Negrão, nasci em Londrina, 26 de maio de 1955.
P1 – E o nome do seu pai?
R – Micanor Alves Negrão e minha mãe Osória Saldanha de Jesus.
P1 – E seus pais faziam o que?
R – Meus pais tem um sitio próximo de Londrina, desde de 1970 nesse lugar.
P1 – E antes seu pai era?
R – Meu pai era administrador de fazendas, sempre ficava 4 horas numa fazenda, 5 horas em outra, as vezes 1 hora em outra sempre mudando, meu pai chegou em Londrina bem no começo acho que em 1938 se não me engano.
P1 – E você, a sua profissão, a sua atividade aqui na Usina?
R – Eu trabalho como torneiro mecânico, tudo que você pensa em fazer em termo de usinagem a gente faz, parte de torno, parte de fresa, parte de retifica, ajustagem final tudo isso a gente executa lá.
P1 – E você chegou quando em Foz do Iguaçu?
R – Cheguei em agosto de 1977.
P1 – Você veio direto de Londrina?
R – Eu cheguei aqui, eu não vim pra trabalhar aqui eu vim pra passear na casa da minha namorada, ela morava em Londrina aí ela mudou pra Cascavel em 77 peguei férias que eu trabalhava numa empresa em Londrina daí vim passear na casa dela e aí no ônibus um rapaz me contou das Cataratas, aproveitar segunda feira que minha esposa trabalhava na roça, ela vai tá trabalhando eu vou aproveitar e conhecer as Cataratas aí eu vim nas Cataratas aí um rapaz falou: “Legal é conhecer Itaipú”, daí peguei o canteiro de obras que na época tinha fui entrar na barreira e o guarda não deixou entrar, daí “Mas eu quero entrar”, daí eu vi um pessoal entrando “Vai fazer teste, todo mundo vai tá trabalhando”, “Ah, então eu quero fazer teste”, aí fui lá na época o escritório da Unicon era no centro de Foz isso foi na parte da manhã, na parte da tarde já tava entrando pra fazer teste, daí fui fazer teste passei, ia ganhar mais, ganhar mais e ficar perto da minha namorada aí eu comecei a trabalhar em 77.
P1 – Quer dizer que você só foi fazer o teste porque você queria entrar na Usina, só por isso, mas aí que função você entrou?
R – Entrei na torneraria, só que nesse perdido que teve aí o apelido mudou, no inicio quando entrei na Unicon não tinha torneiro, era operador de maquina operatriz, mas era sempre torneiro.
P1 – Mas você já conhecia essa profissão?
R – Eu já tinha feito Senai em Londrina durante 2 anos, fiz Senai de 71 a 73 e de 73 a 77 trabalhei numa empresa lá em Londrina e daí vim pra cá e to até hoje aí.
P1 – Quer dizer você entrou e tinha um sonho de conhecer a Usina, você entrou foi fazer um teste, mas qual foi a impressão que você teve quando viu a Usina?
R – Me assustei com tudo que tinha, aquele movimento na época era igual formiga assim, ainda quando entrei em 77 não era o auge porque o auge foi em torno de 79, 80 que foi o auge que teve mais funcionários, né, mas impressionei que a gente morava, sempre morei na roça fui pra Londrina em 71 porque meu irmão era enfermeiro, né, ele morava em Londrina e daí fui pra lá e aprendi essa profissão mas sempre convivia com pouca gente, não o tumulto que tinha aqui.
P1 – Quer dizer que marcou a imagem que te marcou foi esse movimento de pessoas.
R – Coisas novas, pessoas de varias origens, né, Paraguai, Uruguai, Argentina e de varias regiões do Brasil também, tinha pessoas que já era barrageiro velho, então essas pessoas já sabiam que você porque o pessoal conhece que você é meio matutão aí começa tirar sarro de você.
P1 – E aí você começou a trabalhar como torneiro?
R – Como torneiro.
P1 – E quais as suas atribuições? O que você tinha que fazer?
R – Na época da Unicon eu trabalhei com fabricação de peças para formas deslizantes, a maioria das peças era fabricação de formas deslizantes. Tem as peças na construção civil, tinhas peças que era 50 mil por mês, tinha peça que era 15 mil peças, o que mais a gente confeccionava era isso aí.
P1 – Você fazia peças pra atender a necessidade das maquinas.
R – Essas peças não são reaproveitadas elas ficam concretadas. Se usava ela pra poder levantar as formas, chamava forma deslizante então as peças ficavam chumbadas no concreto pra poder fixar as formas, conforme as formas precisasse levantar não tirava fora fixava no concreto.
P1 – O que era essa forma deslizante?
R – Era um tipo de painel que sustentava o concreto, entendeu, então você levantava aquele painel, aquela forma daí vinha a caçamba de concreto as vezes do cabo aéreo, as vezes era da manovia dependendo do lugar que tava, as vezes era do guindaste então despejava o concreto lá dentro esperava 2, 3 dias pra curar aí sacava aquela forma e levava pra cima até chegar em cima.
P1 – E como que era o cotidiano, Donizete, você também trabalhava de turno, você tinha um horário fixo.
R – Das 7 às 7 e uma semana de dia e uma semana a noite, isso geralmente uma semana que tava pelo dia tinha que fazer hora extra no domingo aí você emendava geralmente fiquei uns 2, 3 anos assim só pegava folga num domingo quando você amanhecia trabalhando segunda a noite, uns 2, 3 anos foi quase que direto assim, só quando você tinha um compromisso pra fazer que nem eu queria visitar minha mãe em Londrina então aí você não trabalhava no domingo.
P1 – E você ficava em alojamento?
R – Eu fiquei até me casar, eu casei em dezembro de 77, de agosto até dezembro eu fiquei alojado.
P1 – Alojado aqui dentro da Usina. E como é que era o alojamento?
R – Porque naquela época não tinha asfalto era tudo terra, né, era uma correria meu Deus do Céu porque era aqueles caminhões todo, o caminhão chegava lá no alojamento pra trazer pro refeitório, o caminhão chegava já ia encontrar com o caminhão aí o pessoal o primeiro que entrava já ficava na porta pra descer primeiro no refeitório então o caminhão que cabia 60 pessoas só entrava 10, 15 porque eles não deixavam mais entrar porque eles queriam ser os primeiros a descer e era assim e se você por um acaso quisesse tivesse lá no fundo e ficasse no meio que nem já aconteceu comigo derrubar eu pra poder descer primeiro.
P1 – Porque esse transporte do alojamento pra área e pro refeitório era feito por caminhão, porque era longe então?
R – Era longe, o refeitório é perto do HSBC um pouquinho pra frente, ali era o refeitório, tinha refeitório de campo também, mas o refeitório pra quem era alojado era esse aqui e o alojamento era um pouquinho pra frente daqui uns 600 metros.
P1 – Então era longe e tinha que fazer o transporte, o que servia no refeitório a comida era boa assim pro pessoal querer chegar logo.
R – A comida era boa, ninguém podia reclamar não, era boa e era farta.
P1 – O que vocês comiam?
R – Era tanta comida lá, cada dia da semana era uma comida diferente, a comida que eu mais gostava era dobradinha e rabada, não repetia um dia acho que era cada 15 dias que voltava, era bem sortido mesmo.
P1 – E você tava me contando que você sofreu um acidente?
R – Sofri um acidente em 78, maio de 78.
P1 – Você tava aqui 1 ano.
R – Eu tava com 6 meses de casado. Foi por Deus mesmo se não eu tinha morrido do jeito que aconteceu.
P1 – Mas ficou tudo bem depois, você teve toda assistência.
R – Tive, na época da Unicon, né, fiquei 4 meses afastado, fiquei 40 dias internado, o braço não ficou 100% igual era, mas não me atrapalha em nada.
P1 – Porque você voltou depois desse tempo ficou trabalhando normal. Donizete, o que você acha que foi mais importante da construção, qual etapa que você acha que foi mais importante?
R – Pra mim você fala, o que me marcou mais?
P1 – Isso, o que marcou mais você.
R – Eu acho que no começo foi a saudade de casa, porque eu nunca tinha saído você ia lá a minha mãe começava a chorar.
P1 – Então esse afastamento de seus pais...
R – Esse afastamento, mas com os amigos aqui, tem amigo aqui que eu conheci em 77 e tá até hoje a gente conviveu mais que irmão, com a convivência assim você foi esquecendo e teve esse acidente depois meu casamento, então tem varias coisas que me marcou bastante.
P1 – Mas da construção da Usina teve alguma etapa...
R – Da construção o que marcava bastante era o barulho da sirene porque o caminho pra gente ir pro trabalho era um, então sempre no final de tarde ao cair da noite era 6 horas da tarde se não me engano eles davam folga ali no canal de explosão pra poder tirar pedra melhor do canal. Então quando chegava nesse horário tocava a sirene e você era obrigado ir lá no refugio biológico dava uma volta de 4, 5 quilômetros a mais pra poder desviar, então isso aí inclusive assisti um filme esses dias, um filme que foi gravado por uma equipe francesa eu lembrava disso aí dava...
P1 – Do barulho da sirene.
R – É uma coisa que a gente não esquece.
P1 – É verdade. Você acha que Itaipú mudou muito aqui a região?
R – Ah sim, do jeito que era antes e do jeito que é hoje.
P1 – Você veio bem no comecinho, né.
R – Bem no comecinho, mas se não fosse Itaipú meu Deus do céu, Itaipú que trouxe a evolução pra cá, do jeito que era antes do jeito que é hoje, essas famílias que estão morando hoje em Foz do Iguaçu acho que 50% quase veio em função de Itaipú e se fixaram aqui.
P1 – Mudou bastante, né. E você é casado Donizete, mora com seus filhos, com sua esposa aqui em Foz mesmo?
R – Aqui em Foz.
P1- E o que você faz hoje, hoje você continua como torneiro?
R – Continuo como torneiro.
P1 – E nas suas horas de lazer o que você gosta mais?
R – Nas horas de lazer, agora eu to estudando a noite, mas sempre praticava futebol, meu horário é sagrado, agora não to participando do ensaio porque eu to estudando a noite, mas sábado às 7 horas da noite e domingo às 9 e 15 da manhã é sagrado a missa porque eu faço parte de um coral então isso aí...
P1 – Você faz parte do coral de Itaipú?
R – Não, coral da igreja.
P1 – Tá, e você gosta de cantar então?
R – Isso aí preenche, faz a gente esquecer problemas, é um remédio, só faz bem.
P1 – Então tá, pra terminar essa entrevista o que você achou de ter dado essa entrevista pro Memorial do Trabalhador?
R – Eu sempre achei que tava faltando alguma coisa e acho que isso vai completar, eu to aqui desde 77 se você vê o pessoal aí que tem 15 anos de Itaipú você nunca plantou uma árvore, mas você vê cara que entrou 10 anos depois de você tem a tua arvore plantada e você tá aqui eles não consideram o tempo que você trabalhava na empreiteira, então eu achei que tava faltando alguma coisa, agora não.
P1 – Você tem esse detalhe, você ficou de 77, quando é que você...
R – Em entrei em Itaipú em 88, em 96.
P1 – Em 96 em Itaipú, mas você tá aqui desde 77.
R – Eu trabalhei na Unicon de agosto de 77 a outubro de 88, em primeiro de dezembro de 88 eu comecei a trabalhar em Itaipu, mas como requisitado, até hoje, eu comecei a trabalhar em 88 só que de 88 a 96 eu troquei de empresa acho que seis ou sete vezes.
P1 – Mas sempre trabalhando...
R – Sempre no mesmo lugar e sem ficar fora um dia.
P1 – Certo.
R – É porque é uma empreiteira, outra empreiteira, mas aqui em Itaipú só fiquei fora na época quando eu sai da Unicon e aí eu não sabia se ia voltar a trabalhar como requisitado e nesse tempo eu fiquei construindo uma casa pra mim com o dinheiro que eu recebi da indenização.
P1 – Então você já tá aqui o tempo suficiente pra ter duas arvores.
R – Ah sim, mas agora é melhor que uma arvore esse Memorial.
P1 – Então você gostou de dá essa entrevista?
R – Gostei e tem mais coisas que a gente gostaria de falar também que a gente esquece, fica nervoso tem muita coisa que tem o senhor que era encarregado meu tem junto naquela foto que tem na fabrica aí, você pegou? Eu aprendi muito com aquele homem lá, porque você fica longe dos pais embora você já tenha uma formação, mas eu aprendei muito porque na época você queira ou não nessa época de 78, 79 tinha pessoas que levava coisas em banco, era tudo fartura não tinha controle, entendeu, a pessoa via a coisa fácil lá colocava na bolsa e ia embora e esse cara ensinou muito pra mim.
P1 – Então tá bom, a gente agradece a sua entrevista.
R – Eu que agradeço.

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