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História

As ruas: lugares de encontro

História de: Dorival Storari
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/07/2017

Sinopse

Dori, desde pequeno, gostava de ficar na rua brincando e sempre perdia a hora de voltar para casa. Em seu depoimento, ele conta sobre sua trajetória, em que passou por diferentes moradias, sempre por curtos períodos: abrigos e casas de parentes. Com a sua mania de ficar na rua, fazia de tudo para não voltar para casa. Começou a jogar basquete, e aos 14 anos, teve o primeiro contato com as drogas. Aos 18 anos se envolveu com cocaína e crack, foi então que passou a morar nas ruas. Sem perspectiva de sair, chegou a cometer alguns furtos e, com o tempo, foi ficando muito debilitado, até ser acolhido por um amigo que estava numa pastoral. A partir daí, começou um processo de desintoxicação e conseguiu sair das ruas, deixar o uso de drogas e começar um novo trabalho. Hoje, Dori é socioeducador de crianças e adolescentes em serviços de acolhimento. Contar sua história é sua principal ferramentas de trabalho junto aos amigos dos tempos de abrigo, que considera como irmãos e companheiros de vida.

História completa

Meu primeiro abrigo foi em Santa Cruz do Rio Pardo, este serviço existe lá ainda. E foi muito pequeno que eu fui para lá, eu devia ter cerca de um a dois anos, a recordação que eu tenho é que foi eu e meu irmão o Silvio e a Adriana.

Mesmo eu pequeno, eu me recordo, em Santa Cruz tem uma ponte e eu lembro que a gente tinha que passar por cima desta ponte pra ir na casa de uma das educadoras aos finais de semana e como eu era pequenininho eu ficava com medo de passar e aí ela passava comigo.

Eu me lembro também de um casal de alemães. Eles queriam adotar eu e meus irmãos. Foi quando com cinco anos eu e meu irmão fomos morar com a minha avó, em Ribeirão Claro, aonde eu fiquei até os sete anos. A gente ficava tão preso, tão né, ali, que quando a gente saía a gente não queria voltar mais, saía de manhã para comprar pão e não voltava mais. E aí, cidadezinha pequena, ficava na praça lá, ficava rodando, brincando com a molecada.

Depois fui morar com a minha tia Cida, foi um lugar onde eu gostei muito. Só que como eu já tinha esse hábito de sair e não voltar eu ia pra a escola direitinho só que eu saía da escola meio-dia e eu passava na praça e ficava batendo card com os meninos, ficava brincando de esconde-esconde, pega-pega.

Com nove anos eu me recordo que foi um choque para mim. Eu lembro até hoje, eu estava só de bermuda jogando bola com meu primo na garagem de terra batida, encostou um carro, e aí perguntou pela tia Maria. Eu subi correndo e falei: “Tia Maria, tem um pessoal lá embaixo chamando a senhora”. Aí quando minha tia olhou pela janela, ela falou assim: “É a sua mãe, ela veio te buscar”. Eu chorava muito, eu saí correndo, me escondi embaixo da cama, comecei a chorar e falar assim: “Eu não quero ir”. Eu não conhecia ela, não sabia quem era.

Na rua para mim era muito melhor, eu preferia estar na rua, comecei a fugir e conhecer uma outra galera. Conheci uma galera que fumava maconha, que já era mais malandro, arrumava dinheiro de outro jeito. Eu fugia de casa e comecei a me tocar para a favela com esta rapaziada. E aí, tinha uns barracos que eu ficava dias lá entocado até minha mãe me achar. Daí eu fugia de novo.

Tá bom, eu fico na rua. Já sei para onde ir, já sei o que fazer. Eu sei que se eu ficar embaixo do viaduto o pessoal vai trazer coberta para mim, vai trazer comida, tem onde eu ir comer, tem onde eu tomar banho, por que na rua tem tudo isso. E aí, fui, fiquei um ano.

Eu, como sempre, com meu orgulho, arrumei minhas coisas e falei assim: “Eu realmente não preciso do seu serviço não, abre o portão que eu estou indo embora.” “Não, você vai jogar tudo fora.” “Você não está jogando na minha cara que eu não preciso do serviço, que eu já tenho dezoito anos, você não tem a obrigação de ficar me aguentando, então abre o portão que eu vou embora.”  Daí joguei a mochila pelo portão, escalei, pulei e fui embora. Só que eu já tinha dezoito anos, não tinha mais como pedir para mim voltar. Não tinha mais. Novamente o orgulho de achar que eu podia fazer o que eu quisesse.

Eu estava só tomando pinga. Dá-lhe pinga, dá-lhe pinga, dá-lhe pinga. Aquele sol quente rachando na cabeça, cê toma pinga pra dentro, toma pinga e daqui a pouco puff: capota onde você está mesmo. Eu já estava nessa situação. E aí, começou a passar um flash pela minha cabeça, e eu falei assim: “eu não quero acabar aqui, onde eu estou. Não é isso que eu quero para mim”.

Talvez se eu tivesse sido adotado por aquele casal, lá no abrigo, se eu tivesse sido adotado por eles, e tivesse ido pra Alemanha, talvez eu seria uma pessoa orgulhosa, soberba, porque eu me conheço, e eu tenho isso dentro de mim. Eu sei que se eu não tivesse vivido o que eu vivi eu não seria a pessoa que eu sou hoje. Então, assim, o grande aprendizado que eu tenho, foi conhecer a pessoa que realmente eu sou, e poder olhar pra trás e não desmerecer o que eu vivi, ou desmerecer quem esteja onde eu vivi, onde eu passei, mas aprender a estender a mão pra aquelas pessoas que estão lá e poder ajudar. Coisa que eu talvez não faria se eu tivesse tido tudo, então acho que meu maior aprendizado foi aprender a humildade, sabe, reconhecer da onde a gente veio. 

Por Viviane Longo 

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