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História

As reivindicações, brincadeiras e carreira de um homem em alto-mar

História de: André Luis Souza de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/01/2021

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Aos 21 anos, integrou a equipe de funcionários da Petrobras. Começou como estagiário e passou por diversas outras áreas dentro da plataforma Bacia de Campos.

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História completa

P/1 – Boa noite. 


R – Boa noite. 


P/1 – Eu gostaria de começar pedindo que o senhor nos fale o seu nome completo, o local e data de nascimento.


R – O meu nome é André Luis Souza de Carvalho. Eu Nasci em Campos dos Goytacazes, estado do Rio, em 5 de maio de 1968.


P/1 – André, conta pra gente como que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi. 


R – Eu ingressei na Petrobras em 20 de novembro de 1989. A gente fez o concurso acho que em 1987 ou 1988, não me lembro bem. Isso ficou em cadastro de reserva. E a gente entrou no ano de 1989. Foi a última turma. Eu fiquei assim, dos últimos que eu entrei, fiquei até agora sem que ultimamente teve a contratação de novos empregados, eu fui o mais novinho por um bom tempo. Durante uns dez anos atrás eu ainda era o mais novo. 


P/1 – E conta pra gente quais foram os setores que você foi trabalhar. Qual era a atividade?


R – Tá. Quando entrei, eu sempre trabalhei aqui em Garoupa, nesta unidade, sendo que eu não fiquei num local só. Eu entrei, fui trabalhar na Facilidades Elétricas, na parte de geração e distribuição de energia elétrica. Trabalhei acho que uns dois anos, três. Depois houve um problema na companhia que abrangeu. Eu fui trabalhar não só na elétrica, mas trabalhei também na outra parte de facilidade, compressores de ar, óleo diesel etc. E, aí, depois desse tempo eu fiz também parte do SMS, na implantação, que é o Sistema de Meio Ambiente, Saúde e Segurança. Depois eu voltei pra área, depois de implantado, fiz parte, aí fui pra manutenção. Chego na manutenção, trabalho como eletricista. E depois acabei voltando pra parte de SMS porque a gente teve que implantar a Snob 1 [?], que é a norma de qualidade. E eu estou por aqui até por esse mês ou o outro. Eu devo ir pra outra unidade. 


P/1 – E atualmente como que é a sua atividade? Conta pra gente um pouco, já que a gente não tem tanto conhecimento sobre a área. O quê que vocês fazem?


R – Nós somos responsáveis pela manutenção do Sistema de Gestão de Qualidade e de SMS, que é Meio Ambiente, Saúde e Segurança. Então, o que é que a gente faz? A gente busca manter padrões com a parte de gestão, padrões de trabalho atualizados. Legislação que entra nova, por exemplo, nós temos que estar, o escritório observa essa legislação nova, eles identificam lá embaixo, passam pra gente. Nós temos que replicar. Então nós fazemos uma espécie, assim, de ver a papelada toda e repassar pra que, na prática, a coisa funcione. Nós damos palestras sobre esses assuntos, saúde e segurança. Então, é muito a parte de gestão mesmo, não é tão operacional como é na área operacional. 


P/1 – Mas você já trabalhou na área operacional? 


R – Sim. Muitos anos.


P/1 – Como que você vê essa diferença? O que você pode, nessa sua trajetória profissional...


R – A minha estadia na área, a minha parte na área, deu uma grande bagagem pra que eu exerça bem a minha função aqui. Porque, às vezes, a gente via pessoas, tem colegas que, às vezes, nunca foram da área, foram sempre administrativo. Então, tem uma grande dificuldade, às vezes, de enxergar determinadas coisas que a gente enxergava, porque a gente vivia aquelas situações todas. E cai plataforma, no começo caia muito. Cair que a gente diz é parar. Deu um problema e left down , caiu tudo, aí saia correndo pra botar tudo em cima. Botar em cima é ligar os equipamentos. Tem umas nomenclaturas meio diferentes. E era muito gostoso, muito bom mesmo. E eu estou pra sair daqui e ir pra uma nova plataforma, a P-52, que está sendo construída, e vou voltar pra área de operação, se Deus quiser. 


P/1 – Você gosta mais da área de operação?


R – Eu gostei muito dessa área, mas também não é que eu vou deixar. Na verdade eu vou pra uma função que é de coordenação. Então, na verdade eu vou fazer um pouco. Acho que, no fundo, o fato de eu ter experiência da área, mais a experiência da gestão, vai me ajudar muito nessa nova função que eu vou exercer lá, que é de coordenador. 


P/1 – E fala pra gente um pouquinho como você desde que entrou aqui está sempre embarcado. Como que é essa vida de estar embarcado?


R – Às vezes é boa, às vezes é ruim. 


P/1 – Como assim?


R – Tem dia que, tem época que você embarca e você passa tranquilo, tudo muito bom, não acontece nada de ruim. Ruim que eu digo, assim, de muitos problemas, a gente não ter muito problema em casa, porque as coisas se refletem. Aí passa bem. Mas tem época que também a gente não passa muito bem.


P/1 – Quando você fala assim: “Não passa bem”, você está se referindo às atividades no trabalho ou às relações? Como que é? Por que vocês têm essa coisa de estar trabalhando aqui intensamente, que é tão direto, tem as relações. Como que isso se ajusta pra vocês?


R – Veja bem, esse passar bem ou passar mal, tem aqueles dias que você acorda com o pé esquerdo. Não tem aquela coisa que você acorda bem, bem mesmo, tem dia que você acorda mal. São coisas que, às vezes, a gente procura e não sabe nem o porquê. A relação entre nós aqui da plataforma é excelente porque a gente acaba, nós temos que compartilhar tudo uns com os outros. Compartilha de camarote, compartilha as diversões quando tem. Não é com todo mundo que não dá, mas estamos sempre interagindo muito, a interação é muito grande. Mas é difícil. É difícil porque o tempo também provoca que a gente sente o cansaço de estar nesse regime. Então cansa. Cansa bastante. 


P/1 – E nesse tempo que você está aqui na Bacia de Campos, o que você pode destacar para a gente de importante que você tenha vivido, ou uma história marcante, engraçada? Enfim, o que é que você pode registrar aí pra gente?


R – Eu não tenho, assim, uma grande... uma coisa que sobressaiu. Tem momentos que, por exemplo, momentos de Ano Novo e Natal, muitas vezes a gente tem que passar aqui. E são momentos, pra mim, da mesma forma que em casa é importante, aqui também acho uma coisa diferente. E tem alguns momentos que a gente lembra que foram coisas que deram muito trabalho, como por exemplo uma vez que os motogeradores de energia não entraram e ficou tudo escuro. Foi escurecendo e ninguém conseguia dar um jeito. Foi, não é um pânico. A gente sabia que estava seguro, tinha barco do lado, não tinha problema. Mas foi difícil pra você voltar à plataforma. Teve uma outra vez que pegou fogo e ficou todo mundo meio assustado. Mas no final não foi nada de mais, graças a Deus. Não teve vítima. Graças a Deus eu nunca vi nenhuma vítima aqui dentro. E aí tem uma coisa que tenha sobressaído assim. 


P/1 – Pode ser uma que tenha marcado pra você, nem tanto que tenha sobressaído, mas que te marcou, que você pode dizer que marcou. 


R – Uma coisa engraçada. Até ultimamente a gente não tem feito mais esse tipo de coisa, que era… Quando a gente chegou aqui, o pessoal era muito novo, muito bagunceiro. Então era um tal de jogar água, dar banho, essas coisas todas. E fizeram a brincadeira comigo. Uma enfermeira meio maluquinha que tinha aí, ela me pintou, falou que ela não sei o que, que era formada, não sei o que, não sei o que. E acabou me falando: “Agora vai lá que fulano está chamando”. E eu fui lá, e quando cheguei lá estava a plataforma inteira na sala de controle, todo mundo dando risada. Eu também não sabia porque eu não tinha me visto no espelho. No final eu fui me ver: “Ah, meu Deus, que mico”. 


P/1 – O que é que eles tinham feito com você?


R – Pintou, ela pintou. 


P/1 – Você estava dormindo?


R – Não, ela falou que tinha que passar a pomada para alguma coisa e eu, muito novinho, bobo, aceitei a história. E lá fui eu todo pintado pra sala de controle. Coisas desse tipo. E é engraçado. A gente fazia umas brincadeiras. Hoje em dia o pessoal ficou tudo muito velho, todo mundo casado. Então, acabou aquela animação de fazer bagunça. 


P/1 – Parou um pouco, né?


R – Parou um pouco. 


P/1 – Você falou que nunca viu ninguém, nem uma vítima, nesse momento que você está embarcado. Mas como que é essa expectativa de vocês, essa vivência de vocês, sabendo que estão distantes de terra? Como é que vocês ficam se acontece alguma emergência? Como que isso...


R – Aqui ou em casa?


P/1 – Aqui. 


R – Quando acontece uma emergência aqui, na verdade, a gente não pensa muito no que pode acontecer. A gente pensa em contornar a emergência da forma mais rápida possível. Eu não fico assim pensando: “ah, pode acontecer uma coisa triste”, ou ficar com medo. Não dá tempo. 


P/1 – Não dá tempo?


R – Aquela é uma reatividade muito grande que você pega e parte pra resolver o problema. 


P/1 – Quando você estava na área operacional, como que isso era pra você? Você estava mais na prática, né?


R – Hum, hum. É, é um pouco rotineiro, uma situação um pouco rotineira. Mas era uma situação boa. Tudo tem seu lado bom e... se eu fosse comparar entre a área e o que eu faço hoje, eu sinto falta de algumas coisas de lá. E daqui também eu acho que eu sentiria. Que eu fui e voltei, então tenho um pouco de noção disso. Então, o contato com muitas pessoas de serviço, de às vezes você estar... Eu lembro que quando a gente era bem mais novo... à noite é mais calmo, não tem liberação de serviço… então a gente ia lá pro... a gente era bem jovenzinho, tinha 22 anos, ficava ali na baleeira. Ficávamos sentados, eu e um colega, a gente ficava conversando das coisas que a gente pensava conquistar, essas coisas assim. Era um momento bem diferente do que hoje. Hoje a gente não tem isso aqui em cima, não dá tempo. Às vezes até conversa, mas é aqui dentro. Mas não é a mesma coisa de lá fora. Também o momento era outro, era de começar a vida, aquela coisa toda. Então, essas coisas a gente sente um pouquinho de falta. Então, a gente sente um pouquinho de falta de lá, um pouquinho de falta de cá. 


P/1 – E você falou que entrou muito novo na empresa. Mas só que você veio direto para a Bacia de Campos. Como é que você sentia aqui, nesse momento, as expectativas de exploração? Como que você via isso aqui dentro, essa questão do desafio? Como que vocês percebiam isso?


R – O desafio é, praticamente a gente vê esse desafio até hoje no trabalho porque a qualquer momento pode tocar um alarme, pode acontecer alguma coisa, e a gente tem que atuar. Hoje, eu na minha função, não estou ligado diretamente ao processo em si, porém, a gente está ligado a várias outras coisas que sustentam. A Petrobras hoje não pode imaginar a questão de acidente ambiental, essa coisa toda. E a gente controla, ajuda a controlar essas coisas, por exemplo, quando entrou uma unidade nova ____________. A gente vai lá, vai junto com o pessoal, a gente faz um levantamento desse aspecto lá, vê o que pode acontecer, o que não pode, discute com o pessoal. Mas quando estava, quando eu cheguei aqui, era o tempo todo. Caia, aí corre pra botar em cima, e aquela coisa, quanto mais. 


P/1 – E por que que caía tanto?


R – Porque os equipamentos não eram tão confiáveis. Caía. Por quê? Eu estava trabalhando na geração. Aquele painel lá não é um painel microprocessado como são os painéis hoje em dia. E não se conhecia muito bem o painel. Então aquilo dava falha. Queimava um cartão. Quando queimava um cartão ia tudo embora. A gente não sabia o que é que era. Às vezes não era cartão, era um problema no sistema. E quanto mais a gente ficava fora, mais prejuízo a gente dava. Porque Garoupa parando, para tudo, Pargo, as Carapebas, os Vermelhos, Namorados e Cherne. Então, o peso da responsabilidade aqui era grande. Qualquer erro que a gente ficava com medo de cometer. Aí, nós novinhos então, ficava com mais medo ainda. Apertar alguma coisa e tombar tudo. Mas então era uma coisa, era um desafio, um desafio muito gostoso, muito bom. 


P/1 – Mudando um pouquinho de assunto, você é filiado ao sindicato?


R – Não. Ah, não, perdão. Sou. Filiado, sou. 


P/1 – E nesse momento você conseguiu, mesmo estando embarcado, perceber ou acompanhar algum movimento de reivindicação sindical, que você se recorde?


R – Nossa Senhora. Sim, recordo. Foi terrível. Eu lembro que, na época, no começo, na época que ainda estava, não era ditadura mais. Na época eu não peguei ditadura, mas eu peguei o restinho daquela maneira de agir que era do passado, Então, de força, braço de força mesmo. Não se tinha muita negociação. A negociação acabava no tribunal. E tinha que ser o que tinha que ser e acabou. E era muito difícil porque as pessoas se empolgavam no sentido até de serem agressivas. Teve um momento que eu passei que foi bem delicado porque eu estava entrando, eu não era ainda... na época eu era estagiário. Numa época eu cheguei a ficar um ano como estagiário, depois era admitido definitivamente. Então, a gente ficou com aquele receio de fazer greve. Quando eu entrei, teve uma greve grande e eu embarquei. Eu lembro que juntou aquele monte de gente e xingavam mesmo, era uma coisa terrível. Mas aqui também teve outros momentos que foi de greve. Mas eu também já participei de uma. A última grande greve, que foi em 1995, nós participamos. Aí já era menos pior do que é hoje. Hoje quase não tem greve. Mas eram momentos muito difíceis, marcaram muito. E marcaram porque era uma coisa muito agressiva, era violento até. 


P/1 – Você acha que a relação do sindicato com a Petrobras mudou?


R – Ah, com certeza. 


P/1 – O que é que você vê de mudança nesse momento?


R – Muita coisa melhorou. Hoje conversa-se mais, as informações chegam melhor. Você pega a informação que a Petrobras bota e pega a que o sindicato fornece, elas batem. Quer dizer, então, há uma transparência maior de um para com o outro. Não tem aquela coisa de dizer e ficar: “Ah, a empresa...” não sei o que. Melhorou muita coisa. Então, é muito mais tranquilo hoje do que... mas muito mais. O pessoal não tem noção do que é, do que foi o passado e o que é hoje. Foi um momento realmente bem diferente.


P/1 – Você mencionou que você ficou com receio de participar de greve por conta de ser estagiário. E vocês participaram mesmo, efetivamente? Acabaram participando?


R – Eu cheguei a participar de umas duas greves, mas a gente tinha receio mesmo. 


P/1 – Mesmo sendo estagiário?


R – Porque antigamente era carta de demissão que ia pra casa, o pessoal não recebia carta. Então a coisa era um pouco, era medir força mesmo, entendeu? Hoje é bem diferente, hoje não vejo acontecer mais isso. Desde 95 não teve nenhum grande movimento que desse algum problema. Graças a Deus não teve. As relações acho que melhoraram muito. Acho não, tenho certeza. Melhoraram muito a forma de ver as coisas. 


P/1 – André, eu queria saber o que você achou de ter participado dessa entrevista e ter contribuído para o Projeto Memória Petrobras.


R – É muito importante a gente dar a nossa opinião, né? Porque, às vezes, isso aqui em alto-mar, talvez algumas pessoas... a gente muitas vezes é um pouco esquecido, um pouco de lado. Então, não é que não valorize, mas pela própria distância. É uma das coisas que a gente sente, essa distância das coisas que acontecem na Petrobras e o que acontece aqui. Não que não queira, já foi bem pior. A chefia antigamente era a gente lá e eles cá. Hoje não, hoje a gente conversa normalmente. Mudou muito. 


P/1 – Você fala da relação das unidades com as plataformas?


R – Não, das unidades de plataforma com unidade de terra. 


P/1 – Unidade de terra?


R – É. Então, tem muitas coisas que acontecem lá embaixo que a gente, às vezes, nem fica sabendo aqui. Então, algumas pessoas vêm, embarcam, e às vezes fazem o trabalho delas, vão embora. Infelizmente algumas você sente até assim: “Eu vim só pra fazer o meu trabalho e vou embora”. Mas é importante, eu acho, o que a gente está colocando aqui, porque também faz parte da história da Petrobras tudo que mudou, tudo que passou. E é uma forma diferente de ver. Não é uma forma relatada, assim, historicamente, como se fosse um livro de história. É diferente. A emoção passa um pouco, embora não seja muita. Mas também a gente passa a satisfação da gente ter participado não só do trabalho, mas de ter participado da empresa, de tudo que está sendo feito. É muito bom o que vocês estão fazendo. 


P/1 – Então, obrigada. 


R – A gente só tem a agradecer.


P/1 – A gente que agradece muito a entrevista. 


R – De nada. 

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