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História

As rapalas de Cabo Frio

História de: Alexandre Marques Cordeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/08/2013

Sinopse

Na costa fluminense, a pesca artesanal precisa enfrentar a desvalorização de seu trabalho, a indústria petrolífera e os danos causados pelas pescas irregulares. Apaixonado pelo ofício, Alexandre Marques conta sua jornada em busca do reconhecimento da comunidade pesqueira, ressaltando sua importância e a necessidade de incentivos para que alcancem sua autossuficiência diante de um cenário de crescente evasão das novas gerações e tensões com as forças industriais que disputam esse território marítimo.

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História completa

P/1 – Alexandre, para começar eu gostaria que você falasse o seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Alexandre Marques Cordeiro. 2 de setembro de 1964, nascimento. Nasci em Cabo Frio.

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Olita Marques Cordeiro, o nome da minha mãe, e Antônio Cordeiro Filho, o nome do meu pai.

P/1 – E dos seus avós?

R – É Joaquim Marques e Osvaldina Marques.

P/2 – O que é que eles faziam, seus pais?

R – Meus pais eram... Minha mãe era filha de pescadores, mas minha mãe era cabeleireira e meu pai era vendedor ambulante.

P/1 – E os seus avós, você sabe?

R – Meus avós, pela parte da minha mãe, eram pescadores e, pela parte do meu pai, eram vendedores também.

P/1 – E eles eram daqui de Cabo Frio, os seus avós?

R – Avós de parte de mãe sim, de Cabo Frio.

P/1 – E por parte de pai, você sabe de onde?

R – Pernambuco.

P/1 – Pernambuco? E eles chegaram a morar aqui em Cabo Frio?

R – Chegaram. Meus pais moraram, e há 27 anos meu pai saiu para uma viagem, até hoje nós não temos informação dele. Sabemos já, né, se realmente ele está vivo, se está morto. Infelizmente nós não temos mais notícias dele. Minha mãe é falecida. Tenho 27 anos, a minha mãe falecida.

P/1 – Como que você descreveria os seus pais?

R – Ah, foram uma falta. Eu tenho falta deles. Principalmente a minha mãe, porque eu fui uma pessoa muito levada e aproveitei muito pouco, assim, do carinho dela. Sinto até. Sei onde ela está, quero, sei lá, pedir desculpa por tudo. E o meu pai, sempre muito ausente, a gente se acostumou com isso.

P/1 – E como é que era o costume da sua família? A rotina em casa?

R – Muito boa. Eu, minha irmã... Minha mãe, muito carinhosa com a gente, sempre forçava muito. A preocupação dela sempre foi mais comigo porque eu gostava muito de acompanhar os meus tios. Um tio meu era mestre em barco e o outro trabalhou na Capitania dos Portos durante 27 anos, e eu comecei a me apaixonar pela pesca a partir daí, devido ver meus avós também nesse ramo. E minha mãe sempre: “Não, pesca para você não. Não, você vai estudar”. Estudava um pouquinho, saía e, quando fui tomando a fase de 15 anos, depois: “Pô mãe, eu não quero estudar, eu quero pescar”; aí ela: “Não, você tem que estudar”. Estudava. Fingia que estudava para poder pescar, e assim eu fui levando. Estudava um ano, no outro eu faltava. Eu sinto muita falta da minha mãe.

P/1 – E o senhor tem irmãos?

R – Tenho, duas irmãs.

P/1 – Elas também são pescadores?

R – Não.

P/1 – Não?

R – Só eu mesmo que fugi para a pesca.

P/1 – E como é que era a casa onde você passou a infância? Descreve como ela era.

R – Ah, casa humilde mesmo. Minha mãe era uma pessoa muito preocupada em dar tudo do melhor para a gente. A gente não tinha casa própria e sempre estava alugando casa, para lá, para cá; para lá, para cá. Até que um dia a minha mãe comprou uma casa, foi no Centro da cidade mesmo. Minha mãe vendia, tinha salão de cabeleireiro, vendia joia, vendia perfume, entendeu? Muito católica a minha mãe, sempre dava o possível para a gente. Até que nós tivemos uma irmã, que foi caçula um tempão, e às vezes a gente tinha até ciúmes dela: “Poxa, só ela que estuda em colégio particular”; e minha mãe se empenhava muito para ela. Graças a Deus ela está formada, é professora de inglês e valeu a pena aquele investimento que minha mãe fez por ela.

P/1 – E como é que era? Você falou que sua mãe queria que vocês estudassem. Como é que era essa rotina de ir para a escola, pescar? Descreve como era um dia desses.

R – Pescar foi até... Minha mãe falava para mim: “Alexandre, não tem reunião dessa escola sua?”; falei: “Não mãe, a professora não marca”. Minhas notas sempre azuis, não tinha nota vermelha, mas era eu que colocava. Aí, pô, ótimo. Aí teve um dia que uma freguesa da minha mãe, “Oh, Zezé” — o nome dela era Olita, mas tinha o apelido de Zezé — “hoje tem reunião para os pais”. Aí minha mãe me perguntou e eu falei: “Não mãe, para mim não. É para os outros alunos, que são bagunceiros”. Minha mãe cismou de ir, “Você implicou, eu”. Quando chegou lá, ela: “Poxa dona Zezé, pensei até que seu filho tivesse desistido, porque ele não vem mais nas aulas”. Eu chegava, pegava as matérias e ficava na beira do cais ainda, dentro da lagoa. Tinha época que para me ganhar, ela me prometia muita coisa: “Ó, passa de ano e eu vou te dar isso”. A gente é criança, a gente sempre tem aqueles objetivos: ter uma bicicleta nova, aquelas coisas todas e, apesar de toda dificuldade, ela sempre deu tudo de bom para a gente, entendeu? Mas, enfim, depois o meu caminho mesmo, a minha profissão tinha que ser pesca.

Eu fugia muito, pescava e parava: “Ah, não vou pescar mais não”. Para agradar a minha mãe, trabalhei em uma loja. Trabalhava um ano em uma loja: “Não, o meu negócio é pesca. Eu vou voltar para a pesca”. E a minha vida foi assim, sempre no meio dos pescadores mais antigos. Admiro muito os pescadores.

P/1 – E nessa época o que é que você pescava?

R – Eu começava a pescar aqui, que é o carapicu, o camarão. A gente tinha uma fartura muito grande de camarão aqui, a lagoa era bem transparente. Hoje a gente tem uma lagoa, infelizmente, quase morta. A gente tinha de tudo aí, na praia, aquela das pedras, pescava de tarrafa. É onde a gente empolgava, o pescador ganhava muito bem naquela época. A gente começava a ver, os mais antigos chegavam, eu ficava na beira do cais para descarregar um barco dele. “Ah, eu vou ser pescador, vou ser pescador, mas quero ir para o mar. Não quero ficar aqui na lagoa, eu quero ir para o mar”. Até que um dia me levaram para o mar, fiquei dois dias, passei muito mal. Meus tios já me levavam, esse meu tio que trabalhou na Capitania. Quando saía da lancha da Capitania, ele até perguntava: “Tem aula hoje, não?”; falei: “Não, não tenho não”. Ele nem sabia também. Gosto de ser pescador, eu amo a minha profissão.

P/1 – Você lembra como é que era esse primeiro barco que você foi e ficou mais dias longe?

R – Lembro. O nome do barco era Velho Quinca, inclusive era o nome do meu avô, o nome do barco. Colocado em homenagem a ele mesmo. E o mestre do barco era Leleno, foi uma pessoa com quem aprendi a trabalhar. Naquela época a gente não tinha GPS, alguns barcos tinham sonda. A gente fazia as marcações pelos morros e, eu sempre muito curioso, ficava do lado dele. Chegava a ser enjoado: “Pô, como é que você sabe que aqui tem uma pedra?”. “Aí, oh, você coloca o morro. Olha lá, está vendo lá o Morro de São João em cima daquilo ali? O Morro do Trigo”. Assim a gente saía e fomos aprendendo, quando a gente trabalhava mais para mar aberto, a gente marcava anti-horário: “Ah, vamos sair no mar de São João. Vamos dormir na Ilha do Papagaio, com sete horas de navegação no rumo tal. Nós estamos pegando já no fundo de 75, 90 metros”. E fui aprendendo, sempre muito do lado dele, fui ficando e fui gostando. Tinha muito peixe. Três, quatro dias a gente trabalhava e vinha embora para a pescaria boa. Sempre fui assim, uma pessoa que eu gostava muito de aprender. Até hoje gosto. Eu não posso dizer, assim... Sou profissional, sou, mas acima de mim tem mais profissional com quem tenho que aprender. Muita gente sabe tudo. Hoje eu tenho pena da descoberta. Um grande avanço do homem, mas uma das causas de nós perdemos os espaços para a área petrolífera, além da pesca predatória, é a descoberta do GPS.

Porque, pô, a gente achava uma pedra com dez horas de navegação, pescava o que pudesse pescar ali, às vezes tinha maré, mas a gente não sabia se ia achar aquela pedra de novo. O peixe juntava, e hoje não. Hoje, com o GPS você vai e só falta tirar até a pedra do fundo, entendeu? Isso dificultou muito a pesca.

P/1 – E antigamente que tipo de peixe vocês pegavam mais?

R – Olha, o carro-forte de Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios sempre foi a sardinha e a anchova. É uma pena que não tenham um controle de estoque na região Sudeste, essa proteção só existe no Rio Grande do Sul. Eles protegem o estoque lá no Rio Grande do Sul e a região Sudeste não tem esse controle, é liberado. As embarcações maiores podem, saem do Rio Grande do Sul e pescam aqui na região Sudeste. Não é que eles estejam proibidos, é porque não tem a proibição.

Pô, a gente trabalhava dois dias, três dias... Para você ter uma ideia, em 1997 nós tínhamos em torno de quase cem embarcações de médio porte trabalhando na anchova, cada barco desse trabalhava na semana e ganhava 800, 1000, 1200 quilos de linha, subindo peixe de um em um. E quando começou a chegar essas traineiras, nesse período em 1997 para 1998, foi tirando 50 toneladas, 100 toneladas. Hoje a dificuldade é muito grande da anchova, entendeu?

A gente acha que teria até que já ter uma defesa específica, um estudo para essa arte aqui. E um outro carro-forte daqui de Cabo Frio é sardinha, né. Trabalhava pouco com a sardinha. Cheguei a pescar pouca sardinha porque meu objetivo muito era sempre pescar com linha de mão. Sardinha mesmo para a gente era para pegar uma isca, tarrafa, para poder iscar nossa tina para poder pescar.

P/1 – E como é que... Você falou que pescava de linha, quais eram as técnicas que vocês usavam mais antigamente?

R – Linha de fundo, né. Tem pescador artesanal. É até gozado que hoje nós temos uma licença que está direcionando o que é que nós podemos pescar. Nós vamos para o mar aventurar esse peixe, nós sabemos, nós somos profissionais para trabalhar em qualquer arte — ou um peixe de superfície, ou um peixe de fundo, ou peixe de meia água. Mas a nossa especialidade mesmo era o peixe de fundo, que era a garoupa, o badejo, o pargo, que a gente chama de pargueirão, pargueiro. Há o olho de cão também. Sempre variava, entrava as safras: a safra da pescada bicuda que era julho; em agosto o pargo é constante, sempre dá pargo mesmo; anchova sempre o menos escuro. Quando tinha lua era época da gente dar até uma descansada, com a lua muito clara o peixe não pega, não come, entendeu? Aí a gente trabalhava muito no escuro, mas sempre artesanal mesmo.

P/1 –E quem é que fazia esse material? Como é que vocês conseguiam esse material?

R – Os anzóis a gente comprava já pronto. Tem um bate-puxa... a gente comprava os cabelos, fazia os próprios bate-puxa. Encabelava ele, pôr água tal. Melhor cor branca com azul. Água tal, melhor azul com branco ou branco puro. A gente vê as tonalidades da água e faz o bate-puxa. Uma rapala é feita com um pedaço de cabo de vassoura pintadinho de branco. Já pesca na lua, a gente joga ela na direção da ilha e vem puxando, se vier um peixe a anchova vem e come ele. Hoje já se vê que a tecnologia está bem avançada, já tem a rapala pronta, mas a gente sempre usava pedaço de cabo de vassoura.

P/1 –E quem é que ensinou você?

R – Nós vamos. Tive eu mesmo esse mestre com quem aprendi várias coisas, ele era um craque nessas coisas, de fazer bate-puxa, aonde a gente tem que pescar, não é em qualquer lugar que dá o peixe. O peixe sempre está encabeçando na frente da maré, não adianta você pescar por trás da maré que você não vai achar o peixe. Sempre. A gente já ia nos lugares certos que ele ensinava.

P/1 – E os barcos, como é que eram naquela época? Como é que vocês os conseguiam?

R – Fabricavam aqui mesmo ou comprava em outro lugar e trazia. As manutenções eram feitas pela gente mesmo, mas sempre pequenos barcos. Hoje a gente já tem medo de estar trabalhando em um barco de 12 metros. A pescaria se afastou muito, a gente não precisava ir tão longe para pescar, fazia pescaria com três dias. Hoje estamos levando dez, doze, quinze dias.

P/1 – Você chegou a ensinar alguém a pescar?

R – Já.

P/1 – Já? Como é que foi? Quem eram essas pessoas?

R – As próprias pessoas que trabalharam comigo. Eu depois passei a _______..

Aprendi com essas pessoas, trabalhei com vários mestres conhecidos aqui de Cabo Frio e fui me aperfeiçoando. Sempre bastante curioso, a gente acaba aprendendo umas coisas diferentes que aqueles lá para trás me ensinaram, que não teriam essas técnicas. As posições de GPS... Hoje a gente já tem, já sabe. Você pega um pescador que me ensinou hoje, eu não quero ser melhor do que ele, mas eu já sei mais coisa do que ele devido a tecnologia, pois eles ficaram parados. Mas eu tenho muito que aprender ainda. Eu sei que a tecnologia, hoje, é tecnologia.

P/1 – E como é que vocês tiveram acesso a tecnologia? Como é que você começou a mexer com essa nova tecnologia?

R – Foi nesse período aí de 1998, 1999, que começou. A gente já trabalhava com a sonda, era sonda e bússola. Só que a sonda é um aparelho que marca o fundo, onde tem pedra, onde é lama, e a bússola. Aí depois veio o GPS, que era um GPS pequeno, de mão, e a gente começou a ver... Foi um grande avanço o GPS, devido ficar quebrado lá fora, a gente ficava e passava as posições: “Oh, tem um navio vermelho indo para Norte. Nós estamos com a profundidade quebrada de 75 metros”. Aí o pessoal ia olhando a sonda, via o navio, quando chegasse perto a gente solta fogos, alguma coisa assim para verem a gente.

P/1 – E quanto tempo vocês costumam passar em mar?

R – É o que eu estava falando para vocês, a gente levava 3, 4 dias, no máximo 5. Hoje uma embarcação está levando doze, treze. Tivemos que aumentar o tamanho da embarcação. Conclusão, a gente já sai com a despesa alta daqui, já sai do porto devendo. Então a preocupação de um mestre de barco hoje é muito grande de tomar conta, porque é a despesa que você assumiu, porque tem a responsabilidade de você colocar em um pesqueiro bom sabendo que tem cinco famílias esperando você trazer o sustento. É uma preocupação muito grande hoje para quem é mestre de barco, e com essa dívida aí de aumentar o tamanho do barco, nós estamos trabalhando mais dias, dez, onze dias para não deixar em falta. Uma coisa que eu sempre falo é que nós não somos nenhum coitadinho. Por exemplo, na minha época eu jogava muito dinheiro fora. Isso é uma cabeça que eu tenho hoje, entendeu? E mesmo assim eu nunca reclamei. Nós não somos nenhum coitadinho. Nós queremos sim um trabalho, uma política pública do município, do governo, do Estado, como está acontecendo agora até pelo Governo Federal, para nos dar condições de trabalho.

P/1 – Quantas pessoas vão nessas embarcações?

R – De cinco ou seis. No barco de rede leva onze, mas o barco que eu trabalhava, que tomava conta, era eu e mais três, quatro pessoas.

P/1 – E como é que é a rotina quando vocês estão no barco?

R – O mestre tem que ficar no leme procurando a pedra o dia inteiro, eles estão dormindo ou estão fazendo os apetrechos deles e o cozinheiro fazendo a comida da gente. Quando é uma navegação longa, a gente divide os horários durante a navegação, mas quando chega na hora do trabalho, só o mestre do barco que fica no leme o dia inteiro. As pernas incham bastante devido ficar muito tempo sem circulação, sem nada, desse jeito. E a noite, na hora que for dormir, se não estiver pescando à noite, depois das dez horas a gente faz uma vigia. Vigia para os navios para não cima da gente. Fazemos 4 de 2 horas, a última sendo do cozinheiro, aí quando a gente acordar tem o nosso café para trabalhar o dia inteiro. Se trabalha o dia inteiro, só vai parar seis, sete horas da noite, embaixo de sol mesmo. Quando a pescaria é a noite, trabalha até meio-dia, uma hora na parte da manhã, descansa a parte da tarde inteira para trabalhar a noite toda. Quando é durante o dia, seis horas, cinco e meia está todo mundo acordado, trabalhando até oito horas da noite direto, no convés, debaixo do sol.

P/1 – E como é que é feita a divisão da venda?

R – Nessas embarcações maiores é igual. Eu estou falando da embarcação que eu sempre trabalhei, quando comecei e trabalhei em barco pequeno, era uma parte do barco, uma parte do mestre do barco e uma para cada um. Nas embarcações maiores, é 40% do dono do barco, depois que tira a despesa toda, 40% dono do barco, uma parte e meia para o mestre do barco, ou duas partes, tem mestre que tira duas, tem mestre que tira três. Eu na minha época, eu tirava uma e meia para mim e, fazia tudo igual o restante, mas tem gente que já divide o contrário: é duas para o mestre, uma e um quarto, e vai dividindo, entendeu?

P/1 – E para quem vocês vendem o peixe?

R – Geralmente a gente fica atrelado a pessoa que abastece o barco. A gente sabe que acaba perdendo muito de dinheiro. Entrega direto, ele me abasteceu o barco, eu sou praticamente obrigado a vender o peixe para ele. Já tive várias discussões em que eu não aceito, eu quero ter o valor do meu peixe. É vergonhoso você chegar, passar seis, sete, nove dias no mar, chegar aqui, vender um peixe por dez reais e ver a outra pessoa vender a dezessete, chegando para o consumidor a trinta. E nós, que já saímos daqui devendo, correndo esse risco todo, nem sempre consegue pagar a nossas dívidas. Além de ficar devendo à pessoa que abasteceu, o pouco com que fica e leva para dentro de casa não dá para se manter.

P/1 – O que é que é exatamente acompanha esse abastecimento?

R – É o gelo, é o óleo diesel, algum material de pesca, é a isca, remédio. O rancho, que são as comidas... A gente faz um rancho porque não sabe o que pode acontecer. Sempre faz um rancho, pescador come muito, bastante mesmo. É almoço e o café da manhã, tem que levar um rancho legal para caso, sei lá, de repente quebrar o barco. Você não sabe o que vai acontecer, há esse risco. É isso aí, cigarros a gente bota na despesa, é tudo junto.

P/1 – E como é que é essa relação com esse atravessador?

R – O pessoal critica muito, mas devido exatamente não ter uma política, um incentivo do próprio município, eu tenho que agradecer as arrematantes hoje. Mesmo tudo isso que fazem com o pescador, a gente tem que agradecer porque, se não é ele para dar o dinheiro para abastecer o barco, se não tiver ele aqui para comprar o peixe... Se a gente chegar hoje com duas toneladas de anchova hoje, já pensou ter que ficar aqui? Já se trabalha nove, dez dias lá, aí vai chegar aqui e vender uma a uma até acabar... Tem que agradecer de ter esse arrematante. Só que a gente não se conforma, o óleo diesel é muito mais caro que é para o pescador. O preço do não é o mesmo preço de um óleo diesel de caminhão, de terra, é quase 45 centavos a mais por litro. Uma pedra de gelo? Tudo mais caro. E quando a gente vê o consumidor, eu me sinto assim... Quando eu vejo o consumidor comprando um peixe que vendi, que me pagaram a dez reais, e o consumidor comprando à trinta e cinco, eu me sinto muito prejudicado. Mas temos que agradecer de ter esses arrematantes até que se crie uma cooperativa para a gente fazer um trabalho junto.

P/1 – Antigamente como é que era essa venda de peixe? Era assim organizada?

R – Eu cheguei a pegar uma parte onde era leilão ainda, aqui no mercado de peixe. Um leilão. Depois os arrematantes foram se estruturando mais e foram comprando nossos peixes. Às vezes a gente chega e não quer vender aqui, aluga-se um caminhão, leva para o Rio e vai para o leilão. O mercado de São Pedro é leilão. Quando você mesmo consegue abastecer o seu barco, você vai vender para quem te pagar mais. Infelizmente é meio complicado, hoje está. Os poucos barcos que estão trabalhando ainda, muito deles está tudo atrelado ao arrematante.

P/1 – E como que vocês pescadores se organizam para, que nem você falou, vender no Rio de Janeiro? Como que vocês organizam para fazer essa venda?

R – Quem chega aqui já começa a ligar para ver o quanto é que deu o preço do peixe lá no Rio. Um vai falando, às vezes no rádio mesmo, o cara: “Oh, vendi o meu peixe no mercado de São Pedro a xis”. Aí chega aqui, procura saber, liga para um, liga para outro, para saber quem está pagando mais... Isso quando é ele que abastece o barco, quando você está mão do atravessador, você é obrigado a tirar o peixe para ele. O peixe estar dando quinze reais no Rio, se ele pagar cinco, você tem que entregar a cinco.

P/1 – E dá para tirar um dinheiro para sobreviver da pesca?

R – Nós temos as classificações hoje. Assim, na minha área, onde eu parei de pescar, dá. Não somos nenhum coitadinho, não queremos cesta básicas, a gente não quer nada disso, entendeu? Dá para se manter bem, sabemos que, infelizmente, não são todos, mas muito pescador joga o dinheiro fora. Chega em casa, eu estou falando por mim, ganhava aí dois mil reais, mil e quinhentos reais; chegava em casa com cem reais e ainda pegava dinheiro emprestado com o arrematante para pagar na outra viagem quando voltar. Hoje o pessoal está com dificuldade porque está se controlando mais a pesca, mas, mesmo assim, um barco que trabalha oito, nove, dez dias dá para se manter.

P/1 – Quais é que são as dificuldades que se tem hoje em dia na pesca?

R – O pessoal fala muito da pesca predatória, sabem que é um dos causadores. Mas até que me prove o contrário, depois que eu estive lendo várias coisas, são os espaços que nós estamos perdendo. Porque primeiro vem o estudo da sísmica, para mim isso aí é o pior que tem. Para mim é o pior. Depois que ela passa, esse trabalho todo que faz, vem a construção da plataforma e a instalação da plataforma. O peixe vai, queira ou não, para debaixo da plataforma e nós ficamos excluídos de trabalhar ao redor dos 500 metros, entendeu? Está ficando bastante difícil, são essas coisas. Quando está na pesca do dourado, como agora, a gente está se preocupando mais. Antigamente trabalhava mais livre, o mar hoje está igual uma Avenida Brasil. Deu umas quatro horas, cinco horas, é igual saindo da ponte no Rio de tanto rebocador que tem, e a gente está perdendo aparelho. Estamos perdendo muito aparelho ficando excluídos das áreas, da pesca, nunca tivemos o reconhecimento de ter uma participação dos royalties de petróleo, sendo que é a classe que mais atingida. Primeiro atinge o pescador, aí o Estado, os municípios recebem aqueles royalties e não fazem uma política pública para o incentivo da pesca, um entreposto. A gente não quer dinheiro, a gente quer condições de trabalho, de você chegar, atracar seu barco, descarregar e ver seu peixe valorizado. Isso que nós queremos. Nós começamos a se mobilizar sobre isso e vamos levantar essa bandeira porque, graças à Deus, hoje nós temos 28 colônias dentro do Estado do Rio de Janeiro e estamos se unindo bastante para brigar pelos royalties de petróleo para a classe.

P/1 – Você falou do poder público. Como é que você vê a relação entre os pescadores e o poder público? O Governo do Estado, o Governo Federal? Qual a postura dos pescadores com relação?

R – Olha, até hoje eu nunca perdi a esperança. Sou aquela pessoa que vai até o final, porque eu aprendi uma coisa: um não eu já tenho, então buscar o sim. E hoje eu estou vendo uma política pública pelo incentivo do Governo Federal melhor. A gente sabe que incentiva de um lado, mas trava do outro. Têm umas leis que a gente não concorda e mesmo assim está sendo aprovada. Nós, como pescadores artesanais, quando a gente coloca a linha no fundo não posso escrever na isca “só pode pescar anchova”, “só posso pescar garoupa”. O peixe bateu lá no anzol, nós vamos trazer. Hoje vem uma licença de pesca dada por umas pessoas muito técnicas, mas que não acompanham o desembarque pesqueiro. Ainda não estão ouvindo, por não conseguir chegar ainda ou por vaidade, quem conhece, que são os pescadores. Hoje nós temos uma licença aí que eu só posso ir para o mar para pescar tal peixe. Se eu não achar o tal peixe, vou voltar com uma despesa de quatro mil reais? Isso não é correto. O nome está dizendo, somos pescadores artesanais. A gente pesca com vários tipos de apetrechos. O governo hoje incentiva a gente a trabalhar com os apetrechos que ele quer, são essas coisas, tem que ouvir mais a classe pesqueira.

P/1 – Então, você falou que hoje em dia é delimitado o tipo de pesca que vocês têm que fazer. Qual é a pesca na região que tem que ser feita?

R – Aqui nós temos todas as pescas. Nós temos a pesca de linha de mão. Na safra do peixe boiado é a pescaria do dourado, a gente trabalha na pesca do dourado. Tem um pessoal que trabalha na rede, de traineira, de circo, modalidade de circo. Eu vou te falar uma coisa aqui, todas as pessoas que trabalham com traineira, que são esses barcos de rede de circo, eles vieram dos avós, dos bisavós deles, sempre nessa modalidade. Eles só aprenderam a trabalhar com rede de circo, eles veem um cardume pelos olhos, pela sonda e cerca. E um dos carros forte, como eu disse, era a sardinha. Hoje um pescador não tem um barco artesanal, não tem direito a uma licença de sardinha verdadeira, só quem tem são os industriais, que é uma embarcação que pesca duas, três toneladas. Eles alegam que vai prejudicar o estoque pesqueiro. Isso é tirar a história da pesca artesanal.

P/1 – Você falou dessa questão das sondas, das sondas não, da sísmica. Que tipo de pesca foi mais afetada?

R – Para mim atinge as duas, tanto a de superfície como a de fundo, por serem cabos que emitem ondas. Se uma sonda já espanta, um sonar já espanta o cardume, por que é que não esses cabos que emitem uma onda que ultrapassa dois mil metros do solo do fundo do mar? Desde que ele já ultrapasse, segundo o pouco que eu li sobre, a recuperação de onde passa uma sísmica é de dois anos para que possa acontecer outra. Só que não está dando esse intervalo, é sísmica em cima de sísmica. Fazem uma compensação, eles estão fazendo a compensação para as colônias dos municípios onde trabalham.

P/1 – Como é que são essas compensações?

R – Boa pergunta. Eu fiz essa pergunta para o Ibama, de como é que eles conseguem calcular o impacto que causa dentro do município, e estou esperando a resposta. Eu estou aguardando essa resposta porque nós temos 169 embarcações que trabalham em mar aberto, isso registrada na colônia. Qual foi o impacto que causou aquelas 169 embarcações que levam cinco, seis pescadores, famílias? Aí faz um investimento, uma compensação de trinta mil reais.

P/1 – E essa compensação, ela chega até o pescador como?

R – Através de projetos que a colônia tem que apresentar. A colônia apresenta um projeto, faz uma assembleia e vê o que é que o pescador quer. Mas sempre são uns valores baixos, que não chega a atingir aquilo. Da necessidade mesmo, do objetivo do pescador.

P/1 – E como é que é essa organização da colônia? Como é que você faz parte, é presidente dela?

R – É, eu fiquei. Sempre fui uma das pessoas, não só eu como alguns, que sabe que todos os pescadores precisam da colônia, não adianta fugir. Eu soube que eles realmente são pescadores, precisam da colônia. Peguei a colônia fechada, há dois anos e meio, chamei outro pescador que estava em dia também, fizemos uma intervenção com apoio da Federação e hoje nós estamos lá com a colônia aberta. Nós estamos elaborando esses projetos, sempre em busca de melhores condições de sustento tanto para manter a colônia aberta, como para dar um atendimento melhor a seus associados.

P/1 – Como é que funciona, exatamente? Como que o pescador faz para fazer parte da colônia?

R – Primeiro, quando ele chega para ser afiliado lá na colônia, a gente tem um declaração pedindo que duas testemunhas assinassem dizendo que ele é pescador ou não, e tem que ser sócio da colônia para assinar por aquela pessoa. Aí os primeiros passos dele são: tirar a carteira do RGP, que é a carteira do Ministério da Pesca; tirar caderneta POP, que é o registro dele de ter embarque na Capitania para poder navegar. São todos os documentos que a colônia tem que fazer para ele, nós ficamos muito tempo atrasados em cursos de capacitação. Cada dia que passa as coisas para curso estão mudando. Antigamente você fazia um curso para pescador profissional oral, as provas seriam orais. Hoje não é, tem que ter nível de quarta série; antigamente era uma semana de curso, hoje é um mês, com aula integral da oito às quatro; dificultando cada vez mais para você se documentar. Isso a colônia está fazendo, graças à Deus, já dentro do nosso mandato para cá, dessa nova diretoria. Já formamos cento e vinte pescadores e eu estou documentado pela Capitania. Já legalizamos cento e tantas embarcações que até então não tinha registro nenhum. Esses serviços para os associados em dia são gratuitos. Eu levo o documento dele no Rio, aposentadoria desse período para cá. Nós temos um Presidente do Conselho Fiscal que trabalha com a gente, já fizemos 106 documentos para o Ministério da Previdência, tem noventa e tantas causas ganhas. É um trabalho, nós só vivemos da colaboração do pescador, não temos arrecadação nenhuma a não ser a do pescador. A mensalidade, hoje, é o que rege o estatuto: não pode ser menos do que 2% do salário mínimo. Nossa mensalidade lá é treze reais. Mas passamos bastante dificuldades para manter uma colônia aberta.

P/1 – Que tipo de dificuldade?

R –Encontramos muito processo, muitas dívidas. Conclusão, nós não temos direito, hoje, a arrecadação que temos. Nós parcelamos isso tudo, os funcionários botaram na justiça e estamos pagando. Nós estamos arrecadando quatro mil, às vezes quatro mil e quinhentos reais por mês de mensalidade. Nesse encontro que tivemos agora lá em Brasília, eu conversando com os Presidentes de colônia, eles disseram: “Pô, Alexandre que legal. Você receber quatro mil e quinhentos reais com mensalidade a 13 reais, é muito bom cara. É muito bom, é sinal que os pescadores estão voltando”. É muito bom, mas se eu tenho mil e setecentas pessoas recadastradas, e se essas mil e setecentas pagassem a mensalidade certinha, não precisaria pedir ajuda a ninguém não, a gente dava para se manter. Mas, infelizmente, não é assim. Eles pagam uns, aí leva um ano. Aí quando precisa da colônia, voltam lá. Hoje, se você me perguntasse se o ano que vem tem eleição, se você me perguntar se eu quero concorrer a uma eleição para Presidente, eu digo que não. Se eu não conseguir mudar até junho do ano que vem, vou fazer parte de uma diretoria, mas não como Presidente. Não posso ficar, tenho família, eu tenho que olhar o lado da minha vida. Gosto muito do que eu estou fazendo, gosto muito mesmo de ajudar o pescador, antes disso, de ser o Presidente de colônia, eu já tirava os documentos das pessoas aqui.

P/1 – Quais são as suas atribuições como Presidente da colônia?

R – As atribuições? Todas essas que eu falei. Tem que cuidar deles, tem que cuidar da família deles. Eles vão lá para fora, é aposentadoria. Quando eles dão entrada em um defeso; agora, com esse negócio da carta sindical, preencher os documentos — eles ficam assim, coitados, desorientados. Se a gente não tiver um acompanhamento legal com eles, no dia a dia à beira do cais, as carteiras deles são canceladas. Nós agora estamos passando por um recadastramento que é feito pelo Ministério da Pesca, a gente sabe que ainda existe muita gente que não é pescador com carteira de pescador. Isso aí, infelizmente, é das gestões passadas, antes de ser criado o Ministério da Pesca. Deram muitas carteiras às pessoas que não eram pescadores. Esse Ministro, que entrou agora, está dando. Até ele falou que não sabia colocar uma minhoca em um anzol, mas para mim está sendo o melhor Ministro. A gente sabe que nesse recadastramento que está sendo feito agora vai cortar bastante carteiras de pessoas que não são pescadoras. Eu não estou aqui para cortar carteira de ninguém, mas a minha preocupação é a de informar para quem é pescador.

P/1 – Você falou sobre projetos, que tipo de projetos vocês elaboram para apresentar?

R – É igual ao que nós elaboramos lá. Assim, o projeto de a gente ver a sustentabilidade da própria colônia sem depender de órgão público. Nós sabemos que tivemos várias terras aqui que eram da colônia que foram vendidas. Se nós tivéssemos uma colônia hoje na beira da lagoa, teríamos uma arrecadação, uma venda de um gelo. Todo peixe que passasse pela balança da colônia deixaria uma porcentagem. Nós temos uma colônia hoje no centro da cidade que só ela tinha um ambulatório com atendimento de seis médicos, perdemos isso também por má administração. O que nós começamos a fazer: o primeiro projeto foi uma confecção da roupa de oleado através desses pequenos projetos de pack up de compensações. Nós vamos confeccionar nossa roupa lá, empregando só mulheres e filhos de pescadores, ter uma parceria com todas as colônias do estado do Rio de Janeiro de fornecer em consignação para eles. Estamos fazendo uma parceria com a Prefeitura, se estiver fabricando, dessas capas de chuva a serem confeccionadas na colônia. Para a gente poder se manter sem, até que se crie, temos que buscar fundo. Senão fecham a colônia e prejudica esses mil e tantos pescadores que estão lá recadastrados.

P/1 – E qual seria o impacto para os pescadores se fechasse a colônia?

R – Como é que a gente ia conseguir aposentar um pescador, que depende da assinatura de um Presidente da colônia? Precisa dos documentos, que a gente esteja em dia com eles, porque pescador é isento de contribuição de INSS, mas desde que ele se tenha informações de que ele está exercendo a profissão, e só quem forma que ele exerce a profissão é a colônia. Uma colônia fechada deixa essas pessoas tudo desamparadas, ou,indo para outra colônia aqui dos municípios mais próximos.

P/1 – Qual a importância da pesca aqui para a comunidade?

R – Eu vou dizer para o município todo. O maior empregador do município é a pesca, tá? Eu acredito que seja o primeiro, se não for o primeiro é o segundo, porque tudo aqui gira no meio da pesca: é o fabricante de gelo, é o arrematante. A gente tem que agradecer até essas pessoas, mesmo que venda alto, que pague o preço baixo, mas gera muito emprego. É muito emprego mesmo, se não for o primeiro de emprego no município, é o segundo, perdendo apenas para a Prefeitura.

P/1 – E qual a relação da pesca com o turismo aqui?

R – Tem uns impactos.

P/1 – Quais são?

R – Tem pescador que, infelizmente, está vendo as dificuldades. Estão até se desclassificando. Fico até sentido, porque às vezes eles mesmo saem faltando apenas dez anos para se aposentar, ter seus direitos. Estão se desclassificando, indo para o turismo. Está ficando desacreditado pela pesca. O turismo para o município é ótimo, tem que ter, inclusive eu sou uma das pessoas de incentivar recifes de corais aí, recifes artificiais. Levo um incentivo de um mergulho, de uma pesca para o turismo. Cabo Frio tem umas praias lindas, tem uns pesqueiros lindos, tem que incentivar sim o turismo, que é um negócio, mas sem impactar a pesca.

P/1 – Além do deslocamento dos pescadores para o setor do turismo, tem outros impactos?

R – Você fala se o turismo tem impacto?

P/1 – É.

R – Tem, porque não tem uma fiscalização. Porque, pela lei da pesca, um barco quando sai daqui alugado para seis pessoas, o máximo de peixes que eles podem capturar é trinta quilos. Para uma pessoa que veio só um domingo, “Vamos levar, vamos pescar”, acho que 30 quilos é um consumo legal para àquelas pessoas que não vivem disso, mas, infelizmente, não tem a fiscalização. Eles trazem 150 quilos, 180 quilos, 200 quilos. Hoje nós estamos com nossas ilhas aí, praticamente sem o controle do marisco, devido essas pessoas. Vão para a ilha, alugam o barco, ficam na ilha cinco, seis dias e começaram a aprender. Eles estão ganhando mais dinheiro do que o próprio barco de turismo. Ficam cinco dias nas ilhas, tiram 200 quilos de marisco, 100 quilos de marisco, faz o seu fogo de lenha lá, descasca e vai para o seu município e vende. Conclusão, está acabando com o nosso porque não tem um controle. Tem que ter uma técnica para tirar o marisco, não é simplesmente chegar lá e tirar, tem que deixar o vão para ele poder crescer. São esses impactos. Fico meio chateado até com os próprios pescadores que levam essas pessoas para pescar.

P/1 – Com relação ao impacto, a gente já falou do petróleo, do turismo. Tem algum outro que tenha impactado aqui na região à pesca?

R – As legislações mesmo. Os barcos industriais pescando dentro das águas interiores não têm essa fiscalização. Um lugar que era para trabalhar só barco artesanal, hoje está sendo pescado por barcos industriais de 80, 90, 100 toneladas. É tudo pela falta da fiscalização. Um barco de pequeno porte, artesanal, não tem condições de ir lá para fora onde, eles vão para pescar. Mas eles estão entrando dentro da área de interior de porto.

P/1 – Alexandre, qual a importância da pesca na sua vida?

R – Tudo. Tenho orgulho de ser pescador, tenho orgulho mesmo. Eu só sinto, não posso dizer que foi tarde, porque joguei muito dinheiro fora. Acho que tem um caminho, acho que Deus já traçou isso aí e que não era para eu estar na pesca agora, era para eu estar como Presidente de colônia. Mas arrependo do que fiz, me arrependo sim porque poderia ter aproveitado uma vida bem melhor para mim. Até para meus filhos mesmo, praticamente eu não peguei a infância deles, bebia muito, usava muita droga. Hoje estou com o meu neto, quero fazer tudo para o meu neto o que não fiz para os meus filhos. E adoro pescar, mesmo, é a minha profissão. Eu amo ela.

P/1 – E você acha que os jovens hoje em dia se interessam pela pesca?

R – Não, devido esses todos problemas. Estou acreditando muito nesse incentivo do governo. Se não for mais uma, sei lá, enganação para o pescador, acho que sim vai voltar filho de pescador acompanhando o pai, vendo a valorização. Nós estamos trabalhando em busca de uma cooperativa, tem uma empresa aí que está até fortalecendo muito essa cooperativa, esse incentivo, e quando a gente começar a ver, quando p filho do pescador ver que o pai dele, aquele peixe, está sendo valorizado, ele volta a seguir a profissão do pai.

P/1 – Você falou agora da cooperativa. Como é que você vê o papel da cooperativa?

R – Eu acho que é um caminho. A saída, a solução para o pescador é uma cooperativa. Mas eu tenho muita preocupação, a cooperativa não é simplesmente: “Eu quero ser o diretor da cooperativa. Eu quero ser o presidente da cooperativa. Eu quero ser isso”. Você tem que ser capacitado para administrar uma cooperativa. Senão é mais um que vai por água baixo, entendeu? A gente tem que estar atrelado, capacitado para saber o que é que você está fazendo ali dentro. Hoje nós temos um documento que é o DAP, que é o Termo de Aptidão ao Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], o pescador consegue, a cooperativa consegue acessar o peixe na merenda escolar, que é um incentivo. Isso é lei, 30% do pescado tem que ser inserido na merenda escolar, e o município de Cabo Frio não compra exatamente porque não tem uma cooperativa para beneficiar esse pescado. Se eu não me engano são 56 mil alunos na rede municipal. A hora que o pescador ver, o filho do pescador ver: “Pô, meu pai está pescando aquele peixe”, “Minha mãe está ali trabalhando” estará beneficiando. O retorno para a família vai ser muito bom. E volta a ser sim, acredito que volta a ser um pescador aqueles que não pretendem. Fico com muita pena, sinto até falta de não ter estudado mais. Mas, sei lá, se eu estivesse estudado eu não ia ser pescador.

P/1 – E como é que você vê essa relação entre o estudo, que você fala que tem que ter um aprimoramento dos pescadores? Como é que você vê essa relação entre o estudo e o cotidiano do pescador? Da pesca?

R – Está meio difícil, sabe. Eu fico preocupado porque nós vemos agora a nova grade da Marinha para você profissionalizar um pescador com um documento. Ele tem que ter nível de quarta série. Aquelas pessoas antigas, ou mais novas que estão aí, estão abandonando as escolas. Por quê? Por que abandona a escola para ir às vezes para a pesca ou para o ramo da construção civil? É exatamente porque ele vê que o pai dele é pescador, a mãe dele que é coisa, não vê aquele incentivo de investimento legal para manter ele na escola. Ele começa a ir para o trabalho. Quando vai para o trabalho, a gente dá até graças à Deus, pior é quando vai para o caminho das drogas, que é um número que está crescendo muito devido a facilidade de ter dinheiro.

P/1 – E tem alguma proposta para essas pessoas que são mais antigas, que são pescadores, para poderem estudar? Para poder continuar?

R – Eu pretendo sim. Na hora que eu estiver estabilizado lá dentro da colônia, com sala, aproveitar esse incentivo que tem no Governo, Pescando Letra, pelo menos para alfabetizar eles. Sinto que ainda tem alguns que, às vezes, deixam de participar por falta de não saber escrever o nome.

P/1 – Fala um pouquinho sobre essa proposta do Pescando Letras.

R – É um incentivo do Governo, do Ministério da Pesca, para levar professores e capacitar os pescadores até o nível de saber ler, escrever e assinar o nome. É um incentivo legal. Infelizmente, não tenho essa estrutura lá na colônia, mas se Deus quiser, até o final do ano vamos ter isso aí para a gente incentivar. Assumi um compromisso com o Comandante da Marinha que ainda não saiu. Nós fizemos um curso oral, mas para pescador. Ele capacitou as pessoas e disse: “Alexandre, teve gente que fez a oral que acertou mais do que quem fez escrito com nível de quinta série. Você tem que fazer aí para eu fazer esse curso”. Eu fui, assinei uma ata me responsabilizando de fazer um curso de Pescando Letra lá na colônia de Cabo Frio.

P/1 – Alexandre, você falou que tem filhos. Quando eles eram crianças, você pensava que profissão poderiam exercer futuramente?

R – Olha, na realidade eu amo meus filhos, mas não pensava.

P/1 – Você pensava que algum filho seu tinha ideia de continuar a trabalhar com a pescaria?

R – Não. Eu incentivava, mas acho que devido eu mesmo não ser uma boa referência para eles, não tiveram interesse.

P/1 – Alexandre, se tivesse alguma coisa que você pudesse fazer diferente na sua vida, o que seria?

R – Poxa, difícil. Pescar mesmo. Pescar. Ajudar essa classe pesqueira, as famílias de pescador. Eu amo mesmo o que eu faço, amo. Tem que aprender mais, eu estou dentro da colônia aprendendo várias coisas de documento para melhorar, mas a gente vai em um lugar, você vê uma técnica diferente e: “Pô, não consegui aprender aquilo ali”. Mas eu amo o que eu faço.

P/1 – E o que é que é importante para você hoje?

R – O que é que é importante? Olha, hoje eu me sinto assim, vitorioso pelo ramo de trabalho, ver a colônia aberta, os pescadores indo lá. Tem todas as dificuldades, mas vejo o pescador indo, a gente vai na beira do cais, a gente vê o nome da colônia que hoje está aberta, esclarecida. Todo mundo fala bem do trabalho da colônia, não só do meu, somos diretores, é um grupo que forma ali. Isso tudo e os meus filhos, é claro. Estou com a minha filha trabalhando comigo. O que eu penso para mim hoje é ser feliz. Também a minha mudança, porque ninguém acreditava em mim. Usava muita droga, perdi o tempo. Quando eu falo às vezes que meus filhos não têm o incentivo da pesca, não só meu, mas como de outros pais também da pesca. “Poxa, será que eu vou ser pescador para ficar igual ao meu pai, drogado?”. E, sei lá. De repente não temos mais pescadores, estamos ficando com falta de mão de obra exatamente por causa disso.

P/1 – E os seus sonhos? Quais são os seus sonhos?

R – Meus sonhos... Meu sonho é ver uma cooperativa pela área onde eu trabalho, uma cooperativa funcionando. Todos os pescadores sendo beneficiados com seu pescado. Ver os familiares deles trabalhando junto, em parceria com a própria comunidade. E tenho fé em Deus que vou conseguir isso junto com os diretores. Nós vamos conseguir.

P/1 – Alexandre, tem alguma coisa que nós não perguntamos e que você acha que seria importante falar?

R – Sim. Chegamos a falar um pouquinho da história para chegar à pesca, né?

P/1 – É.

R – Foi por causa dos incentivos, falei sim. Tranquilo, legal.

P/1 – E como foi contar um pouco da sua história?

R – Bom, muito bom.

P/1 – Obrigado Alexandre.

R – De nada.

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