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História

As primeiras locomotivas elétricas

História de: Reinaldo de Miranda e Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Reinaldo de Miranda e Silva é filho e irmão de ferroviários. Em sua entrevista, conta como os trens sempre estiveram presentes em sua vida. Desde uma viagem quando criança em que o carro que estava descarrilou, passando pelo seu trabalho realizando a manutenção elétrica desde as primeiras locomotivas com sistemas elétricos, até o seu casamento, pois começou a paquerar sua esposa quando se encontravam nas viagens de trem. Reinaldo faz sua retrospectiva na Rede Ferroviária do Nordeste, desde aprendiz até se tornar supervisor geral na oficina de Werneck, e fala também de como aproveita sua aposentadoria praticando a pescaria ao lado dos sobrinhos, netos e reencontrando os amigos aposentados.

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Como vai, senhor Reinaldo?

 

R – Tudo bem.

 

P/1 – Eu vou fazer algumas perguntas para o senhor que eu fiz lá fora, mas é para deixar registrado. Qual é o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Reinaldo de Miranda e Silva. Nasci em Barreiros, 30 de maio de 1934.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Euclidiano da Silva e Maria José de Miranda e Silva.

 

P/1 – E o senhor sabe onde eles nasceram?

 

R – Minha mãe nasceu em Barreiros e meu pai, em Formoso.

 

P/1 – E qual era a atividade deles, senhor Reinaldo?

 

R – Ele era serralheiro, trabalhou muito tempo em usina, em Barreiros e outras usinas lá do Sul e depois veio para a Rede Ferroviária. Naquele tempo ainda era Great Western of Brazil Railway.

 

P/1 – E o que ele fazia na Rede Ferroviária?

 

R – Era serralheiro e trabalhava com os freios da locomotiva a vapor.

 

P/1 – E onde ele ficava alocado, em que oficina, de Werneck ou Jaboatão?

 

R – Jaboatão, na oficina de Jaboatão e, nessa época, era só revisão de locomotiva a vapor.

 

P/1 – E o senhor lembra mais ou menos em que época foi isso? Quantos anos o senhor tinha nessa época?

 

R – Ah, uns quatro anos mais ou menos, quando ele veio de Barreiros para Recife.

 

P/1 – E me diz uma coisa, como é que era, o senhor chegou a morar na vila de ferroviário?

 

R – Não, não. Moramos sempre em casa particular mesmo.

 

P/1 – Eu vou voltar um pouquinho, o senhor nasceu em Barreiros, o senhor saiu de lá pequeno?

 

R – Pequeno.

 

P/1 – O senhor saiu de lá com quatro anos?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor lembra como é que era a casa onde o senhor morava em Barreiros?

 

R – Não. Só me lembro da casa do meu avô (risos).

 

P/1 – E como é que era a casa do seu avô? Era em Barreiros mesmo?

 

R – Em Barreiros.

 

P/1 – Como é que era essa casa?

 

R – Era uma casa simples, em uma parte elevada da cidade, se eu não me engano no número 17 e daí passou muito tempo nessa casa, eu me lembrei dela lá.

 

P/2 – Que avô era esse, senhor Reinaldo? Avô do pai ou da mãe?

 

R – Da mãe.

 

P/1 – Da mãe, pai da sua mãe?

 

R – Da mãe. O do pai, assim, quando eu era adolescente, ele já tinha morrido e a ligação foi mais com a família de minha mãe.

 

P/1 - E como é que era o nome desse avô que o senhor teve mais contato?

 

R – Mais contato era Antônio Ferreira de Miranda.

 

P/1 - E ele fazia o quê?

 

R – Era alfaiate, lá em Barreiros.

 

P/1 - E ele fazia camisa, terno?

 

R – Roupa, terno, era.

 

P/1 – E o nome da sua avó, como é que era?

 

R – Era, ai meu Deus, Joana. Era.

 

P/1 – Esses pais eram por parte de mãe, e os avós paternos, como é que era o nome?

 

R – Paterno, é o que eu estou dizendo, tinha pouco conhecimento. Tinha a tia Maria, mais os tios, os avós já não...

 

P/1 – O senhor não conviveu com eles?

 

R – Não, pouco.

 

P/2 – E por que o senhor lembra tão bem da casa do seu avô, o senhor ia sempre para lá?

 

R – Ah ia.

 

P/2 – É?

 

R – É. As férias eram lá.

 

P/2 – O senhor morava aqui em Recife, mas ia pra lá.

 

R – Ia pra lá. Férias, férias escolares e eu estava lá.

 

P/2 – E era bom por quê?

 

R – Tinha rio, tinha praia perto (risos).

 

P/2 – Ah, muita bagunça então? Muita brincadeira?

 

R – Muita brincadeira.

 

P/1 – E me diz uma coisa, quando o senhor ia pra lá o senhor ia de trem?

 

R – Ás vezes de trem e ás vezes podia ir de ônibus também.

 

P/1 – E o senhor lembra a primeira viagem de trem que o senhor fez?

 

R – Não, não lembro. Eu sei que numa dessas viagens o trem virou.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Foi.

 

P/2 – E o senhor estava no trem?

 

R – Eu, minha mãe e uma prima minha. O vagão virou e por sorte nós não tivemos nada.

 

P/1 – E como é que foi esse acidente, por que ocasionou esse acidente?

 

R – Descarrilamento. Descarrilamento do trem, o trem tombou, o vagão tombou e aí, graças a Deus, não tivemos nada.

 

P/1 – E quantos anos o senhor tinha nessa época, mais ou menos?

 

R – Eu tinha uns oito anos mais ou menos, de oito a dez anos.

 

P/2 – Que trecho que foi, senhor Reinaldo?

 

R – Foi entre... O trem que ia para Barreiros fazia um desvio de Ribeirão a Barreiros, é um trecho, e a estrada era muito ruim. A ferrovia era péssima. Era máquina à vapor ainda naquele tempo, e entre Barreiros e Ribeirão, entre Ribeirão e, qual era o nome da outra estação não lembro agora, houve esse descarrilamento.

 

P/1 – E o que aconteceu? Vocês saíram do trem, tiveram ajuda, como é que foi?

 

R – Tivemos ajuda, os próprios passageiros, né? Só virou o carro que nós íamos, o resto prosseguiu.

 

P/1 – E o que aconteceu, chegou socorro, vocês continuaram no trem, como é que foi?

 

R – Nós passamos para outro trem, né? Para outro trem.

 

P/1 – Passaram para outro vagão?

 

R – É, outro vagão.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, senhor Reinaldo, quando o senhor veio morar em Jaboatão, o senhor nos disse que morou em uma casa na cidade, que não ficava na vila. O senhor lembra como é que era Jaboatão nessa época, como é que era essa casa?

 

R – Nessa época era muito pequeno, era garoto, quatro ou cinco anos. Lá em Jaboatão, eu lembro do grupo que eu estudei lá, na Escola Bernardo Vieira de Melo, era muito bom o grupo.

 

P/1 – O senhor lembra o nome da sua professora?

 

R – Eu me lembro da Diretora, Dona Odete (risos).

 

P/1 – Ah é, por quê? (risos)

 

R – Era a Dona Odete, muito boa professora, diretora.

 

P/1 – E essa escola como é que ela era, senhor Reinaldo, descreve para a gente. A sua classe tinha muito alunos, como é que era?

 

R – Tinham várias salas, era um grupo grande, uma escola grande, e muito boa, viu? Bons professores e, principalmente, por causa da Diretora que era muito exigente. Apesar de boa pessoa, era muito exigente.

 

P/1 – E me diz uma coisa, o senhor estudou nessa escola até quando mais ou menos?

 

R – Até o quarto ano primário.

 

P/1 – O senhor veio para Jaboatão com quatro anos e o senhor ficou morando em Jaboatão até quantos anos?

 

R – O tempo de Jaboatão, eu não lembro porque eu era muito pequeno, depois, nós fomos morar em Coqueiral, aí foi até eu sair para casar.

 

P/1 – E Coqueiral é próximo de Jaboatão?

 

R – É. Uns dez quilômetros de Jaboatão à Coqueiral.

 

P/1 – E o senhor sabe por que os seus pais mudaram, saíram de Jaboatão para ir para Coqueiral?

 

R – Foi conveniência mesmo. Jaboatão, como eles falavam, até foi no tempo da revolução, aquele negócio que houve de, como é que se diz, comunistas, não deu aquela revolução comunista? Jaboatão foi muito perseguida porque, não sei se vocês devem saber, Jaboatão era chamado de Moscouzinho, devido à quase mil funcionários em uma oficina de Jaboatão, né? Então, meu pai saiu de lá e veio morar em Coqueiral e ficou mais afastado lá do núcleo (risos).

 

P/1 – Nessa época, o senhor visitava a oficina lá de Jaboatão com o seu pai, o senhor ia onde o seu pai trabalhava?

 

R – Não, raramente eu fui lá. Poucas vezes. Até ele se aposentar, fui pouco.

 

P/1 – E quando o senhor mudou pra Coqueiral, o senhor continuou estudando nessa escola?

 

R – Em Jaboatão. Ia de trem.

 

P/1 – O senhor ia de trem? E o trem que fazia esse trecho era só de passageiros ou tinha carga também?

 

R – Passageiro e carga, era a Linha Centro. Passageiro ia até Jaboatão, Recife a Jaboatão, Estação de Coqueiral, tinha a Estação de Floriano que era onde tinha o quartel lá em Floriano.

 

P/1 – E como é que eram os passageiros que frequentavam este trem? Tinha muitos estudantes, eram muitos trabalhadores, como é que era?

 

R – Tinham trabalhadores, estudantes, era o melhor transporte ainda naquele tempo, né? Antes, de Jaboatão à Recife, o trem era melhor do que ônibus que era muito mais complicado.

 

P/2 – E era o trem de que horas que o senhor pegava pra ir para a escola?

 

R – Seis horas.

 

P/2 – Seis horas da manhã?

 

R – Seis horas, seis e meia.

 

P/2 – E voltava também de trem?

 

R – Voltava de trem.

 

P/2 – De que horário que era o trem?

 

R – Meio dia (risos), onze e meia para meio dia.

 

P/1 – E me diz uma coisa, que cargas passavam na Linha Centro? O senhor falou que tinha uns vagões de carga também, o que transportava esses vagões?

 

R – Ah, transportava gado, tinha trem de gado, aqueles vagões apropriados para o transporte de gado, milho, tudo que produzia no sertão, né?

 

P/1 – E como é que, esse vagão de transportar gado, como é que ele era, como é que ele feito, como é que facilitava o transporte?

 

R – Era com umas grades, próprio para isso, bem, vamos dizer assim, refrigerado, para o gado não morrer asfixiado.

 

P/1 – Ah, então ele era mais aberto?

 

R – Era bem aberto, bem aberto.

 

P/1 – Senhor Reinaldo, o senhor ficou nessa escola até a quarta série e o senhor mudou de escola, como é que foi?

 

R – Foi, depois da quarta série eu fiz o admissão, naquele tempo a gente fazia admissão ao ginásio, né? E fui estudar no Colégio Estadual de Pernambuco, (Ginásio Pernambucano), aí, já fazia o ginásio lá em Recife.

 

P/1 – Aí, o senhor começou a fazer a viagem para Recife para estudar?

 

R – Para Recife. Também de trem.

 

P/1 – E esse colégio ficava em que bairro em Recife?

 

R – No centro mesmo de Recife.

 

P/1 – Ah, era no centro de Recife?

 

R – No centro de Recife, um colégio estadual.

 

P/1 – E o senhor estudava pela manhã ou pela tarde?

 

R – Pela manhã. Colégio Estadual de Pernambuco, antigo Ginásio Pernambucano.

 

P/1 – E nesse período que o senhor estudou nesse colégio teve algum professor que marcou o senhor, que o senhor gostou, que o senhor se lembre dele, que tenha uma boa lembrança?

 

R – Ah, tinha bons professores, né? Muito bons. Tem nada de especial não.

 

P/1 – E me diz uma coisa, o senhor saía de manhã para ir para a escola e chegava em casa para almoçar. Como é que era o cotidiano da sua casa, com os seus pais, vocês almoçavam juntos, eles faziam questão de almoçar juntos?

 

R – Não, meu pai almoçava na oficina em Jaboatão, tinha refeitório, e eu e mais dois irmãos almoçávamos em casa mesmo, no apeio mesmo (risos).

 

P/1 – E quem cozinhava era sua mãe?

 

R – Minha mãe.

 

P/1 – E tem alguma comida típica que ela fazia ou alguma comida que ela fazia que o senhor gostava muito, ou não?

 

R – Não, normal, uma feijoada boa, né?

 

P/1 – Ah, ela fazia feijoada? E como é que era essa feijoada, era com feijão preto, como é que era?

 

R – Feijão mulatinho, feijão preto, de tudo, tempo meio apertado, a situação não era muito boa não.

 

P/1 – E só o seu pai trabalhava, vocês ainda não, vocês começaram a trabalhar mais tarde?

 

R – Só, depois, um irmão meu trabalhou também na Rede Ferroviária, de telegrafista, Rômulo Miranda, minha irmã estudava também na escola normal em Recife, um irmão voltou para Barreiros para a casa do meu avô, meu irmão mais velho, e assim nós fomos levando a vida.

 

P/1 – E dos seus irmãos o senhor é o segundo, o terceiro? Tem um irmão mais velho?

 

R – Eu sou o caçula.

 

P/1 – Ah, o senhor é o mais novo?

 

R – Mais novo. O segundo foi para a Aeronáutica, deixou a Rede, depois que saiu da Aeronáutica, voltou para Rede Ferroviária como telegrafista, e minha irmã casou e o outro irmão foi para Barreiros, morar com o avô.

 

P/1 – Esse, é, o senhor falou que o seu pai era ferroviário, trabalhava como serralheiro, ele contava muitas histórias dessa época da Rede, ele comentava com vocês ou não?

 

R – É uma história engraçada, eu vou falar. O refeitório era dentro da oficina e caiu um gato dentro da panela (risos), e comeram o gato, né? Cozinhou, panela de pressão fechada, quando abriu parece que meu pai pegou uma unha do gato e ele disse: “Isso aqui é um gato!” E foi uma confusão danada, né? (risos)

 

P/1 – (risos) Mandaram o cozinheiro embora ou não?

 

R – Nada.

 

P/1 – E me diz uma coisa, o senhor falou que teve um irmão, um dos irmãos mais velhos, foi ferroviário também. Como é que ele entrou na Rede, ele trabalhava, ele era telegrafista?

 

R – Ele era, naquele tempo entrava como aprendiz, aprendendo telegrafia ele se deu bem, era um bom telegrafista, trabalhou muito tempo na Estação Central em Recife.

 

P/1 – E o senhor falou que ele foi para a Marinha. Por que ele saiu da Rede Ferroviária, o senhor sabe?

 

R – O outro, o mais velho?

 

P/1 – É.

 

R – Não, o mais velho foi morar em Barreiros.

 

P/1 – Não, o senhor me disse que esse irmão mais velho ele foi pra Aeronáutica?

 

R – O mais novo, o telegrafista que foi pra Aeronáutica.

 

P/1 – Ah, então é esse que eu quero saber, ele trabalhou um pouco na Rede Ferroviária e, depois, ele saiu para ir para a Aeronáutica?

 

R – Quando voltou, ele foi para a Rede Ferroviária também.

 

P/1 – Ele foi meio que prestar exército, ou não? Ou ele quis ir para Aeronáutica?

 

R – Foi, deu o tempo e ele foi para a Aeronáutica.

 

P/1 – E ele fazia o que na Aeronáutica, senhor Reinaldo?

 

R – Era soldado, né? Soldado, não sei.

 

P/1 – Ah, ele foi como se fosse prestar, fazer o serviço...

 

R – É, para prestar o tempo, é.

 

P/1 – E aí ele volta e quando ele volta pra Rede...

 

R – Volta para a Rede como telegrafista.

 

P/1 – E ele ficou, ele se aposentou na Rede?

 

R – Até se aposentar.

 

P/1 – E ele ficou sempre na Estação Central?

 

R – Foi. Eles chamavam de Corpo Santo, era esse local. Recebia telegrama, essas coisas, era independente de estação de movimento de trem, era mais de controle de telegrama, essas coisa, né?

 

P/1 – Então, ele não tomava conta da comunicação entre as estações?

 

R – Trabalhou na estação, mas depois foi para a Central e ficou até se aposentar.

 

P/2 – Chamavam de Corpo Santo? Por quê?

 

R – Chamavam Corpo Santo, não sei por quê. Não sei. Esse local tinham vários telegrafistas, chamavam Corpo Santo.

 

P/1 – E esse seu irmão que voltou pra sua cidade natal e foi morar com o seu avô, foi fazer o que lá?

 

R – Ele trabalhou muito tempo em várias coisas: comércio, trabalhou na Usina Central Barreiros e, depois, entrou na Prefeitura de Barreiros e foi até o fim trabalhando na Prefeitura.

 

P/1 – E ele quis ir pra lá? Como é que foi isso?

 

R – Ele quis, ele não gostou de Recife não, preferiu o interior.

 

P/1 – E como é que foi para sua mãe, para o seu pai deixar um filho ir embora assim?

 

R – Não, porque estava na família, né? Não tinha problema nenhum.

 

P/1 – Senhor Reinaldo, quando o senhor termina o ginásio, o que o senhor vai fazer?

 

R – Trabalhar na Rede Ferroviária (risos).

 

P/1 – Ah, o senhor já...

 

R – Com vinte anos.

 

P/1 – Com vinte anos, o senhor já foi trabalhar na Rede?

 

R – É.

 

P/1 – Mas antes o senhor já tinha feito algum curso? Como é que foi, por concurso? Como é que foi, conta essa história pra gente?

 

R – Vai parecer brincadeira. Eu jogava voleibol, jogava direitinho voleibol e um cidadão, que era chefe em Cinco Pontas, da Rede, era muito amigo meu. Aí, jogando voleibol, ele perguntou se eu não queria ir para a Rede Ferroviária. Nessa época, estava chegando a locomotiva a diesel, e disse que queria, fui trabalhar, fiz um teste lá, ele mandou eu fazer um exame de saúde e já fiquei trabalhando.

 

P/1 – E que teste que o senhor fez para entrar?

 

R – Entrei como ajudante de eletricista e, como eu lhe falei, tinha um curso de rádio feito pela escola, a escola era Instituto Técnico Montoco, curso por correspondência, e me ajudou muito porque eu já me destaquei dos outros porque eu já tinha mais um conhecimento de eletricidade. Daí, eu entrei como ajudante e fui trabalhando e terminei como supervisor geral.

 

P/1 – Este curso que o senhor fez como eletricista, o senhor fez por correspondência?

 

R – Foi.

 

P/1 – E por que o senhor teve o interesse de fazer esse curso de eletricista?

 

R – É que eu gostava de eletricidade, sempre me dediquei, aprendi conceito de rádio em uma oficina de um amigo meu e fiquei lá, por isso que também eu fiz esse curso de rádio. Quando eu saí para a Rede, já tinha algum conhecimento de eletricidade.

 

P/1 – E quando o senhor começa a trabalhar na Rede Ferroviária, o senhor foi trabalhar onde, em que local?

 

R – Na Oficina de Edgard Werneck, onde começou a locomotiva diesel-elétrica.

 

P/1 – Então, o senhor já foi para trabalhar na locomotiva a diesel?

 

R – Locomotiva a diesel.

 

P/1 – E ainda tinha a vapor ou não?

 

R – Tinha em outra oficina perto, tinha ainda em Werneck, tinha uma oficina de manutenção de máquina a vapor e, em Jaboatão, era o reparo pesado de locomotiva a vapor.

 

P/1 – E como é que era a oficina de Werneck nesse tempo?

 

R – Quando eu entrei, já tinha uma oficina própria para, vamos dizer assim, a reparação de locomotiva a diesel, já bem equipada. Depois, foi construída a oficina de reparos pesados, também lá em Werneck, já também apropriada para reparos pesados da locomotiva, né?

 

P/1 – Deixa eu entender um pouquinho como é que era esse local de trabalho, a locomotiva, quando ia para lá, eram feitos reparos tanto na parte mecânica quanto na parte elétrica?

 

R – É, essa oficina era oficina de manutenção, então, era para onde iam as locomotivas que estavam em tráfego e a gente fazia a revisão diária: a locomotiva entrava, fazia exame, andava, e víamos como é que estava. E revisões semanais, revisões quinzenais, isso tudo era programado. Era revisão semanal, mensal, quinzenal. Aí começava de novo. Até semestral. E quando chegava na anual já ia fazer um reparo pesado, aí já ia pra outra oficina de reparo que era de desmonte, motores, esse negócio todo.

 

P/1 – E me diz uma coisa, cada locomotiva tinha uma ficha própria para que os senhores anotassem tudo que tinha sido feito?

 

R – Tinha ficha, cada locomotiva tinha ficha, data de entrada, data de saída, revisão feita, e, assim, não tinha problema nenhum.

 

P/1 – E era tudo feito à mão? Essa ficha era preenchida à mão?

 

R – Era, era tudo feito à mão.

 

P/1 – E que tipo de equipamentos, de materiais, o senhor usava no seu trabalho para fazer esse tipo de manutenção?

 

R – Ia depender muito, existia, vamos dizer assim, fluxos da locomotiva, aí fazia revisões, mancais, via se tinha óleo, se não tinha; motor, via o nível de óleo de motor, água, tinha algum vazamento, era a revisão que tinha, e era obrigatório fazer aquilo. Na elétrica, se examinava os motores, se tinha escova quebrada no motor elétrico, painel, fazia revisão no painel elétrico, contatos, se limpava tudinho.

 

P/1 – E esse tipo de revisão era feita na manutenção diária, semanal e mensal?

 

R – Mensal, trimestral, semestral e outras.

 

P/1 – Mas que ferramentas o senhor usava, por exemplo, para fazer a limpeza do painel. O que era, que tipo de ferramenta que o senhor usava?

 

R – Lixa, lima (risos) um bocado de coisa.

 

P/1 – Tinha fiação nessa locomotiva a diesel? Como é que era isso?

 

R – Muita, muita fiação. Era complexa, uma locomotiva a diesel era complexa. A parte elétrica é muito complexa.

 

P/1 – Os comandos, por exemplo, para freio era tudo feito eletricamente?

 

R – Ar comprimido e comando de tração, elétrico. A locomotiva a diesel, diesel-elétrica como chamam, é diesel-elétrica porque tem um motor diesel que aciona um gerador e o gerador manda energia para o motor de tração, não é direto como, assim, o metrô nosso agora que a alta tensão já vai para o motor. Lá não, o diesel aciona o gerador, do gerador ia para o motor de tração de acordo com o movimento do maquinista.

 

P/1 – Então, ele não é parecido, por exemplo, com o motor de um caminhão? Não é parecido?

 

R – Não, o motor diesel do caminhão a tração é nas rodas, né? Lá nós tínhamos um gerador para acionar, e, de acordo com o comando do maquinista, mandar energia para os motores.

 

P/1 – E, o senhor trabalhava, tinha uma divisão nessa oficina da parte mecânica, da parte elétrica, ou vocês trabalhavam tudo muito junto.

 

R – Não, só elétrica. Eu trabalhava na parte elétrica.

 

P/1 – E tinha uma divisão da parte mecânica?

 

R – Tinha divisão, tinham as equipes, tinha eletricista, mecânico, cada um com os seus supervisores e auxiliares.

 

P/2 – Senhor Reinaldo, o senhor disse que fez o curso por correspondência e pegou esse treco cheio de fios. O senhor foi aprendendo a mexer com isso?

 

R – Fui aprendendo. Fiz, depois de um certo tempo, eu fiz curso na Sorocabana, de eletricidade, enviado pela Rede, fiz curso de mecânica, fui à GE (General Eletric) em Contagem, fiz curso também de eletricidade lá.

 

P/2 – As locomotivas vinham de lá?

 

R – Diesel.

 

P/2 – As diesel vinham de Contagem?

 

R – Não, eu fiz curso porque a GE tinha locomotiva GE, a fábrica. Então, nós fomos para lá para ver montagem, instalação de fiação toda da locomotiva, e isso a gente já fazia, mas lá a gente pegou mais tarimba.

 

P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho e até mirando nessa pergunta da Cláudia. O senhor quando chega na Rede Ferroviária, o senhor tem noções de eletricidade e já começa a trabalhar como aprendiz, o senhor foi ficar junto de uma pessoa que fazia manutenção?

 

R – É, tinha já os eletricistas, tinha um eletricista lá que veio de Palmares, quando começou a locomotiva eles fizeram o curso, Samuel do Nascimento, bom eletricista, e assim...

 

P/1 – E o senhor foi aprendendo?

 

R – Fui aprendendo.

 

P/1 – Quando o senhor foi fazer o curso na Sorocabana, quanto tempo fazia que o senhor estava trabalhando na Rede?

 

R – Eu entrei em 1954, em 1960, eu fui para Sorocaba.

 

P/1 – E o curso lá era especificamente na parte elétrica?

 

R – Elétrica e mecânica, mas eu tinha a parte de eletricidade e foram também comigo uns colegas de mecânica e eletricidade. Depois, eu fui fazer o curso de mecânica, lá também em Sorocaba.

 

P/2 – E os professores eram de lá mesmo, como era isso?

 

R – De lá, da Sorocabana.

 

P/2 – Tinha um lugar na Sorocabana, um centro de treinamento?

 

R – Tinham sala de ensino.

 

P/1 – E quem dava os cursos eram os próprios ferroviários, quem era que dava esses cursos lá?

 

R – Tinha funcionários antigos lá em Sorocaba, como o instrutor, de vez em quando vinha o instrutor e fazia pergunta para a gente de como estava sendo o curso, muito bom.

 

P/1 – E me diz uma coisa, nessa época o senhor trabalhava com locomotivas GE ou eram outros tipos de locomotiva, outra marca?

 

R – Era álcool. Nós recebemos primeiro três locomotivas inglesas, quando eu entrei eram locomotivas inglesas.

 

P/1 – Como é que era a marca da locomotiva, o senhor lembra?

 

R – English Eletric (EE). E, depois de um certo tempo que a gente já estava trabalhando, chegaram as locomotivas americanas, álcool.

 

P/1 – Deixa eu entender, essas locomotivas chegavam e tinha todo o esquema de montagem dessas locomotivas, e estava em que idioma, inglês? Foi traduzido isso? Como é que foi?

 

R – Vinha traduzido já. Aí, o esquema a gente ia aprendendo.

 

P/1 – E assim, tinha todo um esquema de ligações e tal que vocês faziam.

 

R – Tinha os sistemas elétricos. Nós fazíamos tudo de eletricidade da locomotiva, mudava instalação, tudo. Tinham bons eletricistas aqui.

 

P/1 – Quando o senhor vai para Contagem, Minas Gerais, quando chega essas locomotivas americanas, a GE, isso foi mais ou menos em que ano?

 

R – Não lembro não.

 

P/2 – E quanto tempo demorava para montar a parte elétrica de uma locomotiva, senhor Reinaldo? Uma semana, dez dias? Quanto tempo?

 

R – Ah, dependia muito, sempre. A gente só mudava a instalação completa quando tinha incêndio. Às vezes, tinha incêndio e tinha que mudar tudo, mas em quinze dias, fazia uma instalação daquelas, um mês.

 

P/2 – Vários eletricistas trabalhando ao mesmo tempo?

 

R – É, vários eletricistas. Cada um em uma parte.

 

P/2 – Como é que eram essas partes?

 

R – Painel, parte da estrutura de tração, e assim vai.

 

P/2 – Cada um entendia daquele circuito?

 

R – Mais ou menos, se entendia de tudo, sabe?

 

P/1 – E me diz uma coisa, essas locomotivas que chegaram, novas, qual que era a diferença do circuito de uma para a outra, da inglesa para a americana? Tinha muita diferença?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como que era mais ou menos?

 

R – O esquema era básico, praticamente a mesma coisa, agora o esquema de funcionamento, que uma locomotiva tinha, uma maneira de ser, vamos dizer assim, a locomotiva inglesa era um comando diferente, uma maneira de comando diferente. A locomotiva a álcool era de transições, fazia transições de acordo com a velocidade da locomotiva e era diferente da English Eletric, né?

 

P/1 – E vocês tiveram que ir para Contagem para poder fazer esse curso lá ver esses circuitos, como eles eram montados?

 

R – Lá em Contagem, na GE, nós fomos e depois foram outros colegas para ver justamente as instalações elétricas, como fazia com mais rapidez, aproveitamento de fio, quando havia um incêndio em um lugar a gente aproveitava aquele fio tirado para outra parte, economia de material.

 

P/1 – Então, o senhor foi com colegas e fez o curso lá. Como é que era quando acontecia um acidente. O senhor comentou de incêndio, ou por exemplo, uma locomotiva que tombava, como é que era feita a manutenção disso? Vocês se deslocavam para o local ou traziam a locomotiva? Como é que era isso?

 

R – Deslocava, trazia a locomotiva. Quando dava um defeito simples, mandava um eletricista ou um mecânico no local mesmo e eles consertavam. Quando era um problema mais grave, a locomotiva era rebocada para a oficina e nós fazíamos o serviço, examinava porque tinha acontecido, como aconteceu, porque aconteceu, e aí a gente concertava.

 

P/1 – E que tipo de defeitos na parte elétrica era comum se dar na locomotiva?

 

R – Defeito de contato, de relês, queima de motor.

 

P/2 – Tinha muito desgaste por causa do tempo, senhor Reinaldo?

 

R – Descarrilamento de locomotiva, tinha sempre.

 

P/2 – Então, mas a influência do tempo, por exemplo, a questão da locomotiva se deslocar do litoral para o agreste. Isso interferia?

 

R – Não, não interferia não.

 

P/1 – E o senhor se lembra de algum acidente muito grave que aconteceu com a locomotiva e que o senhor precisou se deslocar para poder ajudar, ou que a locomotiva veio para cá?

 

R – Tinha, quando havia acidente de tombamento, descarrilamento com virada, às vezes, morriam pessoas, maquinista, quando tinha acidente com morte, aí tinha que ir a equipe, já não era conosco, era o pessoal de...

 

P/1 – Socorro?

 

R – De socorro, que trazia para a oficina e na oficina que a gente ia fazer o serviço.

 

P/1 – Mas como os senhores ficavam sabendo? Eles comunicavam vocês do acidente e avisavam quando chegaria a locomotiva?

 

R – Comunicava, ficava sempre em contato.

 

P/1 – E me diz uma coisa, o senhor almoçava na oficina de Werneck? Como é que era o refeitório, como é que era o trabalho? O senhor entrava em que horário, que horário o senhor saía?

 

R – Sim, tinha um refeitório bom lá em Werneck. No começo não, a gente ia almoçar em casa, a gente saía, outros levavam o alimento de casa, mas depois o refeitório facilitou muito.

 

P/1 – E que horas que o senhor chegava no trabalho?

 

R – Sete horas, sete e meia. Sete e meia.

 

P/1 – E o horário de almoço qual era?

 

R – Onze e meia.

 

P/1 – Depois, o senhor voltava para o turno da tarde?

 

R – Voltava, uma hora até as cinco.

 

P/1 – E me diz uma coisa, o senhor falou que essa oficina foi uma oficina de manutenção no começo e depois vem a manutenção pesada. O que era a manutenção pesada de uma locomotiva?

 

R – Manutenção pesada era toda a desmontagem da locomotiva, o motor, trocava os motores, fazia reparo no motor geral, fazia revisão elétrica geral, limpeza, substituição de peça, tudo.

 

P/1 – E essa manutenção era feita todo ano, uma vez por ano se fazia essa manutenção?

 

R – Uma vez por ano, tinha anual, bianual, trianual, e assim ia aumentando o reparo, a complexidade, ia tirar o motor, às vezes, fazia-se a revisão da própria locomotiva. Tinham outras revisões que tinham que tirar motor, tirar gerador, tirava tudo, fazia revisão e, depois, colocava no lugar.

 

P/1 – E qual que era a durabilidade, vamos dizer assim, de uma locomotiva fazendo essas manutenções que são necessárias, quanto tempo ela durava, uma locomotiva?

 

R – Olhe, não é para se acabar não, sabe, que enquanto tiver peças de reposições a locomotiva dura muito tempo.

 

P/1 – E como é que era o material para vocês, eles chegavam, eram importados? Vocês importavam materiais, tinha coisas nacionais?

 

R – Tinham nacionais e importados, vinha motor no começo dos Estados Unidos depois da....

 

P/1 – No começo da Inglaterra e depois dos Estados Unidos, é isso?

 

R – Da Inglaterra. Veio muito material da Inglaterra, depois dos Estados Unidos. Depois do Canadá, teve um tempo que vinha do Canadá.

 

P/1 – E da parte elétrica também tinha muita coisa que vinha de lá?

 

R – Parte elétrica nem tanto, sabe? Mais da parte mecânica.

 

P/1 – E dessa parte elétrica que material que o senhor trocava mais, era fios, relés?

 

R – Relés, contato de relés, bobina às vezes queimava, essas coisas.

 

P/1 – E o senhor ficou trabalhando junto com os eletricistas até que ano? Quando é que o senhor virou supervisor?

 

R – Ah, não vou me lembrar assim não, mas passei de ajudante para eletricista, depois para supervisor auxiliar, para tomar conta de turno, depois eu passei para supervisor geral.

 

P/1 – E supervisor de turno como é que era? O que basicamente o senhor tinha que fazer, senhor Reinaldo?

 

R – Cuidar de, vamos dizer assim, cuidar de tudo. Tinha que cuidar do pessoal todo, né? Aí já era mais burocrático, a gente ficava mais organizando revisões, tal turma vai fazer aquela revisão e assim ia.

 

P/1 – O senhor tomava mais conta do pessoal?

 

R – Aí já estava administrando o negócio, escalando pessoal, fazendo escala de serviço, esse negócio todo.

 

P/1 – O que mudou de supervisor de turno para supervisor geral, qual que foi a mudança?

 

R – Aumentou o serviço (risos).

 

P/1 – (risos) Mas que tipo de serviço que aumentou?

 

R – Em vez de tomar conta de uma turma, fui tomar conta de uma oficina toda, da parte elétrica, aí tinha o supervisor de mecânica.

 

P/1 – Então, quando o senhor assume a supervisão, o senhor passou a tomar não só da parte elétrica, mas também da parte mecânica?

 

R – No fim já estava assim, mas tinha o supervisor de mecânica: tinha o supervisor de eletricidade e tinha o supervisor de mecânica.

 

P/2 – O senhor foi fazer curso de mecânica também?

 

R – Fui.

 

P/2 – Quando é que o senhor decidiu fazer o curso, era porque precisava ou porque o senhor tinha vontade?

 

R – Nós éramos indicados para isso, a chefia indicava. As pessoas iam fazer esses cursos.

 

P/2 – E era comum o pessoal da elétrica fazer esse curso de mecânica?

 

R – Não, não era não. Em Sorocaba, eu fui fazer de eletricidade e fui fazer de mecânica, na GE fui fazer de eletricidade e assim foi a minha vida lá. O problema é que já faz tantos anos que (risos) para recordar isso... Nós tínhamos bons eletricistas na oficina, pessoas que vieram do curso do Centro de Formação Profissional de Jaboatão, tinha uma escola com professores de eletricidade, de mecânica, aí já facilitou muito.

 

P/1 – Senhor Reinaldo, esses turnos que o senhor trabalhava, quantos eletricistas o senhor tinha em cada turno?

 

R – Nós tínhamos, na manutenção, parece que eram quatro turmas, se eu não me engano. Eram quatro turmas de seis eletricistas e ajudante. E tinha as turmas de mecânica, que era com outra equipe, né?

 

P/1 – E o senhor falou que quando começou o curso de formação em Jaboatão começou a facilitar, porque facilitou o serviço, senhor Reinaldo?

 

R – Porque eles já vinham com o curso de eletricidade, faziam estágio lá na oficina, eles saíam da escola e iam fazer estágio na oficina e aí foi facilitando. No começo, foi mais pesado.

 

P/1 – E como é que era a relação com os engenheiros que trabalhavam na oficina? Como é que era a relação de vocês, supervisores, com eles?

 

R – Era muito boa, não tinha problema nenhum, eram bons engenheiros também.

 

P/1 – Qual era o papel do engenheiro dentro da oficina, o que ele tinha que fazer?

 

R – (risos) O papel do engenheiro.

 

P/1 – Ele que direcionava, porque assim, o senhor que coordenava o trabalho do pessoal e o trabalho, mas o senhor discutia com ele, por exemplo, o que tinha que ser feito?

 

R – O que tinha que ser feito, o que precisava, ele me chamava, tem que fazer, estava acontecendo alguma coisa de anormal, vamos cuidar, então, assim era.

 

P/1 – Então, a orientação em termos de trabalho vinha dele, mas ele era discutido com o senhor?

 

R – Era. Nós tínhamos aquele contato direto com ele, né?

 

P/1 – E quais eram as dificuldades que o senhor tinha no seu trabalho, no dia a dia? O que mais trazia dificuldade no seu trabalho para o senhor executar?

 

R – Ah, foi o pessoal, falta de pessoal, às vezes, de material também, mas no normal era tudo certinho.

 

P/1 – E tinha muita greve senhor Reinaldo?

 

R – Algumas (risos), algumas greves.

 

P/1 – E o senhor lembra de alguma que foi marcante?

 

R – Eu lembro de uma greve que nós perdemos cinquenta por cento do salário do aumento que vinha (risos), no tempo em que a inflação estava grande nós queríamos oitenta por cento de aumento, e parece que foi no tempo de Collor, estava cinquenta, e o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Pernambuco (Sindifer-PE), com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) não aceitaram os cinquenta, terminamos perdendo cinquenta e quem fez greve pagou os dias, nós tivemos cinco por cento de aumento, por isso que eu digo, nós perdemos cinquenta por cento do salário (risos). Essa foi a mais chata para a gente.

 

P/1 – Tinha muita gente nessa época que participava do sindicato?

 

R – Tinha, o sindicato tinha muita gente.

 

P/1 – E o senhor participava também?

 

R – Não, eu não era do sindicato não, eu era sócio, mas não participava não.

 

P/1 – E o senhor acabou se aposentando quando, senhor Reinaldo?

 

R – Eu me aposentei em 1983, com parece 29 anos de trabalho e duas licenças prêmios que computou e eu saí.

 

P/1 – O que era a licença prêmio?

 

R – Era dez anos de serviço aí tinha direito a um mês de férias, e para quem não gozava era transformado em um ano para a aposentadoria. Então eu como tinha duas peguei dois anos, aí me aposentei mais cedo.

 

P/1 – E o senhor se aposentou por que, senhor Reinaldo?

 

R – Queriam mesmo que a gente se aposentasse, deram parece que foi quatro ou seis meses de gratificação, salário dobrado, e...

 

P/1 – Ah, o senhor teve um incentivo da companhia para poder...

 

R – Tinha incentivo para sair. Eu e quem tinha tempo, né? Saía muita gente.

 

P/1 – Então, nessa época eles já estavam começando a preparar para o processo de privatização que aconteceu?

 

R – Eu acho que sim.

 

P/1 – Eu vou voltar numa coisa que o senhor comentou para gente lá no comecinho da entrevista, que o senhor falou que o senhor viajava muito lá para Barreiros, na casa do seu avô, e que o senhor ia muito de trem. Como é que era a paisagem dessa região? Tinha muita plantação, o que o senhor via pela janela do trem?

 

R – Tinha plantação de cana e mata, muita. Era muita cana, era uma cidade, era uma, vamos dizer assim, terra de plantação, cana ou então mata. Mata, vamos dizer assim, mata atlântica, como chamam.

 

P/1 – E Barreiros ficava no tronco sul, né, na Linha Sul?

 

R – 56 quilômetros de Ribeirão a Barreiros.

 

P/1 – E o senhor chegou a viajar para as outras linhas, para a Linha Norte, para a Linha Centro?

 

R – Já, mas eu não viajava muito, mas escalava pessoas que iam, sabe?

 

P/1 – E quando o senhor foi para essas regiões, qual era a paisagem que o senhor via? O que tinha na Linha Norte, por exemplo, de diferente da Linha Sul?

 

R – Cana, era cana. Aqui no estado predominava a plantação de cana, né?

 

P/1 – E as estações, elas eram muito diferentes umas das outras ou não, senhor Reinaldo?

 

R – Não, normal. Estaçõezinhas simples, sabe, todo ramal. Só quando tinha uma cidade maior que a estação era maior, mas, normalmente, entre as cidades era estação simples.

 

P/1 – E tinha muito comércio nessas estações ou não?

 

R – Tinha não, só no caso como daqui a Caruaru. Caruaru já era cidade grande, Vitória de Santo Antão, cidade grande. E assim, para o sertão ia piorando tudo.

 

P/1 – E me diz uma coisa, houve um impacto muito grande quando se acabou o trem de passageiro, quando não se fazia mais transporte de passageiros? Diminuiu o seu serviço lá na oficina ou não?

 

R – Aí, eu não estava mais lá não.

 

P/1 – Ah, o senhor já tinha se aposentado?

 

R – Já tinha aposentado.

 

P/1 – O senhor se casou quando, senhor Reinaldo?

 

R – Casei em 31 de maio de 1958.

 

P/1 – E como é que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – No trem, viajando (risos).

 

P/1 – Ah, no trem, então conta essa história para a gente então.

 

R – Viajando... Ela estudava em Recife, num colégio em Recife, e eu, nesse tempo, trabalhava. Eu passei, esqueci de falar, um ano ou dois anos trabalhando em Cinco Pontas, tomando conta de duas locomotivas de manobra, e voltava de trem para a casa, Coqueiral, e nessa viagem nós namoramos.

 

P/1 – Aí o senhor começou a paquerar com ela...

 

R – Paquerar e terminei casando.

 

P/1 – E ela trabalha? O que ela faz? Ela sempre trabalhou em casa?

 

R – É, sempre doméstica, em casa.

 

P/1 – E o senhor tem quantos filhos, senhor Reinaldo?

 

R – Dois.

 

P/1 – Como é que é o nome deles?

 

R – Silvio Góes de Miranda, professor de física, e Fernando Góes de Miranda, veterinário, médico veterinário.

 

P/1 – E o nome da sua esposa?

 

R – Maria __ Góes de Miranda.

 

P/1 – E nenhum deles teve interesse de, o senhor comentava com eles como era a Rede Ferroviária, o senhor contava histórias pra eles?

 

R – Contava, mas eles não quiseram acompanhar o pai não (risos).

 

P/1 – Me diz uma coisa, o senhor me falou que trabalhou uma época em Werneck tomando conta de duas locomotivas de manobra, quando foi isso?

 

R – Acho que pouco tempo, foi em 1960, parece que em 1960 eu saí, foi em 1959, 1959 ou 1960, mais ou menos.

 

P/1 – E o que tinha em Werneck nessa época, senhor Reinaldo?

 

R – Werneck tinha...

 

P/1 – Desculpe, em Cinco Pontas.

 

R – Cinco Pontas? Cinco Pontas era o setor de embarque de carga geral, né? O açúcar vem das usinas para Cinco Pontas, todo transporte: gados, feijão, tudo que vinha do interior, parece que cal, gesso, vinha para Cinco Pontas. A gente lá determinada para o Porto de Recife, transporte de combustível, óleo, gasolina, álcool, tudo isso era lá, para o porto, em Cinco Pontas.

 

P/1 – E como é que era feito o descarregamento dessa carga toda? O senhor falou que tomava conta das locomotivas de manobra que ficavam onde?

 

R – Manobra, que vinham do Porto, eu acompanhava a locomotiva até o Porto e ficava lá com elas manobrando, fazendo o transporte de combustível, óleo e gasolina, e trazia pra Cinco Pontas e de Cinco Pontas distribuía para o Rio Grande do Norte, para todo lugar.

 

P/1 – E esse combustível ele vinha de navio?

 

R – Vinha de navio e nós mandávamos daqui também: o açúcar das usinas, ia lá e embarcava também.

 

P/1 – Como é que era feito o carregamento da locomotiva, por exemplo, de combustível do navio para a locomotiva, como é que era feito?

 

R – Não, dos vagões, né? Do navio descarregava nos vagões e também dos vagões para o navio.

 

P/1 – Mas tinham mangueiras, como é que saía esse combustível dos navios, o senhor não sabe?

 

R – Não, era saco que carregava naquele tempo na cabeça. Tirava, descarregava, o guindaste pegava e transportava o açúcar para o navio, era tudo ensacado.

 

P/1 – Ah, era basicamente açúcar.

 

R – Açúcar. E vinha de lá óleo, gasolina, esse negócio todo.

 

P/2 – Vinham tambores esse óleo?

 

R – Vinham vagões-tanque, vagão-tanque.

 

P/1 – Então, mas como é que ele era despejado do navio, tinha uma mangueira, um duto, alguma coisa?

 

R – Tinham mangueiras, enchia os vagões com mangueira, tanque.

 

P/1 – E o senhor cuidava dessa manobra, o senhor fazia manutenção...

 

R – Só manobra, em qualquer defeito, era para não deixar parar a locomotiva de manobra porque era um negócio importante lá. E nisso eu passei um ano e pouco, depois voltei para a oficina de Werneck.

 

P/1 – O que o senhor mais aprendeu no seu trabalho, se o senhor fosse olhar para isso o que mais o senhor aprendeu?

 

R – Eu aprendi tudo, aprendi tudo. Entrei como ajudante e fui aprendendo, me interessei, estudei, daí até me aposentar.

 

P/1 – Depois que o senhor se aposentou, o que o senhor foi fazer, senhor Reinaldo?

 

R – Pescar, pescar que ninguém é de ferro, né? (risos)

 

P/1 – Ah, conta um pouco pra gente como é que é esse hobby (risos).

 

R – (risos) Nada, eu fiquei um bocado de tempo assim querendo trabalhar, voltar, mas não voltei. Tem até uma coisa interessante. A METROREC (Metrô do Recife) estava sendo instalada aqui no Recife e um engenheiro que tinha saído me chamou para lá: “Vem pra cá, ajudar aqui no metrô.” Eu disse: “Eu vou, né? Carimba cartão?” Ele disse: “Tem que carimbar.” Eu disse: “Não vou mais não.” Aí ele caiu na risada, eu disse: “Rapaz, não vou mais não, carimbo cartão mais pra ninguém.” (risos)

 

P/1 – Então, o único emprego que o senhor tem de carteira é na Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA)?

 

R – Na RFFSA.

 

P/1 – E hoje, quais as atividades que o senhor tem hoje? O senhor faz parte da Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN)? O que o senhor faz na Associação hoje?

 

R – Só Associação e tomar conta de casa, ajudar os meninos a, não sei, assim, os netos já estão crescendo, incentivá-los a pescar para a gente sair junto.

 

P/1 – E o senhor sai muito para pescar com os seus netos?

 

R – Saio.

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Pedro, Pedro Henrique, Silvio Góes, que é o mesmo nome Silvio Góes de Miranda, é o mesmo nome do pai, a neta agora casou e Euclides é em homenagem ao meu pai, o neto mais novo.

 

P/1 – E eles vão pescar com o senhor onde? Onde o senhor gosta de pescar, senhor Reinaldo?

 

R – São José da Coroa Grande. Praia de São José, Praia dos Carneiros que você falou, muito bom, e, assim, eu vou levando a vida, pintando uma coisinha, às vezes (risos).

 

P/1 – E o senhor pesca, na Praia dos Carneiros o senhor pesca embarcado?

 

R – Embarcado. Tenho um sobrinho que gosta muito de pescar, tem barco, tem motor, e nós vamos junto.

 

P/1 – E que peixe que o senhor pega lá?

 

R – Camorim, Caranha, esses peixinhos assim.

 

P/1 – E o senhor foi mergulhador também, né?

 

R – Fui.

 

P/1 – E como é que o senhor aprendeu a mergulhar e que tipo de peixe o senhor pegava quando mergulhava?

 

R – Nós pegávamos Mero, e esses peixes de pedra, Bico Verde, Caraúna, às vezes, Pampo, aqueles peixes que a senhora conhece lá.

 

P/1 – Tem Garoupa aqui também?

 

R – É difícil, mas tem nas pescas.

 

P/1 – E o senhor pescava como? O senhor pescava com tubo ou...

 

R – Não, só no, só no...

 

P/1 – No peito?

 

R – É, no peito mesmo.

 

P/1 – E o senhor falava que quando o senhor pescava de mergulho e os pescadores que pescavam de molinete, como é que era?

 

R – Gozava, fazia gozação deles, né? (risos)

 

P/1 – Por quê? (risos)

 

R – Porque a gente achava que a pescaria de mergulho era muito mais, rende mais, é mais bonito, é outra pescaria, né? E eles ficavam na praia pescando. Agora eu estou ficando na praia pescando (risos), mas vou embarcado.

 

P/1 – Mas o senhor pesca também como molinete na praia?

 

R – Na praia raramente, porque pescava muito em Maracaípe, mas agora tem muita gente, muito surfista e atrapalha a pescaria, né? Aí, eu estou mais embarcado agora.

 

P/1 – O que significou para o senhor trabalhar na Rede Ferroviária?

 

R – Significou tudo para mim, né? Para minha vida, para minha família, para tudo.

 

P/1 – Do que o senhor tem mais saudade, senhor Reinaldo?

 

R – Da turma que a gente trabalhava junto, era tão bom. Até que a gente ainda faz uma reunião todo fim de ano, ainda se vê, mais o pessoal da elétrica que era o mais unido, mas é bom, ainda a gente se reúne para relembrar (risos) aquela vida da gente.

 

P/1 – Tem alguma história engraçada que o senhor queira contar pra gente, que o senhor se lembra, que o senhor ouvia falar?

 

R – Eu vou deixar para o Cristino Pessôa dos Santos contar amanhã (risos).

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente deixou de perguntar que o senhor gostaria de contar, alguma coisa?

 

R – Não, filha, é isso mesmo. A vida de eletricista de locomotiva, de mecânico, é essa aí.

 

P/1 – E para o senhor qual a importância de se fazer um trabalho como esse de registrar a memória da Rede Ferroviária?

 

R – É muito importante porque como eu vi e trabalhei, praticamente comecei com a locomotiva a diesel, um progresso, e, hoje, o progresso parou onde eu comecei, ali não cresceu mais, pelo menos aqui no Nordeste. Isso aí talvez abra a mente dos dirigentes para voltar a ferrovia aqui no Nordeste.

 

P/1 – E o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Foi bom que eu lembrei muita coisa que eu estava esquecendo (risos).

 

P/1 – Foi fácil lembrar então?

 

R – Foi bom.

 

P/1 – Então tá bom.

 

R – Também, a senhora puxando, né? Vai lembrando (risos).

 

P/1 – Senhor Reinaldo, eu queria agradecer em nome do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Museu da Pessoa a sua participação. Muito obrigada.

 

R – Por nada. Disponha.

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