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História

As peripécias do doutor Xaxá

História de: Eduardo Grohmann
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2021

Sinopse

Apostar no sonho é um caminho arriscado. Imagine você já formado em uma área de exatas com um dilema: aceitar a proposta de um emprego promissor ou começar do zero e fazer a matrícula num curso de biológicas? Aos 20 anos, Eduardo teve que responder essa questão e pensou: “Se vou viver até os 80, mais ou menos, tenho ainda 60 anos de vida ativa. Quero ser feliz ou infeliz?” - e então foi fácil, disse não para a proposta de trabalho e foi fazer sua matrícula na faculdade. Lá, nunca teve tanta certeza de que estava no local certo. Mas a faculdade particular e os gastos com transporte e livros cobrava dele uma vida financeiramente ativa. E novamente com seu bom senso surreal, sem dores e mágoas, Eduardo apostou naquilo que mais gostava e levava jeito - estar com crianças - e pariu sua identidade de palhaço Xaxá. Formou um grupo de animação infantil de sucesso em Campinas (SP) e assumiu os gastos do seu sonho se divertindo. Ao ler a história de vida de Eduardo, prepare-se para encontrar muita clareza, mudanças de caminho e sempre, sempre, muita sabedoria e felicidade. Do palhaço parido na juventude, Eduardo parece alimentar essa personalidade e ativá-la no momento certo. É, sem dúvida, um pediatra bonzinho, como todos devem ser.

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História completa

A gente esperava o jornal chegar para ver o resultado do vestibular em medicina. Saiu a primeira lista e nada! Mas o meu pai sempre foi muito positivo: “Precisa ver qual que é a classificação que você ficou!” E era uma até que razoável. E então ele começou a fazer uma coisa doida: saía a lista da segunda chamada da USP e comparava com os que também estavam na PUC-Campinas. Já riscava: “Esse vai para a USP”, o cara entrou na particular e na estadual, ele vai para a pública, né? Saía da Unicamp, mesma coisa. Ele ia riscando! “Uma hora vai chegar!” E chegou logo na segunda chamada! Mas meu irmão viu primeiro: chegou o jornal, ele me acordou: “Tá aqui, passou!” Eu já estava me programando para mais um ano de cursinho e pumba! Foi uma festa, né?

 

Ao mesmo tempo, eu tive uma proposta de emprego na área de Processamento de Dados no Rio de Janeiro. Era a proposta e o meu nome na segunda chamada. Pensei: “Eu vou trabalhar no mínimo mais uns 60 anos”, eu tinha 20 anos e imaginava que até os 80 eu iria chegar, né? “Vou trabalhar 60 anos talvez infeliz?” E esse foi o meu poder de decisão. Fui fazer a matrícula.

 

O meu projeto inicial era fazer medicina em dez anos. São seis de faculdade, mas eu imaginei que em algum momento eu teria que parar, fazer um caixa e continuar. E essa profissão de técnico em processamento de dados me dava muita opção disso. E aí eu comecei a procurar outras alternativas: abri um grupo de animação, pois na época contratava-se muito esse serviço para fazer festa infantil na garagem de casa. Fui pra São Paulo, comprei todas as coisas, paguei uma costureira e vambora! Fiz duas roupas de palhaço: uma pra mim e outra para o meu irmão. Um dia, ele chegou em casa, tava a minha roupa na cama e a dele do outro lado, eu falei: “Nós vamos começar a animar festa infantil. Você falou que você vai me ajudar! Vambora!” Foi muito engraçado! O meu forte era palhaço. Era a Turma do Xaxá, porque éramos o Xaxá e o Xixi! E o meu pai também dava muita ideia das brincadeiras. Fazia dança da cadeira com adulto e com criança, pintura de rosto, estátua. Comprei uma máquina de fazer algodão doce e o meu pai ficava fazendo algodão doce durante a festa. Fazia uma chuva de bexiga no final. Então era sempre assim, a criatividade rondando, né?

 

E teve o início na faculdade, uma coisa que você quer tanto e, de repente, está lá! Meus tios que eram médicos ficaram sabendo que eu entrei em Medicina, então me mandavam muito livro que chegava em casa pelo Correios. E aí eu vi que eu tava no lugar certo, que não ia ser fácil, mas que era aquilo que eu queria, além da mistura de classes. Era geralmente um pessoal de uma classe social mais elevada e eu tive que lidar com isso e segue a vida, vamos lidar! Isso foi muito bom pra mim até hoje, porque eu consigo conversar com uma pessoa simples a uma pessoa mais high possível. Não tenho dificuldades. Sempre trabalhei em hospital particular. Em hospital público, uma vez na minha vida, só. E quando eu fiz residência na UTI pediátrica na Escola Paulista, no Hospital São Paulo, público, aparecia um particular e o pessoal não sabia conversar com a família. Todo mundo é pessoa, né? “Doutor, chegou um particular!” Eu respondia: “Segue a fila!” Não tem a doença ser particular! E isso às vezes assustava um pouco o pessoal: “Mas é particular, doutor!” “Segue a fila, a não ser as urgências e emergências, encaminha para sala de urgência”, então isso foi bom, eu acho que eu sei me virar em tudo.

 

Só vou sair do hospital quando uma enfermeira vier: “Doutor, tem uma cesárea na sala!  Doutor? Doutor? Morreu! Morreu o Doutor! Suspende a cesárea! Ele tá duro, tá seco!” Não penso em nunca parar, a não ser por limitações. Hoje, no final da consulta, os pais falam assim: “Nossa, o senhor gosta do que faz!”, e eu gosto. Eu trabalho feliz!


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