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História

As olimpíadas de Itaipu

História de: Silvio Almeida Bueno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2005

Sinopse

Sílvio Almeida Bueno trabalhava na cidade de Chavantes, no Estado de São Paulo, quando foi convidado a trabalhar na Itaipu por seu antigo chefe. Mudou-se em 1977 para Foz do Iguaçu acompanhando a construção da usina desde muito cedo. Trabalhou, principalmente, com educação e recreação dentro das Vilas; mas por um tempo exerceu atividade extra na segurança dos alojamentos e conta sobre suas atividades até se aposentar em 1989.

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História completa

P - Por favor, diga seu nome, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Silvio Almeida Bueno, nasci no dia 26 de abril de 1935 na cidade de Xavantes no estado de São Paulo. 
P – Qual era o nome dos seus pais e a atividade deles. 
R – Papai era Edgar Almeida Bueno, farmacêutico, e a mãe Maria do Rosário Bueno, do lar. 
P – Me diga por favor como é que você chegou aqui à Foz do Iguaçu, qual é o motivo da sua vinda. 
R - Eu trabalhava na minha cidade num colégio, Dr. Ernesto Batista de Melo Júnior, e lá eu atendia o casalzinho filho de engenheiros, Dr. Fortes Filho, é o que veio chefiar a construção da barragem da Itaipu aqui. E a dona Luci esposa dele falou: “porque você não trás o Silvio pra cá?” Naquele tempo eu trabalhava, eu era professor de manha no colégio sendo diretor. A tarde eu era diretor da secretaria da Câmara Municipal e a noite eu dava aula no mesmo colégio. Ela falou: “Ele não vem.” Ele falou: “Ele não vem, ele tem três atividades.” Mas aí um rapaz que era de Ribeirão Carlos que tinha trabalhado em 76 aqui foi de férias pra lá e levou uma carta do Dr. Fortes pra mim me convidando pra vir trabalhar na Itaipu. Aí eu vim cheguei aqui não fichei na Itaipu. Fichei na Unicon que era a união construtora da obra de Itaipu, na qual o Dr. Fortes era o chefe principal, era o engenheirão chefe. No dia que eu cheguei aqui ele não estava, ele me passou para o Dr. André Luiz e me recebeu. 
P – Que ano era esse?
R – 77.
P – E em que ponto tava aqui a situação? Como é que tava? Você lembra da primeira ________?
R – Lembro. Aí nós fomos fichados. O exame era numa casa de madeira lá na Almirante Barroso em Foz do Iguaçu. E lá fazia exame todo mundo junto. Os cargos diferentes, mas o exame todo mundo junto. E lembro até um barrageiro que foi fichado lá nesse dia, um cara que era, trabalhava para a Patrol, aqueles caminhões que descarregavam 80 toneladas de pedra. O medico mandou todo mundo tirar a roupa, ficar nu, e ele ficou com um relógio deste tamanho assim, o médico achou gozado e falou: “você nasceu de relógio, rapaz?” Ele jogou o relógio assim no chão e falou: “safado vai quebrar o relógio.”  Ele falou: “Este aí já ta pago.” E depois encontrei com ele aqui dentro da obra, ele trabalhando no caminhão carregando 80 toneladas de ferro. Então eu cheguei aqui no início da obra. 
P – No início, né? Agora o que que você achou quando chegou aqui?
R – Aqui era só pedreira. No início da obra era pedreira. E o pessoal andou aterrando as pedreiras, né, pra fazer a passagem dos caminhões. _____, o buracão como era chamado lá onde o pessoal tava trabalhando. Houve muito acidente no começo. Muita gente morreu. 
P – Porque?
R – Acidente.
P – Sim, mas, e morava todo mundo aqui dentro também? Ia chegando e morando? 
R – Morava aqui 16 mil alojados quando a eu cheguei aqui. Depois as famílias foram vindo para Foz do Iguaçu, foi construindo as vilas. Então aí as famílias foram para as vilas, então eles vinham, trabalhava de manhã. Os ônibus traziam, eles trabalhavam e a noite eles voltavam para a vila. 
P – Quais são as imagens assim que mais você guarda na memória? O que te impressionou? Quais são as principais coisas 
R – Eu trabalhei nesse departamento de educação, de recreação. Pra mim foi ótimo porque eu me dei com todo mundo dentro da obra. Num saí com nem um inimigo daqui, apesar de ter trabalhado 15, quase 16 anos. E o que mais me impressionou foi dois homens que eu achei morto num bosque aqui em cima pra lá dos alojamentos. E a Itaipu, no final do meu serviço aqui dentro, ela me pôs pra fiscalizar os alojamentos de noite junto com a segurança de Itaipu pra ver se tinha algum, cocaína, essas coisas. Então eu passei a fazer, além da minha atividade, tinha que fazer uma atividade extra a noite. Os guardas me buscavam em casa, na Vila A, me traziam e me acompanhavam nas visitas nos alojamentos a noite. E no primeiro ano que eu fiz foi mandado parece que 50, 52 funcionários embora.
P – Porque?
R - Usavam cocaína. Inclusive um rapaz de cor que era um espetáculo lutador de Box, que nós fomos disputar fora para campeão em São Paulo. Tinha lá um torneio, campeonato que eles faziam já a 40 anos. E ele, assim na primeira luta ele derrubou. Era campeão. Na sexta luta ele ia ser campeão da _____ de campeões. Na sexta luta ele foi, ele não quis lutar. Você falou que ele foi. Ele não quis lutar. Aí o professor Luiz chegou, professor do Box, e falou assim: “ô Silvio, não sei o que aconteceu com o Silva, ele não quis lutar e alegou que estava com dor de cabeça.” Aí chegou aqui, eu mandei chamá-lo na minha sala, fechei a porta e conversei particular, mas eu vi que os olhos dele já tava, parecia olho de crocodilo, já era um característico de quem usa narcótico. Aí conversei com ele, dei conselho, queimamos uma bolsa dele cheia de coisa que ele tava com ela, eu não sabia. Depois por acaso eu falei: “abre a tua bolsa, vamos ver o que tem aí dentro.” Ele falou: “O senhor está duvidando de mim?” Eu falei: “Não to duvidando, é a minha função. Eu sou teu amigo, eu gosto de você, mas eu quero ver o que que você tem dentro da bolsa.” Aí ele tava cheio de pacotinho que ele ia vender para os alojados. Eu falei: “Silva, eu sou seu amigo, tira seus documentos que nos vamos queimar a sua bolsa.” Queimamos a bolsa com tudo. ______ porque minha sala era no primeiro prédio aqui. Aí prometeu, chorou. Eu falei: “Olha, nós vamos ser mandados embora da obra. Se eu comunicar lá embaixo a chefia vai embora da obra.” Não professor, tá bem.” 20 dias depois eu venho a noite aqui no canteiro, pego ele atrás do cinema com a bolsa, outra bolsa, vendendo. Aí eu o comuniquei, ele era guarda de segurança da Itaipu. Aí mandaram ele embora. 
P – Mas que mais lembranças você tem desta época?
R – Nesta época eu saía a noite para dar uma batida nos alojamentos lá em cima, que era 30 alojamentos. E pra lá do último alojamento o rapaz que tava junto comigo, um dos guarda, falou: “Seu Silva, eu tô vendo um negócio pendurado ali que tá meio esquisito, vamos chegar lá?” “Vamos.” Chegando lá tinha dois homens pendurado enforcado. Foi o que mais me impressionou dentro da obra foi aquilo. E o outro foi o acidente do _____ lá que caiu e matou seis funcionários lá embaixo. 
P – Mas e coisas bonitas. O que foi que você teve de boas lembranças?
R – Bonita. Depois de pronta a obra, a quantidade de peixe em frente a barragem ficou linda. 
P – Conta isso.
R – E era uma coisa impressionante a quantidade de peixe grande, enorme. E era proibido pescar ali. E teve muita gente que tentou pescar. Alguns morreram afogados. Perto das comportas ali é muito fundo e o movimento da água é muito extenso. Então é perigoso. 
P – Como era o seu cotidiano de trabalho? Todo dia como era a sua vidinha? 
R – Minha vida, eu saia seis e meia de casa, sete horas eu tava aqui no meu setor atendendo o pessoal que trabalhava a noite. Eles iam pro refeitório, tomavam café. Eles vinham brincar 20 minutos, 40 minutos aí. Depois eles iam embora tomar banho. Dormia até o meio dia, até a hora do almoço e a gente ficava dando atividade aqui. Era futebol de salão, futebol suíço, todo dia nós tínhamos um campeonato de várias modalidades pra atender esse pessoal. 
P – Qual era a orientação? Era encher de atividade...
R – Era encher de atividade. Nós tínhamos salões aqui com televisor pra eles assistir. Tinha gente que não gostava de participar de modalidade esportiva. Então ele gostava de assistir um televisor, ver um jornal na parte da manhã, certo? E na hora do almoço sempre eles vinham, almoçavam e ficavam aqui sentados assistindo televisão até as 14 horas. Aí isso foi o pessoal que ia trabalhar a noite. Aí eles iam dormir, a tarde eles voltavam, as 16 horas pra cá, praticavam qualquer esporte, jogava bocha, o outro jogava sinuca, o outro jogava pebolim, certo. Eram as atividades que nós tínhamos aqui. Outros iam pro cinema assistir filme, que passava uma sessão as 14 horas. E a outra as 20 horas pro pessoal da noite. Então esses, quando era 18 horas, eles iam pro refeitório, jantava, as 18:30 o caminhão passava pegando e levava eles pro serviço. As 19 horas eles tava no serviço e saia outra turma que tinha entrado as sete da manhã. E a nossa atividade continuava até as 22horas da noite. 
P - Aí parava?
R – Às 22 horas nós desligávamos 42 televisores que nós tínhamos ligado nos alojamentos tudo. A nossa operação era desligar televisor por televisor. Nós éramos chamadas de Operação Swat até. Uma turma ia pra cima e outra pra baixo. Desligava todos os televisores, aí acabou. Era silêncio total. 
P – E ninguém ligava de novo?
R – Não. Era colocada dentro de uma casinha com cabo, fechado, ninguém abria, ninguém mexia. 
P – Tá certo. Agora me conta das olimpíadas. 
R – As olimpíadas foi assim. Nós começamos uma olimpíada modesta, simples, com poucas modalidades para o barrageiro que trabalhava lá na pedra lá embaixo. 
R – E depois...
P – Espera. Explica o que era trabalhar na pedra lá embaixo. 
R – Porque lá no buracão como eles chamavam era só pedra. Aonde foi feito o leito do rio lá. Desviar o leito do rio.  
P – Um desvio?
R – É. Ali era só... é um buraco enorme, né. E o pessoal tinha medo, tinha gente que tinha medo de trabalhar lá. Muita gente pediu pra ser mandado embora pra não trabalhar lá de medo de morrer lá, de acidente e tudo. Porque era coisa de louco. Aqueles caminhões entrando, tirando, explodindo pedreira e tudo, e era coisa de louco. 
P – Isso pro desvio. 
R – Então aí as olimpíadas foram tomando um vulto com o passar dos anos. As empresas que formaram dentro da obra foi a Unicom que era a construtora da obra, a Itaipu que era dona da obra, a Cometa que é uma firma paraguaia,  a Itamon que era a montadora das turbinas, começaram a contratar jogador, atleta profissional para disputar as olimpíadas, porque ninguém queria perder. A Itaipu tinha ganho duas olimpíadas.A ________ duas, a Unicom duas, Itamon duas. Então ia realizar a última pra ver quem seria o campeão das olimpíadas. 
P – Quais eram as modalidades?
R – Aí a última já tinha 17 modalidades. Era futebol, futebol de salão, futebol de campo, basquete, Vôlei, ciclismo, natação. Aí havia os jogos pebolim, dama, xadrez, dominó, bocha, Box e _______.
P – Como que era assim a aceitação. Os funcionários gostavam? Se inscreviam? Iam ver, como é que era?
R – Era assim. Nós fazíamos uma reunião com todos os coordenadores das firmas, os responsáveis pelas equipes representando cada firma. Sempre eram engenheiros que participavam, todos aí nós fazíamos, organizava a olimpíada. Tudo com alguém deles, todo mundo fazia a organização da olimpíada, como ia ser realizada a olimpíada. E depois começava sempre no dia primeiro de maio e era um mês de olimpíada. Com jogos a noite fora do canteiro e jogos a noite dentro do canteiro que podiam ser realizados aqui dentro. E sempre nós deixávamos para realizar domingo as provas de snooker, pebolim que eles adoravam que é aquele joguinho. E dama que nós tivemos um campeão aqui, o Newton Ivo, que nem engenheiro, ninguém ganhou dele aqui dentro. E era um barrageiro que trabalhava lá embaixo no serviço grosseiro. _____ E depois nós levamos pra fora também do canteiro pra ser realizada no colégio e ginásio pra família participar porque se fosse aqui dentro era proibido a entrada da família. Então os filhos queriam ver o papai jogando, então nós levamos pra lá. 
P – Aí não podia entrar, né?
R – Não. Aí nós fazíamos o basquete, o vôlei, futebol de salão no ginásio. E o encerramento nós fazíamos lá no ginásio, entregando a premiação, os troféus, a medalha, tudo fora. Eram convidados. Aí nessa noite do encerramento nós trouxemos João Avelanche aqui, trouxemos no canteiro. Aqui dentro nós trouxemos pra abrir a olimpíada, nós trouxemos Os Milionários, que eram jogadores de futebol antigos da seleção brasileira, trouxemos vários cantores, como trouxemos a Perla que abriu a primeira olimpíada, o Golias, depois trouxemos Jane e Erondí. Trouxemos Carmem Silva, trouxemos...
P – Tá, agora só pra terminar porque tá terminando a entrevista, eu gostaria de saber quais são as novidades suas hoje. Você faz...
R – Eu me aposentei em 89. Saí da obra, fui levado para um colégio, pra trabalhar num colégio Dinâmica, é um dos maiores colégios de Foz do Iguaçu, um colégio particular. E fiquei lá, permaneci até maio desse ano. Em 2000 eu saí, fui operado da próstata, saí, fiquei 4 meses afastado. Ela, pensei que ela não ia me chamar. Tornou a “Seu Silvio, preciso das suas atividades aqui.” Eu voltei. Eu lidava com o pessoal do colegial, do terceiro ano. Então fiquei até agora maio. Agora não aguentei mais, falei “agora a senhora me manda embora porque eu tô com 50 anos de trabalho, eu não agüento mais”.
P – Falando uma frase bem curta assim, qual que foi o que você mais guardou de toda a sua experiência aqui em Itaipu? O que você mais acha que te impressionou?
R – A convivência com pessoas de vários estados diferentes, que eu nunca tive esse... E a amizade que eu fiz dentro da obra de Itaipu. 
P – Que perdura até hoje?
R – Perdura até hoje. Aonde eles me encontram eles não falam Silvio, eles falam Seu Silva. Porque era eu quem lidava com o futebol. Chegava domingo eu emprestava o uniforme pra eles que eles iam jogar fora. Fazia partida de futebol na cidade. Então eles levavam uniforme novo da obra. Tinha 30 uniformes naquele tempo, né. Então queria jogar de uniforme do Vasco. Tinha um zelador aqui, todo domingo eu emprestava pra ele. Então o pessoal lá fora ficava invocado. “Aonde que ele arruma dinheiro pra comprar uniforme novo? Você viu o uniforme do Flamengo dele que coisa mais linda?” No outro domingo ele ia de Vasco. No outro domingo ele ia de Palmeiras. Então...
P – E onde era?
R – Esse mora no rincão São Francisco. 
P – Não. Aonde é que ele arrumava dinheiro? 
R – Não, ele emprestava o meu aqui. 
P – Emprestava?
R - E com isto eu fiz amizade com todo mundo. E o atendimento nosso aqui dentro também, né.
P – Como é que é a sua vida hoje por favor. 
R – A minha vida hoje é uma vida nova que eu to começando agora, que eu só trabalhei na minha vida toda. Com 16 anos comecei a trabalhar, estudando e trabalhando. Fiquei um ano sem trabalhar quando eu saí daqui, e agora eu tô assim meio, agora que eu tô entrosando com a vida nova. A minha esposa é aposentada também, então nós temos atividade assim de caminhar de manhã, e tudo, é uma vida...
P – Eu ia perguntar como é que é alguém que... Você mora com quem? Com a esposa, os filhos?
R – Não. Moro com a esposa e um neto meu que é filho dessa filha que trabalha aqui na Itaipu.
P – O que o senhor acha de ter dado esta entrevista?
R – Eu me esqueci, a senhora vai me desculpar, me esqueci das fotos que eu ia trazer. Mas eu tenho uma encadernação de um jornal da Unicon muito bem feito que eu quero deixar de lembrança aí no Ecomuseu. Eu vou fazer um...
P – Não, tudo bem. Mas ainda dá tempo, a gente ainda vai ficar por aqui. Agora qual é a sua opinião sobre esta entrevista que o senhor deu lembrando as suas...
R – É ótimo, é uma oportunidade da gente tornar-se conhecido pela realização das atividades da gente dentro da Itaipu. Dentro do contexto de Itaipu. 
P – É, porque vai fazer parte desse ecomuseu, né. Estes depoimentos seus aí. Tá certo, muito obrigado. 
R – Nessa encadernação que eu tô contando pra senhora vai sair todo o meu trabalho aqui dentro. Tudo o que foi realizado, tem tudo. Tem a abertura das olimpíadas, tem os filmes que passavam mensalmente, tem os pormenores que eu esqueci, que eu não contei, que não dá tempo para contar porque é muita coisa. Senão nós íamos ficar o dia inteiro conversando. Então nesses jornais aparece tudo.
P – Mas isso é muito bom. 
R – Eu vou fazer uma dedicatória. 
P – Faça isto. Fica no ecomuseu. Muito obrigado pela entrevista. 
R – As ordens. Muito obrigado pela oportunidade.

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