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História

As nossas raízes

História de: Miguel Antonio de Goes Calmon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/05/2005

Sinopse

Miguel Antônio de Goes Calmon relembra momentos significativos da infância na cidade de São Paulo, entre elas as viagens e reuniões em família. Conta como foi a mudança para a Bahia quando tinha oito anos, uma das passagens marcantes em sua vida, e as aventuras que viveu no litoral durante a adolescência. Fala sobre as motivações que o levaram a estudar Agronomia, e as experiências que impactaram sua forma de agir e entender o mundo e a si mesmo, como as vivências nos Estados Unidos e na Bélgica. Aborda ainda a relação com o meio ambiente e os rumos que tomou a carreira, motivado pela convicção de nunca deixar uma oportunidade passar. Diz como surgiu a preocupação com o desenvolvimento sustentável e a parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica.

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História completa

P/1 – Bom dia.


R – Bom dia.


P/1 – Miguel, obrigada por você ter vindo. Você poderia falar seu nome completo, data e local de nascimento?


R – Miguel Antônio de Goes Calmon, nascido em São Paulo, em 29 de setembro de 1960.


P/1 – E você nasceu em que região de São Paulo?


R – Santo Amaro.


P/1 – E seus pais são daqui de São Paulo também?


R – Não, meu pai é baiano e minha mãe era da Tchecoslováquia.


P/1 – E eles faziam o que?


R – Na verdade, a família toda do meu pai, em certa época, todos se mudaram pra São Paulo. E meu pai veio junto; meu pai é engenheiro mecânico, formado em São Paulo e trabalhava em algumas empresas aqui. Minha mãe, na época da guerra, veio pra cá com a minha avó. Eles se conheceram, casaram e eventualmente voltaram pra Bahia. Antes foram para os Estados Unidos. Minha mãe sempre acompanha meu pai, na verdade.


P/1 – E você tem mais irmãos?


R – Tenho mais quatro, os dois mais velhos nasceram nos Estados Unidos. Logo que meu pai casou com a minha mãe, ele foi fazer um treinamento nos Estados Unidos e nasceram minha irmã e meu irmão mais velho. Dois nasceram em São Paulo. Eu sou o do meio e tem a minha irmã que nasceu logo depois de mim, também em São Paulo. E o último, depois de oito anos, nasceu na Bahia. Então são quatro, com um ano de diferença cada um e o último nasceu na Bahia. Quando meu pai resolveu voltar pra Bahia e levar toda família, houve um acidente de programação e nasceu o último.


P/1 – E como foi a sua infância aqui em São Paulo, o lugar que você morava?


R – Eu morei sempre ali perto da Chácara Flora, era do lado. A gente morava em uma casa que meu tio, irmão do meu pai, morava também, e tinha mais dois primos. Até o que eu me lembro, a idade de oito anos, a nossa vida era bem ali no bairro e íamos pra escola todo mundo junto, os irmãos com um ano de diferença. Para minha mãe era tudo um pacote. Na hora de tomar banho eram os quatro juntos, roupa quando comprava era tudo parecido um com o outro e era sempre indo pra escola e voltando. No final de semana ficava ali na redondeza brincando. Tinha uma turma grande de pessoas da mesma idade que a gente – então é aquela história – subia em cima de árvore. E eu me lembro que a gente ia muito pra São Vicente também, meu avô, minha família toda, todos os tios. Na verdade, meu pai tinha também quatro irmãos, então a família era grande. Sempre os eventos eram ou ir pra São Vicente ou ir acampar. Meu avô teve uma fazenda em Amparo uma época, levava todo mundo também quando tinha feriados maiores. Amparo era perto. Era tudo aquela história, sempre o bloco da família toda. Então chegou um ponto que era os cinco filhos de meu avô e dezessete netos, todo mundo indo junto para fazenda que ficava em Amparo, todo mundo se quebrava todo. Era uma coisa bem família, mas a gente sempre se movimentava bastante.


P/1 – E você foi morar na Bahia, você tinha quantos anos?


R – Fui pra lá em 1968, 1969. Então eu tinha oito anos de idade, quer dizer, foi uma mudança. Já nesse período, eu me lembro de algumas férias que às vezes iam dois ou três carros para Bahia. Todo mundo passava lá o verão com o meu avô sempre liderando. Ele tinha um apartamento lá em Salvador que era grande, ninguém morava lá na verdade, só ia pra lá nas férias. Meu avô levava, ia todo mundo de carro e ficava aquela velha história. Eu me lembro que todo o lugar que a gente ia, cada família tinha um quarto. Então, cada filho do meu avô tinha um quarto, onde ficava o grupo dos filhos lá, ou juntava todos os netos num só quarto. Essa é uma coisa interessante, porque essas viagens demoravam dois dias, aquele bando de gente, e ficava lá uma temporada grande, aí voltava pra cá. Era super legal. Mas lá em Salvador, quando eu fui morar, eu acho que foi um marco de mudança na vida da gente. Em São Paulo, apesar de que a gente viajava bastante, fazenda, São Vicente, mas era uma vida assim... chamavam, brincando, de “menino amarelo”, muito urbano. E lá não, fomos morar em lugares que a gente era completamente solto, realmente outra mentalidade, outra filosofia de vida. Realmente não tinha nada, muito menos urbano. Então foi um marco enorme na vida e rapidamente nós nos adaptamos lá. Primeiro porque meu pai era baiano, segundo que só de ter essa vida mais solta, de poder sair pra onde você quisesse ir, muita rua de barro ainda. Era bem diferente.


P/1 – Qual era o bairro que vocês foram morar quando chegaram na Bahia?


R – Primeiro nós fomos para Pituba, alugamos uma casa lá. E aí depois de dois anos nós fomos de novo pra Pituba; era um bairro de poucas casas, lugar super isolado, relativamente bem seguro. E depois de dois anos, fomos morar no apartamento do meu avô, porque meu pai começou a construir uma casa num bairro cheio de florestas e também não tinha nada nesse bairro, era só rua de terra. Aí nós fomos morar nesse apartamento na Barra. Na Barra já é um pouco mais movimentado, mais agitado. E aí nesse período nós ficamos de novo dois anos lá nesse apartamento, até a casa lá no Horto, no Parque Florestal, ser construída – fica ali em Brotas. Até hoje o bairro é um dos mais arborizados que se tem. Até hoje nós temos a mesma casa que nós moramos todos esses anos lá, meu irmão mais novo que mora lá nessa casa. E aí moramos todos esses anos nesse lugar aí. Realmente vimos uma mudança incrível de construção de novas casas, asfaltar, etc. Quando a gente chegou lá, jogava bola de gude na rua, fazia buraco na rua e jogava futebol direto. O tal do baba, que é o futebol lá, era uma coisa que tudo quanto era lugar a gente jogava, se machucava, tinha briga, tinha isso, tinha aquilo. Então era realmente uma vida tendo liberdade de fazer tudo que você imaginar fazer como garoto. Hoje em dia meus filhos não fazem nada disso, eu não vejo mais as pessoas fazendo nada disso por aí. Mas era desde empinar pipa, era tudo.


P/1 – A família não sentiu nada na mudança São Paulo - Bahia? A adaptação de vocês foi imediata?


R – Eu acho que foi um pouco aquela história que os pais falavam assim: “Nós vamos fazer isso”, todo mundo ia fazer isso. Acho que ninguém questionava muito. Acho também que a idade que nós fomos pra lá – eu era o do meio, tinha oito anos; meu irmão, nove; minha irmã, dez; a outra irmã, sete – fomos em uma idade que não tinha muito que questionar. Simplesmente nós fomos pra um lugar que tinha um clima melhor, era liberdade, nós tínhamos, de repente, uma afinidade com a Bahia, porque tinham outros irmãos de meu avô que moravam lá ainda. Apesar de meu avô ter vindo pra São Paulo com os filhos, uma parte da família, as irmãs, era uma família muito grande do meu avô que estava lá na Bahia. Então tinha uma identidade com a família também, era um pouco diferente do que aqui com os nossos primos diretos. Nunca senti diferença nessa mudança, simplesmente nos adaptamos. A gente era até muito fácil de se adaptar, porque aqui em São Paulo a gente ia também pra São Vicente acampar, então como a família era muito unida, meu pai e minha mãe realmente aonde iam, levavam todo mundo. Não me lembro de ter sentido nenhum questionamento, nem meus irmãos questionaram também. Mas a gente andava bem na linha também. Apesar que a gente tinha uma liberdade de fazer o que quisesse, em termos de disciplina, meu pai e minha mãe eram bem rígidos. Então a gente sabia sentar à mesa todo mundo no mesmo horário; comida, tinha verdura – não tinha negócio de questionar – era: “Come e acabou”. Mas também eu acho que nunca me deixou nenhum trauma por ter tido essa disciplina rígida, porque não me incomodava. Eu ainda fazia tudo que eu gostava de fazer até um certo limite e até achava bom ter alguém pra botar algumas barreiras. Hoje se for botar isso com meus filhos, por exemplo, com certeza não funciona, é bem diferente.


P2 – Onde você estudou em Salvador?


R – Quando nós chegamos lá em Salvador a primeira escola foi a Escola Nova. Ficamos lá um ano e depois fomos para o Padre Antônio Vieira, que era uma escola só de homem, e minhas duas irmãs foram pra uma escola que, eu acho, era só de mulheres. Era uma próxima da outra. Aquela escola de padres, não era padre que fica lá o dia todo rezando, mas era bem disciplinado mesmo. E aquela farda marrom, o pessoal chamava a gente de motorista de ônibus. Fiquei lá no Colégio Antônio Vieira provavelmente três anos; aí meu pai e minha mãe resolveram botar todos os filhos na escola Pan-Americana. Minha mãe, como era tcheca, foi sempre com meu pai pra todos os lugares, mas ela nunca se adaptou muito bem em Salvador. Minha mãe foi provavelmente a única que aceitava, fazia um monte de coisa lá, sempre viu muita pobreza em Salvador e aquilo incomodava muito. Então ela sempre estava querendo ajudar os pobres lá nos alagados, ensinava a fazer tapetes, começou a montar grupos, etc. Mas minha mãe nunca se adaptou. Viveu anos e anos e aí depois eles foram para os Estados Unidos, mas sempre porque estava meu pai lá. Então ela sempre reclamava do calor; por ser estrangeira, ela nunca se sentiu cem por cento à vontade. Mas sempre cuidava dos filhos, era impressionante o carinho que ela tinha com os filhos. Quando a gente estava no Antônio Vieira, resolveu-se colocar a gente na Pan-Americana, porque ela queria que a gente aprendesse inglês. Desde que nós chegamos lá na Bahia, ela colocou a gente pra fazer curso de inglês. Eu acho que na cabeça dela, ela achava que era importante aprender inglês. E aí fomos para a Pan-americana. E depois de um ano e pouco, teve uma mudança enorme, aumentou o preço num certo nível que aí acabou, voltamos pra escola brasileira. Aí eu fui para o Social, que eu fiquei lá até quando eu vim fazer faculdade no interior de São Paulo. Quer dizer, realmente, no início, mudar de escola, foi uma coisa que nunca deixou nenhum tipo de trauma. Só nesse Antônio Vieira que era uma escola que só de homem... No ano que resolveram fazer escola mista, aí era uma farda, calça jeans com camisa branca bonita, mulheres já na escola, foi o ano que eu saí e fui pra Pan-americana. Eu me lembro até hoje – umas coisas que marcam a gente: “Puxa! Logo agora!”. Aí fomos pra escola que era só inglês na época, eram poucos brasileiros, eram estrangeiros que vinham de fora. Pelo menos em termos de entender um pouco da cultura americana, naquela época foi super interessante. Era a única escola que ficava o dia inteiro, até três, quatro horas da tarde. Então ia de manhã cedo e voltava três e meia, quatro horas da tarde. Quer dizer, não existia outra escola em Salvador ou outro lugar que tinha esse negócio de ficar o dia inteiro na escola. Então era diferente. Nós perdemos um pouco porque, imagina, a gente tinha escola de manhã, de tarde era só fazer lição e jogar bola, era o que a gente fazia. De repente ir pra uma escola que você fica praticamente de manhã e de tarde. Aí você se afasta um pouco. Mas ainda bem que só durou um ano e meio, então não incomodou nada.


P2 – E na sua adolescência, Miguel? Como foi em Salvador? Vocês terem a idade entre treze, catorze, quinze.


R – Nessa época foi quando todo mundo começou a andar de skate e pegar onda também. Então tinha aquela fase que todo mundo jogava bola, todo mundo andava de skate. Então foi uma época que eu me lembro, meu pai e minha mãe vieram dos Estados Unidos, trouxeram um skate Hang Ten. E todo mundo naquela época, em Salvador e eu acho que em vários lugares, vinha a moda e todo mundo andava daquele jeito. Então, peguei onda e tudo que tinha na frente, em esporte, eu ia fazer. Onda eu cheguei a pegar por dois anos, mas logo me dei conta que pra ser um bom surfista tinha de virar vagabundo  – em um bom termo. Você realmente tinha que ficar praticando, não adiantava só final de semana pegar a prancha, ir pra praia seis horas da manhã, pegar onda, voltar; você tinha que se dedicar pro negócio. E eu sabia que isso não ia colar muito bem lá em casa. Podia até colar, desde que eu aceitasse ser uma “ovelha negra”. Então como meu irmão mais velho resolveu se tornar a “ovelha negra” da família, eu já não tinha o direito de fazer o mesmo. Então a gente pegava o skate – foi na época de catorze, quinze, dezesseis anos. Primeiro a gente tinha muita liberdade de ficar solto na rua, a gente tinha muita liberdade de fazer o que quisesse. Foi quando começou na época essa questão de drogas, maconha, então tinha aquele grupo que todo mundo sabia. Em Salvador todo mundo se conhecia, pra começar. Onde a gente ia, conhecia todo mundo, era bairro mesmo. Então, se eu fosse pra praia sábado, estava lá todo mundo. Se eu fosse lá à Barra de tarde, estava lá todo mundo. Era super legal. Por um lado você não podia fazer muita coisa errada, porque todo sabia o que você estava fazendo; mas era assim, cidade grande já naquela época, mas tipo um bairro. Então joguei tênis dois anos, tiveram as fases, fazia tudo, mas passava rápido. Tinha um pouco de sobreposição nas coisas. Então, quando eu andava de skate, eu pegava onda, fazia as duas coisas, porque skate podia fazer durante a semana. Nós começamos lá em Salvador a andar de skate no bairro onde a gente morava, o Horto Florestal; tinha uma ladeira enorme, então era um lugar  – o único em Salvador – que permitia que você fizesse esse esporte. Então ia todo mundo pra lá final de semana. Aí começou aquela história, quando se começa a fazer esse tipo de esporte, começa a juntar gente também, foi como eu falei, começou aquele negócio de drogas, tinha um grupo doidão. O pessoal se reunia lá pra andar de skate, então começou até a ter aquele movimento; às vezes polícia aparecia por lá, porque estavam aqueles grupos, fumavam não sei o quê. Então, como eu falei, meu irmão como era considerado a “ovelha negra”, um ano de diferença de mim. Naquela época era incrível, um ano de diferença era uma outra geração, tinha uma mudança incrível. Minha irmã tinha uma geração dela, mas era só dois anos mais velha; então os colegas dela lá na escola era todo mundo assim mais alternativo, artista, violão, grupo, tinha negócio de religião também. Já meu irmão, com um ano de diferença, era aquela galera dos doidos que tinha lá. Já a minha era segurando a onda, porque eu sabia que em casa iam vir aquelas confusões e tal. Já minha irmã, abaixo de mim, era bem mais quieta. Já na outra geração era de todo mundo ficar doido. Então foi um negócio bem assim, a gente acompanhava, era nítido o negócio. Então de novo, se não era na escola, era fazendo alguma atividade. Nunca parava, nunca fomos de ficar dentro de casa; todo final de semana tinha festinha lá. Na época a gente dançava separado, ficava homem de um lado e mulher do outro, ficava olhando até o primeiro ter coragem de dançar, mas hoje parece até coisa de outro mundo. Como você imagina, era super legal aquelas festinhas programadas, aquela luz vermelha, azul. Mas sempre procurando coisas. E final de semana me lembro que em alguma dessas casas das irmãs de meu avô, tinha sempre jantar no domingo e aí iam lá todos os primos, se reuniam de novo, os adultos aqui e os outros ali fazendo um monte de porcaria. Mas era tão puro fazer isso, era tão normal fazer isso lá em Salvador. Era tanta coisa errada, que hoje se fizesse, ia todo mundo preso, mas na época parece que era tudo normal, porque não tinha nada de maldade no negócio. Mas lembrar de tudo que a gente fazia é muito legal, todas essas fases, eu lembro de tudo. Uma coisa que aconteceu que eu esqueci de comentar é que meu pai, o que ele mais gostava em Salvador, era o mar. Não demorou muito tempo que chegamos lá na Bahia, ele comprou um barco, uma lancha. E aí final de semana nós sempre saíamos com a lancha, era uma lancha pequena. Minha mãe nunca gostou muito de mar, mas meu pai fez logo vários amigos, ele já era da Bahia. Então meu pai trabalhava no Banco Econômico, que era o banco, família na verdade foi o que deu origem ao Banco Econômico. Banco Econômico, família Calmon, então era toda aquela relação. Então a gente tinha também essa raiz lá Bahia. Por isso que a gente se sentiu muito parte da Bahia, porque o banco começou com pessoas da nossa família. Até então, família tinha praticamente metade do banco. Então meu pai tinha um monte de amigas e na época Salvador era assim, trabalhava todo mundo no comércio aí sexta feira, happy hour deles e aí sábado a gente saía de barco ou ia pegar onda. Mas sempre o barco e o mar, começou a ter logo uma relação. Pra gente o mar era parte da gente. Meu pai quando comprou essa lancha, ele resolveu ir para ilha de Itaparica, bem de frente a Salvador e tem Mar Grande, que é um lugar super conhecido lá. Só que na nossa época não tinha ferry boat, não tinha nada; só podia ir pra lá de barco ou tinha que dar uma volta enorme pela estrada pra você chegar lá. Aí meu pai comprou uma casa lá em Mar Grande, uma casa bem simples. Todo verão – dezembro, janeiro e fevereiro  – nós íamos pra Mar Grande. Nas férias a gente ficava solto lá. E meu pai nesse negócio pegava uma lanchinha da carreira, o barquinho que tinha era a lancha dele e ia todo dia pra Salvador. Ia de manhã cedo, trabalhava e voltava no final do dia. Então, minha mãe ficava lá com os filhos e nessa ilha. Mar Grande tinha poucas casas, então tinha várias famílias fazendo a mesma coisa. Então nós tínhamos amigos de o dia inteiro ficar solto na praia, só comia frutos do mar. De manhã cedo era um pacote de Toddynho com um pão, tinha algumas mangueiras na casa, que a gente comia muita manga. Então todo dia vinha alguém oferecer: “Quer comprar caranguejo?”, “Quer comprar lambreta?”. Logo nas primeiras duas semanas, pipocava tudo do sol e ficava, desde então, todo mundo com Hipoglós na cara. Era um período assim, era todo ano a mesma coisa. A casa era uma raiz, a gente conhecia todo mundo. Só tinha uma venda no lugar, todo dia o pão só chegava naquela ilha no final da tarde, iam dois veleiros trazer aquele pão, a água da gente toda vinha pelos jegues nas barricas de água, ia buscar na fonte não sei onde. A gente pegava muito passarinho na época, hoje imagina, nunca faria hoje uma coisa dessas. A gente saía cinco horas da manhã todo mundo com sua gaiola pra pegar passarinho, botava o pão e ficava lá esperando. A gente pescava muito, tinha um barquinho que a gente velejava. Tudo que você imagina. Cada dia, a duração era longa, todo mundo acordava cedo, então dava pra você fazer tudo, todo santo dia, pescar, velejar, pegar passarinho, jogar bola, quer dizer, era uma vida completamente solta. E até agora eu estava lá em Salvador nas férias. Todo ano na verdade pego ônibus de carreira e dou um pulo lá. Mas dessa vez eu fui com o meu pai lá, por que ele mora nos Estados Unidos, hoje em dia. Mas ele foi passar lá agora o final do ano lá em Salvador, nós pegamos a lancha de carreira e fomos lá pra Mar Grande. E o mesmo vendedor, o Vevé, que tinha lá a venda, o cara até hoje está lá. A venda, é claro, aumentou, mas com todas as modificações que tiveram lá na Ilha de Itaparica, a venda está lá. O Parú, o cara que vendia marisco todo dia, estava lá trabalhando com esse Vevé, que é do lado, ainda vendendo lambreta e caranguejo, uma coisa incrível! Eu encontrei os dois com o meu pai, eles também não acreditaram, achavam que nunca... “Esse é o Miguel?!” Porque a gente era tudo pequenininho, todo mundo loiro, olhos claros. Apesar da família de meu avô por parte de pai ser baiana da gema e tudo, a mãe do meu pai era escocesa, então a maioria dos primos eram todos claros. Então na Bahia isso era uma diferença grande, todo mundo conhecia a gente de longe. Porque realmente, a maioria do pessoal, é todo mundo moreno. Então, a gente, todo mundo conhecia de longe, loiros, todos eram muito parecidos, minha irmã, meu irmão. Se você vê a foto da gente, todo mundo loiro de olhos claros, cabelo liso, bem parecidos, então isso chamava muito a atenção e todo mundo se lembrava da gente. Mas nunca houve nenhuma discriminação, mas que a gente era diferente, com certeza a gente era sim. Não é que nem no Paraná, que é todo mundo parecido. Mas aí depois da lancha meu pai construiu um barco na ilha. Construiu mesmo, ele e mais um amigo foram pra lá e tinha um lugar que o pessoal fazia barco. Então ia todo final de semana acompanhar o desenho do barco, era o programa. Então essa escuna também que todo final de semana a gente saía de barco. Isso também já era quinze, dezesseis, dezessete anos. Até quando eu fui pra faculdade lá em São Paulo, no verão, era todo final de semana sair de barco. O barco ia pra mesma ilha, Ilha de Maré, que já não era mais Itaparica. Então a gente ia lá, parava o barco, era só uma vila, tinha alguns pescadores, tinha o dono da venda lá que era amigo da gente, comia siri mole, lagosta. Mas coisa bem simples, sempre assim. Apesar de nós termos tido uma vida muito boa com relação à qualidade de vida, de comida, barco e mar, sempre meu pai e minha mãe tiveram uma vida muito simples. Primeiro porque já tinham cinco filhos na época, nunca teve realmente dinheiro sobrando. Mas todo dinheiro que tinha era canalizado pra coisas de lazer da família, dos filhos. Mas apesar da família ser muito tradicional, os Calmon lá em Salvador. Ele sempre dizia que tinha os Calmon de Sá, que eram o ricos  – que era meu tio Ângelo, etc. E nós, Calmon, levávamos uma vida que não era apertada, mas considerava uma vida muito mais comedida, não tinha extravagância. Eu acho até que isso ajudou a gente a ficar bem mais na linha, porque não tinha sobra de dinheiro. Não tinha nada, não tinha refrigerante em casa, a gente até media; tinha vizinho nosso que tinha refrigerante, a gente nem falava de ter refrigerante em casa, por que tudo era multiplicado por cinco. E tivemos uma vida assim, muito boa realmente, em termos de natureza – apesar de que não tinha nenhuma relação com a natureza. Apesar de viver numa casa no meio de uma floresta, viver no mar, pescando e tudo, mas eu acho que era mais ver aqueles lugares como uma forma de estar usando o lugar, mas nem imaginava conservar, preservar nada. Porque eu tinha na minha cabeça uma ligação muito forte com o mar, adorava praia, adorava aquela vida, aquele negócio todo. Eu sempre quis fazer Agronomia porque meu pai botou na cabeça que uma coisa importante no mundo ia ser produção de alimentos, Agronomia. Então eu fui assim, educado pra virar agrônomo e ajudar a produzir alimentos pra resolver o problema da fome no mundo. Então imagine, eu que gostava dessa farra toda, dessa vida de praia, de ficar solto, de barco. Saía de barco, levava amigas, ia dormir fora, passar uma semana fora, pegava o barco e ia pra Morro de São Paulo, pra ficar uma semana explorando aquele lugar que não tinha nada. Hoje você volta nesses lugares e é impressionante. Por isso que eu digo, ninguém sentia falta de ter nada, porque tudo que você queria mais era estar com os seus amigos, estar ali no barco, com a família, todo mundo curtindo aquele lugar. Então, essa coisa que eu tinha com o mar, eu pensava assim: “Será que indo pra São Paulo, para o interior, eu vou me adaptar?”. Mas não deu outra. Só tem uma coisa que aconteceu: quando eu resolvi ir pra São Paulo fazer faculdade e falaram que a Agronomia boa era em Piracicaba, acharam que como realmente eu havia sido educado em Salvador, pra eu poder passar no vestibular em São Paulo, eu teria que fazer o terceiro colegial em Piracicaba, cursinho em Piracicaba, fazer tudo pra poder me preparar pra poder entrar na ESALQ. E aí eu me lembro que eu fui pra Piracicaba e lá me matriculei na escola ESALQ – aí também meu currículo de Salvador era muito fraco comparado com São Paulo, então a gente fazia aula extra. Eu tinha que ficar praticamente o dia inteiro – e de noite também – estudando em Piracicaba no terceiro ano do colegial, pra poder fazer vestibular. Aí tudo bem, voltei pra Salvador pra passar o último verão lá antes de ir pra Piracicaba. E realmente aquele negócio me incomodando, porque eu tinha muitos amigos em Salvador, namoradas, etc. Aquele negócio de novo, ligação com a vida boa realmente. E aí uma semana antes de ir pra Piracicaba, meu pai e minha mãe, a gente estava no barco – eu me lembro até hoje – e minha mãe comentou alguma coisa assim: “Você gostaria de ficar aqui esse último ano e não ir pra São Paulo?” Aquilo ali foi uma semana antes de ir pra São Paulo. Eu falei assim: “Claro! Dá tempo ainda de me matricular aqui em Salvador!”. Aí não fui pra São Paulo. Foi a melhor decisão feita no barco. Aquilo foi uma felicidade, uma comemoração, tudo era comemoração na verdade, que tudo que a gente fazia tinha que comemorar. E aí fiquei o terceiro ano lá em Salvador, prometi pra minha mãe e pro meu pai que eu ia estudar que nem um condenado. Tudo conversa, eu queria mais era me divertir. Estudava de tarde, então a gente até estudava, acho que foi o ano que eu mais estudei na minha vida, mas, porque eu queria realmente passar no vestibular lá em São Paulo. Acabei decidindo ir pra Botucatu, tinha que escolher, na época, FUVEST. Tinha Botucatu, Jaboticabal ou Piracicaba. Escolhi Botucatu porque era uma escola menor, mais fácil de passar do que Piracicaba e acabei indo pra lá; fiz vestibular, fui pra Pinhal e depois prestei vestibular pra Botucatu, passei e fui. E me lembro até hoje também, que peguei um carro, uma Brasília branca que eu tinha, e vim de carro. Entrei em Botucatu, parei em São Paulo antes pra rasparem a minha cabeça – porque os meus amigos estavam aqui em São Paulo – e fui pra Botucatu. Cheguei lá, placa de Salvador, meu apelido ficou Baiano. É Baiano até hoje lá em Botucatu. E nunca senti falta em nenhum momento de falar “Puxa... estou aqui nesse lugar, aqui em Botucatu...” Porque Botucatu, na época da gente, o clima era frio, mas nunca senti falta em nenhum momento a ponto de falar “Puxa, não estou em Salvador”. Acho que essa disciplina que meu pai e minha mãe deram pra gente sempre ajudou naquela coisa de “tenho que fazer isso e pronto!”.


P2 – Em que ano que foi isso que você entrou na faculdade?


R – Início de 1980. Então em Botucatu foram quatro anos que nunca vou dizer que foram os melhores da minha vida, porque eu acho que outros momentos foram super bons. Saí de Salvador pra morar em Botucatu, morar em república, fazer uma coisa que eu gostava, que era Agronomia, e foi bom demais. Mas no primeiro ano eu ia pra Salvador pra passar um tempo lá no verão. Voltava lá e era aquela festa, via os amigos; passava o ano fora, voltava pra lá e era festa. Mas eu sempre fazia estágio também, todo julho e todo final do ano fazia pelo menos um mês de estágio, ou em alguma usina, campo ou fazenda. Mas sempre que eu voltava em Salvador no verão, apesar daquela ligação toda, eu comecei a enxergar meus amigos, começou a aparecer uma diferença entre a gente. Porque Botucatu era uma coisa muito mais conservadora; lá em Salvador também o pessoal estava entrando em todas. Então uma evolução enorme com relação à drogas, por exemplo. Então era uma coisa que já não conseguia mais me encaixar muito bem. Eu era considerado um careta no meio dessa história toda. Mas sempre continuava, praia, mar, tinha namorada, isso, aquilo, etc. Mas Botucatu realmente foi outro período que deu um marco na minha vida, gostasse ou não gostasse. Eu nunca fui um bom estudante. Era responsável, mas pra mim faculdade também era farra, com república. Lá em Botucatu tinha Agronomia, tinha Biologia, então Agronomia eram quarenta homens; Biologia, quarenta mulheres, em geral. Então o que se faz nesse lugar? Você só vai realmente, estuda o básico e o resto é se divertir. Foi muita diversão. A partir do terceiro ano, claro, você vai ficando mais responsável, tem que escolher algumas matérias específicas. Mas eu acho que eu só aprendi a estudar depois, quando eu fui fazer o mestrado. Mas até a faculdade eu vivia intensamente. E Agronomia era uma coisa muito forte. Eu tinha certeza de que eu estava fazendo a coisa que eu gostava. Tudo que eu fazia na faculdade relacionado a experimentos, eu adorava. Então não era uma coisa que eu tinha que estar me esforçando muito pra poder estar gostando daquilo; nunca pensei que estudando mais ou menos eu ia ser melhor ou pior. Eu gostava daquilo e sabia que saindo de lá, eu ia começar a trabalhar; gostava de trabalhar e ia pra algum lugar realmente. Nada na minha vida, em termos geográficos, por exemplo, nunca fui preso a nada. E até hoje não sou preso a nada. Se alguém falar pra mim “Tem que ir pra tal lugar!”, talvez a minha esposa vá reclamar, mas eu não. Se falar “Hoje você vai se mudar pra tal lugar”, eu nunca vou olhar pra trás e ficar me lamentando porque aquele lugar era melhor. Eu tive muita sorte na vida, porque todo lugar que eu fui me mudando, sempre vi coisas boas nesses lugares. Então nunca, nada me deixou nenhum trauma. Como eu falei hoje pra vocês, estava voltando pra São Paulo, estava na faculdade em Botucatu, eu falei: “Nunca na minha vida vou morar em São Paulo, nunca”. Voltei pra São Paulo, morei um ano, trabalhei na Cargill e foi tranquilo demais. Porque realmente a minha cabeça está direcionada, estou preparado pra qualquer mudança, flexibilidade. Porque pra mim o mais importante é você estar fazendo o que você gosta. Se você tiver essa sorte de fazer o que você gosta, o lugar é muito relativo, porque você se adapta. Porque você está feliz ali, então as coisas passam a ser muito pequenas; onde você está, tudo é muito pequeno. Você tem que estar realmente feliz e gostar do que faz.


P/1 – Quando você terminou a faculdade, você ficou em Botucatu, prestou vestibular, como é que foi isso? Ou foi pra Salvador?


R – Nesses quatro anos de Botucatu, todo ano eu ia pra Salvador, mas sempre fazia estágio em vários lugares. E assim que eu me formei em Botucatu, fui ter a oportunidade de ir para Brasília trabalhar na Embrapa, tinha uma bolsa que se chamava Bolsa de Aperfeiçoamento Profissional. Tinha uma bolsa de quinze meses que a Embrapa dava pra algumas pessoas, pra alguns centros de pesquisa, pra poder essa pessoa de lá depois começar a fazer parte do quadro da Embrapa. Me formei em dezembro, foi aquela festa de colação de grau, três dias de festa e etc. E no último ano, eu me lembro até hoje, lá em Botucatu a cada trinta dias tinha uma “choppada”. Então trinta dias, sessenta, cem dias, era festa. A gente fazia umas coisas de louco – talvez hoje a gente não fizesse mais. Então me formei e apareceu a oportunidade em Brasília, não deu outra. Fui pra Salvador, fiquei um pouquinho lá na praia, primeiro de fevereiro comecei a trabalhar na Embrapa. Nunca tinha ido pra Brasília na minha vida, aí conheci um casal na praia em Salvador, nesse período, antes de ir pra Brasília. O casal: “Fique lá comigo... não sei o quê... tal, tal, tal... até você encontrar um lugar pra morar”. Fiquei lá com eles. Em Salvador tinha essa história, você ia pra praia e fazia amigo assim, na hora. O pessoal vinha de São Paulo pra lá, qualquer outro lugar; lá em casa que nós fomos sempre muito de hospedar as pessoas, minha mãe sempre de casa cheia. A gente tinha amigos, minha mãe foi muito boa em termos de cultivar amizades. Meus pais tinham amigos em todos os lugares. Então, onde eles iam, tinham vários amigos e até hoje têm amigos daquela época. Então tinha o barco, que era uma coisa, e todo muito saía de barco e adorava. Então era uma coisa que ele fazia com muita naturalidade, sem querer fazer isso pra poder cultivar a amizade. Então aonde a gente ia, amigos, só amigos. Então fui pra Brasília, aí peguei direção fui pra Embrapa. Comecei a trabalhar na Embrapa e aí depois de seis meses apareceu um concurso pra trabalhar na Emater-DF. Era um concurso e eu me lembro que a minha bolsa era de... sei lá, x, eu acho que era de cento e cinquenta, eu não sei a moeda da época. Fui trabalhar na Emater-DF ganhando mil e poucos, quatro vezes mais. Imagine, recém formado, fiz um concurso, me mandam lá pra Planaltina, que ficava lá perto de Brasília, pra ser um supervisor de escritório. Eles estavam desesperados, aí teve esse concurso nacional; eu passei pra trabalhar na Estação Rural, que era o meu sonho. Trabalhar com produtor, ajudar produtor, ajudar ele a melhorar a produtividade, trabalhar com comunidades pobres, era o meu sonho. Apesar de que na época o pessoal me questionou muito: “Como é que você vai pra Estação Rural? Fica aqui na pesquisa, se qualifique profissionalmente, é melhor, é um outro tipo de ambiente”. Era um centro, também tinha pessoas muito boas, nesse centro lá de pesquisa de hortaliças. E em seis meses eu já tinha feito um monte de amigos, aí tinha aquela turma que todo o final de semana saía. Eu era solteiro então, fazia de tudo realmente. Mas fui pra Emater-DF pra morar em Planaltina, que é tipo interior naquela época. Eu mudei pra vários empregos e só indo atrás, tinha oportunidade, mas nunca fiquei questionando “se aqui é mais seguro não vou então”, nunca coloquei. Tinha oportunidade, não ia ter nenhum impacto pessoal assim, mas, uma coisa assim nas pessoas etc. Eu estava indo sempre atrás de oportunidades. Então foi assim a minha vida desde então. De novo está tudo relacionado com aquela história de não estar preso em lugar nenhum. Às vezes é até ruim, você não tem uma raiz: “Você é da onde?” “Eu sou de qualquer lugar”. Por um lado é bom, por outro lado não é bom. Você tem amigos espalhados, mas e aí? O que é importante na vida? É gostar do seu trabalho, é um pouco mais a família? Tem gente que nunca mais sai daquele lugar porque quer ficar perto da família. E eu vejo pessoas, amigos meus, que estão lá até hoje, estão super felizes, super bem, mas priorizaram estar sempre ali, perto das raízes. Eu nunca priorizei isso aí. Mas de novo eu acho que esse meu negócio de estar mais cigano, vamos dizer assim, sempre em vários lugares. Tinha uma época que tudo na minha vida era entre dois anos. Dois anos trabalhando em Brasília, dois anos estudando na Bahia, dois anos em Petrolina. Então, até estar na TNC, já estou aqui há quatro anos, tiveram muitos desses dois anos que o pessoal olhava: “Por que esse pessoal muda tanto? Será que não consegue se adaptar em lugar nenhum?”. E eu sempre falo que a questão é que oportunidades aparecem e eu vou onde tem oportunidades. Se aparecer, eu não vou fechar as portas, não tenho esse medo de ficar largado em algum lugar. Eu vou fazer sempre o máximo, eu vou atrás das coisas e vou tentar fazer amigos, tentar viver como eu sempre vivi. E teve também um período desses, desde que eu me formei, que fui trabalhando. Eu fiquei dois anos em Brasília, fiquei dois anos lá no sul da Bahia, em Ituberá, e foi aquela história. Por que foi que eu voltei pra Bahia? Para o sul da Bahia? Porque trabalhei dois anos para o Governo, só dois anos pro Governo; aí eu falei: “Ah, Governo realmente é todo mundo acomodado, funcionário público. Eu estou na hora de ir pro setor privado”. Vou eu pro setor privado. Eu naquela ilusão que é tudo diferente. É realmente. Você trabalha pra fazer muito mais. Mas pra mim, por exemplo, eu gostava de trabalhar, não via diferença. Porque sinceramente, no Governo trabalhava um monte, final de semana, etc. Então é aquele desafio: “Setor privado! Outra vida. Vamos lá trabalhar e tal”. Fui lá pro sul da Bahia, em Ituberá, e aí foi quando realmente a minha vida mudou. Eu tinha essa ex-namorada, todo verão eu ia pra Salvador e ficava com ela desde... Na verdade eu a conheci em 1976, comecei a namorar ela em 1978, mas aí teve Botucatu no meio da história e então, claro, vim embora e não namorava mais. Mas quando eu voltei pro sul da Bahia e ela era de Salvador, aí voltei a namorar e em 1986 nós casamos. E foi realmente uma coisa cedo na minha vida, porque eu tinha vinte e seis anos, estava em Brasília super independente, depois fui pra Ituberá em uma posição boa também. Então, sabe aquele momento que você diz: “Agora é a hora que eu vou começar a...” Não é nem viver, porque eu já tinha vivido tanto que não era essa a questão, era mais de estar aproveitando. Mas em 1986, casei com um pouco daquela ilusão; primeiro eu sempre sonhei que eu ia casar com uma agrônoma, alguma coisa assim, que eu ia morar na fazenda, ia ter nossas hortas, nossos filhos não sei o quê... Mas casei com uma pessoa que era bem urbana. E claro, antes de casar eu falei “Você vai morar comigo lá na fazenda?”. “Claro que vou morar.” Nunca foi morar lá na fazenda e ficou em Salvador. Então a minha vida era ficar em Ituberá, que era praticamente a três horas de Salvador. Então, de segunda à sexta eu ficava na fazenda; saía sexta à noite e ia pra Salvador, ficava lá o final de semana. Casamos e o casamento não foi programado; então realmente ela engravidou e aquele senso de responsabilidade é óbvio. Primeiro que eu já a conhecia há muito tempo já, então casamos. E logo depois que eu estava nessa vida de fazenda, resolvi me especializar nessa área de irrigação. Eu vi que pra Agronomia, irrigação era um grande negócio porque era a solução de aumentar... De novo, fui educado para ajudar as pessoas a aumentar a produtividade, era produzir mais alimentos. Poderia ser qualquer um, soja, tomate, não interessa. Mas minha educação foi produtividade, aumentar a produtividade a qualquer custo. E na faculdade, naquela época, você não tinha nenhuma relação com natureza. Pra mim, eu olhava uma paisagem, eu queria um lugar pra simplesmente plantar e ajudar a aumentar a produtividade. Se fosse como produtor, em comunidade, melhor ainda. Então irrigação era aquele negócio que poderia dobrar ou viabilizar a produção em algum lugar que até então não se poderia cultivar por falta de água. Assim que terminei irrigação, de novo, larguei o que eu estava fazendo no sul da Bahia e falei: “Tenho que fazer um curso de especialização”. Apareceu um emprego pra mim lá em Juazeiro. O cara falou: “Precisa de alguém lá pra Juazeiro, tomar conta de fazenda”. Eu falei “Estou nessa aí”. Como eu já falei, o pessoal sempre falava assim: “Pensa que você tem que ir lá pro final do mundo”. Eu falei: “Topo, se for o que eu gostar de fazer, vamos lá”. Fui pra Juazeiro. Só que como eu queria fazer especialização, até minha esposa ajudou nesse processo de aplicar em uma bolsa pra ir pra Bélgica, fazer um curso de mestrado de Engenharia de Irrigação na Bélgica. A Bélgica não tem nada a ver com lugar de irrigação, mas tinha um curso que era dado pra países em desenvolvimento. Então apliquei para bolsa, aquela papelada; e aí dali a pouco estou lá em Juazeiro. Aí o pessoal: “Saiu sua bolsa”. Era um acordo bilateral, o governo da Bélgica com o Brasil. Primeiro ano a bolsa era da Bélgica e o segundo ano era aqui da CAPES. E isso foi em 1988;  fomos lá pra Bélgica. Na época eu já casado, casei em 1986, meu filho tinha um ano e pouquinho. Então fomos lá pra Bélgica, fomos lá fazer um mestrado. Chegamos lá no lugar também e eu não conhecia nada. A sorte é que o curso era em inglês e era pra países em desenvolvimento. Cheguei lá, realmente um lugar completamente diferente. O nome da cidade era Leuven, era flamenca. Era dividida entre a parte que fala flamenco e parte que fala francês. E sorte que o curso era inglês, senão a gente estaria realmente em apuros. E aí eu fui lá pra faculdade, eu cursava inglês; eu me lembro que na minha turma eram oito colegas. Então convivi dois anos com pessoas da Etiópia, Senegal, Coréia do Sul, da Grécia, tinha uma pessoa de Cuba, Índia, China, Indonésia. Mas convivi com essas pessoas durante dois anos. Claro que tinham pessoas do segundo ano e pessoas que entraram depois, culturas completamente diferentes. E eu sempre falo que pra mim o que mais valeu de ter morado esses dois anos de mestrado lá na Bélgica, não foi nem o que eu aprendi na área de irrigação. Porque é claro que foi super importante na área de irrigação, mas foi mais foi mais a possibilidade de você conviver com essas culturas completamente diferentes. Ouvir coisas que você nunca imaginou realmente. E você vê que são todas coisas verdadeiras. Essa briga de religião na África, a pobreza. Por que que os caras nunca queriam voltar para os seus países e queriam ficar na Bélgica? É claro que a gente entende muito melhor hoje do que naquela época. Mas a possibilidade de você estar ali na Europa – os dois verões que nós ficamos lá – e poder viajar pela Europa de carro e conhecer todos aqueles lugares. Nunca mais voltei para a Europa; saí de lá em 1990. Mas os dois anos que nós passamos lá foi realmente uma vida muito difícil, em termos da gente morar num lugar pequenininho. Naquela época criança realmente não era muito bem vista lá na Bélgica. Um lugar de muito velho; cachorro e gato valia muito mais do que criança. Se você quisesse alugar um apartamento, alguém falava assim: “Tem criança?” “Tem.” “Ah, então não alugo”. Se eu tivesse três cachorros eu acho que eles alugariam. Nós ficamos muito assim... tinham poucos brasileiros lá. Então fizemos uma turma, um grupo de brasileiros, um grupo pequeno, de três famílias, mas você ficava muito isolado. Mas por essa possibilidade de você viajar pela Europa, por exemplo, tanta coisa diferente assim, de carro... ia eu, minha esposa e meu filho pequeno. Então, chegamos a dormir em carro algumas vezes; não tinha hotel, não tinha isso, não tinha aquilo. Fui pra Praga pela primeira vez, onde minha mãe nasceu. E foi antes de ter a mudança do regime lá, foi em 1989. E foi quando eu percebi que realmente a metade do que eu tenho era da Tchecoslováquia, porque eu entrei no país e me senti parte do país. Praga realmente é uma cidade maravilhosa. Até minha esposa sentiu arrepio quando entrou lá, porque cinquenta por cento do meu sangue era tchecoslovaco. Mas minha mãe nunca ensinou a gente a falar alguma outra língua que não a que ela queria que a gente aprendesse, que era inglês. Então nunca tivemos uma relação com a Tchecoslováquia, mas de qualquer maneira, a minha avó era tcheca também. Então, nossa metade era Tchecoslováquia. Aí fomos pra lá, pra Tchecoslováquia, e realmente foi muito legal. Também um regime tão diferente e etc. Então, ter morado na Europa foi um marco. Pra você ter uma ideia, antes de ir pra Europa, eu estava em Juazeiro, um lugar que realmente não tinha nada. Uma semana arrumando as coisas em Salvador, fui pra Bélgica; depois de um mês, foi minha esposa e meu filho. Eu fui primeiro pra procurar lugar pra ficar e tal. Voltei da Bélgica, em outubro de 1990, voltei pra Salvador. Durante esse período, a mesma empresa que eu tinha trabalhado antes, em Juazeiro – que depois comprou uma outra fazenda em Petrolina, produção de tomate, manga e uva – me chamou pra trabalhar pra eles. Voltei da Bélgica, não foi nem uma semana em Salvador, fui pro meio lá de Petrolina, pro meio de uma fazenda no meio do nada. Quer dizer, uma quebra enorme. Você sair lá da Europa e cair dentro de Petrolina, numa fazenda cheia de problemas. O meu chefe lá estava saindo pra ir pra lua de mel, ficou dois dias comigo, me passou a fazenda e foi embora. E aí, isso de novo, como é que eu ia trabalhar agora lá em Petrolina e como é que ia ser pra minha esposa e pro filho? E minha esposa realmente nunca gostou muito da área rural, nunca gostou. Aceitava o que eu fazia, mas nunca gostou. E aí fomos – isso foi em 1990. Aí cheguei lá e ficava na fazenda direto, preso na fazenda. Não tinha jeito. Estava com um monte de problemas, um monte de pepinos lá pra resolver. Eu era o gerente de produção e o superintendente tinha ido embora. Plantava... não sei se você conhece pivô central, sistema de irrigação, mas a gente plantava mil hectares de tomate pra indústria, tinha mil pessoas trabalhando na fazenda lá, mil funcionários. Naquela região, era um problema enorme de plantio de maconha, um lugar super perigoso, porque matavam gente toda hora. Então era um lugar que você estava no meio de uma guerra realmente. E você, é claro, no dia a dia não enxerga perigo nenhum. Mas fiquei lá dois anos. Então nesse período minha esposa foi pra Petrolina com o meu filho, morar lá. Como pra todo lugar que eu ia, na verdade, eu adorava lá. Porque Petrolina, semiárido, aquele calor lá, mas tinha o Rio São Francisco, a fazenda na beira do rio também, pescava lá com os funcionários no final de semana. Gostava do meu trabalho e gostava da região. Simplesmente porque gostava realmente. Porque gostando do trabalho, o resto pra mim está tudo bem. A minha esposa nunca se adaptou muito bem com isso. Aí resolvemos ter o segundo filho e, na verdade, minha esposa ficou grávida de gêmeos. E aí teve problema na gravidez, foram pra Salvador, perdeu um, aí voltou pra Petrolina. Teve um outro problema nesse período, porque eu ficava direto na fazenda e saía de manhã bem cedinho, dormia na fazenda e voltava de noite; dormia em Petrolina e, no dia seguinte, saía cedo. E final de semana era geralmente chamado pra a fazenda, porque não paravam as operações. Então minha esposa ficou sempre assim, se sentia muito isolada, apesar de que tínhamos alguns amigos ali em Petrolina e tal. E aí com esse problema da gravidez, minha esposa acabou ficando em Salvador direto e eu ficava lá na fazenda em Petrolina. Pra te falar francamente, eu achei até bom. Porque eu ficava na fazenda direto e não precisava ficar voltando pra Petrolina sempre. E aí teve o problema de gravidez, mas aí acabou e nasceu, com todos os problemas que teve na gravidez, nasceu a minha filha. E aí, como teve esse problema de novo, essa vida difícil sempre pra minha esposa e pra mim estava tudo bem. E um amigo meu, que inclusive eu tinha conhecido na Bélgica, que quando eu cheguei lá ele tava no segundo ano do curso de Engenharia de Irrigação no mestrado – ele era do CNPq – falou assim: “Miguel, tem bolsas aqui pra você fazer doutorado”. “Que doutorado...” Eu já saí de lá do mestrado meio traumatizado, eu falei que não ia estudar nunca mais! “Que vida é essa de ficar só estudando? Meu negócio é trabalhar”. Nem gosto de falar essa palavra nunca, porque acaba acontecendo umas coisas que você não antecipa e que vão acontecer. Mas aí, esse amigo meu lá do CNPq falou: “Miguel, tem bolsas pra fazer doutorado”. E quando eu cheguei lá na Bélgica, ele estava no segundo ano, tinha um outro cara, um brasileiro, o Claide, que tinha acabado o mestrado e tinha sido convidado pra ser um assistente do curso de irrigação lá. Então essas são as três famílias lá que nós ficamos juntos, fomos bem amigos. E esse cara da Bélgica já tinha ido fazer doutorado nos Estados Unidos e ficava enchendo a paciência do Neiva, a minha paciência: “Vamos fazer doutorado. Porque é bacana!” Eu falei: “ Isso é coisa de gente maluca”. Se eu voltar no meu histórico, foi como eu falei, eu nunca fui um estudante daqueles de primeira. Porque eu queria fazer de tudo. Estudar, mas eu queria me divertir e etc. Então pra mim doutorado... Mestrado pra mim já era uma coisa de gente maluca. Quem vai fazer mestrado tem cara de cientista. Mas acabei fazendo, porque foi uma oportunidade de, de repente, mudar um pouco de vida. Acabei aplicando a bolsa do CNPq. E como eu trabalhava em empresa privada, a probabilidade de eu ser aceito é muito baixa. Só que nessa época, em 1990, quando eu voltei da Bélgica pra Petrolina, meus pais resolveram morar nos Estados Unidos. Por que essa mudança pra os Estados Unidos? Meus dois irmãos mais velhos, que tinham nascido nos Estados Unidos, já em 1984, 1986 e 1987, resolveram morar nos Estados Unidos. Eles eram americanos, tinham cidadania dupla. Minha irmã virou médica, resolveu fazer residência nos Estados Unidos e um irmão também que trabalhava com computador, resolveu ir pra os Estados Unidos. Esse que era a “ovelha negra” resolveu ir pra os Estados Unidos também. Então ficaram os dois lá fazendo residência em 1984. A minha irmã foi uma veterinária que descobriu que não tinha muita ligação com veterinária depois que se formou lá em Salvador, então resolveu fazer um curso de especialização nos Estados Unidos. Aí acabou trabalhando como housekeeping em uma casa que tinha cavalo e tal. Então, tinham três dos filhos lá. O mais novo, como estava todo mundo americano, tinha facilidade e tudo. Aí meu irmão que ia pra fazer faculdade, meu pai resolveu financiar pra ele ir fazer faculdade nos Estados Unidos. Então, chegou em 1990 e eu estava da Bélgica. Aí minha mãe de novo podendo sair do Brasil e ir para os Estados Unidos. Aquela história, os filhos lá, meu pai simplesmente se aposentou antecipadamente do Banco Econômico, largou tudo, toda vida que ele tinha, o barco, e foi para os Estados Unidos. Porque o que era importante era a família realmente nesse ponto para o meu pai. Apesar de que ele era uma pessoa mais seca, apesar de ter muitos amigos, mas ele era com os filhos uma pessoa mais fechada, mas por dentro tinha um monte de sentimentos. Na hora que a maioria da família foi pra lá, não deu outra, foi tudo pro Estados Unidos, Pensilvânia. Minha irmã tinha ido pra Pensilvânia, meu irmão também, minha outra irmã também. Então fomos pra Pensilvânia, ficou o negócio lá. Só meu irmão que foi estudar em Oregon, lá em Portland. Aí em 1990 voltei pra Petrolina, fiquei dois anos, aí apliquei nessa bolsa lá e minha mãe fazendo a maior força pra gente ir pra lá. Imagina ela poder reunir os filhos lá nos Estados Unidos, pra ela seria uma festa. E aí ela encaminha a papelada pra ir pra faculdade lá na Pensilvânia, na Penn State que eram três horas de onde eles moravam, mas era no mesmo estado. E não é que a faculdade me aceita pra fazer doutorado lá? Aí pro CNPq a faculdade aceitou. Então botei junto com o processo a carta que aceitou lá. Mesmo assim, no fundo, eu estava até rezando pra bolsa não sair, sabe? Porque eu não sei se eu queria ir para os Estados Unidos. Tipo assim, era um passaporte pra eu ir para os Estados Unidos. Essa foi a pura verdade. Era pra mexer com assessoramento remoto, com a tecnologia. Seria Agronomia, Irrigação e aí durante esse mestrado em irrigação, coisas ligadas com assessoramento remoto, tecnologia. Então ir para os Estados Unidos era mexer com essa parte mais de tecnologia. Que na minha cabeça era: “Puxa, eu vou aprender isso pra voltar pro Brasil. Vou ter outras oportunidades”. Era um pacote maior para o que eu estava fazendo, para melhorar a minha vida profissional. Mas aí eu falei: “Puxa, parar de trabalhar pra ir lá fazer doutorado? Mas tudo bem”. Chega esse amigo meu, um belo dia, estava lá em Petrolina, ele falou assim: “E aí? Já está com as malas prontas pra ir pros Estados Unidos?”. E falei “Por quê?”. “Saiu sua bolsa aqui. O pessoal estava julgando e saiu sua bolsa aqui”. Foi fácil assim. A minha esposa, na verdade, queria que qualquer coisa acontecesse, mas que pelo menos que não ficasse em Petrolina. E foi assim, pedi demissão da empresa, fiquei lá meu aviso prévio, um mês. Arrumei minhas malas e fui para os Estados Unidos, rápido, sem olhar pra trás. E dessa vez, fomos todos juntos. Eu, minha esposa e meus dois filhos. Meu filho tinha três anos, minha filha tinha um ano e de novo acontecia essa história de um filho ter um ano de idade. Fomos pra lá. Tínhamos o apoio do meu pai perto da Penn State, então fui para a universidade, morei lá na Pensilvânia quatro anos e meio. Quer dizer, o mais importante disso foi que a minha mãe conseguiu ter os cinco filhos morando nos Estados Unidos. Foi impressionante! A minha mãe tinha uma força com relação a unir os filhos. O que ela batalhava pra família, ela conseguia realmente. Na casa da minha mãe, lá na Pensilvânia, tinha um álbum de fotografia que todo mundo que ia visitar eles lá, tiravam fotos e ficava lá pra ter aquele histórico. Era um bolo assim, sempre a casa cheia. E mesmo os meus irmãos, cada um morava a trinta minutos do outro. Ninguém morava um colado com o outro. E eu que morava um pouco mais longe, era três horas, uma estrada super boa e tal. O doutorado era quatro anos e foi uma vida completamente diferente do que foi o mestrado. Muito trabalho, mas também foi um processo que se aprende um monte. Fizemos muitos amigos nos Estados Unidos. Talvez lá na State College tivesse uns cinquenta brasileiros, contando filhos, pais, cachorros e gatos. Então você não convivia muito com brasileiros. E eu convivia muito na universidade. Então fizemos amigos fortes na universidade, americanos, e minha esposa também. Lá, o que eu gosto nos Estados Unidos, no início, pra crianças, é a parte toda da elementary school até o high school; é que, nessa fase, a dedicação pras crianças dos pais na escola é uma coisa assim impressionante. Então, os pais participam muito da escola, da educação, como voluntários. Então essa questão de comunidade, igreja, todo domingo você vai à igreja e se torna parte da comunidade.


Então nessa época eu comecei a ter uma ligação com o meio ambiente, que até porque a minha pesquisa, quando eu comecei a fazer, era relacionada com ar, solo, com o movimento de água em termos de uma bacia. E na verdade a minha pesquisa foi em volta de projeto que estava tendo um impacto num lago de recreação lá no Poconos, na Pensilvânia. Então tinha um lado de recreação onde as pessoas iam lá todo o verão pra tomar banho, pra andar de barco, começou a aparecer indicação de aumento de poluentes de nitrogênio e fósforo naquele lago. Então no meu caso, que estava trabalhando com solos, dava pra saber qual era o impacto do solo nesse processo todo, se dinamiza esse movimento de nutrientes pra dentro desse lago, etc. Então todo aquele negócio de tecnologia que eu achava que era um negócio quente pra mim, eu vi que o que realmente gostava era, no final do dia,  o campo. Pra mim tinha que ser coisa do campo, tinha que cavar buraco, estar sujo etc. E a minha pesquisa lá, esse projeto depois de dois anos lá tentando definir “Qual vai ser meu projeto aqui?” O meu orientador lá dizia: “Não, espera aí; faça a matéria, faça isso, faça aquilo”. Tudo que você pode imaginar de matéria, eu fiz lá. Dois anos só fazendo matéria; então eu nunca tinha tempo pra fazer nada. Minha esposa sentia falta do Brasil, então uma vez por ano tinha que ir lá com as crianças. Eu não tinha esse negócio do Brasil: “Não, eu tenho que fazer estágio, coleta de dados, tenho que fazer isso e tal”. Então, fui levando esse negócio. Então depois de dois que eu consegui definir a pesquisa pra fazer esse projeto com outra pessoa, que aí virou meu co-orientador; foi a pessoa que realmente me ajudou bastante. Então toda semana eu tinha que ir pra esse lugar coletar dados de campo. Aí ia e voltava todo sujo de terra. Três horas de carro, eu saía lá, dormia lá, mas sempre voltava imundo. Mas eu tinha prazer de estar voltando sujo de terra com aquele negócio todo. Minha esposa falava quando eu chegava em casa: “Tira essa roupa aí fora e depois entra aqui pra dentro”. Porque o que eu tinha de prazer, ela realmente não compartilhava esse negócio. Mas também não tem muita incompatibilidade; se eu conseguia fazer o que eu gostava de fazer, estava tudo bem pra mim. E essa pesquisa, um dos grandes desafios, era também coletar dados na época do inverno; e no Poconos era um dos lugares mais frios do norte ali da Pensilvânia. Então tinha muita neve mesmo no inverno, toda semana eu tinha que ir lá coletar dados. Na época do inverno, eu levava um amigo meu, que ele tinha feito também mestrado relacionado àquela bacia lá, e eu levava ele por questão de segurança, porque no inverno a gente tinha que andar muito no meio da neve pra coletar os dados. Tinha muito instrumento, tinha um computadorzinho coletando. E se acontecesse qualquer coisa comigo lá no meio? Você podia realmente morrer lá, porque era um lugar isolado; não era urbano, era uma área rural. Mas fiz amizade com os fazendeiros da região, eu ia lá e tinha aquela conversa com o pessoal. Realmente foi um período que, pra mim, não poderia ter sido melhor; realmente mudou a minha vida. Toda a questão com os americanos também, desmistificar um pouco. Como eu fiquei lá muito tempo, quatro anos e meio na Pensilvânia, na universidade, tinham pessoas que iam fazer mestrado ou doutorado. E é impressionante como brasileiro sempre reclama da vida americana. Sempre reclama com coisas sem relevância nenhuma. Comida, disso, daquilo, mas são coisas que, na verdade, todo mundo na hora de se beneficiar da vida americana, todo mundo sabia muito bem como fazer isso. Eu não; eu sempre gostei muito da vida. Apesar de que adoro o Brasil, mas lá é aquela velha história – se você quer tirar vantagem de algum lugar, ou você vai pra viver intensamente aquele lugar ou você não vai curtir o lugar. Então que aconteceu? Cheguei lá em 1992 nos Estados Unidos, em outubro e fiquei lá. Nesse período, minha mãe ficou doente, câncer. Ela já tinha tido um câncer aqui no Brasil, de mama. Na verdade, assim que meu pai e minha mãe foram morar nos Estados Unidos, em 1990, minha irmã médica achou que era fundamental depois de certo período fazer exames rigorosos de saúde. Eu me lembro que na mesma época, eu não sei o ano exatamente – acho que foi em 1991 ou 1992 – meu pai e minha mãe foram diagnosticados com câncer. Meu pai com câncer na próstata e minha mãe com câncer no colo, alguma coisa assim. Na mesma época, fizeram exame e acusaram câncer. Mas a medicina realmente lá, o pessoal foi muito bem cuidado, então controlou bem. Mas eu acho que meu pai operou e resolveu de minha mãe operar. E na verdade foi a persistência de um médico que descobriu, porque tinha alguma indicação que tinha, mas ninguém achava. Mas aí ele acabou encontrando esse câncer e conseguiu operar e limpou tudo. Mas depois em 1994 ou 1995, voltou o câncer na minha mãe, e já foi no fígado. E mesmo assim, a família sempre em primeiro lugar. Então nós, pelo menos uma vez por ano, nós íamos passar quinze dias com a família toda, todos os irmãos, meu pai e minha mãe. E ia pra alguma praia, Carolina do Norte, pra Geórgia, Atlantic City, lá em New Jersey. Então sempre tinha essas coisas. Então em 1997, quando eu realmente acabei o meu doutorado – que era pra acabar em quatro anos, mas acabou em até quatro anos e meio, porque eu ensinava laboratório. Inclusive ajudava bastante, por causa disso eu não pagava nenhuma matéria durante o doutorado todo. E até ajudou a negociar com o CNPq mais seis meses. Então essa parte de ensinar, pra mim, era um desafio. Porque ensinar de novo pessoas que estavam começando a faculdade, principalmente o estrangeiro. Você abre a boca, fala uma língua diferente, tem muitas pessoas, eram turmas de vinte e quatro pessoas. Então era bem intenso. Apesar de que era só aula de laboratório e coisa de campo, mas você tinha certa resistência das pessoas estarem ali aceitando o Miguel passando informações. Mas foi muito bacana, foram praticamente três anos e meio ensinando laboratório lá. Foi muito importante; junto com o doutorado, isso aí ajudou bastante. Então 1997, quando estava terminando o doutorado, estava naquela iminência de voltar para o Brasil. Comecei a procurar emprego já em 1996. E durante o doutorado, você vai pra muitos congressos apresentar artigos, etc. Só que a minha mãe já estava muito doente nessa época, e aí nessa história de voltar pra o Brasil, não tem jeito, procurando emprego. Aí eu ia voltar lá pra Bahia, como professor visitante em Feira de Santana. Tentei voltar lá para o Ceará. Tinha aquele sonho, Fortaleza, praia, litoral, e ir trabalhar como professor na disciplina de solos. Então eu achava que era a minha vida voltar pra Fortaleza. Um sonho, só por causa da questão do mar, sentia falta do mar. Tanto inverno lá na Pensilvânia, realmente cada inverno de amargar, mas você vai levando. Mas aí tentei e tentei, mas o pessoal realmente enrolava. Sabe aquela história: “Ah, semana que vem eu te dou uma resposta”. Passava um mês e a pessoa sumia. Eu falava: “O que é que está acontecendo nesse negócio aqui?”. E foi o que eu falei com você; eu nunca tinha voltado para o Brasil, então eu não tinha aquela relação forte com o Brasil. Tudo realmente era através de papel. E tentei algumas opções. E acabou chegando um momento que era pra ir para a Feira de Santana, a dez quilômetros de Salvador, trabalhar numa universidade do Estado, como professor visitante. Aí tudo certo pra ir pra lá como professor visitante. Era bolsa de recém doutor do CNPq, alguma coisa assim. Eu falei: “Puxa, legal! Me interessa. Vou lá trabalhar mesmo, ajudar”. Aquela minha vontade também de poder ajudar um lugar pobre, fazer a diferença, trabalhar para os outros. Aí uma semana – não estou brincando não; talvez dez dias antes – encomendamos container pra levar nossas coisas, tínhamos um monte de móveis que a gente foi comprando durante esses anos. Tinha muita coisa de Garage Sale, móveis de segunda mão, roupa. Então tinha que levar em container porque tinha que levar alguma coisa. Porque toda vez que a gente foi mudando de um lugar para o outro, tudo eu ia deixando para trás. Tudo que eu ia comprando ficava para trás. Aí no final: “Compra aí, depois você me paga”. O problema dessas mudanças é que você não constrói nada físico, nada de tangível aqui; mas dentro você constrói muito mais do que imagina. Mas tudo a gente vendia; comprava e dois anos depois, vendia. Tudo começou na verdade em Brasília, que eu tinha um som bacana e não tinha como caber no meu carro, com a minha moto pra voltar pra Bahia, e dei pra um cara de presente. E aí que eu fui ver que realmente você não conseguia segurar nada nessas mudanças. Mas aí nesse negócio de container pronto pra ir embora. E o que foi legal lá também, morar em State College, é que nos primeiros quatro anos a gente morou na mesma casa, uma town house. E isso também ajudou a construir, uma casa sua ali, que era uma town house, afastada do campus. Só nos últimos seis meses, depois desses quatro anos, nós mudamos pra uma outra casa lá, porque o dono da town house queria morar lá. Tudo pronto pra voltar, ligo lá pra essa pró-reitora da universidade de Feira de Santana, aí a mulher falou assim pra mim: “Miguel, quanto tempo você estaria disposto a passar aqui a pão e água, até a gente conseguir ajustar o negócio da bolsa?” Eu falei: “Olha, minha senhora, realmente tenho família e fica difícil. Você não tem realmente nenhum compromisso comigo, com nada. Como é que você espera que eu vá trabalhar com você, se até agora você não tem nada certo?”. Então eu fiquei meio naquele impasse. O tal do meu amigo Claide, aquele que tinha acabado o mestrado na época da Bélgica e tinha ido fazer doutorado nos Estados Unidos, já estava fazendo pós-doutorado lá. Ele já tinha dado o meu currículo lá na Flórida, pra posição de fazer um pós-doc nessa área de modelagem de solos e etc. E eu sempre dei muita sorte na vida. E outra coisa que é incrível, o Neilor, o cara que conseguiu a bolsa pra mim no CNPq, acabou indo pra Pensilvânia, pra State College, depois de um ano e pouco. Porque ele, na verdade, estava no CNPq, mas estava querendo que eu fosse fazer doutorado; mas ele já ia e acabou dando tudo errado. Eu acabei viabilizando ele ir pra Pensilvânia. Então teve uma época que os três estavam na Bélgica, o Claide, o Neilor e eu. Estavam os três nos Estados Unidos. O Claide tinha terminado o doutorado e ficamos os três também ligados nos Estados Unidos. Então naquele impasse de vai e não vai, e também na Penn State eu estava procurando opções de fazer pós-doutorado. Tinha pra ir pra Wisconsin, acabou não dando certo. Nesse período de dez dias, acabou que esse Jim Jones, lá da Flórida, me liga e diz que recebeu meu currículo e estava querendo um pós-doc pra trabalhar com ele. Era um projeto de modelagem, usar modelos de crescimento de cultura de soja, melhorar o modelo na questão de solos, raízes pra trabalhar num projeto do Mid-West, lá no centro oeste americano. Assim, dez dias antes – sem brincadeira; se não for dez dias, até menos. Aí o jeito: “Vamos lá pra Flórida”. Peguei minha esposa Ana Tereza e meus dois filhos. Eram mil milhas da State College até Gainesville, na Flórida. Pegamos o carro, descemos, fui me encontrar com esse Jim Jones; ele ia viajar pra China ou pra Índia, alguma coisa assim. E conversamos com ele e ele disse assim: “Tudo bem, aqui é o salário seu, isso, isso, isso. Topa?” “Topo.” Peguei o carro, e fomos de volta pra State College pra arrumar tudo, cancelar container, botar tudo no caminhão e descer de novo na outra semana. Foi assim. Subimos então mil e seiscentos quilômetros, fomos lá, dois dias em Gainesville. Já nesses dois dias eu acertei tudo. O Claide, esse meu amigo, não estava mais lá. Na verdade ele tinha ido para o Missouri; ele só tinha deixado currículo, onde tinha feito o pós-doc. Arrumamos um lugar pra morar, dois dias, subimos. E olha que coisa interessante, saindo lá de Gainesville, eu com o meu carro, todo feliz, nós quatro, eu, minha esposa e meus filhos: “Vamos voltar pra State College e vamos trabalhar aqui na Flórida”. Era um pós-doc de até três anos de duração e era o que eu podia ficar mais nos Estados Unidos. Porque quando você vai com esse visto J-1 pra os Estado Unidos, você pode depois ficar se você fizer pós-doutorado e pode ficar até três anos a mais como Exchange Visa, e tem uma categoria que você pode ficar como pós-doc pela universidade. Eu poderia ficar um ano e meio a mais, depois que acabasse o doutorado como pós-doc em uma empresa privada, por exemplo. Então eu poderia ficar mais três anos. Como eu não tinha emprego no Brasil e era um emprego na verdade lá, era uma chance até de relaxar um pouco do doutorado e fazer uma coisa mais prática e aplicada. Então eu achei fantástico! Saímos de Gainesville sete e meia da manhã, as crianças lá, dormindo no carro. Saindo quase de Gainesville, tomei duas multas seguidas nesses speed ripper. Estou ali, sete e meia da manhã saindo, daqui a pouco vejo um guarda; ele falou “Olha, a velocidade aqui era trinta, cinquenta...” Eu estou falando isso porque foi uma coisa que me marcou muito, porque eu falei: “Será que eu devo voltar aqui pra Gainesville?”. Mas de qualquer maneira, o cara me deu uma multa que era de cem dólares, sete e meia da manhã. Eu falei: “Não é possível que alguém vá dar multa pra gente aqui!”. Aí tudo bem. Andei vinte minutos, uma outra multa. Um guarda de novo me pega numa cidade, de novo com speed ripper. Eu falei pro cara: “Eu acabei de tomar uma multa”. O cara: “Saia do carro!”. Aí eu fiquei nervoso. Eu falei “Que negócio é esse? Nunca aconteceu isso comigo”. Eu viajava toda semana pra coletar dados de pesquisa, andava numa estrada, uma highway. Quer dizer, nunca tomei uma multa na vida e chego aqui na Florida tomando uma segunda multa? Pensei que era um pesadelo! O cara: “Desça do carro”. “Eu acabei de tomar uma multa.” “O senhor estava assim e assado.” Aí eu comecei a botar a mão no bolso nervoso e ele: “Tira a mão do bolso!”. Me tratou que nem um criminoso. Aquele negócio me deixou meio assim, com um repúdio total do lugar. Eu falei: “Não é possível! Alguma coisa está me dizendo pra eu não voltar aqui na Flórida”. E eu não consegui nem mais dirigir. Eu falei pra minha esposa: “Pega o carro aqui, porque daqui a pouco vou tomar outra multa”. Então no período de sete e meia, oito da manhã, tomei essas duas multas e aí fomos embora, andamos e tal. Aí eu falei: “De repente esse cara me deu a multa, achou que eu nunca mais ia voltar aqui, não podia recorrer da multa. Eu estou voltando pra cá e vou recorrer a essas multas”. Bem, fomos para a Pensilvânia, organizamos o caminhão lá e tal, os amigos empacotaram tudo. E como eu te falei, eu tinha muitos amigos lá da universidade. Amigos mesmo da gente, de no final de semana sair e tal; americanos, a maioria deles assim, muito poucos brasileiros. Descemos eu com o caminhão e meu filho do lado, minha esposa num carro que a gente tinha lá com a minha filha. E fomos descendo e tal. E uma semana antes desse período, descemos, subimos, descemos. E quem a gente conhece lá? Esse meu amigo Claide, tinha dado nomes de algumas pessoas. Chegamos lá, isso foi em julho, um calor de quarenta graus. Pegamos um monte de chuva na estrada, dormimos na estrada, no carro. Foi bem aventura, que você nunca imagina... Mas como nos Estados Unidos as coisas são muito mais práticas, então as coisas acontecem sem você imaginar que vão acontecer. Porque você tem todo aquele apoio logístico ali em volta de você. Aí fomos lá pra Flórida e foi realmente pra mim, saindo do frio, indo em direção ao Brasil. Na verdade eu estava indo pro sul. Tudo verde na Flórida, a vegetação verde o ano inteiro, a uma hora e meia da praia. Você vê, nunca deixei de ter essa relação com o mar, mesmo longe; a praia, pra mim, ainda era aquela história. Eu ia pra uma praia, pra mim era um sonho. Então, indo pro lado atlântico, pro Golfo, uma hora e meia, lá na Flórida, Gainesville, que era mais ao norte. Era muito protegido, tinha muito tornado ali, mas a gente estava numa cidade não muito quente. Um clima ali mais ao norte da Flórida, perfeito. Também me envolvi muito com futebol americano, de ver jogos etc. Não tinha futebol brasileiro lá, ia ao futebol americano. Mas aí podia ir pra praia, tinha negócio dos rios lá na Flórida. Foi assim, perfeito. Um pós-doutorado, coisa aplicada, trabalhando como produtor de soja nos Estados Unidos, muita coisa prática no campo, envolvendo com o solo, mexia com modelagem. Eu falei, primeiro que eu nunca tive uma relação forte com computador, a não ser o computador de usar no dia a dia. Mas fazer modelagem, programação, tudo com certeza não era o meu negócio. Mas era mais a coisa prática dos modelos e tal. Esse meu chefe Jim Jones, era o cara mais incrível que você possa imaginar. Aquele cara que fazia praticamente tudo, mas só valorizava quem trabalhava pra ele. Fazia questão de valorizar. Eu aprendi muito isso com ele. Quanto mais você valoriza as pessoas que trabalham com você, mais aquilo volta pra você. Quanto mais você dá, mais você recebe. Essa é a pura verdade. Era aquele cara que era o gênio, a vida dele era trabalho. Então, pra mim era aquele exemplo, o chefe meu que trabalha mais do que eu, pra mim é uma coisa fantástica! Porque eu sempre gostei muito de trabalhar, sempre gostei e nunca quis ter realmente um chefe que trabalhasse menos do que eu. Não me incomodo, tudo bem, mas no caso dele era um exemplo que tinha seguido. Talvez esse não fosse o melhor exemplo, porque eu acho que se sacrifica e família e tem outros problemas. Mas era um cara fantástico! Aí era um projeto de três anos. E aconteceu que, depois de um ano e meio, apareceu uma oportunidade de voltar para o Brasil. E realmente nesse período, mesmo estando na Flórida, não voltei para o Brasil. Morei praticamente seis anos nos Estados Unidos sem botar o pé no Brasil. Mas quando eu ia lá pra Orlando, por exemplo, lá de Gainesville, eu fazia questão de ir comer lá no restaurante brasileiro, de ver a televisão, passava a Globo e tal. E Gainesville, a diferença foi que lá tinha uma comunidade de pelo menos quinhentos brasileiros. Todo mundo ia pra Gainesville. Todo mundo ia fazer doutorado, mestrado, pós-doutorado – de Jaboticabal, de Piracicaba, ou das Embrapas, iam pra Gainesville. Cheguei lá, o primeiro evento de lá, quinhentos brasileiros, feijoada. Me senti perto do Brasil. Aí de novo, o melhor lugar que você tem na vida, é o seu país, é o seu pessoal e tal. E aí dei sorte; depois de um ano e meio, eu tive uma oportunidade de emprego numa empresa americana, chama-se Winrock International, ainda se chama. Escritório em Salvador, pra trabalhar um ano negociando. Depois cheguei de Gainesville, com pós-doutorado, você tem chance de fazer um monte de coisas. Você trabalha, mas não é aquele doutorado. Você consegue publicar as coisas, consegue trabalhar em coisas mais práticas, conexões pra empregos. Então, fiquei negociando com a Winrock International até que eles conseguiram três projetos pra viabilizar a minha ida pra Salvador. E Salvador, voltar pra origem da gente, da família, minha esposa lá. Imagina, voltar pra Salvador e trabalhar numa empresa americana, não poderia ter sido coisa melhor, continuidade. E eram três projetos que um deles era pra alívio da pobreza rural do Nordeste, que eu ainda tinha aquele papel. Como eu trabalhei muito tempo em Petrolina, no meio de muitas pessoas pobres e eu realmente me apegava muito a essas pessoas. Eu tinha ainda aquela obrigação de cidadão de poder ajudar as pessoas. Sem filosofar sem nada, tinha essa necessidade. Inclusive quando eu queria ir pra Fortaleza, era essa mesma ideia de poder ajudar, melhorar a pobreza. Então tinha esse projeto, tinha um outro que era pra viabilizar algum tipo de economia na zona da mata de Pernambuco com a decadência da cana de açúcar, que tinha impacto direto nas pessoas. E tinha um outro projeto, que era um projeto mais de comercialização de móveis, de madeira, Estados Unidos e Brasil. Aí o cara viabilizou a minha ida pra lá em 1999. Nos Estados Unidos, cheguei para o Jim Jones e falei assim: “Olha, consegui um emprego e estou indo embora”. Por mais que eu adorasse o que eu estava fazendo, não perdi muito tempo. Falei: “Qual é o mínimo de tempo pra eu ficar aqui com você?”. “O que você puder ficar”. Eu falei “Um mês está bom?”. “Está bom.” As crianças foram embora antes e aí fomos embora. Isso foi janeiro, cheguei lá numa quinta-feira, segunda-feira eu estava Winrock. Meu chefe lá, o Bill Howley não estava lá, estava viajando. Meu negócio era terminar uma coisa, tinha que trabalhar logo em seguida. Fui lá pra e a Winrock é uma agência de desenvolvimento que mexe com energia renovável, floresta, agricultura, trabalha na Ásia, trabalha em não sei quantos países, é uma ONG. Aí eu falei “Que beleza!”. Eu era um consultor pago pelos Estados Unidos e comecei a trabalhar, comecei a me engajar em várias coisas, projetos de alternativas econômicas para o Nordeste que acabou sendo de plantio de eucalipto. Pra você ver, eu não tinha nenhuma relação forte com o meio ambiente, eu poderia estar preparado pra fazer qualquer tipo de coisa. Aconteceu que por volta de setembro, outubro de 1999, a Winrock foi contratada pela The Nature Conservancy dos Estados Unidos, pra começar projetos de sequestro de carbono em Guaraqueçaba, litoral norte do Paraná. Então tinha a The Nature Conservancy, tinha um parceiro que era uma ONG local, SPDS, pra resolver sequestro de carbono, de proteção e floresta, de restauração, etc. E a Sandra Brown, que era professora dos Estados Unidos na Winrock, ela era a grande expert com relação à medição de biomassa, de florestas, de quantificar quanto de carbono etc. Aí a Sandra sabendo que eu estava no Brasil, perguntou: “Miguel, você quer trabalhar comigo nos projetos lá em Guaraqueçaba da SPDS?”. Eu já conhecia um pouco desse projeto, não do projeto, mas já conhecia um pouco sobre a The Nature Conservancy, já tinha ouvido falar quando eu estava nos Estados Unidos. Mesmo que eu não tinha uma relação muito forte com o meio ambiente, mas quando eu estava nos Estados Unidos, foi quando eu estava mais perto, de repente num lugar onde tinha uma preocupação muito grande com o meio ambiente. Então é claro, eu conhecia a TNC nos Estados Unidos, cinquenta anos lá etc. Mas aí a Sandra Brown me chamou pra trabalhar com ela e eu falei: “Claro. Ir lá pro campo, medição, floresta, solo e tal”, eu falei na hora. Então eu estava em Salvador, fomos lá pro projeto lá em Guaraqueçaba. Aí conheci o pessoal da SPDS e foi o primeiro contato real com essa preocupação com o meio ambiente, conservação da biodiversidade. Não estava muito preocupado se ainda tinha aves, animais dentro da floresta, mas foi quando eu vi como é importante o meio ambiente, floresta, conservação, comunidades em volta e tal. Apesar de que o meu trabalho era um trabalho técnico de medição de biomassa, foi o que eu gostava na verdade, que era uma coisa bem científica, novas tecnologias etc, aí foi quando eu tive o primeiro contato. Aí trabalhei na Winrock eu, Sandra Brown, Glauber e Madeleine, aqui da SPDS, com a equipe da The Natute Conservancy. Aí ficamos lá quinze dias no campo e trabalhando todo mundo junto, você sempre tem o que conversar, você conhece as pessoas etc. Bem, tive essa relação com a TNC, eu falei “Puxa! Um dia eu gostaria de trabalhar nessa área de monitoramento de carbono”. Na Winrock, como eu estava com a grande Sandra Brown, chamavam ela de Carbon Queen, aquela pessoa que entendia tudo de carbono; eu falei: “Estou bem!”. Fui até pra os Estados Unidos depois trabalhar com ela com números. Essa área aqui é a área que eu adoro, sequestro de carbono, até a parte de pobreza. A gente já estava executando esses projetos, aí eu me envolvi com negócio de carbono e quis me tornar um expert em negócio de sequestro de carbono. Vim me tornar isso aí. Mas aí chegou o final do ano, não sei se foi dezembro ou janeiro, depois de um ano na Winrock apareceu uma oportunidade de trabalhar na Cargill aqui em São Paulo. Isso aconteceu porque o Claide, quando eu estava na Flórida fazendo pós-doutorado, a Cargill me chamou pra trabalhar pra eles nessa parte de modelagem. Eles queriam alguém pra trabalhar com modelo, pra poder ajudar trades a fazer previsões de fato pra poder ajudar a comprar grãos, pra fazer modelagem pra poder modelar crescimento de soja. Então isso poderia ser uma informação útil pra poder ajudar quem estava comprando soja, que era a Cargill, por exemplo, fazer previsão, se antecipando no mercado e tirar vantagem disso. Só que como eu tinha esse visto J 1, eu não podia trabalhar pra Cargill. E eu então indiquei o Claide pra trabalhar na Cargill e ele foi para Minneapolis nos Estados Unidos. Ele fazendo pós-doutorado lá no Missouri, eu falei: “Claide, pegue essa oportunidade e tal” e ele acabou sendo contratado pra trabalhar nessa parte de modelagem lá na Cargill. Estava lá na minha na Winrock, aí: “Miguel, a gente ia começar um departamento de pesquisa na Cargill em São Paulo, ligado aqui a Minneapolis, você trabalharia comigo?”. “Claro”. Fomos pros Estados Unidos, fizeram entrevistas aqui e tal e fui pra Cargill trabalhar como pesquisador senior, ligado com Minneapolis. Tudo que pra mim me interessava era essa ligação com os Estados Unidos. Porque eu queria manter isso? A minha esposa também, o sonho dela era continuar nos Estados Unidos. Por incrível que pareça, a gente voltando pra Bahia, mas ela ainda tinha uma ligação muito forte com os Estados Unidos, aquele sonho, qualidade de vida melhor e eu não estaria mais no campo, estaria mais junto de casa etc. Mas aí pintou o negócio da Cargill e eu falei que jamais iria morar em São Paulo de novo, mas aquela história de querer melhorar de vida, oportunidade, nunca deixar passar oportunidade. Sempre na minha cabeça, prefiro me arrepender fazendo, do que não fazendo, sempre fui assim. “Winrock estou saindo. Cargill, aceito”. Viemos pra São Paulo. Saí num dia, na outra semana já estava trabalhando na Cargill, essa relação com Minneapolis e tal. Aí, oito meses com a Cargil, trabalhando com essa coisa diferente de carbono, diferente de qualquer coisa, mesmo assim eu mantinha uma relação com a TNC. Aí a TNC resolveu montar um time aqui na Mata Atlântica pra mexer com sequestro de carbono, projeto de sequestro de carbono, porque já tinha uma ideia com o SPDS. A idéia era expandir vários projetos e queriam alguém pra trabalhar na área de desenvolver novos projetos. Eu falei: “Tudo bem. Eu aplico pra essa posição”. Aí fiz entrevista e tudo, só que aí uma outra pessoa, a Patrícia Gaia, foi selecionada pra posição. Passou um mês, abriu uma posição pra monitoramento de carbono, aí não tinha jeito, era o que eu sabia fazer. Dia 29 de setembro de 2000, dia do meu aniversário, sexta-feira, saí da Cargill, fui pra Buenos Aires no final de semana passar meu aniversário lá sexta-feira e sábado. Segunda-feira comecei a trabalhar na TNC aqui em São Paulo. E a ideia era ficar aqui em São Paulo até acabar o ano e já em janeiro ir pra Curitiba, ajudar a abrir o escritório com o Joe Keenan, que era o cara que me contratou, que vinha dos Estados Unidos pra morar em Curitiba. Então em janeiro de 2000 nós fomos para Curitiba. Pra mim aquilo não poderia ter sido uma coisa mais marcante, mais chocante que aconteceu na minha vida. Porque apesar de eu não ter até então uma ligação com o meio ambiente, pra mim trabalhar com a conservação da biodiversidade, até com uma coisa mais técnica, negócio de carbono, era fazer tudo que gostaria de estar fazendo na vida. Eu estava trabalhando pra uma empresa americana, conservação da biodiversidade, uma missão de trabalhar na parte bem técnica de estar fazendo e vendo acontecer o resultado. Era coisa no campo, medição no campo, estar ali se sujando de novo, só que fazendo uma coisa muito mais importante pras pessoas, pra sociedade. Quer dizer, eu fui treinado basicamente pra destruir sem saber que estava destruindo, que era produção. Quando eu trabalhei em todos esses lugares, realmente não conseguia ver importância nenhuma. Pra mim, floresta era mais um mato que deveria ser tirado dali pra dar espaço pra agricultura. Mas, quando eu tive a minha primeira identificação com floresta, eu vi que era aquilo que assim, mudei muito rápido de... Comecei a ver que tinha tanta destruição nas coisas que alguém tinha que fazer alguma coisa. Então não poderia ser um trabalho mais nobre pra mim trabalhar com isso. Então de novo, saí da Cargill e o pessoal: “Como é que você sai da Cargill? Que maluquice é essa? Você vai virar um ‘Eco Louco’ da vida?”. É bem com essa mentalidade que até hoje muitas pessoas enxergam a gente. Fui pra Curitiba de novo e todo mundo falando do clima de Curitiba. Também nunca reclamei um minuto de estar em Curitiba, apesar daquele clima e etc. E desde então tem sido pra mim assim. Tiveram muitas mudanças, é claro. Comecei a trabalhar com essa questão de medição de biomassa, carbono, trabalho no campo. Depois de um ano e pouco, o Joe Keenan, meu chefe, foi seguir toda a divisão, então ficou essa vaga aberta, eu fiquei tipo como diretor interino da Floresta Atlântica, aí depois eu virei o diretor da posição. E aí o time que era praticamente de três pessoas, eu o Joe e mais uma pessoa. Hoje em dia, o time é de nove pessoas comigo. E eu nunca gostei muito de ficar gerenciando as pessoas, porque eu sempre fui muito independente, fazer as minhas coisas, entregar o produto e pronto. Mas aquela história também, você vai crescendo, o Joe perguntou: “Miguel você quer ou não quer ser o diretor?”. Eu quase nessa fase falei: “Não. Eu quero ficar onde eu estou”. Mas de novo, pra não deixar passar a oportunidade, por nunca ter feito isso na vida, não é nessa hora que eu ia deixar passar, por mais eu estaria fazendo coisas que eu não queria, captação de recursos, por exemplo. Tinha obrigação de captar mil dólares por ano para o programa, esse era um dos meus papéis. Eu não gosto de fazer esse negócio de captação de recursos. Logo, logo eu descobri que uma das coisas que eu gosto de fazer, vender os seus projetos para doadores nos Estados Unidos. Vendendo coisas verdadeiras, não blá blá blá... Então, o que eu tenho que fazer é ter boas ideias com o meu time, meus parceiros, levar nos Estados Unidos e tentar oferecer pra vários tipos de doadores. Mostrar que o que nós estamos fazendo é importante. E como é importante mesmo, é muito fácil vender. Não quer dizer que toda hora vem o dinheiro, mas é muito fácil vender aquilo que você acredita.


P/1 – Miguel, falando disso só pra gente entender, o que é que vocês estão fazendo mesmo? Como que é essa captação de recursos? Pra onde vai?


R – O programa em que eu trabalho, é o programa da Mata Atlântica. Apesar de que na base de Curitiba a gente trabalha basicamente em cinco lugares prioritários que a gente chama de eco regiões na Mata Atlântica. Um é lá na Floresta costeira de Pernambuco, lá em Murici, outro ali no sul da Bahia entre Itabuna e Itacaré, nas florestas costeiras na Bahia, então é uma região grande. Outra é ali em Guaraqueçaba, onde tem os projetos de carbono. A gente trabalha também na Araucária, que é uma outra eco região que está indo embora, um dia ocupou quarenta por cento do Paraná e trinta por cento de Santa Catarina, está indo quase embora. E a outra é ali no alto Paraná que pega ali a área do pontal do Paranapanema e pega também no Paraguai. A gente trabalha também no Paraguai. Então, esses projetos são todos assim, não são pontuais, são projetos que você tem várias atividades, dentro de várias estratégias desde proteção de áreas que você tem recursos de doadores. Uma das atividades que sempre teve foi conseguir dinheiro pra poder comprar terra e proteger terra. Você compra e protege e dá perpetuidade para aquele negócio. Só que fora do Brasil a TNC não compra terra, ela vai através dos parceiros. Então a gente faz parcerias pra certos locais, SPDS, IESB, etc, pra criar uma reserva privada. Então a gente junta, pega dinheiro, passa pro parceiro, o parceiro compra a área e a área é do parceiro. E a gente ajuda a buscar recursos pra gerenciamento daquela área. Só que toda essa parte de compra de terras, acabou sendo, aqui na nossa área da Mata Atlântica, importante com relação a você criar uma base nesses lugares para o parceiro. Porque é bom você ter uma floresta, uma reserva privada que sirva de modelo pra poder inspirar outras pessoas em volta a poder proteger as florestas, mostrar o valor da floresta para água, pra carbono, pra biodiversidade, pra ter toda a questão da restauração. Então a gente busca muito recurso pra poder fazer grandes reflorestamentos. A SOS Mata Atlântica tem um projeto chocante, esse Clique Árvore, por exemplo, que é plantio de árvore. Nós trabalhamos com os parceiros pra poder resolver modelos de recuperação de restauração. Por quê? Porque nós queremos que programas como o “clickarvore” ou programas do Governo, coloque o dinheiro em modelos que realmente tenham a possibilidade de atingir uma escala. Se você tem noventa e três por cento que já se perdeu da Mata Atlântica, você quer chegar a vinte, vinte e um por cento, você tem que fazer recuperações em escala de grandes áreas. Então, como eu estava falando, a gente trabalha numa forma de paisagem, porque aqui você protege floresta, aqui você recupera, forma um corredor, aqui você trabalha com o Governo, na parte de políticas públicas para criar uma unidade de conservação pública. Aí a gente trabalha muito com essa parte de fortalecimento do parceiro. Mas a gente trabalha através de parceiros, a TNC e o parceiro para implementar nossas estratégias. Não é nem nossas estratégias, estratégias nossas e dos parceiros, que na verdade a missão é uma só, é a conservação da biodiversidade. Você tem que fortalecer aquele parceiro. Hoje uma das coisas que eu vejo, o maior problema aqui no Brasil, por exemplo, das ONGs locais, fazem milhões de coisas mas não conseguem focar numa só coisa porque os projetos são sempre de curta duração. E não tem espaço, não tem recurso pra poder captar recursos. A gente tem que capacitar essas ONGs locais pra buscarem recursos. A fonte nossa principal de dinheiro é nos Estados Unidos, mas elas poderiam também captar dinheiro nos Estados Unidos. A gente ficou captando muito do dinheiro de doadores privados. Nos Estados Unidos a TNC já existe há mais de cinquenta anos, mas quem mais contribuiu pra TNC em termos de dinheiro, são pessoas privadas, doadores que são comprometidos com a biodiversidade que dão dinheiro pra isso. É claro que inicialmente só dava dinheiro nos Estados Unidos, mas hoje muitos deles dão dinheiro para programas internacionais. O nosso papel principal é mostrar que o que nós estamos fazendo aqui tem um impacto na vida deles lá também. Aí você consegue canalizar dinheiro pra cá. Então nós temos um orçamento de X que eu tenho todo ano que buscar dinheiro nos Estados Unidos através do trade shaper da TNC, porque cada estado americano tem um programa de conservação da TNC e nós trabalhamos hoje em vinte e nove países. Então tem certa disputa interna. Eu estou aqui vendendo o programa da Mata Atlântica, mas tem gente que está vendendo o programa da Amazônia, outro está vendendo programa lá da Costa Rica, lá no Peru. Então, o importante é a gente mostrar que o que eu estou fazendo aqui tem relevância, é importante. Temos parceiros fortes. O que faz a gente vender qualquer projeto é mostrar que quem vai implementá-lo são parceiros fortes, com credibilidade. Então esse é basicamente o tipo de ações. Então a gente trabalha desde parte de fortalecimento institucional, compra de área, restauração, à parte de políticas públicas, trabalha muito com o Governo. A gente precisa influenciar o Governo a apoiar esse tipo programa. Então essas alianças que nós fazemos hoje lá em Murici com oito organizações, SOS, TNC, Birdline, SNE, CI, WWF, CEPAN e Reserva da Biosfera, quer dizer, eu sempre acreditei que a única forma que a gente tem de atingir os nossos objetivos e atingir escala, é você fazer alianças. Apesar de todas as dores de cabeça que tem que é inerente a esse processo de estar. Porque todo mundo tem a mesma missão, mas cada um tem um foco diferente. Cada um também as suas particularidades, umas são empresas brasileiras, outras são americanas com escritório no Brasil. Existe certa competição entre todos nós. A verdade é essa. Pra você ver, a história da TNC com a SOS Mata Atlântica começou logo depois que a SOS foi criada. A SOS foi criada em 1986, em 1989 a TNC com essa história de saber que tem de trabalhar com parceiros começou a apoiar algumas atividades da SOS. E, por dois anos, fez um monte de coisas com a SOS, de apoiar coisa inclusive fortalecendo líderes da organização, de ter pessoas daqui indo para os Estados Unidos, vendo como a TNC atua, qual é a visão. É claro que muitas estratégias de lá não se aplicavam diretamente aqui. Nem toda ONG quer comprar terra. Nem todos querem ser donos de uma terra. Então hoje, o SPDS, o nosso principal parceiro lá no Sul com esse projeto de carbono, eles tem três projetos enormes de quarenta anos de duração e tem vinte mil hectares de terra, por exemplo. Imagina hoje com esse negócio todo de invasão, reforma agrária, é uma pressão enorme. E para uma ONG ser dona disso. O pessoal tem muito menos respeito com uma ONG do que com um usineiro, com um proprietário de soja etc. Então nem todo mundo quer essa coisa de comprar terra. E a TNC foi muito forte nisso, a TNC nasceu com esse objetivo. Grupos de advogados e biólogos se juntaram e falaram assim: “Nós precisamos conservar a última biodiversidade do planeta nessas áreas. Qual é a forma de fazer isso? Comprar e tomar conta. Você garante pra sempre aquilo ali”. Então essa filosofia,  ela tentou, é claro, levar pra fora dos Estados Unidos, mas a gente tem outro tipo de realidade. Tem muitos doadores que só dão dinheiro pra compra de terra, porque pra eles é importante ter uma reserva privada lá. Então eu acho que essa questão da SOS, que eu acho que foi uma ajuda de dois ou três anos. A verdade é que foi importante pra a SOS, mas na verdade eu acho que a parceria não andou muito pra frente, porque de repente a SOS era uma daquelas organizações que não queriam comprar terras. Além disso, a SOS nasceu muito forte, com uma personalidade muito forte, com pessoas já bem determinadas, sabendo o que eles queriam. Então a TNC com aquela filosofia americana, vir pra e impor a sua estratégia pra parceria local, não funcionou muito bem com a SOS. A SOS já sabia muito bem o que eles queriam. Então, foi um momento importante para a SOS, o apoio da TNC, principalmente essa filosofia de mostrar grande visão, captação de recursos, ir lá pra fora e etc., mas durou até um certo momento. Depois viu que se a TNC continuasse com essa estratégia de compras de terras, por exemplo, de proteger essas reservas, não poderia ser talvez com a SOS. E foi uma coisa até natural que aconteceu é claro, se você com parceiro não têm muita afinidade, você simplesmente não trabalha junto, é muito fácil. Duas organizações fortes, então tudo bem. O problema é se as duas estejam atirando para o mesmo lado, que é a conservação.


P/1- Miguel, voltando um pouco da sua fala, você falou que quando você vivia na Bahia você usufruía da natureza mas não tinha uma consciência. Aí você viveu em vários lugares, ficou muito tempo nos Estado Unidos. Você acha que eles tratam de uma forma diferente, te chamou a atenção alguma coisa, você quando voltou definitivamente para o Brasil, você olhava de um outro jeito ou não?


R – Com certeza. Porque de novo, lá nos Estados Unidos, principalmente na Costa Leste, quando eu comecei a ver a preocupação que eles tinham com relação à poluição de nutrientes ou pesticidas etc. Até a Agricultura lá que eles faziam, naquela época eles tinham uma preocupação enorme com relação a movimento de herbicida para o lençol freático. Eu trabalhava com solos, mas meu negócio não tinha relação com a água. Então todos os meus colegas que trabalhavam lá, trabalhavam com essa questão de poluição. Aí quem era acusado, eram os agricultores etc. Mas como é que eles descobriram que estava havendo problema? Você é um produtor rural, você começa a beber a água, aquela sua água está poluída, aí você fala: “Puxa vida, aquele negócio está ruim mesmo”. Até você sentir na pele que aquele negócio está fazendo algum mal, você acha que está tudo ali correndo muito bem. Então essa preocupação era às vezes até uma paranoia. Tinha uma preocupação de medir o que tinha na água, porque era um problema. Lá se formava essas grandes comitivas pra estudar esse problema, era um problema sério que acontece isso, lá eles fazem muito mais alarme com as coisas. E aqui, por exemplo, eu me lembro que quando eu voltava até antes, depois, não existia preocupação. O pessoal sabia do impacto, mas ninguém ligava pra esse negócio. Só depois de alguns anos que eu comecei a ouvir aqui que tinha toda essa preocupação. De novo, você aprende muita coisa de lá e vê que aqui é o mesmo problema. Mas lá, por exemplo, na Costa Leste, eu via muitas florestas, aquelas áreas, aqueles parques. De novo, eu usufruía muito do meio ambiente, talvez eu entendesse que aquilo era importante, mas eu não fazia essa relação naquela época que: “Puxa, ainda bem que alguém conservou isso aqui, porque graças a isso que eu estou usufruindo desse parque aqui com os meus filhos”. A gente ia a um monte de parques lá. Esse lugar no Poconos que eu ia, tinha um monte de floresta, e a gente via o impacto que tinha as áreas urbanas e agricultura iam cada vez mais tirando as florestas etc. Mas apesar da preocupação, o pessoal não media esforços também. Áreas que tinham que crescer, tipo State College, floresta é a mesma coisa que nada. Tira, bota um condomínio lá em cima, pelo próprio zoneamento de lá. Então tinha a preocupação, mas por causa do desenvolvimento, o pessoal fazia isso. Mas aqui no Brasil, com certeza eram dois extremos. Ou era tudo ou era nada, por exemplo. Mas até pra eu entender o que era uma ONG, só quando eu vim pra cá que. Lá eu não tinha nenhum contato com ONG, eu já ouvia falar, mas era tão longe do meu mundo, apesar de que eu vivia perto daquilo, mas era... Eu não sei. Eu não sei se isso era bom ou era ruim. Eu também quero saber de tudo, mas também não fico me apegando a tudo que está ao meu lado, porque eu acho que isso pode me distrair. Então eu tento: “Tenho que fazer isso. Esse é o meu papel. Vou ajudar no que eu puder, mas não vou ficar me distraindo ou filosofando”.


P/1- Você só começou a ter mesmo esse contato com ONG, que te chamou a atenção e prestar os nomes, quando você foi pra Curitiba?


R – Curitiba. Porque mesmo com a Winrock International, antes da Cargill que era uma ONG, por exemplo, de novo, eu trabalhei num projeto que era pra viabilizar o plantio de pínus e eucalipto lá na Zona da Mata. Hoje em dia, eu jamais imaginaria que isso é uma solução pra aquele lugar. Mas eu estava preocupado mais de ter uma preocupação com as pessoas. As usinas fecharam, um desemprego enorme. Qual a atividade poderia gerar empregos naquela região? Como é que você poderia ajudar a aliviar a pobreza? Essa era a minha preocupação. Então, hoje na conservação, eu estou a quatro anos na TNC, trabalhando numa empresa que a preocupação é a biodiversidade. Essa é a nossa missão, biodiversidade. Mas eu tenho, às vezes, muitos questionamentos com relação à conservação e pessoas. Eu tenho uma preocupação enorme com as pessoas. Não adianta alguém me dizer: “Faça isso” e simplesmente ignorar que tem pessoas que não estão nisso. Porque eu tenho um compromisso com pessoas, eu gosto de pessoas. E por ter morado na Bahia, lá você vive muito com o povo, lá é diferente. Por incrível que pareça você tem uma relação muito mais forte com as pessoas do que qualquer outro lugar que eu conheço no Brasil. Então eu sempre trabalhei com Agronomia, com proprietários, com muitos trabalhadores, tinha preocupação, então. Pra mim conservação tem que estar tendo um impacto real nas pessoas. Porque de novo, não é questão de filosofia, não consigo ver. Nós temos uma pobreza enorme, então às vezes eu estou mais inclinado a ajudar as pessoas do que a própria missão, porque eu não sou um conservacionista. Muitos dos conservacionistas aqui no Brasil nasceram pesquisando uma espécie X, Y, uma ave, um mamífero, um primata. Eles nasceram nessa história de estar preso à alguma coisa, à alguma espécie de bandeira e tudo. Eu não, eu não nasci assim. Pra eu hoje conservar, tem que ser floresta. É o sistema pra mim que interessa. E o que a gente vai fazer ali? Qual é o impacto que aquilo ali tem nas comunidades em volta, nas empresas etc. Isso pra mim é conservação. É uma forma meio diferente, meio pragmática, mas é aquela história, eu vim de uma área de produção e hoje eu estou aqui do lado, eu tenho que estar pelo menos no meio. É difícil eu dizer assim pra você: “Hoje eu sou um purista, coservacionista”. Não é verdade, não é isso, nunca vai ser isso. Agora, eu com certeza tenho uma preocupação que o que eu faço em conservação, a biodiversidade é pra mim é a coisa mais nobre que a gente deve fazer. Quando eu vejo o outro lado, que é o lado que eu já fui parte dele, que realmente faz qualquer negócio pra poder destruir aquilo e não tem nenhum tipo de escrúpulo. E quando eu vejo que as pessoas derrubam aquelas árvores centenárias, por exemplo, sem ter qualquer tipo de apego, isso me incomoda. Incomoda-me também a forma que as pessoas tratam a natureza. Talvez o que me faz gostar mais da conservação, estar mais comprometido com a minha missão, é saber que o lado de lá não tem muita ética, às vezes com relação a tratar a natureza. Então, eu como fui um cara que sempre gostei de estar muito na linha, muito correto, sempre fui muito preocupado com essa coisa da ética e da honestidade e tudo, quando eu vejo essas coisas que acontecem, todos esses lobbies, essas maracutaias que acontecem aqui desse lado aqui. Não é todo mundo, é óbvio que tem muitas pessoas aqui que fazem muita coisa para a natureza. Mas, as pessoas que destroem, são pessoas que realmente são ruins. E isso me faz mais ainda saber que o que eu estou fazendo é importante, porque nós temos que deixar isso aqui pra alguém. Eu não consigo ver assim as pessoas no futuro não terem florestas, não terem a paisagem nativa e poder usufruir. Imagina assim, as pessoas no futuro não conseguirem viver num parque, numa floresta. Hoje eu entro em um parque ou em qualquer lugar de florestas, aqui ou nos Estados Unidos. Qualquer lugar em que eu entro que eu vejo árvores grandes, muda a minha cabeça. Ali já me sinto num lugar assim, eu aprecio aquilo ali. Eu vejo aquela árvore ali e penso: “Puxa, como vai estar daqui a cem, duzentos anos?” É um lugar de inspiração. Eu vou para esses lugares e fico filosofando na minha cabeça. As grandes ideias pra mim é quando eu estou dentro de uma floresta, adoro campo até hoje. Mesmo que meu trabalho hoje, apesar de que é captação de recursos, mas eu sempre preciso estar envolvido com algum projeto no campo. Eu preciso estar no campo sempre. Se eu não estiver lá, eu não sei o que está acontecendo, não consigo nem me inspirar e nem nada. Então eu tenho que estar no meio da floresta. Eu vejo uma mata que nem essa aqui, puxa! É um prazer que eu tenho de estar lá dentro. Quer dizer, demorei pra ter essa oportunidade. Mas eu quero que pessoas tenham essa oportunidade bem mais cedo do que eu tive. Porque realmente quando você vê a importância daquilo ali, a água que você bebe, tem relação com a floresta. Estou no Mata Atlântica, onde eu estou agora. A gente depende disso daqui e tem um valor econômico enorme isso. Você pode fazer uma coisa na floresta sem derrubar ela e que pode trazer um monte de outros benefícios. Hoje eu vejo a floresta, todo esse negócio que a gente fala de restauração, meu sonho é o Lula vendo o quanto que plantar árvore pode ajudar a resolver o problema da agenda social. Imagine você poder plantar milhões de hectares, envolver as comunidades, coleta de sementes, preparar viveiros, plantar no campo. As pessoas terem essa cultura de plantar árvores, recuperar sistemas, algumas dessas espécies para poder plantar pra benefício próprio. Quer dizer, você tem uma oportunidade enorme, só que é um processo, nosso presidente tem outras prioridades. Mas eu, pra mim, é isso que vai acontecer, esse grande programa para o Governo vai colocar dinheiro nessa questão de recuperação de florestas, ou produção de florestas. Porque vai enxergar que a forma mais barata de cuidar da nossa água, que essa água é para consumo, pra energia etc. Então vão produzir essas florestas, vão plantar árvores, porque vai gerar emprego nessa área rural. Vamos parar de trazer esse pessoal da área rural pro urbano que custa muito mais caro. Vamos realmente resolver o problema social. Quer dizer, tem tanta coisa legal pra fazer. Meu sonho na verdade, eu quero ainda ter um dia a minha própria floresta e plantar minhas árvores no final de semana. É uma terapia, só que o pessoal fala que se eu escolher um hobby que é muito parecido com o que eu gosto de fazer, não é um hobby; então, eu vou estar trabalhando no final de semana. Mas meu sonho é esse.


P/1- E a sua relação com a Mata Atlântica? Conhecê-la mais e saber o que ela representava só se deu nesse período?


R – É, mas apesar de eu ter morado em vários lugares da Mata Atlântica e por ter tido experiência com vários tipos de paisagens, por exemplo, hoje quando eu vou lá para o Nordeste, todo ano, eu vejo lá toda aquela destruição, aquele fogo, aquela queima. Eu tenho muita relação porque você pode morar em todos os lugares, mas no fundo, você tem a raiz. Apesar de que eu falo que às vezes eu não tenho raiz, quando eu vou pra Bahia, eu me sinto bem à vontade. Eu não preciso ficar ali muito tempo, mas se eu ficar ali duas semanas, já vi o suficiente pra falar: “Puxa, realmente eu gosto desse lugar aqui”. Então, eu por ter morado mais na Mata Atlântica e saber que a maioria da população capital, já viajei muito pelo Nordeste na época da faculdade, de pegar moto e andar por, ir até Fortaleza, quer dizer, eu conheço um monte de cidade, daqui do litoral. Hoje Mata Atlântica pra mim, eu não consigo, apesar de que a nossa missão é a conservação da biodiversidade, eu não me vejo indo lá para a Amazônia, por exemplo. Pra mim é questão do desafio da Mata Atlântica, é questão de ver que tem tanta riqueza ainda e tão poucos remanescentes que você se sente mais importante aqui do que ir para a Amazônia, por exemplo. Eu não tenho nenhuma expectativa, nenhuma vontade de trabalhar num lugar como a Amazônia. Que apesar que tem um desmatamento enorme lá hoje, eu não vejo como um desafio tão grande como o que está aqui. Aqui é um desafio. Eu gosto também de lugar assim onde tem aquela pressão, onde está difícil de fazer as coisas. Porque se você fizer a diferença ali, aí você consegue falar: “Puxa, eu fiz a diferença”. E toda essa briga, essa pressão que tem aqui é o que me deixa bem à vontade aqui na Mata Atlântica. Eu não sei, eu adoro a Mata Atlântica, a verdade é essa. Você vai pra uma praia, de novo, fomos voltar pra uma praia, litoral de São Paulo, praia e a mata. No Nordeste não tem isso. É praia, coqueiro, é tudo. Eu consigo ver beleza nos dois, mas uma praia com uma mata, é tão bonito aquele verde, dá aquela mistura no ambiente! Então a floresta pra mim hoje é uma coisa que eu adoro realmente. Imagine, eu nunca pensei que eu ia adorar. Mas hoje eu ando numa trilha, faço questão de molhar meu pé, faço questão de me sujar todo ali. Ainda tenho essas vontades, porque é muito bom. Não me incomodo de nada que tenho ali, eu gosto de estar no meio daquele ambiente.


P2 – Atualmente qual é a relação entre a TNC e a SOS?


R – Então, teve essa parte histórica que a TNC teve um papel importante na formação da SOS, nesse apoio inicial, que não durou muito tempo, eu acho que foram dois, três anos. Mas com todos que eu converso, SOS, TNC, foi um apoio muito importante. E somente de novo, pra ter essa relação de estar levando pessoas daqui para os Estados Unidos pra poder ter um outro tipo de visão. Porque a TNC, por ter cinquenta anos, quer dizer, é muito grande, muito ambiciosa. Então, isso foi muito importante. Hoje, desde que eu comecei a trabalhar na Mata Atlântica, em 2000, 2001, claro que SOS pra gente sempre foi uma referência. Trabalhando na Mata Atlântica, SOS Mata Atlântica é óbvio há uma referência. Então independente de se saber o histórico da TNC com a SOS, na época, é claro que a gente já sabia que tinha cinco ou seis organizações na Mata Atlântica, que eram os grandes grupos que a gente já devia trabalhar e SOS era uma delas. Então, logo no começo, a gente começou a ver essa parte de mapeamento, remanescentes de florestas; ouvi falar do Mantovani, da Márcia Hirota, do Klabin, por exemplo. Mas como o Joe era o diretor do programa, meu negócio era trabalhar ali no campo, executando as coisas. Começamos a organizar alguns workshops de sequestro de carbono, começamos a ter aproximação com várias ONGs, não só com a SOS, mas, com várias. Mas uma relação tipo assim: “Eles tem a missão deles, a mesma missão da TNC, mas atividades diferentes”. Nosso negócio era trabalhar em algumas eco regiões. Como SOS estava em São Paulo, estava fazendo várias coisas, não tinha muito valor agregado aqui. Mas é claro que tinha que conversar com uma das maiores organizações de conservação, que é a SOS. Mas quando era essa parte de mapeamento que nos interessava muito saber onde é que tem floresta, pelo menos eu comecei a procurar na SOS, a Márcia, o Mantovani sempre o via, mas nunca falava muito com ele. Mas com a Márcia eu comecei a me aproximar mais na parte técnica das coisas, parte mais de ciência, de mapeamento todo. E é óbvio também que desde que eu comecei a trabalhar com a TNC, foi uma coisa que sempre foi muito boa e espero que vá ser sempre assim, é que tudo que nós fizemos, sempre tivemos um prazer enorme de disponibilizar dados. Nós nunca seguramos nada com a gente. Toda essa parte de projeto de carbono que era o forte da TNC, nós fizemos questão de capacitar quarenta organizações e desenvolvemos um monte de ferramentas e demos essas ferramentas pra todo mundo. Nós nunca seguramos nenhuma informação, nós nunca seguramos nada de conhecimento. Nosso negócio era quanto mais pessoas sabendo, mais pessoas discutindo sobre o assunto, melhor e mais fácil a gente chegar lá. E sempre procurei fazer muitas parcerias e alianças. Mas as pessoas são meio territoriais. As organizações são territoriais: “Ah, isso aqui é meu expertise”. E eu sempre falo: “Puxa, vamos trabalhar juntos, eu acho melhor. Vamos unir esforços. Vamos parar com sobreposições”. Sempre usando o exemplo de sobreposições pra poder evitar de todo mundo fazendo à mesma coisa. E acontece. Então há dois anos atrás nós fizemos um evento de troca de informações geográficas. E é claro que a SOS é uma das grandes organizações, mexendo com mapeamento, conosco sentou a Márcia Hirota, eu e a Sílvia Ziller, que trabalha com a gente, e falamos: “Vamos fazer esse evento juntos?” Mesmo com um evento que a gente queria fazer sozinho, podia fazer sozinho, pra mim não tinha sentido nenhum sem ter a Márcia Hirota, por exemplo, a SOS. “Vamos fazer e tal”. E começamos a trabalhar junto. E o contato até então com a SOS foi sempre essa história de dados de mapeamento. Nós tínhamos interesse de ter atualizado os remanescentes, então sempre enchendo a Márcia Hirota: “E aí Márcia, cadê os dados? Cadê isso? Cadê aquilo?”. E de repente quando surgia aquela história lá em Murici, de trabalhar em toda a eco-região, na minha cabeça e na cabeça de outras pessoas desse grupo, era de fazer uma grande aliança. E quando a SOS, apesar de que ela não estava muito ligada lá, talvez trabalhou lá ano passado mas não tinha nenhuma ligação, houve a chance de levar o Klabin lá pra Murici e a SOS. Então, logo, logo enxergamos que seria muito legal se tivesse um grupo de organizações, sem questionar o que cada um estaria agregando no processo. O importante é ter um grupo de organizações, oito, nove, dez ou quinze que seja, fazendo lá. Porque às vezes tem muito aquela história: “Com o que é que você vai contribuir? Ah, você não vai contribuir? Então não faz parte do meu grupo”. Pra mim foi sempre aquela história: “Quanto mais juntos, mais nomes, melhor pra poder influenciar o Governo a fazer alguma coisa lá pela região”. E aí nos reunimos pela primeira vez num pacto juntos, num namoro de entendimento, oficialmente com a SOS lá em Murici. E desde então nós temos tido uma relação super próxima e a gente espera fazer ainda muito mais, por exemplo. Mas, Murici, eu acho que foi o primeiro exemplo. Nesse meio, eu me sinto muito à vontade. O desejo é de fazer essas alianças, parcerias. Mas eu tenho certeza também que se não fizer essas alianças, apesar de que vai ter um pouco de sobreposição de ações, é óbvio, mas eu acho que está todo mundo olhando na mesma direção. Então me interessa se um está fazendo aqui o outro está fazendo ali, importante é. Na verdade devia ter cinquenta SOS, cinquenta TNC pra poder fazer aquilo que tem que ser feito aqui na Mata Atlântica. Então, trabalho tem pra todo mundo. Eu acho que recursos são limitados. Nós temos que ser estratégicos, mas está todo mundo olhando na mesma direção. Então, enquanto nós estivermos olhando na mesma direção e mantendo uma boa relação, nós estamos abertos pra trabalhar de qualquer forma. Mas eu acredito realmente numa parceria forte com a SOS. Agora, a água, por exemplo, nós temos interesse de trabalhar com a questão da água nas florestas. Puxa, a SOS está envolvida nisso aí, é obvio que eu não vou ficar inventando nada, quero mais é saber como é que eu posso agregar valor no negócio da SOS. Já conversei com o Mantovani e tudo, eles estão super empolgados. O importante é a gente estar ali juntos. Se a gente pode fazer mais, então vamos fazer mais. Então, estão super animados com essa expectativa de trabalhar agora com a SOS, com essa questão de água e floresta, ampliando essa rede água, por exemplo. Puxa, já mandei e-mail lá pra TNC, lá no Fernando Veiga, e disse para o meu colega: “Puxa, tem que fazer agora isso aqui. Encontrar com o Mantovani e marcar uma reunião agora com ele e vamos botar isso aqui em marcha”. Então estamos com novas perspectivas de fazer parcerias com a SOS. Uma coisa muito natural, então, tudo que acontecer tem que ser bem natural. Não pode a gente forçar a barra: “Ah, porque isso aqui é bom. Porque...” Não interessa. Vamos fazer coisa que seja bom pra todo mundo.


P3 –Miguel, quais são as perspectivas para a Mata Atlântica na sua opinião?


R – A visão que nós temos que teve esse evento aqui, agora, uma das coisas que ficaram um pouco em aberto é tipo assim: “Qual é a nossa visão para a Mata Atlântica? O que é que a gente quer disso aqui? A gente fala sempre de ações e estratégias, como é que a gente quer falar de ações e estratégias sem saber aonde é que a gente quer chegar? O que nós queremos aqui?”. Então o Rui Rocha do Instituto Floresta Viva, eu e outras pessoas, nós falamos: “Nós temos que colocar um número nisso aqui. Eu queria ver pelo menos nos próximos quinze, trinta, quarenta anos de ter uma cobertura florestal na Mata Atlântica, sair de sete por cento pra vinte e cinco, trinta por cento. Por quê? Porque por lei você deveria ter vinte por cento por causa de reserva legal. Então no mínimo tem que ser o que é a lei. Mas as áreas de preservação permanente, de três, quatro e meio, vinte e cinco por cento. Então, a nossa visão, que eu gostaria de ver todo mundo abraçando isso e falando: “Daqui a trinta, quarenta anos, nós queremos ter trinta por cento de cobertura florestal na Mata Atlântica, pelo menos na área prioritária para a conservação da biodiversidade”. Ter grandes corredores, grandes paisagens e tudo isso pra gente chegar lá, nós temos que estar ajudando no cumprimento da lei, valorar floresta, a relação dela com água, usar dinheiro que vai ser arrecadado pela cobrança de água pra poder fazer a restauração, ter o nosso amigo Lula, presidente Lula está botando dinheiro dele da área social pra poder fazer reflorestamento, trazer muito dinheiro de fora pra poder estar resolvendo esses modelos pra mostrar que o que nós estamos falando é verdade. Agora, temos que ter uma visão porque nós temos que estar sendo medidos a cada ano. Na TNC, eu falei pra todo mundo do grupo: “Nós estamos medindo ano a ano o que nós estamos fazendo. Nós temos metas a cumprir e no final do dia são números de hectares, números de parceiros, números de árvores plantadas. Então nós temos que ter uma meta. Se é trinta por cento, quanto isso representa em hectares? E vamos monitorar todo ano através dos mapeamentos da SOS e do INPE pra saber se nós estamos aumentando a cobertura florestal. Então, sem visão, eu não sei aonde é que eu vou chegar. Nós temos que ter essa visão. É ambiciosa? É melhor ter uma bem ambiciosa do que ter uma abaixo. Se você for, levante pra você poder chegar lá. Agora se for uma coisa: “Ah, não é possível”. “Como não é possível? Alguém já tentou fazer isso aí? Vamos tentar fazer e ver se não é possível?”. E vamos medir todo ano e ver o progresso aí. Agora dizer que não é possível e já começar assim, não vai funcionar. Não quero daqui a dez anos ver sete por cento de novo, a gente falando de sete por cento, porque isso vai ser provavelmente a maior frustração que eu posso ter trabalhando pra conservação. É saber que nós não tivemos nenhuma evolução de florestas na Mata Atlântica. Em toda essa pressão, em todo esse valor que tem, se a gente não fizer isso, não estamos cumprindo a nossa missão.


P3 – E teve alguma campanha da SOS que tenha te marcado de uma maneira especial? Alguma que mesmo antes de você começar a trabalhar mais intensamente com a SOS, mas que você tenha conhecimento?


R – Não. Não antes de eu trabalhar realmente na área de conservação. Mas a SOS, eu já tinha ouvido falar pelo próprio logo da SOS, então, todo mundo... De novo, fala da Mata Atlântica, em primeiro lugar você vai ouvir falar da SOS Mata Atlântica. O próprio nome diz SOS Mata Atlântica. Quer dizer, isso foi uma coisa muito esperta de se fazer, isso conseguiu chamar atenção. E a SOS é muito boa no marketing. Eu até falo para a Márcia, várias vezes, que eu tenho o maior prazer, eu gosto muito de correr, eu tenho o maior prazer de vestir a camisa da SOS, de estar lá no Bariri, lá em Curitiba, correndo. Ela é boa de marketing e isso ajuda a sociedade a realmente ver a importância. O pessoal olha assim e diz: “O que é que é isso?”. Daqui a pouco olha e se entende o que está ali, é muito fácil, sensibiliza as pessoas. O que não consegue é atingir milhares de pessoas ao mesmo tempo, mas a SOS é muito boa de fazer isso. No fundo até a gente que está na área ambiental se sensibiliza com isso. Eu não preciso convencer ninguém de conservação pra fazer o que eu quero fazer. Mas também, se você fica sensibilizado com esse tipo de coisa, com esse orgulho todo, é porque aquilo está sendo muito mais efetivo do que era pra ser. Agora, você, te ajudar a levar aquilo ali pra sociedade. Quando todo mundo acreditar que é importante plantar árvore, que é importante proteger a sua floresta, nós estamos bem. É isso que nós temos que fazer. E a SOS pode ter um papel fundamental nisso, que é a campanha da SOS, esse “clickarvore”, por exemplo, é fantástico! Então, essa relação com empresas, a TNC sempre teve uma relação muito forte com empresas privadas também, até hoje. Às vezes a TNC é muito criticada por causa dessa relação forte com empresas que eles consideram empresas sujas. Pra mim, eu não acredito nisso. Acredito em interesses comuns pra poder trabalhar no que é comum pra todo mundo e atingir seus objetivos. Então essa coisa da SOS trabalhando, por exemplo, com o Bradesco, tudo isso eu acho fantástico! Eu olho essas coisas assim e eu quero mais é que todas as empresas pensem assim e apoiem todos os grupos que tem de conservação pra poder atingir a missão. Aí nós vamos chegar lá. Porque eles têm um poder muito grande. A partir de quando as empresas acreditam nisso e a SOS é um exemplo vivo disso. O Bradesco? O Bradesco tem o maior orgulho. Não interessam quais são as razões do Bradesco pra fazer isso. Interessa que eles têm orgulho de dizer que estão ajudando a SOS a plantar alguns milhões de árvores. Puxa! Quando eu olho isso eu falo: “Eu quero que tenha dez milhões de árvores, cinquenta milhões de árvores. Não interessa quem faça. Plante. Um dia todo mundo vai achar que é importante fazer”. Então, a SOS tem esse papel super importante, toda essa articulação e essa relação com empresas, eu acho fundamental. E toda essa visão empresarial é muito importante pra conservação. A gente não pode ser filosófico com relação a isso, é preto no branco. Tem que ter valor, tem que justificar e tem que fazer. Se ficar muito filosofando: “Sou contra isso, contra aquilo”. Que energia você está perdendo pra fazer? Você tem que ser contra algumas coisas, mas não ficar se lamentando: “Estou perdendo tudo”. Isso não vai levar a gente em lugar nenhum.


P/1 – Miguel, do macro pra o micro, como você vê os problemas ambientais hoje? Quais são os mais graves?


R – Aquela velha história, ainda há pressão. Apesar de que nós temos só sete por cento da Mata Atlântica, a pressão dos grandes setores, por exemplo, setor florestal que a gente sabe que vai continuar expandindo, de pínus e eucaliptos. Apesar de que aumentando esses serviços, veem como uma grande ameaça, eu vejo eles como uma grande oportunidade. Porque eles vão fazer de qualquer maneira. Então, como é que eles vão fazer isso e ao mesmo tempo conservação? Então são oportunidades. O setor agrícola, por exemplo, a soja, toda essa demanda pelo mercado, eles vão expandir em algum lugar. É claro que hoje eles expandem muito mais na região do Cerrado, eles estão subindo um pouquinho lá na Amazônia. Mas o setor de soja, cana de açúcar, todos esses setores exercem uma pressão enorme nos outros remanescentes, porque têm poucos remanescentes, todos fragmentados, então é muito fácil você se livrar desses remanescentes. Então essa pressão e essa falta de percepção, por exemplo, até no Brasil as prioridades são os agronegócios, é trazer dinheiro de fora pra cá. Você tem que exportar. Então isso pra gente, tudo isso que acontece lá é uma pressão enorme. Tem muita gente que sai dos Estados Unidos hoje, as empresas que compram áreas aqui pra expandir suas operações, porque aqui é mais barato, as áreas são mais baratas, mão de obra etc. Então esses grandes setores, setor de energia, por exemplo, quantas barragens vão colocar nos rios daqui pra frente? Quantos PCH vão colocar, por exemplo? Essas grandes obras de infraestrutura em lugares que nem foram ainda explorados, isso exerce uma pressão enorme. Agora, como é que a gente pode se antecipar a isso? É realmente saber quais são os planos do Governo, nós temos que ter acesso. O que é que o Governo quer fazer nos próximos dez anos de infraestrutura na Mata Atlântica? Temos que descobrir isso daí. Outra coisa, toda essa expansão urbana, por exemplo, a gente pensa assim: “A população urbana não está crescendo muito, não tem muita expansão”. Puxa, tem uma expansão urbana enorme. Então se a gente não convencer as pessoas urbanas que a floresta é importante, se a gente não convencer eles de que aquela floresta lá fora é que está ajudando a fornecer água pra eles, que é importante conservar aquilo ali, a gente nunca vai conservar. Você vai conseguir fiscalizar, proteger, etc; mas no fundo, não é uma coisa sustentável. Comunidades locais. Quem é que no fundo vai ser os grandes tomadores de conta da nossa floresta, pelo amor de Deus?! As comunidades rurais. Se eles não enxergarem valor naquele negócio ali, vai ser a vida inteira nós colocando guarda, parques naquelas áreas, unidades de conservação e evitando que alguém vá lá caçar algum bicho lá. Então ele tem que enxergar valor. Como? Puxa, você criando uma unidade de conservação, tendo todo um trabalho em torno dela. Você tem que fazer atividades, plantio de árvores ou o que seja que traga algum valor pra eles. “Puxa, esse plano não está coletando semente...” Se você pensar, isso é meio filosofia. Não é filosofia. É que nós, às vezes, ficamos tão presos com relação à proteção do que tem, porque a ameaça é tão grande, que nós não estamos olhando pra fora dessas áreas. Nós temos hoje, muita gente vai falar da paisagem. A gente não trabalha com uma espécie, tamanduá bandeira, por exemplo, uma ave etc. Não. Nós trabalhamos na paisagem. Quando você olha uma paisagem, é o que vai te dar a visão. Na paisagem vai ter seu pínus, eucalipto, sua soja etc, mas se dentro daquela paisagem você tiver corredores e que aqueles corredores realmente vão abrigar aquela biodiversidade que é importante pra você, acabou. Vai ter soja no meio, não interessa. Vamos trabalhar com eles. Esses caras têm que cumprir a legislação. Vamos ajudar os caras a cumprirem a legislação. O que falta na verdade, o nosso desafio hoje, é que falta realmente os incentivos econômicos pra poder conservar essas áreas e restaurar essas áreas. E nós sabemos hoje que tem vários benefícios diretos da floresta que justificariam isso. Só a questão da água vai ser a oportunidade nossa, vai ser a água. Se você começar a cobrar pelo uso da água em bacias e mostrar que a floresta é um dos grandes responsáveis por aquela água limpa, aquela quantidade de água, aquilo ali por si só. Você tirando algum dinheiro daquela cobrança de pagamento e botar de volta pra floresta, eles vão pagar direto. Então quem tem floresta: “Opa, estou recebendo um dinheiro aqui e tal”. É pagamento direto. Na RPPN é uma coisa muito legal você criar uma reserva privada voluntária e tudo, mas tem criar incentivo. Quais são os outros incentivos? “Não paga imposto da terra?”. Você tem que mostrar que a floresta é tão importante quanto a soja. Você tem que valorar aquele negócio. Aquilo ali só vai ser produtivo se tiver valor. Se todo mundo enxergar e aquilo ali não tem valor, que só nós que gostamos disso, não adianta. Então você tem que dar, valorar aquele negócio lá. Infelizmente é questão do mercado. Então você valorando está todo mundo bem. Então se é bom pra carbono, pra sequestro de carbono, você vai ter algum mercado pagando por isso? Proteção, restauração? Esse é o nosso papel. Pra mostrar que isso é verdade. Que isso é uma coisa real e pode ser medida. Então aí você consegue. Mas a pressão, é impressionante como até hoje nós estamos vendo recordes de desmatamento, por exemplo, na Amazônia, estamos vendo desmatamentos na Araucária onde tem menos de um por cento de florestas intactas e você pode ir lá todo dia, alguém está destruindo alguma coisa. Não existe qualquer tipo de escrúpulo das pessoas, quando elas querem fazer alguma coisa não pensam nem duas vezes. Eu acho que nosso maior desafio é que a gente precisa ter uma visão a longo prazo nas coisas. Nós não temos visão de longo prazo. Por isso que eu gosto dessa visão de daqui a trinta, quarenta anos ter trinta por cento de cobertura florestal. Porque as pessoas falam assim: “Dois, três, quatro anos...” é visão de longo prazo. Nós não conseguimos ter essa visão num país que nem o nosso, mas a gente vai ter que começar, só assim a gente vai chegar nesses trinta por cento. Curto prazo não vai funcionar pra gente.


P/1 – E Miguel, você sempre gostou de tudo que você fez, pelo seu depoimento. Qual peso hoje que tem a questão ambiental na sua vida?


R – Hoje, na minha vida, me anima estar fazendo o que eu estou fazendo. Eu sempre falo para as pessoas: “Conservar é tão difícil”. A gente fica discutindo cada coisa numa área pequenininha de floresta, trezentos hectares, toda dificuldade pra proteger aquele negócio lá e falo: “Puxa, como é difícil conservar! Se fosse pra plantar soja e tudo, seria tão mais fácil! Era só fazer isso, isso, isso”. Eu acho que se não fosse por esse compromisso, essa vontade de fazer a diferença e de enxergar que isso é uma coisa viável, eu não estaria realmente trabalhando nessa área ambiental. É questão do compromisso. Nós temos que fazer uma coisa que eu considero sem filosofia, uma coisa nobre realmente. Infelizmente, se eu puder convencer meus filhos de que a natureza é importante. Mas é difícil, porque tudo é essa questão de computador, informática, urbano, eles tem essa dificuldade de enxergar que isso é importante. Então, eu acho que hoje, um dos nossos desafios, na verdade é educar pessoas novas pra poder ver como é importante essa parte ambiental. Mas pra mim o meio ambiente hoje é o meu driver; como eu estou te falando, o meu sonho é ter uma área aonde eu possa plantar as minhas árvores, vendo aquele negócio crescer. Eu gosto de ver árvore crescendo, mas eu quero estar num lugar em que eu possa ver todo dia crescendo. Porque você tem que estar perto daquele negócio lá. Vendo uma árvore, de repente pousa uma ave que pousou aqui, foi ali. Eu sou tão ligado a esse negócio que eu espero realmente estar muitos anos trabalhando nessa área. Eu não sei o que vai acontecer, mas já fizemos muitas coisas boas, todas as organizações estão fazendo coisas diferentes, mas nós temos que mudar bastante. Se a gente quer atingir esse objetivo maior, nós vamos ter que mudar muito a forma que nós estamos trabalhando, porque nós temos que ter uma escala que ninguém nunca pensou nessa escala. Já foi a época de proteger aquilo ali. Eu quero saber como é que a gente vai sair daqueles sete para os trinta por cento. E a gente vai ter que mudar muito a filosofia que a gente está trabalhando. Ser bem mais estratégico e largar as coisas pequenas. Infelizmente tem coisas que nós vamos ter que abandonar, a gente tem que focar no longo prazo que vai nos dar muito mais.


P/1 – Miguel, a SOS está completando dezoito anos. Você quer deixar algum recado pra ela, alguma coisa a falar?


R – Não. Eu só espero realmente que a gente possa fazer muitas coisas juntos. Eu gosto muito dessa coisa de parceria, aquela coisa da confiança de estar todo mundo fazendo alguma coisa juntos e de estar todo mundo falando: “Isso aqui é nosso”. Eu espero que nos próximos anos, todas as organizações sempre vejam que aquelas coisas que nós estamos fazendo é nosso mesmo. Não estamos fazendo pra organização e sim pra sociedade. E eu desejo realmente que a SOS continue tendo muito sucesso como ela tem tido, essa influência dela. Eu acho que ela é uma referência pelo próprio nome, pela própria simbologia, pela própria liderança dela, realmente dela. As pessoas que estão no SOS hoje, a liderança, é coisa que inspira muito as pessoas. Eu espero que pelo menos as pessoas que estão no SOS, continuem no SOS, porque muitas coisas que nós fazemos também têm muito aquela coisa pessoal, muita coisa de relação, de confiança, de inspiração. Então, a gente não pode perder essas pessoas, mas nós temos que fazer mais Klabins da vida, os Mantovanis, as Márcias Hirotas etc. Temos que realmente multiplicar essas pessoas, porque isso é que vai garantir que o que nós estamos fazendo lá vai continuar. Então para o SOS eu agradeço todas as oportunidades. Nós estamos sempre juntos e eu acho que nos últimos anos nós temos tido mais oportunidades de estar juntos e... É esperar que a TNC possa talvez... A minha contribuição na TNC deu pra SOS, em 1989, 1990, 1991 alguma coisa assim, que a gente possa fazer esse mesmo tipo de contribuição. Que quando eu vejo as pessoas falando sobre o que foi feito, com grande valor. Eu espero que a gente encontre alguma coisa também importante, que a TNC possa agregar na SOS e que também a SOS possa agregar na TNC. É isso que eu espero realmente. Essa relação aberta e de confiança nos próximos anos, porque a gente tem muito trabalho pela frente.


P/1 – Você queria falar alguma coisa que nós não te perguntamos, que você esqueceu de falar?


R – Eu não. Eu acho que vocês realmente me ajudaram a voltar bem no passado. A vida é tão dinâmica, não é? Hoje, o tempo vai passando rápido e a gente nunca tem tempo de parar e ficar pensando no passado. Mas é tão bom voltar atrás e lembrar nas coisas. Eu com certeza deixei de falar um monte coisa. Mas pelo menos me deu a oportunidade de fazer um pouco de histórico do que tem acontecido. Como é que eu mudei tanto do que eu era, do que eu sou hoje em dia. E eu sempre falo para os outros: “Eu tenho muita sorte de ter o que eu tenho, de fazer o que eu faço. Eu sou um sortudo!”. Eu falo para o meu chefe várias vezes: “não sei por que eles me pagam pra eu fazer o que eu faço?”. Mas de repente eu tenho algumas obrigações de pagar as coisas. Mas é muita sorte realmente de estar entrando numa... Eu acho que é o finalzão, não é? A conservação da biodiversidade é a última coisa que a pessoa queria estar fazendo pra fazer a diferença. Agora, eu quero ver aquilo tendo realmente um impacto nas pessoas. Isso pra mim é importante. Porque quando você vê uma pessoa da comunidade falando assim: “Puxa, como eu era isso, hoje em dia eu sou aquilo? Como é bom estar aqui”! Eu acho que isso vai fazer a gente conservar. São essas pessoas que vão passar pra outras e pra outras a importância. E, na área rural, hoje em dia tem tanta pobreza e muito dessa pobreza que tem é resultado dessa degradação ambiental. O que mais me incomoda de falar bem a verdade é que, tanto o desmatamento foi feito e na maioria dos lugares onde ele foi feito, o que é que ele deixou lá? Se tivesse gerado uma riqueza para as pessoas, uma coisa sustentável para as pessoas eu até falaria: “Puxa, claro. Você não pode só ter floresta, você tem que plantar soja, expandir, tem que gerar riquezas”. Mas muitos lugares... Eu ando hoje lá no Nordeste, uma pobreza enorme, consideração de renda, e eu falei: “E as pessoas daqui meu Deus do céu? O que é que ganharam com isso daqui?”. Que era a maioria das pessoas. Nada. Então, isso que me frustra muito. É ver o quanto que a degradação nos lugares não gerou nenhum tipo de riqueza, a não ser pra cinco pessoas, mas o resto, está todo mundo na pobreza. E quem é que está olhando para essas pessoas? Nem as pessoas da área social estão olhando muito para as pessoas. Então, meio ambiente tem que tomar cuidado pra não querer fazer tudo. Que a gente não pode cuidar da educação, da parte social e etc. Mas nós temos um papel enorme nisso aí, de articular os outros atores nessa questão. Mas eu acho pra mim, eu quero ver essa parte de conservação ter impacto nas pessoas, porque eu não fui treinado a proteger essa e aquela espécie etc. Aprecio quem faz isso, ainda bem que tem alguém que faça isso pra poder justificar o que nós estamos fazendo. Mas eu quero ver fazer a diferença nas pessoas. O dia que o Lula falar: “Puxa, plantar árvore é bom. Está empregando um monte de gente e tal”. Eu acho que aí eu vou estar realizado realmente.


P/1 – Você quer falar mais alguma?


R – Não.


P/1 – Então, nós te agradecemos pelo seu depoimento. Obrigado por ter ficado com a gente essa manhã.


R – Obrigado vocês pela paciência aí e pela oportunidade.


P/1 – Imagina.


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