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História

As mudanças na escola

História de: Maria de Lourdes Gonçalves Costa (Udi)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/05/2011

Sinopse

Conhecida como Udi. Nasceu em São Paulo. Mais nova de cinco irmãs. Estudos em escola pública e particular. Primeiro emprego no Hospital Santa Marta. Trabalho num escritório de contabilidade, numa fábrica de doces. Trabalhou mais de dez anos na Escola Cidade Jardim/PlayPen. Faculdade de Pedagogia. Organização de eventos na escola. Transição da escola para o prédio novo. 

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História completa

P/1 – Maria de Lourdes, boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Obrigada por você ter vindo.
R – Eu que agradeço. 
P/1- Eu queria começar pedindo pra você contar pra gente seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Eu me chamo Maria de Lourdes Gonçalves Costa, conhecida na PlayPen como a Udi, e eu nasci dia 11 de fevereiro de 1967, sou aquariana. (risos)
P/1 – Você nasceu onde? Aqui em São Paulo? 
R – Eu nasci em São Paulo.
P/1 – E o nome dos seus pais? 
R – Meu pai chama-se Agostinho Gonçalves Costa e minha mãe, Maria José Silveira Costa.
P/1 – E eles são de onde? 
R – Meu pai nasceu em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, e minha mãe é mineira, mas eu não me recordo agora da cidade. 
P/1 – E o que eles faziam?
R – Meu pai era militar e a minha mãe era dona de casa, né? Não teve profissão.
P/1 – E você conheceu seus avós? 
R – Conheci. Por parte de pai. A minha mãe, os pais dela faleceram quando ela era muito nova. E o meu pai, eu não conheci o avô, e a minha avó, sim, né? A vó Maria, sim. 
P/1 – Ela morava com vocês? 
R – Não, não, eles moravam em Cruzeiro mesmo.
P/1 – Certo. E você tem irmãos? 
R – Tenho seis.
P/1 – Seis irmãs? 
R – Seis irmãs.
P/1 – E onde você está nessa escadinha?
R – Eu sou a última. 
P/1 – A última?
R – A última. O resto, então, imagina, né? Tenho seis irmãs, graças a Deus.
P/1 – Então a infância deve ter sido bem agitada.
R – A minha casa sempre foi muito animada, a minha família é... Nós somos muito unidas. Hoje eu não tenho mais, infelizmente, meu pai e nem minha mãe, mas continua a família. Hoje minhas irmãs são casadas, têm seus filhos, né? E a família foi crescendo, graças a Deus, mas continuamos todas sempre unidas, onde vai uma, vão todas.
P/1 – Onde era a sua casa na infância aqui em São Paulo?
R – O mesmo lugar que hoje é. A minha família é... Nós moramos no Jardim São Luís, que é um bairro da zona Sul, que é próximo ao centro empresarial. E meu pai comprou lá a casa, né? E a minha irmã... Eu tenho uma irmã que até nasceu lá, uma irmã antes, a penúltima, né? Eu sou a última. Ela chegou até a nascer na casa mesmo, e hoje, se for contar, é uma família que mora no bairro há quarenta anos, mais ou menos. Mais, né? Quarenta e cinco, mais ou menos. 
P/1 – E como é que foi sua infância nessa casa com mais cinco irmãs mais velhas? 
R – Ah, sim, a minha infância... Minhas irmãs trabalharam muito cedo, né? Porque eu perdi minha mãe com nove anos, então as minhas irmãs mais velhas, que é a Marília, a Maria Auxiliadora e a Suzana, que são as mais velhas, elas que praticamente assumiram, né, as menores. E, assim, não tinham muito tempo de brincar, de sair. Meu pai era militar, então foi uma criação bem rígida e meu pai também não era uma pessoa de ficar, assim, muito brincando com os filhos, né? Porque ele tinha aquela coisa de militar e não tinha essa... Mas minhas irmãs supriam isso, então eu comecei a ter atividades de casa muito cedo, porque todas trabalhavam, né? E minha mãe teve um câncer, então sofreu muito, então a gente, principalmente eu, né, porque foi a minha fase, eu acompanhei muito o sofrimento dela. Então a gente não teve, assim, uma infância muito saudável de brincadeiras, de dizer: “ah, eu fui viajar, eu fui passear”, a gente não teve muito isso. É mais mesmo a coisa da minha mãe doente, aí, depois, meu pai também ficou hospitalizado, porque meu pai teve um problema de cabeça. Então foi uma coisa meio triste, vamos dizer assim, mas a gente superou tudo, né, e hoje a gente, graças a Deus, é uma família bem unida.
P/1 – E como é esse bairro? Como era esse bairro?
R – Olha, era muito gostoso. Porque hoje em dia a gente não vê mais isso, era um bairro de casas muito simples, né? Mas a rua de terra, então a gente brincava, né? Hoje em dia não tem mais isso, a gente brincava muito na rua de amarelinha, enfim, brincadeiras de criança. Então tinha aquela coisa do estudar de manhã e aí chegava em casa, almoçava e um vizinho ia chamando o outro, as crianças, né, pra brincar e ficava, assim, a tarde toda brincando. Então hoje em dia a gente até tem um convívio, porque a maioria das pessoas que moram lá foram pessoas que são antigas, né? Então a gente cresceu junto, então era muito gostoso, né? Brincar, estudar, ver casar, ver namorar, ter filhos, é muito legal isso. Era um bairro gostoso.
P/1 – Tudo lá no bairro?
R – Tudo lá no bairro, inclusive o Edson, né? Meu amigo Edson, coincidentemente, quando eu fui procurar emprego na PlayPen, nós  marcamos um ponto de encontro no ônibus, porque foi através de uma amiga minha, e quando eu cheguei lá e me deparei com o Edson, eu vi que ele era meu amigo de escola, porque o Edson também morava no bairro. Então foi um acaso do destino, não foi nada combinado e ele morava também lá.
P/1 – E agora que você falou da escola, qual a primeira lembrança que você tem da escola?
R – Muitas. Assim, a primeira coisa foi quando eu fui procurar esse emprego que foi uma amiga minha que tomava ônibus com o Edson que... Eu não sei se ele contou isso. E aí ela falou: “Vamos lá, eu vou arrumar esse emprego pra você.” E aí comentou com ela, ela não quis e ela falou: “Eu tenho uma amiga que quer.” E aí ela me falou, e eu falei: “Eu vou”, e quando chegou lá no ponto do ônibus a gente se encontrou, né? Aí eu falei: “Nossa, é você.” Nós chegamos lá, eu conversei com a Guida e foi assim, amor à primeira vista, e aí... Porque eu morava muito distante de ônibus da escola, então quando eu cheguei da escola, ela já tinha ligado pedindo pro Edson assim: “Liga pra ela, liga pra ela”, para que eu fosse lá no outro dia e já começasse, né? E até eu estava comentando com a Fernanda aqui que, assim, era uma coisa de você dormir e acordar querendo ir trabalhar. Então foram momentos muito bons lá na escola, a PlayPen nunca foi um trabalho nos anos passados, né? Sempre foi uma família. É a minha paixão a escola, embora eu não esteja mais lá, mas eu acho que pra mim foi muito bom.
P/1 – Posso te chamar de Udi? 
R –  Claro, eu até prefiro. 
P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra você contar do seu período de escola, quando você começou a estudar, quando você era pequena.
R – Ah, escola? Desculpa, eu não entendi. A escola que você diz é da minha infância, né?
P/1 – Isso.
R – Bom, eu estudei na escola do bairro, fiz o primário nessa escola e terminei o ensino médio lá, então foi uma história de vida, e eu não tive assim... Eu tive que estudar por mim mesma, porque eu não tinha tempo das minhas irmãs me ajudarem e meu pai também não tinha muita escolaridade e ele não conseguia também, então eu praticamente fiz... Comecei com sete anos, e aos nove, minha mãe morreu, então eu continuei estudando na escola, mas sempre sozinha. Então as minhas irmãs iam muito pouco lá, só quando tinha reunião, porque elas também não podiam faltar, mas assim foi indo, passando de ano em ano, mas sempre na mesma escola, que até hoje existe, né?
P/1 – Qual é o nome dessa escola?
R – Chama Escola Luís Gonzaga, é uma escola estadual que o Edson estudou também. (risos)
P/1 – E como você ia pra escola? Você ia a pé?
R – A pé, eu ia sozinha pra escola com as minhas amigas, estudava de manhã e aí ficava lá na escola e à tarde eu voltava, né? Eu não lembro muito bem o horário, mas era de manhã. E aí, acabando o horário de aula, né, a gente ia embora sempre sozinha, porque eu não tinha quem fosse me buscar, quem fosse me levar, essa coisa de pai e mãe, né? Não tinha isso, então tinha que ser eu mesma, né? 
P/1 – E tinha uma matéria que você mais gostava?
R – Olha, eu fui bem levada, viu? 
P/1 – Bem levada como? O que você fazia?
R – Eu fui bem levada. Ah, eu... Às vezes eu não prestava atenção... Eu era muito dispersa na escola com as coisas, como agora, né? Muito dispersa, e aí ela... Uma vez, eu lembro que meu pai falava assim: “Eu não quero ser chamado na escola pra nada”, aí teve um dia que eu estava muito apertada pra ir ao banheiro, eu estava o quê? Acho que no terceiro ano, com as amigas, aquela coisa de criança, né? Minhas amigas começaram a chutar a porta, porque tinha alguém usando o banheiro. E aí, elas chutando a porta, e saíram correndo e a boba aqui foi e chutou por último, quando eu chutei por último, a inspetora entrou e aí já foi, né, advertência, essa coisa toda... E pra eu chegar em casa? Eu tive que esconder. Então, naquele dia, no dia seguinte, eu falei que estava doente, eu falei com a minha irmã que eu estava com febre e que eu não queria ir pra escola e ela achou estranho, né? Aí ela não foi trabalhar naquele primeiro horário e foi no colégio. Chegou lá no colégio, a diretora tinha falado que eu tinha sido suspensa, mas eu não tinha contado pra ela, né? Omiti o fato, aí você já viu, né? A bronca, os tapinhas, mas também foi a única coisa assim de grave que eu fiz, né, que meu pai ficou muito bravo, mas foi bom, tudo isso é experiência, né? 
P/1 – E das aulas? Você se lembra de alguma que você gostava?
R – Olha, eu me lembro de uma coisa muito legal... Assim, no começo eu não me lembrava da primeira série, eu não tenho muitas recordações, mas eu lembro que tinha uma professora que era japonesa e ela dava aula pra quarta série e ela era o pavor de toda escola, aquela coisa de cantar o hino, que hoje não existe mais. Então, quando ela chegava no pátio, todas as séries se reuniam pra cantar o hino, e aí ela chegava num palco que tinha lá e quando ela chegava, ela não precisava nem falar e todo mundo que estava conversando parava, porque ela era muito ruim. Então foi indo a primeira série, a segunda série e quando chegou na quarta série, eu rezando, né? Eu falei: “Eu não quero cair com aquela Joana”, que era uma japonesa. Aí entrei na sala e quem era? A Joana! E a Joana morava na minha rua, no fim da rua, e ela era assim, era pavorosa, todo mundo morria de medo dela e foi uma paixão também, porque ela sabia da minha história, né? Ela sabia do sofrimento da minha família, as irmãs, né? Tinha toda uma história, essas irmãs daquela rua, até hoje, quando chega na rua e fala: “Onde moram as irmãs?” Todo mundo sabe, e ela cuidou de mim assim, essa professora, como uma mãe, porque ela fez toda programação escolar e no final do ano todo aquele medo que eu tinha dela se transformou em amor, porque ela foi muito boa. Até hoje. Hoje em dia ela está aposentada, já tá uma senhora, mas quando eu passo, ela lembra o meu nome, ela fala: “Ah, como você está?” Aquela coisa de recordar, né? Mas é muito legal você ter essa vivência, essa coisa de você imaginar uma pessoa e depois você conhecer ela a fundo, né? E ela não tinha nada de brava, ela era uma professora assim daquelas de antigamente mesmo, que parava pra conversar, saber da vida do aluno, e era muito legal. E aí continuou, quinta série, aí na sétima série eu repeti de ano, porque nós combinamos, todo mundo, de repetir uma turma, né? Porque a gente fazia uma peça de teatro lá dos tempos romanos e essas coisas e aí, todo mundo ensaiando, e eu fazia parte do papel principal, nem me lembro agora qual é, e aí eu ensaiei todo o papel, quando foi no dia de apresentar, eu e mais uns dez, nós não fomos, e aí nós levamos advertência e foi assim até que eu repeti de ano. Todo mundo chora quando repete de ano e eu ria, eu achei o máximo, né? E pra eu chegar em casa depois e contar? E fiz a sétima série de novo, coisa de moleca, né? 
P/1 – E aí teve a apresentação de novo?
R – Teve a apresentação de novo, porque aí teve que fazer, né? Mas mesmo assim, eu já estava retida, porque eu já estava péssima, as notas péssimas e aí eu fiquei lá até o terceiro ano do ensino médio. Não, minto, até a primeira série do ensino médio, depois eu fiz em outra escola, fui estudar no Radial, mas foi assim.
P/1 – E você gostava mais de alguma matéria? De Português? De Matemática? Artes? Educação Física?
R – Olha, eu sempre me identifiquei muito com História e depois que eu fiz essa parte desse teatro, ficou uma coisa mais marcante, porque num primeiro momento foi uma brincadeira, mas aí, depois, teve todo um trabalho, aí a coisa virou mais séria, né? Porque eu já estava prejudicada, mas eu ia prejudicar os outros, então a apresentação foi ótima e aí teve que contar todo o processo de História mesmo. E eu gosto. Eu queria ter me formado em História, só não fiz porque... Não sei, bobeira. 
P/1 – E no colegial, essas mudanças... Você sentiu alguma mudança quando você já estava maiorzinha?
R – Ah, sempre, né? Porque daí você tem que se dedicar mais, e no colegial eu tinha muita dificuldade em Matemática. Mesmo nas séries do fundamental, porque nós tínhamos um professor que era chinês e ele tinha muita dificuldade... Não tinha muita didática, né? Ele me chamava de Lurda. “Lurda, presta atenção.” E eu, na época, namorava um japonês, então ele sempre aparecia na janela e o professor ficava muito bravo, ele falava assim: “Lurda, o Cláudio ali atrapalhando a aula.” E eu tinha muita dificuldade em Matemática, mas é porque eu era muito dispersa, né? Tinha preguiça de pensar, mas a Matemática é que me deixou suando. (risos)
P/1 – E nessa época da escola você pensava em fazer alguma coisa quando crescesse?
R – Ah, sim.
P/1 – O que você queria ser?
R – Deixa eu pensar. Aquela coisa de ser médica, eu queria muito ser médica, depois eu queria ser advogada e aí, depois, eu fiz Pedagogia. (risos) Mas tem, né, vai passando o tempo e você vai criando fantasias, né? Mas medicina infelizmente não é possível. Mas eu queria ser médica, talvez até pelo fato de ter acompanhado o problema da minha mãe, e eu tenho um tio que é médico. Então acho que isso... Eu admirava ele, quando ele chegava em casa, cuidava dela. Então fica aquela coisa marcante, né? Então eu sempre falava que queria ser médica, mas por causa dele talvez, né? 
P/1 – Então, você estava falando um pouquinho da escola... Como foi, depois, mudar de escola pra fazer os dois últimos anos? Por que você mudou?
R – Então, porque daí eu... Aí você começa a ter seriedade um pouco na coisa, né? E aí o ensino médio numa escola pública já estava ficando meio defasado e aí eu fui... A vida financeira da minha família estava um pouco melhor e aí meu pai proporcionou essa coisa de eu estudar numa escola particular, eu fui estudar no Radial. Mas é complicado, porque você sai de uma escola pública, você tem muita dificuldade, né? Você tem carência de informação e aí você fica... E tem aquela coisa do pagar, aí você tem que passar e aí, pelo fato de você sair de uma escola pública, você sente dificuldade, né? Então foi um pouco complicado mesmo, mas deu pra levar, foi bom.
P/1 – Mas você sentiu diferença também dos espaços? Dos colegas?
R – Sim, é diferente, né? A parte social, você não tem... Sei lá, escola pública são vizinhos, né? Aquela coisa da família, de conhecer, e aí você vai pra outro mundo escolar que não é o seu, então você conhece pessoas diferentes, pessoas que trabalham, pessoas que precisam passar de ano. Então você não sente aquela coisa de amizade, é a necessidade de todos, né? Então é complicado.
P/1 – E nessas duas escolas que você estudou tinha uniforme? 
R – No Luís Gonzaga tinha camiseta, a calça era até a oitava série, né?  Camiseta e calça, e aí, depois, no ensino médio, não, você podia ir com a roupa que você quisesse.
P/1 – E no Radial?
R – No Radial também, o Radial era noturno, então a gente, nessa época, trabalhava, então você ia com a roupa do trabalho, né? Mas era uma escola legal, hoje em dia nem tem mais, eu acho, já acabou.
P/1 – Você falou de trabalhar. Como você começou a trabalhar? Qual foi seu primeiro emprego?
R – Então, meu primeiro emprego, eu fui trabalhar num hospital, no hospital Santa Marta. Era um hospital particular, e aí a minha irmã conhecia a assistente social do hospital e eu fui trabalhar na área de administração, mas eu fiquei muito pouco tempo lá, né? Aí eu saí logo, mas é uma experiência muito ruim, você vê muita coisa... Embora você trabalhe na área administrativa, mas você vê muita coisa ruim, né? E aí eu saí de lá e acho que não completei nem um ano, e aí eu comecei a trabalhar em escritório de contabilidade, eu trabalhei até num escritório de uma amiga minha que coincidentemente trabalhava também. E assim fui pulando até chegar onde estou.
P/1 – E nessa época de escola, como você conciliava o trabalho e a aula à noite? 
R – É difícil... É complicado, porque você acorda muito cedo e na época eu não tinha carro, então você acorda muito cedo pra não perder a hora do trabalho e eu nunca gostei de chegar atrasada, aí você fica o dia inteiro trabalhando e aí, quando é noite, você está cansada, né? Quando dava tempo, você ia pra casa pra tomar uma duchinha, comer alguma coisa, mas quando não, você tinha que ir pra escola, né? Às vezes tinha prova e aí você tem essa dificuldade também, porque você não tem tempo de estudar, porque você trabalha o dia inteiro e é complicado, é uma... Não é fácil, não, conjugar as duas coisas, a gente até fala isso para os sobrinhos, né, que eles hoje em dia não precisam disso. Mas que a gente ralou bastante, né? Porque o dinheiro não é só pra você, o dinheiro é pra todo mundo, então você tem que organizar a vida, né? Estudar, trabalhar, namorar quando podia, né? Mas consegue, né? 
P/1 – E o que você gostava de fazer de lazer? Assim, quando dava um tempinho no final de semana.
R – Ah, ficar com os meus amigos. Eu tinha um grupo de amigos muito legal, assim, meninos, praticamente, né? Na minha rua tinha meninas também, mas assim, a gente tinha muita amizade. Então a gente ficava no portão conversando, quando não, a gente saía pra dançar em algum lugar, quando tinha festa... Naquela época tinha muito bailinho, que não é da época de vocês, muito bailinho, e aí fazia bailinho, aquelas festas, a gente chamava de festa americana, cada um levava uma coisinha e fazia bailinho, né? Aí rolava uns beijinhos com os amigos, mas era gostoso, a gente ia muito na missa, tinha aquela coisa de domingo reunir todos na igreja do bairro. Então a gente ia à missa das onze, que era a missa dos jovens, e a gente não tinha essa coisa de viajar, era mesmo só isso. Bailinho, missa, quermesse... Essas coisas mais simples, né? Mais gostosas. É bom. 
P/1 – E você falou do trabalho nos escritórios de contabilidade. Como é que você passou desse escritório de contabilidade para...
R – Então, você sabe que... Agora eu estou aqui pensando uma coisa engraçada, todos os lugares que eu trabalhei, coincidentemente, sempre tem alguém que eu conheço, assim, coincidentemente mesmo. Esse escritório de contabilidade trabalhava uma amiga minha e eu fui trabalhar depois de muito tempo, nós estudamos juntas no Gonzaga, e aí, depois, eu fui indicada pra trabalhar nesse escritório, e era a Two, que era uma amiga minha que chamava Débora. E quando eu cheguei lá, eu me deparei com a Two e ela era muito novinha também, nós tínhamos mais ou menos uns dezessete, dezoito anos e ela era assim... Ela tinha dezoito anos, eu acho, na época, e ela era responsável pelo escritório e eu achava aquilo o máximo, né? E aí, quando eu cheguei lá que eu vi a Two, eu fiquei até feliz, porque é bom você trabalhar quando você conhece alguém, e eu fiquei muito tempo lá, também foi um lugar muito bom de trabalhar, que eu aprendi muita coisa. Lá eu mexia com a parte de escrituração fiscal, hoje em dia não tem mais, porque hoje em dia é tudo computadorizado, mas nós tínhamos uns livros enormes e você tinha que lançar todas as notas, né, para depois somar, enfim, pagar os impostos devidos, mas era muito gostoso também. Lá era um lugar muito tranquilo, era muito família, eles eram japoneses também, aí depois... Ele chamava-se Américo, o dono, aí ele tinha um irmão que chamava Alcindo, que depois eu saí do senhor Américo e fui trabalhar no Alcindo, e aí foi indo assim, e depois foi mudando. Mas eu não mudei muito de emprego, não.
P/1 – Também com contabilidade?
R – Contabilidade também.
P/1 – E como é que você foi parar na contabilidade se você falou que tinha problemas com a matemática?
R – Então, mas era uma coisa fácil, porque você só somava o livro, né? Você não tinha que fazer conta, a minha parte era escriturar, então eu tinha que lançar todas as notas e a parte de impostos já eram outras pessoas que faziam, né? Então eu não precisava fazer muita conta, né? Mas é... Era muito simples, não tinha segredo. É mesmo coisa de adolescente, né? Depois você vê que a matemática não é nada disso que você pensa, é fácil. Aí fui trabalhar nesse escritório, aí eu fiquei uns dois, três anos em cada lugar, eu não sei bem ao certo agora.
P/1 – E o que aconteceu depois, nesse escritório do Alcindo?
R – Do Alcindo? Eu saí de lá pra trabalhar na Dunkin’ Donuts, eu tinha uma... Uma namorada do meu tio que trabalhava lá, que também foi um lugar que eu gostei bastante de trabalhar, e era ali nas Nações Unidas, perto do SP Market, e lá, sim, foi muito legal, porque você conheceu outra parte, né, de como é uma empresa, e a Dunkin’ Donuts na época que eu trabalhei foi a época que ela estava num processo de franquia. Então, assim, a gente aprendeu toda essa parte de franquia, né? As lojas que tinham, eram dele, do dono da Dunkin’ Donuts aqui no Brasil, porque aqui também era franquia, mas ele que começou essa franquia. Depois ele começou a franquear as lojas, hoje em dia as lojas não são mais dele, não, eu acredito que não, são todas franqueadas, né? Mas lá era legal, porque eu trabalhava na parte financeira, matemática de novo, né? Mas era gostoso, porque eu trabalhava na emissão de cheques, essas coisas de lançamento, de tíquete restaurante, essas coisas todas, e depois eu fiquei um tempão lá também, aí eu fui trabalhar na área de diretoria. Aí eu fui trabalhar na área de diretoria, na área de Recursos Humanos e foi aí que eu entrei na faculdade. Eu comecei a fazer faculdade de Administração com ênfase em Recursos Humanos, aí fiz três anos e parei, não quis mais.
P/1 – E como você decidiu fazer faculdade?
R – Você diz nessa área?
P1 – É. 
R – Então, a minha irmã começou a fazer e como eu estava na área de Recursos Humanos com a diretora lá na Dunkin’ Donuts, eu comecei a me identificar um pouco com a área e aí eu fui fazer. Fiquei três anos. E também foi uma época muito difícil, porque foi aquela época que tudo subia com a inflação, a mensalidade, e aí começou a ficar assim muito caro e eu não consegui pagar, né? Porque ficou muito puxado pra mim e aí chegou ao terceiro ano, eram praticamente quatro anos, eu acho, eu peguei e parei. Mas era uma área muito gostosa, hoje em dia é um mercado bem legal, né? É uma área gostosa de seleção e essas coisas, mas eu não terminei, eu fui fazer Pedagogia.
P/1 – E como foi essa transição? Por que você foi fazer Pedagogia? Foi logo em seguida?
R – Então... Aí, depois, eu saí da Dunkin’ Donuts e fui trabalhar na PlayPen e aí começou essa coisa da educação e as minhas irmãs todas trabalharam em escola, então elas também têm uma história no Vera Cruz, todas elas trabalharam no Vera Cruz. E aí começou essa coisa de escola, todas as irmãs, e eu comecei a me identificar com escola, por isso que eu fui fazer a Pedagogia, mas eu não queria trabalhar como professora. Na verdade eu queria trabalhar na administração ou então de coordenação, mas não lecionar, né? Até tive uma experiência dessa e até gostei, mas no Estado é complicado.
P/1 – Deixa eu só entender uma coisa, você é que foi procurar a escola? Você já tinha ouvido falar na PlayPen? 
R – Você diz o quê?
P/1 – Quando você foi procurar o emprego, que você deixou a Dunkin’ Donuts?
R – Não. Então, eu saí da Dunkin’ Donuts também e aí eu fiquei um tempo parada, aí eu fui... Eu estava procurando emprego e essa minha amiga que se chama Eliane tomava ônibus com o Edson, e aí aquela coisa de manhã, aquela fila enorme de ônibus, né? Você espera, aí chega na sua vez, o ônibus encheu e você tem que esperar o próximo e assim vai, né? E aí ele comentou com ela, porque parece que ela estava querendo parar de trabalhar, mudar de emprego e ele falou: “Tem uma vaga lá”, porque saiu a Francisca, que era uma secretária da escola, muito engraçada, por sinal, e ela saiu. Aí o Edson estava procurando outra pessoa, e aí ele comentou com a Eliane e a Eliane falou: “Não, eu não quero, mas eu tenho uma amiga que está precisando.” Aí eu fui... Ela chegou em casa e comentou comigo, aí eu falei: “Eu vou sim.” Aí ela falou: “Então vou combinar com ele e a gente vê.” Aí, no outro dia, eles combinaram e aí, no outro dia, depois da combinação, ficou confirmado que eu fosse lá conversar com a Guida. E aí eu fui logo cedo com o Edson conversar. Aí a Guida chegou e fez a entrevista e aí foi aquela paixão, eu adorei a escola, eu cheguei lá e falei: “Nossa, que lugar gostoso.” Aí eu fiquei um tempão conversando com o Edson, esperando a Guida chegar. E aí eu conversei com ela e quando eu cheguei em casa, meu pai tinha falado: “Olha, ligou uma pessoa de um lugar aí que eu não sei falar o nome... De uma escola.” Eu falei: “Ah, então...” Ele falou: “Acho que é a escola que você foi”, já dizendo que era pra eu ir no outro dia trabalhar e eu fiquei toda feliz, né? 
P/1 – E o que tinha nessa escola que te chamou a atenção? Que causou esse...
R – Eu acho que é aquela coisa da casa, porque era uma casa, mas as salas do infantil eram tão bonitinhas, sabe aquela coisinha delicada que você nunca viu? Você sai de uma escola pública, onde você escreve numa carteira toda furada, né, aí você vê outro mundo, que é uma escola particular que fala inglês, nossa! Foi uma paixão! E era uma casa muito gostosa, tinha jabuticabeira, tinham as pessoas que eram muito família, as crianças, aquelas crianças com aquele uniforme vermelho, era uma gracinha, hoje em dia... Eu até vi esses dias na televisão um rapaz que é um estilista que trabalhou lá, ele estudou lá pequenininho, depois eu lembro o nome, agora eu não sei.
P/1 – E você acha que as influências das suas irmãs, assim, pesaram um pouco pra você escolher entrar nessa área de educação e trabalhar na escola? 
R – Ah, eu acho que sim, porque acabou sendo uma coisa muito legal, assim. Dentro da minha família, todas trabalharam em escola, mas não como professora, a minha irmã trabalhava como tesoureira e assim por diante. E aí acabou que todo mundo se identificou um pouco, a vida da minha família é assim, quando começa uma coisa, parece que todo mundo segue, porque as minhas irmãs trabalharam em hospital e o meu primeiro emprego foi hospital e aí foram casando as coisas, né? É muito engraçado isso. É uma história mesmo que não dá pra você voltar... É destino, não sei. Aí eu acho que foi também influência, eu acho que sim.
P/1 – E você lembra como foi o seu primeiro dia de trabalho lá na PlayPen?
R – Ah, foi muito engraçado, porque essa Francisca, eu não sei quanto tempo ela trabalhou lá, ela era secretária e ela... Aí nós marcamos e tudo, aí a Guida combinou com o Edson, falou: “Olha, fala pra Lourdes vir de manhã e a Francisca vai passar tudo pra ela.” Mas eu nunca tinha trabalhado em escola, então pra mim era um desafio, e quando eu cheguei lá... Porque o Edson, coitado, ele que foi mostrando pra mim tudo. O arquivo, aquele arquivo imenso, aquela gaveta pesada, cheia de ficha, eu falei: “Meu Deus, não vai dar certo.” Aí, quando ela chegou, ela... Eu só sei que cheguei lá, era umas sete horas, antes das sete, e ela foi chegar onze horas, a Guida quase matou ela de raiva, e aí, quando eu cheguei lá... E o Edson já estava também bravo, porque tinha que passar as coisas pra mim e eu estava ali sentada, porque eu não sabia fazer nada e ele que estava, coitado, tentando ajudar, né? Pra não ficar tão ruim, assim, o meu primeiro dia, né? Aí ela chegou onze horas, aí ela pôs um monte de prontuários de alunos e falou: “Então, agora tem que fazer essa ficha individual, você faz assim, assim e, olha, eu vou ter que sair agora.” Aí ela deu uns cinco prontuários e falou: “Você faz esses cinco.” E eu achei que era difícil e falei: “Ah, meu Deus, eu vou ficar uns três dias fazendo, né?” Aí eu sentei lá pra fazer, terminei tudo o que tinha pra fazer, que envolvia matemática também, e aí terminou e eu fiquei sem fazer nada, porque ela foi embora e não voltou mais. Depois, outro dia, e foi passando, né? Mas aí eu fui me identificando, sabe aquela coisa de amor mesmo, de você cuidar, você organizar uma escola, você saber o nome de todos os alunos? Foi muito bom.
P/1 – O que tinha que fazer nesses prontuários? 
R – Então, lá tinha a vida escolar de um aluno, então tem desde a ficha que o pai preenche até as notas que são passadas, né, do diário de classe para essas fichas, pra gente poder depois fazer o histórico, enfim, dar continuidade a vida escolar do aluno para quando ele sair, ele levar o tal do histórico escolar para outros lugares, que ele vai continuar os estudos. E fazia isso... E tinha muito mais coisas que a gente fazia lá, né?
P/1 – E que outras coisas você fazia? 
R – Ah, minha filha, tanta coisa... Eu trabalhava também com a parte de compra de material, porque a PlayPen tem essa coisa da mensalidade já ter a parte de material escolar, então os pais... Isso era uma coisa que os pais amavam lá, porque não tinha lista de material pra você ir na Kalunga comprar ou em outro lugar, a escola já oferece desde o caderno, o lápis, a borracha, tudo. Então a gente ia comprar todo o material na Kalunga, aí chegavam aquelas caixas enormes e você tinha que separar por lista, por aluno, deixar na sala e, depois, o resto, você guardar no lugar que tem que guardar e eu ficava lá às vezes. Isso era uma coisa, de chegar Kalunga, colocar caixa num lugar, porque tinha um espaço na frente do colégio que a gente chamava garagem, mas não era uma garagem, e ele colocava as caixas lá e eu tinha que trazer pra dentro. Então todo mundo já tinha ido embora e eu que trazia essas caixas pra separar, porque era a hora que eu conseguia fazer as coisas, e às vezes eu saía de lá nove horas, dez horas, mas sempre numa boa. E outras coisas também... Atender os pais, cuidar dos professores, oferecer pra eles tudo aquilo que eles precisam, né, de material, aí tinha a parte de obra também, que a gente às vezes... Hoje em dia é até Dani Almeida que faz, a Guida também, mas naquela época tinha a Guida e nós. Então, quando a Guida falava: “Eu quero construir uma parede aqui...” Ela adorava uma obra, nossa! “Eu quero construir uma parede aqui”, aí eu olhava pro Edson, o Edson olhava pra mim e falava: “Ah, meu Deus, começou... Chama o Manuel”, que é o pedreiro. Aí ligava pro Manuel, o Manuel vinha e construía a parede na escola ou quebrava alguma coisa que ela queria quebrar e aí você tinha que comprar o material, né? As vezes eu tinha que sair, porque teve uma época que eu já tinha carro, o meu primeiro carro eu consegui lá, e aí eu tinha que sair e trazia até saco de cimento no meu Corsinha, mas numa boa. Eu não tive nenhum problema nessa época quanto a isso, e era isso que a gente fazia lá. Ia ao Makro, a Marinalva era a moça do Makro, né? Não sei se ela contou, e aí a gente tinha que levar a Marinalva no Makro e depois alguém ir buscar, esse alguém era alguém que tivesse um carro grande, no caso não era o meu, né? E aí chegava a Marinalva com aquele monte... Porque lá também oferece almoço, sempre teve isso, e aí a gente tinha que separar as coisas, ajudar a levar as mercadorias lá pra cozinha e tudo era assim... Tudo era uma equipe, era bom.
P/1 – Quem eram esses alunos da PlayPen? 
R – Ah, eu até estava falando pra Fernanda, na época eu conhecia todos, eu até trouxe uma foto, aí tem o Caio, que é até um que vem aqui, que é o Caio Baltassari, o pai dele era fantástico, ele também perdeu o pai na época da PlayPen, o pai dele era muito engraçado. Aí tem o Maluf, que é aquela família que estava lá naquele dia na PlayPen, tem o Gabriel Pavan, tem a Sofia, que eu mostrei a foto aqui também, ah, tem tantos, o Lula Vargas, agora eu não lembro de todos, né? Mas a gente sabia tudo, né? Se você perguntar pro Edson, ele sabe tudo.
P/1 – E como era o seu relacionamento com eles? 
R – Nossa! Era muito bom, eles sabiam o nome de todos. É engraçado... Por isso que eu falo, a PlayPen é... Ela sempre foi uma escola família para os pais. É aquela coisa: não é levar o seu filho pra escola, é continuar a casa em outro lugar, porque lá a gente sabia o nome de todo mundo e a gente sabia, assim, quem era babá, quem era a criança, o que aquela criança tinha de especial, assim, vamos dizer, né? Você cuidava... Às vezes, a professora estava ocupada, você a chamava e você levava aquela criança no banheiro. Então era uma coisa assim, como se fosse seu filho que tivesse ali e você tivesse que zelar, dar amor, era muito bom... As crianças tinham muita afinidade com todo mundo da escola, né? Eles... Os pais também, eles sabiam que quando... Eu até contei pra ela que quando saía uma pessoa dessa época da escola tinha que sair escondida, né? Eu fui uma que saí meio que escondida desse colégio para não ter problema, porque cada vez que saía um funcionário, os pais ficavam meio revoltados. Porque eles queriam que o funcionário tivesse lá e não estava mais, né? Mas foi uma opção de cada um, então era bem família mesmo, a gente conhecia todo mundo, eles tinham essa coisa da... Como se diz, confiança, né, de saber que está... Então elas ligavam: “Ah, meu filho está chorando?” Aí eu saía de lá e falava: “Só um minutinho.” Saía de lá, perguntava pra professora e falava: “Olha, eu acabei de olhar, ele está brincando, ele está comendo, ele está dormindo...” Às vezes eles tiravam um soninho, né? Então elas tinham essa confiança de saber que se ligasse pro colégio, tinha alguém pra dar informação do filho, né? Então sempre foi assim.
P/1 – E você sentia, assim, alguma coisa, principalmente com os pequenininhos que estão tendo todo aquele trabalho de inglês? Como funcionava falar com eles?
R – Então, é aquela coisa, até hoje eu falo isso, que hoje em dia é pena, porque eu não sei falar inglês, mas no tempo que eu fiquei na PlayPen eu entendia muito. Então, quando as pessoas falavam, né, porque lá se falava muito inglês, professora com os alunos, a Guida não queria que ninguém falasse em português em sala de aula. Principalmente no infantil, onde preparavam os alunos para graduada, enfim, pras escolas americanas da vida aí. Então não se podia falar o português lá, então às vezes elas falavam as coisas, as professoras, e eu estava perto, eu falei: “Mas não é isso.” “Como é que você entendeu?” Porque você escuta, é aquela coisa de você viajar pra fora, você começa a criar uma afinidade com a língua, né? E isso acaba perdendo... Hoje em dia eu não entendo, se alguém falar eu não consigo mais entender tudo. Mas era legal porque às vezes eles falavam, eles chegavam na secretaria, eles tinham que ir ao banheiro ou alguma coisa, porque tinha uma sala que era perto da secretaria, quando a casa era menor, que ficava um banheirinho. Então as crianças da primeira sala, que era o jardim, a sala do jardim, eles usavam esse banheirinho que era pras crianças, então eles chegavam na secretaria e falavam: “Teacher, bathroom”, e aí ficavam assim, né? Aí levava ao banheiro, aí chegavam, eles pediam as coisas, saíam e queriam água, mas sempre em inglês. Então você acaba sendo obrigada a aprender com eles, coitados! E aprende... Mas era gostoso, eles falavam muito com a gente em inglês, com a coisa deles só viverem essa coisa da escola, então eles achavam que todo mundo lá falava inglês. Então eles falavam muito, sim, o Edson é esperto no inglês, viu?
P/1 – E como funcionava essa casa? Como ela era?
R – Ah, era muito bonitinha, você entrava assim... Porque a PlayPen sempre teve aquela coisa do recuo da calçada, era uma coisa que chamava muito a atenção, aquela casa de esquina: “O que será que tem naquela casa de esquina?” Você entrava, aí tinha a tal garagem que era um espaço onde os alunos ficavam para receber os pais, o embarque e desembarque, e aí tinha essa garagem que a gente chamava de garagem, mas não era, não entrava carro nenhum ali, e aí, depois, quando entrava, tinha a secretaria e as salas do infantil, né? Aí, nesse mesmo corredor, tinha a sala da Guida, que era uma sala que tinha uma porta de vidro em frente a tal, a maravilhosa jabuticabeira. E aí ela ficava ali na sala em frente à jabuticabeira e o Edson ficava numa salinha bem pequenininha. E aí tinha o refeitório, né? Depois foi ampliando as outras salas, aí tinham umas salas que eram do fundamental e tinha o maravilhoso playground, que era o play, que era assim: quando chegava pai no colégio, você mostrava a escola e aí chegava a hora que você tinha que levar nesse tal play e eles ficavam encantados, porque era um espaço, assim, maravilhoso de terra, de brinquedo... Coisas assim, que talvez os que morassem em apartamento não tivessem, né? Então aquilo ali era o choque pras pessoas... Eu adorava levar os pais naquele play, porque o olhinho brilhava e ali era... Tudo de bom que acontecia no colégio era no tal play, né?
P/1 – O que aconteceu nesse play?
R – Ah, teve festa junina, tinham as olimpíadas, que é essa aqui que eu estou, que foi a primeira olimpíada, tinha a vizinha que jogava água nas crianças, que é amiga da Guida, entre aspas, né? Ela era uma mulher que prejudicou muito a gente na escola e ela tinha... Engraçado que ela se incomodava com nosso play, mas ela tinha uma quadra de golfe na casa dela. Então, assim, não tinha muito a ver, né? Então quando tinha uma atividade... Porque criança grita, escola não tem como não gritar... Aí, quando tinha algum campeonato, alguma coisa assim que envolvesse mais alunos e o barulho fosse maior, ela começava a jogar água nas crianças e aí as crianças gritavam: “Sua velha chata”, não sei o que... E assim por diante, mas aquele play tem história, viu? 
P/1 – Conta então um pouquinho da olimpíada, dessa camisa que você está vestindo...
R – Então, essa foi a primeira olimpíada, aí foram fazer uma camiseta, né? E aí colocaram as cores da escola, o desenho eu não sei quem fez, mas sempre o logotipo da Guida, que ela ama esse logotipo dela, e aí tem atrás os patrocinadores, que são alguns pais do colégio... Tem a Joget, que é aquela lingerie, que é a  ngela, que ela fez o patrocínio, que patrocinou as camisetas, né, para colocar o nome... E foi muito legal, porque teve muito envolvimento essa olimpíada, foi a primeira.
P/1 – Como é que foi?
R – Ah, foi olimpíada de várias coisas: de gincana, de futebol, e as crianças, nossa... Vibraram, espero que vocês consigam algumas fotos dessa olimpíada. Mas foi legal, envolveu todo mundo. Aliás, não tinha evento no colégio que não envolvesse todo mundo, né? Desde a decoração até a compra, todo mundo era muito envolvido com a escola, todo mundo: pais, alunos, funcionários... Tinha muito envolvimento.
P/2 – Você acabou ficando algum dia na escola que tivesse tido a dormida?
R – Não, não tive essa oportunidade, mas isso também era muito legal, eu até ficava até mais tarde, mas eu não dormia, né? Porque nessa época eu não tinha carro, então eu não podia ficar até muito tarde lá, mas era legal, porque eles ficavam... A Marinalva, coitada, ela tinha que organizar tudo. Então tinha que ter o cachorro quente, não podia faltar, então tinham algumas coisas... E o tal pijama, né? Então eles tinham o baile do pijama, então tinha uma sala que eles enfeitavam, eles colocavam, tipo, papel bem escuro pra sala ficar tipo boate, assim, e aí levava som e as crianças não queriam dormir, os professores e a Marinalva exaustos e esses alunos não dormiam. E aí, no outro dia, de manhã, todo mundo rezava pro café da manhã chegar logo, né? Pra poder dar o café pra eles irem embora. E eles, nossa... E a cada ano era uma coisa, uma época era gincana, outro ano era a dormida no colégio e assim por diante, mas a dormida era uma atividade que eles amavam, né? 
P/2 – E o halloween?
R – Nossa, o halloween era muito engraçado! O halloween era... Eu falo que as pessoas que eu conheço que passavam por lá, pela Cidade Jardim... Então saíam aquelas princesas ou aquelas bruxas maravilhosas. Era carro que parava pra tirar foto, porque descia cada criança maravilhosa. Então a gente enfeitava a escola toda, colocava aquele monte de papel roxo, então era a época que eu mais comprava papel escuro, todo mundo, né? E aí, quem viajava pra fora, a Guida, professores, sempre traziam alguma coisa de halloween, porque aqui não tem tanta novidade, né? Então é aquele monte de bruxa, o Edson não gostava muito, não, viu? Não da atividade, ele falava que era meio macabro esse dia... Aí chegavam aquelas crianças que você não conseguia identificar quem estava atrás, aquelas crianças vestidas de caveiras, sabe? Fantasmas, e você ficava assim: “Quem é esse?” Assim, se transformavam mesmo, vinham maquiadas, era um show o negócio, viu? E aí faziam atividades de água, nossa! Era uma sujeira, uma tal brincadeira da farinha que a Guida não gostava muito não, porque sujava o tapete dela lá. O que mais eles faziam lá? Ah, o negócio da bala, porque eles chegavam... Daí que você tinha que saber um pouco de inglês, né? Porque eles chegavam pedindo a bala, hoje eu não consigo mais falar, mas eles chegavam pedindo a bala: “Brincadeiras ou travessuras?” E aí você falava brincadeira e tinha que dar bala, se você falasse travessura, eles iam aprontar alguma, né? Então todos os departamentos tinham um saquinho, alguma coisa pra poder a criança fazer, e aí tinha outra coisa muito legal, que era a ida deles ao shopping Iguatemi. Eu não sei se já falaram isso. Então eles iam de ônibus lá e aí chegava... A gente fazia um ofício pro shopping Iguatemi dizendo que a PlayPen ia pra lá e aí eles já deixavam tudo reservado, lugar pro ônibus parar e aquelas crianças fantasiadas. As lojas já providenciavam as balas, nossa! Era um dia que chegava milhares de balas e doce, a gente amava, porque você saía de lá com pacotes de bala. E aí chegava...
P/1 – Você chegou a pedir docinho também nas lojas?
R – Nossa! Era muita coisa que as lojas providenciavam, e aí fizeram isso bastante tempo, né? Depois, com essa coisa dos Estados Unidos, da bomba, parece que cortaram isso, porque daí ficou um pouco de receio, né? Aí, no ano seguinte que aconteceu essa tragédia nos Estados Unidos não teve mais, aí o shopping Iguatemi não deixou mais fazer. Mas era legal, eles amavam isso também, mas não eram todas as crianças que iam, eram as maiores, e os menores faziam desfiles. Então aquelas menininhas de um aninho vestidinhas lá, aí colocavam, faziam no pátio, colocavam uma... Faziam um palco e elas desfilavam e aí todo mundo batia palma, aquela coisa fantástica. E foto pra cá e flash pra lá... Era gostoso, e as mães ouriçadas querendo tirar foto. Às vezes tinha época que podia entrar, tinha época que não podia, porque não dava, era complicado. O dia do halloween era complicado, mas era uma festa assim... A festa esperada da escola era essa, essa era a festa do ano! Muito boa, mas muito cansativa pra preparar, mas era boa.
P/2 – E você se lembra de alguma história que envolvesse a jabuticabeira?
R – Ah, tudo! Tudo que desse certo na escola era em volta da jabuticabeira. Então... Porque além da jabuticabeira, que ficava na sala da Guida, né, assim, próximo, aí tinha outro espaço onde tinham outras árvores, né? Mas a jabuticabeira, por que ela tem uma história? Porque ela tem uma flor maravilhosa uma época do ano, então quando ela estava florida, nossa! Parecia que você estava no céu, assim, você olhava para aquela árvore e aquela árvore tinha uma energia muito boa, a gente sentava lá do lado dela pra ficar. Então você tinha que molhar, você tinha que tomar cuidado, porque a Guida falava nas férias: “Não se esquece de colocar a mangueira lá”, porque a jabuticabeira gosta muito de água. “Para não secar”, porque se ela não for regada direito, ela não dá flor assim bonita, né? Então isso era muito chato, então a gente tinha que ficar lá com a mangueira, às vezes, assim, segurando pra encher de água, né? Quando era férias não tinha muita gente, né? A gente tinha que não se esquecer da jabuticabeira. Então tudo que tinha, amigo secreto, era em volta da jabuticabeira, quando tinha que fazer alguma oração, na época que a escola fez a parte da construção, rezava-se na jabuticabeira, a jabuticabeira tinha alguma coisa mística, né? Era boa.
P/1 – Você falou agora das férias, como a escola funcionava nas férias? 
R – De aluno?
P/1 – O seu trabalho? Como era chegar à escola sem as crianças? 
R – Muito ruim, é péssimo, é horrível escola sem aluno. Porque você tem toda aquela gritaria, aquela atividade, né? Porque eles sempre tinham alguma coisa que envolvesse a secretaria, então tinha entrevista e toda hora ia aluno lá pedir alguma coisa. Então você sempre tinha aquele contato com eles e quando não tinha aula, nossa, parecia que você estava em outro lugar, não tinha o que fazer. Porque você fica sem ação, você fica sem... Sei lá, parece que seu coração está parando, é muito ruim, escola sem aluno não combina, né? Mas as férias, aí tinha... A parte melhor era a parte da confraternização dos alunos, dos funcionários, que era uma parte muito boa da escola também, porque a gente saía pra comemorar, mas depois tinha a coisa da volta, que era a solidão, né, sem aluno, sem professor, sem aquele monte de gente, né? Eu, o Edson, só. O Edson, eu e Marinalva, porque a Marinalva morava lá, né? 
P/1 – E o que vocês faziam nesse período? O que precisava ser arrumado?
R – Ah, essa parte é uma parte, assim, muito... Tem muita coisa pra fazer, porque você tem que preparar tudo para o início do ano, então, quando acaba o ano letivo, você tem que comprar, fazer lista de alunos, ver quem fez matrícula, quem não fez, você tem que ligar, você tem que comprar material, você tem que arrumar uma carteira, você tem que quebrar a parede, levantar a parede, né? Você tem que pintar o colégio. Então tem... Sabe, assim, é muito trabalho pra gente que fica, mas era gostoso, era bom, porque você até sentia falta das crianças, mas você tinha muita coisa pra fazer. Então era uma época que a gente saía mais cedo, porque a Guida concedia isso pra gente, né? Mas você acabava não indo, porque você tinha coisas pra fazer, não que ela obrigasse, porque a Guida sempre foi muito mãe em relação a isso, mas você tinha obrigações, né? Você tinha essa satisfação em cumprir as suas obrigações dentro da PlayPen.
P/1 – E como era o primeiro dia de aula?
R – Nossa, era muito legal... Porque chegavam os alunos antigos e falavam: “Ah, eu fui viajar pra não sei onde”, “Ah, eu fui pra Disney”, “Eu fui pra não sei onde”, e você tinha que receber os novos, né? As mães novas, mãe que chorava, então falava assim: “Meu filho vai chorar, eu vou ter que ficar aqui”, quando você ia... Porque lá tinha umas salas do infantil, até hoje, né? Tem uns vidros que você vê o que está acontecendo dentro da sala, mas o aluno não vê, então você chegava... Eu passava, porque nesse corredor tinha um banheiro onde a gente usava, então, quando a gente ia pro banheiro, você via as mães chorando, né? E o filho lá, aí você olhava e falava: “Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?“ E a criança lá brincando e nem aí e a mãe lá se descabelando e chorando, mas era legal. Porque ela acompanhava, porque era período de adaptação que chamava. Então você tinha que conviver, né, com aquelas mães que eram mais fáceis de lidar e outras mais difíceis, então, às vezes, tinha época que você não via a hora de acabar esse período de adaptação para elas irem embora, né? Porque sufoca até a criança, mas era bom, a gente preparava... O primeiro dia era uma festa, porque daí eles contam tudo. Aí eles querem ver a escola, ver o que aconteceu, se construiu parede, se derrubou e querem saber por quê, então eles queriam saber tudo, eles eram muito danados. 
P/1 – E conta um pouquinho pra gente como é que funcionava o período de matrícula? O que precisava para fazer matrícula? Falava com você direto? 
R – Então, nessa época, quem atendia os pais era a Guida, né? Porque no começo era ela que atendia, né? Mas, assim, no caso específico de uma família, que tinha muito, que não falava o português, né? Então a mãe chegava no colégio, normalmente indicado por alguma escola, principalmente a graduada na época, porque a PlayPen era considerada uma escola preparatória para entrar numa graduada. Então sempre era indicação. Então a mãe ligava pro colégio e a gente marcava uma entrevista com ela e ela vinha e a gente tinha que mostrar o espaço da escola, ela preenchia uma ficha que chamava ficha de reserva, e nessa ficha tinha os dados, né? Nome do pai, da mãe, data de nascimento do filho, onde o pai trabalha e pra quando você queria a vaga, porque a PlayPen, nessa época, tinha muita concorrência, assim, muito aluno, então a gente não podia pegar todos os alunos, né? Então você tinha que selecionar algumas coisas e aí a pessoa deixava essa ficha de reserva e depois a gente ligava pra marcar a matrícula, e aí, não só as pessoas vinham pra escola com horário marcado, eles vinham também e chegavam lá e você tinha sempre que ter alguém pra mostrar o colégio, né? Então normalmente era a Guida que mostrava na época, e quando não, era eu, o Edson... Eu mesmo já fui nas férias, porque tem um período que a escola fechava mesmo, a época de Natal e Ano Novo a Guida sempre fechava a escola. E aí, nessa época, tinha, às vezes, alguém que indicou, um conhecido, e que queria conhecer a escola, aí a Guida... Era... É uma época que a Guida não viaja, eu não sei agora, mas é uma época que ela não viaja, período do Ano Novo, Natal. E, assim, ela vai pra algum lugar perto, mas ela fica por aqui. É uma época que ela vai à escola, mesmo sozinha ela ia muito, então era ela que mostrava, então, às vezes, ela me ligava... Um dia ela me ligou e falou: “Lourdes, tem uma mãe que vai chegar aqui e eu não sei onde está nada”, e aí a pessoa ia pagar o colégio, e nessa época a gente recebia a escola em dólar, eu até lembro, era trezentos dólares. E aí ela não sabia muito como funcionava, porque daí tinha máquina elétrica e tinha um carnê e a gente que fazia, eu e o Edson, né? E aí eu que tinha que fazer e ela não tinha essa... Porque às vezes era uma época que estava já pra começar, então não podia esperar pra gente voltar de férias, eu e o Edson, então, uma vez, ela ligou e pediu socorro pra eu ir à escola para ajudá-la, né? Aí eu cheguei e dei uma organizada, nesse dia eu até varri, porque a gente dedetizava a escola, né? Então aparecia um monte de visitinhas, né? E a gente tinha que... “Ah, vem uma pessoa aqui”, eu lembro que essa época era alguém muito importante que ia lá na escola. Aí ela marcou e eu falei: “Mas que horas você quer que eu vou?” “Ah, umas onze horas, mais ou menos, que eu marquei.” Eu falei: “Ah, tá bom.” Eu cheguei lá umas nove e meia, aí organizei a escola, né? Deixei mais ou menos arrumada, dei uma varrida pra pessoa não ficar... E pra receber, porque ela ia chegar lá e eu que estava lá pra receber a família. Então era assim que a gente fazia, e era uma época de agito a época de matrícula, porque tinha muita gente procurando o colégio, né? Então a gente tinha que tomar muito cuidado para não... É, se a pessoa fez matrícula, não esquecer o nome da lista, pra ter todo o amparo, né? Pro aluno, no primeiro dia, receber o material dele. Então era muito corrido, você tinha... Às vezes chegava gente, começava a aula dia primeiro e ia lá no dia 31, né? Dia 28 de fevereiro, vamos supor assim. E aí chegava lá, a criança no primeiro dia de aula, com tudo pronto, porque o pai pagou pra tudo isso e você tem que deixar tudo organizado. O material na carteira do aluno, enfim... As professoras é que organizavam isso, então no primeiro dia era legal, porque elas chegavam um pouco antes, dias antes, as professoras, e elas deixavam as salas bem preparadas. Então era um ambiente gostoso, de bem-vindos. Então tinha toda a coisa da conversa, de saber como foram as férias, tinham uns lanches especiais do primeiro dia, então tinha a apresentação do espaço do colégio para os alunos. Então era um dia, assim, atípico, não dava pra fugir, não, mas era bom.
P/1 – E conta um pouquinho, você viveu também o período de transição da escola, que ela cresceu bastante, aí que ela teve que...
R – Então, a PlayPen sempre foi uma escola com muito aluno, né? Então a gente tinha muita ficha e você não podia chamar. Porque não cabia nas salas. Então, assim, essa questão da PlayPen crescer, ela já nasceu grande, né? Então, por conta dessa transição, que foi a época quando a Guida resolveu construir a escola, porque daí se tem a necessidade de aumentar, né? Porque quando se tornou uma escola bilíngue, ela viu que o negócio ia desabrochar e que ela tinha que continuar, então o espaço não dava mais. Porque as salas, no começo, eram muito pequenas, principalmente do fundamental, né? Porque do infantil, não. Porque o infantil, muitos saíam, mas os que iam continuar no colégio, porque era muito envolvente essa coisa do bilinguismo nessa época... E aí ela pegou e falou que ia construir o colégio, e aí foi uma conquista, um peso pra ela em relação a isso, porque como fazer? Aí chamou-se o arquiteto. Porque a Guida é muito decidida no que ela quer. É aquariana, né? E aí ela começou a fazer... Ela chamou o arquiteto, aí ele veio e teve todo esse processo... Mas quando ela falou que ia começar a obra, que a escola ia ter que construir a tal da maquete... Foi uma coisa assim, a gente olhava aquilo e namorava, porque você não via a hora de ver a escola daquele jeito, né? Porque aí ia crescer, é uma escola que ia... Aí, quando começou a obra, foi onde os pais... Sei lá, o ser humano é muito... Ele não confia muito nas coisas, na capacidade do outro, e aí eles vão, foram muitos embora, e os que ficaram mesmo... Foi uma época assim, até gostosa, né? Não foi uma época difícil... Difícil, porque embarcou a obra, essas coisas todas... Mas assim, tudo na vida é uma experiência, né? Então hoje em dia, talvez se a gente ver uma situação dessa com alguém, você fala: “Não, vai em frente, porque dá certo.” Então foi uma época, assim, eu digo de... Não é de problema, mas de desafio, né? Não foi um problema, foi um desafio e hoje está aí, grande.
P/1 – Fala pra mim como foi pra você ver a demolição? Ver caindo? 
R – Ah, foi triste, viu? Eu chorei nesse dia, quando ela falou que a gente tinha que desocupar a escola foi triste. Foi triste...
P/1 – E o que vocês fizeram? Vocês ajudaram na mudança? A empacotar?
R – Ah, ajudamos a desmontar tudo, foi triste. (choro) Porque é uma história que a gente tem lá, né? Porque daí você tem que tirar a Marinalva de lá, derrubar a escola, e a Guida preocupada com as árvores, né? “Olha, não estraga a jabuticabeira.” Eu lembro que a jabuticabeira, quando eles começaram a obra, ficou um canto assim... Então ela virou um pau, e aí, quando eu olhei aquilo, eu falei: “Gente, eu não estou acreditando.” E ela, assim, morreu, entendeu? A gente pensou que ela não fosse, porque você não pode jogar fora, né? Você tem que replantar, então todas as árvores que foram retiradas eram pra ser replantadas, né? E a jabuticabeira ficou, assim, muito feia... Quando ela foi colocada no lugar, a gente não acreditou que ela nasceu de novo, entendeu? Mas foi muito triste, porque aí você teve que desocupar as coisas, desocupar armário... É, sei lá... Parece que você morreu por dentro, né? Mesmo... Eu não falo que era um espaço velho, porque a casa era antiga, né, mas era a nossa casa e a gente tinha amor àquilo, né? Então, quando foi pra ir pra outra casa, foi um choque, viu? A gente ficou muito triste, porque era um espaço menor, a gente sabia que a gente ia enfrentar alguns problemas, né? E a Guida... foi uma época que a Guida, assim, teve muito... Ficou muito nervosa, a gente a via muito triste com as coisas que fizeram, né? Mas a gente sempre ali dando força pra ela poder continuar, porque não é fácil, tem que ter muita coragem, né? Tem que ser mulher pra fazer isso, homem não aguenta não. (risos) Mas foi triste.
P/1 – Aí, quando montou o outro espaço, o que vocês fizeram pra adaptar? Qual foi a sua ajuda, a sua atuação nessa parte?
R – Eu lembro, assim, que houve a mudança, porque nós saímos da esquina pra ir para uma casa que era do senhor Ramon, né, que as filhas dele estudaram lá muito tempo atrás, o sobrenome da família é Alberique, a Juliana, a Júlia, né? Elas eram gêmeas, e aí nós fomos pra casa delas, que é uma casa assim... Legal no bairro. E aí nós levamos a mudança... E eu e o Edson, nessa época, a gente tinha carro, né? Então nós levamos também, colocamos o carro na porta do colégio, abrimos o porta-malas e vamos levar. Computador, vassoura, o que for pra levar, papel, porque tem coisa, assim, como era arquivo, documento. Então o Edson tinha muita responsabilidade com as coisas dele e a gente já sabia... Eu lembro que eu fiquei numa salinha bem pequenininha assim, que era... Eu falei que eu sempre quis ter uma porta igual a da Guida e nessa casa eu tive, que era uma porta de vidro que abria assim, mas quando abria, batia em mim, porque era muito pequenininho o espaço e não tinha jabuticabeira na frente, era uma parede. Então não foi uma Guida feliz, né? Porque é uma porta de vidro, mas não foi feliz, não... Mas assim, a gente fazia de tudo pra poder conseguir, né, na época, mas quando a gente mudou, a gente não esperava que fosse passar por tudo que a gente passou, a questão era... A nossa vontade era que a escola começasse e a gente passava lá todo dia, a hora do almoço, era a obra, a gente ia passear na obra, né? Não podia entrar, porque estava tudo fechado, mas a gente ficava andando que nem bobo em volta do quarteirão pra ver como funcionava, porque você não via, né? Porque você estava... Aí você olhava assim pelo buraquinho pra ver, aí você via uns buracos assim e você falava assim: “Nossa, o que virou a escola?” Mas aí foi... O espaço novo era complicado, porque era uma casa, né? Eram quartos. Às vezes até um pouco... Do tamanho dessa sala aqui. Então você tinha que adaptar todo mundo, mas era um espaço legal, eu lembro que a piscina foi coberta, né? Porque tinha uma piscina a casa. E a Guida falou: “eu não quero saber de piscina aqui” e aí foi coberta, não sei que fez... Madeiramento, alguma coisa, e ela foi coberta, até tiveram algumas aulas na piscina, mas depois tirou, virou um espaço de lazer, não dava pra ter piscina, mas foi bom, foi uma época boa, diferente, na casa nova.
P/1 – E diferente por quê? O que acontecia lá de...
R – Era pequena, né, muito pequena, mas a gente sabia que estava ali por um tempo e que era para uma boa causa. Então, assim, a gente tinha muito cuidado de não reclamar, né? Eu e o Edson, na época, a gente era muito assim, desculpa o termo, mas puxa saco mesmo! Porque a gente tinha muito cuidado de não reclamar pra não criar um clima de problemas, né? E foi a época que a Dani já estava também no colégio, porque a Dani também está lá um pouco menos do que eu, mas foi na mesma época também. Então foi uma época que ela ajudou bastante, ela já estava na direção e aí foi uma época que a gente tinha que distribuir convites e tudo que a gente tinha que fazer na escola, de festa, a gente fazia o melhor possível pra poder a coisa ali ser bem saborosa pros pais, né? Porque a cada ano era uma conquista, de quantos sairiam. Então não foi fácil, mas era um espaço legal, aí tinha o refeitório que era... Foi coberto com plástico e, nossa, era um calor danado, não dava nem pra comer, e a gente ali falava com ela: “Imagina, não tem calor aqui não”, suando, mas não reclamava, não, porque daí você mostrava uma escola... Você mostrava a PlayPen que tinha aquele espaço, aquele play maravilhoso, aí, quando ia mostrar para os pais aquela escolinha e o refeitório, nossa, era o pior, porque era de plástico. Imagina no verão uma coisa de plástico, porque a casa era toda coberta, a área que era a piscina, ele fez uma cobertura, o dono da casa, e era quente pacas, era um calor que você não tem noção. A casa tinha ar condicionado nas salas, mas a gente não ligava muito, porque tem muita gente que tem alergia, as crianças, então não podia, né? Mas era um calor danado lá... Mas foi bom.
P/1 – E como é que foi, do outro lado, sair dessa casa adaptada e ir pro prédio novo, todo bonito?
R – Ah, foi bom, né? Foi legal, porque foi uma mudança diferente, um espaço novo, e é engraçado, porque quando você entra no espaço novo, você realmente está entrando no novo, pessoas novas, casa grande, construção grande. Então você olhava aquela rampa e falava: “Meu Deus, o que é isso?” O espaço, aí vai, arruma uma coisa, arruma outra e constrói parede, derruba parede, né? Aí o Márcio... Que tem aquele madeiramento, né, que é, vamos dizer, o cartão de visita do colégio, que todo mundo que passa fala: “Ah, você trabalha naquela escola que é uma de esquina, que tem aquela coisa de madeira? Ah, é lindo aquilo.” Mas aquilo também foi complicado, porque tirou muito a claridade do colégio, das salas, mas ficou bonito, né? O Márcio Kogan, o arquiteto. E aí tinha o engenheiro, foi uma festa, viu? Teve até champanhe. Foi boa a inauguração.
P/1 – E como é que foi essa inauguração?
R – Ah, foi na época de férias, a gente mudou, e aí tem que organizar, tinha que comprar móveis novos pra escola. Então era uma época que a escola não estava bem financeiramente, vamos dizer assim, então a gente tentou fazer tudo o melhor, né? E até foi bom, eu acho que Deus é até um pouco justo nessa parte, porque nós tivemos que comprar menos coisas do que a gente poderia ter comprado se tivesse bombado o negócio, né? Então foi menos carteira e a Guida escolheu tudo do melhor, as cores do colégio, e a mudança foi diferente, porque daí você não precisou trazer mais no Corsa e no Golzinho, você trouxe no caminhão, né? Foi bom, foi gostoso.
P/1 – E aí, arrumar as coisas tinha outro clima, né?
R – Ah, é, você está no seu espaço, né? Vamos organizar, vamos falar: “Aqui vai ser a sala tal”, fizemos as plaquinhas das salas, embora na outra casa também já tivessem placas identificando as salas, mas era diferente, porque você abria aquelas salas e mostrava aquele espaço do infantil, né? A mãe falava: “Nossa!” E as salas, todas bonitinhas, porque ela não tinha muita coisa de móveis, mas as professoras fizeram o melhor delas em termos de organizar as salas, bonitas, pra poder receber os alunos. E era um espaço novo, né? E, além disso, você tinha que mostrar para os pais, né? Porque eles queriam conhecer o colégio e tinha uma época que a gente não podia mostrar, porque tinham coisas que não estavam prontas ainda, né? Então você tinha que esconder um pouquinho, a biblioteca também... Aí o play virou biblioteca, né? Porque a biblioteca foi a primeira coisa a montar e ficou bonita, né? Ficou boa. E assim foi indo, a cada ano, montando uma coisa, comprando, organizando uma sala... Aí as salas de cima não tinham alunos e hoje em dia tem, e aí tornou-se um curso extra, né? Então lá tinha aula de Kung Fu, de Judô, de Balé, aí tinha uma sala toda espelhada, onde fazia o Balé, hoje em dia não tem mais, porque agora só tem aluno, né, que era o objetivo da escola.
P/1 – E conta um pouquinho pra gente quais foram os principais desafios que você enfrentou na escola, na PlayPen.
R – Mas você diz em relação a quê?
P/1 – Ao seu trabalho, ao dia-a-dia. 
R – Então... Pula essa parte, né? (risos) Não. É assim, a escola, quando se muda... A PlayPen sempre foi muito família, então, quando mudou um pouco e nós fomos pra escola nova, mudou-se as pessoas, né? Mudou-se a equipe, e aí você tem uma certa divergência com um, com outro. Então aí vai se desgastando algumas coisas, mas você não deixa de amar aquilo, né? Não deixa de amar... Mas aí vai se relacionando com um, com outro, e você tem que saber lidar com a situação e acho que chegou a hora de mudar, né? Então foi aí que começou a mudança da equipe. Os antigos começaram a sair e aí começou uma equipe nova dentro do colégio, mas a Guida continuou a mesma pessoa.
P/1 – Como foi essa sua saída?
R – Foi triste, viu?  Não foi uma saída boa, não. Eu não queria sair, mas aí, por alguns fatores, eu achei melhor, porque assim: eu sempre quis sair da PlayPen com uma porta aberta, né? Porque meu pai sempre me ensinou isso: “Saiba entrar e saiba sair.” Então eu sempre me preocupei com isso, de não deixar a coisa acontecer... Mas chega uma hora que você vê que a coisa não vai dar muito certo. Então foi onde eu falei pra ela que eu queria ir embora e ela falou que era pra eu pensar, mas eu falei: “Não, é melhor eu ir embora”, porque eu queria sair de lá e hoje viver esse momento que eu estou vivendo, né? De gratidão, de... Eu acho que nesse tempo que houve essa... Acho que o problema foi mais eu, né?  Porque hoje em dia eu encaro as coisas... Eu acho que eu fui muito infantil na época, então hoje em dia eu vejo a coisa diferente, se eu tivesse... Se fosse a Udi que é hoje, talvez as coisas tivessem sido melhores pra mim. Então eu tive muita preocupação em deixar uma pessoa que pudesse continuar o meu trabalho, porque eu tinha muita, assim, vamos dizer, amizade mesmo com algumas mães, porque eu vi as crianças pequenininhas e foram crescendo, crescendo. Então as mães tinham muita confiança em mim e eu não queria sair de lá e deixar um buraco, dizer assim: “Eu não quero mais.” Aquilo pra mim não foi bom, porque eu acho que um lugar que você fica quatorze anos não pode ser ruim, tem que ser bom, porque se fosse ruim, você tinha saído antes. Então pra mim não foi ruim. Então eu queria sair numa relação legal lá e na época eu não contei pra ninguém, eu pedi pra Guida e falei: “Eu não quero que você conte pra ninguém que eu pedi pra sair.” Então ficou sabendo eu, o Edson e ela e os orientadores, né? E aí eu falei pra ela: “Eu quero sair nas férias, porque quando começar as aulas, eu não quero mais estar aqui”. Porque eu sabia que ia ser triste pra mim, né? Eu deixar aquilo ali, o meu mundo, a minha casa, eu falava que a PlayPen era minha casa. E aí eu saí em junho e quando foi em agosto eu não estava mais. Até nesse evento que vocês fizeram lá, de montar a história, o Maluf falou: “Mas você fugiu mesmo.” Eu falei: “Não, eu saí, porque eu achei melhor sair desse jeito.” Então, quando voltou, já estava a Soraia, porque a Soraia foi um achado também na PlayPen. Foi uma benção que chegou lá e aí eu saí, porque eu senti que ela estava preparada pra ficar lá. Então a Guida não ia ter problema que eu saísse e ficasse aquela rotatividade de pessoal. Porque escola não dá pra você ter essa rotatividade, porque fica um clima muito ruim, as pessoas começam a achar que alguma coisa de errado está acontecendo, porque eles criam vínculo forte. Então eu não queria ter essa impressão, né? E a Soraia está lá fazendo seu trabalho bom.
P/1 – E por todo esse amor, foi que você decidiu continuar trabalhando em escola? 
R – Não, aí foi a tal coincidência, né? Porque tem uma professora que chama Mara, que é irmã da professora Cássia. A Mara é uma pessoa que a Guida gosta muito também. E, um dia, eu fui ao supermercado, o Sonda, que fica em Santo Amaro, que foi a época que eu saí da PlayPen, era julho, alguma coisa assim. Aí ela falou: “E aí, Udi, tudo bem? Como está a escola?” Eu falei: “Eu saí de lá.” Ela falou: “Não! Eu não acredito que você desmamou.” Aí eu falei: “Então, eu saí de lá e tal.” Ela falou: “Tem uma vaga lá no Santa Maria, que é pra parte de telefonia, é mais cuidar da parte da telefonia. Você quer ir?” E lá é uma escola de freira, né? Aí eu falei: “Tá.” Ela falou: “Então você manda um currículo pra mim que eu vou entregar pra diretora, que é uma irmã que chama Ane.” E aí a Mara entregou. Mas assim, foi uma coisa... Eu não consegui nem receber meu seguro desemprego direito, porque eu saí da PlayPen em julho e quando foi dia cinco de setembro eu entrei no Santa Maria, através da Mara, no supermercado. Então eu acho que a minha vida é essa questão, porque a gente, na vida, cria amigos e quando você é bom, você sempre tem alguém que te olha. E a Mara chegou lá e falou maravilhas de mim. Quando eu cheguei lá, eu estava empregada e foi o que aconteceu na PlayPen: eu cheguei em casa, já tinha um telefonema que era pra eu voltar. E eu não queria, eu falei: “Ah, não. Eu quero descansar um pouquinho, mais um pouquinho.”  Porque lá não tem como registrar sem... Essas coisas pra você receber, eu não estava preocupada com isso, mas eu falei: “Eu não quero... Vou esperar um pouquinho.” Mas aí eu falei: “Não, se Deus abriu, eu vou entrar.” Engraçado também que tem aquele Guia Escola, eu não sei se vocês conhecem, e lá tem o Santa Maria, e eu, quando saí da PlayPen, comprei um pra mim, porque eu falei: “Eu vou procurar na área de escola, quem sabe, né? Eu vou continuar.” Porque é uma área gostosa, né?  Tem férias num momento legal, então é bom. Aí eu olhei e falei: “Nossa, que escola!” Ela tem uma vista... É lindo, o Santa Maria é lindo! Lá é um bosque, tem muita árvore lá, é uma escola boa. E aí eu cheguei lá, eu falei: “Nossa, eu podia mandar um currículo para essa escola”, ah, “mas eles não vão me pegar”, eu nem mandei. E eu encontrei a Mara no supermercado. Aí a Mara deu o currículo e eu fui trabalhar lá e estou até hoje. Inclusive, eu saí de lá, o pessoal falou: “Você não vai voltar pra PlayPen, né?”  Eu falei: “Olha, vocês estão correndo risco.” (risos) Mas foi bom e essa questão... E é assim, sempre que eu sinto necessidade, eu estou lá, e eu acho que quando você faz o mal, um papel ruim, porque a gente já viveu, né, até mesmo pessoas que saíram de lá e fizeram muito feio e você acaba não tendo uma porta aberta quando você chega num lugar, e lá é assim, eu chego e desde o segurança eu sou bem recebida. Eu até falo: “Eu não vou nem subir.” “Pode subir, vai pra sala do Edson, da Guida, pra onde você quiser.” Então, assim, às vezes eu vou à cozinha com as meninas e é uma festa, então é um lugar assim, eu trabalho no Santa Maria, mas lá eu não tenho o amor que eu tive na PlayPen de amigos, de pessoas, de história, eu não tenho um lugar onde você teve... Quem viveu na PlayPen sabe. É o que você falou... Depois, o que são os problemas que fizeram você sair? É exatamente quando você pensa que você perdeu o amor, que você não tem valor e na verdade quem cria essa desvalorização é você mesma, porque eu lembro que a Guida falava pra mim: “Você não está entendendo a pessoa.” E eu não consegui, ela falou: “Você está sendo criança”, porque eu não conseguia ter esse domínio de não saber lidar com a situação. Hoje em dia, eu sou mais adulta pra essa coisa, eu cresci mais. Então hoje eu falo que se eu tivesse sido um pouco mais adulta talvez eu tivesse lá até hoje, né? 
P/1 – É mais esses aprendizados, né?
R – São todos aprendizados, eu não tenho porque... Por isso que eu te falo: “Hoje eu não tenho...” Se você encontrar pessoas e falar: “Eu vou lá na PlayPen”, as pessoas falam: “Nossa, mas você vai fazer o que lá?” “Eu vou lá ver meus amigos, ver a escola, ver um pedaço da minha vida. Não foi um período de trabalho, foi um período de vida.” É uma vida aquilo ali. Aí foi assim, e eu encontro as vezes... Outro dia mesmo, eu fui ao shopping e encontrei uma mãe, do Guilherme, que hoje até está no Santa Cruz, ela saiu da PlayPen porque o marido dela estudou no Santa, enfim, tem todo um... E ela foi pro Santa e ela não acreditou quando ela me viu, eu fui falar com ela: “Oi, tudo bem?” Ela falou: “Você é a Lourdes?” Ela se lembrou do meu nome e isso é uma gratidão, assim... Então, às vezes, eu encontro a mãe do Alfredo, que é um aluno com uma mãe muito especial pra mim na escola, e eu encontro, às vezes, ela no Carrefour, o filho dela está enorme, tipo o Caio, assim, é na mesma época do Caio, e você vê assim, você fala: “Gente...” E elas lembram, então, assim, é uma vida, é uma história muito boa de ter vivido, né? 
P/1 – Conta pra gente um pouquinho também das bienais, você chegou a ver as exposições dos alunos? 
R – Vi, eles fizeram uma bienal que foram alguns escritores famosos que eu não lembro agora pra falar. Então essa foi muito legal, que foi o negócio do navio das cores e essa bienal marcou muito a escola, né? Porque foi uma coisa assim que as crianças viveram mesmo e criaram as coisas pra bienal acontecer. Então, quando você começa uma bienal, tem todo um trabalho, porque você tem que entrar em contato com as pessoas para as pessoas virem e ajudarem os alunos, entrevistas, bla bla bla... Criar a parte artística pra coisa. E quando você vê a coisa acontecendo, você fala que é inacreditável. Então eu acompanhei as bienais, os congressos da escola e, assim, evento de primeira mesmo. A Guida sempre teve essa preocupação de preparar tudo da melhor forma possível, né? Mas foi bom, as crianças participam de tudo lá, tudo! Eles sabem tudo, desde a parte de... Até limpar, se precisar, eles limpavam. “Ah, vamos fazer aqui, vamos limpar aqui”, então era muito bom.
P/1 – Udi, conta pra gente, como você vê a PlayPen daqui a uns cinco anos?
R – Ah, foi o que eu falei... Eu acho, assim, que é um sonho realizado, né? É um sonho, um desafio, uma vitória, e eu acho que a PlayPen pode se sentir pioneira mesmo, porque hoje em dia tem muitas escolas como a PlayPen que são, vamos dizer assim, de ex-professores que montaram escolas que a Guida tem, assim, afinidade... Até conhece, já foi até em algumas escolas. Então você olha a PlayPen como, assim, o começo de tudo, de um bilinguismo, de uma escola bilíngue. E eu acho que a escola só tem a crescer e ensinar para os filhos, esses que virão aqui dar entrevista vão... E eu tenho certeza que pretendem colocar os filhos lá pra viver a história que eles viveram, talvez melhor do que eles viveram, né? E assim por diante, mas é uma escola que promete, que eu acho que não vai morrer nunca. 
P/2 – Só uma coisa, você fez Pedagogia em que momento? 
R – Na PlayPen que eu fiz.
P/2 – E o que você acha que te ajudou, assim, você ter feito essa formação?
R – Ah, eu acho que você sabe lidar um pouco mais com a escola, né? Eu nunca tive pretensão de fazer a Pedagogia para ter um cargo melhor na PlayPen, eu era feliz com o que eu fazia, eu sempre fui feliz, né? Mas eu fiz assim, por envolvimento mesmo, pra você se aperfeiçoar, pra você entender um pouquinho mais na parte legal da escola, pra você não ter problemas. Então, assim, foi uma afinidade que juntou a PlayPen com a minha vida profissional. No entanto, eu não fui lecionar, eu continuei trabalhando numa escola na parte administrativa. Então foi o período que eu estava na escola e, assim, eu tive toda a parte de estágio que eu fiz lá, então foi legal... Mas foi bom, parecia que eu não... E quando eu chegava, nossa! Eu chegava lá onde eu estudava, eu estudei na UNISA. Aí eu chegava lá e falava que eu trabalhava na PlayPen: “Nossa, naquela escola chique? Que legal, as crianças falam inglês lá mesmo?” Porque daí teve uma época que a escola começou a sair na televisão, sair em revista. Então começou essa parte, vamos dizer assim, como se diz? A parte magia da escola, e aí virou comentário, né? Porque onde você ia, você tinha gente... E eu adorava, eu nunca tive vergonha de ter uniforme e usar lá, então às vezes eu ia ao shopping e tinha um lencinho laranja e eu ia toda PlayPen pro shopping Morumbi, que eu encontrava mãe até... Tinha mãe que queria me pagar a escola, eu falava: “Aqui não, não posso receber esse dinheiro, não é meu.” Então é uma coisa gostosa.
P/1 – E como que foi a faculdade? Fazer o estágio na PlayPen? Você acompanhava as aulas?
R – Ah, não teve muito estágio, né? (risos) Não teve muito estágio, porque não tem tempo, mas assim, eu lembro que quando eu fiz o meu relatório, eu fiz um estágio... Lá não teve alguma coisa pra contar, então você teve que fazer as observações, tudo que relacionar a estágio, você teve que fazer um caderno e esse caderno conta a sua experiência. Então, assim, eu, na verdade, não fiz, mas quando eu fui apresentar o meu estágio, eu falei... Eu escrevi tudo que eu pensei da PlayPen, porque eu vivia lá, eu via as coisas acontecerem, eu fiz, eu relatei e aí a professora do estágio... Eu tirei nove no estágio, no relatório, né, que era um relatório de conclusão, e aí ela falou: “Nossa, está muito boa essa escola”, eu lembro que ela falava. Eu falei: “Lá é assim.” Então, assim, na verdade, eu não fiz um estágio em sala de aula, mas eu tinha o estágio da minha vivência. Eu sabia tudo que acontecia numa sala de aula, como que ia acontecer, assim, não de uma forma... Mas você sabia o que acontecia. Aí as pessoas até perguntavam pra mim na faculdade: “Mas criança de um ano fala inglês?” Eu falei: “Eles começam a falar e vai desabrochando, que uma hora que você vê, a criança está desembestada a falar o inglês”, porque vive aquilo e acaba aprendendo, né? Mas foi bom. Ficou legal, mais alguma coisa?
P/1 – Você falou que chegou a dar umas aulas?
R – Então, eu trabalhei numa escola do Estado como eventual. Eventual é uma professora que substitui, né? Então, assim, foi uma vivência, porque eu realizei um sonho. Então eu fiz uma pasta e eu falei: “Bom, o que eu posso oferecer para esses alunos?” E eram alunos do noturno e eu falei: “O que eu posso oferecer?” Porque era uma escola assim, bem... No meu bairro, e aí eu falei: “O que eu vou fazer nessa escola?” Eu falei: “talvez trabalhar um pouco a escrita, né, dos alunos.” Então eu comecei a pegar textos de revistas Veja e tal, aí eu entregava pra eles pra eles tirarem a parte crítica, o que eles observaram, enfim, para eles desenvolverem a escrita e foi legal. Só que é assim, é uma carência muito grande, e aí eu estava muito cansada, porque eu trabalhei na PlayPen e eu trabalhava à noite nessa escola. Então eu fiquei praticamente um ano e coincidentemente saiu uma professora de História e eu substituí a professora de História numa turma que era a turma do oitavo e sétimo ano. Então, assim, foi uma vivência, porque eu tive que preparar a aula e eu fiz tudo muito bem, eu pensei que eu não tivesse tanta capacidade pra isso. E eu acabei fazendo mesmo, eu só saí de lá porque eu estava muito cansada. Eu até tentei, porque eu trabalho meio período hoje, então eu tentei ficar a tarde, mas é muito problema, sabe? Tem muita coisa que é difícil você lidar, tem muita violência, muita tristeza, né? Alunos envolvidos com coisa que não devem, eles não têm comprometimento. Então, assim, foi uma experiência boa pra eu saber que eu não posso fazer isso, que não é a minha praia. 
P/1 – E agora, voltando pro seu lado pessoal, assim, qual é o seu estado civil? 
R – Então, esse é um problema sério, viu? Porque eu entrei na PlayPen e eu era solteira e eu saí da PlayPen, eu fiquei solteira... E aí, o dia do evento que nós fizemos lá, a Guida falou: “Eu coloquei uma noiva.” E a Guida falou: “Eu ainda vou ser madrinha do seu casamento.” Eu ainda brinquei com ela e falei: “Mas você precisa falar em que vida, porque nessa eu não sei, não.” Então a minha vida pessoal, eu não casei, né? A Guida até falava assim, ela brincava muito comigo, porque eu sou espírita e, assim, eu me dediquei muito a minha parte nessa religião que eu frequento. E uma coisa de você ir rezar... A Guida fala que eu não casei porque eu rezo muito, eu não tenho tempo de beijar, de namorar, de sair, né? Eu rezo muito e aí, assim, o tempo passa e é aquela coisa mesmo, as vezes você se dedica... Você deixa parte da sua vida pra determinada coisa e você se esquece da outra parte. Então, na vida, você tem que seguir uns caminhos e as vezes você... O tempo passa muito rápido e quando você vê... Hoje eu já tenho uma idade que, hoje em dia, pra eu olhar para um rapaz, eu quero saber o que ele tem pra me oferecer. As cobranças são maiores, né? Hoje eu moro sozinha, que é um sonho de conquista. Eu lembro que quando eu comprei o apartamento, eu estava lá na casa de um amigo e aí eu liguei pro celular da Guida, e ela normalmente passa o ano novo em Parati, e eu liguei no celular dela e falei: “Guida, eu vou morar sozinha.” E ela falou: “Ah, que delícia! Até que enfim você desabrochou daquelas suas irmãs”, e não sei o que... E o fato mesmo da gente ser muito unida como irmãs, né? Porque a minha vida não foi uma vida fácil, eu tive muitos problemas na minha vida e, assim, não deixou para que eu vivesse outras coisas. Eu tive um sobrinho que teve um acidente muito feio de carro, foi até a época que eu estava na PlayPen e foi uma época dificílima, porque eu não conseguia cumprir as minhas responsabilidades lá e eu precisei muito do apoio de todo mundo lá e foi um momento, assim, que talvez eu não tivesse tido muito apoio, né? Até mesmo hoje eu entendo, porque não dá pra você abrir mão de algumas coisas, você tinha as responsabilidades e foi uma época... Foi um acidente muito feio, ele ficou um mês em coma, sem saber se ele ia viver ou morrer, hoje ele está aí, né? Foi assim uma... Eu digo que foi uma promessa que foi conseguida, né? Com fé. E hoje ele está aí e tal, né? Talvez um pouco inválido, mas novo, ele tinha 21 anos. O Edson acompanhou essa história também e foi muito difícil e eu lembro que eu não conseguia nem atender as pessoas, porque eu não tinha estrutura e estava, assim, uma coisa... Eu sentia que estava interferindo no meu trabalho na PlayPen, mas era mais forte que eu e eu lembro que tinha uma mãe lá, eu lembro até hoje dela, a doutora Regina, que é a mãe do Alberto, e eu estava na recepção, assim, eu estava muito magra, né? E ela falou pra mim assim: “Nossa, Lourdes você está muito estranha, o que foi?” Foi só ela falar isso e eu saí e fui chorar. Aí eu chamei alguém para ficar na recepção e saí, fui chorar, e aí ela falou: “O que aconteceu? Por que ela está assim?” Aí ela pediu pra uma pessoa me chamar, essa mãe é uma pessoa fantástica, e ela pediu pra me chamar e eu voltei e ela falou: “Agora você vai me contar o que está acontecendo, eu quero saber.” E eu contei pra ela, essa mulher ligou para o hospital onde meu sobrinho estava, porque ele foi para hospital público, né? E ela falou que era uma parente minha e ela soube tudo que estava acontecendo com ele, tudo. E ela acompanhou todo trabalho. Eu sempre tive essa preocupação de não envolver as mães com a minha vida pessoal, né? Porque isso não pode em profissão nenhuma, mas quando você cria um vínculo com algumas mães, as pessoas acabam te conhecendo e aí vão observando que você não está bem. E essa mãe acompanhou todo o processo de quando o Anselmo sofreu o acidente, foi em 94, pra você ver, tudo teve uma fase, foi em 94, e em 95 eu saí da PlayPen. Então eu acho que o problema começou todo aí, o desgaste, talvez, e eu peguei e fiquei... E ela foi acompanhando e aí teve uma outra também que é parente de um político que tentou ver se conseguia um hospital, sabe? Pessoas assim, não que eu tivesse pedido, mas pessoas que acabam vendo que você não está bem e você conta. Essa mãe que conhece um político lá, era a mãe do Oto, a Juliana, ela falou assim pra mim: “Lourdes, se você não quer falar aqui, a gente marca um encontro e você vai conversar comigo, mas você vai me contar o que está acontecendo, você não está bem.” Eu falei: “Não, é muito trabalho, escola, e eu não estou conseguindo conciliar a faculdade, eu estou meio cansada”, mentindo, porque nem na faculdade eu estava mais. E ela não quis saber, ela quis saber, ela quis que eu contasse pra ela o que estava acontecendo e aí eu contei meio assim e ela querendo, ajudando, e ela é até parente do Alckmin e ela falou: “Eu vou ligar para alguém do Alckmim, eles vão conseguir.” E naquela época, meu sobrinho tinha que fazer uma ressonância, porque ele teve um problema no cérebro, né? Ele sofreu um acidente igual ao do Ayrton Senna, só que do Ayrton Senna foi fatal e o dele não, e aí ele tinha que fazer uma tomografia e não tinha o aparelho. O do hospital estava quebrado e o médico falou que se ele não fizesse, não tinha como salvar e a gente não tinha o que fazer. E aí eu não sei se foi essa mãe, amigos, ele foi transferido para Pedreira só pra fazer essa tomografia de ambulância e voltou e sobreviveu. Talvez, se eu não tivesse amigos, ele não tivesse vivo até hoje, em casa, e foram pessoas, talvez, de lá que me ajudaram, eu não sei nem te dizer quem, né? Mas eu tive tanto amigo nessa época que me ajudou e até a Juliana que falou: “Não, nós vamos tirar ele de lá e vão arrumar esse aparelho e tem que ter esse aparelho lá”, porque não pode... Quebrou no dia em que ele ia fazer e ele tinha que fazer. Então, assim, foram coisas na minha vida que eu tive muitos problemas na minha vida. Teve uma fase também que não contei pra vocês e foi assim: meu pai ficou doente e eu passei uma provação na minha vida, aí eu saí da PlayPen, pedi a conta pra poder cuidar dele. Aí eu saí num dia e ele morreu no dia seguinte, nas minhas mãos. E aí eu liguei pro Edson desesperada, eu lembro que o Edson estava numa sala da PlayPen velha e o Edson começou a gritar na escola: “Mas seu pai morreu? Por quê?” Eu lembro que a Guida quis ir na minha casa, eu sei que todo mundo se abalou, porque sabia que ele era uma pessoa importante na minha vida e aí eu tive que resolver um monte de coisas, porque meu pai era militar, né? E ele... Passou um tempo, foi assim, uma saída de férias, porque eu saí e a Guida mandou me chamar de volta, ela falou: “Você vai ficar esse tempo e quando você quiser você vai voltar.” Então eu fiquei uns meses, uns quatro meses, até resolver umas coisas e voltei pra PlayPen, então, assim, foram umas férias, não foi uma saída. Então eu tive muitos problemas na minha vida, muitos problemas... Talvez, não sei porque, né? Minha mãe morreu, depois meu pai, meu cunhado que morreu também de repente. Então, assim, se você contar um pouco da minha história, você vai ver que foram coisas tristes e sempre o Edson acompanhando, o Edson foi uma pessoa que tudo que eu tive na minha vida enquanto estive na PlayPen ele sempre me acompanhou. Sempre. Um amor de irmão mesmo. (choro) Desculpa. 
P/1 – Claro... Como você avalia a sua passagem pela PlayPen na sua vida?
R – Foi uma... Eu vou te dizer assim, talvez foi uma alegria na minha vida, eu tinha muito... Quando era época de férias, porque, às vezes, a gente fica cansada, quer férias, mas você não vê a hora de voltar e continuar sua vidinha pra trabalhar, e foi um momento muito bom, eu acho que foi um dos melhores lugares. Eu falo isso até onde eu trabalho e as pessoas ficam até incomodadas, mas eu falo com orgulho mesmo, foi um lugar, assim, que eu me apaixonei. Eu falo pra Guida que ali é a minha paixão, eu vou lá e olho aquilo lá e bate uma tristeza, mas eu me seguro, não posso ficar chorando todo o tempo, mas é bom.
P/1 – Quais você acha que foram seus maiores aprendizados lá na PlayPen? 
R – Foi assim, o primeiro aprendizado foi não saber nada e aprender tudo lá, né? E a Francisca, que foi a tal secretária, não me ensinou nada, porque não me ensinou nada. O Edson falava que ela só comia e tomava café, que abria a gaveta dela e só tinha comida, só tinha bolacha, pão. Então, assim, eu aprendi muita coisa lá de parte de secretaria, eu aprendi a amar as pessoas, a entender e fazer uma história e saber... Hoje eu não estou lá dentro mais, talvez eu possa até dizer assim: “infelizmente”, mas hoje eu olho e vejo que foi um lugar que eu aprendi muita coisa, até ser gente! Porque assim, eu sempre tive muito incentivo. Quando eu fui comprar meu primeiro carro e que eu fui trabalhar o primeiro dia com meu carro, a Guida foi até a casa dela com meu carro, né? Ela tinha um Suzuki automático que demorou pra ela dar um fim naquilo, mas ela amava aquele Suzuki dela, então o dela era todo automático. Então ela saiu com o meu Corsinha e foi até a casa dela buscar não sei o que, eu falei: “Meu Deus, ela vai acabar com o meu carro agora.” E, assim, foram conquistas: o carro, estudar, fazer amigos. Hoje eu olho e vejo como eu cresci, poderia... Eu aprendi muita coisa, hoje eu olho do lado de fora e eu vejo quanta coisa eu aprendi. No entanto, quando eu saí de lá, não teve festa, não teve nada. Aí, um dia, a Guida me chamou e falou pra eu ir lá que ela queria me entregar alguma coisa e os professores também não sabiam que eu ia sair e eles ficaram bravos porque ninguém avisou. Aí eu cheguei, um dia, era uma quarta-feira, e eu fui até lá e isso foi muito legal pra mim, porque eu cheguei numa reunião e estava tudo armado pra eles me receberem, né? E aí eles fizeram lá um foro, eu ganhei medalha da Célia, uma correntinha, e eu achei legal. Eu só pedi pra... Eles falaram comigo, me perguntaram e eu falei que estava indo... Eu não disse que eu estava indo por nenhum problema, eu disse que estava indo para um desafio, uma oportunidade diferente de trabalho e que eu não queria que ninguém tivesse nenhuma impressão que eu tivesse saído de lá por algum problema, que eu tivesse saído de lá bem, né? E aí fizeram isso e eu fui... Voltei lá e teve essa comemoração e eu pedi pra que eles tomassem conta da escola e das crianças, para que eles não deixassem essa coisa da PlayPen acabar, porque não pode, né? Tem que continuar de algum jeito. Aí eu olho hoje as pessoas com as quais eu tive alguns problemas, hoje eu vejo elas diferentes, eu vou lá e eu vejo que pouco ou muito me ensinaram, porque hoje em dia eu sei lidar com as pessoas de uma maneira diferente, eu tenho que entender que o outro não sou eu, né? E que cada um tem um jeito e eu tenho que saber lidar dentro de mim com as minhas dificuldades e continuar minha vida, né? E ser feliz.
P/1 – É isso aí. Pra encerrar, agora, as duas últimas perguntas.
R – Não, tudo bem. Fique à vontade.
 P/1 – O que você achou dessa ideia da PlayPen contar a história dela através das pessoas que ajudaram...
R – Olha, eu vou te falar uma coisa: quando vocês me ligaram, eu senti assim... Eu falei com a Fernanda, com você, né? Então eu falei com você que vinha com maior prazer de contar a história, eu acho que é muito importante e pra mim foi uma coisa, assim... Talvez toda aquela desvalorização que eu tivesse sentido quando eu saí de lá, foi paga agora nesse dia, nesse momento, que a gente está vivendo aqui, agora, de gratidão. Porque eu acho que ninguém é chamado pra nada se não é importante pra pessoa. Então, assim, eu me sinto com muito orgulho de fazer parte dessa história e de poder contar essa história pra vocês.
P/1 – Certo. E o que você achou de vir pra cá, sentar aí e dar essa entrevista pra gente?
R – Ah, emocionante... Assim, passa um filme, mas as histórias passadas fazem parte, então é como se eu tivesse incorporado a Udi de antigamente agora e passasse um filme na minha vida de tudo aquilo que eu vivi. Então assim, mexeu com toda a minha parte emocional, com toda a minha lembrança, de tudo aquilo que talvez eu não tivesse tido a oportunidade de falar, né? E vocês me fizeram reviver um momento assim, mágico, foi mágico. Obrigada. 
P/1 – Obrigada a você.             
 R – Bom, eu queria deixar uma mensagem pra Guida, agradecer a ela essa oportunidade, essa confiança que ela teve na minha pessoa de poder contar um pouco a história da escola, que na verdade é um pouco da história da minha vida e eu queria dizer assim: Guida, você é uma guerreira, eu sempre... Assim, o seu nome é falado na minha vida, assim, em todos os momentos que eu preciso de uma pessoa de referência, eu falo de você. As pessoas que me conhecem podem confirmar isso. E que você tenha muita sorte, que você seja muito feliz, que você tenha Deus no seu coração, que seus netos, seus filhos sejam abençoados também por Deus, e que a PlayPen que eu vivi seja a PlayPen de agora e que a nossa semente, eu digo assim, que a semente da jabuticabeira foi a PlayPen, né, e que essa jabuticabeira que eu chamo de PlayPen dê bastante flores, frutos e que lá cresçam os filhos, os netos, os bisnetos de todos os alunos que já passaram por lá e você sabe... Eu sempre falava que você era minha mãezona e você continua sendo, mesmo eu estando longe, mas você sabe que eu te ligo no ano novo, que eu te encho o saco, às vezes, mas é porque eu gosto de você. Um beijo e fica com Deus.

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