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História

As mil funções do secretariado

História de: Ester Domiciano de Paula Marcondes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

Sinopse

Em sua história de vida, Ester nos conta de sua infância e família em São Paulo e relata sua trajetória profissional na Eletropaulo, empresa na qual o pai trabalhou e onde também conheceu o marido e pai de seus filhos. Apresenta a importância no trabalho de secretariado e também comenta a sua atuação no quesito de lazer e recreação ligado a empresa e no sindicato eletricitário.

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História completa

P - Ester, bom dia. Nós gostaríamos primeiro de que você falasse o seu nome, seu local de nascimento, o nome de seus pais e onde você nasceu.

 

R - Bom, nessa ordem, né? Meu nome é Ester Domiciano de Paula, depois de um casamento adquiri um Marcondes também, né. Eu nasci no dia 15 de março de 1956, então já fazem 38 anos. Nasci num domingo, um dia bem ensolarado no mês de março, na cidade de São Paulo, na Vila Mariana, bem na Capital. Meu pai, Antenor Domiciano de Paula e mamãe Benedita Maria Camargo de Paula.

 

P - Qual a atividade de seu pai, da sua mãe? O quê que eles faziam aqui em São Paulo?

 

R - Meu pai veio pra São Paulo, veio de Ibitinga com a idade de 14 anos, no auge do café, veio para cá com os pais dele, se fixaram residência na Vila Mariana, e eles começaram a trabalhar no ramo da construção civil, trabalhava na Construtora São Paulo. Meu pai chegou a abrir uma empreiteira, depois ele fechou, encerrou as atividades da empreiteira, e foi trabalhar na então Light. Ele entrou em 1970, na Light. E a minha mãe sempre cuidou da casa, uma pessoa maravilhosa, muito alegre, muito amiga dos filhos, muito positiva, sempre trabalhou em casa. 

 

P - Como é que foi sua infância aqui em São Paulo? Quais são as brincadeiras da época, alguma coisa assim?

 

R - Bom, a infância, acho que de certa forma devo ter decepcionado um pouco os meus pais, porque era uma menina, menininha, loirinha, olho verde, todo mundo falava: "Que menina bonitinha, gordinha..." Mas eu gostava mesmo era de carrinho de rolimã, era empinar pipa, era pegar gatos, judiar dos gatinhos, afogar gatinho no rio, era fugir de casa um pouquinho, pular do telhado... então era aquelas coisas assim que a mamãe falava: "Meu Deus, essa não vai ter jeito mesmo." [risos]. Mas assim de infância que eu lembre foi uma infância muito feliz, com muita fantasia, com muita história, uma mistura de família de italiano, de espanhol... gente falante, né. Então tinha muita história, muita história alegre, muita fantasia na minha infância. E assim, eu vou levando. Essa fantasia eu vou levando até hoje. 

 

P - E você falou então que a sua família é descendente de espanhol, como é que é isso?

 

R - Tanto do lado materno, quanto do lado paterno as famílias vieram da Espanha, os bisavós... e trouxeram meus avós para cá. Eles começaram muito cedo, vieram jovenzinhos para cá. Já da minha avó materna, essa não, essa nasceu a bordo de um navio. Então ela não é nem italiana, nem brasileira. Ela foi registrada no porto de Santos com o nome do navio que a trouxe, que é o navio Arna, e aqui ela se casou com 12 anos de idade, com um índio bugre. Então, como todo o brasileiro, família é aquela mistura, né. Então tem espanhol, tem um pouquinho de alemão, tem italiano e tem um índio mesmo. Bem misturada [risos].

 

P - E assim, você tem mais irmãos, Ester?

 

R - Tenho. Tenho uma irmã mais velha, a Maria das Graças, e tenho um irmão mais novo, José Rubens, já casados também, já tendo a sua vidinha assim, vamos dizer, mais ou menos encaminhada, já com os filhinhos e tudo.

 

P - E na infância, como é que você se dava com esses irmãos? Você brincava muito com eles? Como é que era? 

 

R- Não, meu irmão ele já é um pouco mais novo, né, do que eu e minha irmã. Minha irmã mais velha sempre assim mais mocinha, namoradeira, né, aquelas coisas, e eu sempre pentelho, sempre fiz mais o estilo pentelho, de sempre provocar, sempre encrenqueira. Então, com meu irmão eu sempre tive um relacionamento de proteção, por ele ser mais novo seis anos do que eu. Ensinei a ler, a escrever, foi um assombro quando entrou na escola, porque já sabia ler e escrever, não sabiam o que fazer com ele. Aí culpavam a irmã que até nisso, até querer ajudar ela atrapalhou, né. E a minha irmã não. Minha irmã sempre foi mais assim... namoradeira, não queria muito estudar, mais assim... mas o relacionamento continua até hoje, um relacionamento muito bom.

 

P - Já que você falou sobre a escola, eu queria que você falasse, você era uma boa aluna? Me fale um pouquinho sobre a sua vida escolar.

 

R - Bom, em casa o primeiro dia de aula foi aquela tragédia, né, eu não queria ir, chorava, arrancava o lacinho do cabelo e não queria ir, aí chorava. Minha mãe levou, ficou... teve que ficar na porta da sala de aula. A família inteira se reuniu dizendo que não ia dar certo, porque não tinha personalidade nenhuma para enfrentar uma escola, que eles iam me expulsar logo na primeira semana e eu surpreendi. Na primeira reunião de pais e mestres, a família não sabia quem é que ia passar vergonha na escola [risos]. O pai pedia pra mãe, a mãe pedia pro pai, a avó falava: "Então eu vou, já que ninguém vai!", aquela coisa. Bom, fui uma aluna exemplar. Na escola nunca tive nenhum problema de reprovação, de rebeldia, nada... sempre uma aluna aplicada, exemplar. Gostei mesmo de entrar pra escola. Estudei mesmo. 

 

P- E você estudou o quê? Primeiro eu gostaria que você falasse sobre o colégio assim. Que colégio você estudou, e tal.

 

R - Estudei na escola do bairro mesmo, né, na Vila Mariana. Depois nós mudamos de lá, aí viemos para região Sul, a zona Sul, aí eu fui para uma outra escola, também me adaptei muito bem. Aquela época ainda tinha o 5º ano, o primário tinha cinco anos, eu fiz até o 5º ano, depois entrei pro ginásio. Papai não queria muito, falava: "Não, mulher não precisa estudar, faz um cursinho de datilografia está bom, né, depois casa, vai investir muito, né. Mas você quer?" Ah, mas eu bati o pé, porque eu quero, quero. Aí eu fiz o ginásio, do ginásio, eu parei. Eu fiz 4 anos de Panamericana de Arte. Fiz ilustração. Então trabalhei sempre com história em quadrinhos, com desenhos, sempre com muita arte, com perfil, grafite. Então fiz 4 anos de Pan-americana de Arte. Daí que resolvi fazer o colégio. Então minha vida sempre aos trancos, né. Aí fiz o colégio, parei, e continuei sempre trabalhando. Depois resolvi fazer faculdade. Aí fiz a faculdade e não consegui concluir. Fiz o curso de Letras, português/inglês, não terminei, porque nasceu minha menina, no meio da faculdade. Então como ela nasceu prematura, ela precisava ser amamentada, então eu me sentia meio culpada, né, de trabalhar, fazer faculdade e não ficar com ela, tão frágil. Aí, tranquei matrícula, falei: "Deixa eu cuidar dessa criança, amamentar, fazer minha parte de mãe." Tranquei matrícula, ela parou de mamar [risos]. Mas aí fui fazendo outros cursos, mesmo de aperfeiçoamento, reciclagem, na minha área mesmo, que é a área de secretária, né.

 

P - Então, já que você falou que você é secretária, vamos começar um pouco a puxar essa história do seu emprego, seu primeiro emprego qual foi? Como foi sua entrada na Light?

 

R - Bom, eu comecei a trabalhar em consultório, mas não era nem registrada... aquele consultório médico, consultório dentário, sempre como auxiliar, né. E depois eu entrei numa concessionária Chevrolet, vendia peças e trabalhei um ano lá. Só que a empresa ia se mudar pra via Anhanguera, ia ficar muito longe para eu trabalhar lá, não ia conseguir mesmo. Aí meu pai trabalhava na Light. Aí falei: "Ah, vou fazer um teste na Light." Aí fui lá, fiz um teste, passei. Passei, e depois que eu já tinha entrado na Light, falei: "Pai, sou sua colega de trabalho." [risos]. Porque é uma coisa curiosa, porque quando eu era pequena ainda, meu pai recebia o salário-família da Light, né, e ele falava: “Olha, olha o salário-família. Eu recebi o salário-família. ” Eu falei: "Agora eu não quero mais salário-família, né, pai, agora eu vou receber o meu salário mesmo, o meu salário profissional." Só que eu, lá na Light, entrei com um salário menor do que eu recebia na concessionária Chevrolet. Ah, mas meu pai ficou tão contente que eu resolvi trabalhar lá que ele completava meu salário, pagava a diferença. Aí fui, comecei a trabalhar ainda na época dos canadenses, que eles já estavam naquela transição. Já estavam começando a ir embora do Brasil, a companhia de gás, e eu fui trabalhar no escritório da administração, escritório de São Paulo. Pessoal mais antigo na Eletropaulo, mais austero, né, aquele pessoal mais fechado, eu trabalhava lá no prédio da Xavier de Toledo. Eu entrei jovem, ainda, entrei com 18 anos, e lá eu comecei minha carreira. Então se fazia um pouco de tudo. Trabalhar no escritório de administração não é um setor específico. Então lá se faz um pouco de tudo. Fazia datilografia, assinatura de revista, compra de jornais, os serviços pequenos, né, depois a gente vai evoluindo. Trabalhei na recepção, recebia os visitantes, encaminhava até os diretores. Aí voltei e fiquei encarregada de um setorzinho de datilografia, fazia conferência das correspondências, a vidinha ia normal... até que eu um dia saí de férias, isso já em 86, quando eu voltei, meu chefe disse assim: "Esther, vou precisar que você fique alguns dias prestando serviço de datilografia com o gerente, na outra diretoria." Aquela época era gabinete, né, na época do dr. Hipólito. Aí fui lá fazer o serviço, ia ficar uma semana. Bom, acabei ficando um mês. No mês seguinte, a secretária resolveu não trabalhar mais. "Não, não quero mais ficar aqui...". Houve algum problema e ela resolveu pedir transferência. Aí ele ficou desesperado, queria alguém, aí me pegou. "Você vai ser minha secretária." Aí fiquei lá secretariando. Aí, passei pelo... pelos assessores, né, do gabinete, o próprio chefe de gabinete, dr. Rolando, depois veio o pessoal do dr. Alfredo, a nova gestão. Aí eu fui secretariar o dr. Alfredo, presidente da empresa. Eu tive uma ascensão rápida como secretária, viu (risos), em um ano eu já estava secretariando o presidente (risos). Depois fiquei um ano, quando o dr. Alfredo saiu, secretariei todo o tempo que ele esteve lá, quando ele saiu, eu fiquei trabalhando com o dr. Rolando Russo, que ele tinha vindo da Cesp [Cia Energética de São Paulo], era o assistente executivo, já aí, já era outro presidente... era o doutor Jandernei e agora que chegou o dr. Pascoal Tomeo, eu fui acompanhar o chefe do gabinete, dr. João Nilton ____ Ortiz e estou com ele até hoje, na chefia do gabinete da presidência. 

 

P - Como é trabalhar na Eletropaulo?

 

R - Bom, a Eletropaulo, no começo ela assustava um pouco, né, porque é muito grande, muita gente, você se sentia assim meio tímido, meio perdido. Mas, na verdade, não é. Eu senti que a Eletropaulo é uma família, uma extensão da minha casa. Hoje eu entro na Eletropaulo com a naturalidade de quem está abrindo a porta da própria casa. Me sinto muito bem, tenho amigos, amigos de verdade, amigos assim selecionados mesmo, gente da empresa. Uma empresa muito grande. A gente sente quando ela não vai bem, sente quando vai... vibra com as vitórias. Então é uma extensão mesmo da família.

 

P - E como foi para você, assim, enquanto funcionária, a passagem da Light, que era uma empresa privada para o controle do Estado com a Eletropaulo?

 

R - Naquela época eu ainda era... eu estava assim preocupada com o meu primeiro filho que ia nascer. Então eu estava grávida e assustou um pouco: "Aí o que será que vai acontecer? Mas o Estado, será que isso aqui não vai virar um funcionalismo público, um cabide de emprego? O que vai acontecer? Será que vão mandar embora os funcionários?" Ficava um pouquinho tensa. Mas, depois também eu vi que não era nada disso, né, que o corpo funcional ia continuar, só mudava mesmo a cúpula da empresa. E eu fui lá, eu vi quando o Paulo Maluf, né, foi lá colocar a plaquinha, no dia primeiro de abril de 1981. Meu filho nasceu em maio de 81, e eu estava lá, com a minha barriguinha [risos], vi toda essa história, presenciei, estive lá e eu não vi muito. No começo nós ficamos mais no impacto, né, “O que será que vai acontecer? ”, mas depois tudo isso passou, era só tensão mesmo... mas ela realmente hoje ela já tem um caráter totalmente diferente, com esses 13 anos já de estatal, ela mudou bem a sua estrutura, a sua política, até a sua carinha, né? 

 

P - Você acha então que mudou alguma coisa, não automaticamente, mas posteriormente foi modificando?

 

R- Sim, gradativamente. Porque ela era uma empresa visando lucro, então seu grupo funcional era reduzido, o número de investimentos era maior. Hoje, como estatal, ela visa muito o plano social, ela tem o governo, que está por outro lado comandando. Então ela tem muito a parte social, ela incentiva, ela tem os planos de ação, ela tem esse problema de favelas, né, então ela fornece energia, kits baixa renda, ela tem a parte de hortas comunitárias, tem circo-escola. Então ela ajuda até de certa forma o parcelamento do pagamento das grandes empresas que estejam atravessando dificuldades. Ela tem um caráter social, que ela não tinha antes, nós não víamos isso. Era só assim, o funcionário e consumidor. Hoje nós estamos vendo todo um plano social. Isso engrandece também. Eu não sei administrativamente na empresa o que isso implica, mas assim na parte social ________ que a empresa está assim fazendo parte da comunidade, né? 

 

P - Agora vamos voltar um pouquinho... já que você falou do seu filho, que você estava grávida, vamos voltar um pouquinho antes, e você poderia me contar como é que você conheceu seu esposo, quantos filhos você tem...

 

R - Bom, como eu estou falando, a Eletropaulo e a Light são uma empresa só, mas faz parte da vida, né, então o marido não podia deixar de ser. Conheci na Eletropaulo, lógico. Então eu entrei, no dia em que ele saiu de férias. Então eu trabalhei 30 dias no mesmo setor sem conhecê-lo. Aí no dia que eu voltei para trabalhar, ele já tinha chegado. Mas eu não o conhecia, não sabia quem era. Trabalhávamos numa sala grande, devia ter umas 30 pessoas, mais ou menos, eu não o conhecia, cabelo comprido, barba até aqui, eu usava um cabelo mais curto do que uso hoje, aí entrei, ele veio e falou: "Você não tem nome?" Mas assim tão arrogante, pronto, já não gostei, já...E eu usava, naquela época, 74, época dos hippies, usava calça jeans saint-tropez, com uma borboleta, assim. Aí ele. "Você não tem nome, mas a borboletinha é bonitinha." Aí já falei: "Mas que inconveniente, não quero saber." Não quis mais saber. Já fechei a cara, fiquei uns seis meses, nem olhava pra cara dele. Aí um dia saí, estava carregando um livro, aí ele perguntou: "Que livro é esse?" Eu falei: "Ah, esse livro é Shakespeare." Ele: "Mas você tem um sotaque de quem é do interior..." Mas ele implicava mesmo comigo, sabe [risos]. "Você tem um sotaque do interior, falou, parece o povo da minha terra." Eu falei: "Impossível, não pode ser povo da sua terra, porque na minha terra é muito pequena, não tem mais ninguém a não ser eu." "Ah é? Como chama a sua cidade?" Eu falei o nome cidade que eu mais ia naquela época que era a terra da minha mãe. Uchoa. Aí ele ficou parado, pensou, pensou, falou: "Então só temos nós dois, porque eu também nasci em Uchoa." [risos]. Eu não acreditava, não é impossível, você sai do Interior e conhecer alguém da mesma cidade, na Eletropaulo, trabalhando na tua sala, né, falei não, isso é demais, né, e foi assim né. Aí, primeiro namoradinho, noivou e casou, acabei com a vida dele na Eletropaulo. Não teve retorno [risos]. Já faz bastante tempo. Estamos casados já há 15 anos.

 

P - E seus filhos? 

 

R - Ah, as crianças chegaram assim de uma maneira gostosa, planejada, né. Eu queria ter dois meninos, né, e veio o Leonardo, menino enorme, nasceu com 4 quilos, uma criança muito bonita, a cara do pai, depois em 1984 veio a Larissa. A Larissa já deu uma surpresinha, que nasceu de 7 meses, deu um sustinho na gente, mas era uma criança... outra criança robusta, 7 meses, nasceu com 2 quilos e meio, era outra troncudinha. E ela também é uma gracinha, até eu falei com o médico: "Mas é menino?" "Não, é menina." "Mas o senhor tem certeza?" E ele falou: "Olha Ester, eu estou um pouquinho velho já, né, já fiz muitos partos, mas eu ainda estou achando que é uma menina, mesmo." [risos]. Aí eu não acreditava que eu era mãe de uma menina. Foi assim um... demorei um pouquinho para me adaptar, viu. Aí, ela de 7 meses, novinha, teve que ficar um pouquinho no hospital, mas aí eu peguei uma icterícia, né, então a filha teve que esperar a mãe ter alta do hospital e foi o primeiro caso que a filha foi pra casa e a mãe ficou na maternidade [risos]. Mas, fora isso foi tudo muito natural, são crianças maravilhosas, crianças que também conhecem bem a história da Eletropaulo, porque a mãe, o pai e o avô na Eletropaulo, então eles conhecem bem a rotina da empresa já.

 

P - E isso da família inteira participar da Eletropaulo e trabalhar, vocês participam de atividades de lazer juntos, na ADC [Associação Desportiva Cultural Eletropaulo] por exemplo?

 

R - Ah, sim. Meu marido... ele pratica os esportes, ele vai nas olimpíadas, e também já foi diretor da ADC. Sempre trabalhou junto com o TaKeo, estudaram, fizeram faculdade juntos, então, quer dizer, eles têm laços de amizade bem anterior à minha chegada, né? Mas eu sempre participo assim, na plateia, torcendo, vibrando, me descabelando, para ver se o time dele ganha. Mas a minha contribuição é só essa. Esporte a única coisa que sou assim é são paulina desde pequenininha e na parte esportiva mesmo é só mesmo macaca mesmo de torcida. [risos]

 

P - Então vamos falar um pouco dessa questão aí do lazer. Como é que se deu assim sua entrada no lazer na empresa, como é que você começou a participar do lazer na empresa, na Eletropaulo?

 

R - O Takeo, né, presidente quase eterno da ADC, naquela época era o Grêmio, então era um grupo pequenininho, fazia assim uma associação pequena, uns eventos assim com poucos recursos. E o Takeo é um idealista, ele queria formar uma associação. E realmente formou, né. Então ele começou ali... e eu trabalhava próximo, trabalhava o Antônio Carlos, meu marido, o Takeo, eu e mais um outro grupinho. Aí a diretoria tinha que ser composta por quem? Pelos três, né, só tínhamos nós [risos]. Então foi ali, foi formando os diretores, e eu trabalhava como tesoureira, então tínhamos um livro-caixa, né, recebia as mensalidades, fazia a escrituração toda, num livrinho, fazíamos os eventos, íamos pro Rio de Janeiro no final de semana, tudo assim muito sofrido, né, para a arrecadação de dinheiro, o dinheiro não dava... Aí queríamos fazer um baile de aniversário da associação. Aí ia pagando de pouquinho, todo mês pagava um pouquinho, e por fim quando chegava, a arrecadação da bilheteria, não dava, aí ficava devendo dinheiro, músico cobrando. Takeo: "Não, esse mês nós vamos pegar o salário e vamos ter que pagar do nosso bolso porque a coisa está ficando feia.” E assim era sofrido. Ser diretor de uma associação não era fácil (risos). 

 

P - Você tá falando do GRA [Grêmio Recreativo Administração], né?

 

R - É do GRA.

 

P - Fala um pouco das atividades que o GRA desenvolvia, além desses bailes, na Casa de Portugal.



R - Ah, eles tinham a parte esportiva, que realmente eu não participava, né, a parte esportiva era mais deles, eles alugavam gramados, iam até nos campinhos que a própria empresa tem... ela é muito grande, né, então tem muitos clubes de futebol nas usinas, e eles faziam os eventos. Eu já era mais chamada na parte de bailes, na parte social, e de lazer né, mas não lazer esportivo. Só lazer mesmo. Minha participação era mais na escrituração, era parte de secretária mesmo. Era muito interessante aquela época, viu [risos]. 

 

P - Conta assim uma história interessante. Tinha concurso de miss no GRA?

 

R - Bom, vamos fazer um concurso de miss, né, vamos escolher. Isso foi em 76. Então eles reuniram algumas meninas, não tinha critérios de avaliação, né, era mais pela proximidade, não pela beleza, por nada. Era porque conhecia. "Fulana, você quer participar do concurso de miss?"  Então vinham pessoas de todos os tipos. Não havia um padrão de beleza definido. Era jovem, mulher, então estava inscrita no concurso de miss. Aí nós fomos lá no concurso, fomos na Casa de Portugal e eu fui lá participar como miss, desfilei, fizemos ensaio. Eu não tinha noção de nada, nenhuma, mas vamos lá... aí participamos. Tinha comissão julgadora, naquela época o dr. José Roberto Rosique, ele trabalhava nas oficinas gerais lá no Cambuci. Acho que era departamento de transportes. Ele era da comissão julgadora. E ele votou, é lógico, numa secretária, menina que trabalhava lá na oficina. E ela ganhou, foi a rainha, tinha as duas princesas e acabou o baile, até no dia seguinte foi uma surpresa. Meu marido pediu pros meus pais para me namorar oficialmente em casa, levou aliancinha, ficou noivinho, já logo de cara, não queria perder, né, já pediu para namorar, já ficou noivo [risos], três meses de namoro já ficamos noivos. Então, depois de 10 anos, eu fui secretariar exatamente José Roberto Rosique. Ah, mas eu peguei a foto do desfile, falei não, não perdoo, falei: "Ó, o Sr. não votou em mim, mas eu vou ser sua secretária, viu." [risos] Coisa bem antiga, de 10 anos atrás, ele nem lembrava.

 

P - Então vocês faziam muitas atividades assim sociais, excursões como você tinha falado, né? 

 

R - Sempre a duras penas, mas fazíamos, né.

 

P - E depois, como é que foi sua participação assim na fundação da Acel [Associação cultural e esportiva “Light”]?

 

R - Acel foi assim aquela fusão das pequenas associações que tinha... os grêmios, então foi feita a fusão, nós fizemos uma festa bonita na Usina, então nós fomos lá, no churrasco, foi uma festa muito bonita e foi muito importante. E eu, aquela época, fiquei assim meio intimidada porque a associação cresceu muito, não vou participar ______ mulher. Mulher quando chega assim na hora que tem que tomar uma decisão um pouco mais importante, ela fala: "Não, não vou corresponder, né." Daí você já fica meio acanhada. Mas aí o Takeo falou: "Não, vamos, né." Aí foi escolhido presidente, naquela época. Foi feita a fusão, mas a minha participação mais foi realmente na ADC quando fui secretariar o Takeo.

 

P - Então você já entrou... já estava, que dizer, na diretoria você entrou como secretária do Takeo?

 

R - Isto.

 

P - Você lembra que ano?

 

R - Foi em 1980, 1981. Depois, logo meu filho nasceu, eu tive que dar uma paradinha na ADC para poder cuidar do nenê. Mas eu participava das reuniões lá na Brigadeiro, saía da Xavier correndo, ia para as reuniões, a barriguinha, tudo, né, ia lá fazia ata, aquela coisa, aquela correria toda. Mas era muito positivo, muito bom. 

 

P - E você participou dessa diretoria até quando, quer dizer, em 1980, 1981...

 

R - Isso. Eu fiquei até acho que 1983, acho que até 1983 eu fiquei. Agora colaboração ela sempre foi assim... mesmo informal depois, mas mesmo não tendo cargo na direção, porque não dava, né, você tem que dar o espaço para pessoa que pode corresponder melhor, tem que ser humilde nesse ponto. E eu comecei a ter as outras atividades. E como secretária na empresa também, eu tenho um horário de trabalho muito maior, não tenho disponibilidade de tempo. Então eu entro 8 horas da manhã e só posso sair depois que meu chefe sair. Então isso vai 10 horas, 9 horas, 8, não tenho horário para sair... então não posso assumir muita coisa em horário de trabalho, mas assim a colaboração ficou, porque nós temos vínculos de amizade. Então mesmo informal, a gente sempre está ali colaborando.

 

P - E você frequenta a ADC com seus filhos...

 

R - Não, quem utiliza mais mesmo é meu marido, né, participa das olimpíadas, é mais atuante lá. As crianças não, porque eles têm um outro envolvimento, eles têm envolvimento de colégio, de clube, as crianças praticam natação, foram, já fizeram... prestaram campeonato de natação, foram ganhadores os dois, são peixinhos mesmo. Agora, assim na ADC minha participação é mesmo só quando tem evento de... evento social.

 

P - Aí os bailes, festa junina.

 

R - É, os bailes... aí nós vamos, aí sim [risos].

 

P - Eu vou te perguntar uma coisa. Fora a sua atuação na ADC e tal, você teve alguma atuação dentro Eletropaulo, em algum sindicato ou alguma associação? 

 

R - É, não dá para ficar quieto, assim, totalmente, então..., mas... hoje eu estou participando como primeira secretária na Associação dos Técnicos da Eletropaulo [Atel]. Então, a Associação dos Técnicos, porque a maior parte do corpo de trabalho na parte de secretárias, na empresa, ainda é técnico, não são todas as secretárias que têm curso superior. Então é uma carreira técnica. E eu levei essas secretárias pra Atel, algumas já eram associadas, mas era muito tímida ainda a participação. Então levei mais algumas e estou fazendo um trabalho de conscientização, de união da classe, de mudança de perfil, de pensamento, né, nós estamos no final de um milênio, agora, faltam seis anos e a mulher tem que realmente conquistar esse pedacinho que está faltando, essa conquista pequenininha, falta tão pouco. Então, a secretária ainda estava com uma cultura um pouquinho assim... antiquada, não, porque secretária é uma auxiliar, a secretária serve cafezinho, a secretária atende telefone. Não é. Ser secretária é ser muito mais do que isso. Hoje a secretária ela trabalha como assessora do chefe, ela tem autonomia, ela toma decisões, ela sabe tanto quanto ele, pelo tempo que ela está ali. E ela não é mais secretária do gerente. Ela é secretária de uma área e isso é uma coisa muito maior. Engloba muito mais trabalho, muito mais conhecimento. Então nós não estamos atrás de... “dia 30 é o dia da secretária, aí, será que o chefe vai trazer flor, será que vou ganhar um perfume”, não... não queremos mais nada disso. Nós queremos é reconhecimento mesmo. Nós estamos ali trabalhando e queremos ser tratadas como profissional. Não queremos mais aquela visão paternalista, aí, a minha secretária... não queremos mais isso. Nós queremos ser força de trabalho mesmo, estar ali do lado. 

 

P - Conta alguma coisa interessante a respeito as secretárias, que você já viveu nesses encontros que você vai e tal.

 

R - Olha, eu fiquei um tempo com menos serviço do que o habitual, porque eu peguei uma assistência executiva, que ela cuidava de 3 superintendências: auditoria, comunicação e a parte de turma da rua. E as superintendências, por si só, elas não faziam muita, muito trabalho pra assistência executiva. Então fiquei numa época mais assim, de marasmo, né, tinha menos serviço. Mas eu não consigo parar, não consigo, dá comichão. Aí o treinamento estava com um plano piloto, treinamento da própria empresa. Começou a conversar com as secretárias, vamos fazer alguma coisa aí pra empresa mesmo, né, montar um curso, fazer alguma coisa para passar algumas ideias diferentes pras secretárias da empresa. E eu entrei nesse projeto, montamos um curso de formação básica. Aí começamos a dar um curso de formação básica pras próprias secretárias. Então foi bom, porque reuniu o grupo, né, mudou umas ideias, passamos novas técnicas e as pessoas ficaram muito envolvidas. Eu fiquei entusiasmada, né, depois logo também a Cesp, a Cpfl [Companhia Paulista de Força e Luz], Cpos [Companhia Paulista de Obras e Serviços], Secretaria de Energia, Conselho de Administração começaram a pedir para fazer um curso na Eletropaulo. Então nosso curso... nossa. Fale: "Gente, primeiro curso já é best seller." Ah, fiquei cheia. Falei: "Gente, é um sucesso." Ah, comecei a crescer. E eu tinha... você está falando de uma curiosa, estou lembrando agora. Eu... assim numa época de... sempre tive muita vontade de andar de avião. Ah, nunca tinha andado de avião, nunca, quero andar de avião, algum dia vou andar de avião, nem que seja para comprar uma passagem de ponte aérea, mas eu vou andar de avião. E aconteceu exatamente isso, porque no ano que nós estávamos desenvolvendo muito trabalho, apareceu o VIII Concec, que é o VIII Encontro de Secretárias de todo o Brasil. Ia ser em Manaus. E a Eletropaulo resolveu mandar, já que estava tão assim... o curso estava tão envolvente, né, as pessoas todas procurando, querendo participar, aí escolheram duas secretárias para irem pra Manaus. Aí, pediram para que eu fosse, e junto comigo a Maria Goretti, da área de suprimentos. Ah, mas eu quase explodi aquele dia, de tanta alegria. Gente, eu vou andar de avião, eu não acredito, eu vou andar de avião. Para quem nunca tinha andado, andei 11 horas [risos]. Eu fiquei bêbada de andar de avião [risos]. Mas foi assim, uma alegria. Até eu falei: Ah, essa empresa, essa empresa cuida de mim mesmo, não tem jeito, eu queria andar de avião, ela me mandou, pronto." (risos). Mas foi uma... foi ótimo, viu?

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