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História

As metáforas de Um Gosto de Sol

História de: Cláudio Jorge Pacheco de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2005

Sinopse

Cláudio Jorge, carioca do Méier e atualmente, gestor de patrocínios da Petrobras, passou a infância entre as reuniões de família e as brincadeiras de bola de gude e futebol de várzea. Durante a adolescência, faz a descoberta que mudaria sua vida, o álbum esverdeado do Yes chamado Close to the Edge, responsável por introduzir o gosto pela música no garoto e fazer com que Cláudio passasse a procurar cada vez mais pelos álbuns dos anos 1970. Nesse depoimento ao Museu, o carioca conta sobre os encontros com a música do Clube da Esquina e das inovações que o grupo trouxe para a música popular brasileira.

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História completa

P- Eu queria que você começasse falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Cláudio Jorge Oliveira, nasci em 7 de junho de 1965, Rio de Janeiro.

 

P- E o nome dos seus pais qual é?

 

R- Elita Pacheco de Oliveira e Cláudio José de Oliveira.

 

P- E na sua casa havia um ambiente musical, alguém da sua família tinha alguma ligação com música?

 

R- Não, nem tanto. Eu me lembro assim que a minha mãe sempre gostou muito de Roberto Carlos, sempre foi fã de Roberto Carlos, mas ela nunca foi de ouvir discos, era muito mais ligada em televisão e o meu pai era fã de Nelson Gonçalves, um fã ardoroso. Mas em casa, música não era uma coisa cotidiana.

 

P- Descreva o bairro e a rua onde você morava e cresceu, como era o Rio de Janeiro na sua infância?

 

R- Eu sou carioca da Zona Norte, sou dali do Méier. Eu cresci num bairro muito residencial, numa casa e com a família toda por perto, quer dizer, eu morava com meus pais, ao lado morava os meus primos, os meus tios, em uma rua próxima, outros primos, todo mundo junto, e essa vida numa coisa de bairro bem de residência, nada de prédio, nada disso, uma vida mais tranquila, digamos assim.

 

P- E como era o cotidiano na sua casa, tem algum evento específico que você se lembra da sua infância?

 

R- Da infância pra mim é muito marcante as festas de final de ano, essa coisa de Natal e Ano Novo, essas reuniões, não que fosse o único momento no ano que se reunisse, mas para mim era bonito, porque era um momento em que todo mundo se juntava, então Natal e Ano Novo sempre foi muito comemorado na minha família e era um momento em que juntava todo mundo sempre na casa de alguém. Era o que tinha de mais marcante no ponto de vista de união familiar. Na verdade, eu sou da primeira geração carioca da minha família porque por parte de mãe é todo mundo da Bahia e por parte de pai, de Pernambuco, então as minhas raízes são todas nordestinas e a minha geração é a primeira nascida no Rio de Janeiro. Mas eu tenho muita influência dessa cultura nordestina, principalmente da parte da Bahia, da família da minha mãe.

 

P- E as brincadeiras, que tipo de brincadeiras você fazia na sua infância?

 

R- Coisas que eu acho que nem existem mais, bola de gude, pipa, futebol num campo, que esse definitivamente não existe mais, ainda existia aquilo que a gente chama de futebol de várzea. Esse tema é até mais antigo do que a minha geração, mas essa coisa de jogar bola num terreno baldio... Era muito por aí, com a turma da rua. Televisão também, claro, também sempre foi fonte de inspiração para as brincadeiras, mas nada de videogame.

 

P- E o que você ouvia na sua adolescência? Você gostava de música?

 

R- Pois é, música foi uma descoberta pra mim. A partir da adolescência comecei a ouvir muito música, particularmente quando eu fui estudar na Escola Técnica aqui do Rio, CEFET. Porque pra mim foi uma mudança, uma passagem dessa coisa do ambiente mais familiar, para um ambiente mais de mundo. Primeiro que era uma escola mais distante e eu era mais novo do que o grupo, eu tinha catorze anos e a média de idade era de dois anos a mais do que eu, então era dezesseis e nessa idade, já dava certa diferença. Foi nesse período que eu descobri a música com mais profundidade e aí o que me encantou mais foi o rock naquele momento. Um rock que não era exatamente o rock que se fazia naquela época, porque a gente está falando do final dos anos 1970, início dos anos 1980 e o que comecei a ouvir foi muito o rock do início dos anos 1970 por influência de amigos. Eu me lembro de um disco que, para mim, foi uma descoberta, foi um disco do Yes chamado Close to the Edge e esse disco era uma coisa completamente diferente de qualquer coisa que eu já tivesse ouvido, esse disco foi um disco marcante e eu ouvi esse disco quando eu tinha quinze anos. Aí a partir dali eu comecei a procurar exatamente esse tipo de música e esse tipo de música mais dessa época do início dos anos 1970. E música é uma coisa que eu ouço muito, o tempo todo. Eu vi outro dia o Sérgio Cabral dizer uma coisa que se encaixa bem a mim, ele disse que ele não toca nenhum instrumento, ele não toca nada, mas ele ouve muito, é o meu caso, tentei aprender teclado, mas senti que não era, que eu não tinha uma vocação para instrumentista, mas eu ouço muito e de tudo.

 

P- E qual foi seu contato com o Clube da Esquina?

 

R- Foi através de um disco chamado Toninho Horta, Novelli, Danilo Caymmi e Beto Guedes, eu não sei se a sequência é essa, mas o nome do disco é o nome dos quatro. É um LP em que eles aparecem num banheiro, uma foto assim de cima, um disco muito bom. Era o primeiro disco deles e que tem uma música chamada Belo Horror que é linda, do Beto Guedes. O primeiro contato foi através desse disco que tinha também muito a ver com essa minha pesquisa do início dos anos 1970, porque se eu não me engano, esse disco é de 1973, então eu comecei a cantar a música dessa época. E Milton Nascimento também que era mais fácil de encontrar, de ouvir. E um disco mais posterior a esse foi o Sentinela, que foi um disco que eu também ouvi muito, tinha uma música que ele cantava com a Nana Caymmi que tinha um arranjo com coro abrindo, um coro de igreja abrindo a música, era um arranjo elaborado, foi marcante também. Posteriormente, eu venho a encontrar, porque não foi muito fácil, eu procurei por muito tempo, o Clube da Esquina mesmo, o disco. Que é um dos discos que, eu nunca fiz um ranking dos dez discos que eu mais ouço, mas esse disco está dentre os que eu mais ouço. É um disco que é uma coisa assim, marcante de música boa e muito representativa desse período e que, pra mim, é um disco de rock. Eu acho que esse disco é de rock, um rock autenticamente brasileiro. Aliás, esse é um dos melhores discos de rock brasileiro, porque o melhor rock brasileiro não é aquele que reproduz fielmente o rock estrangeiro, e sim aquele que incorpora elementos do rock internacional à música brasileira. E a música do pessoal do Clube da Esquina, esse disco, o disco da Joyce com Nelson Ângelo também que é muito legal, os discos dos irmãos Borges, eles fazem isso, eles trazem para nossa música elementos do rock, mas fica uma coisa que tem uma originalidade, não é simplesmente uma banda de rock, eu acho isso muito legal.

 

P- Você se lembra, especificamente, da primeira vez, o momento onde você teve o primeiro contato, da mesma forma que você teve com o Yes, o que você sentiu?

 

R- O dia eu não lembro, mas foi no mesmo período, que foi um período em que a gente passou a ouvir muita coisa. Eu tinha uns amigos na escola que tinham muita coisa já desse pessoal. Eu me lembro do disco dos Borges que é um disco que eu acho que tem um beliche na capa, eu me lembro de que esse disco circulava na mão de todo mundo, todo mundo ouviu esse disco, então foi mais ou menos nesse período e esse disco inclusive que eu falei do Toninho Horta, Novelli, Danilo e Beto, esse disco na verdade, eu vim a comprar o meu muitos anos depois. Eu ouvia de um amigo que tinha, eu gravei e depois é que eu procurei e acabei encontrando esse disco, mas o primeiro contato foi através dessa troca com outros amigos. A gente se reunia na casa de um, na casa de outro, um ou outro sabia tocar violão, mas foi nessa fase que até de certa forma não era muito a onda daquele momento, porque [era] o momento do Circo Voador, não que a gente não curtisse isso também, essa onda do rock dos anos 1980 que estava surgindo, mas a gente também ouvia essa música na década anterior, a gente tinha também esse interesse, então foi mais ou menos nesse período, foi tudo junto. O Clube da Esquina, o disco, já foi até uma descoberta mais individual, mais tarde, com coisas mais elaboradas em termos de música, um gosto musical mais elaborado da minha parte, mas o disco que deu aquele start foi esse aí.

 

P- E você acha que pode ser considerado uma inovação para a música? Pode ser considerado um movimento?

 

R- Eu acho que o Clube da Esquina pode ser entendido sem dúvida nenhuma como um movimento musical tal qual como o Tropicalismo, ou a Bossa Nova, ou a Jovem Guarda que é um pouco menosprezada nesse percurso, perante esses outros movimentos, que tem também as suas características importantes. O Clube da Esquina também tem que ser entendido como um movimento musical em que você fazia aquilo que era basicamente a característica da cultura brasileira que é a antropofagia. Se o Tropicalismo fez isso de uma forma assumida e declarada, panfletária, “Estamos fazendo antropofagia”, “Somos seguidores da Oswald”, o Clube da Esquina fez de uma forma espontânea e utilizando, na verdade, outros elementos, que foi juntar a música mineira com a influência da música sacra, que é uma coisa muito forte em Minas, com influência da regionalidade, dos ritmos naturais de Minas que são muito ricos, juntando isso à coisa que existiu de contemporâneo, a influência de Beatles, do rock daquela época. Inclusive eu falei inicialmente no disco do Yes, Close to the Edge que é um disco de 1972, o mesmo ano do Clube da Esquina e naquele momento a onda era aquela, arranjos elaborados, espaço para os solos instrumentais, letras que não ficavam amarradas só na questão romântica, tinham temáticas mais variadas, no caso do Clube da Esquina, muito referenciado na questão da viagem, da estrada, de sair do interior para chegar à cidade grande e da descoberta do mundo. E é claro, sem dúvida, a influência da contracultura, do movimento hippie. Eu acho que Clube da Esquina é um movimento dentro da música popular brasileira, tem que ser entendido dessa forma, assim como, posteriormente, nós tivemos o rock dos anos 1980, ou antes, quase que contemporâneo ao Clube da Esquina, a chegada dos nordestinos, a segunda leva de baianos, Novos Baianos, A cor do som e depois os nordestinos que vieram mais de cima, lá do Ceará, Fagner, Belchior. Eu entendo como movimento musical sim, com essas características preponderantes. Nesse sentido se diferencia talvez, por exemplo, do Tropicalismo e da Bossa Nova, por um espaço muito maior para o músico, para o instrumentista, talvez por isso até os músicos do Clube da Esquina tenham se aproximado muito do jazz e tenham inclusive trabalhado com artistas estrangeiros de jazz porque eles ficam ali meio na fronteira jazz, rock e música brasileira, uma coisa muito próxima, eu acho que é isso. 

 

P- E você acha que o Clube da Esquina deixou frutos, seguidores, uma nova geração que bebe dessa fonte, você identifica?

 

R- Eu acho que, por exemplo, o Skank é curioso porque é uma banda mineira que começa tocando reggae e, de repente, eu não sei se foi um estalo que deu na cabeça do Samuel, ou uma descoberta, eles deram uma guinada para um som que é muito referenciado no som dos anos 1970, Clube da Esquina. Então você pode entender que o Skank ao amadurecer foi buscar essa influência para se consolidar como um grupo sólido musical. Eu acho que hoje o Skank é uma referência clara dos anos 1970 e do Clube da Esquina. Mas eu acho que hoje em dia é muito difícil a gente ter esse tipo de coisa que você está falando, esses desdobramentos, eu acho que as coisas hoje são muito misturadas, então você pode ver de repente salpicado influências de músicas de músicos dos anos 1970 em vários trabalhos de hoje em dia, até trabalhos estrangeiros, por exemplo, a Bjork gravou com arranjos do Eumir Deodato que é um cara que veio lá da bossa nova, mas teve uma passagem também pelos anos 1970 interessante e se você ouve o arranjo dele você vê uma grande reverência da música brasileira. A grande característica hoje é como se fosse um grande liquidificador, você tem um pouquinho de cada coisa misturada e não dá mais pra você falar que isso é influência daquilo ali somente, é tudo muito misturado. Mas eu acho que o Skank é um grupo que tem uma linha direta com o Clube da Esquina.

 

P- E você disse que então que dentre os 10 discos mais ouvidos, [está] o Clube da Esquina. E tem algumas músicas que são as suas preferidas?

 

R- Tem muitas. A que eu gosto mais, eu nunca consigo lembrar o nome dela e não vou cantarolar aqui porque eu canto muito mal, mas eu [sei] dizer o que tem na letra, é a penúltima música do disco e é uma música que fala [“Um gosto de sol]”: “Alguém que eu vi de passagem numa cidade estrangeira”, e aí ele vai falando que aquela visão daquela pessoa lembrou a ele próprio, quando ele era mais novo e aí ele faz uma analogia com alguma coisa que ele deixou no meio do caminho, como a gente deixa uma pera dormindo numa fruteira. E aí ele fala do Sol, como o Sol que bate numa cadeira e passa e eu acho essa música tão bonita, são umas metáforas tão bonitas sobre o que a gente deixa no caminho da vida, a gente não consegue mais retornar aquilo e de repente acontece isso mesmo, a gente vê alguém que te lembra do que você foi e o que você já não é mais e essa metáfora com Sol, com a pera dormindo, eu acho essa música muito bonita. “Nuvem Cigana” que fantástica também, eu acho uma canção de amor muito original. Tem várias, a música que abre o disco [Tudo que você podia ser] “Com Sol e chuva, você sonhava...”, essa música é muito bonita e eu também não lembro o nome, não consigo guardar nome de música. Essa de pera você lembra o nome?

 

P- Eu também acho linda, mas são sei o nome, o Márcio sabe.

 

R- Tem outra que fala um negócio da minha terra, um portão, “Pelo amor de Deus”, isso é lindo.

 

P- E o disco dois?

 

R- O disco Clube da Esquina dois eu tenho também, é muito bom e tem muita coisa ali que emplacou também sucesso. Essa é outra característica do disco. Eu estava ouvindo inclusive recentemente e estava reparando uma coisa que é impressionante, todas as músicas desse disco são standards, entraram para o repertório da MPB indiscutivelmente, uma atrás da outra, você só vai ouvindo música que foi regravada por um monte de gente e que são clássicos. San Vicente também é muito bonita. Do disco dois, eu gosto muito de uma música que a Elis canta junto com o Milton, acho que é “O que foi feito de Vera” que, inclusive, tem um disco dele chamado Angelus que tem uma música muito bonita que tem um nome parecido que é “O que foi feito devera”, é muito bonita também, e “Maria Maria” que é um clássico. “Paula e Bebeto” também, que eu já ouvi tantas vezes em outros discos. Em suma, eu gosto muito do disco dois também, mas o disco um é uma coisa demais, muito bonita.

 

P- Queria saber o que você acha de uma forma geral desse projeto, na iniciativa do Museu?

 

R- Bom, eu não preciso nem dizer que é importante, isso daí seria redundante. Eu acho que é muito importante e tem uma coisa que eu acho interessante, que é o formato bastante moderno da coisa que é a ideia do Museu Virtual, pelo menos nessa primeira etapa, tirar proveito da tecnologia, internet, site, isso eu acho um dado importante até pra não ficar com essa ideia de museu como um lugar de velharias. O museu pode ser uma coisa dinâmica como é o caso desse projeto. Essa questão de gravar depoimentos e utilizar esse recurso de internet até mesmo para disponibilizar isso para as pessoas terem acesso eu acho legal também e que vem num momento bastante propício porque como eu estava falando antes, eu acho que o Clube, embora os artistas que fizeram parte desse movimento e estão em atuação até hoje, sejam todos muito reconhecidos pelo seu talento e por suas carreiras solo, eu acho que falta essa amarração com o Clube da Esquina, falta tornar público que esse grupo todo tem uma ligação e se origina em um movimento musical dos anos 1970. Eu acho que isso é importante porque talvez eles tenham tido carreiras solo tão profícuas, tão variadas, alcançado tanto sucesso quanto alcançaram que a totalidade deles, o conceito do Clube da Esquina acaba ficando um pouco ofuscado pelo sucesso dos seus integrantes e eu acho que é importante resgatar isso aí, porque isso faz parte da história da música brasileira e ajuda a entender todo o processo de construção mesmo da música brasileira pós anos 1950, a partir de bossa nova e tudo mais. Na música brasileira moderna e eu acho que se fala muito em Bossa Nova, o Tropicalismo é sempre relembrado, a Jovem Guarda também tem seus críticos, tem aqueles que elogiam, ela está sempre visível e eu acho que o Clube da Esquina tem que figurar junto com esses quatro movimentos aí, como o rock dos anos 1980 que está em evidência e o Clube da Esquina tem que estar junto com isso aí, para que a gente tenha uma visão bem ampla do que é música popular brasileira com essa variedade, com essa diversidade toda que existe.

 

P- Qual é a sua formação?

 

R- Sou jornalista e fiz literatura também. Eu me meti num negócio que era fazer uma monografia sobre música popular brasileira e o tema era de Celly Campello ao Rock dos anos 1980, quando você vai estudar isso daí, percebe que está tudo interligado. Não é uma coisa linear, mas que todo mundo passeia um pouco. 

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