Busca avançada



Criar

História

As melhores lembranças possíveis

História de: Lourival Fernandes da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2014

Sinopse

Lourival nasceu no campo, em Guaxupé, MG, filho de pai agricultor que trabalhava com café. O falecimento do pai, quando o depoente tinha apenas 4 anos, fez com que a família se mudasse para a casa dos avós maternos, em São José do Rio Pardo. Foi na Fazenda Santa Cecília que Lourival passou uma infância e adolescência e viveu "a melhor parte da sua vida" em meio às brincadeiras de criança, os carrinhos de lata de óleo, as pipas que ele mesmo fazia, e as festas e terços na roça durante a adolescência.

Tags

História completa

Lourival Fernandes da Cruz. Nasci em 12 de abril de 1984 em Guaxupé, Minas Gerais. Meu pai é Messias Fernandes da Cruz e minha mãe é Maria Isabel da Cruz, também nasceram em Guaxupé, Minas Gerais. A minha mãe é dona de casa, e o meu pai já é falecido. Ele era agricultor, trabalhava em café em Minas Gerais. A propriedade era do meu avô e ele trabalhava na propriedade. Era Fazenda Paulicéia. Já foi vendido. Quando o meu pai faleceu, aí a gente veio pra Rio Pardo. O meu pai eu não tive muito contato, quando ele faleceu eu tinha quatro anos de idade, então tenho poucas lembranças do meu pai. Aí a gente veio pra Rio Pardo e fomos criados com os meus avôs maternos. Então do meu pai eu lembro muito pouco. E minha mãe é muito calma. Muito guerreira. Hoje somos quatro irmãos. Éramos cinco, perdemos o mais velho aqui em acidente. O mais velho trabalha na Goodyear em Americana. O Marcos trabalha na Nestlé, eu sou agricultor e o Renan trabalha aqui na Sementes Rio Pardo.

Em Minas, apesar de que a propriedade era do meu vô, mas... Apesar de a propriedade ser do meu avô, mas a gente vivia numa condição muito simples, muito humilde. A casa não tinha energia, não tinha água encanada, não tinha nem banheiro dentro de casa. Uma infância muito humilde mesmo. Aí quando o meu pai faleceu, que eu tenho um pouco mais de lembrança, foi quando a gente veio pra Rio Pardo e começamos a ter uma condição de vida um pouco melhor, que onde é a fazenda que o meu vô materno morava já tinha energia, já tinha água encanada, banheiro. Aí foi que as coisas começaram a melhorar pra família. Aí a gente veio morar com o meu avô materno, porque quando a gente morava em Minas a minha mãe tinha 30 anos e tinha cinco filhos, e ficou difícil pro meu avô paterno cuidar. Então o mais velho tinha 13 anos e o mais novo tinha dois anos. Minha mãe começou a trabalhar na fazenda e o meu irmão com 13 anos de idade já registrou, trabalhava registrado na fazenda. Aqui a gente era empregado, era funcionário. Meu vô era funcionário de uma fazenda e a gente veio morar com eles. Minha vó cuidava da gente, a minha mãe foi pra trabalhar na roça também e o meu irmão de 13 anos de idade, na Fazenda Santa Cecília. Lá era café e gado. A minha mãe chegou a apanhar café, trabalhar na lavoura e depois com retiro, tirar leite e tudo. Da Fazenda Santa Cecília eu tenho as melhores lembranças possíveis. Tinha de tudo. Quando a gente era criança tinha escola até o prezinho se não é até o primeiro ano tinha já na escola. Tinha campo pra molecada brincar, a minha mãe trabalhava, começou a ter mais condições. A melhor parte assim da minha vida foi lá.

Na infância eram brincadeiras simples. Soltar pipa, bolinha de gude, jogar bola. Esse tipo de coisa. Na fazenda tinha um campo onde domingo tinha o time da fazenda, que disputava com outras fazendas e a gente brincava durante a semana ou aos domingos. A gente fazia brinquedo. Não tinha brinquedos assim comprados, não. A gente mesmo fazia. Fazia carrinho com lata de óleo. Esses tipos de brinquedos. Carrinho de madeira. Era mais gostoso. Soltar pipa, que a gente mesmo que fazia pipa. Essas coisas. Papa-vento. Aqueles papa-ventos. Fazia de bambu e ficava correndo pra fazer rodar. Brinquedo simples.

Eu lembro uma vez que deu um rolo. Eu coloquei fogo no pasto. A gente morava entre a casa e o campo e da minha casa até no campo eu tinha que passar no meio de um pasto onde ficavam as vacas, quando elas não estavam tirando leite iam pro pasto, aí eu coloquei fogo. Eu achei uma caixa de fósforos porque no campo tinha um boteco, um barzinho onde vendia essas coisas, aí eu achei uma caixa de fósforos, tava vindo, vi que o mato tava seco, coloquei fogo. Fiz um fogo muito grande, sorte que tinha muita gente jogando bola no campo, aí todo mundo cortou galho de árvore e veio jogando água, tudo. Eu lembro que apanhei muito. Moleque, já corri embora chorando, mas o pessoal cortava galho de árvores e veio batendo o fogo, veio jogando água em volta no lugar que não tinha chegado até que ele chegou ali, foi apagando porque molhando, aí apagou o fogo. Mas eu apanhei muito, deu muito rolo. Ah, fazia muita arte. Criança quando era muita arte assim, que hoje... Na época era muito rígido meu avô, então parecia ser arte... Hoje eu vejo que eram artes inocentes em visto do que se faz hoje, mas era arte... Achava ninho de galinha, quebrava os ovos quando era do vizinho. Virava antena de televisão e saia correndo. Desligava o relógio da força. Essas coisas. Ir nadar no açude que era perigoso, mas sem permissão. Essas coisas. Soltar passarinho dos vizinhos. Abria a gaiola, deixava a portinha aberta. Esse tipo de arte.

Na fazenda a gente não ajudava, porque não podia, só podia se fosse registrado e naquela época não tinha idade. Aí a gente trabalhava no sítio, nos sítios vizinhos que tinham safra da cebola. Então a gente ia ao sítio vizinho e trabalhava ou até a hora do almoço, depois ia pra escola. Ou quando trabalhava de manhã ia depois do horário. Aí a gente trabalhava pra ajudar em casa. Desde os sete, oito anos de idade aí a gente ia. Às vezes ia meu irmão que era um pouco mais velho que eu. A gente cortava cebola, cortava beterraba. Sempre colheita. Nada de serviço pesado, não. Era mais a parte de colheita. Recebia por semana, aí a gente ajudava em casa, ajudava a minha mãe. Aí ela comprava roupa, as coisas. Quando a gente foi pra fazenda, meu vô tinha uma televisão preto e branco. Aí depois estragou, aí não teve mais. Foi ter já tinha uns 15 anos de idade que eu e o meu irmão compramos cortando cebola assim no sítio vizinho, aí foi juntando dinheiro e comprou uma televisão, uma parabólica.

Aí na fazenda eu morei até os 17 anos de idade. Até os 17 anos de idade as diversões eram por ali mesmo porque a fazenda era muito grande, então quando chegava final de semana a gente nem tinha vontade de vir pra cidade, essas coisas não. Acabava se divertindo lá. Tem um lugar perto que chama Sítio Novo que é um lugar que já é asfaltado, as ruas são asfaltadas, tem escola, tem quadra. Então o pessoal ia ao Sítio Novo. Ficava uns cinco quilômetros mais ou menos, a gente ia pra lá. Mas na maioria das vezes era na fazenda mesmo, no sábado e domingo. Depois que vendeu a fazenda que aí eu tive que vir pra cidade. Tinha essas épocas de festa junina, quando não fazia bailinho na fazenda, tinha esses tipos de diversão assim. Fazia, na verdade eram terços. Na época, aqui se faz muito é terço. Então de São João, São Pedro, Santo Antônio. Quando uma pessoa era devota de São Pedro fazia na casa daquela pessoa. Geralmente as pessoas levavam alguma coisa de casa, ou quando uma pessoa tinha mais condições não precisava levar. Então fazia o terço depois tinha pipoca, quentão, chocolate quente, bolo de fubá, essas coisas. Então durante esse mês de junho era quase todo final de semana tinha terço em algum lugar. Era nossa diversão. Terço eles vão e fazem uma reza. Eles rezam, são devotos daquele santo, e rezam o terço para aquele santo aí depois faz tipo uma festa junina. Não dança quadrilha, não. É só solta foguete, o pessoal fica conversando até tarde e comendo. O terço a maioria do terço era cantado, né? Aí fazia aquelas bandeiras com a imagem do santo e tudo enfeitado, depois erguia a bandeira e soltava os fogos. Reza um terço mesmo, católico, reza um terço e canta. Quando é de Santo Antônio as mulheres adoram ficar passando debaixo pra casar.

Aos 17 anos aí vendeu a fazenda e o cara que tinha comprado não trabalhava com pessoal, ele trabalhava só com mão de obra contratada que ia, colhia e saía. Não tinha colonos, não queria gente que morasse lá, aí todo mundo teve que ir embora. Foi muito difícil porque nesse meio tempo o meu vô tinha falecido, o paterno. Como as terras lá eram dele, então nós herdamos um pedaço de terra lá em Minas, mas do qual a gente não tinha condição de cuidar. A gente precisava mudar da fazenda, mas não tinha lugar pra ficar. Uma que a gente não conhecia ninguém na cidade, a gente não era daqui, então não conseguia ninguém pra ser fiador pra gente poder alugar uma casa. Então isso foi muito difícil e a gente tava tentando vender lá em Minas pra poder conseguir comprar uma casa, mas aí não consegui vender lá, demorou esse tempo. Só que aí o meu irmão que já morava em Americana, tinha uma condição um pouco melhor, conseguimos alugar uma casa na cidade sem fiador, mas tivemos que pagar à vista seis meses assim, à vista pra poder morar. Aí nós mudamos, alugamos uma casa e mudamos pra cidade. Fomos os últimos a mudar da fazenda, já não morava ninguém lá mais. Era muito triste que aquelas casas antes tudo cheias, uns três meses nós ficamos lá morando sem ninguém, no meio de vaca.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+