Busca avançada



Criar

História

As lembranças que ficaram

História de: Bethilde Barbin Veronese
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Bethilde Barbin Veronese relembra momentos de sua vida, tais como suas brincadeiras de infância, sua mudança pra São Paulo, sua relação com sua neta e como era sua vida na roça com seus irmãos.

Tags

História completa

P/1 – Bom, qual é o seu nome?

 

R - Bethilde Barbin Veronese.

 

P/1 - Onde a senhora nasceu?

 

R – Em Bebedouro.

 

P/1 - Quando que a senhora nasceu? A data de nascimento? A data de nascimento (mais alto).

 

R - Dia 15 de fevereiro.

 

P/1 - De que ano?

 

R – Agora eu não estou lembrada.

 

P/1 – Nome dos seus país?

 

R – Ângelo (Babim?).

 

P/1 – Nome da sua mãe?

 

R – Hortência (Di formati?).

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – Na Itália.

 

P/1 – A senhora lembra o ano?

 

R – Não lembro.

 

P/1 – Não? Tudo bem. O nome dos seus avós?

 

R – Dério (di Formati?). E da minha eu não lembro.

 

P/1 – Não, tudo bem. Onde eles nasceram?

 

R – Na Itália também.

 

P/1 – A senhora podia contar um pouquinho como é que era a sua família na infância?

 

R – Eram em dez, cinco homens e cinco mulheres

 

P/1 - Além dos seus irmãos e seus pais, quem morava na sua casa?

 

R – Só os filhos.

 

P/1 - Como é que era na sua casa o relacionamento com seus irmãos?

 

R – Era alegre, meus irmãos moços tinha sanfona, tocava, dançava. Quando era o carnaval também era tudo alegria, né?

 

P/1 – Tinha muita festa?

 

R – Tinha.

 

P/1 – A senhora poderia me contar um pouco?

 

R – Era aquela brincadeira, dançava, brincava.

 

P/1 - Como é que era sua casa na sua infância?

 

R – Era assim feita de tábua, casa de tijolo, né? Era assim.

 

P/1 - No que os seus pais trabalhavam?

 

R - Na lavoura.

 

P/1 - A senhora lembra alguma coisa deles trabalhando em casa, o que a senhora lembra dos seus pais?

 

R - Plantavam milho, tomate, essas coisas, né, café.

 

P/1 – A senhora tem alguma lembrança da sua mãe? Do seu pai?

 

R – Sim.

 

P/1 – O que mais lembra dela?

 

R - A minha mãe que lidava com porcos, né? Tirava leite da vaca, tudo ela que tirava, né? Achava lenha, fazia pão.

 

P/1 - E o seu pai, o que a senhora lembra dele?

 

 R - Meu pai trabalhava na roça, né?

 

P/1 – Na roça, né? Como é que era o seu pai e sua mãe com vocês? Com os filhos.

 

R – Meu pai era bonzinho com a minha mãe, se davam bem.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Mamãe também

 

P/1 – A senhora trabalhava na roça?

 

R – Eu não.

 

P/1 – Só seus irmãos?

 

R – Só meus irmãos.

 

P/1 – Quais eram suas brincadeiras prediletas? O que vocês gostavam de brincar quando eram pequenos.

 

R – A gente gostava de brincar de passar anel, essas coisas.

 

P/1 – Ah, é? Quais eram as outras brincadeiras?

 

R – A gente sentava tudo assim... Punha o chapéu, daí punha a mãozinha assim pra colocar o anel, deixava o anel na mãozinha de outro. Era a brincadeira

 

P/1 – E os seus brinquedos, a senhora lembra se a senhora tinha algum brinquedo?

 

R - Eu lembro que tinha uma boneca de (ceraloide?).

 

P/1 – De quê?

 

R – Aquelas de (ceraloide?), né, que fala. Eu estava brincando com ela, meu irmão foi pegou um fósforo e queimou, a boneca foi embora (risos).

 

P/1 – Nossa!

 

R - Sumiu a boneca.

 

P/2 – Tinha brincadeira pra menino e pra menina?

 

P/1 - Tinha brincadeira pra menino e pra menina? (mais alto). Ou vocês brincavam juntos?

 

R – Brincava junto, onde a gente morava tinha pé de mamona, embaixo ficava vazio, então a gente brincava de casinha ou fazia comidinha. Os irmãos levavam na roça, brincando assim, né? Que é uma casinha, assim.

 

P/1 – A senhora costumava ouvir histórias nessa época?

 

R – A finada minha mãe contava muita história.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma história? Que marcou a senhora? Ou alguma coisa assim?

 

R – Hein?

 

P/1 – Se a senhora lembra.

 

R – Ela lia muito livro de milagre, essas coisas.

 

P/1 – E a senhora lembra algum milagre?

 

R – Não lembro.

 

P/1 – A senhora estudou?

 

R – Não.

 

P/1 – Não, né? Seus irmãos também não.

 

R – Até o primário só, né?

 

P/1 - A senhora estava me contando que os seus irmãos não gostavam de ir na roça, como era?

 

R – Eles queriam que a gente ficasse lá pra ajudar (risos). A gente não queria ir, não queria ficar lá, né, então a gente pegava e dizia que estava com dor de cabeça, vinha embora, aí eles mandavam a gente pra casa (risos).

 

P/1 – Vocês costumavam ajudar eles na roça?

 

R – Algumas vezes.

 

P/1 – A senhora lembra alguma coisa da roça?

 

R – Eu lembro que esse meu irmão... A gente quando vinha pra casa, brigava muito, era muito levado. E tinha um pau, aí tinha um passarinho de lá, eu falei: “Vai pegar aquele passarinho”, ele foi pegar o passarinho e pegou uma cobra, levantou a cobra (risos). Eu também lembro que quando eu era mocinha e veio minhas primas do interior e disseram pra mim “Vamos lá na roça ver se tem abacaxi maduro”. A gente foi lá ver se tinha abacaxi, foi com eles, né? E tinha um passarinho em um monte de lenha, com as asinhas abertas, aí eles disseram “Tilde, vai pegar aquele passarinho, vai pegar”, aí eu fui com cuidado, falei pra eles “Fica quietinho aí que eu vou pegar”, eles ficaram quietinhos e eu fui dando passo por passo, ele estava em cima daquele monte de lenha, aquela tranqueira, quando eu fui dar o passo o passarinho voou, quando eu escuto aquele barulhinho no meio das minhas pernas, eram uma cascavel.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Aí eu dei um pulo pra trás e a cobra saiu andando. Foi embora pro mato.

 

P/1 – A senhora lembra de outras coisas que aconteceram quando vocês iam pra roça? Ou alguma brincadeira?

 

R – Tinha um irmão meu, esse que é mais velho do que eu, dois anos, né? Nesse tempo tocava gramofone, que minha irmãzinha ganhava na rifa, né? Eles foram para pegar o disco, pra tocar, foram naquela brincadeira quando chegaram em um bom pedaço, começaram a brincar, o colega dele “Olha, eu vou te dar um tiro”, rolava um monte de brincadeira, ele então tirou a garrucha e deu um tiro, pegou nele, pegou bem aqui nele. Mas graças à Deus ele não morreu, ficou ruim. Aí quando a minha mãe estava na cidade, quando ela vinha vindo da cidade, encontrou com ele e iam levando-o pra cidade. Era ele, né? Salvou, né?

 

P/1 – A senhora lembra-se de alguma música que tocava naquela época.

 

R – Eu lembro aquela: meu boi morreu, o que será de mim? (cantando). Eu gostava daquela...

 

P/1 – A senhora gostava?

 

R – Eu gostava.

 

P/1 – A senhora e a sua família tinha algum plano pro futuro? A senhora tinha vontade de sair de lá.

 

R – Tinha.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Pra viver minha vida em São Paulo

 

P/1 – A senhora não gostava de lá?

 

R – Eu gostava. Depois que eu vim, não acostumava aqui, queria ir pra lá outra vez.

 

P/1 – O que a senhora mais gostava lá da sua cidade? Do lugar que a senhora nasceu. O que a senhora mais lembra?

 

R – De lá, da cidade, tudo né.

 

P/1 – A senhora ia à igreja, tinha baile?

 

R – Tinha baile.

 

P/1 – A senhora poderia me contar um pouquinho sobre os bailes? Alguma história que a senhora tem sobre os bailes?

 

R – Eu gostava muito de dançar, né?

 

P/1 – O que vocês dançavam nessa época?

 

R – Ah, não me lembro mais não.

 

P/1 – A senhora lembra de algum namoradinho seu? A senhora teve algum namorado na sua cidade? Teve? (risos). A senhora lembra alguma coisa dele?

 

R – Não lembro agora.

 

P/1 – Como é que a senhora saiu da sua casa de infância? Por que a senhora saiu da sua casa quando a senhora era nova?

 

R – Como saí?

 

P/1 – Por que a senhora saiu da sua casa, quando a senhora veio pra São Paulo, por exemplo?

 

R – Eu saí de lá e vim embora pra cá, né? Eu casei.

 

P/1 – Como é que foi? A senhora teve filhos?

 

R – Tive duas.

 

P/1 – Duas mulheres.

 

R – Duas mulheres

 

P/1 – A senhora poderia me dizer quando começou a namorar?

 

R – Eu estava namorando um moço...

 

P/1 – Como era o nome dele?

 

R – Ah, não lembro mais (risos).

 

P/1 – Tudo bem.

 

R – Aí foi num baile, eu namorei com um moço, o pai e a mãe dele veio em casa pro casamento e tudo. Depois ele foi embora, ficou doente e não veio mais, fiquei morando em Santa Adélia, aí fui em um baile, encontrei meu marido, casei com ele e fui para São Paulo.

 

P/1 – A senhora lembra como foi o encontro em que a senhora conheceu seu marido?

 

R – Foi no baile.

 

P/1 – O baile era do que? Que festa que era?

 

R – Era um baile de despedida.

 

P/1 – Era despedida de quem?

 

R – A gente ia mudar de lugar. De um lugar pra outro.

 

P/1 – A senhora morava onde naquela época?

 

R - Eu morava em Santa Adélia,

 

P/1 - Santa Adélia, né? E a senhora ia para onde?

 

R – Eu ia para Araraquara.

 

P/1 – Por que vocês saíram de Santa Adélia?

 

R - Para tentar, né? A vida melhor, né?

 

P/1 - Como é que era a situação lá? A vida de vocês lá?

 

R – Trabalhavam muito meus irmãos, trabalhavam na roça.

 

P/1 - A senhora poderia me contar um pouco de quando a senhora veio para São Paulo, o que a senhora lembra?

 

R - Quando vim para cá sofri muito, né? Meu marido ganhava pouco, eu tinha minhas meninas pequenas, pagava aluguel.

 

P/1 - Seu marido trabalhava onde?

 

R – Numa fábrica, numa firma.

 

P/1 – A senhora poderia me contar como era onde a senhora morava?

 

R – Morei ali no Belém.

 

P/1 – Como era o Belém daquela época?

 

R – Não mudou muito não.

 

P/1 – A senhora tinha alguma lembrança de como é que era a vida da senhora, com seus vizinhos?

 

R - Meus vizinhos sempre foram bom para mim, me ajudaram muito.

 

P/1 - Qual foi o seu primeiro trabalho aqui em São Paulo?

 

R – Meu primeiro trabalho, fui trabalhar em uma firma.

 

P/1 – Como era o nome da firma?

 

R – São João.

 

P/1 – A senhora poderia me contar como era o seu trabalho? O que a senhora fazia lá.

 

R – Rocadeira, trabalhava na fiação.

 

P/1 - A senhora lembra de alguma história sobre como é que era o contato com as outras trabalhadoras? A senhora tem alguma lembrança, a senhora gostava?

 

R – A gente trabalhava assim... Quem fazia mais, ganhava mais (barulho de carro).

 

P/1 – Como era o relacionamento com seu patrão, com os outros trabalhadores, como era?

 

R – Era tudo bem.

 

P/1 – A senhora trabalhou em outras coisas depois?

 

R – Não, só aí.

 

P/1 – Qual é a atividade mais importante a família, a política, a religião?

 

R – Como? De religião?

 

P/1 – Quais as coisas a senhora acha mais importante fazer?

 

R – De fazer? Cozinhar, dona de casa.

 

P/1 – O que a senhora gosta de cozinhar?

 

R – Fazer macarrão em casa, pão, essas coisas.

 

P/1 – Hoje em dia, o que a senhora costuma fazer?

 

R – Faço polenta, que a sua mãe gosta de comer (risos).

 

P/1 – E quais as outras? A senhora faz outras coisas além de cozinhar?

 

R – Não... Tem um quintalzinho lá, eu gosto de cuidar das minhas plantinhas.

 

P/1 – A senhora tem muitas plantas?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Hoje em dia, a senhora sai, vai pra casa de outras pessoas?

 

R – Saio, gosto de andar.

 

P/1 – Quais foram os bairros que a senhora morou, quando a senhora veio aqui pra São Paulo?

 

R – No Tatuapé.

 

P/1 – O que a senhora lembra da época que a senhora morou no Tatuapé?

 

R – Eu lembro que quando era carnaval, vinha aqueles (curso?) na Avenida. Era uma beleza. Se divertia.

 

P/1 – A senhora ia no carnaval?

 

R – Tinha os bondes, aqueles bondinhos.

 

P/1 – A senhora se fantasiava?

 

R – Não.

 

P/1 – Não, né? Só brincava. E quais eram as outras festas que aconteciam?

 

R – Eu lembro que um dia eu vinha no bonde, aí eu fui descer do bonde, caiu o salto do meu sapato (risos).

 

P/1 – E aí o que aconteceu?

 

R – E aí quando eu desci, vi que tinha perdido o salto do sapato (risos).

 

P/1 – A senhora participava de alguma associação?

 

R – Não.

 

P/1 – O que a senhora lembra depois do Tatuapé? A senhora foi pra algum lugar?

 

R – Não.

 

P/1 – A senhora não foi pra Mooca?

 

R – Porque meu marido comprou um terreno, a gente construiu e estamos morando aí.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma coisa do trabalho do seu marido ou um pouco da vida da senhora, o que a senhora lembra que marcou?

 

R – Eu lembro quando a gente ia viajar, era gostoso.

 

P/1 – Que lugares que vocês viajavam?

 

R – Paraná. Votuporanga, (Moran..?).

 

P/1 – Vocês tinham algum conhecido?

 

R – Eram meus sobrinhos, eles ainda moram lá.

 

P/1 – Hoje em dia com quem que a senhora mora?

 

R – Com a minha filha. Minha filha mora comigo.

 

P/1 – Te faz companhia? Quais são as pessoas que a senhora mais convive?

 

R – Mais convive? Neto, bisneto e tataraneto.

 

P/1 – A senhora podia contar um pouco sobre seus netos?

 

R – Dos netos?

 

P/1 – Sim, dos netinhos.

 

R – A primeira neta foi criada sempre comigo, quando eu ia viajar levava ela, pra onde eu ia levava ela, quando não levava, ela chorava, me procurava.

 

P/1 – O que a senhora gostava de fazer pra ela?

 

R – Fazia de tudo que ela gostava. A gente sai pra passear, estava tão acostumada, alguém pegava ela no colo, ela sentava no chão e queria que eu fosse pegar ela, aí eu andava pra ver se ela andava também, mas ela ficava lá, se não ia pegar ela não saia do lugar.

 

P/1 – Como é que é o seu dia a dia hoje em dia?

 

R – O dia de hoje?

 

P/1 – Como é que é o seu dia a dia, o que a senhora faz?

 

R – Levanto, tomo banho, tomo café, fico sentada um pouco, aí pego minha roupinha vou lavar, faço alguma coisa pro almoço, se eu gosto eu faço, lavo roupa, cuido das plantinhas, aí descanso, depois eu vou andar.

 

P/1 – Podemos falar um pouco das suas plantas, do seu jardim, a senhora poderia me falar um pouco do que a senhora gosta?

 

R – Aí eu planto as coisinhas, remedinho lá.

 

P/1 – Com quem a senhora aprendeu a cuidar das plantas?

 

R – Ah, eu aprendi, né?

 

P/1 – Se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua vida o que a senhora mudaria?

 

R – O que eu mudaria?

 

P/1 – É.

 

R – Eu gostaria que chegasse naqueles tempos atrás, né? Quando eu era mais nova.

 

P/1 – O que a senhora gostava naquela época?

 

R – Eu gostava de viajar, passear...

 

P/1 – A senhora poderia me contar um pouco das viagens, o que acontecia nas viagens?

 

R – Quando vinha vindo da... Que eu trazia a minha neta, a gente vinha de trem, né? Aquele balanço do trem caiu uma mala bem na minha cabeça, eu estava com ela no colo e assim com a mão na cabeça.

 

P/1 – O que aconteceu, o pessoal foi socorrer a senhora?

 

R – Não...

 

P/1 – E outras coisas assim, que a senhora lembra? A senhora viajava com seu marido também? Qual foi a coisa que mais marcou na vida da senhora?

 

R – Mais marcou? Não lembro.

 

P/1 – A coisa mais importante, que a senhora mais se impressionou, que mais marcou, pode ser na sua infância ou adolescência?

 

R – Não lembro agora.

 

P/1 – O que a senhora gostaria de dizer para as pessoas mais novas?

 

R – Gostaria de ser uma pessoa estudada, mas eu não sou. Meu maior sentimento é de não ter estudo.

 

P/1 – Porque a senhora não estudou?

 

R – Porque morava no interior e nunca passou pela minha cabeça.

 

P/1 – O que a senhora fazia na sua infância, de brincadeira, a senhora não lembra? O que vocês mais gostavam de fazer? A senhora e os seus irmãos?

 

R - A gente morava numa fazenda e tinha um canavial na frente, à noite a gente ia lá pegar cana, fica tudo sentada as molecadas, meus irmãos que moravam lá perto. A gente pegava brincava, pegava aqueles vagalumes, brincava, não tinha luz, né? Quando ficava aquele claro de lua, a gente brincava até onze horas, meia noite. E aí a gente ia dormir. Brincava de esconde-esconde, meu irmão brincava de capeta, colocava o chapéu na cabeça, falava que ele era o capeta e vinha atrás da gente. Essas brincadeiras. Tipo de esconder.

 

P/1 – E dos seus amigos de infância a senhora lembra de alguma coisa? Do que vocês gostavam de brincar, das festas?

 

R – Não.

 

P/1 – Qual é o seu sonho? O que a senhora gostaria de realizar, que a senhora não conseguiu?

 

R – Meu sonho? Não lembro.

 

P/1 – Não, assim... O que a senhora gostaria de fazer, é uma coisa que a senhora ainda tem vontade de fazer?

 

P/2 – É uma coisa que a senhora ainda tem vontade de fazer, de realizar?

 

R – Eu gostaria de ter muito dinheiro pra ajudar quem precisa, sabe? Os netos, os filhos.

 

P/1 – Quando a senhora era mocinha, o que a senhora gostaria de fazer? Os sonhos da senhora, o que a senhora mais tinha vontade de fazer quando a senhora era moça?

 

R – Morar em casa bonita, ter bastante brinquedo, essas coisas, né? Morava em casa pobre.

 

P/1 – Como era a casa da senhora? A senhora poderia dizer?

 

R – A gente morava em um sítio, era aquela casa de barro, não tinha asfalto, não tinha nada, era só terra. A gente morou lá, cinco anos a gente morou.

 

P/1 – E depois a senhora saiu de lá por quê?

 

R – Aí foi melhorando, né?

 

P/1 – Esse lugar que a senhora morava era onde?

 

R – Era em Monte Alto.

 

P/1 – Quando a senhora chegou aqui em São Paulo, o que mais impressionou a senhora, o que a senhora achou mais estranho?

 

R – Eu dizia que nunca ia acostumar aqui, né? Eu dizia que nunca ia aprender sair nos lugares sozinhas, pensava que ia me perder, depois fui indo, comecei, ia na cidade de bonde, voltava com as meninas pequenas, passeava.

 

P/1 – Como é que era a cidade?

 

R – Era tão linda a cidade. A praça da Sé era tão linda, tinha aqueles letreiros. Era uma beleza, agora não tem mais nada.

 

P/1 – E hoje o que a senhora acha?

 

R – Hoje tá tudo mudado, né? Faz tempo que eu não vou na cidade.

 

P/1 – O que a senhora achava de diferente dos lugares de onde a senhora morava para aqui pra São Paulo?

 

R – Também mudou muito lá, tá diferente.

 

P/1 – O que tinha de diferente?

 

R – A cidade melhorou, né?

 

P/1 – A senhora acha importante ter deixado um pouquinho da sua vida gravado?

 

R – (risos) Eu acho que eu me saí bem, né?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah, eu acho (risos).

 

P/1 – O que a senhora gostaria que fosse feito com essa entrevista?

 

R – Não sei (risos).

 

(pausa)

 

P/1 – A senhora estava me contando sobre seus irmãos gêmeos, né? Fala um pouquinho sobre eles.

 

R – Tinha aqueles canteirinhos que meu pai plantava cebola, ele fazia os canteirinhos, né? Ele chamava a gente que é menorzinho que tinha mão pequenininha pra capinar aquele matinho, ficar lá abaixadinho com a mão tirando aquele matinho e a gente não gostava muito de fazer aquele serviço (risos). Aí a gente falava assim “Vamos falar que estamos com dor de cabeça e vamos embora”, ai ele mandava a gente embora.

 

P/1 – A senhora ajudava sua mãe fazer as coisas em casa?

 

R – Lavava a louça, a roupa, essas coisas, dentro de casa, né?

 

P/1 – E o seu marido a senhora quase não falou nada dele? Ele ainda é vivo?

 

R – Não.

 

P/1 - O que a senhora lembra dele? Como é que foi o casamento da senhora?

 

R – Lembro.

 

P/1 – O que a senhora gostava nele?

 

R – Tanta coisa, não lembro mais... Quando ele chegava, né?

 

P/1 – Ele era bom para a senhora?

 

R – Era. Muito bom.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+