Busca avançada



Criar

História

As histórias de trabalho que fizeram uma história de vida

História de: Antonio Carlos Rizzo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/06/2004

Sinopse

Antonio Carlos Rizzo, nasceu em 15 de Maio de 1936, em São Paulo. Filho único de Antonio Rizzo e Emília Iolanda Rizzo, neto de imigrantes que vieram da Itália. O senhor Antonio morou desde que nasceu em Santo André, onde frequentou a escola. Apaixonado pelo esporte, do qual coleciona muitas histórias, assim como pelos assuntos da área da saúde, meio no qual se tornou um conhecedor devido à sua experiência profissional ter sido construída dentro de uma das maiores empresas do ramo farmacêutico. Casou-se em 1970, teve duas filhas e dois netos.

Tags

História completa

P/1 - É o depoimento de Antonio Carlos Rizzo, entrevistado por Zilda Kesser, José Carlos Vilardaga, na residência dele em Santo André, hoje é dia 2 de Outubro de 1998. A gente vai começar, eu vou pedir para o senhor se apresentar. O seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Antonio Carlos Rizzo, nasci em São Paulo, 15 de maio de 1936.

 

P/1 - O nome dos seus pais e dos seus avós.

 

R - Meus pais, Antonio Rizzo e Emília Iolanda Rizzo.

 

P/1 - O senhor tem irmãos e irmãs?

 

R - Não, não tenho irmãos. Avós?

 

P/1 - Avós.

 

R - Avós? Avós paternos, Calógero Rizzo e Assunta Maria Rizzo, e maternos, Santi Caralli e Leonilda Balderi Caralli.

 

P/1 - Eles faziam o quê, os seus avós?

 

R - Vieram todos da Itália...

 

P/1 - Todos chegaram da Itália...

 

R - Da Itália. O meu avô paterno, como todo bom italiano, começou como músico...

 

P/1 - Ah!

 

R - É, músico. Foi membro, não sei se fundador, foi membro da banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, depois veio pra São Paulo e exerceu várias profissões. E meu avô materno era guarda-livros, o contador da época, né? Ele veio para cidade de Pedreira, que eu sei, no começo do século. Era funcionário da cidade de Pedreira, depois veio pra Santo André onde  exerceu a função de guarda-livros.

 

P/1 - E o senhor nasceu aqui em Santo André?

 

R - Nasci em São Paulo por questões de convênio médico, só, né? Mas minha família estava toda aqui.

 

P/1 - O senhor cresceu aqui? Como foi a sua infância aqui em Santo André?

 

R - Uma infância normal para época, não é?

 

P/1 - O senhor morava onde?

 

R - Morava no centro de Santo André, jogava bola nas ruas centrais, que eram de terra... [risos]

 

P/1 - Quem mais morava na sua casa, na sua infância, aqui em Santo André?

 

R - Eu, meu pai e minha mãe, não é?

 

P/1 - O senhor tem alguma lembrança dessa sua infância aqui em Santo André?

 

R - Bastante.

 

P/1 - O quê que o senhor se lembra?

 

R - Lembro da tranqüilidade da cidade, dos amigos da rua, da escola, da casa dos meus avós, que era uma chácara, né, e a gente ia todos os domingos para reunir a família, né?

 

P/1 - Na chácara dos seus avós?

 

R - É, passávamos todo o dia na chácara.

 

P/1 - E que lembranças o senhor tem do seu pai e da sua mãe? Como eles eram?

 

R - O meu pai era como eu, quieto. Minha mãe mais expansiva, mais...Ah, assim, sem nada de mais especial que eu me lembre no momento, né?

 

P/1 - O senhor estudou em qual escola aqui em Santo André?

 

R - Todas elas? [risos]

 

P/1 - Desde o princípio.

 

R - Desde o princípio?

 

P/1 - Quando o senhor foi à escola, quantos anos o senhor tinha?

 

R - A primeira escola era um curso particular, estudei somente o primeiro ano, primeiro ano do primário. Era o Curso São José. Depois passei para o segundo...

 

P/1 - Era uma escola... ou era um curso?

 

R - Era um curso mantido por uma antiga professora daqui, que tinha só o curso primário, né? E eu estudei o primeiro ano lá e depois, no segundo ano, passei para o Ginásio Santo André, que foi a primeira escola, primeiro ginásio da cidade, né? Estudei lá até a terceira série. Depois, quando começou o primeiro colégio estadual da região do ABC, eu entrei para o colégio estadual, terminei o colégio lá.

 

P/1 - E esse colégio estadual do ABC era aqui em Santo André?

 

R - Santo André. Foi o primeiro colégio do ABC.

 

P/1 - E o senhor ia para a escola, como?

 

R - Com a maior tranquilidade, a pé... desde o primeiro ano nós podíamos ir a pé, desacompanhado, sem problemas. [risos]

 

P/1 - E o que o senhor se lembra da sua adolescência?

 

R - Lembro muito, do esporte.

 

P/1 - Do esporte?

 

R - Sempre pratiquei esporte, né?

 

P/1 - O senhor começou a praticar esporte com que idade?

 

R - Na escola, com 12, 13 anos.

 

P/1 - E qual esporte o senhor fazia?

 

R - Primeiro voleibol, depois basquete, atletismo e agora futebol.

 

P/1 - E agora futebol?

 

R – É, eu tive um acidente na minha vida que me obrigou a parar de jogar futebol com 12 anos. Voltei com 49 anos.

 

P/1 - O senhor se lembra da sua primeira namorada?

 

R - Lembro. É a minha mulher. [risos]

 

P/1 - É a sua esposa? [risos] E da sua infância, o senhor se lembra de alguma doença que o senhor teve, uma epidemia?

 

R - As doenças infantis, né?

 

P/1 - E o senhor se lembra de remédio que o senhor tomava para essas doenças que o senhor teve na sua infância?

 

R - Chás.

 

P/1 - Chás?

 

R - Chás.

 

P/1 - O senhor se lembra de vacinas? O senhor tomou vacinas?

 

R - Lembro, lembro. Lembro da “tuberculina” e de... uma vacina que tomávamos no braço ou na coxa, né? Mas nem...

 

P/2 - Essas doenças de infância, quais doenças que o senhor teve que o senhor se recorda?

 

R - Olha, eu me recordo da catapora, do sarampo... acho que só.

 

P/2 - E esses chás eles... o senhor tem idéia, assim, chá do quê que era, para o que era?

 

R - Como assim?

 

P/2 - Esses chás que vocês tomavam.

 

R - Ah, geralmente para febre, né? Geralmente para febre, porque remédios curativos propriamente ditos, existiam poucos, né? Então era apenas para contemporizar e combater os sintomas, né? A cura das doenças infantis, geralmente era tempo, né?

 

P/1 - E a sua formação profissional, foi qual?

 

R - Eu estudei Administração de Empresas, mas já depois de casado.

 

P/1 - E o senhor começou a trabalhar antes, então?

 

R - Comecei a trabalhar... comecei a trabalhar com menos de 15 anos.

 

P/1 - Aonde o senhor foi trabalhar?

 

R - Na Rhodia.

 

P/1 - Na Rhodia?

 

R - Sempre na Rhodia.

 

P/1 - Quem da sua família já trabalhava na Rhodia quando o senhor foi trabalhar?

 

R - No instante em que eu entrei, trabalhava um tio e um primo.

 

P/1 - Eles faziam o quê lá?

 

R - O tio era funcionário de um... fazia o controle da parte administrativa de um dos laboratórios, de uma das fabricações da Rhodia, e o primo trabalhava também na área administrativa, na produção da Farmacêutica.

 

P/1 - O senhor entrou em que ano?

 

R - 1951.

 

P/1 - Que idade o senhor tinha?

 

R - 14 para 15 anos. Eu entrei... eu fazia 15 anos em maio e entrei em março.

 

P/1 - Como foi? O senhor foi procurar esse trabalho ou a Rhodia mandou lhe chamar?

 

R - Não, não. Eu comecei a trabalhar com...o meu chefe era casado com uma prima minha e ele que... como havia vaga, ele sabia que eu estava precisando trabalhar, então me chamou.

 

P/1 - E o senhor foi fazer que trabalho?

 

R - Contínuo.

 

P/1 - Contínuo? E em que área da Rhodia? O senhor se lembra?

 

R - Era na Divisão Administrativa do Departamento de Especialidades, que foi o núcleo da Divisão Farmacêutica e hoje é da Rhodia Farma, né?

 

P/1 - O senhor se lembra quem trabalhava nessa época?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Quando o senhor entrou? Quem trabalhava junto com o senhor?

 

R - O chefe do Departamento, Dr. Eduardo Valente Simões, na Divisão Administrativa o chefe era Mário Granziera, trabalhava Ondina Pereira, Marta Helena de Campos (Riviani?), que seria um outro nome, foi secretária do Dr. Simões durante muito tempo, seria outra pessoa a ser consultada...

 

P/1 - Depois a gente fala com ela.

 

R - E é minha vizinha, mora aqui perto [risos]. Luís Oscar Cumer, que vocês vão visitar hoje, Ari Soares do Nascimento, Rubens Vieira Sardinha. Esse era o núcleo da seção que eu entrei, mas haviam outras seções que abrangiam o Departamento na ocasião. Eu lembro de várias pessoas da...

 

P/1 - Como é que era o seu dia a dia no seu trabalho? Que horas o senhor entrava, o que o senhor fazia exatamente?

 

R - A hora exata de entrar eu não lembro porque nós tivemos algumas modificações de horário. Naquele tempo nós trabalhávamos aos sábados, então acho que eram oito horas. Das 8:00 às 11:30 hrs e da 13:00hrs por volta de 17:00hrs e pouco. Depois nós passamos a descansar dois sábados por mês, então compensamos isso em horários. Então houve uma certa mudança de horário na Rhodia. Eu lembro basicamente do horário das 7:30hrs, das 7:30hrs até às 11:30hrs  e, depois, das 13:00hrs até às 17:20/17:40hrs... 

 

P/1 - E aí, o senhor voltava para sua casa para almoçar, não?

 

R - Ah, sim.

 

P/1 - Voltava para casa para almoçar.

 

R - Voltava. E não só voltava, mas tinha que voltar em horário porque meu pai ouvia o apito da Rhodia já podia pôr a comida no prato que sabia que 10 minutos depois a gente chegava... [risos]

 

P/1 - O senhor chegaria. Em qual dos prédios o senhor trabalhava, o senhor se lembra, quando o senhor começou a trabalhar?

 

R - Quando eu comecei a trabalhar era em cima da antiga portaria.

 

P/1 - Sei.

 

R - O Departamento funcionava basicamente ali, né?

 

P/1 - Quando o senhor entrou, o senhor se lembra quais eram os produtos que a Rhodia fabricava?

 

R - Eu lembro de vários deles. Já eram muitos, não dá para lembrar de todos.

 

P/1 - De qual que o senhor se lembra?

 

R - Alunozal, Elixir Mannet, Sulfas... logo depois vieram as Penicilinas, né?

 

P/1 - E no período que o senhor entrou existia algum tipo de incentivo para formação dos funcionários? O senhor estudou?

 

R - Existia.

 

P/1 - Como foi?

 

R - A Rhodia, para quem manifestasse desejo e possibilidade, a Rhodia facilitava. Na época que eu entrei facilitava os cursos universitários. Como nós não tínhamos faculdade nenhuma na região, então quem tivesse condições de entrar numa faculdade que fosse ligada principalmente ao ramo de farmácia e medicina, a Rhodia facilitava. Se o curso fosse diurno a pessoa trabalhava meio dia só, ou às vezes nem isso. Se o curso fosse... a pessoa fosse cursar uma faculdade fora do Estado, então também trabalhava às vezes como propagandista-vendedor algumas horas por dia para compensar o tempo de estudo.

 

P/1 - E o senhor continuou estudando quando o senhor entrou na Rhodia?

 

R - Eu estava estudando no ginasial, né, curso ginasial, curso básico.

 

P/1 - E aí o senhor continuou estudando?

 

R – É, mas eu sei que anteriormente a Rhodia facilitava até curso do colegial. Havia... eu sei de gente que como não tinha curso colegial completo em Santo André, as pessoas iam para São Paulo e trabalhavam só à tarde na Rhodia, trabalhavam meio expediente para poder fazer o curso.

 

P/1 - E o senhor ficou nesse trabalho que o senhor entrou como contínuo quanto tempo?

 

R - Uns 3 anos, aproximadamente.

 

P/1 - E depois, o senhor foi fazer o quê?

 

R - Depois eu passei a auxiliar de escritório, né?

 

P/1 - Nessa mesma área?

 

R - Na mesma seção.

 

P/2 - E como ficou o horário do senhor para conjugar o trabalho com o estudo?

 

R - Eu estudava à noite.

 

P/1 - O senhor continuou estudando à noite?

 

R - É, continuei estudando à noite.

 

P/2 - E a Rhodia, ela dava ajuda financeira também, nos estudos?

 

R - Não, não, não, não, não.

 

P/3 - _______________________.

 

R - Nessa ocasião ela facilitava mais o curso universitário, né? Universitário de áreas de interesse para ela.

 

P/1 - O senhor se lembra de outras empresas que atuavam no mesmo setor da Rhodia na época que o senhor começou a trabalhar?

 

R - Na época que eu comecei, aqui na região não havia nada além de um pequeno laboratório. Chamava Laboratório (Leffort ?), que produzia dois ou três medicamentos e eram de propriedade de um antigo farmacêutico da cidade, né? Ele tinha uma farmácia e produzia dois ou três produtos num prédio próximo, mas não era bem uma... não era uma produção tão regular assim, né?

 

P/1 - E haviam também atividades de lazer proporcionadas pela Rhodia, para os seus funcionários?

 

R - O clube, o clube.

 

P/1 - Como é que era o clube?

 

R - O clube tinha, até antes de eu entrar, um pouco antes de eu entrar na Rhodia, ele funcionava nos altos de um antigo cinema. Depois mudou para um prédio central. Isso a parte social, salão. E tinha a praça esportiva ali ao lado da antiga fábrica. Depois ele transferiu toda a parte social também para essa praça de esportes.

 

P/1 - E nessa parte de atividades sociais, quais eram as atividades, o que acontecia no clube?

 

R - Basicamente bailes, né?

 

P/1 - Bailes?

 

R - Bailes.

 

P/1 - O senhor freqüentava?

 

R - Eram os bailes mais concorridos. Os bailes da Rhodia eram os bailes mais concorridos da cidade e até da região, né?

 

P/1 - E iam funcionários e não-funcionários?

 

R - Funcionários e não-funcionários, porque o clube nessa época também tinha sócios funcionários e sócios não-funcionários.

 

P/1 - E as atividades esportivas eram quais?

 

R - Futebol, basquete e voleibol, basicamente.

 

P/1 - E o senhor participava?

 

R - Eu comecei com... quando entrei na Rhodia, já com 15 anos, já participava. Basicamente eram os jogos operários, né?

 

P/2 – Descreva para nós, como é que eram esses jogos operários.

 

R - Os jogos operários na época, em 1951, eram realizados na capital. Nós não tínhamos uma delegacia regional do SESI em Santo André, então o SESI organizava os jogos operários. No dia primeiro de maio, as fábricas que se inscreviam disputavam partidas eliminatórias até se chegar a um campeão da capital. Depois, eles tinham delegacias regionais em Santos, em Campinas, Ribeirão Preto. Depois reuniam... todos os campeões regionais eram reunidos numa cidade para se apurar o campeão estadual. E a Rhodia, como tinha o clube que disputava campeonatos oficiais, tanto de voleibol como de basquete, ela geralmente era a campeã estadual de basquete e de voleibol, né? Disputava futebol também, mas o futebol já... não chegou muito a campeão estadual.

 

P/1 - E os treinamentos eram feitos fora dos horários de trabalho? Como eram isso?

 

R - Os treinamentos para os jogos operários eram feitos com algumas semanas de antecedência durante o horário de expediente. Quer dizer, nós éramos dispensados 3, 4 horas da tarde para fazer um treinamento...

 

P/2 - Quem os treinava?

 

R - O quê?

 

P/2 - Quem os treinava?

 

R - Não havia um treinador específico...

 

P/2 - Era da Rhodia ou era do clube?

 

R - Heim?

 

P/2 - Era alguém da Rhodia que trabalhava com vocês?

 

R - Geralmente era, nessa época era da Rhodia. Tinham os técnicos contratados para o clube, mas eles não tomavam conta do time nessas competições. Havia sempre um encarregado, né? Geralmente era o José Dias Monteiro o encarregado de montar as equipes. Ele quem acompanhava isso.

 

P/1 - E somente os homens praticavam esporte ou as funcionárias também participavam?

 

R - O clube tinha equipe feminina de basquete, mas o campeonato do SESI acho que eram só os homens, na ocasião.

 

P/1 - Só os homens que participavam?

 

R - O clube chegou a ter uma boa equipe de basquete, principalmente. Jogadores que depois chegaram à Seleção Brasileira de Basquete, inclusive.

 

P/1 - O senhor se lembra da criação do Depesp (Defensoria Pública do Estado de São Paulo), quando foi criado?

 

R - Eu tenho notícias de que foi por volta de 1930 ou 1931, né?

 

P/1 - E como é que ele se desenvolveu nos anos em que o senhor estava trabalhando na Rhodia, nos anos de 1940 e 1950?

 

R - Anos 1950.

 

P/1 - 1950 e 1960, desculpa.

 

R - O desenvolvimento, ele se baseia muito na pesquisa de produto, na carteira de produto. E eu lembro que em 1952 a Rhodia inaugurou a primeira grande fábrica de Penicilina do Brasil.

 

P/1 - Aqui em Santo André?

 

R - Aqui em Santo André. Em 1954 foi descoberto um produto que revolucionou a medicina na ocasião, que era o Amplictil. Então a Rhodia sempre foi, sempre teve uma pesquisa... o grupo Rhône Poulenc teve uma pesquisa muito forte, nós sempre tivemos bastante produtos de bastante peso. Na década de 1960 a Rhodia lançou o Flagil que foi considerado, na ocasião, pra Associação de Médicos Americanos, como lançamento da década no mundo. Então os produtos eram importantes e...

 

P/1 - Por que é que o Flagil era tão importante? O que ele tinha, o que ele fazia?

 

R - Ele atuava numa doença que até então não havia nenhum produto que resolvesse o problema e ele resolvia com dosagem, com tratamento curto até, né?

 

P/1 - Qual era a doença?

 

R - Tricomoníase.

 

P/1 - E como é que era feita a venda desses produtos?

 

R - O Depesp começou com... chamando-se : Seção de Propaganda, que foi o primeiro encarregado de montar esse setor. Não sei se na ocasião se fabricava algum produto aqui ou não. Importavam-se muitos produtos. O Dr.Marc León de Sèpibus, ele acabou contratando dois farmacêuticos para ajudar nesse desenvolvimento. Foram Júlio _________ de Toledo e Eduardo Valente Simões - posteriormente vieram outros , que foram os primeiros propagandistas-vendedores, quer dizer, faziam propagandas junto aos médicos, porque os produtos eram basicamente vendidos através de receituário médico, então a Rhodia foi montando aos poucos uma equipe de propagandistas que também vendiam, né? E o crescimento foi rápido porque... eu vou mostrar para vocês uma fotografia de 1943. Foram 12, 13 anos depois, os propagandistas já eram quase 50 ou 60.

 

P/1 - Quer dizer, eles tinham começado há pouco tempo antes com dois?

 

R - Com dois, né? Com dois de escritório, praticamente.

 

P/1 - E aí esses propagandistas, eles só procuravam os médicos, é isso?

 

R – Médicos e vendiam em farmácias, né?

 

P/1 - E vendiam nas farmácias também? O senhor depois foi auxiliar de escritório e como continuou a sua trajetória?

 

R - Cheguei depois a... naquela ocasião havia a figura do sub-chefe, que hoje está extinta em todas as empresas, né? [risos] Cheguei a sub-chefe desta Seção Administrativa, depois houve uma reestruturação, foi criada uma Seção de Estatística no Departamento, então eu assumi a chefia da Seção de Estatística. Era o depositário de todos os números da Divisão Farmacêutica. Essa Seção, juntamente com a Seção Comercial estavam subordinadas à Chefia de Vendas do Departamento. Esse chefe de vendas foi transferido para a Gerência Regional do Rio de Janeiro, aí, então, na ocasião assumi a Chefia de Vendas. Isso foi em 1967 e fiquei até 1976 para 1977, quando passei para área de Controle de Gestão.

 

P/1 - Agora, o que fazia a área de Estatística? Quais eram as atividades que ela desenvolvia?

 

R - Sistematicamente, ordenar todos os dados numéricos, né, quantitativo, de vendas, em valor, quantidade de valor, de uma maneira que pudesse fornecer informações a todos os setores necessários. Aí começou também o embrião da pesquisa de mercado.

 

P/1 - Como eram levantados esses dados? Como eles eram colhidos?

 

R - Os dados estatísticos?

 

P/1 - É, esse que o senhor está falando.

 

R - Eram levantados pela contabilidade que apurava as vendas por produtos. E a gente, depois, com os dados todos, a gente fazia as mais variadas tabulações, né?

 

P/1 - Que tipo de tabulações se faziam e como isso era feito?

 

R - Nós tínhamos detalhes de vendas em valor por produto, em valor e em quantidade por produto, por apresentação, mês a mês, ano a ano... Nós tínhamos... trabalhávamos com esses dados de maneira a ter permanentemente um banco de dados, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - E quando eu assumi a seção, foi na década de 1950, me passaram alguns dados estatísticos que vinham desde 1932.

 

P/1 - E o senhor trabalhou sobre esses dados?

 

R - Eu guardei esses dados. Eu guardei esses dados até sair da área farmacêutica que foi em 1977. Depois eu soube que a Rhodia contratou gente de fora que achou que aquilo era uma velharia e mandou destruir tudo.   [risos]



P/1 - Agora, esses dados estatísticos que o senhor recebeu, o que o senhor se lembra sobre eles, a respeito dos produtos e das vendas?

 

R - Olha, eu lembro particularmente de um fato, eu já estava fora da Divisão Farmacêutica, quando um gerente de produto resolveu fazer alguma propaganda especial em torno de um produto que estava completando, se não me engano, 50 anos. Então eu disse a ele: "Eu tenho uma idéia. É um produto que, em unidades, é um dos que mais vende na indústria farmacêutica."

 

P/1 - Que é...

 

R - O Gardenal.

 

P/1 - O Gardenal?

 

R - Eu falei: "Como é um produto de 50 anos, se você pegar a venda de 50 anos desse produto vai dar um número tão monstruoso que dava para você trabalhar em cima disso". Foi aí que nós descobrimos que tinha sido jogado fora todo esse material, né?

 

P/1 - Entendi.

 

R - Material não só estatístico em si, mas eu tinha, por exemplo, as listas de preços desde o começo da atividade. Inclusive, quando precisávamos recorrer à informações antigas para defender um aumento de preços perante o CIP (Câmara Interbancária de Pagamento), eu recorria... Nós tínhamos um produto que era passível de um aumento pela idade, o CIP resolveu dar um aumento especial para produtos antigos, mas você tinha que provar que o produto era antigo.

 

P/1 - Era antigo.

 

R - E o produto, ele, no lançamento, não era exigido uma licença especial.

 

P/1 - Podia lançar qualquer produto?

 

R - Não, não, não. Esse tipo de produto.

 

P/1 - Ah, entendi.

 

R - Por ser um tipo de produto oficinal, ele era isento de licença. Anos depois se exigiu uma licença especial, mas a licença era nova, o produto era antigo. Então eu fiz uma defesa perante o CIP anexando uma lista de preços da década de 1930 e com isso conseguimos provar que o produto era antigo e conseguimos o aumento. Esse material também foi todo destruído.

 

P/3 - O produto, o senhor lembra qual era?

 

R - Kelene.

 

P/3 - O Kelene?

 

P/1 - Um anestésico?

 

R - Um anestésico.

 

P/1 - Quais eram os produtos mais vendidos?

 

R - Quantitativamente o Gardenal. As Penicilinas também vendiam bastante, o Fenergan, Amplictil... Muitos produtos bastante vendidos. O Vitaminer... o Vitaminer era um produto de venda quantitativa muito grande, principalmente pelo Nordeste.

 

P/1 - Certo. E por que no Nordeste, o senhor tem essa informação?

 

R - Era um polivitamínico, tinha bastante nome, é muito bom, tinha bastante nome, era um frasco de 260 ml, que era uma quantidade grande, um preço relativamente baixo, mais o nome Rhodia, tudo isso ajudava a vender.

 

P/1 - O nome Rhodia ajudava a vender?

 

R - Ajudava.

 

P/1 - Por que?

 

R - Pela tradição de bons produtos e de trabalho honesto, né?

 

P/1 - O senhor falou que a Penicilina era um dos produtos mais vendidos. E a Rhodia parou de fabricar.

 

R - Parou, porque as Penicilinas caíram um pouco, né? Foram aparecendo antibióticos novos...

 

P/1 - Agora, o senhor falou do seu Departamento também, o embrião do marketing. Que tipo de trabalho era esse da estatística que o senhor colocou como embrião do marketing?

 

R - Embrião da pesquisa de mercado.

 

P/1 - Da pesquisa de mercado, desculpa.

 

R - Eu comecei... propriamente com a pesquisa de mercado nós tínhamos um problema sério. Cada vez que ia se lançar o produto você tinha que levantar o potencial de mercado e analisar os concorrentes mais diretos. Na ocasião nós não tínhamos pesquisa de mercado, não tínhamos informação nenhuma, mas nós tínhamos muita ligação com a Drogasil.

 

P/1 - Sei.

 

R - A Drogasil, na ocasião, representava de 4 a 5% do mercado farmacêutico de produtos éticos. Então, nós conseguimos, na Drogasil... e quem conseguia praticamente, era o senhor Freitas, que era o chefe de propaganda de São Paulo. Ele conseguia, no depósito da Drogasil, a informação de quanto a Drogasil vendia de tais e tais produtos. Nós determinávamos os produtos.

 

P/1 - Sei.

 

R - Ele levantava isso. Nós sabíamos que se a Drogasil era 4 a 5% do mercado do Brasil, multiplicar isso por 20 ou por 25 a gente chegava num potencial desse produto.

 

P/1 - Geral, claro.

 

R - Esse foi o embrião.

 

P/1 - Da pesquisa de mercado. [risos]

 

R - Posteriormente, a gente queria às vezes mais alguma informação, então eu comecei a procurar... a Rhodia nunca foi muito de se exteriorizar. Eu comecei a telefonar para um laboratório para pedir uma informação, eu comecei a fazer amizade. E vários laboratórios já estavam começando também a criar a área de pesquisa de mercado, então acabamos formando um círculo de amizades e a gente trocava informação.

 

P/2 - Que laboratórios eram esses que o senhor conversava?

 

R - Ah, na ocasião? (Labor Terápica ?), (Le Petit?), Up John... Bom, eram muitos, porque a coisa foi crescendo rapidamente, né? Foi crescendo rapidamente e, tanto é que isso culminou poucos anos depois com a criação de uma entidade, né?

 

P/1 - Como chama a entidade?

 

R - GRUPEMEF, era Grupo dos Pesquisadores de Mercado Farmacêutico.

 

P/1 - Farmacêuticos.

 

R - Nós fizemos um... resolvemos criar essa entidade, nos reunimos numa sexta-feira à noite numa choperia para traçar os planos... [risos]

 

P/1 - É uma maneira... [risos]

 

P/4 -  Traçar os planos. [risos]

 

R - E criamos essa entidade. Na ocasião a indústria farmacêutica, não a Rhodia, mas a maioria das indústrias compravam uma pesquisa feita por uma empresa norte-americana.

 

P/1 - Como ela se chamava?

 

R - Na ocasião era (DKK ?). Era o nome do titular, né? Acho que era David qualquer coisa. E a indústria farmacêutica pagava caro por essa publicação, uma publicação mensal, e não estava satisfeita com.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque achava... o (DKK ?) fazia pesquisa e fornecia informações e a gente trocava, o pessoal trocava informações e via que os dados estavam muito fora da realidade, então através dessa associação resolveram dar um puxão de orelha nessa empresa. Trouxeram dos Estados Unidos o representante, reunimos no laboratório (Le Petit ?), comunicamos que estávamos formando essa... já tínhamos formado essa associação e queríamos que ele melhorasse o trabalho. Eu participei também, embora a gente não fosse assinante dessa... eu não era assinante mas eu conseguia as informações através dos amigos, né, sempre que fosse necessário. E de fato o (DKK?) melhorou bastante a amostragem e trouxe o livro até um nível ideal para indústria farmacêutica na ocasião. Posteriormente esse (DKK ?) foi vendido, se transformou em outra empresa, né? Passou a ser o IMS, e acho que deve ser até hoje o IMS que, além dessa pesquisa quantitativa passou a realizar outras pesquisas também qualitativas do ponto de vista de propaganda etc. Mas só muito mais tarde, já na década de 70, que a Rhodia começou a participar da pesquisa da (DKK ?), né?

 

P/1 - Sei. E agora, o resultado dessas pesquisas levadas pelo senhor junto à Drogasil e junto a essa instituição, como elas eram passadas para a  área de vendas? Como o setor de vendas  utilizava suas pesquisas?

 

R - Faziam análise dos produtos concorrentes, os que mais se assemelhavam ao que nós íamos lançar, estabeleciam uma previsão de vendas, estabeleciam o preço, também, em função disso, né? E depois era mãos à obra, né?

 

P/1 - Mãos à obra o que? Ela fazia...

 

R - Era a elaboração dos materiais publicitários... não havia um treinamento específico como hoje temos, eram feitas as circulares, as comunicações, as informações básicas e os propagandistas saíam fazendo a propaganda e as vendas.

 

P/1 - O senhor se lembra desses materiais?

 

R - Eu lembro de muitos.

 

P/1 - Como é que eles eram?

 

R - De várias naturezas. Eles faziam cartões, o que se chamava de dépliã, que deve ser um nome de origem francesa, que era um...

 

P/1 - Folder, folheto.

 

R - Um folheto. Havia folhetos... conforme o material, conforme o produto, as informações eram mais extensas, né? E a Rhodia, durante algum tempo tinha também duas revistas, chamavam Publicações Médicas e Publicações Farmacêuticas, também punham... tinham artigos, trabalhos clínicos que ajudavam a promover. E, além disso, a Rhodia mantinha uma biblioteca muito boa e essa biblioteca era toda catalogada, de forma que quando os médicos tinham qualquer dúvida sobre algum produto, sobre algum assunto, eles, através dessa catalogação localizavam o trabalho, tiravam cópias e mandavam para o médico, né?

 

P/1 - A biblioteca funcionava onde?

 

R - Funcionava na Divisão de Publicidade do Departamento de Especialidades. Como biblioteca, instalada mesmo, ela teve um local próprio na inauguração do prédio do laboratório Rhodia, a partir de 1957, 1958. Inicialmente esses trabalhos eram fotocopiados, porque não existia outro processo de reprodução, tinha que se tirar o negativo, depois o positivo, revelar, fixar, secar essa fotocópia, né? Depois veio o (Thermofax ?)... Hoje em dia o que tem lá da biblioteca, já está interligada com bibliotecas de outras faculdades, né? Hoje os médicos já não dependem mais de... hoje, via Internet, acho que eles já conseguem todas as informações, né?

 

P/1 - Já acessam. E os médicos vinham pesquisar nessa biblioteca ou alguém fazia isso para eles?

 

R - Não, não, não. Geralmente os médicos pediam para os propagandistas a informação, que era encaminhada a essa área, que mandavam para os médicos.

 

P/1 - O senhor citou duas revistas. Como eram essas revistas? Especialidades Médicas e...

 

R - Publicações Médicas e Publicações Farmacêuticas.

 

P/1 - Publicações Médicas e Publicações Farmacêuticas. Como eram?

 

R - Fisicamente ou...

 

P/1 - É, quem fazia, o que tinha.

 

R - O responsável pela edição dessas revistas era o Júlio ___________ de Toledo, que foi um dos... acho que o primeiro contratado para área farmacêutica. Eram revistas, basicamente com artigos técnicos e trabalhos clínicos orientados para farmácia e para medicina.

 

P/1 - E aí os vendedores é que levavam essas revistas ou eram distribuídas?

 

R - Não, elas eram despachadas via correio.

 

P/1 - Certo.

 

R - Tinha uma seção especializada com aquelas antigas... aquelas máquinas de endereçar, com aquelas chapinhas, ela tinha o cadastro já dos médicos, e despachava isso automaticamente. Como despachava também as amostras grátis, porque o médico, em determinada parte do Brasil, fazia uma solicitação de alguma coisa que não estava em promoção no momento, a Rhodia fazia aquele tipo de caixa ali, aquele tipo de caixa era para embalar as amostras pedidas pelos médicos.

 

P/1 - Que eram postadas?

 

R - Eram postadas.

 

P/1 - Então uma parte o propagandista entregava na sua visita...

 

R - É, basicamente o que estava em promoção, né?

 

P/1 - E como era decidido o que entraria em promoção? Pelas suas estatísticas?

 

R - Os produtos... basicamente no lançamento, durante um certo período, e depois, periodicamente era reforçada essa promoção, né?

 

P/1 - Alguns produtos tiveram grandes campanhas, como o Rhodine, por exemplo. O senhor se lembra dessa campanha?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Eu lembro de antes de entrar na Rhodia, né? A Rhodia fazia uma propaganda chamada "popular", né, com relação ao Rhodine. Ela patrocinava um programa de auditório que era de grande repercussão na época, que era o...

 

P/1 - A Peneira Rhodine.

 

R - A Peneira Rhodine, realizava durante todo o ano, todos os sábados, uma seleção de cantores, depois realizava a Peneira de Ouro, que era num determinado mês, eles reuniam os melhores do ano para disputar o primeiro lugar, né? Acho que homens e mulheres, duas categorias, pelo menos.

 

P/1 - E onde era esse __________?

 

R - O programa normalmente era na Rádio Cultura.

 

P/1 - Era um programa de rádio?

 

R - Programa de rádio, na Rádio Cultura. Mas vez ou outra, não sei, se algumas vezes a Peneira de Ouro era realizada em Santo André num cinema.

 

P/1 - E aí, as pessoas iam assistir?

 

R - Iam assistir, porque a Peneira de Ouro era demais! Mais atrativa para o público, então eles faziam em Santo André e num cinema.

 

P/3 - O senhor foi em alguma dessas?

 

R - Fui.

 

P/3 - E como é que eram, assim, o nível, os cantores?

 

R - Você sabe, na ocasião a coisa despertava muito interesse, porque não havia televisão, então quando... havia chance, sempre de você conhecer alguém ligado ao meio artístico, então a fluência era grande, e eu lembro de uma no Cine Tangará que eu acho que tinha mais de mil pessoas, né? O Tangará, parece que cabiam umas 1200 pessoas, cinema lotado! Havia até uma seleção, uma certa seleção de ingresso.

 

P/3 - E aí, vinham convidados?

 

R - É.

 

P/1 - E o senhor se lembra de alguma outra promoção de remédio, desse tipo?

 

R - Não, assim, nada especial. Eu lembro bem do Amplictil... Se falava, se fazia muita promoção, muita briga comercial com relação à Penicilina porque a Rhodia lançou a primeira fábrica de Penicilina em 1952 e quase ao mesmo tempo vieram a Squibb e Fontoura White, então era uma disputa comercial muito grande, né?

 

P/1 - E aí havia propaganda direcionada, para o público?

 

R - Direcionada para o público, que eu lembre, foi basicamente a Rhodine

 

P/1 - A Rhodine?

 

R - A Rhodine, a Rhodia tentou... eu fiquei sabendo isso hoje, que eu estava lendo o material que seu Valente mandou, ele tem aqui um almanaque de 1936, daqueles tipos de almanaque da saúde da mulher, a Rhodia lançou um almanaque daquele tipo, mas que os médicos se queixaram que a Rhodia estava partindo para uma propaganda popular e deixando de fazer uma propaganda ética, então eles abandonaram a linha e continuaram só com a Rhodine.

 

P/1 - Certo.

 

P/3 - Foi uma queixa dos médicos?

 

R - Heim?

 

P/3 - Uma queixa dos médicos?

 

R - Também.

 

P/1 - O senhor se lembra da campanha "Rhodine, a boa enfermeira"?

 

R - Eu lembro alguma coisa.

 

P/1 - Como era essa campanha?

 

R - Bom, além do programa radiofônico, eles tinham cartazes espalhados em... outdoors, cartazes nos hospitais... Eu não lembro bem, porque eu era garoto, né? Mas eu lembro da propaganda popular.

 

P/2 - E como é que eram esses cartazes? O que ___________ esses cartazes?

 

R - Era uma enfermeira, tinha um slogan, né? "Rhodine, a boa enfermeira não deixa a dor doer", né?

 

P/1 - E aí tinha uma garota-propaganda, uma mulher?

 

R - Não, era uma enfermeira.

 

P/1 - É uma enfermeira? Sim. O senhor se lembra quando foi a criação da Divisão Farma?

 

R - Divisão?

 

P/1 - É, a Farma. Quer dizer, antes era o Depesp e depois...

 

R - Não, antes era a Seção de Propaganda.

 

P/1 - Começou a Seção de Propaganda?

 

R - É, que depois gerou o Departamento de Especialidades. Depois, como Divisão Farmacêutica, foi, acho que... precisaria recorrer aos meus dados...

 

P/1 - Mais ou menos. Não precisa do ano.

 

R - Porque foi uma, se não me engano, foi uma reestruturação até a nível mundial. A Rhône Poulenc contratou uma empresa de consultoria internacional que acabou criando as Divisões, não só a Farma como outras Divisões, né? Mas foi ali por volta de... acho que final da década de 1960, começo da década de 1970, né? Porque até então essa atividade farmacêutica era constituída do Departamento de Especialidades, que era toda a parte comercial, de propaganda e comercial, e do Departamento de Fabricação, que produzia os medicamentos. Mas não havia um gerente específico comum aos dois. Ambos se reportavam, um ao diretor técnico da Rhodia, e outro ao diretor comercial da Rhodia, que era diretor comercial para todas as áreas e o diretor técnico também era diretor técnico para várias áreas. Como um diretor geral foi já no final da década de 1960, acho que 1967, por aí.

 

P/1 - O senhor falou que foi uma reestruturação da Rhône Poulenc, geral. Como era essa relação da Rhodia daqui ,com a empresa francesa?

 

R - Olha, que eu me lembre bem, no começo, quando eu entrei, a Rhône Poulenc criava os produtos, mandava os trabalhos clínicos, toda a documentação relativa ao produto, e a gente tinha uma certa liberdade de promover, não havia muita dependência. Eventualmente alguém... eu lembro que o Dr. Simões, década de 1950, foi, parece que uma vez, à França, década de 1960... Posteriormente é que se começou a ter uma política orçamentária, depois um planejamento de médio-longo prazo; mas no início havia uma liberdade absoluta em promover o produto, quer dizer, dentro de um padrão de material recebido da França onde  fazíamos o lançamento aqui, mas sem supervisão de lá e sem muito acompanhamento.

 

P/1 - Não era um cotidiano, por exemplo, mandar informações para lá?

 

R - Não, não se dava muita informação, não.

 

P/3 - Isso na parte promocional, que havia essa autonomia. E na parte de pesquisa médica, havia essa autonomia também, não? Retrabalhar o produto, adaptá-lo e tal?

 

R - Pesquisa médica às vezes tínhamos que realizar aqui no Brasil alguns trabalhos clínicos para reforçar esse material promocional. Havia um serviço de pesquisas terapêuticas, que era composto de uma ou duas pessoas da Rhodia e alguns assessores que eram contratados, né? Eram pessoas de reconhecida capacidade, se reuniam uma vez por semana, para resolverem certos problemas técnicos, né? Tínhamos o Coronel Benedito Bruno da Silva, que era o responsável, por exemplo, pela elaboração das bulas dos produtos. Era chamado um "rato de biblioteca", ele pesquisava tudo, ele geralmente fazia as bulas. Havia o senhor Greco, não lembro o nome dele, que também era um químico bastante conceituado, que dava assessoria. Havia o Dr. Penildo Silva, que à essa altura já tinha se formado em medicina na Bahia, estudando dentro daquele esquema Rhodia de facilitação de estudo, depois ele veio para São Paulo e trabalhava fixo aqui como assessor médico. Posteriormente vieram Dr. Jorge ________ ___________ que estudou em Pernambuco, veio para cá também, trabalhando fixamente. Depois entraram outros, tinha o Dr. José Aranha Campos, um médico, também dava assessoria... E esse núcleo é que realizava alguns trabalhos, talvez em função de necessidade para que detectássemos ,ou talvez até de solicitação da Rhône Poulenc, para realizar algum trabalho que fosse endossar a promoção do nosso produto, e talvez trabalhos que até interessassem para própria Rhône Poulenc, né? Porque não só os trabalhos feitos aqui pela equipe da Rhodia, acompanhados pela equipe da Rhodia, mas também trabalhos publicados no Brasil que se julgasse interessantes, eles eram todos copiados e mandados mensalmente para Rhône Poulenc para uma biblioteca central, né, que acompanhava toda a evolução médica aqui do Brasil. Na ocasião, como não se dispunha de muitos métodos de multiplicação de cópias, eu lembro que esses trabalhos às vezes eram até datilografados, né? Copiava-se, datilograficamente, aqueles maços de materiais e iam todos para França, todos traduzidos e mandados para lá, né?

 

P/1 - E havia uma administração francesa?

 

R - Aqui?

 

P/1 - É.

 

R - Haviam muitas, né?

 

P/1 - E eles vinham da Rhodia de lá? Da Rhône Poulenc, de lá para ocuparem esses cargos aqui?

 

R – É, mas, na área Farmacêutica... na área Farmacêutica o o chefe da parte de produção era francês e tinha outro francês que trabalhava como adjunto dele. Era o André Ramounoulou, o chefe da fabricação e Michel Duchamp, que era o adjunto dele. Duchamp depois voltou pra França, ficou só o Ramou durante algum tempo, que depois saiu da área de produção farmacêutica, foi até ser diretor administrativo da Rhodia em 1965, quando da fusão Rhodia-Rhodiaceta, da criação da Rhodia S.A., e não teve mais ninguém de fora. Ultimamente, na década de 1980 é que voltamos a ter franceses na direção, né?

 

P/1 - Na área de estatística no departamento onde o senhor estava, o senhor se lembra de quando chegaram os computadores?

 

R - Lembro. Eu estava na área de vendas, já.

 

P/1 - Como foi a sua passagem dessa área para área de vendas?

 

R - O chefe de vendas da ocasião foi transferido para filial do Rio de Janeiro, como gerente regional, então eu assumi chefia de vendas.

 

P/3 - E aí o senhor passou a controlar exatamente o quê? Qual que era a função dessa área de vendas?

 

R - A parte comercial, que era basicamente o faturamento, toda a preparação do faturamento, e continuava com a parte da memória estatística da divisão. Já com pesquisa de mercado, que posteriormente acabou passando para uma área de planejamento, né?

 

P/3 - Era responsável pelos propagandistas também, não?

 

R - Em parte. Aí é um pouco complicado porque a Rhodia sempre teve um... Numa certa ocasião, 1961 mais especificamente, foram criadas chefias que na ocasião se chamavam até assessorias, assessoria de vendas, assessoria de propaganda, assessoria contábil, que seriam as chefias, hoje gerências, né? E, a assessoria de propaganda, cuidava hierarquicamente dos propagandistas, porque os propagandistas realizavam propagandas e vendas. Houve uma ocasião que a Rhodia entregou todas as vendas praticamente para distribuidores, então a atividade do propagandista, como propagandista era 90% da atividade dele, então ele ficou subordinado a esse chefe de propaganda. Posteriormente, foi se abandonando a venda por distribuidores por razões econômicas, então ele era praticamente meio a meio propagandista e vendedor, mas a subordinação hierárquica estava com esse homem da propaganda. Na aposentadoria, do Sr. Valente essa área de propaganda foi bifurcada numa seção de propaganda propriamente dita e, uma seção de controle dos propagandistas, mas era um controle puramente funcional como: questão de roteiro, notas de despesa, envio de materiais... Mas a seção de propaganda é que dava todo o suporte técnico para promoção, e a ligação deles com a parte comercial era depois do trabalho de coletas de pedidos feitos, né? Mas nós não tínhamos... a área comercial não tinha uma ligação hierárquica, era uma ligação funcional somente, né?

 

P/1 - E quem orientava os vendedores? Como é que eles eram orientados?

 

R - Basicamente do ponto de vista...

 

P/1 - O que fazer, como fazer...

 

R - Essa seção de propagandistas estabelecia, junto com as chefias regionais, os roteiros e os controles e os relatórios de controle desses roteiros: quantidade de médicos a visitar, quantidade de clientes a visitar, zona por zona, quem visitar... e a seção de propaganda era quem dava toda a orientação técnica para a propaganda propriamente dita. E, a essa altura já estava nascendo um núcleo de treinamento propriamente dito, né? E foi evoluindo com materiais específicos para treinamento, com produção de materiais que eram entregues aos médicos e produção de materiais que ficavam com o propagandista para auxiliá-lo na promoção.

 

P/1 - Quem fazia esses materiais?

 

R - O Enock Sacramento.

 

P/1 - Sim.

 

R - O Sr. Valente. Inicialmente, o Sr. Valente e depois o Enock Sacramento.

 

P/1 - Eles que desenhavam, resolviam os textos? Como é era isso?

 

R - Não, não. É uma equipe que se reunia, criava, posteriormente até com o Gerente de Produtos que desenvolviam as ideias e tinham agências de propaganda que desenvolviam a parte gráfica, né, a parte de desenho e gráfica.

 

P/3 - E a qualidade desse material, na época?

 

R - Ah, sim.

 

P/1 - Como é que ele era?

 

R - Com relação à qualidade, uma qualidade muito boa, né?

 

P/1 - E o que vinha nele? O que tinha?

 

R - As informações básicas do produto...

 

P/1 - Sim.

 

R - Em alguns casos até transcrição de tópicos especiais dos próprios trabalhos clínicos, né, dos depoimentos médicos, aqueles tradicionais apelos visuais, de acordo com o tipo de produto e às vezes material de interesse do médico para consulta ou material de interesse para atividades particulares do médico, por exemplo. Se editava no caso, as lendas brasileiras, coleções de mestres da pintura, materiais de interesse, inclusive editados às vezes periodicamente para que o médico fosse aguardando, aguardando a visita do propagandista para ir completando a coleção. Eu lembro, na década de 1950, a Rhodia editou uma “folhinha”. Naquele tempo era muito comum as empresas editarem folhinhas artísticas. E a Rhodia editou uma que ela teve até, se não me engano, que fazer reedição, porque foi uma procura muito grande. Era uma figura grande da Nossa Senhora da Farmácia.

 

P/1 - Olha só!

 

R - Então, todos os farmacêuticos queriam ter a folhinha da Rhodia para guardar a figura da Nossa Senhora da Farmácia.

 

P/1 - E as lendas brasileiras, quem inventou isso?

 

R - Quem produziu foi o Sr. Valente.

 

P/1 - E ele gostava... era um assunto que ele gostava?

 

R - Não sei se ele gostava particularmente desse assunto. O Sr. Valente... o Sr.Valente sempre redigiu muito bem, então... era um homem muito culto, gostava de pesquisar bastante. Aliás, em termos de redação, nesta ocasião nós tínhamos um time no Departamento que dificilmente qualquer empresa vá ter um outro time igual a esse. Era uma meia dúzia de pessoas que sabiam redigir bem, e quando se reuniam às vezes para alguma coisa especial saía material muito bom. Então o Sr. Valente é quem fez a pesquisa e a redação. Foi feita uma primeira edição ilustrada por um artista que se chamava Rosasco, dentro de um certo estilo. Depois, muitos anos depois, a Rhodia resolveu reeditar essa lista, essas lendas, e surgiu a idéia de colocar dois artistas em confronto, então foram feitas... um mais clássico e um mais modernista, então saíram as lendas com duas versões de desenho, né?

 

P/1 - O senhor se lembra o nome desse artista?

 

R - Não. Precisaria recorrer às lendas... [risos]

 

P/1 - Depois a gente vai olhar as lendas que a gente trouxe. Depois teve também um material com mestres da pintura, é isso?

 

R - Mestres da pintura, também.

 

P/1 - E os médicos gostavam?

 

R - Ah, sem dúvida! Aí já foi o dedo particular do Enock.

 

P/1 - Certo.

 

R - Em termos de material a Rhodia... esse material é um material inovador, não? Ou era um...

 

R - Não sei se era... não me arrisco a dizer que a Rhodia tenha sido pioneira e nem que fosse somente ela, né? Quer dizer, que várias empresas publicavam coisas, assim, de interesse, né?

 

P/3 - Brindes...

 

R - Tenho impressão que no início talvez tenha sido. Para as publicações médicas e publicações farmacêuticas, talvez tenha sido um material pioneiro.

 

P/1 - E a gente está falando das publicações para médicos. Haviam também publicações internas da Rhodia para os seus funcionários?

 

R – Sim, além de circulares...

 

P/1 - Sim.

 

R - Havia o Rhodia Jornal, era um jornal mimeografado, com informações básicas sobre os produtos, com artigos voltados para formação do propagandista e notícias em geral. Rhodia Jornal que depois evoluiu para uma revistinha, que depois deixou de ser uma revista da Farmacêutica para ser uma revista Rhodia, né?

 

P/1 - Ah, ela nasceu dentro da Farmacêutica?

 

R - Foi, foi.

 

P/1 - E aí passou a ser geral?

 

R - Tanto é que essa “Rhodia Atualidades”, uma revista que a Rhodia edita hoje, completou o número 400 há dois ou três...

 

(Fim da fita 01)

 

R - Meses atrás e o Sr.Valente foi entrevistado...

 

P/1 - Mas o número um era o...

 

R - É, porque o embrião disso tudo foi na área Farmacêutica.

 

P/1 - Dentro da Farma. Quem fazia essas publicações?

 

R - O Rhodia Jornal era basicamente feito pela área de publicidade, mas havia colaboração de muita gente.

 

P/1 - E aí, além dessas informações havia informação sobre o cotidiano das pessoas, sobre os funcionários? Como era?

 

R - Informações em geral, até uma seção humorística, curiosidades, alguma coisa que atraísse a leitura, né?

 

P/1 - E quando começaram os assuntos, eram só relacionados com a Farma?

 

R - Ah, sim. E assuntos bem voltados para o propagandista, né, assuntos técnicos mesmo.

 

P/1 - Sei. Aí depois passou a ser geral. Nesse período os funcionários da Farma se relacionavam com os outros, tinham contato? Como era?

 

R - Ah, sim. A Rhodia era uma grande família, né?

 

P/1 - Sei.

 

R - A Rhodia era uma grande família e, como eu disse, minha mãe, minha tia, dois tios, dois primos, depois o outro casado com a prima... Era comum na Rhodia você encontrar quatro ou cinco pessoas da mesma família, né? E trabalhando nas mais variadas áreas, né? E Santo André era pequeno...

 

P/1 - Sei.

 

R - Todo mundo se encontrava no clube ou se encontrava nos cinemas, nos salões de baile, quer dizer, então... Dizem até que rapaz trabalhando na Rhodia era considerado “um grande partido na cidade”, né, então... [risos]

 

P/1 - Tinha um bom emprego?

 

P/2 - O quê que a mãe do senhor fazia na Rhodia e o quê que ficava de imagem para o senhor, assim, o senhor queria entrar, trabalhar?

 

R - A Rhodia tinha essa imagem, de boa empresa... tanto é que na década de 1940, o pessoal dizia que se uma moça estivesse namorando com alguém da Rhodia, a família ficava satisfeita porque era uma boa empresa, era um bom emprego... e eu também tinha essa imagem. E, eu me lembro de quando eu fui trabalhar com esse primo na Divisão Farmacêutica, o meu tio ficou sabendo, quer dizer, ele achava que eu estava na melhor área da Rhodia. O meu tio trabalhava numa outra área da Rhodia, achou que eu estava na melhor área da Rhodia, justamente talvez por esse espírito que tinha da Rhodia em facilitar os estudos, né?

 

P/4 - E só pegando um gancho, quer dizer, teve alguma mudança em relação a isso, à Rhodia ser a facilitadora de estudos, quando entrou a direção brasileira?

 

R - Em direção?

 

P/1 - Quando entrou a direção brasileira, houve mudança nessa política?

 

P/4 - É, nessa transição ________________.

 

R - Olha, a Rhodia a gente pode considerar pelo menos três ou quatro fases da Rhodia. No início era a Rhodia, depois veio Rhodiaceta, que para nós da Rhodia, parecia uma fábrica um pouco mais elitizada, mas havia um bom relacionamento. Era uma família só. Na ocasião não havia fundo de garantia, então havia a lei da estabilidade, o pessoal que passasse de 9 ou 10 anos ganhava estabilidade. Firma americana nenhuma permitia que funcionário ganhasse estabilidade, começava mandando embora o fulano com 9 anos, depois perceberam que isso podia dar problema, eles começaram a partir de 8 anos e meio já a despedir funcionários... A Rhodia nunca fez isso. Ela deixava a pessoa ganhar estabilidade e graças a esse ambiente, até paternalista, a Rhodia sempre cresceu baseada no fato de que todo mundo vestia a camisa da Rhodia.

 

P/1 - Sim.

 

R - Só que o mercado foi evoluindo, e o pessoal Rhodia era um pessoal que defendia com unhas e dentes, mas um pessoal que tecnicamente estava um pouco defasado do mercado. Em 1965, houve a fusão Rhodia-Rhodiaceta. Por razões de política interna, o pessoal da Rhodia tomou conta da... assumiu a direção geral dessa nova empresa, mas começou aí um processo de renovação de pessoal. Começaram a oferecer vantagens para o pessoal mais antigo sair para começar a pôr gente tecnicamente mais bem preparada. Essa foi uma segunda fase da Rhodia. A área da Rhodia que mais sofreu com assédio de concorrência foi justamente a área têxtil. Então a área têxtil se reestruturou mais rapidamente do que a Rhodia como um todo. E essa área têxtil acabou assumindo até, anos depois, assumindo a direção geral, e todos os diretores de área acabaram vindo da área têxtil. Aí houve outra mudança, a gente sentia uma outra mudança na Rhodia. Isso aconteceu... mais ou menos nessa época também a mudança de todas as áreas administrativas e vendas que estavam espalhadas entre  dez ou doze locais entre Santo André e São Paulo, para um único local que era o Centro Empresarial. Houve também aí, mais ou menos concomitantemente, à essa mudança de direção com a mudança física, houve... a gente sentiu uma outra mudança no comportamento geral da Rhodia. E a quarta seria agora com essa... de anos para cá, com essa redução violenta de número de empregos que as empresas fizeram, a Rhodia também parece que reduziu em 50% o número de funcionários. O pessoal que ficou lá conta que mudou muito o ambiente, então... A Rhodia do período da década de 1960, era uma Rhodia, de um ambiente com bastante camaradagem.

 

P/1 - Foi nesse período que foi implantada uma Rhodia no Nordeste.

 

R – Foi, na década de 1960.

 

P/1 - Por que se foi implantar uma empresa lá no Nordeste?

 

R - Porque os incentivos fiscais que eram oferecidos eram atrativos.

 

P/1 - Aí houve a implantação lá?

 

R - É. E, como eu disse, nós vendíamos... de alguns produtos nós vendíamos produtos mais antigos, mais tradicionais, mais popularizados, naturalmente popularizados, se vendia muito no Nordeste. O Vitaminer, por exemplo, era um produto barato e muito pesado. O frete dele era caro. E a gente vendia 60% no Nordeste. Então...

 

P/1 - Não tinha sentido.

 

R - Tenho impressão que uma das razões de se abrir uma fábrica farmacêutica no Nordeste, além do incentivo fiscal, era também uma maneira de você criar um ambiente simpático da Rhodia com o governo da ocasião. Então se abriu a fábrica Farmacêutica no Nordeste. Mas logo de iníci,o tivemos um problema: "Vamos montar uma fábrica de Vitaminer, entre outras cosias no Nordeste." Vitaminer, Fenergan, outros... os xaropes, né, os mais pesados. [risos].

 

P/1 - É vidro e água.

 

R - Vidro, a indústria de vidro lá em cima não era boa, então vidro era daqui. O açúcar, apesar do Nordeste ser um grande produtor de açúcar, o açúcar de boa qualidade era também daqui [risos]. Mas se manteve essa fábrica muitos anos, né? Agora parece que encerraram completamente a atividade dela, né?

 

P/2 - E treinamento de funcionários dessa unidade?

 

R - Tratamento?

 

P/1 - Treinamento.

 

P/2 - Treinamento dos funcionários.

 

R - Lá para cima?

 

P/2 - É.

 

R - O chefe de produção saiu daqui, né? Ele era funcionário daqui, foi treinado e foi, assumiu lá em cima. E havia contatos constantes para orientação. Se bem que  em toda fábrica... isso era comum, foi comum com o processo SUDENE, né, as fábricas de lá eram às vezes mais bem equipadas do que as daqui, sistemas mais modernos, então não havia problema, não. Depois os produtos que se produziam lá, não eram produtos, do ponto de vista de fabricação, sofisticados, né? Aqui embaixo ficaram os (leufilizadores ?), a parte de hipodermia, que requeria mais cuidado, né? Os xaropes eram mais simples, xaropes e comprimidos eram mais simples, né?

 

P/3 - Como é que era, tirando o clima de camaradagem, a relação do Depesp, e depois da Farma, com a Rhodia, em termos administrativos, quer dizer, em termos de produção e...

 

R - A camaradagem era muito grande como todos os setores da Rhodia, né? Não havia problema nenhum. Por incrível que possa parecer, nós estávamos na fábrica, sem problema nenhum, depois a Rhodia foi crescendo e foi criando... ocupava dois ou três locais no centro da cidade, na Av. Brigadeiro Luís Antonio...

 

P/1 - Líbero Badaró...

 

R - Na Líbero Badaró, na Rua Augusta, criou lá o setor de cosméticos... A gente sabia mais coisas, as fofocas a gente sabia todas [risos]. Quando passamos todos para um único prédio, a gente não conhecia o pessoal do andar de cima e nem do andar de baixo, às vezes.

 

P/1 - Então o senhor também foi para o Centro Empresarial?

 

R - Fui.

 

P/1 - E por que foi escolhido o Centro Empresarial? O senhor sabe?

 

R - A Rhodia procurava há muito tempo centralizar...

 

P/1 - A administração.

 

R - As atividades. Porque você precisava discutir algum assunto tinha que sair do seu escritório e ir até são Paulo ou vice-versa, você tinha... como eu disse, parece que eram 11 locais entre Santo André e São Paulo para você... algumas áreas, por exemplo, umas áreas de apoio, o Serviço Jurídico, era todo mundo indo para um setor ou eles indo para outros. Então ela vinha procurando há muito tempo e  se cogitou construir um prédio na fábrica, ou no clube, mas aí você tinha gente radicada em São Paulo que punha resistência a vir para cá, havia resistência para gente daqui, ir para lá. Então se procurou... nós quase fomos para o edifício Joelma, pouco antes de pegar fogo. [risos] Era do Dr. Pedro Cassab, presidente da Associação Médica Brasileira, era o dono, ele ofereceu para Rhodia, a Rhodia quase, quase fechou negócio. Depois a Rhodia comprou um terreno na Avenida Santo Amaro para ser construído do prédio ali. Depois, que comprou mudou a Administração Municipal e eles proibiram que se desmatasse o terreno, que é um terreno todo plantado de eucaliptos, proibiram que se desmatasse... Então, com esses problemas todos, surgiu o Centro Empresarial, a Rhodia viu como oportunidade de centralizar tudo ali, né? E hoje já descentralizou muita coisa, né? [risos]

 

P/1 - E aí o senhor foi trabalhar lá?

 

R - Vamos lá em começo... foi em começo de 1977.

 

P/1 - O quê que o senhor fazia na Rhodia nesse período?

 

R - Nessa altura eu já estava na área de Planejamento e Gestão da Divisão Farmacêutica.

 

P/1 - O que o senhor fazia nessa área?

 

R - Eu tinha a pesquisa de mercado comigo e tinha todo o orçamento, todos os planos a médio e longo prazo do departamento.

 

P/1 - Como é que eram definidos esses planos?

 

R - Definidos em função de interesse também da França, né? A França tinha uma programação de lançamentos de produto, umas carteiras de produtos, e a gente estabelecia os produtos que seria lançado, estabelecia as previsões e constituía aí os planos, pelo menos para  cinco anos , mais o orçamento do ano seguinte. E acompanhava, fazia todo o controle de acompanhamento do orçamento.

 

P/1 - Certo. E o preço dos remédios era controlado?

 

R - Controlado.

 

P/1 - Como era a relação da Rhodia com a estrutura do governo, que controlava isso?

 

R - A relação era difícil porque durante cerca de 10 anos, eu me lembro que a concessão dos aumentos que o Conselho Interministerial de Preços dava para indústria farmacêutica, era sempre inferior à inflação.

 

P/1 - Sim.

 

R - Isso ao longo de um certo tempo fazia com que a tua margem fosse cada vez menor, então a necessidade grande de se lançar novos produtos para tentar melhorar esse preço médio. Aí, no lançamento de produtos é que você procurava obter o preço máximo através de um demonstrativo, dentro de um roteiro que o CIP determinava, e as pessoas encarregadas disso é que, feito o processo, iam discutir com os técnicos do governo, que sempre cortavam alguma coisa, né?

 

P/1 – Certo, para estabelecer o primeiro preço?

 

R - O primeiro preço.

 

P/1 - Sim.

 

R - A partir daí vinham aqueles aumentos gerais, né?

 

P/1 - Certo. E houve desenvolvimento de produtos aqui ou...

 

R - Houve, houve.

 

P/1 - Que produtos foram desenvolvidos aqui?

 

R - Por exemplo, dentro da linha Fenergan, se criaram aqui os Fenergan's expectorante adulto, pediátrico... O Vitaminer foi produto desenvolvido aqui... Não lembro bem, mas se desenvolvia, às vezes, novas formas de produto que não tínhamos na França. Lá, nesse particular, a Rhodia sempre, eu acho que, ao meu ver, sempre pecou.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque uma ocasião eu fiz um estudo sobre a indústria farmacêutica e cheguei à conclusão de que todos os grandes laboratórios que existiam... dados da ocasião, todos os grandes laboratórios possuíam produtos de pesquisa própria baseado, às vezes, numa ou duas substâncias. Com essas, uma ou duas, substâncias eles associavam isso com "n" produtos, com "n" substâncias pra produzir "n" produtos. E às vezes... eu fiz o cálculo que de 60 a 70% das vendas desses grandes laboratórios, estavam calcadas em uma ou duas substâncias. A Rhodia, ao contrário, tinha dezenas de substâncias próprias de primeira linha e não exploravam tudo.

 

P/1 - Todas as possibilidades.

 

R - Todas as possibilidades. É verdade que, para explorar tantos produtos com tantas possibilidades talvez uma equipe só não...

 

P/1 - Não seria suficiente.

 

R - Não conseguisse. Talvez até dividir em outras equipes, ou até em outras empresas, né?

 

P/1 - A Rhodia vendia produtos para outras empresas que colocavam outro nome? Vendia substâncias para outras empresas?

 

R - Chegamos... na época da Penicilina nós produzíamos Penicilina para outros laboratórios.

 

P/1 - Certo.

 

P/2 - Vamos dar uma paradinha para tomarmos uma água?

 

P/1 - É, e deve estar dando a primeira fita, certamente.

 

(PAUSA)

 

P/1 - Bom, é a segunda fita da entrevista com o senhor Rizzo, Santo André, 02 de outubro. Eu queria retomar essa relação, a nossa conversa a respeito do controle de preços. Como era a relação da Rhodia Farma com a Abifarma e com o sindicato? Havia uma relação, elas se reuniam, enfim, como é que era isso?

 

R – Havia, do ponto de vista específico de produtos, a ligação era direta de elementos da empresa com o CIP.

 

P/1 - Certo.

 

R - Mas havia, às vezes, normas gerais, ou mudanças de critérios que eram transmitidas à indústria via sindicato ou via Abifarma. Então a gente participava de reuniões do sindicato para estar inteirado dessas novas normas, dessas modificações... em épocas de aumentos de preços, os aumentos gerais... geralmente sindicatos e Abifarma que... até mais sindicatos que Abifarma, na ocasião, né?

 

P/1 - O senhor participava nessas reuniões?

 

R - Nessas reuniões eu participei muito. Participei até de campanha do Fausto Spina, que foi o presidente que mais tempo esteve na testa do sindicato, quando ele foi candidato ele procurou o senhor Carvalho, que era o gerente comercial da Rhodia, para que ele fosse introduzido perante algumas pessoas que interessavam. Havia um laboratório aqui na Via Anchieta, que ele não conhecia ninguém, queria que nós o apresentássemos lá, e havia um pequeno laboratório em Santo André, era um proprietário de uma farmácia que começou a produzir alguma coisa, então o Spina queria que a gente o apresentasse também. Entã, eu fui procurar essa pessoa para me apresentar [risos], para depois levar o Sr. Spina nesses laboratórios para fazer a campanha política dele.

 

P/1 - Ele era candidato a quê?

 

R - Presidente do Sindicato de Produtos Farmacêuticos.

 

P/1 - Do Sindicato?

 

R - E ficou... sei lá. Acho que o Spina deve ter ficado 15 a 20 anos na presidência do Sindicato, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - O Spina é ex-funcionário da Rhodia e tem uma história interessante também.

 

P/1 - Qual é a história do Spina?

 

R - O Spina era farmacêutico, foi contratado para ser propagandista-vendedor da Rhodia no Rio de Janeiro, mas ele, na ocasião, diz que era um jogador de futebol conceituado em São Paulo. [risos]. E ele foi ao Rio de Janeiro, e não conhecia ninguém, parece que ficaram sabendo que ele jogava futebol, ou ele se acercou do Fluminense, eu sei que houve uma... quase que ele foi jogar futebol no Fluminense ou foi treinar... Isso fez com que ele se introduzisse a muitos médicos de renome no Rio de Janeiro, diz que isso facilitou bastante a atividade dele no Rio de Janeiro.

 

P/1 - À respeito do sindicato e da Abifarma, como foi a liberação dos preços dos medicamentos e o que isso mudou para Farma?

 

R - A Rhodia sempre teve uma participação relativamente grande no mercado farmacêutico, sempre esteve entre os dez primeiros laboratórios. Ela tinha uma linha de produtos boa, tinha um trabalho de marketing relativamente bom, mas tinha preços muito baixos. A liberação significou para Rhodia a elevação quase que imediata da rentabilidade, né?

 

P/1 - Sei

 

R - Tanto é que a Rhodia chegou em final dos anos 1970, a atividades estava até “perigando”, porque a previsão de rentabilidade ia caindo em função desses preços bloqueados e se chegou a pensar até em suspensão das atividades da área farmacêutica. A liberação foi vital para Rhodia. Para Rhodia Farmacêutica e, até pra Rhodia geral, porque Rhodia Farmacêutica, numa certa época, ela não representava mais do que 5% do faturamento de toda a Rhodia. E representava muito menos, muito menos de 5% do resultado geral da Rhodia. Hoje parece que a representatividade da Farma no grupo Rhodia aumentou bastante, e em função dessa liberação de preços.

 

P/1 - Certo. O senhor se aposentou quando?

 

R - 1985.

 

P/1 - Durante essa sua trajetória da Rhodia o senhor continuou estudando ou o senhor veio a se formar...

 

R - Eu fiz o meu curso de Administração já depois de casado, terminei em 1970. Depois fiz cursos... cursos avulsos, seminários, mas cursos não acadêmicos, né?

 

P/1 - Quando o senhor entrou, o senhor achou que o senhor ia ficar tantos anos na Rhodia?

 

R - Acho que sim, porque era comum na Rhodia, né?

 

P/1 - Certo. As pessoas entravam para ficar muitos anos? E o senhor ficou na Farma até quando?

 

R - Até 1980.

 

P/1 - Certo. Aí nesse mesmo departamento que o senhor estava aqui no Centro Empresarial?

 

R - É, né? Planejamento e Gestão.

 

P/1 - E aí depois o senhor foi para qual área?

 

R - Fui para área financeira.

 

P/1 - Da Farma ou geral?

 

R - Não, da Rhodia geral.

 

P/1 - E o que mudou no seu trabalho, à partir daí?

 

R - Bom, a própria natureza do trabalho mudou completamente. Na Farma, além da área específica, era tudo voltado para uma Divisão. Na área financeira tínhamos um trabalho voltado para Rhodia, como um todo, né? Eu trabalhava numa área da financeira que funcionava como se fosse a holding do grupo. Na ocasião a Rhodia possuía 13 ou 14 empresas e nós fazíamos estudos fiscais e societários envolvendo o relacionamento dessas 14 empresas. A gente cuidava também de questões de registro de capital, de remessa de dividendos e tudo que pudesse implicar nesse relacionamento das 14 empresas.

 

P/1 - E aí nessa área que é da holding o senhor ficou até o senhor se aposentar?

 

R - Até me aposentar.

 

P/1 - Por quê que o senhor se aposentou?

 

R - Eu me aposentei porque havia perspectiva de montar um negócio próprio.

 

P/1 - Nessa área?

 

R - Não, na área de cosméticos. Eu fui convidado por um conhecido, cuja família operava com cosméticos, mais especificamente com esmaltes de unha, há muito tempo, e ele queria... mas operava trabalhando em casa. E ele queria montar uma empresa e queria que eu fosse trabalhar com um irmão dele para o desenvolvimento dessa empresa. Então eu abreviei minha saída justamente por isso.

 

P/1 - Certo.

 

R - Infelizmente, porque foi justamente na época do Plano Cruzado e que as coisas mudaram completamente e acabou atrasando por muitos anos a entrada desse projeto em execução.

 

P/1 - Sei.

 

R - Eu podia ter ficado na Rhodia, ter aproveitado as vantagens do Instituto, que eu perdi todas, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - E comecei essa atividade bem mais tarde, e infelizmente, por razões de relacionamento com o sócio acabei tendo que abandonar.

 

P/1 - A Rhodia chegou a produzir cosméticos.

 

R - Chegou.

 

P/1 - O senhor teve relação com isso? Como é que foi?

 

R - Não, não. Era outra divisão, né?

 

P/1 - Não se relacionava com a Farma?

 

R - Não, não tinha.

 

P/1 - O que é o Instituto Rhodia?

 

R - É um Instituto para complementação de aposentadoria, né?

 

P/1 - Certo. É um desconto dos funcionários, como isso funciona?

 

R - Não, não há. Inicialmente está prevista até uma contribuição do funcionário para melhorar sua aposentadoria, mas a Rhodia não chegou a tanto. A Rhodia quem faz as dotações para amparar, para complementar a aposentadoria de, como hoje, todas as grandes empresas têm, né? Isso foi uma criação do Ministério da Previdência há muitos anos atrás, que até então a Rhodia tinha um plano próprio de aposentadoria.

 

P/1 - E como ele funcionava?

 

R - Ele funcionava atribuindo-se para cada ano de trabalho e para cada ano de idade um ponto. Inicialmente quem completasse 100 pontos, trabalhou 40 anos e está com 60 anos de idade, ele saía pra receber 100% e em casa. Posteriormente esse plano passou de 100 para 95, 90... teve gente que se aposentou com bem menos tempo de serviço e bem menos idade recebendo 60, 70, 80%. Quando começou e quando a lei obrigou os institutos a... esses sistemas, a se enquadrarem numa legislação, a Rhodia acabou com esses sistema, foi em 1980, e criou o Instituto Rhodia. O Instituto Rhodia na ocasião oferecia uma complementação de aposentadoria para quem se aposentaraposentasse com "x" anos de serviço, né, e 58 anos de idade. Eu estava para completar 50 anos quando saí, já tinha os 35 anos de serviço praticamente, mas não tinha os 58 anos. Então não... E achei que não era conveniente esperar mais 8 anos, ia retardar meu projeto particular.

 

P/1 - Projeto próprio, certo.

 

R - Posteriormente a Rhodia mudou essa data, reduziu para 53 anos e até quem saísse da Rhodia.Quem sai da Rhodia com menos de 53 anos, ao completar 53 anos, pode recorrer ao Instituto. Mas tudo isso...

 

P/1 - O senhor não tinha como prever.

 

R - Eu fique no buraco negro.

 

P/1 -Está certo.

 

R - Nem a anterior e nem a atual.

 

P/1 - Eu ia perguntar do Lança Perfume.

 

P/3 -  Eu queria perguntar só antes mais uma... em relação ao Instituto de Previdência e tal, mas tinham outras cooperativas, CrediRhodia, como eram?

 

R - Cooperativa de Consumo, Cooperativa de Crédito...

 

P/3 - Tudo para incentivar o funcionário?

 

R - Dizem que a Rhodia chegou a ter até uma espécie de uma cooperativa interna ou uma mercearia interna que fornecia para os funcionários, depois isso acabou. Depois em 1954, se não me engano, é que foi constituída a atual Cooperativa de Consumo, né?

 

P/3 - De Consumo?

 

R - Que hoje é essa potência. E alguns anos mais tarde, também, incentivado por um organismo governamental que incentiva cooperativas e etc., baseada nessa criação, eles criaram uma Cooperativa de Crédito. Fornecia empréstimos com juros bem baixos, né?

 

P/1 - A questão do Lança [risos]. Bom, então a gente já está terminando e tem algumas coisas que a gente, por um ou outro motivo pulou... então eu queria voltar um pouquinho lá atrás na produção de Lança-perfume que foi o que trouxe a Rhodia ao Brasil. O senhor se lembra de... antes de entrar na Rhodia o senhor já sabia que ela produzia  Lança, como era?

 

R - Ah, sim. Sim, porque era a coqueluche da época. Na época de carnaval todo mundo queria Lança-perfume, né?

 

P/1 - E as pessoas iam comprar na Rhodia, compravam em loja, como era?

 

R - Não, a Rhodia tinha uma pessoa específica que cuidava dessa venda junto a grandes distribuidores, grandes atacadistas, mas haviam duas pessoas na Rhodia que tinham uma concessão da diretoria para negociar isso, então eles tinham uma cota, e eles vendiam isso picado. Quer dizer, vendiam para esse pessoal que montava as barraquinhas, nos clubes, né?

 

P/1 - Então ela produzia só uma época do ano, é isso?

 

R - Produzia o ano inteiro.

 

P/1 - Produzia o ano inteiro?

 

R - Vendia numa época.

 

P/1 - Certo. Isso então era armazenado?

 

R - Armazenado.

 

P/1 - Certo.

 

P/2 - E o senhor se lembra dos carnavais, como eram? Como que eles usavam o Lança? Descreva para nós.

 

R - Bom, era... na ocasião eu sei que... eu nunca fui muito...

 

P/1 - Carnavalesco.

 

R - Carnavalesco, e na ocasião também não lembro bastante, mas sei inclusive que a Rhodia... a Rhodia patrocinava muitas festas, concursos... eu cheguei a ver fotografias de elementos da Rhodia em eventos na capital... estava lembrando há pouco, inclusive, que li uma vez um trecho de uma entrevista do Oswald de Andrade dizendo que ele foi procurado pelo pessoal da Rhodia para realizar algum trabalho ligado ao carnaval. E ele citava que... ele imaginava que a Rhodia fosse oferecer "x" para ele. Então ele falou: "Eu vou pedir muito mais que é para resolver a minha situação do momento."[risos] E ele quase caiu de costas porque a Rhodia chegou a oferecer dez vezes mais do que ele estava pensando em pedir exageradamente [risos].

 

P/1 - E o senhor se lembra quando foi proibida a venda do Lança-perfume?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Como foi?

 

R - Foi um decreto do Jânio Quadros, né?

 

P/1 - Sei.

 

R - O Jânio Quadros tinha assumido a Presidência e começou com uma série de decretos, de proibir mini-saia, algumas coisas assim e, proibiu o Lança-perfume.

 

P/1 - E como é que foi o impacto disso na Rhodia?

 

R - Ah, eu lembro que o impacto emocional de todos foi grande. O impacto econômico pra Rhodia... eu não sei quanto pesava na ocasião o Lança-perfume, mas foi um impacto grande.

 

P/1 - Mas os funcionários relacionados com isso foram fazer outra coisa?

 

R - Ah, sim.

 

P/1 - Não houve...

 

R - Não houve... não sei se foi imediatamente nessa época que estavam produzindo também os aerossóis.

 

P/1 - Sei.

 

R - Então o equipamento era semelhante, né? Aliás vocês vêem, numa dessas revistas comemorativas, não sei se dos 65 ou 70 anos, vocês vão ver uma entrevista do Dr. Simões, lembrando que na Revolução de 1932 o equipamento da Rhodia foi requisitado para possível produção de obuses, né? Porque a Lança-perfume da _________ era uma bala de canhão, né, praticamente.

 

P/1 - Olha, que interessante!

 

P/2 - O senhor comentou de outros usos que se faziam com o Lança. Os mais caseiros, o que eram? [risos]

 

R - Matar barata. O jato do éter,  matava barata instantaneamente e à distância, né? Até três metros de distância se matava uma barata [risos], atrás de um armário...

 

P/1 - Está certo. Eu queria lhe perguntar como é que é o seu cotidiano hoje. O que o senhor faz?

 

R - Ah, tento trabalhar. Tive um emprego... depois que gorou minha indústria e eu fui trabalhar numa empresa, trabalhei 3 anos. Essa empresa é do ramo de autopeças, também vítima da crise, fechou. Agora estou ligado a uma empresa de construção, mas estamos trabalhando procurando negócio, né?

 

P/1 - O senhor sente falta do tempo da Rhodia?

 

R - Ah, sinto.

 

P/1 - O que o senhor mais sente falta desse período?

 

R - Ah, tudo. O convívio, a camaradagem, as brincadeiras, as gozações, além do aspecto econômico, né? [risos]

 

P/1 - Se o senhor pudesse mudar alguma coisa nessa sua trajetória o que o senhor mudaria?

 

R - Ah, não sei. Eu não sei porque eu precisaria... eu precisaria saber se eu entraria no ritmo da Rhodia antiga ou no ritmo da Rhodia moderna, né?

 

P/1 - Se o senhor pudesse mudar, em qual o senhor entrava?

 

R - Ah, eu preferia ainda o ritmo da Rhodia antiga.

 

P/1 – Certo, por quê?

 

R - Por todo o ambiente de camaradagem que a gente tinha.

 

P/1 - E o que o senhor ainda pretende realizar daqui para o futuro?

 

R - Ah, ter uma velhice mais tranqüila, né?

 

P/1 - O senhor tem netos?

 

R - Tenho, um casal.

 

P/1 - Que idade eles têm?

 

R - 8 e 7.

 

P/1 - 8 e 7, são pequenininhos.

 

P/3 - O senhor disse que sua esposa trabalhou na Rhodia.

 

R - Não, não. A minha mãe.

 

P/1 - A sua mãe?

 

R - A minha mãe, minha tia, meus tios.

 

P/3 - Ah, a mãe. Certo.

 

P/2 - O que a mãe do senhor fazia?

 

R - O quê?

 

P/2 - O que a mãe do senhor fazia na Rhodia, exatamente?

 

R - Me parece que ela trabalhou na linha de produção, mas não sei de que área específica.

 

P/2 - Ela usava roupa específica, alguma coisa assim? Tinha uniforme para linha de produção?

 

R - Eu acho que sim, né?

 

P/2 - O senhor lembra de alguma coisa, de sair de casa, alguma coisa assim?

 

R - Não, não. Não, não, não, porque isso foi em tempo de solteira.

 

P/1 - Foi antes de casar.

 

R - Solteira.

 

P/2 - Ah, sim...é.

 

R - Ela trabalhou na Rhodia, depois, quando casou trabalhava na Pirelli. Aí, depois, um ano depois de casada ela parou de trabalhar.

 

P/1 - Aqui é de Santo André. E hoje, qual o seu maior sonho?

 

R - Continuar tranquilo, ver os filhos encaminhados, casados, se possível todas, né? [risos]

 

P/1 - E o que o senhor achou da experiência de ter contado a sua história para nós?

 

R - Interessante porque eu estou muito ligado à... você vê, todo esse material que eu guardei eu guardei por uma razão, né? Eu não gosto de me desfazer de coisas antigas... A semana que vem, por exemplo, eu estarei envolvido em outro projeto, eu vou com um repórter do Diário do Grande ABC fazer uma entrevista com Mário Granziera da área esportiva, que foi um grande esportista, jogou no Corinthians, foi um homem ligado ao voleibol, ao basquete, ao nascimento do voleibol na região da Grande São Paulo, então nós vamos levantar todas essas idéias... Procuro guardar coisas da família, tenho informações de várias gerações, sempre fui voltado para isso. Tem até uma briga aqui em casa porque dizem que eu guardo muita velharia, mas é uma velharia que, de vez em quando, tem algum valor, né? Material que eu dei para um museu, por exemplo, então tem sido usado muito em exposições. Eu estive  recentemente na Itália, fui visitar a cidade dos meus avós e acabei... e com a morte dos meus avós  e das minhas tias, eu peguei tudo que eu tinha de material. Levei, por exemplo, uma estampa que eu calculo que tenha mais de 100 anos. E levei para essa cidade. E, eu não sabia que a estampa era relativa a uma coisa que eles veneram , desde o século XVI.

 

P/2 - Ah!!!

 

R - E foi uma festa na cidade.

 

P/1 - Como se chama a cidade?

 

R - (Ciculiana ?), perto de Agrigento. Então, deixei lá para cidade, porque a festa envolvendo aquele crucifixo era um mês depois... Eles agora vão me mandar um vídeo da festa... Eu deixei o original, eles vão me mandar uma cópia, porque esse original vai ficar exposto na Igreja... Quer dizer, eu gosto muito disso, né? Trabalho... eu estou procurando resgatar a memória... o trabalho que vocês fazem eu estou procurando fazer com a família, né? [risos]

 

P/1 - Ah, que ótimo.

 

R - Eu fui... quero ver se volto a fazer pesquisa com a Igreja agora da cidade porque eu fui descobrir documentos de 1680, com nome de parentes, de possíveis parentes meus na cidade, então agora eu quero dar uma conferida nisso tudo, né?

 

P/1 - Tem mais alguma coisa a respeito da Rhodia que o senhor gostaria de contar que o senhor não contou nesta entrevista?

 

R - Possivelmente sim, mas não me ocorre. Talvez depois, quando a gente repassar as fotos e for vendo as pessoas e os fatos a gente vai lembrar de muita coisa. Inclusive no material que eu mandei para o Paulela na segunda vez, eu contava, inclusive... contei esse caso do Spina... contava uns casos, por exemplo do Alberto ________ de Castro, que era viajante na época do Lampião, que ele tinha que estabelecer o roteiro dele, saber em que zona o Lampião estava, para ele viajar em outra direção, né? [risos] Pena que esse material todo se perdeu, né? Esse pessoal já não existe mais para contar essas histórias. Ele contava que ele era saudado, chegava à noite, ia para um bordel qualquer e sabiam que o homem da Rhodia estava lá, anunciavam pelo microfone que podiam fazer programa, que o homem da sulfa tinha chegado e se desse qualquer problema, doença venérea, estava ali o homem da Rhodia para resolver o problema [risos].

 

P/2 -  Qual era o produto à base de sulfa que a Rhodia tinha, assim, importante?

 

R - Ela tinha dois ou três produtos à base de sulfa: Sulfitalil, Sulfadiasina...

 

P/3 - Na sua opinião quais foram os produtos que marcaram, assim, a trajetória da Rhodia? Os produtos mais...

 

R - Olha, que eu lembre bem o Amplictil, que foi uma revolução em terapêutica, no campo da psiquiatria, foi o primeiro neuroléptico a surgir no mundo, depois o Flagil no começo da década de 1960, década de 1970 um grande produto foi o Nootropil, que não é descoberta da Rhodia, aí já é um produto de um laboratório belga que a Rhodia representava, acho que representa ainda, no Brasil. Que eu me lembre, os três grandes produtos foram esses.

 

P/3 - O do antibiótico... o antibiótico teve uma produção curta, né?

 

R - As Penicilinas... Heim?

 

P/3 - Foi uma produção curta, né?

 

R - Foi, relativamente poucos anos, porque o aparecimento de novos produtos foi se multiplicando, né?

 

P/4 - E o senhor lembra, assim, o impacto que teve a Penicilina?

 

R - Ah, sim.

 

P/4 - Causou...

 

R - Eu lembro ainda garoto, antes de trabalhar na Rhodia, quando surgiu a Penicilina, foi no final da Guerra, era considerado um produto milagroso, mas cheio de cuidados, porque era um produto que precisava ser conservado em geladeira, era um produto difícil de se conseguir porque acho que era importado na ocasião, mas depois, quando a Rhodia começou a produzir, a Rhodia, Squibb e Fontoura começaram a produzir, a produção era enorme. E era praticamente a Streptomicina e a Penicilina, mais a Penicilina que se usava, né? Os outros antibióticos vieram bem depois.

 

P/2 - Antes da implantação da fábrica de Penicilina da Rhodia aqui no Brasil, a matéria-prima era importada? Como era?

 

R - Olha, eu sei que era... o problema é uma cultura de um... acho que de um microorganismo ou de um fungo, era feito em um caldo baseado no milho. Eu acho que essa cepa é que era importada, depois aqui ela se multiplicava, né?

 

P/2 - Sei.

 

R - Vocês já conversaram com o João Domingues?

 

P/1- Estamos começando... o primeiro...

 

R - Ah, o primeiro sou eu? [risos].

 

P/1 – Nós queremos agradecer o senhor. Esse é o final do primeiro depoimento.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+