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História

As encruzilhadas e uma redenção

História de: Vanderlei Fischer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/09/2016

Sinopse

Nesta entrevista, Vanderlei fala sobre a sua ascendência europeia e sua infância na Lapa e em Taboão da Serra. Em seguida, fala do trabalho de taxista de seu pai e de seus diversos empregos na adolescência. Depois, ouvimos sobre sua paixão por pagode e relembra uma canção que traz à tona a história de seu amigo Reginaldo - Di - que faleceu em cárcere anos mais tarde. Vanderlei fala sobre sua escola em Taboão, sua adolescência, a descoberta das drogas, o encontro com seu grande amor, Luciana, e o início de sua vida no crime, integrando uma quadrilha de roubo de carros. Então, Vanderlei nos conta sobre sua primeira detenção, indo parar no 34º DP e conta minuciosamente detalhes da vida na cadeia: os amigos, a repressão policial, a hierarquia, entre outros aspectos. Vanderlei vai cumprir sua pena no Carandiru, em 1998, e conta sobre como reencontra Di em uma das celas, além de enrascadas e outras experiências que lá viveu. Enquanto isso, pontua sobre sua gradual passagem para a vida religiosa, que o tirou da criminalidade. Após cumprir o resto da pena na prisão de Valparaíso, interior de São Paulo, Vanderlei nos conta também sobre seu reencontro com Luciana, seu casamento com ela e sua nova vida como marido, pai, devoto e dono de uma empresa de transportes.

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História completa

P/1 – Vanderlei, obrigado pela sua presença.

 

R – Obrigado, eu.

 

P/1 – Você pode falar pra mim o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento?

 

R – Vanderlei Fischer, meu nome, nasci em 1975, 19 de julho, em São Paulo, mesmo, aqui no bairro da Lapa.

 

P/1 – Tá, e você pode falar o nome do seu pai completo?

 

R – Meu pai é Izael dos Santos Fischer e minha mãe, Maria Iracema Wagner Fischer

 

P/1 – O seu pai, você sabe a história da família dele, da onde eles vieram, quem que eles são?

 

R – Eu sei mais ou menos, né, na verdade, tivemos sim na infância, contato com o meu avô, com a minha avó, mas ano era muito desse lado, da parte paterna, mas eu sei, né, o nome do meu avô era Sebastião Fischer, da minha avó era Belmira Largueda Fischer e eles são aqui de… um é de Piracicaba, meu vô é de Piracicaba e minha vó era de Santa Barbara d’Oeste, onde eles se conheceram, no caso, né, e aí, onde começou toda a história.

 

P/1 – E você sabe o que eles faziam no interior, onde que eles trabalhavam?

 

R – Então, eles eram assim, adolescentes na época, né, meus bisavós, na verdade, eles vieram da… parte do meu pai, um veio da Itália e outro veio da Alemanha e se conheceram, pelo o que eu conheço das histórias, não sei se foi até no navio e se conheceram e se casaram lá em Santa Bárbara d’Oeste e ali, iniciou a família do meu pai, né? Do meu vô. E meu vô conheceu minha vó, ficaram morando lá um tempo e depois, vieram pra São Paulo e moraram aqui em várias regiões, em Osasco, na lapa aqui, também. Depois, se separaram, mas normal, continuaram sendo meu vô e minha vó e seguiram a vida deles e a gente seguiu a nossa.

 

P/1 – Que mais você sabe dessa parte europeia da sua família, você sabe o quê que eles vieram fazer aqui no Brasil? Por quê que eles se mudaram?

 

R – Então, pelo o que me contam, né, eu gosto até de pesquisar porque eu acho super interessante essa parte de história, por isso também que eu tô aqui, eu quero que os meus netos, meus bisnetos venham a me conhecer. Eu gostaria muito de ter conhecido meus bisavós e tudo mais, mas não tinha essa tecnologia de hoje, mas como tem, vamos usar elas para a próxima geração poder conhecer melhor a gente. Mas pelo o que me contam, parece que eles vieram fugidos da Guerra, né, essa época era a época acho que da Primeira Guerra Mundial e os meus bisavós vieram fugidos de lá, fugindo mesmo da Guerra, tanto da parte do meu pai, quanto da parte da minha mãe, também. Eles vieram pelo mesmo motivo.

 

P/1 – Tá, então agora que você tá falando da sua mãe, pode continuar falando?

 

R – Minha mãe também foi quase esse mesmo processo, né? Meus avós paternos são húngaros, tanto é que minha mãe fala um monte de hungarês, aí, minhas tias, de vez em quando, ela vai nas festas, lá, elas começam a falar hungarês e você não entende nada, mas é legal. Eles vieram, também, nessa mesma situação. Esses vieram da Hungria e se instalaram aqui no interior de São Paulo, em Pacaembu, onde fizeram a sua vida, uma cidade pobre também na época, meu vô era um comerciante, tinha bar e acabou adquirindo bastante propriedades, mas tudo assim, terras, bastante terrenos e era bem empreendedor. Se bem que era bem simples, né, tinha uma vida bem simples. Tiveram, se eu não me engano, dez filhos, dos quais acho que um morreu, ficaram nove e acho que foram seis mulheres e dois homens, dos quais um veio a falecer com 30 anos, por motivo de bebida, cirrose, infelizmente, né, e o outro tá vivo até hoje, mora também lá em Pacaembu, um baita de um empresário lá, é dono de quase metade da cidade, ele que comanda o comércio de gás na cidade, lá, Pacaembu, interior de São Paulo, aqui e tem bastante parentes lá, ainda, tem umas quatro tias que ficaram pra lá e metade veio aqui pra São Paulo, que foi o caso da minha mãe, umas tias mais próximas e nós viemos pra cá, na verdade, eu não tinha nem nascido ainda, minha mãe veio acho que com 12 anos, meu avô mandou ela com 12 anos, 13 anos, que ela conta, pra trabalhar em casa de família, né? E ficava aqui trabalhando em casa de família, mandava dinheiro para o interior, para o pai e foi construindo a vida, né, foi crescendo, depois arranjou emprego registrada, trabalhou bastante em casa de família, depois arrumou serviço registrada, conseguiu comprar um terreno, né, minha mãe conta até a história que grudou o papel do terreno no pé dela, ela crê que é de Deus, até, ela fala que foi Deus que… e comprou um terreno em Taboão da Serra.

 

P/1 – Mas como é que é essa história? Ela tava andando na rua…

 

R – Ela tava andando na rua, trabalhava, nessa, ela não tinha a gente, nada. Estava namorando com o meu pai, e diz que andando, voltando para casa, que grudou um papel no pé dela e ela fazia assim pra sair e não saía, aí de repente, ela pegou, olhou: “Terreno em Taboão da Serra?”, eles moravam em Osasco, já era uma cidadezinha melhor, não, na verdade, moravam aqui na Lapa, aqui pertinho. E aí, falou: “Nossa, Taboão da Serra?”, era só mato, só tinha índio, lá, mas ela foi ver e comprou. Coube no orçamento dela, ela comprou, foi pagando, pagando, aí meu pai entrou na história, começou também a ajudar a pagar e construíram. E aí, começou, casaram, se juntaram, se conheceram, tudo, processo… casaram, começaram a construir lá e enquanto isso, a gente morava aqui em, Osasco nessa época, no quilômetro 18, aqui.

 

P/1 – E como é que eles se conheceram, você sabe essa história?

 

R – Então, meu pai e minha mãe se conheceram aqui na Lapa também. A história certinha… parece que eles se conheceram em Pacaembu, em uma festa que teve lá na casa da minha mãe, meu pai foi lá junto com os meus tios, mas nessa época, parece que o meu pai era banguela, todo desdentado e minha mãe não queria nem saber, falou: “Que nada, maior esquisitão…”, e tal, mas aí passou o tempo e tal, ele gostou dela lá, só que não deu nada, né, depois, elas vieram pra São Paulo e aí,  como o meu pai e o meu tio são irmãos e eles se casaram primeiro, aí tinha a minha tia e o meu pai… meu pai e o meu tio são irmãos e minha tia e minha mãe são irmãs, então são dois irmãos casados com duas irmãs, então favoreceu a união deles de novo, né? Ele já gostou dela lá atrás, mas ela não quis, aí depois quando ela viu ele de novo, tinha todos os dentes, dentadura na época, né, não tinha nada de implante, não tinha nada. Aí, eles se conheceram e começaram a conversar, tal, sair e deu em mim, hoje aqui. E foi legal. Aí, se juntaram, casaram e foram construindo em Taboão, a casinha deles, lá, enquanto isso, pagavam aluguel aqui, eu lembro de parte da minha infância, quando eles casaram, que eu nasci, até uns cinco, seis anos, eu lembro da gente morando em Osasco, era também rua de terra ainda. Hoje não, hoje já é tudo cidade ali, mas era rua de terra. Mas eu lembro, a gente, eu e os meus primos que são meus primos irmãos, o Márcio, o Toco que eu chamo ele, o marcos, a Marli, tudo criança brincando de policia e ladrão, brincando na rua de pega-pega, eu lembro ainda dessa fase, que eu tinha mais uns cinco anos, seis anos, aqui em Osasco. Aí, eles foram… estava acabando de construir no Taboão, aí eles se mudaram pra lá, de aluguel, acho que para ficar mais perto da obra, da finalização, mudaram pra lá de aluguel, também na mesma rua, também lembro dessa fase lá. Logo depois, construiu a casa, uma casinha simples, também, né, para sair do aluguel, uma casinha de três cômodos e banheiro e aí, começou-se uma nova etapa da vida da gente lá em Taboão da Serra, eu agora com sete ou oito anos, nessa época.

 

P/1 – Tá. Vou voltar um pouco agora pra perguntar, você é o filho mais velho?

 

R – Não. Eu sou o filho do meio. Minha família é o meu irmão mais velho, o Vagner, ele tem… fez 43 anos agora em fevereiro, dia 14, agora. Eu sou o do meio e tem minha irmã que é mais nova, também, uns cinco anos mais nova.

 

P/1 – Qual que é o nome dela?

 

R – Valeria. Somos só nós três de filhos.

 

P/1 – E como que é essa escadinha? Quantos anos são?

 

R – Então, o meu irmão tem 43, sou eu que tenho 40, vou fazer 41 e minha irmã que acho que tem 35, se eu não me engano (risos), que vergonha, não saber nem a idade da irmã.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Não sei, certinho, mas acho que são uns cinco anos, acho que ela tem 35 anos, 34.

 

P/1 – Então, em Osasco, você cresceu mais com o seu irmão?

 

R – É, isso. Eu e o meu irmão foi essa infância em Osasco. Minha irmã já nasceu em Taboão da Serra.

 

P/1 – E em Osasco, você falou que você se lembra um pouco do quê que acontecia, lá. Você se lembra como é que era… a rua, você falou que era de barro, mas tem algum outro detalhe, do quê que vocês brincavam, o quê que vocês faziam em Osasco?

 

R – Então, era assim, vida de criança, mesmo, né? A gente brincava na rua, a rua era de terra e a gente morava na mesma rua desse meu tio e dessa minha tia que são os dois irmãos casados com as duas irmãs, então tinham os meus primos, também. E a gente brincava tudo junto, era tudo primo e primo irmão, então, nós crescemos com uma grande amizade, foi muito forte isso, até hoje nós somos bem amigos, né, temos bastante contato. Tinha o Marcos, tinha a Marli, tinha o Marcio, que é a parte deles, o meu tio, meu tio Toninho. E a gente brincava lá, eu lembro dessas cenas, assim, sabe, flashes da gente brincando na rua de pega-pega, de esconde-esconde, de policia e ladrão, tive minha primeira namoradinha lá também. Tem naquelas fotos que eu mostrei pra você, tem, uma foto dela, eu e ela com seis anos lá, acho que aquelas fotos são com seis anos.

 

P/1 – E você se lembra dela, o nome dela?

 

R – Não, não lembro. O nome dela, eu chamava ela de Lili, o nome dela é Elizangela, mas eu não lembro dela, assim, eu lembro porque eu sempre dou uma olhadas nas fotos, mas quando que foi a última vez… na verdade, eu não me lembro muito, eu era muito pequeno, ainda.

 

P/1 – Entendi. Então vocês se mudaram pra Taboão e aí, você ficou quanto tempo lá naquela casa?

 

R – Lá onde? Taboão?

 

P/1 – É.

 

R – Então, aí o Taboão, eu fiquei até dos oito anos, dos meus oito anos, eu acho, até os meus 18 anos, que aí foi onde começou uma outra fase ruim da minha vida que sai de lá. mas fiquei dos oito aos 18.

 

P/1 – E você foi estudar em Taboão?

 

R – Isso, estudei lá e começou a infância, né? Cheguei lá com acho que seis anos, aí sete, entrei pra escola, né, escola estadual, não tinha condições de pagar escola particular ainda. Se bem que o meu pai não ganhava mal, ele era taxista naquela época lá, era uma profissão até que razoável, né? Mas a gente sempre foi pobre, a gente não tinha condições de pagar escola particular e nem muito luxo, mas a gente tinha uma vida legal, uma vida até boa, minha mãe me deu uma boa educação, na medida do possível, né? Mas comecei a estudar no Professor Antônio Ruy Cardoso, que era a escola de lá e assim fui. Primeiro ano, segundo ano, terceiro, quarto, quinto, sexto. Aí no sexto, parece que parou. Aí eu mudei para outra escola lá também, aí fiz sétimo e oitavo… não, na verdade, eu fui até o oitavo, até o oitavo ano, certinho no… terminei o primeiro grau na Antônio Ruy Cardoso, inclusive, tem foto lá da minha formatura, né? depois, acho que vai estar lá. E dali, eu fui para uma outra escola, fui para o Dalva, fiz o primeiro ano do colegial, depois eu fui para o Heitor, repeti no Dalva o primeiro ano, aí fui para o Heitor refazer o primeiro ano, mas também já não consegui, já tava numa época conturbada da minha vida, onde eu já parei de estudar no meio do segundo ano do primeiro… segundo ano que eu tava tentando o primeiro ano do segundo grau.

 

P/1 – Antes de chegar aí, me conta como é que era o Taboão, você já tinha passado por Osasco, mas Taboão da Serra, como é que era a rua?

 

R – Então, Taboão era… tava meio com aquele negócio de índio, ainda. Cheio de lodo, as ruas cheias de terra, tudo barrão, mesmo. Só arvore para todo lado, na rua mesmo que nós estava lá, tinham poucas casas, na rua, se tivesse umas dez casas era muito, né? Então, era bem afastado de Osasco, os parentes mais próximos que tinha era os de Osasco, esses que a gente morou e era gente que tava indo um na casa do outro, né, visitava um e visitava o outro, mas perdeu bastante contato, que ficou mais de mês em mês que a gente se via e também porque Taboão era desse jeito que eu tô te falando, era… o meu pai até brincava, quando nós ia pro Taboão, que nós estava chegando em casa, ele já brincava: “Estamos chegando na vila do sapo”, porque tinha muito sapo, tinha córrego, aquelas pontes de madeira, cara, teve vezes de nós chegar em casa e cadê a ponte? Não tinha mais ponte, o rio levou a ponte embora, o córrego. Entendeu? Aí, tinha que dar a volta lá por trás, achar outro caminho lá para chegar em casa. Mas foi uma infância boa demais, eu me diverti muito, porque tinha essa situação, não é que nem hoje que só tem asfalto, não tem mais assim, você subir em morro, em terra. não tinha. Lá, nós colocava uma corda lá em cima do morro lá e ia escalar a montanha, era a nossa brincadeira, pendurar na árvore, fazer balanço, brincava demais. Tinha córrego, nós ia nadar, ou fazia. Hoje não tem. Hoje tem por exemplo, eu moro aqui no Jardim Monte Azul, no meio da comunidade onde eu moro tem uma piscina, os caras construíram uma piscinona, eu não, na minha época, eu construí no meio do mato, eu construí uma piscina de barro pra gente brincar, pular, mas era divertidíssimo esse lugar. Eu vejo que a minha infância foi boa. A de hoje tá mais evoluída, claro, mas a minha eu acho que foi melhor do que a de hoje, se bem que hoje também tem bastante coisa, eu fico abismado quando eu pego a minha filha, a gente vai para o CEU, a gente vai brincar, tem piscina, eu saio da igreja, já pego ela: “Vamos pra piscina hoje”, já vai para o CEU, andar de patins, nada na piscina o dia inteiro, tem parquinho par todo lado, hoje, né? Hoje é legal nesse lado, mas eles não têm esse lado de pisar na terra, você pular na água, uma água ali, barrenta, natural e no meio do mato, tipo, podia ter bicho lá, ter tudo, mas tudo bem. Creio que Deus até protege. Mas foi muito boa a minha infância, era muito boa, mesmo. Bem rural.

 

P/1 – E como é que era a casa que os seus pais construíram?

 

R – A casa era uma casa de três cômodos, tinha cozinha, tinha o quarto dos meus pais e tinha a sala que também era o meu quarto e o quarto do meu irmão, tinha uma beliche. Aí, tinha o quintalzão, tinha um quintal de assim, a casa tá aqui, o quintal de assim, outro quintal na frente, onde meu pai guardava o carro dele, ele tinha um fusca, sempre trabalhou com fusca, fusca era um carro top nessa época, meu pai só tinha carro zero, fusca e fusca zero e sempre taxista. Trabalhava no Ceasa. O único ponto que tem no Ceasa, inclusive, né, debaixo do relógio ali, tem um ponto e ele ficava ali. Então, ele sempre chegava em casa com muita fruta, caixas de fruta, caixas de uva, de melancia, grande, caixa de banana, não faltava frutas em casa. Isso era muito bom, a cultura que eu tenho até hoje na minha casa que não deixo faltar também. Mas foi lega e a casa era boa também, uma casa que suportava, nessa época, era o necessário pra gente, deu pra acomodar bem nós e depois, foi construindo mais, foi melhorando, mas era uma boa casa, era uma casa muito boa, a gente brincava de carrinho de rolimã, né, que a casa era aqui assim, tinha esse quintalzão lateral e a rua não dava pra andar ainda, que era tudo de terra, aí eu mais ou menos nos meus dez, 12 anos, fazia carrinho de rolimã e ficava no quintal, mesmo, de casa, descia assim, na descidinha, e fazia a curva lá embaixo, era legal.

 

P/1 – E você se lembra de alguma história especifica que te marcou nessa infância lá de brincadeira, coisas boas ou ruins que te marcaram? O que vier a sua cabeça, assim.

 

R – Ah, tem coisas boas, cara. Tem bastante coisa boa. Tem uma legal, que foi legal, assim, meu pai era taxista e ele trabalhava à noite e ele dormia de dia. Então, apesar do meu pai estar sempre ali em casa, ele tava e não tava, porque ele tava dormindo, ele já acordava, tomava café ou almoçava, já se arrumava e zarpava pra trabalhar e quase sempore nós estava na escola, então, não tinha aquele contato de pai com… com o meu pai, mesmo, de pai e filho e tal, de pegar… que nem hoje, eu com a minha filha, pego, almoçar e brinco, não sei o que… contato com o meu pai era esse, a gente se via, mas nem conversava. Eu nem lembro de conversa que eu tive com o meu pai. A última conversa que eu tive com ele foi dentro do Carandiru, foi quando eu conversei com ele, assim, legal, abertamente mesmo, mas de criança, não. De criança, ele só trabalhava, do serviço pra casa e a gente só estudava e brincava, né? Mas teve uma história que foi legal que quando eu tava… acho que eu tinha uns 12 anos ou 11, eu queria comprar uma bicicleta, né, e ficava pedindo pra ele, aí tinha aqueles comerciais na televisão, né, colocava dentro do sapato, escrevi um bilhetinho: “Quero minha Caloi”, colocava dentro do sapato do pai, colocava na xicara do pai, colocava no bolso e eu fazia. E aí, minha mãe falou: “Compra pra ele”, aí ele: “Mas tá difícil, vou ver se eu pego um serviço aí, se eu pegar um serviço com um amigo meu que ele quer que eu pinte a casa dele, aí eu dou, aí eu levo ele pra trabalhar comigo e eu dou”. E aí pegou esse serviço e ele me levou pra trabalhar com ele que foi onde também a gente começou a ter um contato legal, eu queria pintar a parede, eu via ele pintando, que antes de tudo, ele era pintor também, meu pai trabalhava para o lado de fora, sentado naquelas cadeirinhas pintando, era prédio já na época. Antes de ser taxista, então ele já era pintor e aí, ele sabia pintar casa, ele pegou esse serviço, aí eu fui pintar com ele, foi onde eu comecei a aprender a pintar também. Eu doido pra pintar a parede e ele: “Não, só pinta o rodapé, vai lá, pinta ali o rodapé”, e aí me dava: “Vai com cuidado, aqui onde tem que ter mais cuidado, não pode ser torto, tem que ser retinho”, e ia eu lá, fazia o rodapé, fazia os cantinhos, assim, tudo, né? Até onde eu alcançava. Hoje eu vejo que assim, ajudava ele, claro, que isso aí é um servicinho meio chato, então, ajudava e depois ele vinha e fazia onde eu não conseguia, mas eu queria era pegar no rolo, também, pra rolar e tal. Sei que lá no meio da obra final, eu peguei lá e comecei a rolar e ele: “Não, mas no pode, não” “Espera aí, pai”, aí ele falou: “Até que você leva jeito, você sabe”, aí comecei a  pintar, aí já começou a soltar pra mim: “Vai, então pinta aquela sala toda, lá”, aí pintamos a casa de lá, era o dono de um box de banana lá, um negão lá, gente boa pra caralho e aí, terminou a obra, ele me deu a bicicleta, né, uma BMX Pantera na época, cara, que viagem aquela bicicleta, nossa, eu destruí ela, eu lembro que tinha pista de motocross perto de onde que eu moro, é morro, né, pessoal pegou e lá naqueles morro, fizeram uma pista de motocross, e eu fui com a bicicleta, nossa, mano, empurrando e daqui a pouco peguei um barrancão assim, vim daqui pra cá, quando eu cheguei em cima pra descer, o guidão saiu na minha mão, eu me esborrachei lá embaixo (risos), mas curti demais com aquela bicicleta, foi muito legal, foi boa. Depois, eu tive mais também, mas essa foi uma história boa. Aí tem também as histórias dos churrascos, né, a gente sempre gostou de churrasco, então nesse quintal lá, fim de semana sim, fim de semana não, lembro do meu pai, não tinha nem churrasqueira, era com bloco, colocava dois blocos, ascendia o carvão embaixo, a grelha e carne pra cima e nós… era um dos poucos momentos que a gente tinha com ele, assim, sabe? Lembro dele também dia de domingo. Domingo ele estava em casa e ficava lá, sentava no sofá, ficava assistindo Silvio Santos com a minha mãe, a gente sentava tudo ali também, comia uns ovos pra fazer disputa de peido (risos), muito bom, cara, legal. Minha infância foi da hora, não tenho o que reclamar dela, não.

 

P/1 – E como é que era, você tentou acompanhar seu pai nesse trabalho de taxista? O quê que você achava desse trabalho?

 

R – Na época, quando a gente é criança, adolescente, a gente não pensa muito no futuro, né? A gente tá vivendo aquela fase e pensa que a vida é só brincadeira e a gente não precisa trabalhar pra se manter. Mas assim, eu não pensava não, eu não tinha assim, não é que eu não tinha o desejo, mas não pensava em ser taxista, comecei depois trabalhar, fui procurar emprego, quando eu senti necessidade, se eu quiser ter um tênis legal, se eu quiser ter uma roupa legal, eu tenho que trabalhar, porque o meu pai vai me dar só o básico, aí eu comecei vender sorvete, quando comecei mesmo, acho que com 11 anos, 12 anos mesmo, eu já comecei… minha mãe me deu um dinheirinho, falei: “Mãe, tem uns amigos meus vendendo sorvete, dá um dinheiro aí pra eu comprar sorvete pra vender também”, aí ela foi, comprou pra incentivar o filho a trabalhar, comprou um isopor, me deu dinheiro pra comprar o sorvete, eu fui lá onde meus amigos tinham falado: “A fabrica de sorvete é ali”, aí eu fui lá, comprei, vamos supor hoje, comprei dez reais, comprei 20 sorvetes, a 50 centavos, a i vendia a um, quer dizer, que eu ganhava o dobro, né? Aí, eu ia, comprava 20, 30 sorvetes, vendia, só que… não pensa em nada, né, aí quando eu vendia que eu fazia os dez reais, vendia de 20 sorvetes, eu vendia dez, aí já começava a chupar os outros, já tinha feito o dinheiro para mais 20 do outro dia, né? Chupava os outros, levava o resto para casa, aí no outro dia, comprava mais 20, vendia… mas só que foi prosperando, foi legal essa experiência também, aí comecei a trabalhar. Aí depois disso aí, cresci mais um pouquinho. Já vendi algodão doce com um vizinho que tinha lá que fabricava, eu saía com o filho dele pra vender, também. Era legal, mas isso aí era coisinha de criança, né, bem da criança pra adolescência. Aí depois, arrumei um serviço melhorzinho em Pinheiros, na rua dos Pinheiros, numa adega, de entregador de bebidas, então o cara vendia, eu pegava… e tinha eu, mais um e ficava fazendo as entregas e aí, comecei ali, trabalhei um tempinho ali, aí quando o cara foi me registrar, ele gostou do meu serviço, né, foi o meu primeiro serviço mesmo que deu inicio a minha carreira que hoje eu sou motorista, né? Então comecei como entregador de bebida, só que aí quando ele foi me registrar, aí me deu um sarampo, acho que foi um sarampo que me deu que me impediu dele me registrar, tive que ficar em casa de molho uns dias e tal, aí beleza, mas não era pra ser, né? Aí, no mesmo local, em Pinheiros também, eu arrumei um serviço de office-boy, era na época dos office-boys, aí arrumei de office-boy, acho que eu tinha os meus 15 anos, arrumei na Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto um serviço de office-boy, onde eu fiquei uns dois anos, trabalhando, conhecendo, começando a conhecer São Paulo, anda pra cá, anda pra lá, era uma fabrica de uniformes, eu levava orçamentos, né, o vendedor ia lá primeiro, fazia toda a pesquisa e depois, ele vinha pra empresa, eu ia levar o orçamento e depois, ia levar o pedido, caso aprovassem. Então, comecei a conhecer São Paulo toda, vai pra cá, vai pra lá, me perdi a primeira vez, não conhecia nada de São Paulo, até tinha uma mulher lá que era meio acelerada, eu não conhecia nada, era um moleque novo, olhando no guia assim, aprendendo essa rua onde que era, aí ela falou: “Não, vai e na rua você vê isso ai”, eu sai correndo, acelerado por ela, sei que ela falou: “Isso daí tem horário, tem que pagar no banco até tal hora”, eu falei: “Mas eu não sei…” “Vai lá e se vira na rua”, eu sei que beleza, aí fui. Era… acho que era lá na ponte do Morumbi e era na marginal, eu peguei um ônibus e eu vi mais ou menos o ônibus e parei na marginal, bem no número, só que o negócio era do outro lado do rio, cara, e já era três, quase quatro horas da tarde, faltava acho que dez minutos pra dar quatro horas. Lembro até hoje isso daí, que foi um negócio que depois disso aí eu nunca mais sai no escuro, eu falei: “Não, é melhor eu perder cinco minutos aqui e fazer o negócio certo do que se perder”. Cara, aquele dia deu vontade de atravessar o rio Pinheiros nadando, de tão apavorado que eu tava. Mas não teve jeito, aí eu tive que ir andando, cruzar a ponte, andando, que não dava tempo, fui correndo, andando, não, fui correndo, mas não consegui, chegou (corte no áudio) eu tive que pagar no outro dia, pagar juros e tudo, ela brigou comigo. Eu falei: “Eu não conhecia, não sabia” e tal, não tinha nem como debater muito, porque você moleque novo, você não tem… não sabe discutir, colocar as suas razoes e nem nada, mas na verdade, ela me acelerou e acabou tendo que pagar, tomei o prejuízo, mas foi lá. Depois comecei, vai pra cá, vai pra lá, comecei a conhecer São Paulo, comecei  gostar desse negócio de rua, de entrega, foi muito legal e até hoje, eu tô nisso.

 

P/1 – Agora, vamos voltar um pouco também, nessa época da infância , adolescência, você escutava rádio, via TV, vocês gostavam disso em casa? O quê que vocês ouviam? O quê que vocês assistiam?

 

R – Gostava, com certeza…

 

P/1 – Música…

 

R – Acho que normalmente, né, molecada, até hoje também eles ficam muito na televisão. Hoje é mais internet, mais celular. Na época, não tinha nada disso, chegava em casa, quando não ia para a escola, nesse intervalo aí, estava sempre na frente da televisão, né. ficava ali. A gente brincava, tinha videogame também, aquele Atari, que é o que tinha na época, muito legal, também. Jogava muito River raid, Enduro, passava assim as horas. Mas o que eu gostava também era de noite, cara. Os filmes que tinham de noite, os filmes do Corujão, Sessão de Gala, eu assistia bastante, eu sempre gostei de filme, até hoje eu gosto de filme, não consigo, por exemplo, começar que nem a minha esposa, ela começa a assistir um filme, ela tá começando a assistir, daqui a pouco, ela tá dormindo, não, eu tenho que assistir até o final, pode ser uma porcaria, cara, tem hora que eu assisto um filme, falo: “Pô, perdi um tempo precioso da minha vida assistindo essa porcaria”, mas tem que ir até o final, não tem jeito. Pra mim, no final, vai ter uma surpresa e vai transformar, mas eu gosto de filme, eu assisto bastante. Até hoje, eu assisto. E na época, era assim também, eu gostava, eu sempre gostei.

 

P/1 – Alguns você gostava mais naquela época? Você se lembra?

 

R – Eu sempre gostava de filmes do Batman, desenho do Batman, eu gostava, eu achava esse super herói, no caso, interessante. Eu acho até hoje, hoje eu acho muito interessante, tá pra sair, inclusive, no meio desse ano, agora, o filme que eu tô esperando há 20 anos, cara, quando eu era office-boy também numa outra empresa, na Pisa, na Faria Lima, em Pinheiros, comecei a ser fã, mesmo, legal do Batman, comprar livros, comprar tudo, tanto é que cheguei a ter uma coleção de mais de 500 livros do Batman.

 

P/1 – Sério?

 

R – É. Mas tive que vender depois pra tirar a minha carta, mais pra frente, numa outra situação, né? Aí, eu sempre gostei dele, porque ele era um super herói, mas ele não tinha super poder, cara, ele era só um ser humano normal, qualquer, revoltado porque mataram os pais dele, ele estudou, batalhou, aprendeu tudo, artes marciais, e tudo mais, tinha a alta tecnologia, tinha muito dinheiro para gastar, só que ele era um homem normal, entendeu? Então, isso demonstra a força de vontade do homem, que o homem se ele quiser, ele consegue muita coisa, também, né? Não é igual super homem que tinha super poder, tinha raio, tinha isso, tinha super força, não, ele era… e no final, agora nesse filme que vai sair agora, ele vai dar um pau no super homem, vai arrancar até sangue, tô louco pra assistir esse filme, cara, tô há 20 anos… eu tenho o livro… esse livro chama Batman, o Cavaleiro das Trevas, eu comprei há 20 anos atrás, quando ele saiu, fui um dos primeiros caras a comprar esse livro e nesse livro, tá esse filme que vai sair agora, essa parte que ele pega o super homem e dá um cacete nele, nossa, é muito legal.   

 

P/1 – E vocês ouviam música também em casa? O quê que você ouvia na época, assim, anos 80, 90?

 

R – Gostava muito de pagode, cara. Eu era muito pagode. Depois quando eu comecei a trabalhar nessas empresas, começou a entrar dinheiro, também começa as amizades, né, muitas amizades, você vai crescendo, você vai trocando as amizades, nem sempre você fica com as amizades de criança, você vai conhecendo mais gente. E aí, sai dessa empresa lá na rua dos Pinheiros e logo depois, nos outros dias assim, já fui procurar de novo e tinha muita oferta, principalmente para menor, né, não tinha esse negócio de só depois dos 18, não. Lá, você podia trabalhar com 15 anos, você já podia nessa época. Então, eu lembro procurando assim, aí: “Tem ali”, os caras ofereciam: “essa empresa tá pagando tanto, essa empresa tá pagando tanto”. Aí, fiz entrevista numa empresa de escritório, na verdade, era fábrica de papel, fabricava papel para os grandes jornais aqui de São Paulo, eles fabricavam no Paraná e eu fui e comecei a trabalhar aqui na Faria Lima e foi uma outra etapa, onde eu já tava com 16 anos, eu acho, mais ou menos e aí, comecei a sair, né? Com 16 anos, você já tá mais… você já não tá muito voltado para casa, você já começa a se voltar mais para as coisas do mundo, o que tá acontecendo lá fora, o que dá para você curtir, você tá voltado para si mesmo, você quer se conhecer mais e conhecer as outras coisas. Você tem dinheiro, você pensa que você é livre, que você tá agora independente e começa a sair, né? Aí, comecei a curtir salão de… mais samba, eu gostava de samba e pagode e os meus amigos que estavam no relacionamento também era tudo do pagode, então a gente começava a sair, né, tinha um grupo também de samba que tocava lá, a gente reunia os amigos, começava a tocar samba, mas tipo Sambarylove, JB, tinha uns barzinhos aqui no Itaim também de samba ao vivo, a gente tava… toda sexta-feira, nós tava nesses rolês, né? Isso quando não ia jogar futebol, tinha um grupinho de samba que eu também fazia parte e eu era, basicamente, quem puxava o pessoal, porque eu comprava… tinha um livrinho na época que chamava Jinga Brasil, que tudo quanto é música nova que saía de samba, já saía no Jinga Brasil novo, com as partituras tudo certinho, se bem que eu nunca fui de tocar, não aprendi a tocar instrumento nenhum, mas eu gostava de cantar. Eu puxava os caras, os caras tocando, né, todos os instrumentos e a gente cantava tudo junto. Era legal, eram umas músicas boas, no eram esses lixos que tem hoje, era umas músicas decentes, umas músicas que falavam de amor, falavam de vender, de luta, de vitória, não era essa porcaria falando de sexo, só, né? Era legal.

 

P/1 – Você lembra de alguma que te marcou mais assim?

 

R – Tem uma que essa não sai da cabeça, porque ela marca a minha história junto com um amigo meu que se tornou meu irmão, né, que é o Reginaldo, o Di, ele é… depois, quando eu comecei nessa época de office-boy, ele também era, também trabalhava na Faria Lima e tinham outros caras, tinha o Lango, tinha o Juarez, tinha o Ganso, o Branco e a gente era uma turma, né, eu comecei com 16 anos e já me envolvi com esses caras. Inclusive, essa história de como eu se envolvi com eles tá no livro “Letras e Liberdade”, que provavelmente vai aparecer aí, né, conta a história de como eu conheci ele, ajudando a mãe dele a carregar sacola até a casa dele. Quando eu cheguei lá, restavam todos os caras na beira de uma fogueira tomando vinho e cantando samba. Aí, eu já cheguei, entreguei as sacolas e ele me viu de longe lá na esquina, me viu ajudando a mãe dele, já veio correndo: “Obrigado aí, meu, ajudou minha mãe. Chega aí, vamos ficar com nós, aqui”, aí foi onde eu comecei a me envolver com os caras maloqueiros, né, era os maloqueiros da quebrada. E eles estavam tudo ali, eu sempre passava, eu via eles lá, só que eu nunca chegava, porque eu era de outro mundo e eu tava chegando agora. Os caras já tinham tudo… eu tava com 16, os caras já tinham 18, 20, tinha cara de 30, tinha o irmão dele que era ladrão de banco, o finado sócio tava sempre lá também, entendeu? E eu ano chegava. Mas a partir desse dia, aí me chamou e a gente começou a chegar lá, comecei a  chegar junto com os caras, aí comecei a aprender sobre samba, sobre crime, sobre a malandragem, sobre crime, não, né, mas sobre a malandragem e os caras eram meio malandrinhos, né, era periferia, eu morava na periferia, então os caras…

 

P/1 – No Taboão, mesmo?

 

R – No Taboão. Então, era tudo meio malandro, trabalhava, não era ladrão, mas era tudo meio malandro. Não trabalhava, mas quando conseguia dar uns golpes, dava. Na firma onde trabalhava, era assim, mas tudo trabalhador, assim. E aí, a gente começou a ficar junto e nossa amizade, eu com esse Reginaldo cresceu muito, a ponto até de despertar inveja em outros que falavam: “Pô, mas vocês só vivem juntos”, então era assim, nós acordava, ia trabalhar juntos, pegava o mesmo ônibus, se encontrava lá em Pinheiros durante o dia, ficava batendo papo, jogando… tinha aquelas casas de fliperama, a gente ficava na casa de fliperama, ia fazer o serviço, fazia o serviço rapidinho, né, depois ia para a casa de fliperama, ficava jogando até umas horas aí, a nossa amizade cresceu muito e uma música que marca muito essa nossa amizade é uma música que eu não sei quem que é o autor dela, os cantores, mas é aquela que fala assim [cantando]: “Amizade, nem mesmo a forca do tempo irá destruir…”, essa, lembrei dele, mano. Morreu lá na detenção. Na detenção, não, morreu em Pirajuí, morreu de AIDS, cara. Encontrei com ele na detenção também, passamos juntos um monte de caminhada, cara gente boa. Cara… meu irmãozão mesmo (choro/emoção), mas é isso aí.

 

P/1 – Quando foi a última vez que você viu ele?

 

R – A última vez que eu vi ele, cara, foi dentro de uma cela do Carandiru, lá no Pavilhão 9. A gente tinha atracado lá, eu já tava lá. Aí, ele chegou e eu lá na detenção essa época, tinha esse negócio de comprar cama, tava desativando os DPs de São Paulo, tava num processo de desativação de DPs, essas delegacias, antigamente eram usadas como carceragem, mas tava num processo de desativação e na detenção, tava borbulhando, porque todo dia chegava bonde dos DP, então tava uma luta, muita morte, muita guerra e tinha esse processos, por exemplo, aqui é um barraco, né, um barraco desse tamanho, exatamente, e no barraco tinha as beliches, as treliches de concreto, então tinha três aqui, tinha barraco com três só, tinha barraco com seis, tinha barraco com nove, tinha barraco com 12, dependendo da sua situação financeira, então virou um comércio lá, um comércio de cama, um comércio de barraco, um comércio de tudo. Lá tinha comércio de tudo, detenção era uma cidade. E lá, ele chegou, eu já tava morando num barraco, ele foi lá para a triagem, ficava uma semana na triagem na época, né, sofrimento do caramba e aí, eu comprei uma cama pra mim e uma pra ele, eu já tinha, né, comprei uma pra mim, primeiro, depois comprei uma pra ele. Aí, cara, levei ele lá, começamos a morar junto, mas ele tava envolvido com droga, eu também tava, né, pulou essa parte, já estamos dando uma adiantada, mas tudo bem, nós estávamos envolvidos com droga, só que eu sempre fui mais controlado nessa questão de droga, a gente usava junto, começamos com cocaína, maconha, cocaína, né, depois pulou pro crack, depois nós volta nessa história do crack aí, antes de começar tudo isso aí, mas lá, ele tava desandadão, então ele tava fumando muito capetinha, que a gente chamava na época, cigarro mesmo com… dichavava o crack por cima…

 

P/1 – Mesclava.

 

R – É, então, mesclava com maconha. Eu gostava, mas ele gostava mais do capetinha. Então, ele começou a fumar lá, daqui a pouco, rapaz, ele tava… eu falei: “Di, você tá fumando muito esse negócio aí, para com isso aí”, sempre dando uns conselhos pra ele, sempre orientando, ele: “É mesmo, tenho que parar”:, mas aí dava dia de visita, pessoal dele não ia visitar ele, tinha dia que ia, tinha dia que não ia, só que ele comprava droga dos caras, dos traficantes lá na detenção, chegava no dia, não tinha como pagar, quantas e quantas vezes, o cara chegava na cela, assim, no final da visita, tinha um guichezinho na porta, o guichezinho por onde passa comida, os caras chegavam batendo lá: “Cadê o dinheiro aí?”, e muitas vezes já chegou batendo na faca pra catar ele e aí, eu botava o peito na frente e falava: “Não meu, vamos trocar ideia”, os caras me conheciam, me consideravam, sabia que eu agia certinho, pagava todas as minhas contas certinho, aí eu falava: “Não mano, pode deixar aí, a visita dele não veio, mas amanhã  eu te pago”, e eu nunca fui parasita na cadeia, quando passei por lá,  sempre fazia os meus manual, fabricava pinga, fabricava bichinho de pelúcia, tava sempre trabalhando, eu sempre tive meu dinheiro, quando a minha mãe ia me visitar, muitas mães iam visitar, levava jumbo, a minha ia e saía com jumbo (risos), era um monte de pacote de cigarro que eu ganhava e mandava pra vender na rua. Aí, os caras chegavam batendo lá, eu punha o peito na frente para não deixar os caras bater ele, pagava no outro dia e aconselhava: “Pô, Di e aí, para com isso aí, sua família não é rica pra você ficar aí, tal…”, mas o cara, quando ele tá na droga é uma desgraça, o cara não tem controle. Começa a falar de droga, cara, começa a me dar até um negócio dentro do coração assim, é um negócio, parece um gato quando tá chegando na água, é começar a falar em droga, porque o crack é uma droga tão desgraçada que ele tira a moral do cara, ele tira tudo do cara, meu, ele tira tudo, ele deixa você sem nada, você vira uma pedra de crack, entendeu? E nessa aí, ele ficou nessa aí. Chegou uma hora, eu lembro que nem hoje, cara, nós estava lá na cama de cima, ele tava nessa e eu tava naquela de cima, era umas dez horas da noite. Aí, ele começou… ele arrancou toda a borda da coberta dele, aquela borda de cetim da coberta dele, né, e começou a trançar, passou um dedo praça, fez res fitas e começou a trançar. Aí, eu lá da minha cama falei: “E aí, Di, o que você vai fazer com esse negócio aí, com essa corda aí, meu?”, ele falou: “Não, eu tô com um furúnculo aqui, vou fazer um curativo, vou amarrar”, falei: “Beleza”, aí deu uns 20 minutos, aí os caras… e o barraco era um barraco de 12 camas, tinha 12 caras morando, inclusive, um era traficante embaixo. Aí, ele pegou mais um papelzinho com o cara, né, fumou o último baseadinho dele lá e flou assim: “Vou apagar agora que eu vou dormir”, aí apagou, deitou, eu deitei. Passou uns… na verdade, ele foi, subiu na ventana, tinha aqui a cela e aqui do lado, tinha o banheiro, em cima do banheiro tinha uma grade que dava pra ficar olhando lá o metrô passando na Avenida Cruzeiro do Sul. Ele ficou lá olhando e tal, fiquei pensando nos meus pensamentos na vida, lá, aí beleza. Quando ele voltou, subiu na cama dele, aí daqui a pouco, apagou a luz, já era umas dez, 11 horas da noite, isso aí. Daqui a pouco, eu vejo o rapaz, o traficante, lá embaixo: “Que barulho é esse?”, meio assustado, assim, aí parou. Aí, daqui a pouco, ele de novo, levantou e foi acender a luz. Mano, quando ele acendeu a luz, eu nem acreditei, cara, tava o meu parceiro lá, pendurado, enforcado na grade da ventana, meu, aquela coisa que ele fez li, na verdade, não era para furúnculo, nada, ele já tava pensando em se matar, entendeu? Aí, pulei, não sei até como que eu pulei lá de cima, mais ou menos daquela altura, lura desse teto aqui, eu pulei, normalmente, você pendura na cama de baixo e desce, eu já pulei lá de cima, corri lá, suspendi ele pelo pé assim, suspendi ele, de língua pra fora, o cara cortou a corda, eu joguei ele no chão, bagulho é louco, em mano, olha… comecei a fazer umas massagens nele e tal, pá, pá, pá, daqui a pouco ele voltou, acordou chorando pra caramba. Aí ficou lá, chorou, pediu perdão, falou: “Pelo amor de Deus, me perdoa”, aí beleza, só que tava de noite, ele já subiu pra cama dele, já pensativo também, chorando pra caramba, dormiu. Eu também fui dormir naquele desespero, né, nem dormi mais, fiquei acordado à noite inteira com os olhos nele. Aí, beleza. Cara, aí deu dois dias, aí depois eu falei pra ele: “Pô, Di, você é louco? Por que você fez isso?”, ele falou: “Porque eu não aguento mais, cara, pô, essa vida aqui não é pra mim, eu não quero, eu não aceito, não sei o que, eu não consigo parar de usar essa droga e eu tô fazendo todo mundo sofrer, minha família e tal”, falei: “Não, mas nós vai vencer, cara, nós vai dar a volta por cima. Aprendi tudo que eu sei com você, você vai arregar agora? Vai dar pra trás, meu? E aí?”, ele: “Não, é mesmo, então vamos. Vou lutar”. Aí, beleza, deu uns três, quatro dias, acho que o pessoal da diretoria da carceragem ficou sabendo, transferiram ele, aí ele foi pra… não sei se ele foi pra Pirajuí, eu acho que foi para Pirajuí, se eu não me engano. Aí, beleza, aí eu achei debaixo do colchão dele, quando ele tava indo embora, deixou só o colchão lá, que leva tudo, só não leva o colchão, aí eu achei debaixo do colchão dele umas cartas que ele fez para uma menina lá do Taboão, xingando ela, sabe, revoltadão, falava :”Você é uma desgraçada, você acabou com a minha vida…”, mas até então, eu falei: “Por quê que ele tá revoltado desse jeito?”, aí depois, escrevendo carta, que a gente só se comunicava por carta, ainda o celular tava entrando na cadeia, ainda, na época, a gente não tinha muito contato. Depois, empesteou, beleza, aí ele me falou: “Sabe por quê que eu tentei me enforcar aquele dia? Cara, não era por nada, eu tô com AIDS, eu tô morrendo, entendeu, e eu queria morrer logo de uma vez, eu não quero… não queria ficar sofrendo”. Aí, tal dia, um dia de visita, eu tô lá na detenção, lá, minha mãe foi me visitar lá no Pavilhão 8, ela chegou, sentou lá e falou: “Sabe quem morreu?”, falei: “Não. Quem?”, ela falou: “O Di”, cara, aquilo ali foi demais pra mim (choro/emoção), eu só abaixei a cabeça e tal, fiquei pensativo, ela me abraçou, beleza, ali acabou… ali, pra mim, na verdade, acho que aquele dia acabou a minha vida no crime, cara, porque aquele cara era meu irmão, cara, nós cresceu no crime junto. Então, creio que a partir daquele momento ali, foi quando eu comecei na verdade, tomar a decisão na minha vida de largar o crime, entendeu, de parar com tudo e… porque não tinha mais motivo, cara, aquele cara era onde eu iniciei a minha carreira no crime, ele me ensinou muita coisa sobre o crime. Eu sobrevivi na detenção com os conselhos dele, do irmão dele que também era ladrão de banco, mas ele também me falava… falou: “Meu, o dia que você cair lá, age direitinho, porque lá não tem mãe, não tem pai, não tem ninguém, não, lá se você pisar fora, cara, se você der uma mancada, os caras arrancam a sua cabeça, não tem perdão, lá não tem amigo, não. Lá os caras mata. Então meu, o que você comprar você paga, o que você… a sua palavra tem que ser uma só, não dar pra trás, se for aquilo, é aquilo mesmo, você pode morrer, mas morra com dignidade”, aflei: “Então beleza”. E foi graças a Deus o que aconteceu comigo, eu segui o conselho dele, passei por lá, fiquei sete anos preso, saí considerado no crime, os caras queriam… batizaram em facções de todas… recebi vários convites, mas não quis, eu tinha o objetivo de recomeçar minha vida, entendeu, mas ali foi onde eu comecei a parar com o crime mesmo, falei: “Não vai dar mais, mesmo, meu parceiro morreu, outro só entrou em cana, não, não…”, sabe quando você põe a cabeça no lugar e fala: “Não, isso aqui é uma ilusão, você tem que… você é uma pessoa do bem, você não é do mal”, eu nunca fui mesmo dói mal, eu sempre fui do bem, eu era um bandido, não comecei nesse mundo bandido, bandido nada, eu era um ladãozinho pé de chinelo, aí, nunca roubei nada assim, muito… era mais no embalo, era mais pra você conseguir um dinheiro para usar uma droga, um negócio, mas não era bandidão de chegar em banco, nunca fui isso. E nunca fui ruim, também, roubei muito carro, roubei mercado, roubei loja, mas nunca cheguei a bater, nunca cheguei a disparar um tiro, entendeu? Sempre chegava, corunhada eu tinha que dar, porque o cara via um loirinho, dos olhos verdes, não acreditava, aí eu tinha que dar uma corunhada de vez em quando pro cara acreditar, mas… aí, nunca fui uma pessoa má, assim, nunca tive uma maldade no coração, de chegar: “Eu vou pegar e se precisar eu mato”, nunca, cara! Eu pensava: “Se precisar, um dia, eu saio correndo”, eu nunca ia ter coragem disso. Graças a Deus, a minha índole nunca foi má.

 

P/1 – Mas quando que ele morreu?

 

R – Então, ele morreu no ano de… 99, acho que foi 99, é isso mesmo. Porque eu cheguei em 98 no Carandiru, em 99, a gente se encontrou lá, é isso aí.

 

P/1 – Tá, eu queria só voltar agora um pouco, porque você falou que você avançou, mesmo, mas…

 

R – É, pulamos  a parte da… (risos)

 

P/1 – Mas eu queria saber como é que era você na escola antes, como é que era? Você gostava de alguma coisa?

 

R – Escola era da hora, escola era muito bom. era um dos bagunceiros lá do fundão, lá. Mas eu prestava atenção, só tirava nota boa, até a minha oitava série, eu só passei com A e B, entendeu? Era bagunceiro, era da turminha do fundo, mas a professora tava falando uma lição de Matemática, por exemplo, que eu gostava, eu prestava atenção na explicação. Aí depois de entender, internalizou aquilo, eu ia pra bagunça, aí vai daqui, ali, conversando com os caras, com as amizades, com tudo, inclusive esse Reginaldo que eu tava falando pra você também era da escola, a gente tinha um… todos eles, o Lango, a nossa quadrilhazinha era adolescente na mesma escola, né? Nós tinha um time de futebol, já chamava Locomia na época, né, porque nós era tudo meio doido, mas lá só fumava maconha, na época não tinha nem ainda farinha, cocaína, né? A gente fumava maconha e ficava jogando bola na quadra, nós perdia pra todo mundo, pra falar a verdade, mas era da hora, né? E lá, também foi onde eu vim a conhecer a Luciana, que foi o grande amor da minha vida, que eu tava chegando na adolescência, aquela paixão, né, tal. E nós ficamos uns dois, três anos… acho que uns dois anos estudando junto e sempre eu sentava atrás e ela sentava na frente, né, e aí, eu colava dela, ficava brincando com ela e foi criando uma amizade, primeiro, a gente se tornou amigos, muito amigos, nunca teve negócio de namoro, mas chegou a época de namoro, né, e eu gostava dela e ela, acho que não gostava de mim, mas aí… do jeito que eu gostava dela, não, eu não sei se gostava também, mas a gente sempre na amizade, eu ia com ela, todo dia, eu ia junto com ela embora, eu levava ela na casa dela, ela morava com a vó dela, na época, e foi passando o ano, aí no segundo ano… aí, chegou no meio do ano da oitava série, aí eu me declarei para ela, né, indo embora assim, passou um friozinho, eu cheguei e falei pra ela: “Tal, não sei o que, me dá um beijo?” “Quê?” “Me dá um beijo? Eu gosto de você”, aí ela deu e nós começamos a namorar, cara, nossa, que fase gostosa! Nossa, curti muito essa fase com ela e nessa época, eu tava trabalhando na Pina, empresa aí na Faria Lima, ganhando bem, né, eu lembro que na época eu ganhava parece que três salários mínimos, de office-boy, tinha Ticket, tinha conta em banco, tinha cheque, tinha tudo, moleque, mas a gente era demais, cara, ia para o salão… não, para o salão, eu não levava ela, não, para o salão, eu ia só com os caras, ela não levava. Ela, eu levava para McDonald’s, levava pra shopping, de vez em quando, nós alugava sitio pra passar fim de semana, ela ia comigo e nós passava. Se divertia. E ia sempre eu, ela, aí o meu parceiro também sempre tava unto nas baladas e as namoradinhas que ele arrumava, eventualmente, assim. Era o quatrilho ali que nós saia, assim, nos divertimos demais. E ali, a gente ficou junto uns… acho que uns dois anos e meio, namorando, gostei muito dela naquela época, mas aí, começando a me envolver já com cocaína, ela não sabia de nada disso, nunca soube, eu… e nem minha mãe, nem meu pai, ninguém nunca soube porque eu tinha um brio dentro de mim, eu nunca cheguei em casa louco, nunca cheguei em casa… chegava bêbado, às vezes, mas nem bêbado de vomitar, chegava alegre, mas droga… minha mãe até hoje, ela não acredita quando eu falo pra ela, falo: “Mãe, você não sabe, mas eu usava e o seu marido também usava, você pensa que não, você não acredita, mas o pai também era… era taxista, mas também era usuário”, no final… a gente vai chegar nessa parte. E aí, a gente… só que aí, eu tava com ela e aí, eu comecei também usar farinha, agora, já pulei da maconha pulando pra farinha. E aí, vai usando, você tá curtindo tudo, você tá curtindo o seu amor, né, tem tudo ali que você quer, tem samba…

 

P/1 – Samba, pagode…

 

R – Tem pagode, você tá curtindo a vida adoidado, meu, tava naquela fase de curtição, mesmo, curtir de tudo, né? E eu e ela foi passando o tempo, naquela mil maravilhas. Passou um ano, aí depois passou um ano, outro ano, só que a droga, ela é uma desgraça, ela vai tomando uns lugares importantes na sua vida, entendeu? Ela começa como uma diversão, como um nada, mas depois, ela começa a passar a ser importante, entendeu, ela começa a dominar a sua mente e a sua namorada já não é tão importante, em vez de você sair com ela, que tinha aquele balanço, sair com ela e sair com os amigos, não. Aí, você começa a negligenciar a pessoa amada e começa a dar valor aos caras que tá tudo também crescendo na droga, crescendo no vicio. Então, o vicio começa a dominar, ele começa a ganhar forca e aí, você começa a ir para o lado de lá, né? Até que chegou uma hora que aí a mulher também viu, né, que eu também já tava, ela não sabia, mas (corte no áudio) queria se divertir, na verdade, ela nunca usou droga, nem fumava. Ela bebia cerveja comigo, a  gente ia pro shopping, bebia bastante cerveja, fazia festas em casa, um monte de festas, gostava de fazer com os amigos, fazia samba e ela tava junto nessas, mas ela… droga, ela nunca, nem cigarro. Mas aí eu comecei a negligenciar ela, ela começou a se sentir sozinha, até que chegou uma época que a gente se separou, perdi o grande amor da minha vida, sempre amei essa mulher e aí, foi tudo junto, cara, eu perdi ela, foi a época do Collor que deu aquela zica lá que ele pegou a poupança de todo mundo e grandes cortes em tudo quanto é empresa, né, Brasil inteiro sofreu com esse cara aí, porque perdemos empregos, as grandes empresas, tudo mandando embora e nessas, eu também fui mandado embora, né? Só que aí, eu já tava preso pela droga, eu tava já preso pela droga, eu já era um prisioneiro dela, entendeu? Eu não sabia, pra mim, não, eu podia parar quando eu quisesse, mas não, nessa época, eu vi que eu era um prisioneiro da droga, já, eu era um viciado. E aí, foi onde eu comecei… os camaradas, né, eu hesitei ainda por um tempo, mas os caras já tava roubando, os caras já tava metendo os cano, roubando carro, roubando loja, roubando apartamento, esse Di mesmo, no final do Di, ele já roubava apartamento, cara, eu nem sabia. Aí depois, ele falou: “Não meu, tô assim, assim…”, que eu via ele chegando com relogião louco, carro, par de cara com carro, saindo pra vários roles, eu falei: “Não mano, e aí?”, ele: “Não, não, não, mas isso não é pra você não, cara”, ele queria me livrar disso aí, entendeu, mas eu falei: “Não mano, eu quero ir também, veio, você é louco? Vamos junto ai”, aí comecei a colar nos caras que ele ia, comecei a colar e me envolver mais no crime, aí comecei a  roubar, roubar, roubar… aí virei ladrão, roubava muito carro, devo ter roubado mais de uns 50, 100 carros, mais ou menos, nessa trajetorinha, aí.

 

P/1 – Como é que você faz isso? Explica pra gente. Você tem que abrir ele ou é com…

 

R – Abrir o quê? Não, nunca tive coragem de roubar no 55, cara, meu negócio era 57, armado. Gostava de segurar a arma, mesmo que eu sabia que eu não ia atirar, mas a arma intimida, cara, ela intimida qualquer um. Você bateu no vidro, fez assim, a pessoa faz assim na hora e abre o vidro e sai do carro, entendeu? Agora, no 55, que é furto, não ia dar certo, eu não tinha esse destino, não, meu negócio era mais agressivo, então chegava nos farol ali na Pedroso de Moraes, em Pinheiros, mesmo, essa região aqui, Vila Leopoldina, Lapa, aí ia eu, ia esse cara, iam outros caras também que eu conheci depois, porque aí, chegou uma época em que o Di foi preso, eu fui para outra quadrilha. Aí, a gente ia, saía dois caras, às vezes, três, e: “Aquele?” “É aquele”, pá, enquadrava e a pessoa descia, montava no carro e ia embora, né? E aí, ficava curtindo com o carro, mas sabe um negócio ainda meio inocente? Pegava um cara inocente, não conhecia, o cara só conhece mesmo o crime depois que ele vai preso, porque ele sofre tanto na cadeia, apanha tanto, cara, que aí, ele começa a ficar ligeiro, arisco, porque até então, cara, eu pegava os carros, os caras ficava bobo, os caras da quadrilha, meu, eu andava atrás dos policia, buzinava pros policia, mano, o carro roubado e eu andando na quebrada e às vezes, na avenida, os caras: “A policia ali”, tudo gelado atrás, eu: “Calma aí, meu, pra que se apavorar? Você quer que os cara pega nós?”, aí passava por nós, eu ia atrás, não tava nem aí, não tinha assim, aquela maldade de bandido ainda, né? E era assim que nós fazia. Aí depois, ficava uns dois dias com o carro e vendia para os desmanches, pegava o dinheiro, fazia um churrasco, ou ia para os bordel ali na Augusta, ali e gastava tudo, acabava o dinheiro, dois, três mil que nós pegava no carro, já pegava outro.

 

P/1 – Tinha algum procedimento que vocês já dividiam a…?

 

R – Não, procedimento era esse.

 

P/1 – Mas vocês iam com moto, com carro também…?

 

R – Não, não. Nós ia a pé.

 

P/1 – A pé?

 

R – Nós ia a pé. A pé e voltava de carro, entendeu? Aí, ficava… às vezes, vinha a carteira da pessoa, vinha dinheiro… antigamente, não tinha muito cartão de credito, então tinha bastante dinheiro, sempre vinha, né, a gente usava aquilo, comprava droga, comprava tudo, depois que usava tudo, vendia o carro e partia pra outra. O processinho era esse.

 

P/1 – Sei.

 

R – Tô falando isso não com orgulho, nem nada, que é a parte da minha vida que eu me envergonho demais, não é exemplo de vida, não é nada, isso é uma grande vergonha da minha vida, mas eu vivi. Eu vivi e tô falando pra ficar registrado.

 

P/1 – Tá. Vou continuar perguntando, então.

 

R – Pode falar.

 

P/1 – E vocês sempre se dividiam ou era… você falou que você chegava no vidro do carro em dois, três ou era sozinho?

 

R – Não, era sempre uns dois, três, colava dois de um lado e um do outro lado, né? Aí, eu que gostava mais de enquadrar: “Vai, desce, é um assalto, desce, desce”, a pessoa descia, às vezes, você tinha que puxar a pessoa, seja… eu já não fazia isso, eu só enquadrava, quando a  pessoa era meio resistente, aí ia o outro, já abria a porta, já puxava pelos cabelos, puxava pelo braço, puxava e nós entrava e saía correndo.

 

P/1 – E foi quanto tempo com eles, assim?

 

R – Isso foi, mais ou menos, a gente ficou aí um ano, um ano e meio fazendo isso aí. Aí depois, foi progredindo, né, aí depois, já conhecia o maldito crack, tudo vai evoluindo, né, quando é desgraça, a desgraça vem devagarzinho, mas ela vem evoluindo, até que ela consegue te destruir total. Aí, conheci o crack, aí começou, aí mais ainda eu comecei a intensificar o crime, porque o crack não é igual farinham, não é igual maconha que você pega duas gramas de cocaína e você passa à noite com elas, crack não, crack você vai fumando uma atrás da outra, se você tiver 100 gramas, você fuma tudo, cara, você não sai. Eu já cheguei a passar, por exemplo, três dias e três noites enfiado dentro de um barraco velho fumando crack, cara. Vendi uma moto que eu tinha lá, sai com o bolso cheio de dinheiro, cheio de pedra de crack. Fui para um barraco, fiquei três dias, cara, sem comer, sem nada. Chegou uma hora que eu tava fumando aqui, ó, olha, o bagulho chega a dar um asco, mas fumando, depois de dois dias, três dias, aí vê uns caras sentados ali, outro sentado aqui, eu comecei a ver gente morta, eu vi finados que já tinham morrido, que era do crime também, ali fumando junto comigo. Tinha um outro lá que tinha uma verruga no olho, assim, uma bola de carne, assim, eu vi aquela bola crescer e diminuir assim, eu lembro até hoje. Bagulho é louco. Até que eu sai de lá, com umas pedras no bolso, ainda, subi pro escadão lá com um camarada meu, comprei um litro de 51 e tomamo tudo numa golada só para sair aquela paranoia do crack, mano. Aí, eu ainda sentado no escadão lá em cima, né, aí eu sentado lá, peguei umas pedras, umas três ainda e joguei no meio do mato, assim, tinha um matagal assim, jogamos no meio do mato e falei: “Não quero mais essa desgraça”, porque você… quando você tá usando, você sabe que o negócio é ruim, te dominou, você quer sair, cara, você quer parar, mas você não consegue, é mais forte que você, já te prendeu, já é dono de você, você não é mais o Vanderlei, agora você é uma pedra de crack e ela quer estar sendo suprida, entendeu? E ali, fica ali, né, no escadão, li tal, daqui a pouco vai passando aquela paranoia, vai passando, vai passando, acho que a cachaça foi mais forte, um litro de 51 pra dois, foi assim… aí, joguei as pedra fora assim, naquela loucura, aí quando passou a brisa do crack, fiquei só na da cachaça, pra você ver como que é desgraça, a cachaça, ela que leva também muito a pessoa a tudo isso aí, porque ela tira do cara o pensamento correto, a cachaça te da euforia pra você partir para as outras coisas, para a ação. Aí, foi passar o efeito da droga, da cachaça, nós já olhou um pro outro assim, já deu vontade de usar de novo, cara, pulamos no meio do mato e fomos correr atrás das pedras, puta, que trabalho que deu pra achar aquelas pedras no meio daquele mato, achamos acho que uma ou duas e voltamos correndo para o barraco do alemão, lá, para acabar de fumar. Uma desgraça. Isso aí quase destruiu a minha vida, destruiu a vida de vários parceiros meus, desse meu irmão, que pra mim foi como um irmão, entendeu? Matou ele, matou vários que eu conheço e outros ainda estão presos até hoje, estão usando ainda até hoje. Eu vejo lá uns caras, falo com eles: “Mano, por Deus…”, mas os caras não evoluíram em nada, pararam no tempo, hoje, 20 anos depois, eu vejo eles também como se fosse a mesma época, sentados no mesmo bar, tomando a sua cachaça e assim: “E aí? vamo armar? Vamo armar?”, tudo a mesma coisa, né? Mas eu, graças a Deus, Jesus me libertou disso aí. Olha, mas é triste, cara, ficar preso na droga é uma situação triste, o cara perde a moral, aí não queria mais trabalhar, não queria mais fazer nada, só queria roubar e usar, roubar e usar. Tenho pena hoje da minha mãe, coitada, deve ter sofrido demais, o filho passar dois, três dias fora, acho que ela sofreu demais comigo.

 

P/1 – Fala um pouco mais da sua família nesse período. O quê que aconteceu? Como é que eles encararam isso? Eles sabiam?

 

R – Eles não sabiam, como eu falei pra você, né, minha mãe via eu chegando com dinheiro, chegava com carro, fazia churrasco na casa dela, né, levava a quadrilha, só que ela não sabia que era uma quadrilha, para ela, eram os meus amigos, a gente ficava fazendo churrasco lá, tava nem aí. E ela não tinha muito o que fazer, porque eu era um moleque muito independente, sabe, eu falava que era e era aquilo mesmo, acho que ela não tinha autoridade pra chegar e: “Não, não vai fazer”, acho que a criação dela também não mostrou para ela como que ela deveria agir, a criação não existia. Ela falava que na época dela, quando neguinho falava que… a mãe dela falava, pessoal falava que tinha gente fumando maconha lá na outra rua, lá, diz que a mãe ia e colocava um negócio embaixo da porta lá, pra fumacinha da maconha não entrar, o cara tava fumando lá a um quilômetro de distancia… então não tinha, ela não soube como lidar com essa situação comigo, então ela não tinha muita voz ativa e eu fui criado, assim, nessa parte livremente, eu tive que se virar sozinho, aprender sozinho e deixei rolar. Me virei.

 

P/1 – Seu pai também?

 

R – Então, meu pai não, cara, meu pai já é outro caso, meu pai é o seguinte, eu tava usando e nessa época que eu tava usando, me envolvi demais, eu sabia que era errado, eu queria parar, todo drogado quer parar, ele só não tem força, não consegue. Só que nessa época, eu usava junto com um cara que tinha lá, a gente usou muito tempo junto, mas depois de um tempo, ele chegou e ele é um cara super inteligente, super empreendedor, ele tinha três pizzarias, o cara tinha um chaveiro no shopping, vários carros, tinha padaria, mas ele começou a usar, perdeu tudo, ficou sem nada, entendeu? Aí, o que aconteceu? Aí, eu comecei a olhar pra ele, observar depois de um tempo, ele sumiu, depois de um tempo, ele voltou, abriu uma pizzariazinha de novo, daqui a pouco, ele comprou um Passat, que era o carro da época, daí comprou outro, aí comecei a chegar nele: “E pá, pá, pá, beleza aí?” “Agora tô com um patrão novo, aí tá dando certo, as coisas estão melhorando de novo, quer ir comigo lá conhecer ele?, falei assim: “Vou mano, vamos lá”, o cara me levou pra igreja, o cara foi me levar lá na Assembleia de Deus, lá no Taboão, rapaz. Falei: “Ei, rapaz, onde você tá me levando?” “não, tô com, o meu patrão, vou te apresentar meu patrão novo, patrão bom, esse aqui é bom mesmo, esse não tem pra ninguém não”, aí me levou pra igreja, acredita? E ele era 171 também, ele tinha tanto dom de falar, que ele me envolveu, creio que até usado por Deus, me envolveu nas ideias dele, começou me levar todo dia, ia para campanha não sei da onde, ia para… aniversario de cerco de oração, aniversario de uma sede, não sei o que, ele foi me envolvendo na igreja. E eu gostei daquilo, eu falei: “Nossa, aqui é diferente, aqui é bom”. Então aí, eu tava lá preso na droga, mas eu conheci a igreja e gostei e como eu tava querendo parar e não conseguia, eu achei uma ancora ali, eu achei uma válvula ali que podia me ajudar. Comecei ir, e paralelamente, ainda, também usava. Quando eu tinha… que nessa época, eu tava desempregado, só vivia do crime, mas eu parei, comecei a parar com o crime, comecei a ir para a igreja e beleza, fui parando, parei de fumar cigarro, entendeu, parei de beber. De vez em quando, quando eu pegava um dinheirinho assim, eu ainda corria pra usar na igreja, aí fiquei um ano, me batizei, tudo mais, foi uma benção, né? Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi conhecer Jesus. Eu dou toda honra e toda gloria para ele até hoje, porque senão, eu já estaria morto. Eu creio que quando Deus tem um plano na vida da pessoa, pode passar o que quiser, mas ele traz de algum jeito. E foi o que aconteceu comigo. E aí, o quê que aconteceu? Comecei a ir para a igreja, conhecer, me batizei no ano de 93, se não me engano, fui batizado nas aguas, só que minha família, ninguém era e eu tinha um primo que a gente roubava junto e eu tava querendo trazer ele, resgatar ele, entendeu? Ao mesmo tempo que eu tava querendo trazer ele, resgatar ele, também eu fugia…eu saía do Taboão, ele morava aqui na Leopoldina, eu saía de casa e ia pra lá, para no intuito do trazer ele pra igreja e no intuito também de fumar, porque eu ainda tava com aquela ansiedade, ainda tinha… tava a prisão na minha vida, ainda. Aí, nós foi, tal, eu falei: ‘Vamos pra igreja…”, pro meu primo, “Vamos lá, é bom, para com isso aí, isso aí não é bom não, vamos para lá. Olha eu aí, parei de fumar, parei de beber, tô legal”, ele: “Parou nada” “Parei, meu”, ele: “Não, não”, eu falei: “Parei, você não acredita?” “Só vou acreditar se você for comigo na boca lá, nós comprar, nós ir na casa do cara, você ver eu fumando e não fumar. Aí, eu vou pra igreja com você”, oh rapaz, me senti desafiado, falei: “Então vamos”, olha mano, por isso que a Bíblia fala que é melhor quinhão de dois do que de um só, porque um só pode cair e é verdade, cara, ninguém é supercrente. Aí, eu fui na boca, compramo a droga e fomos na casa desse cara fumar, Pascoal o nome do cara, mano, pra você ver como o diabo é sujo, como que ele sabe dar rasteira na pessoa. Mano, vou te contar um negócio que vai parecer negócio de filme. Quando nós chegou na casa desse cara, abriu a porta, aí o cara tomou um susto, assim, falou: “Oh, alemão, beleza?”, pro meu primo, né, porque ele já conhecia esse local, eu não conhecia, tava indo lá. Aí, ele: “beleza, beleza, vamo fuma ai”, aí o cara, o Pascoal lá falou: “Meu, seu tio é um dragão, seu tio veio ontem aqui com mais de dez pedras e passou à noite, saiu agora pouco”, eu falei: “Quê?”, ele falou: “Não, não, não, você é filho do Avião?”, eu falei: “Sou. Repete aí o que você falou”, falou: “Oh, mano…”, desconversou e tal, aí o meu primo me chamou, falou: “Não queria te falar, não, mas já roubo com o seu pai, já fumo com o seu pai já tem amis de ano, cara”. Cara, aquilo ali pra mim foi o tapete que saiu debaixo do meu chão, foi o meu chão que caiu, cara. Meu pai era considerado por todo mundo, pai de família, trabalhador, honesto, digno, entendeu? Nunca ninguém nunca soube de nada de um tiro dele de nada, era da casa pro serviço, do serviço pra casa. Aí ali, foi a rasteira que o diabo me deu. Aí, ali eu já comecei a usar, já comecei a usar, né, porque pra mim, perdeu, o meu castelo era o meu pai, né? Aí, comecei a usar, usar, usar, lembro ainda, passamos à noite usando, aí depois ainda, sai de lá, dei tchau pro meu primo, cheguei em casa, tava lá o meu pai na cama dormindo, ainda, né? Ele tinha ido pra casa, ficou dormindo e eu lá, usando droga onde ele tava ha menos de dez horas atrás. Aí, cheguei em casa, falei: “Ainda vou aplicar um golpe nesse velho, ele vai se lascar, quer ver?” (risos). Aí cheguei em casa,  ele tava n cama e tal, eu cheguei meio apavorado assim, combinei com o meu parceiro, falei: “Vai lá em casa e chama lá em mim lá, e fala se eu não vou pagar o que eu devo e tal”, armei um golpe pra cima do meu pai. Aí, o cara é fogo (risos). Aí eu: “Pai, pai”, ele na cama dormindo, né, eu: ‘pai, pai", ele: “Quê que foi menino? Me acordando? Eu tenho que trabalhar”, falei: “Não, pai, os cara tá me cobrando aí, os cara quer me matar, não sei o que…” “Mas como assim? Matar? Você é louco?” “Usei droga à noite inteira aí, falei que ia pagar os caras hoje, os cara tá aí me cobrando”, ele: “Não, não, não, você é louco? Como assim? Droga? Você não pode usar. Você não sabe que isso é ruim?”, eu falei: “É, pai, é que eu fui lá na casa do Pascoal ontem lá, fiquei sabendo de tudo a seu respeito”, ele já pôs a mão no coração: “A mãe, a mãe, fica quieto, fica quieto, espera aí, vamos se arrumar”, começou a se arrumar: “Quanto que é a parada?” “Cem conto”, nem lembro quanto que eu falei, hoje uns 100 conto, ele se arrumou: “Fica quieto, pelo amor de deus, depois a gente conversa, pelo amor de Deus, pode deixar que eu vou sair, vou trabalhar ali rapidinho, vou trazer dinheiro aí, fala pros caras esperar…”, mas mentira, não tinha nada, depois ele me deu o dinheiro, eu sai e fui fumar com ele ainda (risos). Aí, caiu a casa, ele falou… eu falei: “Pai, mas como assim?” “É, filho, fazer o quê? Eu trabalho de noite, ninguém sabe, eu também comecei há pouco tempo, mas  o cara me apresentou, fiz umas corridas pra ele aí, ele não me pagou, na terceira, ele me apresentou essa desgraça aí e eu cai na besteira de experimentar e comecei a usar e tô usando aí até hoje aí, essa porcaria aí, não consigo sair também, tava me espelhando em você, falava pra todo mundo que você tinha conseguido sair, que você tava na igreja, que você tinha parado e agora você me dá uma dessa?”, falei: “É pai, fazer o quê? Aconteceu”, aí começamos a usar junto, começamos a roubar junto, foi uma época triste, mas ao mesmo tempo, foi uma época feliz também pra mim, porque foi onde eu comecei a  ter um contato com o meu pai. logo depois, ele perdeu o alvará, porque não conseguia mais trabalhar, perdeu o carro, vendeu o carro, fumou, depois pegou o carro do meu irmão pra trabalhar, acabou fumando também, sei lá o quê que ele fez, depois, começou a tomar conta de carro na Conibra no Taboão, ele tomava conta numa loja, eu tomava em outra. E assim, nós foi, foi mais de uma no, mais ou menos, que eu tive esse contato com ele, da gente usando e roubando e… entendeu? Saía também, nós fazia pequenos furtos, tinha uns caras também que eram amigos dele que eram 171, eu roubava carro, pegava o cheque, levava para esse cara e nós saía pra almoçar nos lugar, o cara era 171 nato, meu, fazia um cheque lá, chegava lá no restaurante: ‘Vou mandar meus clientes aqui, sou empreiteiro da obra aí, vou mandar todos almoçar aqui”, aí ia lá, almoçava, comia tudo de bom e do melhor, daqui a pouco, ele chegava com o checão de 50, ele fazia de 150, “Eu vou fazer um cheque aqui de 150, você me devolve 100 aí, mas os funcionários, quando chegar aqui fulano de tal, falando que é em nome de tal, você pode servir que eu venho e acerto”, tudo mentira, o cara saía, nós comia do bom e do melhor e ainda saía com 100 conto no bolso pra ir pra boca usar. E nessa aí, a gente ficou mais ou menos um ano aí nesse contato e tal. meu pai não era uma pessoa má, não, foi um pai muito bom que eu tive, graças a Deus, cara abençoado, mas ele se envolveu… infelizmente, se envolveu no crime, se não tivesse se envolvido, acredito eu que hoje estaria de taxista, né, no alvará dele, lá, mas ele perdeu o alvará, que é que nem eu te falei, o crack tira tudo do cara e o cara não quer mais saber de trabalhar, o cara só acorda e dorme pensando na droga, né, farinha, ainda cocaína, o cara ainda consegue dar uma controladinha, mas o crack é uma desgraça, o crack, o diabo inventou, colocou na terra, mas ele mesmo não fumou, cara, senão, com certeza, ele já tinha empenhado o inferno lá, já tinha perdido, também. Mas foi uma época assim, por esse lado, foi boa, de eu conhecer meu pai, né? Foi legal, foi uma época boa, mas foi onde eu sai da igreja. Sai da igreja e voltei para o crime, aí comecei de novo, voltei para o crime, tal, várias… churrasco e isso com o meu pai, até que chegou um dia, cara, eu lembro que eu tava fazendo um churrasco lá na casa da minha mãe, né, eu sai pra comprar cerveja, fui no barzinho da esquina, aí de repente subiu uma viatura, parou na frente da minha casa, eita cara, o dono do bar lá: “Agora a casa caiu, cara, policia chegou”, falei: ‘Não, calma aí, vamos ver”, aí eles parou na frente, observou e foi. Aí, assim que virou a esquina, voltei correndo pra casa, né, tava com dois carros roubados lá, aí falei: “Gente, gente, vocês não viu aí, não?” “Não viu o que?” “Vocês não viram a policia parada aí na frente de casa, não?”, os caras: “Não parou ninguém não, você tá na nóia”, falei: “Mano, vão bora agora que a policia vai enquadrar todo mundo ai”, mano, foi dito e feito, catamos os carro e zarpou. Aí voltamos só no outro dia, aí no outro dia, minha mãe apavorada, chorando, cara, diz que deu cinco minutos que nós saimo, chegou três viaturas da rota lá, picaram o pé no portão, picaram o pé na porta lá, meu irmão tomando banho no banheiro, coitado, chutaram a porta lá, tiraram ele de lá de dentro, pensando que era eu, subir na laje, todo mundo de metralhadora, parecia cena de traficante, cara, o maior traficante do Taboa, três viatura, cara, todo mundo armado até os dente, e nós conseguimos fugir nessa aí, entendeu? Cena de louco. Coitado da minha mãe e do meu irmão. Aí nessa aí, eu vi que eu tava fugitivo, mesmo, que agora os cara já sabia quem eu era, né, aí eu peguei e sai e o meu pai queria ir embora comigo também, falei: “Não, pai, os cara não tão atrás de você, eles estão atrás de mim, fica aí cuidando da mãe, que eu vou ter que sair”, aí sai, aí fui pra uma quebrada do lado, num bairro do lado, onde já tinha um amigo meu que era traficante de boca e eu comecei a gerenciar a boca pra ele, entendeu? Ele que na verdade comandava tudo, aí eu cheguei, troquei ideia com ele, falou: “Não, então você fica tomando conta da noite, eu trabalho de dia e você trabalha de noite”, aí comecei a gerenciar a boca pra ele na noite, passou dois meses, três meses, zé povo tem em todo lugar, cagueta em todo lugar, aí chegaram os caras da viatura, me enquadraram, falaram: ‘A casa caiu, no reage, a casa caiu”, falei: “Beleza, se caiu, caiu”, aí vai dar role na viatura: “E aí, tem acerto?”, mas não tinha dinheiro, tava ferrado, tava trabalhando pra se reerguer, né? Mas aí, me levaram pra delegacia, não teve acerto, não tinha dinheiro, me levaram pra delegacia no Taboão. Aí no Taboão, beleza, aí fui para o 34 DP, foi quando começou minha vida na cadeia, né? Isso aí foi em 90 e… não, antes, na verdade, quando aconteceu isso, aí fiquei gerenciando… antes de gerenciar essa boca, que aconteceu essa cena da policia enquadrando, eu fui para o interior, Pacaembu, na casa da minha vó, lá, fiz um pequeno assalto aqui em Pinheiros, junto com um primo meu, com esse primo meu que eu tava tentando resgatar ele também. Aí, nós foi pra Pacaembu, aí fomo lá tipo, passear, fizemos um roubinho aqui, catamos uns dois mil real e fizemos compra e ficamo lá, de boa, curtindo, tal. Aí daqui a pouco, o dinheiro acabou também, aí lá no interior não tinha droga, não tinha nada, tava viciado, né, queria usar, aí comecei a cheirar cola, o que aparecia eu usava, aí um dia, nós pegou lá uns Gardenal e tomou com cachaça, aí eu fiquei muito louco, aí fui invadir a casa de um vizinho lá, catei bicicleta e tal e fui preso lá, acabei ficando preso um ano lá. Aí de lá, eu vim pra cá, né, vim pra cá de novo e já comecei de novo… sai em… isso foi em 96, entrei em maio de 96 lá, sai em… acho que abril de 97, beleza, mas aí eu já fiz outra cagada aqui, fui fazer um assalto, né, tava precisando de um dinheiro, fui fazer um assalto aqui na Francisco Morato, aí o segurança do Pão de Açúcar que tinha ali, o segurança viu nós assaltando… que nós estava querendo roubar, eu e o Di, eu e o meu parceiro, lá, quando eu voltei de lá, ele tava também, pá. Aí, a gente foi fazer um assalto, tinha uma casa de bomba injetora ali no centro, ali, precisava catar o carro, precisava de arma, tudo, aí nós foi fazer um assalto aqui no mercado, só que aí, o segurança veio, reagiu e aí, nós reagimo também, né, não fui eu, foi o Di que tava armado, aí deu um monte de tiro no policial, tomou dois tiros, foi sair correndo, ainda foi atropelado no meio da Francisco Morato, quebrou a perna, quebrou tudo e eu consegui sair correndo, e pra mim, ele tinha fugido também, que correu cada um pra um lado. E ele, tal. Daqui a pouco, só vejo viatura chegando lá na rua dele, lá, invadiram a minha casa também, tal, porque descobriram com a família dele que eu tava junto com ele. Mas aí ele foi preso, foi para o hospital penitenciário e eu tive que ficar fugido, foi onde eu fui para essa boca de crack aí, fiquei lá. Aí, tava na boca de crack já, já tava vendendo, já tava usando, tal, tal, tal, até que chegou uma viatura, depois de um mês ou dois, me enquadrou e a casa caiu. Aí, eu fui para a delegacia do Taboão, dali eu fui para o 34 DP, não tinha dinheiro pra pagar, fiquei ;lá, entendeu? Delegacia do Taboão, 34 DP. Nessa época, ainda era normal nas delegacias, você ter presos, ficava cinco, seis anos, três anos, dois anos, não importa, quantos anos for, você ficava lá mofando, né? E lá era ruim pra caramba, delegacia era questão de 200, 250 detentos num espaço de 100 metros quadrados, entendeu? cada cela desse tamanho aqui, um pouquinho maior tinha que ficar 20, 30 detentos. Pra dormir, para você ter uma ideia, era no chão, assim, deitado de valete, de ladinho, né? De ladinho, bunda pro outro e de lado, assim, não podia fazer assim, não, pra dormir, era de lado, quando um virava, todo mundo virava, quando o outro virava, todo mundo virava, também (risos). Aí fiquei lá um ano. Lá, várias cenas loucas de tentativa de fuga, várias cenas do Choque entrando e batendo em todo mundo, arrepiando, tiro de bala de borracha, choque para todo lado…

 

P/1 – Isso na delegacia, ainda?

 

R – Isso na delegacia, no 34 DP, Vila Sonia.

 

P/1 – Só antes de você continuar, queria voltar para a parte de quando você foi preso no interior. Como é que era lá? Como é que foi o dia que você entrou numa cadeia?

 

R – Primeiro dia que eu entrei, me prenderam, eu já tava muito louco, esse Gardenal que eu tinha tomado lá com… não era Gardenal, Diazepam, Gardenal eu fui começar a tomar depois dentro da cadeia lá de Pacaembu. Cheguei lá, estava ainda muito louco, ele falou: “Você fez, fez, fez?” “Eu fiz” “Tomou alguma coisa? Bebeu alguma coisa?”, não sabia nada, também, falei: “Não…”, primeira vez que eu tinha ido preso, né, se eu tivesse falado que tava louco de droga, alguma coisa, talvez até atenuasse, mas não, eu quis dar uma de durão, falei: “Não, não usei nada, não”, e aí, me jogaram pra dentro, lavraram o Boletim de Ocorrência, me jogaram pra dentro, aí eu fiquei lá. Lá era sossegado, lá era cinco barracos, um era pros loucos, ficava só um louco lá, pelado lá e se matando lá dentro, lá e os outros barracos era dos detentos. Mas os detentos lá não era ladrão, cara, era ladrão de galinha, era briga de boteco, entendeu, era droga, uma droguinha que o cara pegava, ficava preso lá um ano, seis meses. O mais perigoso que tinha lá era eu, que tinha entrado numa casa pra catar uma bicicleta (risos), não tinha, isso aí foi noticia em Pacaembu, assalto, lá não tinha esse negócio de assalto, eu comecei, eu que levei esse negócio pra lá. Hoje tá empesteado esse negócio lá, tá cheio de penitenciaria lá, agora tá uma loucura esse negócio também, os cara estão pagando os moleques com crack pra cortar cana lá, entendeu? Mas lá era sossegadinho, tinha um barraquinho, assim, cada barraco ficava quatro, cinco detentos e tal, chegava comidinha na hora certa, cafezinho da manhã, cigarrinho de palha, porque não tinha dinheiro para cigarro, era só cigarro Juriti, de fumo e corda e lá, eu fiquei um ano. Fiquei dez meses e 20 dias que e o que a lei estabelece. Peguei… fui condenado a cinco anos e quatro meses, aí com 1/6 da pena que é o que primário cumpre, fiquei dez meses e 20 dias lá, deu o horário certinho, delegacia do interior é uma beleza, por causa disso, dá os horários, não tem muito o que fazer lá, eles fica pesquisando: ‘Esse aqui tá passando aí, vamos ver no dia”, aí chegou o meu alvará lá, e eu fui solto, né? Então, o destaque também das pessoas que estavam lá, tinham vários primos, várias primas, todo mundo, tinha até um primo meu que é filho de um tio meu que comanda a cidade lá na distribuição de gás, foi uma vez lá, olhou pra mim, mas nunca se aproximou, nunca teve contato. Mas teve uma prima minha que olha, ralou, hein! Aquela ali, eu tiro o chapéu pra ela, não tinha nem motivo, mas me ajudou demais. Do começo, desse primeiro dia que eu fui em cana até quando eu sai, nunca me deixou de escrever pra mim, sempre que eu tava lá, ela sempre escreveu pra mim, ela era uma menininha, acho que ela tinha 11 anos na época, ela escrevia pra mim e sempre uma cabeça boa, dando conselho pra parar, para sair com isso, que era uma pessoa boa, que sabe, que queria ver eu progredir e foi sempre me escrevendo, quando eu tava triste, solitário, em todo lugar, detenção, todo lugar que eu tava, que eu tava abatido, que eu tava triste, chegava uma cartinha dela, cara, e me animava, olha que firmeza essa menina, foi me visitar um vez em Lucélia e depois saía, e passei lá, visitei ela um pouquinho em Pacaembu, mas ela tá lá ainda, tenho muito a agradecer ela, que nos momentos mais difíceis, ela chegava com as mensagens dela pra mim, Tatiana o nome dela, gente finíssima demais. Pessoal até hoje acha que a gente tem alguma coisa, mas nunca tivemos nada, tanto é que quando ela foi me visitar em Lucélia, não tinha nada que impedisse eu e ela de ter um caso, de ter um romance, tanto é que nós foi, entrou no barraco, né, quando você entra no barraco, todo mundo sai, que já é programado pra visita, não pode ficar ninguém dentro do barraco, que vai rolar sexo ali, todo mundo sabe, entendeu? E a gente entrou, ficamos na cama, entendeu? Ficamos trocando ideia, não rolou nada, nem um desrespeito, nunca, porque não era esse o nosso propósito, entendeu? Então, nunca teve nada, no entanto quando nós saímos, ainda rolou uma confusão, estava sozinho, mas não era isso, nossa relação é de profunda amizade mesmo de primo com prima, entendeu? Muito legal, parabéns pra ela, viu, me ajudou mesmo.

 

P/1 – E você conheceu alguma pessoa que te marcou nessa sua primeira passagem pelo interior ou você não fez amizade, assim?

 

R – Teve um cara legal que foi quem fez a minha primeira tatuagem. Ele era um tatuador, andarilho, foi preso lá porque matou um cara a paulada, ele me falou que o cara tava querendo abusar de uma mulher e por causa disso, ele matou o cara a paulada e foi preso. E ele era tatuador, ele na cidade assim, ele era andarilho, você falava na cidade, ele era um artista o cara, meu, eu tinha uns cadernos, eu sempre gostei de escrever, de ler e eu tinha um caderno que eu ficava escrevendo e aí, ele me pediu esse caderno de vez em quando, ele fazia tatuagem. Ele chegava nas cidades, por exemplo, nas cidades que ele chegava, ele chegava e: “Olha, eu quero…”, chegava num bar: “Posso fazer um desenho bonito aqui?”, o cara: “Não, você vai sujar toda a minha parede” “Não, o que você quer?, o cara: “Desenha uma floresta, desenha uma praia”, ele desenhava e falava: “Vai ficar assim, você quer?”, aí ele cobrava uma graninha do cara e fazia, ficava show de bola. Aí, ele começou a  a tatuar os caras na cadeia e falou: “E aí, Vanderlei, vamos fazer essa aqui? Essa aqui é bonita pra você, hein”, falei: “Não, você é louco rapaz? Tatuagem nada, agulha, eu morro de medo de agulha, não vou não”. Aí, ele tatuou quase a cadeia inteira, aí de repente, ele fez um desenho no meu caderno assim, falou: “Olha Vanderlei”, eu olhei assim, falei: “Nossa, caramba, veio, tatuagem louca essa aqui”, ele falou: “Eu fiz pensando em você, veio, vamos?, falei: “Cara, isso aí não é uma tatuagem, isso aí é m símbolo, mano”, e aí, eu peguei e falei: “Mano, só se você prometer em não fazer em mais ninguém veio”, aí ele fez em mim, tá aqui, tatuagem, é o símbolo da paz e liberdade para o povo brasileiro. Depois tá no livro, acho que vocês vão editar lá o livro lá, é a capa da minha história do livro, tá essa tatuagem também, tá aqui, fez em mim, entendeu? Então foi o cara que me marcou legal, lá. É, história interessante.

 

P/1 – E você me diz de novo, quem eram essas pessoas que andavam com você nessa primeira quadrilha, eram pessoas que cresceram com você na escola?

 

R – Eram meus primos. Lá só tinha os primos, não tinha conhecimento nenhum. Eram só os primos mesmo, no caso, era o filho da minha tia, né, o Joabi e o Vagner que foi comigo fugido daqui pra lá, né, mas o Vagner não foi preso nessa treta aí, tava só eu e o Joabi, mas na verdade, quem assumiu fui eu, entendeu? Aí, era só nós, não tinha… era só nós, mesmo.

 

P/1 – E na delegacia, como é que foi? No 34º?

 

R – No 34?

 

P/1 – É.

 

R – Lá em Pacaembu foi de boa, lá pessoal tudo educado, tal, lá os caras falavam: “Então aí, por favor”, aqui se você passasse numa porta sem pedir licença, você tomava canada. No 34, foi assim também, aí fui preso, né, fui pra lá, fiquei um dia no corró, lá, assinei tudo, já tava tudo pronto, já tinha a minha prisão preventiva já decretada, porque o meu parceiro acho que falou lá, né, o policial depois me contando: “Pô Di, você me entregou, pô?” “Não, não entreguei não, mas os cara ia me matar, se eu não falasse, os cara me matava na delegacia, assim quebraram a perna dele, tentaram matar, quebraram a perna dele dentro do carro, tentaram matar ele, ele me contando depois, diz que quando ele chegou no hospital, quem salvou ele foi uma enfermeira que falou: ‘Não, aqui já era, aqui você não vai mais matar ele não, se não mataram no carro, agora já era”, aí mas cheguei lá, me colocaram ali, depois me colocaram na cela, como eu já tinha conhecimento do crime, fui recebido, entendeu, já conhecia as regras da cadeia, cheguei lá fui bem recebido, já cheguei, já fui direto para o banheiro, já tomei banho, os caras falaram: “Opa, esse aí é malandro”, aí já conheci um, tem um monte de cara que vai preso, também, aí já conheci um, falou: “Vem pro barraco, aqui, irmão, chega ai”, aí fiquei lá, fiquei um ano nessa delegacia do 34.

 

P/1 – Mas a delegacia é para ser uma situação provisória, geralmente, né?

 

R – Então, era para ser provisória, né, é que nem hoje, hoje um ladrão vai preso, ele vai para a delegacia, ele fica um ou dois lá, mas dali, ele já é encaminhado para os DPs que são cadeias maiores aqui onde a pessoa fica aguardando o processo transitório lá, se vai ser condenado ou não. Antigamente não, ele ficava na delegacia, entendeu? Lá tinha carceragem, lá no fundo, que era composto por cinco, seis barracos, cada barraco com 30, 40 ladrão e um pátio pequeno, onde abria-se de manhã, servia o café da manhã e logo depois, abria as celas e todo mundo saía, todo mundo, 250 pessoas num pátio de 12 por seis, vai, mais ou menos, 12 por seis ou por cinco, com umas colunas no meio, assim, ficava todo mundo ali, cara, jogando baralho e uns cavando buraco lá dentro da cela, entendeu, ficava as equipe… os tatuzeiro ficava… não perdia tempo, não ficava rodando o pátio não, eles ficava cavando buraco, era dia e noite cavando buraco, fazendo televisão na parede, né, televisão é buraco, fazendo buraco na parede, fazendo buraco no teto, fazendo buraco no chão pra fugir, entendeu? E eu não, eu não participava disso, eu era mais sossegado, eu ficava fazendo manual, eu aprendi a fazer manuais, fazer pulseira, a escrever nome em caneta, eu fui aprendendo, eu fui… eu precisava de alguma coisa pra ocupar a mente, então lá eu ficava nessa, eu ficava jogando baralho, mas era uma loucura, cara, imagina 250 pessoas num espacinho desse aqui? Um monte de pessoa andando, o movimento da cadeia, a maioria do passatempo é andar, então ficava andando no pátio, mano, o dia inteiro, o dia inteiro andando no pátio ou jogando baralho, ou fazendo manuais ou alguma outra atividadezinha, lavando uma roupa, tal. E os caras, de repente, quando tá todo mundo sossegado lá no pátio, lá, daqui a pouco, o GOI chegava dando um tiro pra dentro todo mundo lá dentro da gaiola, pá, pá, pá… todo mundo entrava pra dentro dos barraco, igual rato, vai tudo de uma vez só, o pátio fica livre, vai todo mundo pra dentro do barraco. Aí, quando nós vai ver, tinha um tatu sendo cavado lá no X5, no X6, no X1, entendeu? E aí, o passarinho, que tinha uns cagueta dentro da cadeia também que era… devia pro delegado de alguma forma, não sei, caguetava de alguma forma também, era os passarinho que nós chamava, né, nossa, quando pegava um passarinho veio, que dó que dava, eu vi uns caras sofrer demais ali, mano, os cara descobria. Aí, entrava o Choque, o GOI, com bala de tiro e tudo, todo mundo entrava por aquela porta assim… e todo mundo no paredão de trás assim, todo mundo já pelado. Todo mundo sabe, quando chega o Choque, o GOI, pode tirar a  roupa e ficar todo mundo pelado, joga a roupa para o meio do barraco e fica todo mundo pelado lá no canto, um em cima do outro, 25, 30 ladrãozinho, um em cima do outro, espremidinho no cantinho, os caras chega dando tiro também, quem fica mais beirando aqui, é o que vai sofrer. E aí, depois tirava todo mundo, barraco por barraco, revistava o barraco, ficavam batendo na parede, porque ladrão é uma desgraça, cara, os cara fazia buraco no chão assim, tinha um cimento, cara mas você não conseguia ver onde era, então os cara vinha com martelo, assim, marretinha assim para ficar descobrindo, ficava uma hora em cada cela pra descobrir onde era o buraco. Na única que tinha o buraco que descobriram, já sabia, porque o banheiro já tava cheio de papai noel, que na verdade, são os sacos cheios de terra que saiu do chão. Normalmente, quando cai esse tatu, o tatu já tá saindo lá do outro lado, já passou por debaixo dos alicerces, entendeu, os caras tomando choque lá embaixo, porque tudo úmido, tem água, terra… os cara faz fiação  para ter iluminação, não tem fio, então os caras vão emendando a tampa do bandeco que é de alumínio e fazia e ia mandando, então tomando choque… é louco, entrei uma vez só pra ver, os caras estava lá, os cara: “Chega aí, vamos ver aí, chega aí, Alemão pra você ver o bagulho louco”, já tava mais envolvido com os caras, os cara mais pesado, né? Inclusive, um desses quando chegou que era um cara ferradão e eu não sabia, né, mas ele chegou lá, não tinha nada, parecia um zé ninguém, que ele chegou bem na humildade, tal, não tinha nada, os cara colocou ele lá, destacaram, ele veio de Santos, colocou ele no X dos vacilão, pensaram que ele era vacilão, aí daqui a pouco, ele virou com umas linha, mexendo numas linha: “Arruma um pedaço de linha pra mim ai”, aí mandei uma linha pra ele lá, daqui a pouco, ele mandou pra mim uma pulseira com nome, ele falou: “Como que e o seu nome?” “Vanderlei”, mandou um pulseira com o nome de Vanderlei, falei: “Oh meu, da hora, você faz isso aí?”, aí peguei uma amizade com ele, ele me ensinou, foi quando eu comecei a trabalhar com manual, me ensinou a fazer essas pulseiras com nome, me ensinou fazer vários tipos de pulseira e tal e daqui a pouco, começou a  chegar umas visitas pra ele e tal, entendeu, e eu ajudando ele, não tinha cigarro, não tinha nada, ele tinha vindo de Santos. E aí, eu forneci cigarro pra ele, criamos uma amizade, mas daqui a pouco, começou a chegar uns parceiro dele, começou a chegar umas mulher pra ele e tal e a gente viu que ele começou… e ele começou a pegar amizade com os caras da cadeia também, os barra pesada e ele virou o chefe da cadeia, depois se tornou até líder de uma facção grande aí, encontrei com ele na detenção, ele me ajudou lá, fui morar no barraco dele, tal, para ele me dar uma força, entendeu? Mas aí, era assim, cara, os caras começavam a fazer buraco, aí o Choque entrava, bala em todo mundo, aí depois, tirava todos os barracos todo mundo pelado, encostava lá no cantão do pátio, lá, aí os cara ficava zoando, né, com nós, ficava jogando sabonete em nós, pegava… eles tinham um porrete desse tamanho aqui, escrito “direitos humanos” na ponta, um taco de baseball, aí os caras ficavam um jogando shampoo pra cima e outro rebatendo em ciam de nós, pá, pá, pá. Aí depois, na hora que fez a cela, aquele barraco que foi descoberto o tatu, o buraco, o túnel, aquele ali já não podia ir mais ninguém. Então, se o barraco tinha 30, agora ia ir para… 25, 30 pessoas, distribuía daquele barraco para os outros cinco, ia ficar com 25, 35 cada barraco, entendeu? E ainda pra entrar, era onde que vinha ainda a humilhação ainda, todo mundo pelado, né, e os caras na porta do barraco: “Vai, entra. Você é de que barraco?”, aí os caras falavam, separava aqueles caras do barraco ali, eles punha separado, aí todo muno entrava nos seus barraco e depois, na hora daqueles caras entrar para o barraco dividido, né, vai, aí tinha que baixar assim, o cara aqui com o porrete dos direitos humanos assim, o cara abaixava, ele tomava uma porretada dos direitos humanos na bunda. Aí ficava três dias com o vergão lá, não podia nem sentar os caras, coitados. Mas eu , graças a Deus, cara, nessa minha caminhada aí nesse DP, eu graças a Deus, Deus me protegeu, não tomei uma canada, não tomei uma panelada na cabeça, os cara dava, batia, zoava, não fui humilhado nesse sentido assim, entendeu? Então foi essa aí. Aí, em 98, a gente tava tentando fugir de tudo quanto é forma, lá na época, eu também queria fugir, se tivesse um buraco, eu ia.

 

P/1 – Da delegacia?

 

R – É, da delegacia. Eu tava querendo, mas não tive essa oportunidade, tanto é que os caras tentou tanto, tentou tanto, as veze, tinha dia que o Choque entrava duas vez lá, caía um buraco de manhã e a tardem caia uma televisão, que os caras tinham passado batido e não descobriu o negócio, que era tão bem feita a camuflagem dos ladrão, ladrão é imagem do cão, rapaz, o cara é fogo. Aí, chegou numa época que os caras falaram: “Aqui não dá, aqui não tem como fugir, vamos virar o bagulho”, aí teve uma rebelião, virou tudo, arrancamo todas as grades, colchão com fogo lá fora, aí daqui a pouco, já chegou imprensa, chegou os corregedor e os cara reclamando, né: “No tem condições, são 30 ladroes numa cela, não sei o que…”, aí começou um monte de reivindicação, né, mas aí não teve como, aí os caras desativou lá, porque não tinha mais condições, quebramos tudo, aí foi m tanto pra cá, um tanto pra lá, eu fui para o 15º DP no Itaim, cadeia de 121, cadeia de assassino e tal e ladrão não se dá muito bem com 121, que a maioria é pé de pato, tal, mas eu cheguei num grupinho bom de uns dez caras, então nós ficou tudo sossegado, os caras não mexia com nós, nós não mexia com eles, mas lá, você não podia colocar um prego no chão, que já tinha um monte de cagueta, caguetava pro delegado e aí, entrava o Choque da cadeia mesmo e arrepiava nós tudo. Aí, não deu pra fazer nada, mas aí também com dois mês lá, chegou minha condenação, dez anos, 20 dias… dez anos, dez meses e 20 dias, aí rapidinho, o delegado disse: “Vixi, esse aí vai tentar fugir de tudo quanto é jeito”, aí mandou pra detenção. Foi quando eu cheguei lá, em 98.

 

P/1 – No Carandiru?

 

R – É, atraquei lá no Pavilhão 9 do Carandiru. E foi nessa época também… não, ainda não tinha começado, eu cheguei lá, fui pro Pavilhão 9, aí fui pro Pavilhão 9, e tal, fiquei lá na triagem uma semana, sofrimento do caramba também, uma salinha igual a essa também, só que não e mais com 20, agora é com 40, entendeu? As grade tudo lacrada, cheio de percevejo, cara, como tinha percevejo. Imagina, agora 40 caras numa salinha dessa, 40 numa cela desse tamanho! Com uma grade lá assim, só que tampada, que os cara tampava, neguinho fazendo café, a gente improvisava tudo lá, fazia café, fazia tal, mas aí de noite pra dormir, era o pior veneno lá, que eu no começo, dormia no chão, mas era outro sofrimento, que era uma loucura. Aí, na cama, que era uma cama assim, dormiam três, era de dadinho, só que antes de dormir, você tinha que ascender um fogareirozinho com jornal pra queimar as beiradinhas assim, porque as beiradinhas eram enfileiradas com percevejo, um em cima do outro. Então, cara, olha, foi uma semana sofrida. Eu sai de lá igual um cachorro carnicento, cara, a minha pele parecia um monte de carniça dos percevejos, eles mordem assim, olha, aí depois vira uma bola, vira uma bola de carne, um negócio louco, foi sofrido. depois eu sai, um amigo meu, o Benó lá de Pacaembu, que a gente se conheceu no 34 viu que eu cheguei lá, falou: “Quando vencer seus dias aí de castigo aí, você vem morar com nós”, aí fui morar com ele, aí foi quando começou a melhorar e tal. Morei com ele um tempo, depois comprei o meu barraco… minha cama, que foi nessa época que já tá ai comentada, que chegou o meu parceiro, o finado Di e teve tudo aquilo lá, né, aí depois de tudo isso aí, o Di foi viajar para… foi transferido lá para Pirajuí, se eu não me engano, é Pirajuí, será que é Pirajuí? Rapaz, eu esqueci o nome da cadeia que ele foi, mas tudo bem. E aí, quando ele saiu, aí esse cara que eu traficava pra ele no Taboão, que eu era o gerente da boca dele tava preso lá também, no Pavilhão 8. E o Pavilhão 9 era muito moleque novo, muito cara novato, sabe, muita briga, muita confusão por causa de bobeira e tal, tinha um monte de regras, um monte de situaçõezinhas que se você desse uma erradinha, você entrava na paulada, você tomava facada, um monte de coisas, entendeu, um monte de regrinha besta. Já o Pavilhão 8, não, o Pavilhão 8 era um pavilhão de uns caras mais reincidentes, mais antigos, então era um negócio mais liberado, os caras: “Não, isso aí é besteira, deixa os caras pra lá”, então lá você podia andar conforme os caras estavam servindo a boia, podia andar. Pavilhão 9, se você desse um… se você pisasse no chão da galeria quando tivesse servindo boia, você tomava um par de paulada, entendeu, tinha um monte de regra que tinha no nove que não tinha no oito. Daí, eu fui pra lá, o cara falou: ‘não fica aí, não, isso aí tá morrendo gente todo dia aí, os caras matam um de manhã e amarram outro pra matar a tarde”, aí fui lá morar com ele no quinto andar do Pavilhão 8. E aí fiquei lá. Fiquei lá um bom tempo e aí, foi onde eu também tive a última visão do meu pai, que foi me visitar lá e a gente falou pela última vez e tal, porque depois disso, também, nunca mais vi, na verdade, ele sumiu, não sei o quê que se deu dele, já faz 15 anos que o meu pai sumiu, né, desde aquela época…

 

P/1 – Sumiu?

 

R – Sumiu, sumiu sumindo, falou que ia trabalhar e nunca mais voltou. Eu creio e lógico pelo o que eu sei, ou mataram por causa da droga, ou ele tá louco andando na rua por aí, pode ser que esteja e todo mendigo que eu olho na rua até hoje, eu olho a cara pra ver se não é ele, entendeu? Mas nós não sabemos, não temos certeza, procuramos… na época, eu tava preso, ele sumiu, mas minha mãe disse que procuraram em tudo quanto é hospital, IML, tudo quanto é delegacia, tudo quanto é lugar, procuraram e não acharam, ele sumiu. A última imagem que eu tenho dele é dele saindo da detenção e ainda derrubando uma lagrima ainda por mim.

 

P/1 – Pesado, né?

 

R – Pesado o bagulho, né? Saudade dele, eu não pude nem derramar uma lágrima pelo velho. Não sei se tá morto, né, meu…

 

P/1 – Mas me fala, você fez amizade lá também?

 

R – Onde?

 

P/1 – No Carandiru?

 

R – Fiz. Lá, eu fiquei três anos e meio, né, lá… Carandiru, assim, para um ladrão era um paraíso. Lá tinha tudo, era uma cidade, lá não tinha… vocês vão ver nas fotos, eu de bermuda, chinelão, camiseta aqui, no meio do pátio fazendo o que eu queria, ali não tinha regra, não tinha regra. Quem dominava era o ladrão, carcereiro só entrava as oito horas da manhã, ia de andar em andar, os quatro andar fazendo… abrindo as celas, depois ele descia, acabou, ele não entrava mais, só entrava pra trancar as celas, quem mandava lá era o ladrão, não tinha policia lá dentro, lá você saía fumando um baseado, só não passava na frente dele por respeito, praticamente, passou pela carceragem, caminho do campo, pelo corredor, você podia ascender seu baseado e sair andando. Eu ia lá, pegava o meu baseado, ia lá para o canto fazer os meus manual, entendeu, quando eu fazia boneca, fazia ursinho de pelúcia, várias atividades que eu aprendi a fazer lá, eu ia lá, ficava fumando um baseado e fazendo, caneta com nome, várias coisas, mas quem dominava lá era o ladrão, não tinha esse negócio de policia, não. Policia só na rua, na cadeia não tem negócio… até hoje, não tem regra em cadeia nenhuma, quem manda é o ladrão. Lá dentro, os caras podem mandar da carceragem pra lá, os procedimentos burocráticos, mas lá dentro, quem comanda é ladrão, não tem esse negócio, não. Mas fiz muita amizade, muita amizade lá, entendeu, graças a Deus, eu nunca dei mancada com ninguém, eu entrei sujeito homem… entrei como bandido e lá, fui tendo várias experiências também, porque Deus tinha um propósito na minha vida ainda lá e eu creio hoje, hoje, a gente olhando pra trás, eu consigo ver que Deus tinha um propósito na minha vida e ele só ia  conseguir alcançar esse propósito se eu tivesse lá porque se eu tivesse na rua, eu ia ser morto, porque eu não ia conseguir largar a droga, não ia conseguir largar o crime, entendeu? Então, Deus, quando ele tem algo na vida da pessoa, às vezes, ele permite: “Se você crê em Deus, por quê que você tá na cadeia?”, porque às vezes, Deus permite você passar por essas situações que é para ele te moldar, entendeu? E foi o que aconteceu comigo. lá dentro, eu ainda tava usando, que nem eu falei pra você, eu ia fumar maconha, fazer o meu manual, pá, pá, pá… mas lá, eu fui tendo os meus encontros com ele, fui tendo situações difíceis, difíceis mesmo, de morte, assim, cara que eu falava com ele, quando eu via que o negócio apertava, que o negócio tava feio, eu falava: “Senhor, me ajuda pai, me ajuda, que se o Senhor me ajudar, eu paro de beber, eu paro de usar maconha, eu paro de usar cocaína”, e cada uma dessas drogas que eu usava, foi uma cena de louco, de morte que Deus me deu livramento e que eu parei por causa disso, porque foi votos que eu fiz com o Senhor, coisa pesada, mesmo, que lá tinha muita malandragem, assim, muita pilantragem, também. Teve uma época lá que tinha… que nem eu te falei, quando começou esse movimento de desativação dos DPs de São Paulo e todo mundo ia pra lá, então, uma cama que antigamente não valia nada pra você dormir, passou a valer 100, 200 reais, porque agora tinha muita procura. Todo mundo tava indo pra lá dos DPs e muita briga, muita morte, que nos DPs tem muito inimigo, tem os pilantras, tem o safado enrustido no meio do ladrão, que aí chegava na detenção, sempre um conhece, cara, se o cara é estuprador na sua quebrada, na delegacia que  é pequena, tem 50 ladrão, 60, pode ser que ninguém te conheça, pode ser. Mas eu já vi muitos também morrer também ali de serem descobertos. Mas quando chegava na detenção, tinha três mil ladrão, alguém ia te conhecer, cara, alguém ia te conhecer. Então, tinha morte todo dia. Quando tava nesse processo, nesse borbulhão de loucura, de desativação, todo dia chegava bonde na detenção, todo dia tinha morte, duas, três, morria dois de dia e de noite, os cara tava amarrado pra morrer de novo. Foi um processo louco, lá. Mas conheci muita gente lá, os caras gostavam de mim, me consideravam, porque eu não dava mancada, eu agia certinho, os caras viam o proceder de mim, tanto é que me convidaram pra fazer parte de facção, e eu não: “Obrigado, não quero, eu vou tentar de novo, quando eu sair, viver uma vida… tentar uma vida de novo, trabalhador, honesto”, e os caras respeitam, os cara falaram: “Oh, Alemão, você é maior firmeza, vai nessa mesmo, vai nessa mesmo e não volta mais não, não volta mais não, porque você tá ligado, essa vida aqui é podre, o crime é podre, não admite falha e você tá saindo com a cabeça erguida? Sai e para mesmo”, aí eu sai, parei mesmo. Aí, quando… eu tava te falando, teve várias situações nessas pilantragens que os caras queriam fazer, roubadinha, por exemplo, eu tinha uma cama, chegou uma época que eu tinha um barraco, trabalhando, tal, eu consegui comprar um barraco…

 

P/1 – Só pra você?

 

R – Só pra mim, pra eu e pra mais dois, na verdade. Eu comprei 1/3 de um barraco, um barraco que agora era metade disso aqui, com três camas ali, chuveiro, uma bigorninha pra gente fazer a nossa comida, nosso recorte, tal, chuveirinho, tal, uma privadinha, quer dizer, você não tava mais no meio de 30, você tava com mais dois, só, já é um estilo melhor, você já tá mais sossegado, menos pilantragem, menos… porque você tá no meio da multidão ali, some as suas coisas, o drogado cata o seu bagulho, não sei o que… é uma loucura. E nessa que eu tô com o meu barraco, os cara querem fazer roubadinha, quer tomar o seu barraco, porque o seu barraco tá valendo três mil reais, entendeu? É mil seu e mil de cada e aí, os caras querem fazer roubadinha. Os caras… não era diferente de ninguém, mesmo um cara considerado, os caras sabiam quem eu era, mas mesmo assim, os caras querem tomar o que é seu, entendeu? E nessas daí, um vez o cara quis tomar o que era meu… uma vez, o cara tava vendendo bichinho de pelúcia e tal, aí pá, eu fazia cachorrinho de pelúcia, ursinho, coisa mais linda, cara, eu vendia, tinha uma barraca lá que eu montava no final de semana, dia de visita e lá, eu punha, durante a semana, ia fabricando caneta, punha um monte de caneta. Aí fazia quadro assim, com dez, 20 canetas com “Eu te amo”, canetas bonitas, coisa legal, coisa de luxo, linha Suzy, aquelas brilhosas, legal. Aí, tinha bichinho de pelúcia, tinha bonequinha de lá, tudo coisa linda, os caras olhavam assim e falavam: “Oh meu, mas você traz da rua isso aqui?”, os ladrão, eu: “Não, eu fabrico aqui mesmo", os caras: “Nem na rua eu vejo presente dessa qualidade, tal, legal mesmo”, e ali na banca eu vendia, “Que X você é? Que barraco? Pode pegar, tal hora, acabou a visita, eu tô lá pra receber”, e era assim o processo de venda, né, visitante ia visitar, chegava lá, encontrava com o marido, tal, o marido dava um presentinho, não cobrava nada na hora, aí depois que  visita acabava, aí começa a loucura dos ladrão rodar os andar atrás de quem tava devendo, barraco tal, ia no barraco: “E aí, mano? Cadê? Paga ai” “Espera um pouquinho aí, eu vou cobrar as drogas ali que eu vendi ali, passa aqui daqui meia hora”, já pegava os dez, 15 maços que era o bichinho de pelúcia que eu fazia, né, era bonequinha, cachorrinho, às vezes, fazia uns cachorrão assim, assim de 50 maços de cigarro, vários moldes que eu tinha, ia inventando, fabricava cachaça, lá o bagulho é louco. Lá, um copo desse de cachaça aqui era 30 reais, uma garrafa era 100 contos, uma garrafa de dois litros era 100 contos, entendeu? Eu fabricava lá dentro também, eu fazia tudo. Eu me envolvia com tudo, entendeu? E aí, o cara foi querer comprar o que não tava… o cara quis pegar o meu barraco, aí o cara foi lá, chegou, tinha o meu vendedor também que eu fabricava, e eu vendia. Durante a semana, tinha um vendedor que era o Claudinho da Cidade, uma lenda viva lá na casa de detenção, tava pagando dez anos também e ele era o meu vendedor, era o Correria, o cara super bem com a vida, imagina o cara cheio de ideia, maior malandro mesmo, sabe um cara feliz com a vida, mesmo preso, o cara tava feliz, você via o cara que brincava com todo mundo, chegava uma visita, passava as crianças e dava, às vezes, ficava bravo com ele porque ele dava os meus presentes, eu mandava ele vender, ele via uma criança chorando, ele dava uma bonequinha de lã, depois chegava; “E a bonequinha lá, não aguentei ver chorar e não sei o que…” “Pô, Claudinho, tô precisando de dinheiro” (risos), mas o cara tava tirando 30 anos, já, cara. Inclusive, naquele… tem uma filmagem que eu tava lá, só não sai na filmagem, mas fizeram lá na casa de detenção, uns amigo meu que fez lá, o rap lá, os caras fez a filmagem lá que é a realidade, esse filme “Carandiru” mesmo não retrata, são atores, quem quer conhecer a realidade do Carandiru mesmo, procura no documentário “Aqui Dentro”, não, “Aqui Dentro” foi o livro, “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, entendeu? É um documentário que fizeram, lá dentro, os caras foi… uma empresa de filmagem, né, ensinou os detentos a filmar, soltou as câmeras nas mãos deles e lá filmou o Carandiru por dentro, como era na verdade, então ali tá, chama “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, e esse meu que era o Correria, ele aparece no final, aparece no meio da reportagem, que ele era um cara ativo e de bem com a vida e fazia poema, poeta, entendeu? E no final, ele passa recitando um poema do… que ele fez e tal, demais cara. E ali, era assim, era o dia a dia, ia passando, ia passando e de vez em quando, o Choque invadia, quando sabia de algum buraco, tatu também que faziam lá embaixo, ali no campo, os ladrão também caçava pra sair pelo outro buraco lá, sair lá na rede de esgoto que eu já vi umas duas vezes que conseguiram, que foi um negócio de louco, cena de filme também. Olha, ali… então, aí o cara veio querer, como eu tava falando, né, situações que me levaram a sair do crime e a sair da droga. Chegou um cara pra comprar, cara faxineiro, faxina é a espinha dorsal da cadeia, eles são os caras que mandam, na verdade, dos ladrão, eles que mandam nos ladrão, tudo ladrão, mas eles são os responsáveis. Aí chegou um faxineiro lá, no final da tranca,. já tava com o barraco fechado, aí ele queria comprar um bonequinho meu, só que era quase Natal e eu pedi acho que dez metros de pelúcia para minha mãe, mas ela mandou três, aí eu tinha como vender fiado, aí eu falei pro Claudinho, né, que é esse meu vendedor, falei: “Não vende fiado pra ninguém porque eu tenho que arrecadar dinheiro pra comprar mais”, aí beleza. Aí daqui a pouco: “O cara quer ali fiado…”, eu falei: “Não, não vende pra ninguém”, não vendeu “O Outro ali também quer” “Não, não vende, cara, você sabe que não é, a palavra tem que ser uma só”, porque se eu vender pro outro, aquele ouro que eu não vendi, vai vim aqui e vai me bater, porque é assim que funciona, pode ser um zé ruela, mas ele vai vim me bater, vai falar: “Você vendeu pro outro e não vendeu pra mim, por quê?”, já me dava umas pauladas e já tomava o meu barraco, era assim que funcionava. Aí, daqui a pouco, chegou no guichê, chegou dois, chegou e falou: “Alemão, vende pra mim aí, não sei o que, sou da faxina ali, meu, tal, vai desconfiar de mim, meu?”, eu falei: “Não é questão de desconfiar, cara, que não posso vender, não tem como” “Cara, você sempre vendeu pra todo mundo fiado” ‘Então, mas dessa vez, eu já não posso e no vou vender”, na hora que eu fali “Não vou vender”, mano, o cara saiu bravo, saiu no guichê, assim, ele tava no lado de fora, né, na porta, ele bateu na porta assim: “Filho da puta, você vai ver se não vai vender ou se vai. Vou lá buscar as faca agora”, eu falei: “Pode ir”, mas apavorado, treta de faxina, cara, é treta de morte , são poucos que escapa, que eu me lembre, pouca situação que um comum, né, – que a gente era chamado de comum – que prevalecia dobre uma treta dessa na faxina. Aí, o cara saiu, mano, o cara saiu, mas ficou o outro ali do lado, ali pra ver qual que era, os caras queria roubar o meu barraco. Aí, ficou um do lado, um que eu não dei nada, depois eu fui saber que ele era um general. Falei pra ele: “Tá vendo aí, não posso vender” “Mas por quê?”, uma roubadinha, né, essa aí é a roubadinha, os caras arma, mas ele falou: “Mar por quê?”, falei: “Não, cara, seguinte, você tá esperando um carregamento de cinco quilos de maconha aí, só chega um pra você, você vai vender fiado?”, ele falou: “Não,. tenho que levantar dinheiro”, falei: “Então, é a mesma situação”, ele falou: “É? beleza”, aí ele foi embora também, aí eu já fui pra minha cama, dobrei meu joelho e falei com o Senhor… que eu sabia que eu ia morrer, ali não tinha negócio de aí e tal… não, ali, o cara saiu falando que ia pegar as facas, é cena de morte, os cara ia linchar seu barraco e ia te matar lá dentro e já era, o lagarto ia pegar pelo seu pé e ia te levar pra carceragem. Aí, eu dobrei o joelho e falei assim: “Senhor, tal, se o Senhor me libertar dessa, eu paro de usar maconha, eu nunca mais vou por maconha na minha boca”, aí beleza. Daqui a pouco vem o cara, bravo, ele tava querendo acho que armar pra mim e não conseguiu, porque eu não dei o braço a torcer, se eu falo: “Mano, você é da faxina, eu vou vender”, na hora ali, ele já linchava o barraco, já me dava umas pauladas e me mandava pro cinco, ele ia falar: ‘mano, você não vendeu pra ninguém aí, por que você tá vendendo pra mim? Sua palavra é duas, então, sou melhor do que os outros?”, mas não vendi. Daqui a pouco, chegou no barraco: ‘Toma aí, me dá o bonequinho aí pra mim”, ele pegou e saiu fora. Aí foi a situação, aí eu parei de fumar maconha, nunca mais eu fumei maconha e teve várias outras situações também difíceis, situação de eu engolir droga e chegar lá no presidio lá, ia por pra fora, não consegui, sai antes no ônibus e tal, eu falei assim: “E agora e tal? Não sei o que… “, e colocar no tênis aqui e chegar lá na carceragem do outro presidio lá, você já é recebido com sessão de boxe e paulada, essas penitenciarias quando foi desativada a detenção, era assim que nós era recebido lá e eu sabia, só que cheguei lá com droga que já tinha sido vomitada por mim dentro do tênis aqui, algemado no ônibus assim, né, e o policial andando no ônibus de lá pra cá e o bagulho fermentando no meu estômago e eu… vomitar aqui, ainda consegui pegar aqui, senão, já ia cair a casa ali mesmo, colocar no tênis, chegar lá no presidio lá, pensando que ia ser de boa, você chega lá, meu, paulada pra todo lado, porrada, não si o que… foi onde eu aprendi também a pedir licença pra porta, entendeu, presidio do interior pode não ter um guarda, não ter ninguém ali, você tem que pedir licença pra porta, entendeu? E essa sessão de paulada, de soco é assim: “Aqui é assim, você tem que pedir licença pra porta, baixar a cabeça quando vai passar que senão, é assim, velho, que nós trata, aqui não é detenção não”. Aí, beleza, aí joga nós numa cela, né, e o bagulho no tênis, duas peteca de uma grama de crack, que foi na desativação e eu tava cheio de ursinho de pelúcia e tal pra vender, mas aí cantou meu bonde: “157493, arruma suas coisas aí, amanhã  cedo você vai”, aí eu tinha que fazer o que com aquele monte de coisa que eu tinha, meu? Falei: “Caramba, ia fazer uma festa boa no Natal, aí, ia ganhar maço pra caramba”, tinha um traficante no barraco, eu falei: ‘mano, o quê que você tem aí que dá pra negociar?”, ele me deu duas gramas de crack, falei: “Pô, com duas gramas de crack, eu enrolo em dois pacotinhos de uma grama, engulo, que é o meio de transporte normal usado na cadeia, chega lá, eu vomito, enfio o dedo na garganta e vomito, se não sai pelo vomito, sai pelo modo natural, também, mas é tudo bem embaladinho, no plástico, camisinha, tal, tal, tal, com durex, é normal o meio de transporte na cadeia isso aí. Preso sai pra saidinha, volta com a barriga cheia lá pra dentro. Só que nessa, o bagulho saiu no ônibus, cara, e eu coloquei ali, aí quando cheguei lá, essa sessão tortura, daí coloca nós numa cela e aí, no outro dia, as nossas coisas tudo para o lado de fora, tênis, tudo que eles coloca nós nessa cela pelado, no outro dia, começou a revista. Aí, só que antes da revista, entrou um neguinho, tal… maior barato essa história também, você vai ver que legal. Aí, eu vi que era preso porque tava com a cabeça rapada, colocou um banquinho ali e falou: “Vamos cortar o cabelo”, todo mundo pelado cortando cabelo, pá, pá, pá, aí eu cheguei nele na minha vez e falei: “Você é preso também?”, ele falou: “Sou”, aí eu falei: ‘E aí, como que é essa revista aí, meu?”, ele falou: “Mano, se você tiver alguma coisa, veio, dispensa, aqui não passa nada, nem na pasta de dente, não passa nada”, falei: “Vixi, mano, e agora?” Meu tênis lá fora, tudo lá fora e tava debaixo da palmilha, né? Era uns Nike que tinha uns coiso assim, coloquei naqueles buraquinhos. Agora lascou, aí, dobra joelho de novo, mano (risos): “Senhor, dai-me livramento, não sei o que… prometo que não vou usar mais crack”, se eu fosse pego ali, eu ia ser condenado a mais cinco anos de cadeia e quando você é pego numa contravenção dentro da cadeia, você cumpre de ponta a ponta, não tem beneficio. Falei: ‘Nossa, cara, agora, não saio mais”, aí me desesperei, dobrei joelho também no meio de todos os caras lá, dobrei meu joelho e: “Senhor, tem misericórdia, me liberta, me salva, me tira dessa aqui, que eu não uso mais droga, não sei o que”, entendeu? E essas situações que foram me libertando e aí, aconteceu um milagre mesmo, porque aí foi um… e eu só do guichê olhando como que era a revista, os cara punha as coisas em cima do balcão, tudo em cima do balcão, ficava um guarda na porta, o balcão ali dentro, dois caras fazendo a revista lá e você aqui do lado de cá do balcão. Aí, vai um, vai outro, eu falei: “Vixi mano, e agora?”, chegou minha vez, mesma cena, peguei os bagulho, coloquei tudo lá dentro e só o tênis que ficou embaixo, só que ano tinha como eu chutar o tênis pro lado ou tentar tirar, porque tinha um guarda aqui na porta olhando pra mim, assim, olha. Eu falei: “Nossa cara, agora lascou, agora só Deus mesmo”. Aí, milagre, você vê como Deus e bom, é milagre, quando a gente aplica a fé, ele age. Aí, na minha hora, o cara revistou todas as minhas coisas, só faltava o tênis, aí quando tava acabando de revistar as minhas coisas, não sei quem chamou esse cara lá que tava atrás de mim, zóião em mim, chamou ele lá na porta, numa outra porta, lá, ele foi. Saiu. Mano, foi os 15 segundos de salvação da minha pele, eu abaixei pra pegar o tênis, “Falta alguma coisa aí embaixo?”, o cara falou pra mim, eu falei: “Falta”, fui baixar, já tirei a palmilha, já tchum, joguei do lado assim as duas pedrinhas de crack, tinha um montinho de coisa ali que é coisa que não entra na cadeia, utensílios que não podem lá dentro, cindo, não sei o que, vão jogando tudo lá do lado. Aí joguei lá minhas duas petequinhas de uma grama  e tal, ufa! Deus me deu… ali, Deus me deu a libertação do crack, que eu ainda tava preso também, então já tava liberto da maconha, agora fui liberto do crack, entendeu? Mas milagre isso aí, cara, depois nunca mais eu também pus crack na minha boca. Aí, beleza. Aí passei, aí vai planilha, os dedos, tal, tal, pra tirar impressão, aí daqui a pouco, tô lá no banheiro lavando a mão do negócio, aí entra o rapazinho lá que cortou o nosso cabelo, aí eu falei: “Meu…”, só que ainda tinha um perigo, se os caras vai lá, aquele cara que tava olhando ali, se ele olha pro lado e começa a perceber, ele ia ver as duas petecas de crack lá, duas bolinhas assim, ele ia ver e ele ia querer saber de quem era e se ninguém falasse, todo mundo ia entrar no pau, eu ia ter que me apresentar, entendeu? Então, eu ainda tinha um perigo grande. Aí, tô lá no banheiro preocupado, daqui a pouco, entrou o cabelereiro, até que eu descobri que ele era gay, normal, convivi com vários deles lá, não tenho preconceito, não, aí eu falei: “Você que tem liberdade aí, vai lá no cantinho assim, tem duas petequinhas de crack, e tal”, ele falou: ‘É mesmo cara?”, eu falei: “É”, aí ele foi, pegou, passou por mim assim já todo… ficou contentão, passou rebolando e não sei o que, eu falei: “Ih mano, o cara é gay”. Aí depois no final, quando eu sai dessa cadeia que foi em Lucélia, eu encontrei com ele, no final, no mesmo dia que eu fui transferido, ele tava saindo: “Você ao é o fulano de tal daquele dia lá?”, ele falou: “Foi”, eu falei assim: “E aí, o quê que você fez com aquela droga lá?” “Eu nem sabia que era crack, nada, eu nem sabia o que fazer, eu cheirei tudo lá”. História da hora, mas assim, Deus foi me libertando e outras situações, eu parei com a bebida, cigarro parei, eu creio que foi oração da minha mãe, que a minha mãe conta que tava orando e tal, e ela falou: ‘Eu tenho que levar cigarro pro meu filho”, que aí já era penitenciaria, eu tava chegando agora, eu não conseguia fazer manual, ainda, não tinha recurso. Aí diz ela que orou a Deus, ela não era cristã até então, o único que estava se enveredando por esse caminho era eu, né? Aí, ela falou que orando, pedindo a Deus do jeito dela, lá, disse: “Eu não quero mais levar cigarro pro meu filho”, foi bem o dia que durante à noite, eu olhei pro cigarro assim: “Já parei com tanta coisa, isso aqui é uma porcaria, não vou usar mais não”, aí tinham uns dois cigarros no maço, eu joguei, bateu no teto, caiu lá na privada. Aí parei também. Isso aí já faz… tô há 13 anos… é, faz uns 15 anos que eu parei de fumar. Acho que o meu pulmão já tá limpo, hein, cara, diz que é o mesmo tempo que você fuma, né, é o tempo que leva pro seu pulmão ficar limpo, eu fumei dez anos, então eu acho que o meu pulmão já tá… cara, maravilha! Mas foi assim que Deus foi agindo na minha vida, entendeu? E aí, de lá, eu fui para outro presidio, eu tava em Lucélia, né, aí fui para o semiaberto de Lucélia, ganhei progressão do regime, fui para o semiaberto de Lucélia e depois, do semiaberto de Lucélia, fui para o semiaberto de Valparaiso que era bem maior, tal. Lá eu trabalhava, ia pra roça, ia pra fazer horta. Lembro no primeiro dia que eu cheguei lá, que eu fui trabalhar, fui para horta. A horta era legal, você passava o dia inteiro lá, regando planta, no primeiro dia, o cara deu as dicas, o carcereiro, né, falou: “Tá vendo esse machado aqui?” “Tô”, aí tinha uns toco lá, ele falou assim, aí tava eu e um amigo meu, ele falou: ‘Pega esse machado aí e descasca essas árvores ai” “Como assim descascar árvore? Pega do lado fino e vi descascando, depois ela abre?” “Não, vem cá que eu vou te mostrar”, e catou para o outro lado que era um pedaço quadrado, assim: “Vai batendo na árvore aí, vai batendo na casca”, pá, pá, a casca ia esbagaçando, até você conseguir tirar, descascar a árvore, imagina! Cara, no outro dia, minha mão tava tudo cheio de bolha. Aí, descascou acho que umas quatro árvore, uns quatro tronco daqueles de árvore ali, que ali ia ser usado depois para construir as tenda pra proteger a horta do sol, os quadradinhos e tal, e ficava os saquinhos… aí, um punha o saquinho, punha terra no saquinho, o outro punha uma sementinha no saquinho, o outro completava o saquinho de terra, então tipo uma linha de produção, o outro ficava regando o dia inteiro, o outro ficava capinando, fazendo horta… outros trabalhava na rua, varrendo a rua e isso foi em Lucélia, depois fui pra Valparaiso e lá de Valparaiso já era semiaberto, entendeu, você podia sair, nas saidinhas, né, são cinco saidinhas no ano, você podia sair, saidinhas de dois, três dias, cinco dias no final do ano. E é um processo para readaptar, né, o presidiário à sociedade, tem que ir devagarzinho, que muitos ainda não conseguem escapar, não consegue se readaptar, não consegue sair do crime, quebrar essa corrente e volta para o crime, é o que mais acontece, né, 90% é envolvido por essa teia aí, que… não consegue sair desse ciclo. Eu, graças a Deus, tudo isso aí eu consegui sair e tô aí, cara, tô aí, já faz 13 anos, tô na luta. Hoje eu tô… dou gloria a Deus… e tem mais história aí, mas dou gloria a Deus que hoje eu tô bem e tô ainda reconstruindo a minha vida, mas já tô… creio que já tô legal, já tô bem, já tô satisfeito com o patamar que eu tô hoje.

 

PAUSA

 

 

P/1 – Você tava falando, então, que você já tava passando gradualmente da casa de detenção para o semiaberto…

 

R – Isso, eu já tinha passado por um pedaço do fechado, lá em Lucélia, e agora, eu tô em Valparaiso, nessa época, né? Acho que agora é 2002, eu tô em Valparaiso, no regime semiaberto.

 

P/1 – E aí, você já pode sair?

 

R – É, então, aí eu já saio, eu já tô voltando pra rua. Eu fiquei o ano todinho de 2003, todas as festas eu sai, né, acho que foi carnaval, Páscoa, depois acho que Dia das Mães, Dia dos Pais, não, passei um Natal antes, de 2002, depois, essas outras quatro que se sucederam no ano de 2003. E pra finalizar com chave de ouro também essa história de cadeia, teve outro fato também de Deus e do diabo, aquela luta pela minha alma que decidiu para que lado que eu ia ir, entendeu? Eu já tava voltado para a cadeia, já tava voltado para o cristianismo que eu já conhecia e aí, eu sou um cara que… eu sou bom, cara, se você conversar comigo direitinho, se… eu não sou bom, bom é Deus, mas se você conversar comigo direitinho, me pedir, cara, eu tiro tênis e te dou, eu tiro o que eu tiver, eu te dou, eu te dou o meu carro, entendeu? Mas você sabendo pedir com educação, com respeito, cara, você consegue bastante coisa. Agora, não queira pegar nada, cara, meu ou passar por cima de qualquer coisa que eu ache que não pode passar que é direito meu e você querer usurpar de mim, cara, não faz, porque se tem uma coisa que eu aprendi lá, cara, foi ser homem e correr atrás do meu direito e ser certo, entendeu, no que for. E aí, pra fechar esse negócio aí, nós tava na… nós tinha acabado de voltar da saidinha do Dia dos Pais, eu tava lá em Valparaiso, aí já tem um movimento maior dos detentos a procura da judiciaria, pra saber do seu processo, porque tá todo mundo querendo sair, porque quando você tá no fechado, você não liga muito, mas quando você pula para o semiaberto, já é um passo para a rua, então você quer saber: “Como tá o meu processo? Como tá minha apelação? Quanto tempo falta pra vencer minha cadeia?”, você vai na judiciaria, você manda um bilhete, manda o carcereiro entregar na judiciaria, ele entrega lá para o judiciário, o judiciário agenda um dia pra você e você vai. E todo dia tem uma fila, não é fila, mas todos os detentos ficam ali, fica um, fica conversando aqui, conversando aqui, a porta da carceragem pra você entrar lá pra dentro, para sair do presidio, da área dos ladrão pra entrar na área da judiciaria e fica todo mundo ali, de manhã, já, vai ficar todo mundo ali batendo papo, como eu falei, não tem fila, como que funciona? Eu cheguei, já tem uns dez, 20 lá, “Quem que é o último aí?” “Sou eu o último aqui” “Opa, eu sou o último agora, beleza?” “Beleza”, aí o outro que chega: “Quem que é o último aí?” “Sou eu”, então eu sei depois de quem que eu sou e ele sabe depois de quem que ele é, então, assim, não tem fila, não tem nada, mas é tudo super organizado, ninguém passa na frente de ninguém. Entendeu? Aí, chegou um cara… na minha vez, parece que isso aí foi mandado pelo diabo, velho, isso aí foi em novembro de 2003, chegou um cara lá de uma facção, tava na minha vez, eu sabia que eu era o próximo, então eu fiquei perto do portão pra ficar pra dentro, o cara não chegou e não ficou do meu lado? Falei: “Cara, o que esse cara quer?”, mas não imaginava, ele ficou trocando ideia comigo e tal, ficou conversando comigo. Aí de repente, saiu… tava saindo o atendimento e o carcereiro ia abrir o portão para mim entrar, o cara não foi passar na minha frente, não quis passar na minha frente? cara, na hora, parece que foi automático isso, que nem eu falo com a minha mulher, parece que quando alguém quer fazer isso comigo, hoje eu sou convertido, eu sou transformado, mas nesse tipo de situação, parece que sobre uma armadura de Robocop aqui, me transforma. Eu catei na mão do cara e falei: ‘não, não, parceiro aqui sou eu”, e entrei. Rapas, fui lá, fiz minha entrevista, quando eu voltei, imagina um dragão lá fora me esperando, só que aí, eu sai e ele entrou mas com os olhos fervendo de raiva, meu, o cara tava roxo e eu fui lá para o refeitório, tal, fiquei lá. Daqui a pouco, o cara voltou, bravo, mano, mas bravo, chegou xingando eu: “Filho da puta, você não tá ligado que eu sou faxina, rapaz? Como que você segura na minha mão, no meu braço, na frente do carcereiro? Tirando o meu respeito!”, ele queria me bater, só que na cadeia, na época, tinha a tal da bandeira branca, ninguém podia bater em ninguém e ninguém podia matar ninguém, ainda mais que nós tava no semiaberto, era difícil de acontecer. Mas nesse dia, ele queria me bater, aí eu falei: “Parceiro, é o seguinte, não vou debater nada com você aqui não, vamos lá no QG”, aí fomo lá pro barraco que chamávamos de Quartel General, onde fica os líder mesmo, os principais, quem decide a vida e a morte. Aí fomo lá, ele pensou que tava com a razão, mas eu conheço o crime, eu conheci a fundação de certas facções, sei como que é o principio dos cara, e tem caras novo que vai chegando, vê a gente ali na humildade e tal, pensa que a gente é bobo, entendeu, pensa que a gente foi pra cadeia de laranja e tal, mas não é, a gente também fez as nossas coisas erradas. Aí, chegou lá, ele pensou que ia ter razão com os irmão dele e tal e eu corri o risco, também, claro que eu corri o risco, porque ali, você só sai… ou você sai vivo, ou você sai morto, não tem… a maioria das vezes, quem vai pra ali sai morto, entendeu? Ainda mais treta com parceiro, com pessoas da mesma quadrilha. Aí chegou lá, tal, os cara tudo sentado, fumando um baseado nas cama, assim, com as faca tudo em cima da cama, já, aí, ele chegou já falando: “Esse filho da puta aí, esse filho da mãe aí segurou no meu braço lá, tirou minha autoridade no meio dos funcionários, no meio dos ladrão, nós tem uma responsabilidade aí, cuida da cadeia aí e esse aí me atravessou…”, falou: “Não, espera aí, deixa o Alemão falar, nós conhece ele”, o cara, né, o general. Eu falei: “Não, pode deixar ele falar, olha como ele tá aí, deixa ele falar, ele não tá achando que ele é malandro e eu não sou? Então, deixa ele falar”, aí falou, falou, falou, daqui a pouco, o cara lá, o generalzão falou: “Então, é isso mesmo, meu irmão? Pô, por que você fez isso, meu? Pô… custava deixar o cara lá…?”, só que nessa daí que ele tava falando, eu tava na mente, já com Deus, orando: “Senhor, se o senhor me livrar dessa, agora é o xeque-mate, eu saindo daqui, vou direto pra tua casa, nunca mais vou sair dos seus caminhos”, e orando, o cara falando, pelo o que esse cara tá falando, ele vai querer me matar aqui mesmo. Aí quando terminou, o cara lá falou: “Então, mas é isso ai mesmo? Pô, por quê?”, falei: “Cara, é isso mesmo, foi isso mesmo que aconteceu”, ele: “Mas por quê que você fez isso?” “Você mesmo, cara, quantas vezes eu já vi você lá na judiciaria, mesmo processo lá, mas você chega com respeito, com educação, cara, nós também é criminoso, nós também roubou, ninguém tá aqui a toa, não, o cara chegou já atravessando a minha frente, você chega lá e pede licença, seja poro menorzinho da cadeia, o ladrão mais pé de chinelo, você pede licença, porque aqui ninguém é mais do que ninguém, não”, falei isso aí, na hora, ele falou assim… todo mundo ficou quieto, que ele pensou que eu ia começar a  chorar, só falei isso, mano. O cara olhou pra mim assim: “Beleza, pode ir pro seu barraco” (risos), fui embora, aquilo foi um livramento maravilhoso de Deus, e os caras, olha, pegou aquele cara, mas falou, falou, depois tem barracos de frente de ladrão comum, depois eles vieram falar pra mim, que nunca viram uma comida de rabo tão grande, que os cara deu nele mesmo, do pessoal da mesma quadrilha igual aquela, que os cara… malandro, tem que ter respeito, mas é tudo malandro: “Mano, você é moleque novo, você tem que respeitar, esse cara a gente já puxou a ficha dele todinha aqui, conhece ele desde quando entrou até quando saiu, ele nunca deixou uma falha num crime, entendeu? Então você tem que ver o jeito que é, não é assim não, você tem que ter educação, tem que ter respeito, tal…”, mas esse cara aí ia me matar, cara, beleza, morreu ali as ideia, ele foi para o barraco dele, eu fui para o meu barraco, mas eu sabia que ele queria me matar. Ali, ele não podia fazer nada, mas eu sabia que mês que vem, dezembro, ia terá a saidinha de natal e eu tenho certeza, que aí, saiu da cadeia, já era, o cara faz o que ele quer e nós vinha tudo no mesmo ônibus, parava na estrada pra comer lanche e tava chegando o dia, novembro passou, entrou dezembro, eu falei: “Vixi, daqui uns dez, 15 dias já vai ter a saidinha de Natal e eu quero ver o que eu vou fazer, porque também não vou deixar o cara me matar”, sei lá o que eu ia fazer. Mas aí, eu orei pra Deus também, falei: “Senhor, me ajude, o senhor me conduziu até aqui, me livrou de tudo isso, me livra de mais essa, não deixa eu ter que fazer uma besteira, não, porque eu vou ter que defender a minha vida”. Aí, rapaz, olha, gloria a Deus, acho que foi quatro de dezembro de 2003, cantou minha liberdade, os caras foi lá no meu barraco avisar: “Ohhh Alemão, arruma suas coisa aí que você tá indo embora e tal”, eu: “Gloria a Deus e tal…”, arrumei meus negócio, fui lá, catei e fui embora, acabou minha vida no crime. Mas foi assim e de lá, eu fiz o que eu falei pra Deus, eu voltei pra casa do Senhor, eu voltei pra igreja e tô lá até hoje, hoje eu sou da Batista, comunidade Batista hermon, Jardim São Luiz, apostolo Roberto, uma benção, tô lá, faço a minha parte, dou cheio de fala ainda? Sou, sou ser humano, não sou super crente, não, aprendi que a gente falha mesmo, mas eu procuro fazer… deixei de fazer tudo aquilo que eu fazia, voltei minha vida pra Deus e tô aqui, cara, graças a Deus, aí tem mais história, mas você falou que queria fazer umas perguntas, né?

 

P/1 – Você chegou a falar do faxina, por exemplo. Conta pra gente que não conhece essa hierarquia, como é que funciona? tem o faxina e mais o quê?

 

R – Na cadeia, basicamente é, tem dois grupos de detentos, os faxineiros e o comum. Comum é todo resto da população que não é faxineiro, lógico, né? Mas o quê que é faxina, então? Faxineiro pra quem não entende pode pensar que é o cara que fica varrendo a cadeia, o mais fuleiro, mas não. Faxineiro é o cara mais respeitado da cadeia, eles moram tudo junto num barraco, eles que ditam as normas, eles que fazem todo o procedimento lá dentro, seja distribuição da alimentação, também a limpeza, também são eles que fazem, mas eles que ditam as normas que acontecem lá dentro, o que pode fazer, o que não pode, quando pode, quando não pode, o ladrão, quando tem uma briga, uma discussão entre um e outro, eu no posso resolver om você, ou seja, te matar assim, não, tem que ir lá na sala da faxinha, no barraco da faxina, expor a situação pra eles, é o chamado debate, nós dois fica contando nossa historiam, que nem eu acabei de contar o meu debate com esse outro também e lá, eles decidem, então são eles que têm o poder na mão de decisão sobre tudo que acontece na cadeia da parte do ladrão. A parte da judiciaria já é os policial lá, né? Mas dentro da cadeia, o que acontece é que são eles que ditam as normas, são os faxineiros, então eles são do degrau de cima, eles não só o comum, eles estão acima do comum, eles são… na hierarquia, eles estão acima do ladrão comum.

 

P/1 – Mas o quê que eles fizeram pra chegar aí? O que eles fizeram foi antes de chegar no presidio u dentro do presidio?

 

R – Dentro. Normalmente, eles chegam… muitos já chegam, os faxineiro já levam ele pra morar lá, porque são parceiros da rua, então são os cara, ladrão de banco, só ladrão ferrado, só ladrão mesmo, ladrão. Ladrão bom, não tem pé de chinelo, lá, não. Só vai pra faxina cara que é bom. Entendeu? Então, o cara já tem os conhecimento da rua, uns foi preso, outros ficou lá, quando ele vai preso também: “Cara, você chegou aí? Seja bem-vindo, você já vai ser faxineiro, vem pra cá que aqui é o nosso lugar”, e já vai. Ou então, você conquista lá dentro também, que nem esse cara que me ensinou fazer pulseirinha e tudo, ele veio de Santos e não tinha nenhum conhecido aqui, mas ele foi pelas atitudes dele, pelos comandos dele, ele virou um dos grandes tatuzeiros e tal, chegou na detenção lá, eu conheci ele lá, me ajudou demais a, me emprestou um barraco pra mim morar quando eu cheguei lá: “Você me ajudou quando eu precisei, pode morar nesse barraco até quando você quiser”, ele virou faxineiro por quê? Porque ele tinha atitudes de bandido, mesmo, entendeu, seja atitude certa dentro da cadeia, não glorificando bandido e ladrão que tava tudo errado, naquela época, tava tudo errado, mas dentro do mundo do crime, ele é considerado, ele é malandro, tem o proceder certo e assim que se consegue chegar na faxina.

 

P/1 – Além dessa aqui, tem várias funções, eu imagino. Vocês têm que fazer alguma coisa…?

 

R – Não, o comum não faz nada. Faz só o que quer. Quem quer fazer alguma coisa, faz, manual ou trabalho em algum setorzinho, lá, ou estuda. Eu mesmo tirei meu diploma de segundo grau, conclui o meu segundo grau que nem eu te falei, eu parei no primeiro ano do ensino médio aqui na rua, fui preso, eu terminei lá, prestei ENEM lá, na casa de detenção, fiquei dois dias fazendo prova e fui aprovado, quando eu tava lá em Valparaiso, chegou um carcereiro lá: “Você que é o Vanderlei?”, falei: ”Sou”  “Tá aqui, ó”, me deu um canudo lá, eu fui ver, era o meu diploma do segundo grau, maravilha. Então assim, o comum faz o que quer, eu procurava no meu tempo fazer minhas terapias, estudava, lia bastante, tinha biblioteca lá, que não tinha mais livro que eu não tinha lido, livro de Filosofia, História, matemática, História, receita, receita médica, lia tudo. Já as funções mesmo, é tudo distribuído pelos faxineiros, uns serve alimentação, outro faz a faxina, outro serve o pão, outro serve o leite, outro que já é mais ainda na cadeia, eles ficam ali só no julgamento das situações, outros ficam planejando fuga, outros fica vendendo drogam outros fica orquestrando assalto para os caras lá de fora realizar e é assim, entendeu?

 

P/1 – E como é que é a relação com a policia desses caras?

 

R – Lá dento do Carandiru?

 

P/1 – É. E em outras penitenciarias, também.

 

R – No Carandiru era diferente, no Carandiru não tinha esse negócio de polícia lá dentro ou carcereiro não, que nem eu falei, o carcereiro só entrava pra abrir e depois, era tudo dos ladrão. Fazia o que queria, ficava um funcionário no portão que dava acesso de um pavilhão para o outro, mas mesmo assim, era liberado, de vez em quando, dava uma dificultada, mas na maioria das vezes, era liberado pra você fazer planos nos outros pavilhão, morava no outro, mas queria ir para o nove, tinha amigo lá, queria passar o dia lá, jogar bola, fazer alguma coisa, eu ia, atravessava as ruas, as muralhas tudo e ia para o cinco, ia para o sete, ia para o dois, entendeu?

 

P/1 – E como é que eram divididos os pavilhões? Você falou que o nove era o mais…

 

R – O dois, Pavilhão 2 era o pavilhão de entrada da cadeia, onde estava os preso com menos periculosidade, era os mais coroa, os que já tinham… tava em condições boas de sair, eram os professores que dava aula nas escola e tinha pouco, também. Era o pavilhão onde ficava a entrada, então ali, ficava a diretoria, ficava a judiciaria, ficava tudo lá no Pavilhão 2, pavilhão de entrada. Aí, não tinha o três, ai tinha o quatro que era a enfermaria, isso, o quatro era a enfermaria, tinha o cinco, ou o quatro era lavanderia? Tinha o cinco que era o pavilhão do seguro, pavilhão mais armado que tinha na cadeia, porque lá só tinha… maioria era tudo cara jurado de morte, cara que não podia ficar nos outros pavilhões porque teve treta, então chegou lá no Pavilhão 9, chegou no Pavilhão 2, já tinha todo um discurso do diretor, o diretor já falava: “Olha, se você tem problema na cadeia com alguém que você sabe que tá aí, ou que você acha que não deve entrar, vai pro cinco, porque se você for pro oito, não tem quem te salve lá, não, depois que você caiu lá dentro, não adianta gritar por mim, não, que lá não entra não”.  Aí, uns já pediam: “Quero ir para o cinco”, sabia que tinha treta, ou era estuprador enrustido, ou tinha treta com talarico, ou tinha treta com alguém na cadeia por algum motivo, ia pro cinco. Aí tinha o seis também que era a lavanderia, tinha o sete que era o pavilhão dos gringo, que ficava mais os estrangeiro e tal…

 

P/1 – De onde, mais ou menos, eles eram?

 

R – Eles eram na maioria, nigerianos, tinha nigeriano, tinha alemão, tinha italiano, era os caras mais conhecido como mula, muitos deles, a maioria deles lá, mas tinha também brasileiro, paulista e tal… era um pavilhão mais sossegadão, não tinha aquela galera andando pelos pavilhão, eu ia lá e até estranhava: “Será que dia que é hoje que não tem ninguém aqui…”, não tinha ninguém nos corredor, assim, todo mundo dentro do seu barraquinho, assistindo, fazendo uns manual, tal… já no oito e no nove, não, correria nos corredor, é loucura total, um com barraquinha de cachaça ali, outro com barraquinha de droga aqui, outro com barraquinha de material de comida aqui, alho, cebola, açúcar, não sei o que, o correria vendendo três tênis numa mão, uma sacola na outra e vendendo as coisas, as correrias que nem o Claudinho, era uma loucura, um turbilhão…

 

P/1 – Um mercado, né?

 

R – Um mercado, mas tipo a feirinha do Brás, entendeu? Aí, tinha o oito, tinha o nove… tinha o oito que era o pavilhão dos triagem, dos novato que chegava…  o oito, não, os residentes e o nove para finalizar, o pavilhão de quem tava chegando, os mais novatos, os ladrão mais novo, que não tinha muita experiência, ficava tudo ali, que era um pavilhão mais regrado, era o mais novo também, que eles reformaram depois do massacre do Carandiru, reformaram lá, então era um pavilhão bonitinho, piso tudo bonitinho, as paredes, os barraco tudo bonitinho, já o oito, não, o oito parecia o portal do inferno, você entrava lá, aquelas galerias tudo fudida, fio pra todo lado e tudo quebrado, piso, os barraco todo zoado, mas era o melhor pavilhão que tinha para se morar era lá. E foi lá… de lá que eu sai. Sai de lá no processo de desativação, mesmo, acho que tinha mais 200 presos lá na detenção quando chegou a minha vez de sair, também.

 

P/1 – E você se lembra se tinha essa… tinha uma memória do massacre lá ainda? Tinha gente que morava lá…

 

R – Tinha, muitos cara tava lá ainda, contava, tudo, como é que foi, como é que não foi. Conheci cara que viveu lá dentro, falou que morreu não só esses cento e pouco, morreu foi muito mais, entendeu? Disse que o negócio foi muito louco lá dentro. Mas eu conheci uns cara que passou por lá nessa época e conseguiu sair vivo.

 

P/1 – E não assustava um pouco o pessoal de lá? Que podia acontecer de novo isso aí.

 

R – É, não assustava, porque ladrão, ele aprende rápido. Tanto é que teve a mega rebelião lá, certo, acho que foi em 99 ou 2000 ou 2001, 2001 foi quando eu comecei a escrever o meu diário, que é o diário de tantos dias de detenção. Comecei a escrever três meses, exatamente, a partir da mega rebelião. Comecei acho que em maio de 2001, então foi abril… em março, fevereiro de 2001 teve a mega rebelião lá. Só que o que o governador estava esperando, sei lá, e todo ladrão sabia, estava esperando ter uma rebelião pro Choque entrar de novo e matar meio mundo, é o que eles estavam querendo, só que ladrão é tão esperto, ele aprende com os erro, que lá na primeira vez, no massacre do Carandiru, eles fizeram a rebelião, mas tinha regras. Lá, até então, dia de visita, você não podia fazer nada. Você não podia discutir com outro ladrão em dia de visita, que se acabasse a visita, tivesse uma discussão, você ia entrar na madeirada, porque dia de visita era sagrado, entendeu? E foi exatamente isso que aconteceu lá na mega rebelião. Eles fizeram a rebelião entre eles no massacre do Carandiru e em 2001, não, o quê que eles fizeram? Fizeram a mega rebelião, aquela que se estendeu por São Paulo inteiro, os presídios do interior tudo, foi o partido que organizou e tal e eles foram inteligentes, que eles se conectaram todos e falaram: “Vamos fazer a rebelião tal dia e tal dia vai parar tudo e vai ser um dia de visita”, entendeu? Isso foi o choque para todo mundo, falei: “Nossa, mas dia de visita? não pode!”, então os caras se reinventaram, reinventaram essa regra na cadeia, porque sabiam que se não tivessem as visitas lá dentro, que ia ser o escudo que o governador… os policial não iam ser louco de entrar matando todo mundo com visita, com tudo, certo? Aí foi onde que deu aquela repercussão toda e tal. Eu tava lá no Carandiru, tava lá na grade, lá em cima no Pavilhão 8 quando eu vi os caras escrevendo na rebelião, fogo no colchão lá embaixo e eu ia fazer o quê? Não posso fazer nada, vou ficar correndo de um lado pro outro? não, fiquei lá na grade olhando os helicóptero lá em cima, aí tal, no barraco lá, sai da grade, fui no barraco, falei para o camarada lá, aí ele me mostrou: “Ó lá como tá lá, os cara do oito aí, os cara escrevendo ‘Paz’ lá”, aí eu já desci: “Fica olhando aí que você vai ver o que eu vou fazer”, desci correndo as escada, cheguei lá no chão no campo lá: “Quem quiser pegar um encarde lá e quiser que eu escreva bem com a minha letra”, eu escrevi bem grandão o campo inteiro, escrevi “Liberdade”, aí os cara viu que eu sabia escrever legal mesmo, tinha uma escrita legal, já falaram: “Escreve aqui em cima ‘Paz e justiça’”, aí que pegou, espalhou para tosos os outros lados, todos os outros pegou: “Paz, justiça e liberdade”, aí fui tudo eu que escrevi. O cara só tinha escrito “Paz”, eu que escrevi justiça e liberdade. E aí, não deu em nada, porque a visita tava lá, veio imprensa, direitos humanos, corregedor, veio tudo e viu porquê que era, porquê que não era, atenderam e aí, cederam. Fizeram as reivindicações, pegaram tudo o que tinha, o que não tinha, transferiram, acho que o grande motivo principal foi para liberar os caras que estavam presos lá na isolada de Presidente Bernardes, que é a caverna, que a gente fala, entendeu? Porque os cara queria sair de lá, o cara não quer ficar preso lá, a isolada é um barraquinho só pra ele, ele toma sol sozinho, o cara fica dois, três anos, o cara fica louco, entendeu? Então, os cara orquestrou tudo isso aí pra isso, pra tirar os cara de lá e deu certo. Deu certo.

 

P/1 – Sei. E como é que essa questão das facções? Você pode falar? Quer falar?

 

R – Posso! Eu vi tudo lá. As facções, antigamente, não tinha nada, era tudo comum. Eu vi o nascimento, na verdade, do PCC, do partido, entendeu? Os cara era pequeno, tinha o comando vermelho lá no Rio, mas aqui em São Paulo não tinha. Aí os cara se juntou, começaram a montar, tal, tal, tal e de repente, um partido. Nasceu o partido, entendeu? Isso começou lá no pavilhão, começou na rua, mas os cara foi pra lá, dentro da cadeia, começou lá. Entendeu? Era o PCC 1533, 1533 PCC e aí, começou lá. Começou pequeno, eles eram ladroes considerados, a maioria é tudo ladrão bom, tudo cara gente do crime mesmo, não era cara que tava aventurando o crime, tudo bandido, o cara que fundou mesmo é tudo perigoso, os cara fala e mandou recado aqui pra mandar matar lá, tem dez que vai atender a ordem.

 

P/1 – Mas o que é um bandido bom, assim?

 

R – Bandido bom é o criminoso, que tem o crime na veia, que nem eu, não sou bandido, eu não sou criminoso, eu fui… eu me aventurei no crime, eu respeitei as regras, eu sai de lá como um ladrão bandido considerado. Bandido… assim, hoje, não exaltando e nem nada, mas é um cara que soube ser, soube ser um ladrão e respeitar as regras e ser considerado. Mas esse que eu falo pra você que funda e que vai, não, os cara tem o crime na veia, os cara é sangue ruim. Se o cara apontar uma arma na sua cara, ele cismar, ele dá um tiro, ele dá risada, ainda, entendeu? Então esses aí é os bandidão, mesmo, bandido, ladrão, criminoso. Na verdade, os criminoso estão no poder. Os cara lá, mas na questão de crime a mão armada, os cara é na lábia, né? Na lábia e na caneta, mas o crime armado mesmo, os cara era o… começou fundar e fundou… começou pequeno e tal, aí foi, foi crescendo, tudo vai crescendo, né? Vai crescendo, vai crescendo, daqui a pouco, os cara teve um embate com a faxina do Pavilhão 8, eu lembro que esse dia foi um dia tenso demais lá na casa de detenção, porque os cara quis bater de frente por causa de uma… não sei que situação que foi, entendeu? mas o negócio foi tenso mesmo e teve uma guerra de poder, era dois poder que tinha na cadeia, já tava forte, o partido e agora, a faxina e os cara quis bater de frente com a faxina, a faxina também era forte, fortíssima, os cara era perigoso. E aí, só via os cara… tinha um muro que separava o oito do nove, só que nesse muro fez um monte de buraco e nós no buraco, e nós pulava, que nós não queria dar volta pelo pavilhão, nós pulava o muro e já era, tava lá no outro pavilhão e por ali, os cara só tava mandando era de saco de faca. Saco, dez, 20 facas de uma vez, jogava lá, os cara catava lá para se armar pra ter a treta. Mas aí, sei que no final, eles entrou em acordo, no final, os cara entrou em acordo, se aliaram e aí, os cara ficou forte, estão aí do tamanho que eles estão hoje, entendeu? A faxina hoje então é dominada pelo partido, não tem só partido, tem também ladrão comum, mas ladrão bom no crime, que é sangue na veia, entendeu? Mas hoje é os cara que comanda. Mas tinha e tem as outras facções em tudo quanto é lugar, no Carandiru, por exemplo, no Pavilhão 8… quando eu cheguei lá no Pavilhão 9 por exemplo, eu tava lá em cima no último andar e no andar de baixo era a seita, era ali que os cara fazia os ritual, eu ouvia… só os grito que eu ouvia ali na sexta-feira que os cara fazia o ritual, eu me apavorava, era uma facção que tinha seita e teve também o embate deles com a seita, os cara até então, convivia junto, mas chegou uma hora que bateu de frente, aí nessa, a faxina já tava junto com o partido e chegou a seita, tava lá, e foi outra treta forte também, entendeu? Foi facada para todo lado, morte até umas hora e o partido mandou a seita embora, saiu da detenção e aí, eles foram pros outros presídios, foram pro presidio aqui, presidio ali e onde se encontra, a treta acontece, tanto é que hoje em dia, as cadeia são divididas por cadeia de partido e cadeia de oposição. Quem é outras seitas, quem é outras facções que não são juntos, aliados também do partido nem entra na cadeia do partido, se entrar, morre, entendeu? Você entrou, morre. E aí, vai para… fala: “Eu sou de tal”, aí vai pra outra cadeia, os policial é obrigado a mandar para outra cadeia. Mas tem, tem bastante.

 

P/1 – Porque grande parte dessa curiosidade é porque muitas vezes você vê na TV o secretario de segurança pública falando sobre índice de criminalidade, não sei o que, questão de segurança e até parece que ele tem o controle da situação, né?

 

R – Tem nada. Na hora que os cara da caverna falam… não vê de vez em quando que eles manda matar policial, um monte de policial aí? Você acha que os cara que anda na rua, que sai matando a pura vontade? Não, é ordem que vem lá de dentro. Se os cara lá dentro falar: “Meu, domina São Paulo”, já era, São Paulo tá dominada, já era, não tem pra policia. Se o cara falar: “Metralha todas policia, mata todos policial da rua aí e assume todas as delegacias ai”, depois claro, né, vai vim Exercito, vai vim tudo, mas se os cara falar: “Meu, é isso que nós quer”, eles dá a ordem lá dentro e os cara executa aqui fora, entendeu? Não tem esse negócio que policia é que comanda, policia não comanda nada aqui no Brasil, não, aqui, se tá tudo em paz hoje nos presidio é porque tem acordo dos cara lá. Entendeu? Secretário de segurança são os menino que tá lá na caverna, lá. O bagulho é doido, rapaz, o partido tá com um exercito que pessoal nem sabe. Eu quando tava lá, o negócio já tava… parece que tinha mais de cinco mil, não sei quantos mil, imagina, cara, isso é um exercito, meu. É que eles não têm esse propósito de brigar com o governo, eles querem ganhar dinheiro. É igual eu também, quando era ladrão, queria ganhar dinheiro, não quero briga com ninguém, mas quando pisa no calo deles, eles também revida. É o que acontece de vez em quando aí, um monte de policial morto e tal. Aí quando começa… eu não sei, mas quando começa a matar um monte de policial, eu tenho certeza que o secretario de segurança corre lá: “O quê que tá acontecendo aí?” “Nós quer mais banho de sol, nós quer sair aí, nós já tá cumprindo nosso tempo, cadê?”, aí o cara abre as perna e eles para. É assim.

 

P/1 –  E tá acontecendo um movimento de criar muita penitenciaria privada, por exemplo. Você chegou a  ver isso? O quê que você pensa? O quê que você viveu sobre isso?

 

R – Não. Eu quando sai, que eu fui para os interior, as penitenciaria ainda era do governo, tudo do governo, né? Não sei se vai dar certo esse negócio de penitenciaria privada, eu acho que não sei… não sei porque o futuro… né, ainda não tem aqui no Brasil, que eu saiba, não tem. Pra mim, é tudo do governo.

 

P/1 –  Tem uma em Minas Gerais, já.

 

R –  Tem já em Minas Gerais? Então, eles devem estar fazendo teste, mas… porque se for um negócio privado, cara, eu acho que vai ser muito difícil, porque privado, os cara vai querer controlar muito mais, eu ano sei, cara, não sei como que pode ser isso, não. Os cara não vai aceitar tanta regra, não. As cadeia só estão em paz aí, porque não têm muita regra, tem regra porque a televisão mostra, que tá tudo bonitinho parado lá dentro, mas tá parado lá dentro porque os cara tá mais ou menos do jeito que eles quer, porque no dia que os cara começar a apertar, pisar no calo, os cara quebra tudo, que nem na mega rebelião.

 

P/1 – E você com todo que tem de presidiário, o quê que você fazia? Você falou muito de muitas atividades, né, mas você tinha momentos em que você tava muito sozinho? Como é que você fazia? Você pensava muito sozinho? Como é que era?

 

R – Pensava. Você não pode ficar pensando muito, você tem que procurar alguma coisa pra fazer, senão você fica louco, né, meu! Mas tem época que você fica pensando, tem épocas… eu mesmo, teve uma época, um dia que cara, foi um negócio de louco também, pra você ver como até Deus responde na hora certa, ele tem um plano na vida de alguém, ele te dá os toques não hora certa, ele conhece o seu limite. Enquanto você tá lutando, você vai lutando, ele quer que você lute com as suas forças, aí quando chega o seu limite, ele entra, eu tá um dia lá em Lucélia e tal, calorzão de 40 graus, cara, eu colado lá no teto e dormindo na minha cama de noite, mas sabe, bateu um desespero, eu tava ali e eu fazia os meus manual, então eu tinha maconha, eu tinha crack, eu tinha tudo que eu trocava meus manual, só que eu não usava mais nada, eu tava liberto daquilo tudo, cigarro, mas eu era forrado de tudo isso aí, porque de uma boneca, eu fazia… custava dez reais, o cara me dava dois papel de maconha e tal que valia dez cada um, eu já virava em 20, que depois eu vendia também e ali me bateu um desespero, cara, tão grande, cara, isso aí já tava com seis anos de cadeia, foi em Lucélia, tava no fechado, ainda, cara pra você como que é Deus maravilhoso, meu.  Eu ali, desesperado, bateu esse desespero, cara, você vem pensando: ‘Meu Deus, será que eu não vou sair mais? Quando será…?’, aí você faz pedido para o Judiciário, você cria um monte de… você tem um morte de recursos que você pode mandar para o Judiciário, aí você espera, daqui seis meses vai voltar o recurso. Eu fiz um monte, eu aprendi a fazer, os livros, eu mandava, depois de seis meses voltava negado. Morreu a minha esperança. Mandava, voltava negado, mandava, voltava negado. Aí chegou uma hora que eu desesperei, entendeu, eu mandei um e voltou desesperado, cara, eu dobrei meu joelho lá de noite: “Sinto muito, mas eu não aguento mais Pai. Eu acho que eu vou morrer aqui e eu não aguento mais, eu preciso sair daqui, se eu não sair, é o meu limite. Senhor, eu vou deitar agora, mas o Senhor tem que me dar uma resposta, senão amanhã  eu vou acordar e vou usar… voltar a usar tudo isso aí, tudo que aconteceu na minha vida vai voltar para trás, porque eu não aguento mais”. Mas não aguentava mais mesmo, não foi trocadinho com Deus, não, foi negócio sério. Eu não tava aguentando mais, eu tava no limite. Cara, como que Deus é bom, no outro dia de manhã, eu não acordei, quem acordou foi o carcereiro, cara chamando pelo meu prontuário, bateu lá na cela: “147933” “Opa, sou eu, quê que foi aí?” “Se arruma aí que você vai para a Judiciária, lá”, eu tinha mandado bilhete, falei: “Normal, vou falar com o advogado para ver a minha situação”, que eu tava querendo sair do fechado. Aí, eu me arrumei, tal, quer dizer, não deu tempo de eu pensar em usar nada. Aí fui lá, sentei lá na cadeirinha, o advogado aí, eu falei assim: “Então Doutor, eu queria saber a minha situação como que tá, tô há seis anos, já, eu tô desesperado. Preciso sair daqui”, aí o cara, um senhorzão falou assim: “não sou advogado não, eu sou psicólogo, você tá começando a fazer os seus exames para o regime semiaberto”, eu já olhei para o céu assim já glorifiquei, já dei gloria, não acredito, mas veio um renovo assim, tomou conta de mim, já comecei a chorar, até o cara chorou. Você vê, resposta de Deus no ato, cara, quando ele vê que você tá ali precisando, ele te abençoa, ele te livra, mano. Aí fui ali, renovou minhas forças e eu sai de lá, alegre, feliz com Deus e tudo. Aí, deu mais dois meses e eu fui para o semiaberto, mas tem várias situações de você pensar e você fica, né, vai moendo, mas você vai guardando que é uma luta, né, não adianta. Ou você se mata que eu vi que muitos fizeram, se pendurar na forca, mas eu não, eu tinha uma luta, eu não queria morrer, eu queria voltara crescer. Eu sei quem eu sou e eu sei que a minha história não ia acabar ali e foi. Deus é maravilhoso, cara, as vitorias que eu tive com Deus, os encontro que eu tive com ele foi demais. Hoje eu sou o que eu sou devido a tudo que eu passei lá, foi lá que eu me encontrei como gente, como homem, como ser humano, como tudo. Hoje eu sou o Vanderlei, lá eu era o Alemão, o bandido. Aqui eu sou o Vanderlei, pai trabalhador, honesto, aprendi a ser honesto, cara, hoje eu posso ver uma barra de ouro, posso ver esse relógio aí sozinho, posso ver uma mala de dinheiro, cara, eu não quero, eu não quero um centavo de ninguém, cara, quero o que é meu, eu sou… eu trabalho igual um louco, eu quando sai da cadeia, o meu irmão me deu uma moto velha pra trabalhar, me deu uma moto velha, eu sai trabalhando, esporádico, fazia 20 horas por dia, chegava em casa com aquela preta assim, preta mesmo, minha mãe falava: “Meu filho, mas você tá ficando preto?”, falava: “É mãe”, tirava, lavava, a poluição. Aí, moto velha, passei para uma moto nova, depois de uma  moto nova, comprei um carrinho velho, depois passei para um novo, do novo, passei para um outro carro, do outro carro, eu peguei uma van, foi onde eu comecei a melhorar de vida. Nesse meio tempo… aí quando eu sai, contar mais um detalhezinho que tem a história da minha esposa, aí quando eu sai, comecei a trabalhar de motoboy, aí encontrei uma ex-namorada minha e ai, descobri que eu tinha uma filha com ela, aí comecei arrumar casa para casar com ela e tal, beleza, falei: “Não te amo, mas vamos casar porque eu quero cuidar da minha filha, quero criar e tal”, ela: “Tá bom então”, aí comecei a rebocar a casa e tal, mas sabe que não é, você sente que não é, ia terminando o processos de rebocar a casa, pintar a casa, tava apertando o meu coração, eu falava: “Caraca Deus, mas e se não é, por que eu tô sentindo isso? Eu quero paz, se for para ser, eu quero criar a minha filha”, porque ela não me falou dessa filha durante sete anos, ela escondeu de mim, então eu vi ela levou uma vez lá no Carandiru, o irmão dela foi preso, era uma namorada que eu tinha na rua também, antes de ir preso, o irmão dela atracou lá, era ladrão também e ela foi um dia visitar o irmão dela, tanto é que nós tivemos um caso lá dentro, também, mas ela foi com uma criancinha no braço e eu falei: “E essa menininha?” “É a Luana…”, eu falei: “Quantos meses ela tem?”, ela falou: “Tem um ano”, comecei afazer a conta na minha mente assim, cara, sabe e eu falei assim: ‘mas um ano, nós estava junto, essa menina não é minha, não?”, ela: “Não, não é sua não”, virando o rosto assim, mas eu tava preso, a minha mente bloqueou aquela informação. Eu passei o resto… quatro anos com essa informação bloqueada, porque acho que eu tivesse absorvido aquilo ali na hora, eu ia ter pulado o muro, cara, porque eu ia querer, mas ali me bloqueou e depois, ela foi me visitar um bom tempo, nós voltou a namorar lá dentro, mas eu nunca mais perguntei dela nunca mais ela me falou dela. Aí ela me falou, acho que ela viu aquela situação, ela falou que ela tinha voltado com o ex-namorado dela, que eles ficaram juntos e ela teve ela. Mas quando eu sai, aí uma tia dela me falou: “Mas você não vai lá ver a sua filha não?” “Que filha, você tá louca?”, ela falou: “Sua filha que você tem com a Liuma, lá”, falei: “Não”, ela falou: “É sua filha sim, rapaz, vai lá ver que você vai ver, é a sua cara”, aí fui lá na casa dela e: “Cadê? E você não me falou e não sei o que…”, aí eu quis, né, aí voltei a namorar com ela, aí comecei a rebocar, cuidar da casa para criar, mas também não era isso que Deus tinha pra mim, não era isso que ele queria, ele sabe do meu coração. Aí, ia acabando, ia chegando perto, eu anunciei na Igreja que eu ia casar com ela, Assembleia de Deus: “Vou casar com a Liuma”, todo mundo: “Eeeee”… mas foi passando o tempo e não deu certo e aí, minha irmã me alertou e eu: “Senhor, me fala alguma coisa, um motivo para que eu possa terminar isso então, pelo menos”, aí minha irmã falou, ela tinha outros filhos, né, aí minha irmã… e ela falava que um dos filhos ela tinha adotado, aí minha irmã falou assim: “Você sabe que aquele filho dela não é adotado”, falei: “Não, pra mim, ela adotou”, aí minha irmã: “não, tem testemunha, eu vi ela de barrigão”, aí foi o que Deus me falou: ”Então agora você usa isso, porque também não é isso que eu quero para você”, aí eu cheguei nela: “Liuma, não leva mal, mas por que você falou que essa menino não era seu, era adotado? Não tinha problema nenhum, mas você mentiu pra mim todo esse tempo também, por quê? Não tem nada a ver. Infelizmente não dá, não vou poder casar com você, porque sem amor ainda vai, mas sem confiança, não dá”, aí nós separou e ela pegou essa minha filha e falou: “Então você não quer? Então…”, aí ela saiu e nunca mais vi também, já tem dez anos que eu não vejo essa menina. Agora descobri que tá em Paulínia, agora vou começar, minha vida… agora que eu tô podendo respirar um pouquinho, vou correr atrás, quero saber dessa história direitinho. Vai ser uma loucura, vai ser um pega pra capar danado, mas eu vou correr atrás dessa história aí. Mas aí, o que aconteceu? Olha como deus além de tudo é um romântico, não tem aquela minha namorada lá do tempo de escola que ela largou de mim porque viu que não ia ter muito futuro? Nesse meio tempo que eu tava preso, ela se juntou com um cara também e construíram casa, o cara era pedreiro, construíram casa, um terreno invadido aqui em São Luiz, mas construiu casa, teve dois filhos com ela, o Alex e a Alice, duas crianças e nessa época, quando eu tava separando dessa menina, que eu tava pedindo pra Deus me mostrar alguma coisa, ela chegou no portão da minha casa, foi ver minha mãe, acho que nem sabia ou sabia que eu tava lá, subiu lá pra cima na laje. Aí a hora que eu vi ela, cara, Deus falou: “É ela”, nossa, tava a coisa mais linda, parece que eu vi ela emoldurada assim, eu falei: “Nossa, cara”, eu tinha uma foto dela na detenção, ficava olhando para ela assim, nos lugar que eu passei, ficava olhando pra trás, falava: ‘Nossa, te perdi, não acredito”, era o meu amor, cara, a única mulher que eu amei de verdade. Aí eu vi ela lá, toda lindinha assim, magrinha, coisa mais linda assim, se tremendo de emoção de me ver, diz que não foi lá para me ver, não, mas eu acho que foi e a outra tava lá também e tal, mas aí, finalizando, eu larguei daquela e chegando nessa, pretexto do livro que eu tinha, mostrei o livro par ela e tal e a gente foi se aproximando, descobrimos, ela também… como que Deus trabalha, eu ficava lá dentro pensando: “Senhor, mas vou ter que sair daqui ainda, conhecer outra mulher, construir casa, construir família, eu já tô velho, tenho já 30 anos”, ele já tava trabalhando aqui fora, ela já tinha juntado com esse cara que não deu certo, era uma relação super conturbada, mas tiveram dois filhos, teve agressão, teve tudo. O cara construiu casa para eles morarem,  tudo e se separaram, na separação, ela ficou com os dois filhos e com a casa, entendeu? Aí, quando a gente se reencontrou… olha como que Deus já tinha tudo pronto, cara! Já tinha duas crianças e tinha a casa. Eu tinha casa também, mas aí eu sabia que aquela era a mulher que ia fazer parte do resto da minha vida e aí, a gente se juntou, ela já era da Igreja também, da Igreja Batista, já tinha se convertido, Deus já tinha trabalhado, feito ela passar por um monte de situações difíceis, um monte de situações também trabalhosas, que moldou o caráter dela e moldou o meu caráter também e os dois caráteres se juntaram, cara, então olha como Deus é romântico, além de tudo, nós se reencontrou. Hoje, a gente é casado, cara, tem mais uma filha linda de oito anos, entendeu? Tá nas fotos aí, pessoal vai poder ver e eu sou feliz, cara. Hoje… é isso que Deus queria para a minha vida, ele queria um homem de verdade, um homem feliz, hoje eu tenho paz, eu deito a minha cabeça no travesseiro, eu durmo, entendeu, eu ouço a policia, eu falo com policia, vejo quando policia me para na rua: ‘Mas você já teve passagem?” “Já tive passagem, mas eu não sou ladrão mais, não. Hoje eu sou um homem de bem, respeitável”, outro dia, um homem me parou e eu disse: “Se você me discriminar, eu te processo” “Não, não…”, então eu já tenho até essa autoridade de falar meio bravo com os guris”, cara, deus foi maravilhoso. E a partir de lá, case, juntei com ela em 2005, criei os filho dela, estão tudo junto até hoje, o filho tá morando com a vó, agora, porque deu uns trabalho aí, mas tudo bem, tá bem. A filha foi morar com o pai mesmo, em Santos, então hoje, tá eu, ela e minha filha nessa casa. Trabalhei que nem louco, falei: “Senhor, eu quero reconstruir minha vida, mas trabalhando, o senhor manda serviço”, não pedi dinheiro, pedi serviço. Me deu a moto, da moto trabalhei de motoboy, depois Deus fez outro milagre na minha vida que de motoboy eu passei para um serviço registrado de contrato no Banco HSBC. Onde que um ex-presidiário vai trabalhar dentro de um banco, cara? HSBC da vida, eu fiquei três anos trabalhando lá, depois comprei um carro, um Voyage, de pois comprei um Kadette, só Kadette, eu troquei para a van que eu tô trabalhando com ela até hoje, tá aí fora esperando aí. E dali, eu só vim crescendo, trilhando com muita luta, com muito esforço, trabalhei em várias empresas, trabalhava de madrugada, não tinha tempo pra nada, também. Agora de três anos pra cá que eu tô numa empresa boa, tive duas pessoas trabalhando pra mim e tal, pus para trabalhar, não deu certo, os caras não cuidavam, mas fui lutando, cara, fui lutando de tudo quanto é jeito e hoje, eu tô… tenho dois carros trabalhando, dois carros velhos, duas Traffic e trabalho bem, hoje eu chego oito horas no serviço, começo a trabalhar às dez, quando dá duas horas, eu já terminei, que nem comecei aqui, né, às duas horas. Então, eu ainda faço carreto, faço… tiro entulho dos prédios, eu vou levar… trabalho em loja de construção, então eu vou levar material de construção nops prédios e eu já grampeio um folheto meu “Vander Fischer Transportes, retiro entulho, carreto, frete, choro em velório, realizo casamento, alugo para passeio…”, eu brinco, né? Sendo digno e honesto, a gente faz. Mas tô na luta, cara. Treze anos se passaram e hoje eu tô aqui contando a minha história, eu creio que é uma história abençoada por Deus, de vitória, tô contando porque eu já tive vergonha da minha história, mas hoje eu tenho orgulho da minha história, história moldada nas mãos de Deus, trabalhada por ele, eu creio que ainda tem muita coisa que ele quer fazer através de mim, mas olha, é uma história que só quem passou, cara, que sabe o que é, não adianta neguinho querer falar mais ou menos o que é, não, só quem viveu essa história, principalmente, a parte da cadeia, só quem viveu que sabe, cara. Eu acho que eu tenho 40 anos, mas eu me considero uma pessoa de 60, 70 por causa dessas experiências aí. Então tem coisas banais que eu vejo hoje o pessoal brigando aqui na rua, sabe, discussão, coisa à toa, eu falo: “Para com isso aí, isso aí é besteira, mano”, por quê? já passei situações criticas de vida e morte lá na cadeia, aquilo ali é besteira mesmo e eu vejo pessoal discutindo, famílias brigando por causa de uma besteirinha, uma picuinhazinha de nada, para com esse negócio aí, vamos ser feliz, a vida tá aí, só tem uma, vamos se unir com a nossa família, com a nossa esposa e viver a vida, entendeu? Então, eu dou gloria a Deus, cara, que hoje eu tô aqui, tô recuperado, não uso mais nada, sou uma pessoa digna, eu me considero hoje uma pessoa digna, restaurada por Deus, sabe, trabalhada na mão dele, tenho orgulho hoje de contar a minha história, principalmente, para os meus futuros aí, meus descendentes, meus netos, meus bisnetos, eu gostaria de poder ver um pouco da história dos meus antepassados, eu tenho até uma árvore genealógica que eu tô montando aí, tá no ___02:51:17___, se alguém quiser ver aí depois, daqui a 50, 100 anos, vai tá lá. Eu que montei essa árvore genealógica no ___02:51:23____. Então eu gosto desse negócio de história, por isso que eu tô aqui, hoje, eu quero que os meus netos, os meus bisnetos, beleza aí, rapaziada, vocês me conheçam, os meus netos, os meus bisnetos, eu amo todos e espero que todos vocês estejam sempre nos caminhos do senhor, porque é ele que nos dá tudo isso de bom, que nos dá paz, nos dá alegria. Hoje eu vivo uma vida feliz, cara, eu vou assim nuns lugares que eu nunca fui, já andei até de helicóptero, cara. Meu Deus, fui no Beto Carrero World, paguei 100 paus… paguei 300 paus, 100 para mim, 100 para minha esposa e 100 para minha filha, mas paguei com gosto, que é um negocio que você nunca mais vai fazer, talvez, não sei. mas cara, um cara que sai da cadeia com 10 anos, tá andando de helicóptero, meu, você viu? Então, eu me considero um vencedor, tô com a minha vida… hoje, eu sou um microempresário individual, trabalho pra mim mesmo, ganho razoavelmente bem, dá para pagar uma escola particular para a minha filha, coisa que eu nunca tive e tamo caminhando, a caminhada ainda não acabou, mas eu já tô aí, tô na luta. Sempre fui lutador, seja no crime ou seja agora na vida honesta, eu tô lutando.

 

P/1 – Você tem algum sonho hoje?

 

R – Sonho? deus já realizou meus sonhos, cara. Se eu morrer hoje, se Deus achar que ele deve me levar hoje, eu vou feliz, eu vou feliz porque ele já realizou. Qual que era o meu sonho? Meu sonho era a mulher que eu amo, que eu perdi, ele me devolveu. Realizou um sonho. E acho que assim, o único sonho legal que eu tinha mesmo, eu sabia que a vida é luta, que a vida é batalha, ninguém consegue nada à toa, mas Deus também assim, não te dá nada, ele não faz um deposito na sua conta, ele vai te dar o necessário para você ser feliz, se você agir certinho, for fiel realmente a palavra, a tudo que ele pede, então se você for fiel na palavra dele, ele vai derramar chuva de benção na sua vida, porque é lei e Deus é deus, ele não vai se contradizer. Então, se ele fala que você vai ser abençoado, que você vai ter o seu sonho realizado, que você vai ter uma família digna, honesta, se você vier trilhando o caminho dele certinho, isso vai acontecer, não tem como não acontecer, entendeu? Luta tem, tá com um monte de luta, problema, luta tem pra todos, o sol nasce para todos, chuva vem para todos, luta tem para todos, também, mas ele te dá uma condição de passar por cima delas e superar e suportar e passar e sair vencedor e dando glorias a eles, entendeu? Então, hoje ele… agora, no ano passado, ele realizou acho que um sinhô que eu tinha desde infância, como vocês vão ver nas minhas fotos lá, que eu sou apaixonado, cara, sou louco, eu gosto, eu não passo um dia sem, que é a moto, cara. Eu sou fissurado por moto, eu gosto. Sempre tive. Começou no andador, lá, depois passou para o meu triciclo, depois moto, bicicleta, moto, eu tive todos os tipos de moto já aqui, Honda, Yamaha e agora… mas o meu sonho era uma Harley, é o sonho que eu tinha na minha vida e Deus me realizou esse sonho agora. Comprei uma Harley, tá aí nas foto aí. Tenho condições de ter uma Harley? Tenho, cara. Não vou ser hipócrita e falar que eu sou pobrezinho, zerado que eu não posso ter uma Harley. Entendeu? Então é assim que Deus age, ele te dá condições de você ter o seu, de você ser digno, mas tudo vai também de você, se você é cristão, você se conforma com pouco, se você acha que aquilo tá bom pra você, tá bom, você tá bem com pouco, uma vida meio sofrida, tá bem, se tá bom pra você, tá bom. Agora, se você pede pra deus uma vida melhor, ele vai te dar serviço e você batalha, você progride. Então, hoje eu tenho condições de ter uma Harley, eu comprei uma Harley, realizei o meu sonho, eu não, Deus realizou o meu sonho, entendeu? me deu as condições de ter e hoje eu tô feliz, eu ano passo um dia sem ligar a bichona. Vou dar um rolê. Esses dias quase morri, vindo de Pirassununga, dei 180 nela, cara, começou a  fazer assim, o volante assim, eu falei: “Meu Deus, agora vou morrer”, mas aí graças a Deus, dei trabalho para os anjos também, aí fui pisando no freio ali, segurou e tal, aí consegui. Mas nunca mais eu dou mais do que 175 nela, 175 eu dou. Mas é gostosa demais, cara. Então, meu sonho foi esse. Hoje eu tô realizado, tenho esposa, tenho uma casa, um lar digno, somos… sabe, vamos para a igreja, abençoamos, tentando fazer o possível, né? Tenho minha filha, tenho um carrinho que eu dei pra mulher, tenho minha harleyzinha, no sentido financeiro tô estabilizado. Tenho dois carros, porque quebra um, eu pulo pro outro, não posso é ficar parado, sou autônomo, então meu patrão não quer saber se o meu carro quebrou, ele quer que eu esteja lá no outro dia pra fazer as entregas. Então falei: “Vou comprar um carro novo de 80 mil reais?”, não, Deus me deu sabedoria, me deu um carro velho, colocou um homem abençoado na minha vida, um velhinho, seu Antônio que me ensinou no começo, eu sentava no chão assim, até chorava de ver aquele carro quebrando, porque quebrava muito, Deus colocou esse homem na minha vida que me ensinou tudo, mas batalhou quantas madrugadas, colocava o motor, tirava, colocava, o carro não funcionava, aí tirava de novo, via o que era, colocava, entendeu? E eu aprendi hoje, esse homem me ensinou tudo, então Deus é isso, ele te capacita pra você ser um vencedor, ele não vai fazer assim, colocar na sua mente de uma vez só, o que você precisa, não, ele vai te ensinar, que nem esse caso, ele colocou um homem na minha vida para me ensinar, hoje eu sei fazer tudo nos meus carros, então, em vez de optar por um carro novo de 100 mil, 80 mil, eu comporei um de 12 e depois, comprei outro de 12. Então, eu tenho dois carros, quando um quebra, eu vou… pago pouco imposto, não tenho medo de ladrão me roubar, porque ninguém quer uma Traffic velha, não pago seguro alto, não pago IPVA alto e ganho a mesma coisa, na verdade, até mais do que um cara que tem um carro de 80 mil. O cara que tem o carro de 80 mil, ele não faz o que eu faço, tirar entulho, fazer mudança, esses negócios, o cara não faz, entendeu, porque é uma questão mais de vaidade e eu não tenho vaidade com nada, entendeu, com esse negócio de luxo, de carro, casa, não, tá ali tudo para me servir, não eu ficar servindo ele, alisando e tal. não, tenho que estar num carro novo, porque senão, não vou me sentir valorizado, não vou me sentir digno e tal. Eu no me deixo levar por nada disso não, tenho vaidade? tenho, mas não é nada exacerbado, não é nada além do limite, é vaidade natural do ser humano, né? E se a gente deixar, a gente se acha mais do que os outros, mas não sou mais do que ninguém, entendeu? Nós tem que ser o nível que nós somos ali e eu tô na benção aí com os meus dois carrinhos e se deus quiser, vou ficar com eles durante muito tempo e se for para mudar, eu pretendo ir para o taxi mais tarde, sei lá, quando ficar mais velho, né? Enquanto eu tiver forca aqui, eu vou carregar saco de entulho na mão e vou comprar outra Harley e vou progredir mais ainda e Deus na frente, maravilhoso, cara.

 

P/1 –  Como é que foi contar um pouco da sua história?

 

R – Cara. foi legal. Muito legal, tinha muita coisa guardada dentro de mim que eu precisava falar, sabe, não tenho muito para quem falar, às vezes, a gente tem nossa esposa, mas assim, ela sabe nossa história, mas os pormenores que nem eu tô contando aqui, nunca contei pra ninguém, você conta pra um pedacinho da história, conta pra outro. Mas tem coisa guardada dentro da gente que a gente tem que falar, senão, ela fica presa te machucando e hoje eu coloquei bastante dos meus demônios para fora e isso foi bom e eu tô me sentindo mais leve, tô me sentindo mais tranquilo, entendeu? Isso foi bom demais. Esse projeto que vocês têm aqui é maravilhoso, fora que os meus netos vão poder saber quem eu sou, meus bisnetos, meus tataranetos, falar: “Nossa teve um louco lá, olha o que o cara viveu, que louco”. Espero que essa história sirva também de exemplo para eles de superação, de vitória, de encontro com Deus, de encontrar um caminho melhor para seguir do que a maioria aí, do que o mundão tá cheio de… só tem prostituição e droga e tudo. Eu passei por tudo isso, eu sei o que é mau e eu sei o que é bom, entendeu? Então, hoje eu escolhi o bem, não é que eu vim de nascença do bem, eu escolhi o lado bom, o bem. Então, eu dou gloria a Deus por tudo isso, por ter me dado uma segunda oportunidade na vida, porque não morri igual meu parceiro, não tô preso igual outros parceiros, que já faz 20 anos, que entrou junto comigo e tá até hoje, não tô, tô aqui, com a vida restaurada, abençoada, feliz, com filha linda, maravilhosa, faz modelo, um monte de coisa. Legal pra caramba, meu, eu acho que olha, é maravilhoso. Eu tô feliz. Gostei desse projeto que vocês continuem fazendo aí bastante, consigam perpetuar a história de muita gente, ainda, que tem muita gente presa no seu passado. A gente tem que falar, os psicólogos já falavam, a Bíblia já falava que a gente tem que falar, fala… joga para fora que isso é bom demais, te alivia demais, tira um peso.

 

P/1 – Tá certo então, Vanderlei, obrigado, viu.

 

R – Obrigado eu, eu que agradeço por essa oportunidade. Muito bom, maravilha.

 

P/1 – Foi ótimo. Valeu.

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