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História

As aventuras e peripécias de Jacy

História de: Jacy Vieira de Miranda Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/01/2021

Sinopse

nfância em Londres. Memórias da infância e escola. Retorno ao Brasil. Lembranças da juventude. Trajetória profissional e ingresso na Interbras. Formação do Centro de Integração e seu impacto na comunidade. Casamento e atividades de lazer.

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História completa

P/1 – Bom, para começar, eu vou pedir para que você diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Jacy Vieira de Miranda Júnior. Nasci no Rio de Janeiro no dia 9 de outubro de 1952.

 

P/1 – Jacy, qual era o nome dos seus avós maternos e paternos?

 

R – Meus avós, Jacy também, Jacy Borges de Miranda, e minha avó, vovó Diva de Miranda.

 

P/1 – Eles eram do Rio?

 

R – Todos os dois do Rio. Meu pai, a família toda do meu pai, veio do Rio.

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus avós?

 

R – Meu avô era motorneiro do trem da Central do Brasil e minha avó, do lar.

 

P/1 – Você teve um contato muito próximo com seu avô?

 

R – Olha, pouco tempo. Ele veio a falecer... porque a partir dos seis anos de idade meu pai foi transferido para o exterior, então eu tive este contato com o meu avô até os cinco anos só. E ele, quando eu estava no exterior, ele veio a falecer. A minha avó não, já tive um contato maior. Na época foi até os meus 28 anos.

 

P/1 – Qual é a memória mais forte que você tem da sua avó?

 

R – Da vovó Diva? Ah, da vovó Diva era dos finais de semana que sempre ia passar lá em casa. Vovó Diva a gente tinha muita brincadeira com ela, que ela dormia naquela varanda da sala, aquele quartinho extra que era feito, e ela roncava muito. Então quando dormia, eu e os meus amigos lá em casa a gente brincava muito e falava assim: “Ih, hoje tem urso, o urso taí”. Mas vovó era ótima, vovó… ela tinha um lado assim muito sério que o meu pai tinha, sabe, que puxou. Então, lógico, falava, conversava, mas não tinha aquela ligação de neto para avó que é tradicional, né.

 

P/1 – O nome dos seus pais, Jacy.

 

R – Jacy Vieira de Miranda e da minha mãe Maria da Aparecida Simões de Miranda.

 

P/1 – Qual a profissão deles?

 

R – Papai era economista e mamãe do lar também.

 

P/1 – Quais foram os lugares em que o seu pai trabalhou?

 

R – Ah, foi Londres, ele foi transferido quando eu ia completar seis anos. Fomos para a Inglaterra e moramos três anos e um ano em Paris. Isso foi de 1958 a 1962. Na época ele foi levantar recursos para construir a Refinaria Duque de Caxias da Petrobras.

 

P/1 – Vem desde aí então a sua ligação com a Petrobras.

 

R – É, como diz o velho ditado: “Filho de peixe, peixinho é, né”. E desde que eu nasci, né. Quando eu nasci em 1952, como eu te falei, um ano antes praticamente da Petrobras, e quando veio todo aquele clamor de todos, o Petróleo é nosso etc, diz a minha mãe e o meu pai que eu ainda era pequeno e ele chegava em casa e falava: “De quem é o petróleo?” e eu sempre respondi: “Nosso, nosso”. Não sabia nem o que estava falando, mas já está no sangue. Está no sangue desde pequeno.

 

P/1 – Você é filho único, Jacy?

 

R – Não, tenho uma irmã, Cláudia também. Ela é mais velha, tem três anos e meio mais do que eu.

 

P/1 – E qual foi o bairro da sua infância?

 

R – Tijuca, grande bairro, né. Nasci na Rua Dona Delfina numa Vila muito gostosa e naquela época era ótimo. Não tinha o menor problema lá. E toda a minha infância, quer dizer, até os seis anos, foram lá nessa Vila, brincando... tenho boas memórias de lá. Depois foi a Europa, que foi ótimo. Na volta, já com uns 10 anos, ainda ficamos um bom tempo nessa Vila e aí já fomos para outra rua, na rua Antônio Basílio, lá na Tijuca.

 

P/1 – Foi fácil essa adaptação de sair do Brasil e ir para a Europa tão novo?

 

R – Tão novo, né. Mas quando a gente é novo acho que a gente se adapta a tudo, né. Então, mas é lógico que eu tive, né, por que o que me aconteceu, que isso eu acho que refletiu o resto da minha vida, eu fui alfabetizado em inglês e não em português. Eu saí para lá com cinco anos de idade e naquela época você só era alfabetizado com seis anos, então eu acabei sendo alfabetizado em inglês. Só que quando eu cheguei lá, obviamente eu não sabia absolutamente nada e você é lançado num colégio interno, não, mas era semi-interno, então eu passava o dia inteiro sem entender absolutamente nada do que acontecia, mas como qualquer criança você, começa pegar com uma agilidade, uma rapidez. Eu me lembro que eu tinha como um dos deveres que deram logo no início, era ler um livrinho My name is John, I live here, e eu cheguei em casa chorando que eu não sabia, mas papai tinha uma coisa de bom caráter, aquela eterna paciência dele, e a partir daquele livrinho eu comecei a aprender com uns amigos, né, que eles mandavam repetir as coisas. Os colegas da minha idade, eles sabiam que eu era estrangeiro, que eu não falava a língua deles, então eles apontavam para uma bola e falavam: “Ball” e mandavam eu repetir (“Beet”?), e eu comecei a entender. O resumo, em seis meses falam que eu já falava fluentemente como uma criança de seis anos fala, né, e com a vantagem que o papai sempre falava assim: “Morro de inveja desse teu...” que eu não tinha sotaque, a criança aprende aquela língua e o inglês é como se tivesse um ovo na boca, né [risos], como a gente brinca. Mas, foi muito bom, foi uma época ótima.

 

P/1 – Como é que era a casa lá, o bairro onde você morou?

 

R – Era a rua, eu não esqueço até hoje, (Hasbangard number two?). Era um prédio onde a gente morava, aqueles prédios tipicamente inglês, bem tradicional, em frente tinha um parquinho onde os moradores daquele quarteirão tinham acesso à chave para você ir brincar no parque. Hoje em dia é um hotel neste parque. Você vê que coisa incrível, né, a gente... se fazem isso aqui no Brasil e você construir um hotel num parque, e fizeram isso em Londres. Porque eu retornei a Londres, já pela Interbras, e tive a oportunidade de morar perto de onde eu morava: (Sals queenstown park?) esse parque. E estive lá, obviamente fui lá, não só no meu colégio, nesse ponto inacreditavelmente idêntico, né, não muda, pode passar séculos que nada muda e nessa rua que é esse apartamento que eu morava, hoje virou um hotel.

 

P/1 – Jacy, fala um pouco da relação com a sua mãe, porque...

 

R – Ah sim, isso. Mamãe, né. Mamãe... eu sempre fui chamado o famoso filhinho da mamãe, né... aquele, o caçula que tinha, fui criado... os amigos meus falam assim: “Realmente, você não é gay porque não tinha essa tendência”. [risos] Nada contra, mas vocês vão ter que editar [risos], mas enfim... Por quê? Por que eu fui criado por bisavó, avó, mãe, irmã que já tinha com quatro anos de idade e a empregada. Então, eu era aquela coisa que se chorava, tinham quatro ou no mínimo três mulheres para ver o porquê aquela criança estava chorando. E o convívio com a minha mãe sempre foi ótimo, por ela ser do lar, você tem um outro tipo de infância, que hoje tem um lado que dá pena da gente ver, que hoje o meu próprio enteado tem essa vida já corrida desde pequenininho, tadinho, né, com a mãe trabalhando o dia inteiro fora, que tem todas as suas vantagens, no meu ponto de vista, né: sociabilidade, integração com a sociedade, muito mais rápida do que a gente que de repente é lançado num mundo e fala: “Opa, é isso que é o mundo?” Mas o mundo não é esse, não foi isso que a minha mãe me mostrou. Mas, sempre muito bom, eu adorava. Mamãe infelizmente, eu tinha falado do papai, mas ela também faleceu, há 2 anos já.

 

P/1 – Como é o nome da sua irmã?

 

R – Cláudia.

 

P/2 – A Cláudia também tinha uma relação de superproteção contigo?

 

R – Superproteção, embora tentou me matar, veja só você [risos]. São as histórias da família Miranda. Ela sempre via, né, a avó, a mãe, sempre pondo talquinho no bebê e minha mãe, segundo ela, quando chegou em casa comigo nos braços, logo depois entregou para minha irmã, e falou: “Olha, aqui é o seu filhinho, seu irmão, você tem que ajudar a cuidar”, para evitar aquela ciumeira, né. E ela via todo mundo pondo talquinho, e então um dia ela foi no meu berço, contam essa história, e foi por talco, só que a tampa do talco saiu, então veio aquela lata de talco direto na minha cara e, segundo a minha bisavó, que estava sempre atenta, eu já estava me sufocando com aquele monte de talco, narina, boca aberta. E eu brinco com a minha irmã até hoje e digo que ela tentou me matar, mas [risos] não, nós temos um relacionamento ótimo. Ela é outra que, apesar de nunca ter nunca trabalhado na Petrobras, é outra petroleira [risos].

 

P/1 – E na volta para cá, Jacy, já que você foi prá lá tão cedo, como é que foi esse estranhamento....

 

R – Isso...

 

P/1 – Esse estranhamento de cultura, clima...

 

R – Foi bravo. Nós voltamos... o papai optou em voltar de navio na época, não só pela mudança que sairia mais barato para a própria empresa. O papai era daqueles que se o lápis era da Petrobras, ficava na Petrobras, mas se era borracha que deram para ele, da empresa, não saía dali de jeito nenhum. Então ele sempre visou essa coisa da empresa e, principalmente no início, né, onde todos os recursos eram muito escassos, e ele optou na volta por navio. O que um lado contam que foi bom para mim, porque eu vim me acostumando com a temperatura, né, veio baixando, baixando... Mas, apesar disso, me queimei muito no navio, criança, 10 anos na época. Cheguei aqui, quando desembarquei no porto, a família toda... aliás, é nesse porto aí em frente, né... a família toda me abraçava e: “Ai, que saudade do Júnior” e diz minha mãe que eu fiquei irritadíssimo porque eu estava queimado, todo mundo me apertando e aquilo foi o meu primeiro trauma de retorno ao Rio de Janeiro, né. Mas, fora o clima, né, teve o colégio, que eu cheguei aqui com 10 anos analfabeto, não sabia ler e nem escrever muito em português, tive que partir para aulas particulares para ter essa noção e aí fui pegando, inclusive eu fui colocado, depois dessas aulas particulares no início, eu fui para o (Champagnat?). (Champagnat?) era o curso primário do Colégio São José, que não existe mais, e como todo Colégio de Marista, você tinha aula da religião e rezar, né, sempre no início da aula e eu só sabia rezar em inglês. Eu me lembro que o irmão falava, né: “Não se preocupe, meu filho, Deus entende todas as línguas” e assim a minha reza era sempre em inglês e eu fiquei conhecido, obviamente, no Colégio como gringo e não se usava esse termo na época, mas eu era o próprio gringo lá de todo mundo.

 

P/1 – Como é que era essa escola? Descreve um pouco para a gente.

 

R – O (Champagnat?) era basicamente, quer dizer, ele era totalmente Irmão Marista. Então, era uma coisa muito rígida, formação antes de entrar para a sala, mas você… não é essa formação que eu vejo de hoje... meu enteado lá, aquela coisa meio assim, todo mundo mais relaxado... graças a Deus, né, na época você não podia abrir a boca, aquela coisa séria, tudo silêncio, silêncio absoluto. Do (Champagnat?), logo depois eu fiz o curso de Admissão e fiz o exame para o São José. Foi aí que começara os meus espantos, que apesar de eu ter essa dificuldade básica, né, da língua portuguesa, eu passei para o São José, isso eu me lembro, em primeiro lugar. Eu tirava nove em matemática e cinco em português. Português era tudo raspando, né, e nessa entrada lá para o São José, eu acabei fazendo o ginásio lá na usina, era semi-interno. Mas eu sempre fui uma pessoa, desse meu jeito, extremamente comunicável, então eu nunca tive problema, onde quer que eu fosse, que fazia, vamos assim dizer, falta... eu sentia muito, eu ficava deprimido... nunca na verdade eu senti essas mudanças, nem pra lá e nem pra cá... Nem no retorno.

 

P/1 – E os amigos da Tijuca?

R – Ah, os amigos da Tijuca. Eu tive alguns amiguinhos assim, de Tijuca eu me lembro, Virgínia, Ana Maria, que eram as meninas com as quais eu brincava muito nessa fase antes de eu ir para Londres, né. Depois na volta, aí tem a turma que eu tenho dois grandes amigos que são daquela época dos 10 anos de idade até hoje: o Geraldo e o Jorge. Um é ex-Texaco, já está aposentado e o outro trabalha em Curitiba, até terceirizado para a BR. Ele é engenheiro civil, Jorginho, grande figura. A gente vem junto desde os 10 anos de idade, até hoje a gente se encontra. Quando eu fiz 50 anos eu dei uma festa que era para marcar e estava toda essa turma aí dessa época de Tijuca, não só dos 10 como dos 12 e 13 anos, né. 

 

P/1 – 10 anos e menino já começa pensar em namorar, né, então... mas quais eram as brincadeiras favoritas?

 

R – Menina, obviamente era o Pera, Uva e Maçã, né [risos], a brincadeira de esconde. Eu era uma peste, viu, tenho que reconhecer que eu não era fácil, não. Já não com os 10, mas já com os 12 anos, uma das brincadeiras que eu mais gostava de fazer era exatamente ligar a emergência do elevador do prédio onde a gente morava, apagava a luz e o salve-se quem puder. Obviamente, salve-se quem puder com 12 anos não é nada disso que vocês possam estar imaginando. Aí eram beijos, gritos e mais aquelas coisas de garoto e o prédio entrava em pânico. O porteiro me chamava de diabo loiro: “Esse menino tem o diabo no corpo” porque eu não parava, era o tempo inteiro assim e a minha primeira namoradinha foi com essa idade aí. Ela tinha 10 anos, Cristina, e eu tinha uns 12 anos, por aí.

 

P/1 – Era do prédio também, Jacy?

 

R – Não, era prima de uma amiga minha do prédio que ia passar lá o final de semana e aí começou. Na época, sabe como é que se pedia em namoro? “Você quer falar comigo?” Olha, nunca esqueci isso. Era essa a forma que você pedia a menina em namoro. Beijo... até que com ela não demorou muito, não, que era o que a gente queria mesmo [risos].

 

P/1 – Que outra travessura que te marcou dessa época?

 

R – Ah, passear pelas coberturas do prédio. Os prédios não tinham coberturas, normalmente o playground, que não existia, era no terraço, né. Alguns prédios faziam salão, então os terraços eram livres e os prédios grudados um do lado do outro, né, e eu acho que uma vez, por não ter muito o que fazer, eu chamei os meus amigos, o Jorge, o Geraldo, e outros, Luís Evandro que na época também ficava com a gente, e falei: “Gente, descobri como entrar lá no terraço e a gente pode pular de prédio pra prédio” e assim nós fomos. E a gente chegava até num prédio que ainda estava em obras e no final de semana que não tinha ninguém trabalhando, a gente descia, né, por esse prédio, pela escada, e o vigia estava fora e a gente do lado de dentro do prédio, brincando lá com as coisas, aprontando, até que nós descobrimos, isso daí eu nunca esqueço, nós descobrimos a câmera indiscreta. Era um programa, que eu acho que tem até hoje, mas com outro nome. O que era a câmera indiscreta? Nós descobrimos que tinham aquelas tábuas fechando o andar assim da obra e tinha aquela frestinha entre uma tábua e outra, e aí, quando a gente falava por ali, a pessoa do lado de fora na rua achava que estava vindo lá de cima do prédio. Então a gente chamava: “Psiu, psiu”, a pessoa parava e olhava. Então aquilo era chamava o táxi, passava o carro, naquela época dava de fundos para o Maracanã, só que não tinha movimento.. Então passava o táxi, e: “Psiu, psiu”, o táxi parava, o táxi não via ninguém e ia embora e chamava outra vez, e o táxi nada. E para a gente sair, falava: “Ah, subir isso tudo a pé, de escada, de jeito nenhum, né”... O que a gente sempre fazia: a gente sempre levava umas bombas, umas cabecinhas de nego pequenas, e rolava pra debaixo do banco do vigia que estava do lado de fora. Aquilo dava aquela explosão, o vigia pulava, queria saber de onde era, abria e a gente ó [estalo de dedos], “sartava” fora [risos].

 

P/1 – E quem dava conta depois, sua mãe ou seu pai, Jacy?

 

R – Olha, eu acho que essas histórias, eles nunca souberam, viu, porque... aliás, papai só soube que eu roubava o carro dele aos 15 anos, que eu aprendi a dirigir assim: eu via como é que fazia e um dia eu peguei a chave e desci, entrei no carro e: “Vamos embora, galera, vamos passear pelo Alto da Boa Vista” e fomos embora. E depois de um... aí já estava uns dois anos que eu já fazia isso, eu bati com o carro, mas ele estava viajando, numa das viagens para o exterior pela Petrobras e eu me lembro que quando ele chegou, falei: “Pai, preciso muito conversar com você”. Primeiro eu pedi a minha irmã pra assumir, porque ela já era maior: “Aí, assume que foi você”, “De jeito nenhum, você fez, você assume”. Aí eu cheguei e falei: “Pai, eu preciso muito falar com você”, “Tá filho, vamos falar, não sei o quê”. Aí chegou: “O que é que foi, meu filho?”, muito sério: “Vai ser pai?” Eu falei: “É muito pior.” Não fazia ideia o que era ser pai com 16 anos, para mim o fim do mundo era ter batido com o carro dele, né. Mas foi uma surpresa, depois que eu contei pra ele, ele virou pra mim e falou assim... eu esperava bronca, castigo, tudo, né: “Sempre te disse que pra dirigir tem que ser habilitado”. Aquilo doeu muito mais do que o tapa, do que a bronca [risos], e ficou na história. Mas essa ele segurou, porque acabou pagando o conserto, né. Mas do resto, não tinha prejuízo, não. Minha mãe diz que lá por essa minha idade de 12 anos, ela era muito católica, que ela me entregou a São José. Desistiu e falou: “Olha, São José, cuide desse menino” porque ela uma vez também... eu gostava muito de descer de bicicleta o Alto da Boa Vista, né, e ela uma vez ,uma amiga viu eu a 800 por hora, minha bicicleta já tinha marcha, estava chegando aqui no Brasil, então eu ainda pedalava na contra-mão e uma pessoa que estava dentro do ônibus, uma amiga dela, falou que me viu despencando da Rua de Bonfim de bicicleta. Obviamente fiquei sem castigo e diz ela que aí ela me entregou a São José e pelo jeito São José cuidou direitinho [risos].

 

P/1 – Já que você falou nisso, você teve educação religiosa?

 

R – Tive, tive, muito por causa dela, né, fiz toda a parte... aliás, Primeira Comunhão muito chique, foi em Paris na época em que eu estava lá, depois Crisma, né, no Colégio São José, no Colégio Marista. Mas hoje em dia eu vejo a religião de outra forma: continuo sendo católico, respeito, tem uma série de coisas, vou à missa de vez em quando, assim, quando eu gosto, mas mais para uma meditação interna do que um acompanhamento daquilo tudo que me foi ensinado, né, bem diferente.

 

P/1 – Na adolescência, juventude, você praticava esportes, Jacy?

 

R – Menina, nenhum. Impressionante como eu nunca dei para esporte. Cheguei a jogar tênis, que nós éramos... o papai era sócio do Tijuca Tênis Clube e lá que eu passei essa minha “aborrescência” toda, né. Então tênis eu cheguei a jogar, mas nada profissional e nem amador [risos], uma brincadeira mesmo. E no colégio, futebol, dois pés esquerdos, acho que é por isso que eu não gosto de futebol [risos], nunca me dei nos outros esportes também. Sempre gostei muito de corrida de carro, tanto que hoje eu adoro Fórmula 1, todas estas corridas de carro eu gosto muito. Vem da época das fugas com carro do velho Jacy para apostar corrida no Alto da Boa Vista [risos]. Mas eu gosto. Aliás, eu sou da época, eu tenho a mesma idade do Piquet e o Piquet, eu não conheci o Piquet nessa época, porque logo depois foi para Brasília, mas segundo alguns amigos em comum, tanto dele quanto de mim, a gente já pôs alguns “pegas” juntos naquele Alto da Boa Vista, sem saber [risos]. Ele menor e eu também [risos], mas na época era outra coisa, né... era outro Rio.

 

P/1 – Com o grupo de amigos, quais eram as atividades de lazer?

 

R – Ah, era clube, era... Naquela época era Clube, era Tijuca, era piscina, ficava lá as festinhas de 15 em 15 dias no sábado à noite e aos domingos, as famosas Domingueiras. É.... cheguei a ser escoteiro, mas não durou muito, lá do Tijuca. Aí, fiz alguns passeios, Parque Lages, essas coisas, né... e as festas do Tijuca eram as que eu  mais gostava: o rapaz tinha que ter 16 anos e moças 14 para você entrar. Na época eu tinha 15, por aí, então eu escondia por trás daquelas cortinas enormes que tinham nos salões antigos. Ficava lá, um pouco antes, quer dizer, começava acho que às sete, então, às seis e meia eu já  entrava lá no salão e me escondia atrás de uma cortina e lá ficava, até o povo começar a chegar. Então nesse ponto eu sou um péssimo exemplo, tá gente, não sigam [risos].

 

P/1 – Jacy, você já estava envolvido com a campanha “O Petróleo é nosso”, desde...

 

R – Desde os dois anos de idade [risos]

 

P/1 – Seu pai te.... quer dizer, sua família, como um todo, tinha alguma expectativa em relação a sua profissão?

 

R – Ah, claro, quer dizer... embora o papai nunca tenha puxado, ele sempre dizia: “Sempre, seja lá o que você for, seja o melhor e seja o que você gosta”, mas é natural, né, parece que na vida a gente acaba sendo influenciado direta ou indiretamente pela profissão dos pais da gente. Eu acho que a maioria segue, né, e eu, tanto que a primeira faculdade que eu tentei foi economia na Gama Filho e eu nunca fui muito estudioso, sempre que eu... palavras do velho Jacy: “Eu sempre te disse, burro tu não é, tu é vagabundo.” Que era a coisa de eu não querer fazer, estudar, porque quando essa frase... ele me soltou essa pérola foi quando eu entrei na Gama Filho, que eu entrei entre os 10 primeiros. E na Gama Filho, naquela época era muito concorrida, era muito difícil e eu não achava o meu nome na lista, porque estava lá em cima e um amigo meu que falou: “Olha lá, cara, tu entrou no oitavo lugar.” Falei: “Inacreditável.” A minha fama era tanto com o velho Jacy, quando eu perguntei pra ele: “Pai, adivinha em que lugar eu entrei.” Falou: “Quantos eram?”, respondi “250”. Ele: “Penúltimo” [risos]. Falou, era ruim. Falei: “Não”. Foi aí quando ele soltou essa frase. Mas foi Economia, depois eu fiz da Administração no Bennett e a última foi Hélio Alonso foi Comunicação, foi a que eu mais adorei, mas eu também não cheguei ao final, por causa que eu não queria e temos que assumir, e por causa do trabalho, na época, da Interbras.

 

P/1 – Falando nisso, você começou a trabalhar com quantos anos?

 

R – Ah, meu primeiro emprego eu tinha 19 ou 20 anos e foi em São Paulo. Papai foi transferido também para São Paulo, foi da Petroquímica União pela Petrobras, né. E, nessa época eu estava lá em São Paulo, servia o Exército lá... delícia... e o meu primeiro emprego foi numa gráfica. Vendia cartões, papel impresso, ficava visitando as empresas, né. Mas foi com essa idade que eu comecei.

 

P/1 – Foi iniciativa sua começar a trabalhar ou não?

 

R – Foi, já estava cansado daquela pouca mesada, né, que a gente reclama, mas a gente entende que os pais fazem isso de propósito, acho que é pra gente correr atrás, né, e você já com 19 ou 20 anos, a gente já era um marmanjo, né, e fui atrás. Era um amigo que tinha um irmão que tinha uma gráfica e estava precisando de gente e aí começou a vida profissional.

 

P/1 – E como é que foi daí? Eu sei que a gente vai dar um salto longo daí pra Petrobras, mas em que momento a Petrobras apareceu para você como uma opção de trabalho mesmo?

 

R – Isso, foi assim… Depois foi rápido, porque depois disso o papai voltou para o Rio e eu fui trabalhar em banco, no banco Mercantil de São Paulo, que está extinto já, que foi comprado. E, do banco, um dos meus clientes, que eu também fazia essa parte de relacionamento, né... minha vida inteira foi essa coisa, sem perceber a gente vai mostrando a cara e vai aparecendo, e um dos clientes meus era uma confecção ali em Ipanema, nós morávamos em Ipanema nessa época, e da confecção, a dona da confecção, Marília, Dona Marília, gente boa, disse que eu tinha que montar o meu negócio: “Então você vai montar uma confecção e eu vou dar as roupas para você fazer.” Na época não existia, mas é o que é hoje uma facção, onde as confecções já dão a roupa, pedem, já dão cortada ou pedem para essa outra empresa fazer tudo o que é a facção. E, a partir daí, o negócio ia trocando seis por meia dúzia. Meu pai me ajudou no início a comprar as máquinas, montei ali em Ipanema mesmo e veio a Interbras. O papai quando foi convidado para ser diretor da Braspetro aqui no Rio, estava saindo da Braspetro, a Interbras, foi quando o Santana assumiu a vice-presidência da Interbras e nessa conversa, o meu cunhado já era da Braspetro e estava indo para a Interbras, e conversando lá em casa, né, aqueles papos de família, falando: “Olha, eles estão precisando de muita gente e gente que fala inglês principalmente, porque é comércio internacional.” Naquela época, você contava a dedos quem falava inglês: “E você tem inglês fluente, cara.” Aí eu falei: “Ah é, e qual o salário?” Aí, naquela de ver salário, era um pouco menos, eu falei: “Também trabalha-se menos.” E fechei a confecção e entrei na Interbras em 1979. Foi aí que tudo começou.

 

P/1 – E qual era... o que você fazia na Interbras?

 

R – Na Interbras eu fui chamado por causa do inglês para trabalhar na área, na gerência financeira. A gerência financeira tinha abaixo dela duas tesourarias, a nacional e a internacional, e aí me colocaram na tesouraria internacional. Na época nós tínhamos... a empresa estava começando a vender, a comprar produtos no exterior e pagar em dólar e vender em outras moedas: marco-alemão, franco-francês, enfim, em yen-japonês. Existia um risco de flutuação entre estas moedas e aí eles viraram para mim, eu me lembro assim: “Olha aí, tu tem que aprender o que é hedge de moeda, te vira cara, fala com os bancos lá fora que nós temos que montar uma mesa de operações financeiras” e foi a partir daí que eu comecei a me envolver e adorar e me apaixonar. Tranquei a faculdade de Comunicação, porque não tinha mais tempo para estudar, comecei a trabalhar de oito, às oito então era fácil porque para pegar o fuso horário, né... tinha a Europa, que era a meu favor, mas tinha que chegar cedo, mas tinha Estados Unidos que pelo menos duas horas, às vezes chega a três horas de fuso horário, e a gente tinha que estar acompanhando tudo. Engraçado, naquela época a Ásia não existia muito, senão acho que era 24 horas no ar, acompanhando.

 

P/1 – Você lembra-se do seu primeiro dia de trabalho na Interbras?

 

R – Ih, lembro, eu trabalhava… nós entramos num prédio que era da Petrobras, aqui na Presidente Vargas, é o Edifício Barcelos, se não me engano, 524, e quando eu cheguei, obviamente meu pai como diretor de Braspetro, lá vem o peixinho, né: “Ê, tá chegando mais um peixinho”, isso depois o pessoal me contando: “Chegando mais um peixinho, o filho do diretor vai trabalhar aí na área internacional.” E meu amigo Mesquita, que hoje trabalha aqui também no Gás e Energia, que falava: “Eu quero qualquer um. Estou desesperado, eu preciso de gente, qualquer pessoa” e eu me lembro que o Mesquita, ele perguntou para mim assim: “Você sabe o que é Carta de Crédito?” Aí eu falei: “Carta de quê?” Ele: “Ótimo” que eu não entendia nada, assim ele podia me explicar, me ensinar absolutamente tudo. Eu não teria nem cacoete, nada, né... e assim foi. Esse foi o meu primeiro dia e a partir dali veio toda essa história da Mesa de Operações, dos bancos lá no exterior e tudo o mais.

 

P/1 – Havia muitos graus hierárquicos nesse momento na Interbras?

 

R – Na Interbras, então... Mesquita, ele não tinha cargo. Mesquitinha ainda não tinha cargo. Eu respondia e nós todos respondíamos, apesar de eu responder a ele, ele não tinha um cargo efetivo. Tinha o tesoureiro e o gerente financeiro e acima dele, o diretor financeiro e o vice-presidente, que era o Santana.

 

P/1 – Depois da Interbras?

 

R – Depois da Interbras... Bom a Interbras foi extinta em 1990 por decisão, na época, do Governo Collor e eu estava lá de volta a Londres, mas aí pela Interbras, como gerente financeiro do Interlon, escritório lá de Londres. E, de lá, quando houve a extinção, eu acabei arranjando um emprego na Suíça, numa empresa multinacional de café. Eles estavam precisando de alguém exatamente com a minha experiência dentro dessa área de mercado financeiro, de captação de recursos, de hedge de moedas e eu fui trabalhar lá como assistente do diretor deles. Eles tinham muitos negócios aqui no Brasil também, que por ser café, eles tinham escritório, então esse fato de eu falar português era muito importante para eles. É... foi uma empresa ótima, porque a sede deles era na Suíça, em Genebra, e eu me lembro que a chefe do RH só falava italiano, que ela era italiana, e francês e eu só falava inglês e português. Então a nossa comunicação era assim uma coisa assim gozadíssima, sempre tinha que ter ou alguém para traduzir ou então não ia dar certo. Mas era Bozzo, Bozzo Comércio de Café. E depois da Suíça, eu voltei para o Brasil e aí aproveitamos exatamente esta oportunidade que o Brasil estava na abertura dos portos, né, começaram a importar muita coisa, a maioria das empresas não tinha esse know how que nós aprendemos ao longo dos anos com a Interbras. Então, eu montei, junto com outro colega meu que também está aqui, o José Costa, uma consultoria de importação e exportação. Chegamos a fazer alguns negócios de importação e exportação, mas nós prestamos muito e muito do nosso sucesso acabou sendo na área de consultoria, principalmente para as pequenas empresas que não podiam importar diretamente, então eles faziam através da gente, né. E nessa caminhada, depois dessa consultoria e na área de captação de recursos, eu fui convidado para trabalhar para o Governo do Estado, né. Depois do Governo do Estado, eu trabalhei dois anos também na Secretaria de Planejamento dentro da Subsecretaria de Captação de Recursos do Estado. E aí, eu fui convidado pelo meu amigo Roldão, que hoje é da área financeira, é gerente aqui da Petrobras também, e na época ele era gerente financeiro do escritório da Petrobras em Londres. Os escritórios eram juntos: voce entrava, de um lado tinham as salas da Petrobras e do outro da Interbras. E o Roldão era gerente financeiro da então, que é Gaspetro, que foi a empresa que hoje existe, é uma das subsidiárias da Petrobras, e na época ele precisava de gente exatamente com esta experiência, então eu vim terceirizado ainda nessa época em 1998 e assim fiquei até 2005 quando a Petrobras chamou a gente para retornar. Essa foi rapidamente a escalada.

 

P/1 – E retornando, qual foi o setor?

 

R – Eu voltei... quando eu voltei foi Gás e Energia, né, onde eu estava, depois passei rapidamente pela área financeira. Foi em 2005 quando eu fui convidado para vir então assumir esta parte do Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro], a coordenar o Centro de Integração do Comperj.

 

[Pausa]

 

P/2 – Então Jacy, aí em 2005 você chegou no Comperj?

 

R – Isso.

 

P/2 – Como foi para chegar no Comperj?

 

R – Isso, eu fui convidado exatamente para coordenar o Centro de Integração do Comperj, do Complexo, né. O que é o Centro de Integração? O Centro de Integração foi uma visão da Petrobras de que haveria necessidade de capacitar e qualificar o pessoal daquela região onde o Complexo iria ser implantado. Por quê? Não sei se vocês sabem,  tem mais de 25 anos que a Petrobras não constrói uma refinaria, né. Ou seja, há 25 anos o Governo era outro, a situação era outra, as preocupações eram outras, eram com a refinaria e não muito com o entorno. Só que graças a Deus as coisas evoluem e essa minha empresa também, e quando foi declarado o local, né, quando foi dito que Itaboraí seria o município onde vamos implantar o Complexo, imediatamente a direção viu a necessidade de fazer essa capacitação da mão de obra para evitar a migração e consequentemente a (favelização?) etc e tal. Essa foi a demanda que me deram nessa coordenação do Centro de Integração e aí foi tudo tocado a toque de caixa, porque o Compl exo tem data para inaugurar, uma data até muito simpática, não sei se vocês conhecem: 12 do 12 de 2012. Essa é a data que vai entrar o primeiro óleo, é a expectativa que entre o primeiro óleo no Complexo Petroquímico.

 

P/2 – E Jacy, e Itaboraí? Por quê o Centro foi para essa área, teve alguma dinâmica para escolha do local?

 

R – É, teve. Quando nós vimos que os 11 municípios que hoje compõem o Coleste, que é o Consórcio do Desenvolvimento do Leste Fluminense, que é o Consórcio composto pelas 11 Prefeituras dos Municípios, de que o Município mais populoso era São Gonçalo, onde nós íamos atuar, né, e são os municípios que vão ser afetados de forma direta ou indiretamente, nós vimos que São Gonçalo por ter praticamente 50% da população da região, não tinha ainda a infraestrutura que poderia atender a essa demanda de sala de aula. Então, nós optamos em fazer não em Itaboraí o prédio do Centro de Integração, mas em São Gonçalo por causa disso. Por causa da população.

 

P/2 – E essa experiência de relacionamento com o Governo, com os Governos Municipais, você teve algum fato que destacou, alguma coisa que te marcou?

 

R – Olha, até lidar sempre com as autoridades, né, eu gosto muito, porque apesar da gente ter uma visão como eleitor, na verdade quando você chega perto deles, vocês vêem que a luta, né... eu vejo lá, no caso da Prefeitura de São Gonçalo foi com que eu lidei mais de perto por causa do Centro de Integração, a luta de um Prefeito não é fácil, não. Mas você tem, sem dúvida, muitas histórias, entre elas, por exemplo, essa parceria da Petrobras com a Prefeitura de São Gonçalo cabia à Prefeitura ceder o terreno e a Petrobras construiria o prédio. Então, nós tivemos aí um prazo até maior do que a gente gostaria para escolher o terreno, né. A Prefeitura, ela tinha alguns terrenos que ela chegou a nos oferecer, mas infelizmente numa região, digamos, um tanto perigosa. Tem uma história, que até mais tem um lado tragicômico, né, que nós fomos ver um terreno, subimos numa laje para ter uma visão melhor e ali ficamos durante, sei lá, uns 10 ou 15 minutos, até que um dos assessores virou pra gente e falou: “Gente, vamos andando que a gente já está muito tempo aqui e a gente pode virar alvo fácil” [risos]. Então, a partir dali nós já descemos e vimos que aquele não era o melhor local para se colocar uma escola. Mas independente disso, logo no final acabou sendo escolhido um terreno que era uma Escola Municipal, onde estava condenada pela... por... esqueci o nome do... civil...

 

P/2 – Defesa Civil?

 

R – Defesa Civil. Desculpe... [risos]

 

P/2 – Ah, sem problemas. E falando um pouco da construção desse Centro de Integração, né...

 

R – Aham...

 

P/2 – Você chegou no Comperj em 2005. Aí pelo que eu soube, a primeira turma formada saiu em 2007 e o Centro foi inaugurado em 2009.

 

R – Isso.

 

P/2 – Como é que foi nesse tempo, essa mudança, a construção, treinar as pessoas enquanto o prédio ainda não estava pronto? Como é que foi esse trabalho?

 

R – Então, foi assim. É como eu te falei, como a demora da escolha do terreno por parte lá da Prefeitura foi maior do que a nossa expectativa, acabou realmente atrasando todo esse ciclo, né.

 

P/2 – Impactou no trabalho de vocês.

 

R – Exatamente. Mas como a gente não podia parar porque a gente obedece rigorosamente o histograma da nossa engenharia e a nossa... a função do Centro é capacitar e qualificar esse pessoal, necessária, às vezes, um mês antes, de preferência, da necessidade da obra, que é para exatamente a pessoa já sair qualificada e a empresa terceirizada já lançar mão dessa mão de obra, né. Então o que aconteceu? Nós vimos que o jeito era fazer como nós já estávamos negociando com as demais Prefeituras. Como não existe e nem vai existir um prédio de Centro de Integração em cada Município, porque não há necessidade, nós começamos a fazer a parceria com todas as demais Prefeituras onde eles cederiam o espaço de uma escola pública que eles não tivessem 100% de ocupação e a gente faria a capacitação desse pessoal nessa escola. E fizemos a mesma coisa com São Gonçalo, enquanto o prédio estava sendo construído, a gente utilizou uma das Escolas Municipais deles, que era um CIEP (Centro Integrados de Educação Pública), onde ali a gente fez, quer dizer, eles cederam uma parte do CIEPs para a gente e a gente vem fazendo a capacitação desses alunos do primeiro ciclo, que foram 3.000 qualificados, né, e os demais Municípios também, todos eles respeitando a proporção de habitantes por Município, né.

 

P/2 – Legal. E o que você acha que... quais são os principais aspectos que essa atuação da Petrobras vai trazer para o Município tão populoso e tão carente nessa nossa...

 

R – Muito, muito carente. Olha, eu acho assim a importância vital. Para você ter uma ideia, hoje dos 3.000 que nós qualificamos, a gente sabe que 70% deles estão trabalhando diretamente na obra. Apesar da Petrobrás não poder obrigar que a empreiteira contrate esses alunos, fica claro e sempre foi muito claro para a gente que bastando informar que foi a ferramenta que nós criamos... informar a empreiteira de que: “Olha, esse aluno aqui está capacitado dentro dessa profissão com 40 horas de SMS” que é uma das exigências do contrato da Petrobras, né... a gente... e mora aqui ao lado, ou no Município, ou de Itaboraí ou no Município de São Gonçalo, a gente não tinha dúvida que a empreiteira ia buscar essa mão de obra e realmente isso aconteceu. Os 30%, é... a gente tem até esse levantamento, mas muitos, não é que não foram absorvidos, acabaram sendo absorvidos por outras  empresas da região.

 

P/2 – Que se aproveitaram dessa qualificação.

 

R – Exatamente, que é o objetivo do Centro de Integração.

 

P/2 – E Jacy, tem assim o nível de formação que vocês tenham atuado mais? Fundamental, ensino médio, superior, existe uma...

 

R – Atualmente, todo ele, o básico, né. Todo ele focado para pedreiro, eletricista, do qual a exigência é a quarta série, aliás, para eletricista é a oitava, mas para os demais a quarta série, que é o nosso N1. Mas agora já no nosso novo ciclo, a gente já está indo para o nível técnico e mais adiante vamos atender também ao nível superior.

 

P/2 – Isso por que a qualificação desse ano está muito voltada para o desenvolvimento do próprio Complexo.

 

R – Exatamente. Nós estamos totalmente focados para a construção, como eu falei, o histograma, a gente obedece-o rigorosamente e é como a gente diz, né... até a gente brinca: vai ser até muito interessante se a mão de obra treinada por nós for absorvida por outras empresas e aí vai faltar mão de obra para nós [risos] na região, da região, né. Mas se isso acontecer, eu acho que a gente...

 

P/2 – É uma vitória, né?

 

R – É uma vitória, com certeza.

 

P/2 – Me diz uma coisa, como é que foi a festa de inauguração do Centro? Como é que foi para você, sua emoção, o que você sentiu?

 

R – É, realmente foi uma emoção, porque quando nós... eu tenho até algumas fotos, eu e o Rafael. Rafael é o nosso consultor que detém toda a metodologia de como fazer um Centro de Integração funcionar, né. E nós temos uma foto do Colégio, antes, o durante e o depois, bem no portal. São quatro fotos que a gente guarda com muito carinho, porque quando a Prefeitura derrubou a Escolas que estava condenada, a gente ainda brincou, olhou para trás e falou: “É cara, agora não tem volta” e foi muito... foi uma coisa que realmente emociona tanto a ele quanto a mim até hoje, quando a gente vê essa coisa de poder ajudar e capacitar... A educação é tudo, né... é o que toca.

 

P/2 – Você falou agora no Rafael. Você tem outras pessoas que você pode se lembrar que foram importantes durante esse tempo? Você passou quanto tempo.. você passou quanto tempo como coordenador do Centro?

 

R – Foram três anos na verdade.

 

P/2 – Quantas pessoas que te ajudaram nessa tua atuação, nessa construção? Fala um pouco mais dessa sua rede social.

 

R – Entendi. Olha só, sem dúvida é a equipe toda do Rafael. Ele é o número um. Eu posso até dizer que sem ele esse Centro não ia sair do chão, se saísse ia demorar muito mais, né. A prova disso é que a Graça, né, quando ela me escolheu para coordenar, ela antes disso, ela tinha dito, né: “Eu quero o Rafael nesse Projeto”, porque eles tinham trabalhado já anteriormente juntos e ela sabia da capacidade dele. Então você tem o Rafael e a equipe dele toda: o Antônio, a Adriana, a Gracinha, sabe... É o pessoal que não tinha mal tempo, aliás, que não tem, porque eles continuam com a gente, né. O Sílvio, a Marselha agora também que se juntou agora a nós mais para o final. Mas, gente, é uma turma que você chegava às vezes, a gente saia da região à meia noite, sabe, em reuniões com a Prefeitura, mostrando e vendo como é que tem que fazer. Que como você sabe, infelizmente as Prefeituras não estão equipadas, né, do jeito que a gente gostaria ou que elas mesmo merecessem, mas... Então, foi um trabalho árduo. Era um trabalho assim, incansável mesmo, da gente fazer assim com que o negócio saísse do papel para a realidade, com certeza.

 

P/2 – Só para situar, a Graça é a Maria da Graça Foster....

 

R – Maria das Graças Foster é a atual diretora, era gerente executiva do ABPF, da Petroquímica Fertilizantes.

 

P/2 – E o Rafael, quem é o Rafael?

 

R – Rafael é o Rafael Eira da Silva. Ele é o nosso consultor. Ele trabalha na empresa, uma consultoria dele, a Apuama, e ele foi contratado pela Petrobras para desenvolver esse projeto e a gente está muito feliz de ter acertado. Eu diria que Dona Maria das Graças tinha toda a razão quando falou: “Tem que ser o Rafael” [risos].

 

P/2 – E aí, depois que você lançou o Centro de Integração, você passou a ser gerente setorial de um setor chamado de Comunicação e Inserção Regional.

 

R – Isso.

 

P/2 – Você ainda está trabalhando um pouco com aquela unidade em torno do Comperj, né? Como é essa nova função?

 

R – Está muito gostosa, porque como não tem só o Centro de Integração, agora a gente está até com uma parceria ótima com o Centro de Informações, que é do meu amigo (rápido Gavin?), a gente está atuando diretamente juntos numa parceria muito legal e toda essa parte de inserção regional, né. É uma coisa que eu gosto muito. Acho muito legal a gente ter esta oportunidade de estar realmente preocupado com a região, né, o famoso RS, que toda a empresa hoje, todos falam muito, e eu acho muito importante é que a Petrobras, pelo menos na parte que eu venho atuando, ela vem atuando com muita Responsabilidade Social. Eu acho que isso é muito legal da gente realizar este trabalho.

 

P/2 – Você se orgulha muito disso?

 

R – Hum... muito...a gente fica até meio engasgado [risos] de poder ajudar, né. É muito legal. Você ter um logo do tamanho da Petróleo, é bom.

 

P/2 – Me diz uma coisa, finalizando aqui seu momento de Comperj... você tem algum desafio profissional que você tenha superado, que você tenha em algum momento achado que sentiu assim uma certa dificuldade, que você consiga lembrar, agora? Desde que você entrou?

 

R – Desafio! Olha, eu acho que o meu maior desafio foi o Centro de Integração, viu? Para mim eu não tenho dúvida disso não. Eu confesso que no início eu não tinha assim a noção de como tocar, como é que fazia, como é que eu ia iniciar isso, né, e aí veio não só a importância fundamental do Rafael, como o meu próprio desafio quando eu vi o tamanho da encrenca... a encrenca boa [risos] de realmente realizar aquilo tudo. Foram noites assim, digamos, um tanto quanto preocupante para superar isso tudo, essa parte, né, mas como o prédio está lá, superei [risos].

 

P/2 – Já tem alguma turma lá dentro atuando...

 

R – Já tem... esse primeiro ciclo na verdade ele está terminando agora. São os restinhos da  turma que faltavam e eles, desde a inauguração eles já estão sendo capacitados lá no Centro de Integração.

 

P/2 – Legal. Acho que é isso.

 

R – Muito bom.

 

P/1 – Nós já estamos terminando, Jacy.

 

[Pausa][Tosse]

 

R – Claro, vamos lá.

 

P/1 – Jacy, você é casado?

 

R – Sou casado.

 

P/1 – Tem filhos?

 

R – Não. É o meu segundo casamento, tive dois enteados [risos]: do primeiro casamento e desse. Mas eu nunca tive filhos próprios não

 

P/1 – E as horas de lazer?

 

R – Horas de lazer, horas de lazer é uma coisa muito boa, né? Olha, o pessoal brinca comigo que como eu moro em frente ao Bracarense, o meu lazer é ir até o Braca tomar um chopp e relaxar. A grande maioria tem razão e nessas eu já tive até boas oportunidades de conversar, rapidamente, claro, com Dutra que já foi presidente, é o atual presidente da BR, o próprio Gabrielli que é o nosso atual presidente, que já teve lá com a família dele. Foi até uma coisa muito gozada, porque eu estava de costas, em pé, tomando um chopp e nisso um amigo meu que conhece ele, falou: “Olha o teu presidente aí”, quando eu virei, dei de cara com ele [risos]: “Ô Presidente, saúde!” [risos] Mas ele... o Dutra, né, que tem até uma história que ele não deve saber, mas é... pelo pouco que eu conheci dele, eu sei que ele vai rir dessa história. Ele, o Dutra, ele chegou a ir mais vezes lá no Bracarense, não sei se você conhece, o Bracarense é meio um barzinho que vai o Aécio, vivia lá, né... além do chopp muito bom. E uma vez o Dutra estava lá no cantinho e sempre tinha um menino que vendia balas ali pra gente na região, e era um garotinho muito assim, simpático, mas vivia perturbando para comprar bala e aí um dia eu virei pra ele e vi o Dutra lá na outra ponta e falei assim, ó: “Quer vender bala? Vai lá naquela ponta lá e fala assim: é o Senhor que é o José Eduardo Chopp Dutra?” que era o apelido que o Anselmo Costa tinha dado para ele, né: “Aí, fala isso pra ele, que ele vai te comprar bala.” Lá foi o moleque lá. Chegou lá e falou e eu só ouvi a gargalhada do Dutra. Ele não comprou a bala, mas com isso eu comprei a bala para agradar o menino que realmente foi a gargalhada. E o que eu mais gosto sem dúvida, quando eu posso, é viajar para Búzios. Gosto muito de ficar lá à toa, largado assim.

 

P/1 – Não faz mais corrida de carro?

 

R – Corrida de carro eu parei, né, falei: “Chega” [risos] Já passamos da idade. Essa época foi, aliás, foi uma coisa muito boa que aconteceu em São Paulo. São Paulo, para acabar com os “pegas” de rua naquela época, eles abriram o autódromo de Interlagos, onde qualquer um poderia se inscrever para correr. Você levava lá o seu carro, assumia lá os seus riscos e ia lá pôr o seu “pega” dentro da pista. Foi ótimo, mas é uma pena que isso não foi adiante. Eu cheguei a correr lá algumas vezes, mas depois disso, nunca mais.

 

P/1 – Jacy, tem assim alguma coisa que a gente não tenha te perguntado que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Ô, meu Deus! Acho que não, acho que é tudo que eu gosto sempre de lembrar que as pessoas perceberam que ao longo desse projeto do Centro de Integração, e que é possível você ter responsabilidade e ao mesmo tempo ser esse gênio meio criança, meio irresponsável. Acho que não há necessidade de você ser uma pessoa fechada, turrona, para você ser presidente de uma empresa ou ter um projeto de responsabilidade. Eu acho que dá para conciliar as duas coisas, né: dá para ser responsável e ser light, por que não, né?

 

P/1 – Para concluir, Jacy, o que você achou de participar do Memória Petrobras?

 

R – Ah, gente! Fantástico, essa coisa... se eu acreditasse em espiritismo, eu ia dizer que isso é coisa do meu pai, entendeu? Lá de cima mandando eu fazer isso. É uma pena dele ter falecido porque sem dúvida ia adorar ter participado dessa Memória e ele provavelmente teria muitas histórias para contar, né. Mas achei fantástico, acho uma iniciativa ótima da empresa, de manter essa memória viva, né, para toda a geração que vem aí pela frente. Muito legal!

 

P/1 – Você falou agora e eu pensei em uma coisa: ele não chegou a ver você na Interbras, não, né?

 

R – Chegou... chegou a ver... ele faleceu... eu entrei em 1979 e ele faleceu em 1981, no final de 1981. Então ele chegou a ver o filhinho com o pé dentro da empresa, né.

 

P/1 – Ah, claro, você tinha falado, ele estava...

 

R – Isso, ele se aposentou um pouco antes disso, quando eu entrei ele ainda era diretor, mas ele se aposentou logo depois e aí acabou falecendo também, infelizmente.

 

P/1 – Jacy, muito obrigada. Foi um prazer.

 

R – O prazer foi todo meu. Muito obrigado a vocês e a toda a equipe.

R – Meu nome é Jacy Vieira de Miranda Júnior. Nasci no Rio de Janeiro no dia 9 de outubro de 1952.


P/1 – Jacy, qual era o nome dos seus avós maternos e paternos?


R – Meus avós, Jacy também, Jacy Borges de Miranda, e minha avó, vovó Diva de Miranda.


P/1 – Eles eram do Rio?


R – Todos os dois do Rio. Meu pai, a família toda do meu pai, veio do Rio.


P/1 – E qual era a atividade dos seus avós?


R – Meu avô era motorneiro do trem da Central do Brasil e minha avó, do lar.


P/1 – Você teve um contato muito próximo com seu avô?


R – Olha, pouco tempo. Ele veio a falecer... porque a partir dos seis anos de idade meu pai foi transferido para o exterior, então eu tive este contato com o meu avô até os cinco anos só. E ele, quando eu estava no exterior, ele veio a falecer. A minha avó não, já tive um contato maior. Na época foi até os meus 28 anos.


P/1 – Qual é a memória mais forte que você tem da sua avó?


R – Da vovó Diva? Ah, da vovó Diva era dos finais de semana que sempre ia passar lá em casa. Vovó Diva a gente tinha muita brincadeira com ela, que ela dormia naquela varanda da sala, aquele quartinho extra que era feito, e ela roncava muito. Então quando dormia, eu e os meus amigos lá em casa a gente brincava muito e falava assim: “Ih, hoje tem urso, o urso taí”. Mas vovó era ótima, vovó… ela tinha um lado assim muito sério que o meu pai tinha, sabe, que puxou. Então, lógico, falava, conversava, mas não tinha aquela ligação de neto para avó que é tradicional, né.


P/1 – O nome dos seus pais, Jacy.


R – Jacy Vieira de Miranda e da minha mãe Maria da Aparecida Simões de Miranda.


P/1 – Qual a profissão deles?


R – Papai era economista e mamãe do lar também.


P/1 – Quais foram os lugares em que o seu pai trabalhou?


R – Ah, foi Londres, ele foi transferido quando eu ia completar seis anos. Fomos para a Inglaterra e moramos três anos e um ano em Paris. Isso foi de 1958 a 1962. Na época ele foi levantar recursos para construir a Refinaria Duque de Caxias da Petrobras.


P/1 – Vem desde aí então a sua ligação com a Petrobras.


R – É, como diz o velho ditado: “Filho de peixe, peixinho é, né”. E desde que eu nasci, né. Quando eu nasci em 1952, como eu te falei, um ano antes praticamente da Petrobras, e quando veio todo aquele clamor de todos, o Petróleo é nosso etc, diz a minha mãe e o meu pai que eu ainda era pequeno e ele chegava em casa e falava: “De quem é o petróleo?” e eu sempre respondi: “Nosso, nosso”. Não sabia nem o que estava falando, mas já está no sangue. Está no sangue desde pequeno.


P/1 – Você é filho único, Jacy?


R – Não, tenho uma irmã, Cláudia também. Ela é mais velha, tem três anos e meio mais do que eu.


P/1 – E qual foi o bairro da sua infância?


R – Tijuca, grande bairro, né. Nasci na Rua Dona Delfina numa Vila muito gostosa e naquela época era ótimo. Não tinha o menor problema lá. E toda a minha infância, quer dizer, até os seis anos, foram lá nessa Vila, brincando... tenho boas memórias de lá. Depois foi a Europa, que foi ótimo. Na volta, já com uns 10 anos, ainda ficamos um bom tempo nessa Vila e aí já fomos para outra rua, na rua Antônio Basílio, lá na Tijuca.


P/1 – Foi fácil essa adaptação de sair do Brasil e ir para a Europa tão novo?


R – Tão novo, né. Mas quando a gente é novo acho que a gente se adapta a tudo, né. Então, mas é lógico que eu tive, né, por que o que me aconteceu, que isso eu acho que refletiu o resto da minha vida, eu fui alfabetizado em inglês e não em português. Eu saí para lá com cinco anos de idade e naquela época você só era alfabetizado com seis anos, então eu acabei sendo alfabetizado em inglês. Só que quando eu cheguei lá, obviamente eu não sabia absolutamente nada e você é lançado num colégio interno, não, mas era semi-interno, então eu passava o dia inteiro sem entender absolutamente nada do que acontecia, mas como qualquer criança você, começa pegar com uma agilidade, uma rapidez. Eu me lembro que eu tinha como um dos deveres que deram logo no início, era ler um livrinho My name is John, I live here, e eu cheguei em casa chorando que eu não sabia, mas papai tinha uma coisa de bom caráter, aquela eterna paciência dele, e a partir daquele livrinho eu comecei a aprender com uns amigos, né, que eles mandavam repetir as coisas. Os colegas da minha idade, eles sabiam que eu era estrangeiro, que eu não falava a língua deles, então eles apontavam para uma bola e falavam: “Ball” e mandavam eu repetir (“Beet”?), e eu comecei a entender. O resumo, em seis meses falam que eu já falava fluentemente como uma criança de seis anos fala, né, e com a vantagem que o papai sempre falava assim: “Morro de inveja desse teu...” que eu não tinha sotaque, a criança aprende aquela língua e o inglês é como se tivesse um ovo na boca, né [risos], como a gente brinca. Mas, foi muito bom, foi uma época ótima.


P/1 – Como é que era a casa lá, o bairro onde você morou?


R – Era a rua, eu não esqueço até hoje, (Hasbangard number two?). Era um prédio onde a gente morava, aqueles prédios tipicamente inglês, bem tradicional, em frente tinha um parquinho onde os moradores daquele quarteirão tinham acesso à chave para você ir brincar no parque. Hoje em dia é um hotel neste parque. Você vê que coisa incrível, né, a gente... se fazem isso aqui no Brasil e você construir um hotel num parque, e fizeram isso em Londres. Porque eu retornei a Londres, já pela Interbras, e tive a oportunidade de morar perto de onde eu morava: (Sals queenstown park?) esse parque. E estive lá, obviamente fui lá, não só no meu colégio, nesse ponto inacreditavelmente idêntico, né, não muda, pode passar séculos que nada muda e nessa rua que é esse apartamento que eu morava, hoje virou um hotel.


P/1 – Jacy, fala um pouco da relação com a sua mãe, porque...


R – Ah sim, isso. Mamãe, né. Mamãe... eu sempre fui chamado o famoso filhinho da mamãe, né... aquele, o caçula que tinha, fui criado... os amigos meus falam assim: “Realmente, você não é gay porque não tinha essa tendência”. [risos] Nada contra, mas vocês vão ter que editar [risos], mas enfim... Por quê? Por que eu fui criado por bisavó, avó, mãe, irmã que já tinha com quatro anos de idade e a empregada. Então, eu era aquela coisa que se chorava, tinham quatro ou no mínimo três mulheres para ver o porquê aquela criança estava chorando. E o convívio com a minha mãe sempre foi ótimo, por ela ser do lar, você tem um outro tipo de infância, que hoje tem um lado que dá pena da gente ver, que hoje o meu próprio enteado tem essa vida já corrida desde pequenininho, tadinho, né, com a mãe trabalhando o dia inteiro fora, que tem todas as suas vantagens, no meu ponto de vista, né: sociabilidade, integração com a sociedade, muito mais rápida do que a gente que de repente é lançado num mundo e fala: “Opa, é isso que é o mundo?” Mas o mundo não é esse, não foi isso que a minha mãe me mostrou. Mas, sempre muito bom, eu adorava. Mamãe infelizmente, eu tinha falado do papai, mas ela também faleceu, há 2 anos já.


P/1 – Como é o nome da sua irmã?


R – Cláudia.


P/2 – A Cláudia também tinha uma relação de superproteção contigo?


R – Superproteção, embora tentou me matar, veja só você [risos]. São as histórias da família Miranda. Ela sempre via, né, a avó, a mãe, sempre pondo talquinho no bebê e minha mãe, segundo ela, quando chegou em casa comigo nos braços, logo depois entregou para minha irmã, e falou: “Olha, aqui é o seu filhinho, seu irmão, você tem que ajudar a cuidar”, para evitar aquela ciumeira, né. E ela via todo mundo pondo talquinho, e então um dia ela foi no meu berço, contam essa história, e foi por talco, só que a tampa do talco saiu, então veio aquela lata de talco direto na minha cara e, segundo a minha bisavó, que estava sempre atenta, eu já estava me sufocando com aquele monte de talco, narina, boca aberta. E eu brinco com a minha irmã até hoje e digo que ela tentou me matar, mas [risos] não, nós temos um relacionamento ótimo. Ela é outra que, apesar de nunca ter nunca trabalhado na Petrobras, é outra petroleira [risos].


P/1 – E na volta para cá, Jacy, já que você foi prá lá tão cedo, como é que foi esse estranhamento....


R – Isso...


P/1 – Esse estranhamento de cultura, clima...


R – Foi bravo. Nós voltamos... o papai optou em voltar de navio na época, não só pela mudança que sairia mais barato para a própria empresa. O papai era daqueles que se o lápis era da Petrobras, ficava na Petrobras, mas se era borracha que deram para ele, da empresa, não saía dali de jeito nenhum. Então ele sempre visou essa coisa da empresa e, principalmente no início, né, onde todos os recursos eram muito escassos, e ele optou na volta por navio. O que um lado contam que foi bom para mim, porque eu vim me acostumando com a temperatura, né, veio baixando, baixando... Mas, apesar disso, me queimei muito no navio, criança, 10 anos na época. Cheguei aqui, quando desembarquei no porto, a família toda... aliás, é nesse porto aí em frente, né... a família toda me abraçava e: “Ai, que saudade do Júnior” e diz minha mãe que eu fiquei irritadíssimo porque eu estava queimado, todo mundo me apertando e aquilo foi o meu primeiro trauma de retorno ao Rio de Janeiro, né. Mas, fora o clima, né, teve o colégio, que eu cheguei aqui com 10 anos analfabeto, não sabia ler e nem escrever muito em português, tive que partir para aulas particulares para ter essa noção e aí fui pegando, inclusive eu fui colocado, depois dessas aulas particulares no início, eu fui para o (Champagnat?). (Champagnat?) era o curso primário do Colégio São José, que não existe mais, e como todo Colégio de Marista, você tinha aula da religião e rezar, né, sempre no início da aula e eu só sabia rezar em inglês. Eu me lembro que o irmão falava, né: “Não se preocupe, meu filho, Deus entende todas as línguas” e assim a minha reza era sempre em inglês e eu fiquei conhecido, obviamente, no Colégio como gringo e não se usava esse termo na época, mas eu era o próprio gringo lá de todo mundo.


P/1 – Como é que era essa escola? Descreve um pouco para a gente.


R – O (Champagnat?) era basicamente, quer dizer, ele era totalmente Irmão Marista. Então, era uma coisa muito rígida, formação antes de entrar para a sala, mas você… não é essa formação que eu vejo de hoje... meu enteado lá, aquela coisa meio assim, todo mundo mais relaxado... graças a Deus, né, na época você não podia abrir a boca, aquela coisa séria, tudo silêncio, silêncio absoluto. Do (Champagnat?), logo depois eu fiz o curso de Admissão e fiz o exame para o São José. Foi aí que começara os meus espantos, que apesar de eu ter essa dificuldade básica, né, da língua portuguesa, eu passei para o São José, isso eu me lembro, em primeiro lugar. Eu tirava nove em matemática e cinco em português. Português era tudo raspando, né, e nessa entrada lá para o São José, eu acabei fazendo o ginásio lá na usina, era semi-interno. Mas eu sempre fui uma pessoa, desse meu jeito, extremamente comunicável, então eu nunca tive problema, onde quer que eu fosse, que fazia, vamos assim dizer, falta... eu sentia muito, eu ficava deprimido... nunca na verdade eu senti essas mudanças, nem pra lá e nem pra cá... Nem no retorno.


P/1 – E os amigos da Tijuca?

R – Ah, os amigos da Tijuca. Eu tive alguns amiguinhos assim, de Tijuca eu me lembro, Virgínia, Ana Maria, que eram as meninas com as quais eu brincava muito nessa fase antes de eu ir para Londres, né. Depois na volta, aí tem a turma que eu tenho dois grandes amigos que são daquela época dos 10 anos de idade até hoje: o Geraldo e o Jorge. Um é ex-Texaco, já está aposentado e o outro trabalha em Curitiba, até terceirizado para a BR. Ele é engenheiro civil, Jorginho, grande figura. A gente vem junto desde os 10 anos de idade, até hoje a gente se encontra. Quando eu fiz 50 anos eu dei uma festa que era para marcar e estava toda essa turma aí dessa época de Tijuca, não só dos 10 como dos 12 e 13 anos, né. 


P/1 – 10 anos e menino já começa pensar em namorar, né, então... mas quais eram as brincadeiras favoritas?


R – Menina, obviamente era o Pera, Uva e Maçã, né [risos], a brincadeira de esconde. Eu era uma peste, viu, tenho que reconhecer que eu não era fácil, não. Já não com os 10, mas já com os 12 anos, uma das brincadeiras que eu mais gostava de fazer era exatamente ligar a emergência do elevador do prédio onde a gente morava, apagava a luz e o salve-se quem puder. Obviamente, salve-se quem puder com 12 anos não é nada disso que vocês possam estar imaginando. Aí eram beijos, gritos e mais aquelas coisas de garoto e o prédio entrava em pânico. O porteiro me chamava de diabo loiro: “Esse menino tem o diabo no corpo” porque eu não parava, era o tempo inteiro assim e a minha primeira namoradinha foi com essa idade aí. Ela tinha 10 anos, Cristina, e eu tinha uns 12 anos, por aí.


P/1 – Era do prédio também, Jacy?


R – Não, era prima de uma amiga minha do prédio que ia passar lá o final de semana e aí começou. Na época, sabe como é que se pedia em namoro? “Você quer falar comigo?” Olha, nunca esqueci isso. Era essa a forma que você pedia a menina em namoro. Beijo... até que com ela não demorou muito, não, que era o que a gente queria mesmo [risos].


P/1 – Que outra travessura que te marcou dessa época?


R – Ah, passear pelas coberturas do prédio. Os prédios não tinham coberturas, normalmente o playground, que não existia, era no terraço, né. Alguns prédios faziam salão, então os terraços eram livres e os prédios grudados um do lado do outro, né, e eu acho que uma vez, por não ter muito o que fazer, eu chamei os meus amigos, o Jorge, o Geraldo, e outros, Luís Evandro que na época também ficava com a gente, e falei: “Gente, descobri como entrar lá no terraço e a gente pode pular de prédio pra prédio” e assim nós fomos. E a gente chegava até num prédio que ainda estava em obras e no final de semana que não tinha ninguém trabalhando, a gente descia, né, por esse prédio, pela escada, e o vigia estava fora e a gente do lado de dentro do prédio, brincando lá com as coisas, aprontando, até que nós descobrimos, isso daí eu nunca esqueço, nós descobrimos a câmera indiscreta. Era um programa, que eu acho que tem até hoje, mas com outro nome. O que era a câmera indiscreta? Nós descobrimos que tinham aquelas tábuas fechando o andar assim da obra e tinha aquela frestinha entre uma tábua e outra, e aí, quando a gente falava por ali, a pessoa do lado de fora na rua achava que estava vindo lá de cima do prédio. Então a gente chamava: “Psiu, psiu”, a pessoa parava e olhava. Então aquilo era chamava o táxi, passava o carro, naquela época dava de fundos para o Maracanã, só que não tinha movimento.. Então passava o táxi, e: “Psiu, psiu”, o táxi parava, o táxi não via ninguém e ia embora e chamava outra vez, e o táxi nada. E para a gente sair, falava: “Ah, subir isso tudo a pé, de escada, de jeito nenhum, né”... O que a gente sempre fazia: a gente sempre levava umas bombas, umas cabecinhas de nego pequenas, e rolava pra debaixo do banco do vigia que estava do lado de fora. Aquilo dava aquela explosão, o vigia pulava, queria saber de onde era, abria e a gente ó [estalo de dedos], “sartava” fora [risos].


P/1 – E quem dava conta depois, sua mãe ou seu pai, Jacy?


R – Olha, eu acho que essas histórias, eles nunca souberam, viu, porque... aliás, papai só soube que eu roubava o carro dele aos 15 anos, que eu aprendi a dirigir assim: eu via como é que fazia e um dia eu peguei a chave e desci, entrei no carro e: “Vamos embora, galera, vamos passear pelo Alto da Boa Vista” e fomos embora. E depois de um... aí já estava uns dois anos que eu já fazia isso, eu bati com o carro, mas ele estava viajando, numa das viagens para o exterior pela Petrobras e eu me lembro que quando ele chegou, falei: “Pai, preciso muito conversar com você”. Primeiro eu pedi a minha irmã pra assumir, porque ela já era maior: “Aí, assume que foi você”, “De jeito nenhum, você fez, você assume”. Aí eu cheguei e falei: “Pai, eu preciso muito falar com você”, “Tá filho, vamos falar, não sei o quê”. Aí chegou: “O que é que foi, meu filho?”, muito sério: “Vai ser pai?” Eu falei: “É muito pior.” Não fazia ideia o que era ser pai com 16 anos, para mim o fim do mundo era ter batido com o carro dele, né. Mas foi uma surpresa, depois que eu contei pra ele, ele virou pra mim e falou assim... eu esperava bronca, castigo, tudo, né: “Sempre te disse que pra dirigir tem que ser habilitado”. Aquilo doeu muito mais do que o tapa, do que a bronca [risos], e ficou na história. Mas essa ele segurou, porque acabou pagando o conserto, né. Mas do resto, não tinha prejuízo, não. Minha mãe diz que lá por essa minha idade de 12 anos, ela era muito católica, que ela me entregou a São José. Desistiu e falou: “Olha, São José, cuide desse menino” porque ela uma vez também... eu gostava muito de descer de bicicleta o Alto da Boa Vista, né, e ela uma vez ,uma amiga viu eu a 800 por hora, minha bicicleta já tinha marcha, estava chegando aqui no Brasil, então eu ainda pedalava na contra-mão e uma pessoa que estava dentro do ônibus, uma amiga dela, falou que me viu despencando da Rua de Bonfim de bicicleta. Obviamente fiquei sem castigo e diz ela que aí ela me entregou a São José e pelo jeito São José cuidou direitinho [risos].


P/1 – Já que você falou nisso, você teve educação religiosa?


R – Tive, tive, muito por causa dela, né, fiz toda a parte... aliás, Primeira Comunhão muito chique, foi em Paris na época em que eu estava lá, depois Crisma, né, no Colégio São José, no Colégio Marista. Mas hoje em dia eu vejo a religião de outra forma: continuo sendo católico, respeito, tem uma série de coisas, vou à missa de vez em quando, assim, quando eu gosto, mas mais para uma meditação interna do que um acompanhamento daquilo tudo que me foi ensinado, né, bem diferente.


P/1 – Na adolescência, juventude, você praticava esportes, Jacy?


R – Menina, nenhum. Impressionante como eu nunca dei para esporte. Cheguei a jogar tênis, que nós éramos... o papai era sócio do Tijuca Tênis Clube e lá que eu passei essa minha “aborrescência” toda, né. Então tênis eu cheguei a jogar, mas nada profissional e nem amador [risos], uma brincadeira mesmo. E no colégio, futebol, dois pés esquerdos, acho que é por isso que eu não gosto de futebol [risos], nunca me dei nos outros esportes também. Sempre gostei muito de corrida de carro, tanto que hoje eu adoro Fórmula 1, todas estas corridas de carro eu gosto muito. Vem da época das fugas com carro do velho Jacy para apostar corrida no Alto da Boa Vista [risos]. Mas eu gosto. Aliás, eu sou da época, eu tenho a mesma idade do Piquet e o Piquet, eu não conheci o Piquet nessa época, porque logo depois foi para Brasília, mas segundo alguns amigos em comum, tanto dele quanto de mim, a gente já pôs alguns “pegas” juntos naquele Alto da Boa Vista, sem saber [risos]. Ele menor e eu também [risos], mas na época era outra coisa, né... era outro Rio.


P/1 – Com o grupo de amigos, quais eram as atividades de lazer?


R – Ah, era clube, era... Naquela época era Clube, era Tijuca, era piscina, ficava lá as festinhas de 15 em 15 dias no sábado à noite e aos domingos, as famosas Domingueiras. É.... cheguei a ser escoteiro, mas não durou muito, lá do Tijuca. Aí, fiz alguns passeios, Parque Lages, essas coisas, né... e as festas do Tijuca eram as que eu  mais gostava: o rapaz tinha que ter 16 anos e moças 14 para você entrar. Na época eu tinha 15, por aí, então eu escondia por trás daquelas cortinas enormes que tinham nos salões antigos. Ficava lá, um pouco antes, quer dizer, começava acho que às sete, então, às seis e meia eu já  entrava lá no salão e me escondia atrás de uma cortina e lá ficava, até o povo começar a chegar. Então nesse ponto eu sou um péssimo exemplo, tá gente, não sigam [risos].


P/1 – Jacy, você já estava envolvido com a campanha “O Petróleo é nosso”, desde...


R – Desde os dois anos de idade [risos]


P/1 – Seu pai te.... quer dizer, sua família, como um todo, tinha alguma expectativa em relação a sua profissão?


R – Ah, claro, quer dizer... embora o papai nunca tenha puxado, ele sempre dizia: “Sempre, seja lá o que você for, seja o melhor e seja o que você gosta”, mas é natural, né, parece que na vida a gente acaba sendo influenciado direta ou indiretamente pela profissão dos pais da gente. Eu acho que a maioria segue, né, e eu, tanto que a primeira faculdade que eu tentei foi economia na Gama Filho e eu nunca fui muito estudioso, sempre que eu... palavras do velho Jacy: “Eu sempre te disse, burro tu não é, tu é vagabundo.” Que era a coisa de eu não querer fazer, estudar, porque quando essa frase... ele me soltou essa pérola foi quando eu entrei na Gama Filho, que eu entrei entre os 10 primeiros. E na Gama Filho, naquela época era muito concorrida, era muito difícil e eu não achava o meu nome na lista, porque estava lá em cima e um amigo meu que falou: “Olha lá, cara, tu entrou no oitavo lugar.” Falei: “Inacreditável.” A minha fama era tanto com o velho Jacy, quando eu perguntei pra ele: “Pai, adivinha em que lugar eu entrei.” Falou: “Quantos eram?”, respondi “250”. Ele: “Penúltimo” [risos]. Falou, era ruim. Falei: “Não”. Foi aí quando ele soltou essa frase. Mas foi Economia, depois eu fiz da Administração no Bennett e a última foi Hélio Alonso foi Comunicação, foi a que eu mais adorei, mas eu também não cheguei ao final, por causa que eu não queria e temos que assumir, e por causa do trabalho, na época, da Interbras.


P/1 – Falando nisso, você começou a trabalhar com quantos anos?


R – Ah, meu primeiro emprego eu tinha 19 ou 20 anos e foi em São Paulo. Papai foi transferido também para São Paulo, foi da Petroquímica União pela Petrobras, né. E, nessa época eu estava lá em São Paulo, servia o Exército lá... delícia... e o meu primeiro emprego foi numa gráfica. Vendia cartões, papel impresso, ficava visitando as empresas, né. Mas foi com essa idade que eu comecei.


P/1 – Foi iniciativa sua começar a trabalhar ou não?


R – Foi, já estava cansado daquela pouca mesada, né, que a gente reclama, mas a gente entende que os pais fazem isso de propósito, acho que é pra gente correr atrás, né, e você já com 19 ou 20 anos, a gente já era um marmanjo, né, e fui atrás. Era um amigo que tinha um irmão que tinha uma gráfica e estava precisando de gente e aí começou a vida profissional.


P/1 – E como é que foi daí? Eu sei que a gente vai dar um salto longo daí pra Petrobras, mas em que momento a Petrobras apareceu para você como uma opção de trabalho mesmo?


R – Isso, foi assim… Depois foi rápido, porque depois disso o papai voltou para o Rio e eu fui trabalhar em banco, no banco Mercantil de São Paulo, que está extinto já, que foi comprado. E, do banco, um dos meus clientes, que eu também fazia essa parte de relacionamento, né... minha vida inteira foi essa coisa, sem perceber a gente vai mostrando a cara e vai aparecendo, e um dos clientes meus era uma confecção ali em Ipanema, nós morávamos em Ipanema nessa época, e da confecção, a dona da confecção, Marília, Dona Marília, gente boa, disse que eu tinha que montar o meu negócio: “Então você vai montar uma confecção e eu vou dar as roupas para você fazer.” Na época não existia, mas é o que é hoje uma facção, onde as confecções já dão a roupa, pedem, já dão cortada ou pedem para essa outra empresa fazer tudo o que é a facção. E, a partir daí, o negócio ia trocando seis por meia dúzia. Meu pai me ajudou no início a comprar as máquinas, montei ali em Ipanema mesmo e veio a Interbras. O papai quando foi convidado para ser diretor da Braspetro aqui no Rio, estava saindo da Braspetro, a Interbras, foi quando o Santana assumiu a vice-presidência da Interbras e nessa conversa, o meu cunhado já era da Braspetro e estava indo para a Interbras, e conversando lá em casa, né, aqueles papos de família, falando: “Olha, eles estão precisando de muita gente e gente que fala inglês principalmente, porque é comércio internacional.” Naquela época, você contava a dedos quem falava inglês: “E você tem inglês fluente, cara.” Aí eu falei: “Ah é, e qual o salário?” Aí, naquela de ver salário, era um pouco menos, eu falei: “Também trabalha-se menos.” E fechei a confecção e entrei na Interbras em 1979. Foi aí que tudo começou.


P/1 – E qual era... o que você fazia na Interbras?


R – Na Interbras eu fui chamado por causa do inglês para trabalhar na área, na gerência financeira. A gerência financeira tinha abaixo dela duas tesourarias, a nacional e a internacional, e aí me colocaram na tesouraria internacional. Na época nós tínhamos... a empresa estava começando a vender, a comprar produtos no exterior e pagar em dólar e vender em outras moedas: marco-alemão, franco-francês, enfim, em yen-japonês. Existia um risco de flutuação entre estas moedas e aí eles viraram para mim, eu me lembro assim: “Olha aí, tu tem que aprender o que é hedge de moeda, te vira cara, fala com os bancos lá fora que nós temos que montar uma mesa de operações financeiras” e foi a partir daí que eu comecei a me envolver e adorar e me apaixonar. Tranquei a faculdade de Comunicação, porque não tinha mais tempo para estudar, comecei a trabalhar de oito, às oito então era fácil porque para pegar o fuso horário, né... tinha a Europa, que era a meu favor, mas tinha que chegar cedo, mas tinha Estados Unidos que pelo menos duas horas, às vezes chega a três horas de fuso horário, e a gente tinha que estar acompanhando tudo. Engraçado, naquela época a Ásia não existia muito, senão acho que era 24 horas no ar, acompanhando.


P/1 – Você lembra-se do seu primeiro dia de trabalho na Interbras?


R – Ih, lembro, eu trabalhava… nós entramos num prédio que era da Petrobras, aqui na Presidente Vargas, é o Edifício Barcelos, se não me engano, 524, e quando eu cheguei, obviamente meu pai como diretor de Braspetro, lá vem o peixinho, né: “Ê, tá chegando mais um peixinho”, isso depois o pessoal me contando: “Chegando mais um peixinho, o filho do diretor vai trabalhar aí na área internacional.” E meu amigo Mesquita, que hoje trabalha aqui também no Gás e Energia, que falava: “Eu quero qualquer um. Estou desesperado, eu preciso de gente, qualquer pessoa” e eu me lembro que o Mesquita, ele perguntou para mim assim: “Você sabe o que é Carta de Crédito?” Aí eu falei: “Carta de quê?” Ele: “Ótimo” que eu não entendia nada, assim ele podia me explicar, me ensinar absolutamente tudo. Eu não teria nem cacoete, nada, né... e assim foi. Esse foi o meu primeiro dia e a partir dali veio toda essa história da Mesa de Operações, dos bancos lá no exterior e tudo o mais.


P/1 – Havia muitos graus hierárquicos nesse momento na Interbras?


R – Na Interbras, então... Mesquita, ele não tinha cargo. Mesquitinha ainda não tinha cargo. Eu respondia e nós todos respondíamos, apesar de eu responder a ele, ele não tinha um cargo efetivo. Tinha o tesoureiro e o gerente financeiro e acima dele, o diretor financeiro e o vice-presidente, que era o Santana.


P/1 – Depois da Interbras?


R – Depois da Interbras... Bom a Interbras foi extinta em 1990 por decisão, na época, do Governo Collor e eu estava lá de volta a Londres, mas aí pela Interbras, como gerente financeiro do Interlon, escritório lá de Londres. E, de lá, quando houve a extinção, eu acabei arranjando um emprego na Suíça, numa empresa multinacional de café. Eles estavam precisando de alguém exatamente com a minha experiência dentro dessa área de mercado financeiro, de captação de recursos, de hedge de moedas e eu fui trabalhar lá como assistente do diretor deles. Eles tinham muitos negócios aqui no Brasil também, que por ser café, eles tinham escritório, então esse fato de eu falar português era muito importante para eles. É... foi uma empresa ótima, porque a sede deles era na Suíça, em Genebra, e eu me lembro que a chefe do RH só falava italiano, que ela era italiana, e francês e eu só falava inglês e português. Então a nossa comunicação era assim uma coisa assim gozadíssima, sempre tinha que ter ou alguém para traduzir ou então não ia dar certo. Mas era Bozzo, Bozzo Comércio de Café. E depois da Suíça, eu voltei para o Brasil e aí aproveitamos exatamente esta oportunidade que o Brasil estava na abertura dos portos, né, começaram a importar muita coisa, a maioria das empresas não tinha esse know how que nós aprendemos ao longo dos anos com a Interbras. Então, eu montei, junto com outro colega meu que também está aqui, o José Costa, uma consultoria de importação e exportação. Chegamos a fazer alguns negócios de importação e exportação, mas nós prestamos muito e muito do nosso sucesso acabou sendo na área de consultoria, principalmente para as pequenas empresas que não podiam importar diretamente, então eles faziam através da gente, né. E nessa caminhada, depois dessa consultoria e na área de captação de recursos, eu fui convidado para trabalhar para o Governo do Estado, né. Depois do Governo do Estado, eu trabalhei dois anos também na Secretaria de Planejamento dentro da Subsecretaria de Captação de Recursos do Estado. E aí, eu fui convidado pelo meu amigo Roldão, que hoje é da área financeira, é gerente aqui da Petrobras também, e na época ele era gerente financeiro do escritório da Petrobras em Londres. Os escritórios eram juntos: voce entrava, de um lado tinham as salas da Petrobras e do outro da Interbras. E o Roldão era gerente financeiro da então, que é Gaspetro, que foi a empresa que hoje existe, é uma das subsidiárias da Petrobras, e na época ele precisava de gente exatamente com esta experiência, então eu vim terceirizado ainda nessa época em 1998 e assim fiquei até 2005 quando a Petrobras chamou a gente para retornar. Essa foi rapidamente a escalada.


P/1 – E retornando, qual foi o setor?


R – Eu voltei... quando eu voltei foi Gás e Energia, né, onde eu estava, depois passei rapidamente pela área financeira. Foi em 2005 quando eu fui convidado para vir então assumir esta parte do Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro], a coordenar o Centro de Integração do Comperj.


[Pausa]


P/2 – Então Jacy, aí em 2005 você chegou no Comperj?


R – Isso.


P/2 – Como foi para chegar no Comperj?


R – Isso, eu fui convidado exatamente para coordenar o Centro de Integração do Comperj, do Complexo, né. O que é o Centro de Integração? O Centro de Integração foi uma visão da Petrobras de que haveria necessidade de capacitar e qualificar o pessoal daquela região onde o Complexo iria ser implantado. Por quê? Não sei se vocês sabem,  tem mais de 25 anos que a Petrobras não constrói uma refinaria, né. Ou seja, há 25 anos o Governo era outro, a situação era outra, as preocupações eram outras, eram com a refinaria e não muito com o entorno. Só que graças a Deus as coisas evoluem e essa minha empresa também, e quando foi declarado o local, né, quando foi dito que Itaboraí seria o município onde vamos implantar o Complexo, imediatamente a direção viu a necessidade de fazer essa capacitação da mão de obra para evitar a migração e consequentemente a (favelização?) etc e tal. Essa foi a demanda que me deram nessa coordenação do Centro de Integração e aí foi tudo tocado a toque de caixa, porque o Compl exo tem data para inaugurar, uma data até muito simpática, não sei se vocês conhecem: 12 do 12 de 2012. Essa é a data que vai entrar o primeiro óleo, é a expectativa que entre o primeiro óleo no Complexo Petroquímico.


P/2 – E Jacy, e Itaboraí? Por quê o Centro foi para essa área, teve alguma dinâmica para escolha do local?


R – É, teve. Quando nós vimos que os 11 municípios que hoje compõem o Coleste, que é o Consórcio do Desenvolvimento do Leste Fluminense, que é o Consórcio composto pelas 11 Prefeituras dos Municípios, de que o Município mais populoso era São Gonçalo, onde nós íamos atuar, né, e são os municípios que vão ser afetados de forma direta ou indiretamente, nós vimos que São Gonçalo por ter praticamente 50% da população da região, não tinha ainda a infraestrutura que poderia atender a essa demanda de sala de aula. Então, nós optamos em fazer não em Itaboraí o prédio do Centro de Integração, mas em São Gonçalo por causa disso. Por causa da população.


P/2 – E essa experiência de relacionamento com o Governo, com os Governos Municipais, você teve algum fato que destacou, alguma coisa que te marcou?


R – Olha, até lidar sempre com as autoridades, né, eu gosto muito, porque apesar da gente ter uma visão como eleitor, na verdade quando você chega perto deles, vocês vêem que a luta, né... eu vejo lá, no caso da Prefeitura de São Gonçalo foi com que eu lidei mais de perto por causa do Centro de Integração, a luta de um Prefeito não é fácil, não. Mas você tem, sem dúvida, muitas histórias, entre elas, por exemplo, essa parceria da Petrobras com a Prefeitura de São Gonçalo cabia à Prefeitura ceder o terreno e a Petrobras construiria o prédio. Então, nós tivemos aí um prazo até maior do que a gente gostaria para escolher o terreno, né. A Prefeitura, ela tinha alguns terrenos que ela chegou a nos oferecer, mas infelizmente numa região, digamos, um tanto perigosa. Tem uma história, que até mais tem um lado tragicômico, né, que nós fomos ver um terreno, subimos numa laje para ter uma visão melhor e ali ficamos durante, sei lá, uns 10 ou 15 minutos, até que um dos assessores virou pra gente e falou: “Gente, vamos andando que a gente já está muito tempo aqui e a gente pode virar alvo fácil” [risos]. Então, a partir dali nós já descemos e vimos que aquele não era o melhor local para se colocar uma escola. Mas independente disso, logo no final acabou sendo escolhido um terreno que era uma Escola Municipal, onde estava condenada pela... por... esqueci o nome do... civil...


P/2 – Defesa Civil?


R – Defesa Civil. Desculpe... [risos]


P/2 – Ah, sem problemas. E falando um pouco da construção desse Centro de Integração, né...


R – Aham...


P/2 – Você chegou no Comperj em 2005. Aí pelo que eu soube, a primeira turma formada saiu em 2007 e o Centro foi inaugurado em 2009.


R – Isso.


P/2 – Como é que foi nesse tempo, essa mudança, a construção, treinar as pessoas enquanto o prédio ainda não estava pronto? Como é que foi esse trabalho?


R – Então, foi assim. É como eu te falei, como a demora da escolha do terreno por parte lá da Prefeitura foi maior do que a nossa expectativa, acabou realmente atrasando todo esse ciclo, né.


P/2 – Impactou no trabalho de vocês.


R – Exatamente. Mas como a gente não podia parar porque a gente obedece rigorosamente o histograma da nossa engenharia e a nossa... a função do Centro é capacitar e qualificar esse pessoal, necessária, às vezes, um mês antes, de preferência, da necessidade da obra, que é para exatamente a pessoa já sair qualificada e a empresa terceirizada já lançar mão dessa mão de obra, né. Então o que aconteceu? Nós vimos que o jeito era fazer como nós já estávamos negociando com as demais Prefeituras. Como não existe e nem vai existir um prédio de Centro de Integração em cada Município, porque não há necessidade, nós começamos a fazer a parceria com todas as demais Prefeituras onde eles cederiam o espaço de uma escola pública que eles não tivessem 100% de ocupação e a gente faria a capacitação desse pessoal nessa escola. E fizemos a mesma coisa com São Gonçalo, enquanto o prédio estava sendo construído, a gente utilizou uma das Escolas Municipais deles, que era um CIEP (Centro Integrados de Educação Pública), onde ali a gente fez, quer dizer, eles cederam uma parte do CIEPs para a gente e a gente vem fazendo a capacitação desses alunos do primeiro ciclo, que foram 3.000 qualificados, né, e os demais Municípios também, todos eles respeitando a proporção de habitantes por Município, né.


P/2 – Legal. E o que você acha que... quais são os principais aspectos que essa atuação da Petrobras vai trazer para o Município tão populoso e tão carente nessa nossa...


R – Muito, muito carente. Olha, eu acho assim a importância vital. Para você ter uma ideia, hoje dos 3.000 que nós qualificamos, a gente sabe que 70% deles estão trabalhando diretamente na obra. Apesar da Petrobrás não poder obrigar que a empreiteira contrate esses alunos, fica claro e sempre foi muito claro para a gente que bastando informar que foi a ferramenta que nós criamos... informar a empreiteira de que: “Olha, esse aluno aqui está capacitado dentro dessa profissão com 40 horas de SMS” que é uma das exigências do contrato da Petrobras, né... a gente... e mora aqui ao lado, ou no Município, ou de Itaboraí ou no Município de São Gonçalo, a gente não tinha dúvida que a empreiteira ia buscar essa mão de obra e realmente isso aconteceu. Os 30%, é... a gente tem até esse levantamento, mas muitos, não é que não foram absorvidos, acabaram sendo absorvidos por outras  empresas da região.


P/2 – Que se aproveitaram dessa qualificação.


R – Exatamente, que é o objetivo do Centro de Integração.


P/2 – E Jacy, tem assim o nível de formação que vocês tenham atuado mais? Fundamental, ensino médio, superior, existe uma...


R – Atualmente, todo ele, o básico, né. Todo ele focado para pedreiro, eletricista, do qual a exigência é a quarta série, aliás, para eletricista é a oitava, mas para os demais a quarta série, que é o nosso N1. Mas agora já no nosso novo ciclo, a gente já está indo para o nível técnico e mais adiante vamos atender também ao nível superior.


P/2 – Isso por que a qualificação desse ano está muito voltada para o desenvolvimento do próprio Complexo.


R – Exatamente. Nós estamos totalmente focados para a construção, como eu falei, o histograma, a gente obedece-o rigorosamente e é como a gente diz, né... até a gente brinca: vai ser até muito interessante se a mão de obra treinada por nós for absorvida por outras empresas e aí vai faltar mão de obra para nós [risos] na região, da região, né. Mas se isso acontecer, eu acho que a gente...


P/2 – É uma vitória, né?


R – É uma vitória, com certeza.


P/2 – Me diz uma coisa, como é que foi a festa de inauguração do Centro? Como é que foi para você, sua emoção, o que você sentiu?


R – É, realmente foi uma emoção, porque quando nós... eu tenho até algumas fotos, eu e o Rafael. Rafael é o nosso consultor que detém toda a metodologia de como fazer um Centro de Integração funcionar, né. E nós temos uma foto do Colégio, antes, o durante e o depois, bem no portal. São quatro fotos que a gente guarda com muito carinho, porque quando a Prefeitura derrubou a Escolas que estava condenada, a gente ainda brincou, olhou para trás e falou: “É cara, agora não tem volta” e foi muito... foi uma coisa que realmente emociona tanto a ele quanto a mim até hoje, quando a gente vê essa coisa de poder ajudar e capacitar... A educação é tudo, né... é o que toca.


P/2 – Você falou agora no Rafael. Você tem outras pessoas que você pode se lembrar que foram importantes durante esse tempo? Você passou quanto tempo.. você passou quanto tempo como coordenador do Centro?


R – Foram três anos na verdade.


P/2 – Quantas pessoas que te ajudaram nessa tua atuação, nessa construção? Fala um pouco mais dessa sua rede social.


R – Entendi. Olha só, sem dúvida é a equipe toda do Rafael. Ele é o número um. Eu posso até dizer que sem ele esse Centro não ia sair do chão, se saísse ia demorar muito mais, né. A prova disso é que a Graça, né, quando ela me escolheu para coordenar, ela antes disso, ela tinha dito, né: “Eu quero o Rafael nesse Projeto”, porque eles tinham trabalhado já anteriormente juntos e ela sabia da capacidade dele. Então você tem o Rafael e a equipe dele toda: o Antônio, a Adriana, a Gracinha, sabe... É o pessoal que não tinha mal tempo, aliás, que não tem, porque eles continuam com a gente, né. O Sílvio, a Marselha agora também que se juntou agora a nós mais para o final. Mas, gente, é uma turma que você chegava às vezes, a gente saia da região à meia noite, sabe, em reuniões com a Prefeitura, mostrando e vendo como é que tem que fazer. Que como você sabe, infelizmente as Prefeituras não estão equipadas, né, do jeito que a gente gostaria ou que elas mesmo merecessem, mas... Então, foi um trabalho árduo. Era um trabalho assim, incansável mesmo, da gente fazer assim com que o negócio saísse do papel para a realidade, com certeza.


P/2 – Só para situar, a Graça é a Maria da Graça Foster....


R – Maria das Graças Foster é a atual diretora, era gerente executiva do ABPF, da Petroquímica Fertilizantes.


P/2 – E o Rafael, quem é o Rafael?


R – Rafael é o Rafael Eira da Silva. Ele é o nosso consultor. Ele trabalha na empresa, uma consultoria dele, a Apuama, e ele foi contratado pela Petrobras para desenvolver esse projeto e a gente está muito feliz de ter acertado. Eu diria que Dona Maria das Graças tinha toda a razão quando falou: “Tem que ser o Rafael” [risos].


P/2 – E aí, depois que você lançou o Centro de Integração, você passou a ser gerente setorial de um setor chamado de Comunicação e Inserção Regional.


R – Isso.


P/2 – Você ainda está trabalhando um pouco com aquela unidade em torno do Comperj, né? Como é essa nova função?


R – Está muito gostosa, porque como não tem só o Centro de Integração, agora a gente está até com uma parceria ótima com o Centro de Informações, que é do meu amigo (rápido Gavin?), a gente está atuando diretamente juntos numa parceria muito legal e toda essa parte de inserção regional, né. É uma coisa que eu gosto muito. Acho muito legal a gente ter esta oportunidade de estar realmente preocupado com a região, né, o famoso RS, que toda a empresa hoje, todos falam muito, e eu acho muito importante é que a Petrobras, pelo menos na parte que eu venho atuando, ela vem atuando com muita Responsabilidade Social. Eu acho que isso é muito legal da gente realizar este trabalho.


P/2 – Você se orgulha muito disso?


R – Hum... muito...a gente fica até meio engasgado [risos] de poder ajudar, né. É muito legal. Você ter um logo do tamanho da Petróleo, é bom.


P/2 – Me diz uma coisa, finalizando aqui seu momento de Comperj... você tem algum desafio profissional que você tenha superado, que você tenha em algum momento achado que sentiu assim uma certa dificuldade, que você consiga lembrar, agora? Desde que você entrou?


R – Desafio! Olha, eu acho que o meu maior desafio foi o Centro de Integração, viu? Para mim eu não tenho dúvida disso não. Eu confesso que no início eu não tinha assim a noção de como tocar, como é que fazia, como é que eu ia iniciar isso, né, e aí veio não só a importância fundamental do Rafael, como o meu próprio desafio quando eu vi o tamanho da encrenca... a encrenca boa [risos] de realmente realizar aquilo tudo. Foram noites assim, digamos, um tanto quanto preocupante para superar isso tudo, essa parte, né, mas como o prédio está lá, superei [risos].


P/2 – Já tem alguma turma lá dentro atuando...


R – Já tem... esse primeiro ciclo na verdade ele está terminando agora. São os restinhos da  turma que faltavam e eles, desde a inauguração eles já estão sendo capacitados lá no Centro de Integração.


P/2 – Legal. Acho que é isso.


R – Muito bom.


P/1 – Nós já estamos terminando, Jacy.


[Pausa][Tosse]


R – Claro, vamos lá.


P/1 – Jacy, você é casado?


R – Sou casado.


P/1 – Tem filhos?


R – Não. É o meu segundo casamento, tive dois enteados [risos]: do primeiro casamento e desse. Mas eu nunca tive filhos próprios não


P/1 – E as horas de lazer?


R – Horas de lazer, horas de lazer é uma coisa muito boa, né? Olha, o pessoal brinca comigo que como eu moro em frente ao Bracarense, o meu lazer é ir até o Braca tomar um chopp e relaxar. A grande maioria tem razão e nessas eu já tive até boas oportunidades de conversar, rapidamente, claro, com Dutra que já foi presidente, é o atual presidente da BR, o próprio Gabrielli que é o nosso atual presidente, que já teve lá com a família dele. Foi até uma coisa muito gozada, porque eu estava de costas, em pé, tomando um chopp e nisso um amigo meu que conhece ele, falou: “Olha o teu presidente aí”, quando eu virei, dei de cara com ele [risos]: “Ô Presidente, saúde!” [risos] Mas ele... o Dutra, né, que tem até uma história que ele não deve saber, mas é... pelo pouco que eu conheci dele, eu sei que ele vai rir dessa história. Ele, o Dutra, ele chegou a ir mais vezes lá no Bracarense, não sei se você conhece, o Bracarense é meio um barzinho que vai o Aécio, vivia lá, né... além do chopp muito bom. E uma vez o Dutra estava lá no cantinho e sempre tinha um menino que vendia balas ali pra gente na região, e era um garotinho muito assim, simpático, mas vivia perturbando para comprar bala e aí um dia eu virei pra ele e vi o Dutra lá na outra ponta e falei assim, ó: “Quer vender bala? Vai lá naquela ponta lá e fala assim: é o Senhor que é o José Eduardo Chopp Dutra?” que era o apelido que o Anselmo Costa tinha dado para ele, né: “Aí, fala isso pra ele, que ele vai te comprar bala.” Lá foi o moleque lá. Chegou lá e falou e eu só ouvi a gargalhada do Dutra. Ele não comprou a bala, mas com isso eu comprei a bala para agradar o menino que realmente foi a gargalhada. E o que eu mais gosto sem dúvida, quando eu posso, é viajar para Búzios. Gosto muito de ficar lá à toa, largado assim.


P/1 – Não faz mais corrida de carro?


R – Corrida de carro eu parei, né, falei: “Chega” [risos] Já passamos da idade. Essa época foi, aliás, foi uma coisa muito boa que aconteceu em São Paulo. São Paulo, para acabar com os “pegas” de rua naquela época, eles abriram o autódromo de Interlagos, onde qualquer um poderia se inscrever para correr. Você levava lá o seu carro, assumia lá os seus riscos e ia lá pôr o seu “pega” dentro da pista. Foi ótimo, mas é uma pena que isso não foi adiante. Eu cheguei a correr lá algumas vezes, mas depois disso, nunca mais.


P/1 – Jacy, tem assim alguma coisa que a gente não tenha te perguntado que você gostaria de deixar registrado?


R – Ô, meu Deus! Acho que não, acho que é tudo que eu gosto sempre de lembrar que as pessoas perceberam que ao longo desse projeto do Centro de Integração, e que é possível você ter responsabilidade e ao mesmo tempo ser esse gênio meio criança, meio irresponsável. Acho que não há necessidade de você ser uma pessoa fechada, turrona, para você ser presidente de uma empresa ou ter um projeto de responsabilidade. Eu acho que dá para conciliar as duas coisas, né: dá para ser responsável e ser light, por que não, né?


P/1 – Para concluir, Jacy, o que você achou de participar do Memória Petrobras?


R – Ah, gente! Fantástico, essa coisa... se eu acreditasse em espiritismo, eu ia dizer que isso é coisa do meu pai, entendeu? Lá de cima mandando eu fazer isso. É uma pena dele ter falecido porque sem dúvida ia adorar ter participado dessa Memória e ele provavelmente teria muitas histórias para contar, né. Mas achei fantástico, acho uma iniciativa ótima da empresa, de manter essa memória viva, né, para toda a geração que vem aí pela frente. Muito legal!


P/1 – Você falou agora e eu pensei em uma coisa: ele não chegou a ver você na Interbras, não, né?


R – Chegou... chegou a ver... ele faleceu... eu entrei em 1979 e ele faleceu em 1981, no final de 1981. Então ele chegou a ver o filhinho com o pé dentro da empresa, né.


P/1 – Ah, claro, você tinha falado, ele estava...


R – Isso, ele se aposentou um pouco antes disso, quando eu entrei ele ainda era diretor, mas ele se aposentou logo depois e aí acabou falecendo também, infelizmente.


P/1 – Jacy, muito obrigada. Foi um prazer.


R – O prazer foi todo meu. Muito obrigado a vocês e a toda a equipe.


--- FIM DA ENTREVISTA ---


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