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História

As alegrias e as tristezas

História de: Rosa Maria Rodrigues da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Rosa nasceu em uma família simples e afetuosa e teve uma infância em que a pobreza nunca foi impedimento para a felicidade. Perdeu a mãe muito nova, mas lembra com carinho dos cuidados com a alimentação, as roupas feitas em casa, o cabelo longo penteado com gosto e enfeitado com "fitas de cor". Assim como do esforço do pai para manter todos os filhos em casa e a família unida, mesmo sozinho e precisando trabalhar muito. Quando após a morte da mãe os parentes conversavam sobre quem poderia ficar com qual das crianças, a depoente escutou o pai dizer: "Meus filhos eu não dou pra ninguém." Decidiu ser enfermeira por influência de uma vizinha que admirava e completou seus estudos com o apoio do marido com quem viveu um casamento muito feliz. 

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História completa

Meu nome é Rosa Maria Rodrigues da Silva. Eu nasci em nove de dez de 51, na cidade de São Lourenço, Minas Gerais. O nome do meu pai é Alberto Rodrigues, minha mãe, Maria Helena Rodrigues. A minha mãe eu acho que é Itamonte, o meu pai acho que é Pouso Alegre, se não me falha a memória, porque já faleceu faz tempo, é mais ou menos isso, eles são da região de Minas. Lá em São Lourenço o meu pai chegou a trabalhar no hotel. Eu não sei dizer pra você se foi na cozinha, porque ele cozinhava muito bem, até as misturas simples que ele fazia eram maravilhosas. Você via pela técnica que ele fazia, rápida, eu só não sei dizer se ele era cozinheiro, o que ele era. E a minha mãe era dona de casa, do lar. E meu pai, além de ter trabalhado em hotel lá em São Lourenço, quando nós mudamos pra Cruzeiro – eu vim de São Lourenço com um ano – eu fui criada em Cruzeiro e lá, que eu me lembro, ele trabalhava na Vigor, trabalhou muitos anos na Vigor, na produção. Aí teve aquela fase da indenização, tudo, aí ele foi ser comerciante. Com o dinheiro da indenização ele investiu num bar, o Bar Rodrigues, e fez a vida no bar até morrer.

A minha mãe eu convivi até pouco, quando ela morreu eu estava com nove anos, então, perdi minha mãe com nove anos. Ela era uma pessoa simples, vaidosa. Ela era dinâmica assim, pelo conhecimento que ela tinha, que ela não tinha escola completa, mas  tinha facilidade enorme de aprender, então ela costurava muito bem. Ela costurava pra gente, ou então pro vizinho. E naquela época era uma coisa assim, hoje se encontra tudo pronto, naquela época ela fazia até sutiã na máquina, aquelas calças difíceis, que andava com aqueles reloginhos; eu aprendi corte e costura e não aprendi a fazer essa calça. Então ela era inteligente na medida do conhecimento dela. Eu lembro dela costurando, eu perdi ela muito cedo. O meu pai morreu quando eu já era casada. Minha mãe morreu de eclâmpsia, no nascimento do meu irmão; meu pai foi acidente, tinha uma saúde de ferro, mas morreu num acidente na Dutra, faz uns 30 e poucos anos que ele morreu. Ele era uma pessoa alegre, rígido, mas era uma pessoa muito alegre, tinha facilidadede comunicação com todo mundo. Trabalhador, batalhador, ele inclusive ajudou a criar os irmãos. E uma pessoa que fazia de tudo um pouco. Na época que ele foi indenizado lá da Vigor, antes de comprar o bar, ele trabalhava de pedreiro, de encanador, ele tinha facilidade de aprendizado. Tinha pouca escolaridade também, mas dentro do conhecimento dele eu acho que até ele fez muito. Quer dizer, ele se virou, era uma pessoa que se virava. E um pai muito amoroso, uma das coisas que a gente guarda, que na época que minha mãe morreu, eu tinha nove anos e naquela época, geralmente quando o homem ficava viúvo, como ele tinha que sair pra trabalhar, tivemos até o exemplo de uma família que aí distribuía os filhos, porque não tinha como, ele trabalhava e ia cuidar do filhos como? Então, eu sei que na época, na morte da minha mãe, eu escutei isso, gravou muito, que as pessoas já estavam escolhendo com quem ficar. “Eu fico com esse, eu fico com aquele, eu fico com o neném”, que minha mãe morreu no mesmo dia que teve a criança. Eu só ouvi uma coisa, eu escutei dele, ele falou assim: “Não, os meus filhos, nem que seja para eu fechá-los em casa e sair pra trabalhar, meus filhos eu não dou pra ninguém. Eu vou fazer tudo o que for possível, mas só sai morto ou casado”, naquela época ele falava. Era um pai que voltava do serviço, ele não era capaz de passar em algum lugar que comprasse alguma coisa para ele comer se não fosse pra levar pra família, então eu tive uma imagem muito bonita. A única coisa é que ele era meio bravo, meio rígido praquela época. E ele era um pai muito amoroso, eu tenho uma imagem muito, uma pessoa muito honesta. Da minha infância eu tenho uma imagem muito bonita. E ele com a minha mãe viviam muito bem, não vi nada que percebessem. Eles trabalhava juntos, um pedia a opinião do outro, então, dentro mesmo das nossas dificuldades, era um pobre feliz. Com muito sacrifício ele comprou o terreno, construiu a casa, a gente morava numa casa menor, depois construiu uma maior. A maior nós é que ajudávamos, porque ele podia pagar o compadre que era pedreiro, mas os ajudantes não poderia, então era a minha mãe e nós que ajudávamos. Carregava areia pra dentro, tijolo, subir em andaime. Eu mesma, com mais ou menos sete anos que eu lembro, de pegar tijolo que jogava e eu pegava no andaime. Eu adorava porque era até meio aventureira, eu gostava de subir no andaime, naquela época não tinha esse negócio de criança que não podia fazer isso, não podia fazer aquilo, era de acordo com a necessidade. E eu adorava esse tipo de serviço.

Na época era um bairro muito bom. A gente tinha quintal, meu pai plantava, a gente colhia da horta, fruta a gente colhia do pé. Tanto é que eu carrego essa coisa da infância, porque ele tinha um pé de uva, isso era fato na vida dele, então até hoje, na minha casa eu tenho um pé de uva, eu tenho a jabuticabeira, tenho pé de mamão, tenho minha hortinha, dentro do pedaço que eu posso plantar. Porque isso eu trouxe dele, de você chegar lá e plantar, colher o que ele plantava. Era de subir em árvore. Eu fui criança de jogar bolinha de gude, malha que eu falo, peteca; brincava na rua, naquela época a gente chamava de bet, queimada, brincadeira de roda, então tinha convivência com as crianças da rua, dos vizinhos. E ele sempre foi assim, via pedaço de terra e plantava, porque antes os terrenos eram grandes, então a gente tinha, e cada um tinha que plantar o seu pé de milho e cuidar; a gente plantava. Os filhos, ele punha pra plantar e falava: “Vai cuidar do seu pé de milho”, acho que ele queria passar pra gente isso, o plantar, a importância de se plantar. E a gente se sentia dona daqui, ficava vigiando: “O meu está mais bonito do que o seu”. Então ele fazia isso, a gente participava, né? Ele foi um homem muito batalhador. Ele também tinha mania de criar, ele criava leitão. Até quando nascia ele punha no colo da gente (risos), punha o leitãozinho pra gente assim. Nós já criamos um bezerro na mamadeira e a gente participava junto com ele. E a gente tinha um cachorrinho chamado Peri que também, como eu falei pra você, dentro do conhecimento dele, até que fazia muito, ele adestrou esse cãozinho e brincava até de boneca com ele: “Você fica aí e não sai”. Amarrava fitinha na orelhinha dele, mandava deitar e punha aquele bico vermelho da época na boca e ele aceitava. Mandava sentar pra comer, mandava deitar, isso é o meu pai que ensinou. Ela tinha uma certa coisa com criação. Pra você ter ideia, até um frango que criou em casa, ele andava atrás do meu pai e ele não teve coragem de matar pra comer, acho que o frango morreu de velho.

A minha mãe cozinhava no tempo de criança, né? Por sinal a gente se lembra, era muito gostosa a comida dela. Aí tinha dia assim, por exemplo, a gente era pobre, tinha casinha com dificuldade, que foi construída, não era cheia de móveis, mas a parte de vestimenta e alimentação era boa porque a minha mãe costurava. Aí quando você via que ela ia na cidade, eu digo cidade porque a gente morava num bairro distante, era 40 minutos, quase uma hora a pé, que a gente ia. Quando ela ia na cidade, chegava em casa e desenhava o modelo que ela via lá, chegava em casa e costurava. Era assim, a roupinha ela costurava, a gente andava até bem vestido, eu punha fita de cor no cabelo, ela cuidava muito do meu cabelo, que era longo. Então ela cuidava, era uma pessoa bem vaidosa. Cozinhar ela gostava, fazia tudo muito gostoso, um arroz doce, a comida. Como eu falei pra você, meu pai criava porco, então ele fazia as reservas; não tinha geladeira mas era o tempo que se colocava numa lata a gordura e os pedaços de carne cozidos, guardados, essa era a nossa geladeira na época. E cozinhava, fazia muita coisa gostosa, bolo. E arroz, feijão, tinha verdura, legumes que a gente plantava na época. E a carne do que ele criava, que tinha. Leite, na época que ele trabalhava na Vigor, ele tinha direito ao leite. Leite condensado, coisa que hoje a gente não compra tanto, a gente tinha com fartura o leite condensado, leite em pó. A alimentação a gente tem bastante lembrança boa. Era um pobre bem alimentado. Lógico que às vezes não tinha grandes calçados, mas pro básico a gente era bem cuidado.

A escola primária era na rua de trás da minha casa, antes; naquela época, pra entrar no ginásio eu tinha que fazer o curso de admissão, então, o quinto ano que a gente fazia inteiro só que só tinha na cidade, aí eu andava de 40 minutos a uma hora a pé, pra ir no centro pra fazer esse, tipo um vestibulinho, que a gente chama agora. Às vezes eu cortava caminho pela linha de trem, a gente ia a pé, normal pra gente, porque não tinha condução como tem ônibus, a gente andava muito a pé. Foi uma infância muito boa da escola. Lembro das professoras, que naquela época também, como a gente comenta agora, a gente tinha um respeito tão grande com os professores, da época que o professor entrava na sala, quando o outro professor entrava todo mundo levantava, sentava na hora que mandava. E tinha como referência, até toda criança perguntava: “O que você vai ser quando crescer?” “Eu vou ser professor”, porque tinha uma admiração muito grande com professor, um respeito, né? Eu tinha a dona Lola que foi a professora, acho que do primeiro ano, e tinha a dona, acho que Zélia, do quarto ano, que foi uma professora que me marcou muito na minha vida. E tem outra que nem foi minha professora, foi professora do meu irmão mais velho, que através dele a gente tinha uma admiração muito grande com ela. E mesmo adulto, enquanto ela viveu todo ano, no Dia dos Professores, ele ia lá fazer homenagem a ela. Isso lembro assim, até, depois de casada mesmo, que eu sabia que ela estava viva, então quando eu estava lá em Cruzeiro eu ia junto com ele lá pra fazer homenagem. Era emocionante, né? Eu achava que essa do meu irmão era uma professora muito carinhosa. E outra coisa que marcou é que assim, naquela época, ela dava aula pro meu irmão e era uma sala só, e tinha os horários das séries. E foi a professora do primeiro ano dele. Eu me lembro que o marido dela trazia ela de charrete e todos ficavam, até eu mesmo quando aconteceu de eu ir lá, eu via essa professora descer da charrete, todo mundo esperando o marido dar um beijinho nela, sabe? E entrar. E ela é uma professora que todo mundo falava bem dela por causa do jeito dela, carinhoso. E tinha um respeito grande com ela.

Eu não lembro se eu falava que eu iria ser professora, eu não. Eu lembro que a maioria falava. Eu já tive uma referência de ser enfermeira, fazer Enfermagem. Não sei se chegaria até enfermeira, eu queria, porque eu admirei uma vizinha minha, ela era enfermeira. E naquela época eu acho que ela era formada em Itajubá, não sei, que era escola famosa da época, de Enfermagem, tinha alguma coisa assim. E ela era formada nisso e eu lembro que uma vez o meu irmão foi mordido de cão e ela foi dar as vacinas nele, então eu acompanhava. Eu admirava essa vizinha, tinha uma referência boa dessa moça. Então eu dizia: “Quando eu crescer eu vou ser enfermeira”, coloquei isso na minha cabeça: “Vou ser enfermeira”. E foi que aí quando eu estudei, quando eu tive oportunidade eu fiz o curso técnico de enfermagem e depois, quando deu oportunidade, aí eu fiz a faculdade. 

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