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Artista desde criança

História de: Julianne Daud
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/09/2017

Sinopse

De origem libanesa, a paulistana Julianne Daud se lembra de sua infância como um tempo de alegria e de casa sempre cheia, embalada por muita música. Em seu depoimento, ela conta como esse ambiente festivo a influenciou na escolha da carreira artística. Julianne se recorda de momentos marcantes de sua trajetória como cantora lírica e atriz, que já começou com sucesso: sua primeira atuação profissional foi ao lado de Marília Pêra, na peça Master Class. Ela fala de sua participação em outros espetáculos, incluindo o papel de Carmen Miranda para o musical New York, New York, e de como acabou se tornando também produtora e captadora de recursos para seus projetos. Entre muitas histórias engraçadas, ela ainda revela o desejo de poder transmitir seu conhecimento e sua experiência para novos artistas.   

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História completa

Meu nome é Julianne Maria Sawaya Daud. Eu nasci em São Paulo, capital, a 13 de novembro de 1970. Meus pais nasceram no Brasil, mas os meus avós, o pai do meu pai e o pai da minha mãe vieram do Líbano. Inclusive, eu tive a oportunidade de estar lá agora, 20 dias atrás, e de resgatar minhas origens e me emocionar muito com a história de vida deles, de luta, de garra. De sair de um país que estava sempre em guerra, e ver o que eles conseguiram conquistar.

 

Meus pais sempre foram muito boêmios, o que eu acho o máximo, porque eu me lembro de eles chegando às seis da manhã. Eles iam para as baladas, Baiuca, Gallery. Eles sempre foram muito animados, sempre gostaram da casa cheia, essa tradição libanesa de “chama pra cá, chama todo mundo em casa”. Chegava, e “comidaiada”! Os meus amigos da escola olhavam e falavam: “Nossa, mas que exagero!” Porque tem pais que detestam criança dentro, um monte de molecada fazendo bagunça. Os meus pais sempre amaram. Tanto que, nas férias de julho, o meu pai alugava um hotel em Campos de Jordão pra gente passar as férias, e cada filho levava cinco, seis amigos. A gente foi criado com muita liberdade. Meus pais sempre foram muito além do tempo deles, muito modernos. Nossa, um amor que eles têm! O meu pai está hoje com 85, minha mãe com 81, e eles são grudados. Eles são um casal que eu olho e falo: “Gente, como eles se amam!” Um amor que é de uma vida, né?

 

Eu amava a minha escola, primeiro porque eu era amiga e querida por todo mundo. Imagine: o diretor entrava na sala de aula, eu subia em cima da carteira e dançava o Piripiri da Gretchen pra ele. Eu era uma palhaça, eu sempre fui palhaça. Eu parava o recreio inteiro pra todo mundo cantar junto comigo.

 

A gente foi criado com muita farra, muita festa, sempre muita, muita música. A família do meu pai, eles sempre foram com essa coisa de música. A primeira grande mesa de som era na casa do meu avô, que os meus tios montaram. Era uma loucura! Eu fui criada nesse ambiente da música, da alegria. Com 14 anos, eu comecei a estudar um pouco de violão, porque eu queria cantar que nem Maria Bethânia. Eu queria. Tinha um lado Maria Bethânia e tinha um lado mais Diana Ross.

 

Estudei violão um tempo, daí eu fui estudar canto mesmo, isso com 14 anos. Quando eu fui estudar canto, uma professora olhou pra mim e falou: “A sua voz é de cantora lírica.” Eu falei: “Hein?” Eu não tinha costume nenhum de ouvir ópera, não era o meu universo, mas eu segui o conselho dela. E eu comecei a estudar o canto lírico. O canto lírico entrou na minha vida, foi um mergulho nisso. Comecei a estudar, depois fui fazer teatro e comecei a seguir uma carreira nesse sentido.

 

Eu comecei a fazer sapateado com 12 anos, e foi lá que também eu fui me descobrindo. Lá eu conheci o Jorge Takla, porque a Kika – que era Kika Tap Center, uma escola em que ela tinha mais de 300 alunos – montava shows de final de ano que eram absurdos. Era no Procópio Ferreira, no Tuca, eram shows absurdos. Pra você ter noção, o roteiro sempre era do Flávio de Souza, os figurinos da Mira Haar, a luz do Jorge Takla. Era tudo muito luxuoso. E ali que eu comecei a minha história, aos 12 anos, de estar em cima do palco realizando, fazendo os espetáculos. Até que, um dia, eles me colocaram pra cantar. Além de sapatear, cantar numa coreografia. Tinha um momento em que todo mundo saía, e eu ia lá pra frente, cantava La Donna è Mobile. E foi, pra mim, o momento. “Nossa, eu amo isso, eu quero estar em cima do palco, eu quero. É isso o que eu quero!”

 

Era a Accademia Verdiana di Busseto, era onde eu tinha aula com o Carlo Bergonzi, que foi um dos maiores tenores do mundo, que inclusive cantou com Maria Callas. E eu fiz toda a oficina dele. Depois eu fui pra Milão, continuei estudando com ele. Eu tinha aula com ele esporadicamente, com os pianistas. Entrei na Escola Musical de Milão, eu fiquei um ano mais morando em Milão. Um dia, eu vim de férias para o Brasil, e uma amiga que trabalhava na Folha de S. Paulo falou: “Ah, Ju, eu quero fazer uma matéria com você.” Ela trabalhava na coluna do consumidor. “Eu quero fazer uma matéria com você sobre manteigas e margarinas.” Eu achei aquilo superengraçado. Fizemos. Saiu uma foto minha no jornal, e o Jorge Takla, que já me conhecia da época da Kika, que foi a pessoa que me falou pra ir pra Itália, tinha acabado de comprar o espetáculo Master Class pra fazer com a Marília Pêra como Maria Callas. E estava fazendo audição para o elenco. E aí a Kika me liga: “Ju, você está no Brasil?” Eu falei: “Estou.” “O Jorge quer que você vá fazer uma audição pra Master Class.”

 

Foi a minha primeira experiência realmente profissional e já foi ao lado de uma Marília Pêra. Conviver com a Marília me trouxe uma experiência como atriz, num lado mais comediante. Eu criei uma desenvoltura. Apesar de já ter feito Célia Helena, na hora em que você está com uma atriz fera daquela em cena... E eu fiquei muito amiga da Marília. A gente se divertia. Foi uma das melhores fases da minha vida. Isso me fazia sorrir muito, muito, porque a gente fazia o espetáculo, saía pra jantar depois, a gente se divertia. Era um elenco que se adorava, era tudo engraçado. Apesar de a história ser dramática, a Marília arrancava cada gargalhada da plateia, que tinha dias que eu me segurava pra não rir. Foi maravilhoso.

 

Até que eu conheci o Fábio, que é um maestro, que foi com quem eu me casei. Três dias antes de a gente casar, o Fábio me liga e fala: “Ju, nós estamos com um problema seríssimo aqui. A Vera do Canto e Mello está com uma trombose, e a Cláudia Raia, o Miguel Falabella e o Tuca Andrada estão pedindo pra você entrar no lugar dela, pra você substituí-la.” Eu falei: “Você está louco? Você acha que eu vou aprender o personagem dela em três dias, sendo que a gente casa quarta-feira?” Gente, nós pegamos segunda, terça e quarta. No dia do meu casamento, eu fiquei ensaiando até cinco da tarde, cabeleireiro me esperando pra me pentear e eu lá ensaiando, ensaiando, ensaiando. Chegou a quarta-feira, a gente se casou, mas eu não podia cantar, eu não podia gritar. Quer dizer, eu entrei no casamento cantando Climb Ev’ry Mountain, da Noviça Rebelde, mas eu não podia gritar, eu não podia falar alto, porque no dia seguinte eu tinha que estrear um espetáculo para o qual eu não tinha feito nenhum ensaio. Foi uma loucura. Imagina, eu não pude beber no dia do meu casamento (risos). E, no dia seguinte, às três da tarde, eu estava lá ensaiando e, à noite, eu já estreei. E eu fiquei quase um mês fazendo o espetáculo. Foi uma experiência incrível. Eu amei.

 

O New York, New York foi um grande desafio, porque eu fiz uma Carmen Miranda. E, imagina, para uma pessoa que a vida inteira foi gordinha, de repente, eu me vi de barriga de fora, tendo que ser aquele sex symbol que era a Carmen. Era o meu oposto, era de quebrar toda aquela minha postura mais rígida de cantora lírica. Esse foi o maior desafio. Mas também foi uma alegria imensa, porque eu venci esse desafio. Eu pensei em desistir várias vezes, mas eu não desisti.

 

Na hora em que estou com a voz bonita, em que eu me sinto cantando bem, em que eu vejo as pessoas emocionadas, em que eu vejo lágrimas nos olhos ou sorrisos, eu falo: “Essa é a minha missão, eu estou cumprindo ela.” Esse é meu dever cumprido. Quando eu sinto que eu realmente estou cumprindo a minha missão é quando eu estou em contato com a minha arte, ou fazendo bem para as pessoas.

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