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História

Artesã do Sítio Cumbe

História de: Andrea Cristina do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2021

Sinopse

Infância em Cumbe. Dificuldades trabalhando desde cedo em casa de família. Volta para casa e trabalho no comércio. Lembranças da escola. Momentos de lazer e festas no Cumbe. Artesanato e confecção da renda labirinto. Experiência no Cinesolar, cinema itinerante. Experiência de ser mãe e filhos.

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História completa

P1 - Boa tarde, Andrea, tudo bem? 

R – Tudo bem. Boa tarde! 

P1 - Então, vamos começar pelo seu nome, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Andrea Cristina do Nascimento, moro no Sítio Cumbe, interior do Aracati (CE) e minha data de nascimento é nove de outubro de 1981. 

P1 – E qual o nome dos seus pais, Andrea? 

R – O meu pai, então falecido, é José Freire do Nascimento e a minha mãe, Edite Joventina do Nascimento. 

P1 – Certo. Você tem irmãos?

R – Tenho. Da primeira família do meu pai, eu tenho acho que uns sete ou oito irmãos e da minha mãe, eu tenho cinco [irmãos], seis comigo. 

P1 – E nessa escadinha da parte da sua mãe e do seu pai, onde você está: mais velha, mais nova? 

R – Eu era mais nova e minha irmã tomou o ‘cargo’. (risos) Eu sou das mais novas. 

P1 – Certo. E a atividade dos seus pais? O que seus pais faziam? 

R – O meu pai era pescador e fazia telha de barro, telha e tijolo, aqueles tijolos batidos. Eles tinham uma olaria, aí ele fazia telha e tijolo. E minha mãe é artesã, faz [renda] labirinto. 

P1 – Certo. Então, vamos começar a conversar um pouco sobre a sua infância, Andrea: você também passou em Cumbe? 

R – Eu fiquei no Cumbe até os meus dez anos. Trabalhava com meu pai, no curral, que ele tinha um curral, que era pescador, né? Limpava as esteiras do curral. Trabalhava lá na olaria, carregava e descarregava o forno. Aí, quando meu pai faleceu, quando eu tinha dez anos… As condições aqui sempre são mais difíceis, no interior... 

P1 – Então, retomando, Andrea: a gente vai começar a falar um pouco sobre a sua infância, tá bom? 

R – Certo. 

P1 – Você passou a sua infância em Cumbe, mesmo? 

R – Sim. Eu fiquei em Cumbe até os meus dez anos. Quando eu completei dez anos, o meu pai faleceu. Aí, como as condições, no interior, sempre são mais difíceis, veio uma madame de Fortaleza (CE), que tinha casa e terreno aqui no Cumbe, e perguntou se minha mãe me dava pra ela criar, que ela ia me dar estudo, me formar, isso e aquilo outro. Aí minha mãe, né, como tinha, pra criar, seis filhos, do artesanato, me deu pra ela. Eu peguei e fui pra Fortaleza. Cheguei lá, o primeiro ano foram flores. Dizer que nem o outro: “Só lavava a minha roupa, não fazia nada”. Ela tinha empregada, tinha tudo. Aí arrumou, levou minha irmã pra trabalhar pra ela, mas era tão ruim, (risos) de uma forma, que minha irmã não aguentou, veio embora. Acho que minha irmã passou uns quatro, cinco meses, aí veio embora. Aí ela descontou a raiva da minha irmã toda em mim, eu comecei a ser burro de carga dela. Eu, com dez, onze anos, fui ser empregada dela. A casa dela lá era uma mansão, eu tinha que limpar essa casa todo dia... Não, tinha que fazer tudo na casa todo dia, né? No sábado era que eu fazia faxina. Eu ainda tinha direito de ir pra escola, mas só pra escola. Nem na calçada da casa dela, ela não me deixava ir. Então, eu estudava de manhã: acordava cinco horas, tinha que deixar almoço pronto, arrumar a casa e só podia sair pra ir pra escola faltando cinco minutos pras sete. Corria pra ir pra escola, porque acho que era uns duzentos, trezentos metros da casa. Aí, quando era onze horas, terminava a escola, eu tinha que vir correndo. Eu tinha que chegar [às] onze e cinco. Se eu chegasse [às] onze e seis, ela brigava comigo. Aí eu chegava e ia fazer as coisas todas de casa. E ela mal vinha pro Cumbe. Como é interior e mal me trazia, eu não tinha contato com a minha família, pra eu dizer o que eu estava passando. Quando a minha mãe ligava - a casa dela era grande, era em cima e embaixo, então ela tinha dois telefones com a mesma linha, um embaixo e um em cima – que eu ia falar com a minha mãe, ela corria no telefone lá de cima pra escutar. Então, eu não podia dizer pra minha mãe o que eu estava passando que, se eu dissesse, (risos) minha mãe não ia me buscar na mesma hora e eu que ia ‘comer’ as consequências, né? Aí eu dizia que estava tudo bem, isso e aquilo outro. Quando era semana de aula, eu ficava muito feliz. Quando chegava final de semana, eu ficava triste, que eu ia ficar presa, dentro de casa. Presa, de não ir nem na calçada. Nesse meio tempo, a minha mãe conheceu uma pessoa e viajou com ela pro Rio de Janeiro (RJ) e deixou meu irmão mais velho aqui no Cumbe, cuidando dos outros, né? Eu consegui o número de uma pessoa lá do Rio de Janeiro, aí, da escola, eu ligava pra minha mãe, escondido. Contei pra minha mãe o que eu estava passando, que eu estava sofrendo, aí minha mãe dizia que, quando viesse do Rio, vinha me pegar, né? Só que eu não aguentei e fugi. Teve um dia que o único canto que ela deixava eu ir era pra missa. Aí, num domingo, eu fui pra uma missa e, dessa missa, não voltei pra casa. E lá onde eu morava era na Parquelândia, um bairro muito nobre, mas era cheio de, naquele tempo, era cheio de gangue. De um lado era uma gangue e do outro lado, era outra gangue. Resumindo: fui pra casa de um menino que estudava lá no colégio, fui pra casa de um rapaz dessas gangues, que eu não tinha nem amizade, mas fui. Eu acho que, pra mim, era a única salvação, né? Só que eu fui e, no meu pensamento...  Naquele tempo eu tinha dez anos... Quinze anos. Ainda passei cinco anos nesse sofrimento com ela, né? Eu dizia assim: “Vou pra casa dele. Quando for amanhã, eu peço pra ele me deixar na rodoviária, vou pra Aracati e está tudo bem”. Quando eu cheguei na casa lá, a casa de favela mesmo, toda desestruturada - a cara do padrasto desse menino, feia -, aí o menino disse logo assim pra mim: “Quando for amanhã, a gente vai se juntar”. Eu: “Puta que pariu, onde foi que eu fui me meter? Saí do fogo pra entrar na labareda. E agora, o que eu vou fazer?”. Aí eu, mesmo assim, com toda a ruindade que essa senhora tinha comigo, eu gostava muito dela, né? Mesmo assim, eu liguei pra ela e disse que não ia embora, que eu ia embora pra minha casa no outro dia. Aí ela mandou os filhos dela me procurarem, até que me acharam [e] me levaram pra casa. Aí, no outro dia, ela mandou me deixar no Cumbe. Isso, mamãe ainda estava no Rio de Janeiro, não tinha chegado ainda. Aí ela me mandou embora, disse que eu usava maconha, que fazia isso e aquilo outro, que não queria prestar e me mandou embora. Eu vim embora. A minha infância foi dos meus quinze anos até os dezoito, mais ou menos. Dezoito, não, até uns vinte, acho, que foi quando eu tive meu primeiro filho. Mas infância mesmo, de dez anos. Depois que meu pai faleceu, eu não tive.

P1 – Entendi. E antes de você ir pra casa dessa pessoa, como era, assim, a sua infância, em Cumbe? Você costumava brincar? Tinha contato com família? Como era, antes de você sair daí?

R – Era muito bom. A gente tinha as obrigações com nosso pai, tinha as tarefas pra fazer, mas a gente tinha contato com todo mundo. A gente brincava: de noite, se juntava todo mundo e brincava de pega-pega, de tudo, né? Dos três até os meus dez anos, eu tive infância. Não tenho o que reclamar. Foi maravilhoso! Tinha contato com todo mundo. Brincava, mesmo. 

P1 – E do que você gostava de brincar, nessa época, Andrea? 

R – Naquele tempo, era barra-bola, manja, esconde-esconde, de casinha - a gente fazia as casinhas debaixo do pé de pau -, aí brincava de casinha, que tinha namorado, que tinha isso e aquilo outro. A gente brincava de boneca, fazia boneca de ossinho; da cabeça da lagosta, a gente fazia os bonequinhos também. Quando comia a lagosta, aí botava pra secar e a gente fazia os brinquedos, com essas coisas mesmo, porque comprar, mesmo, a gente não tinha condições de comprar. A gente tinha um dinheiro, quando era no tempo que tinha caju, quando ia apanhar a castanha, vendia, que era em janeiro [por causa]... É tradicional a festa de São Sebastião, em Aracati. A gente ia com as castanhas, juntava o dinheiro, que era pra ir pro parque, porque todo ano, em janeiro, vem o parque. Naquele tempo, era a festa. A gente juntava aqueles trocadinhos, que era pra ir pro parque, em janeiro, em São Sebastião. Mas era ótimo. Aqui, no Cumbe, a minha infância foi ótima, graças a Deus. 

P1 – Certo. E durante esse tempo que você ficou fora, conta um pouco como foi a sua experiência na escola. 

R – A escola era a minha casa. Foi o que eu disse: quando chegava segunda-feira, eu ficava morta de feliz, porque na escola eu tinha amigos, todo mundo da escola gostava de mim, da diretora a professora, zelador, e eu tinha contato com todo mundo na escola. Quando chegava sexta-feira, pronto, já ficava triste, porque eu ia ficar presa dentro de casa. A escola minha foi muito boa. 

P1 – E você estudou dos dez aos quinze, nessa escola? 

R – Estudei. Aqui, no Cumbe, eu estudava, né? E, quando eu cheguei lá, estudei [também]. Dos dez aos quinze anos, nenhum ano eu faltei, estudei normal. Aí, no outro, quando eu vim, ano, acho que era pra entrar pro colégio, quando eu vim embora. 

P1 – Então, você acabou terminando o ensino fundamental lá e depois você voltou? 

R – É, terminei em Aracati o ensino fundamental. 

P1 – Está certo. E como foi sua volta, então, pro Cumbe? Me conta como isso aconteceu. 

R – Foi maravilhoso, foi aquela... Um passarinho que estava na gaiola e se soltou. Eu, com quinze anos, na flor da idade, estava liberta. Interior é totalmente diferente de cidade, né? Aqui você pode ir pra qualquer canto, qualquer hora, que não tem perigo. Então, nos meus quinze anos, eu fui viver de novo. Vivi até os dez, passei cinco anos presa e com os meus quinze anos que eu voltei a viver, graças a Deus. 

P1 – E quando você voltou pro Cumbe, o que você passou a fazer? Você voltou a estudar, ou você ficou cuidando da casa?

R – Quando eu voltei pro Cumbe, voltei a estudar. Comecei a fazer uns projetos de jovens e adultos, comecei a ensinar os mais velhos que não sabiam ler, nem escrever. Naquele tempo, não precisava ter faculdade. Se está concluindo [o] ensino fundamental, podia, fazia a formação. Aí eu ensinei num monte de projeto: da Petrobras, da prefeitura, ensinei um monte. Aí chegou aquele tempo que só podia com faculdade e eu não tinha faculdade, nem tinha condições de fazer faculdade, aí eu parei. Aí comecei a ir pro lado do comércio, a vender coisa. Até hoje eu vendo coisa. 

P1 – E você comentou que você teve um filho aos dezoito, né? 

R – É, eu disse que era dezoito, mas acho que não foi, não, foi bem depois, porque eu estou com a cabeça fraca. Eu tenho 39 e o meu menino mais velho tem dezoito. Eu acho que foi com vinte e não dezoito. 

P1 – Então, você já tinha terminado seu ensino médio, nessa época?

R – Já tinha terminado. 

P1 – E no que você trabalhava com comércio, Andrea?

R – Eu já vendi roupa, botei bar, vendi bebida, já botei mercearia, joias. Hoje em dia, eu voltei a vender joias, vendo joias e faço algumas coisas de celular, algumas miçanguinhas e vendo, entendeu? O meu negócio é vender. É comércio, mesmo. É vender, adoro vender. 

P1 – E você tinha algum sonho de infância, pensando: “Quando eu crescer, eu quero ser tal coisa”? O que você sonhava? 

R – O meu sonho era ter uma filha e ser professora. O meu sonho era esse. E criar essa filha sozinha. Aí tive três. (risos) 

P1 – Certo. E me conta, então, o que aconteceu depois que você terminou o seu ensino médio. Você foi trabalhar? Você deu, durante um tempo, aula, mas aí depois disse que era exigido que tivesse faculdade, aí você parou e foi pro comércio. 

R – Foi. Aí estou até hoje. Estou no comércio, de venda, até hoje vendendo. Ainda trabalhei, eu acho que uns cinco, seis anos, de carteira assinada, mas a maioria do tempo, trabalhei pra mim mesma. No comércio, mesmo, vendendo coisa, porta a porta, essas coisas assim. 

P1 – E, falando nesse período da escola, teve alguma matéria que você gostava mais ou algum professor, que você lembra até hoje, por algum motivo? 

R – Tem as professoras do tempo que eu ainda morava no Cumbe, que eram da infância mesmo, de pequena. Aliás, até hoje eu ainda chamo minhas professoras de ‘tias’. Se eu for fazer algum curso, eu pergunto logo: “A senhora tem raiva de eu chamar de ‘tia’?”. É de mim. Eu gosto de chamar de ‘tia”. Mas tem aquela, que é ‘tia’ Neide, que eu acho que eu tinha uns sete, oito anos, até hoje ainda tenho contato com ela também. Quando vê, é aquela festa. Aí teve uma de Fortaleza também, que me ajudou muito, só que eu perdi o contato dela. Era ‘tia’ Vera. Ela sempre me ajudava, me apoiava, me dava conselho, que lá, como o canto que eu morava era muito perigoso - não na casa que eu morava, mas -, assim: passava uma avenida, de um lado era muito perigoso; passava outra avenida, do outro lado era muito perigoso. Então, ela me dava muito conselho. Pelo que eu passava, de eu não seguir um caminho errado, isso e aquilo outro, mas eu perdi o contato, mesmo, dela. 

P1 – Tinha alguma matéria que você gostava mais de estudar?

R – Eu gostava de Matemática.

P1 – Comerciante mesmo, né? (risos) Sua vocação. 

R – É, minha vocação. 

P1 – Certo. Bom, então me conta um pouco [sobre] depois que você terminou, então, o seu ensino médio. Ali é uma região quilombola, né, Cumbe? 

R – É uma região quilombola. 

P1 – Isso. Me conta um pouco o que você gostava de fazer na cidade? O que você fazia no seu tempo livre, pra se divertir?

R – A gente, no nosso tempo livre, aqui, ia pro rio, passava o dia no rio, pescava e passava o dia no rio, bebendo cachaça. O morro, tempo de inverno, até hoje, aqui, é festa. Que faz as lagoas, né? Aí a gente vai pras lagoas e tem a praia também, a gente tem o rio. A gente, aqui, é abençoado de tudo: de um lado é o rio, do outro lado é o mar e tem as lagoas, quando chove. É como se a gente aqui fosse uma ilha. De um lado, é o Rio Jaguaribe; do outro lado, é o mar.

P1 – E me conta um pouco dessas festas que vocês têm, como são? 

R – Festa aqui, antigamente, só tinha a do mês de novembro, que era a tradicional, do Senhor do Bonfim. Aí eram dois dias de festa. Aliás, era uma semana de festejos na igreja, né, que são as novenas. A semana todinha de novena, novena em grupo, de cada cidade: apresenta o seu louvor, aí vende as comidas lá na igreja. A festa dançante tem no sábado, no clube. Tinha, né? No domingo, terminava a missa de manhã, tinha o leilão, que lotava. Muita gente passava o mês trabalhando na igreja, ia pra cidade vizinha tirar a prenda, que era pra colocar no leilão no domingo, né? Aí, no domingo, terminava a missa, a gente passava o dia no leilão e à noite, de tardezinha, pra noite, ia pra festa dançante. Antigamente. Hoje em dia, não tem festa, quase. Não tem agora, né, por causa da pandemia, mas antes da pandemia festa acho que no mês, duas vezes no mês, uma vez no mês, mas antes era assim: quadrilha, a gente fazia muito; tinha presépio antigamente. A gente fazia os presépios aqui. As senhoras apresentavam o presépio. Era muito, muito bom. Hoje em dia, essa tradição acabou, mas, de vez em quando, ainda tem uma quadrilha. Mas presépio... E os festejos ainda têm, mas não é mais aquela coisa de antigamente, né? É bem mais simples. Por ter muito mais festa agora, né, o pessoal nem liga mais, mas, antigamente, era muito legal. Todo mundo guardava o dinheiro todinho. Era em janeiro, a de São Sebastião, que era no Aracati. Aí gastava o dinheiro em São Sebastião, [e] juntava pra novembro, que era a festa de novembro. Era festa da gente. Não era nem Natal, Ano Novo. Era festa de novembro. 

P1 – E essas festas aumentaram, assim? Você disse que tem muito mais festas hoje em dia. Praticamente todo mês, né? Isso é por algum motivo turístico, algo nesse sentido? 

R – Não, não. É só festa de clube, mesmo, normal mesmo. Aqui no Quilombo Cumbe é que tem a Festa do Mangue, todo o ano, acho que no mês de agosto, tem um mega evento, aí é o final de semana todinho de festa, reúne gente de muito canto, faz aquele mega evento. É muito bom também. Aí, quando é no domingo - tem a cata do caranguejo, um monte de coisa - é encerramento com festa dançante. Também é muito bom. Aí, antigamente, também, a festa que tinha era Semana Santa, que tinha o pau de sebo, a queima de Judas, que também era muito bom, aqui. 

P1 – E nessas festas tem bastante comércio, Andrea? Você consegue vender o seu artesanato, algo nesse sentido? Ou é festa pra população, mesmo, se divertir? 

R – Nessa Festa do Mangue, tem. Você vende. Todo mundo leva. Quem tem artesanato, vende seu artesanato lá. Quem tem sua merendinha, seu lanche, seu espetinho, leva e vende. Essa Festa do Mangue vende muito. Todo mundo vende. Agora, nas outras não. Só quem tem churrasco, essas coisas, bebidas, que vende lá em frente. Mas a Festa do Mangue beneficia muita gente. Até mesmo gente de fora, né? 

P1 – Ah, certo. Voltando pra sua família, você tinha dito que sua mãe tinha ido pro Rio. Ela voltou pra o Cumbe? 

R – Voltou, no mesmo tempo que eu voltei. Tipo, assim: eu voltei, eu me antecipei, que eu não aguentei, eu fugi, voltei primeiro que ela. Mas eu voltei, com quinze dias, ela veio também comigo. Mas, assim, no começo, eu vim embora por causa do sofrimento lá, né? Só que a senhora lá que eu morava, que hoje em dia é falecida… Eu gosto dela, tenho um carinho muito grande por ela, mesmo ela tendo feito eu sofrer, mas tenho. Ela fazia muito a minha cabeça contra a minha mãe, contra meu irmão mais velho - que ou era minha mãe, ou era meu irmão que tomava conta da gente, né? Mas aí ela fazia a [minha] cabeça, que era pra eu não querer vir embora, né? Ela dizia que eles tinham me abandonado, que não ligavam pra mim, isso e aquilo outro. Aí eu botei aquilo na minha cabeça. Eu ficava dizendo assim: “Minha mãe não gosta de mim, que minha mãe criou os cinco filhos dela e não me criou. Então, ela não gosta de mim. Fez só eu sofrer?”. Quando eu cheguei aqui, eu tinha aquele ciúme, aquela coisa, quando ela chamava os nomes dos filhos tudo, pra eu ser a última? Eu ficava com aquela cara feia: “Está vendo como ela não gosta de mim?”. Aí ela começou a me dizer que, se soubesse que ia acontecer o que aconteceu comigo, jamais teria me dado, que criou cinco e teria criado mais uma, né? Então, é que ela prometeu uma coisa e eu cheguei lá e foi outra, totalmente diferente. 

P1 – Entendi. E vocês chegaram a trabalhar juntas, no artesanato, você e sua mãe, Andrea?

R – Trabalho muito pouco. Ela trabalha muito como labirinteira. Tem até raiva que as filhas dela não a ajudam, mas de vez em quando eu faço uma parte do labirinto com ela. Eu torço, que é uma técnica que tem no labirinto, uns procedimentos. De vez em quando eu a ajudo, mas não muito. Sempre que possível, ela está ‘avexada’ no trabalho, eu vou ajudar. Mas eu já trabalhei muito com ela. Às vezes, tinha a CeArt, mandava umas bandejas, caminhos de mesa pra elas confeccionarem. Aí se juntava aquela roda de mulheres pra fazer labirinto muito grande, então pra uma pessoa demorava demais, né? Aí ela me levava pra fazer. Eu sempre trabalhei assim, com ela, sempre que pude. 

P1 - E conta pra gente como é esse labirinto, né? A gente não conhece muito bem as tradições de vocês.

R – O labirinto é uma renda. Você pega o linho, tecido... Hoje em dia, tem muito tecido que usa, mas antigamente era só o linho. Pega o linho puro, normal, aí você corta, faz o desenho que quer: uma ramagem, um peixe, um passarinho, corta o tecido, depois vai encher aqueles cortezinhos, pra dar a forma do desenho. Depois de encher, vai torcer, fechar todos os buraquinhos que estavam abertos, que eram do enchimento. Depois vai fazer o (colatão?). Tem o caseado, pra poder formar o labirinto. Aí, do labirinto, você faz vestido, blusa, saída de praia, caminho de mesa, muita coisa. É uma técnica muito bonita, mas está se acabando, porque os mais jovens não ligam, não estão preocupados em fazer. Mas até hoje minha mãe ainda faz labirinto.

P1 – Certo. E me conta uma coisa: como você ficou sabendo desse projeto do Cinesolar, que chegou na cidade?

R – Pois é, porque, assim: interior é pequeno, né? Todo evento que vai ter no interior, todo mundo sabe. Aí a primeira, que eu não lembro mais ou menos a data, foi ano... Eu já tinha, até, filho, aí apareceu que ia ter mostra de cinema no pátio da igreja. A gente foi. Vai todo mundo. Sempre que tem, né, a gente vai. É novidade, tudo, a gente vai. Mesmo a tecnologia, mas isso aí ainda é novidade pra gente, né, porque cinema mesmo no Aracati, que é a cidade mais próxima da gente, que é nosso município. Eu acho que está com uns cinco, seis anos que veio, que não tinha. Fui pro cinema uma vez, com meu filho, assistir “Dragon Ball Z”, mas até então eu vim assistir filme pelo Cinesolar, filme grande, e às vezes uns projetos do meu irmão, que é professor, trazia pro colégio, botava aqueles filmes também, na tela, sempre trazia. Trouxe até um filme muito legal, que até hoje eu me lembro dele, que era o “Kiko”, com os meninos. Foi através da Cpfl mesmo que o Cinesolar apareceu no clube, aí a gente foi. Teve outra vez, eu fui de novo. Aí eu comecei a ter amizade com a Cíntia, do Cinesolar, aí ela me solicitou, perguntou se eu não queria, eu falei: “Eu vou”, né, fazer essa entrevista. 

P1 – E me conta como é essa experiência de você assistir o filme no telão, próximo à igreja. Vai bastante gente? Como você se sentiu, nessa experiência de assistir filme lá?

R – Foi muito legal, muito bom. Porque, assim: você assiste na tela da televisão, que hoje em dia está tendo as telonas, que antigamente eram aqueles ‘tubões’, né? Você deixar de ver uma imagem bem quadradinha, pra ver no telão grandão. E vai muita gente! É muito legal que junta todo mundo. Faz lá aquela arquibancada, como se fosse um circo e vai muita gente, é muito legal. Os filmes são tudo curta-metragem, mas são muito legais, que tem sempre um recado bom, né, pra você. Então, é uma lição de vida pra alguma coisa. É pequeno, mas todos os filmes são bem passados, bem estudados.

P1 – Você costuma frequentar, sempre que tem, você vai? Quando você pode.

R – Sempre que tem, eu vou. Acho que não teve nenhuma vez que teve e eu não fui. Quando não tem, ou quando tem na cidade vizinha, que é na ________, eu também vou. (risos)

P1 – E o que você acha desse projeto, do impacto que esse projeto tem na comunidade onde você mora? O que você acha? Você acha que as pessoas recebem bem, que tem uma importância pra região onde vocês moram, esse projeto de cinema? 

R – Tem, sim. Todos esses projetos têm muita importância. Até mesmo porque a gente vive no cotidiano, com as coisas simples. É que nem eu digo: tem cinema em Aracati, mas a gente mal vai. Quando vai, vão os rapazinhos jovens, mas esses meninos de dez, de sete, de oito anos não vão, não. Então, quando tem aquela animação deles, aquela alegria, é tanto menino no meio do mundo que, se o pessoal passar cinco dias, eles passam cinco dias lá no pé do povo, pra assistir filme, perturbando, pra comer pipoca. É [uma] animação medonha. Muito legal! 

P1 – Certo. E, voltando pra sua vida pessoal, você tinha comentado sobre os seus filhos. Como foi a experiência de ser mãe? Era um sonho seu, né, você disse. 

R – Era um sonho de ter uma menina, só uma menina e ser professora. Aí veio o primeiro e foi um menino. Aí, assim que nasceu, eu olhei pra cara dele: “Valha, meu Deus, como meu filho é feio!”. (risos) Achei tão feio, mas, assim, foi uma experiência maravilhosa. Aí tive o primeiro, chegou com quatro anos, tive o segundo, outro menino. “Meu Deus do céu, essa menina não vai vir, não? Vou encerrar a carreira”. E meus filhos tudo cesárea, porque eu morro de medo de ter filho normal. Aí me separei do meu primeiro marido, depois dos meus dois filhos, eu me separei e a menina não vai vir, não, vai ficar nisso. Aí arrumei um segundo marido e depois de uns nove, dez anos juntos, ele doido por um filho, falei: “Vou tentar. Quem sabe vem a menina, né?”. Aí tentei e veio a menina, está com seis anos hoje. Aí tenho três: o de dezoito, o de quatorze e a moça que encerrou a carreira, de seis anos. De cinco, que vai fazer seis.

P1 – E quais os nomes deles, Andrea? 

R – O Paulo Maurício, que é o de dezoito anos; o Cauã, que é de quatorze; e a Isis, que é a de cinco. 

P1 – Certo. E atualmente você mora com eles, eles estão estudando? Me conta como eles estão. 

R – Eu moro com eles. O Paulo Maurício terminou o médio. Meu sonho é que ele faça faculdade, que hoje em dia, à vista de antigamente, você tem mais condições e tem mais acesso, né? Antigamente, não tinha. Se não fosse particular, não tinha, né? Eu sonho que ele faça faculdade, mas até agora ele não quis ainda. Ele trabalha aqui num restaurante, que tem aqui perto. O de quatorze anos ainda estuda. Passa uma semana comigo, passa uma semana com o pai, que com o pai ele não leva ‘carão’. Aí, comigo, ele leva. Ele fica revezando. E a de cinco anos também estuda e mora comigo. Todos os três moram comigo. O de quatorze fica só passeando. E é tudo a mesma comunidade, que a gente mora. 

P1 – Certo. E eu vou te fazer algumas perguntas, pra gente ir encaminhando pro final: me conta o que é mais importante pra você hoje em dia, Andrea.

R – A minha estabilidade financeira. Hoje, eu trabalho, mas, assim, tenho minha casinha. Hoje em dia eu tenho duas casas, uma casa eu construí sozinha. Eu costumo muito dizer que posso enricar, ganhar milhões de dinheiro, mas a minha primeira casa eu nunca vendo, porque foi uma casa que eu construí sozinha com muito suor. Fiz empréstimo, isso e aquilo outro, trabalhei e construí sozinha. Então, eu acho que o melhor, hoje, é a minha estabilidade financeira, que eu tenho meu 'transportezinho', tenho minha casa. Os meus filhos, graças a Deus, são maravilhosos, calmos, que não são de estar no meio do mundo, de bagunça, de bebida, no meio do mundo da droga, que... Hoje em dia, a gente, por ser uma comunidade pequena, mas já tem muita droga aqui, infelizmente. Mas, graças a Deus, eu tenho o meu de dezoito, e o de quatorze não... Mal saem de casa, graças a Deus. É de casa pro trabalho, às vezes, saem com os amiguinhos ali, mas são uns meninos bons. O de quatorze só pensa em jogar bola, graças a Deus! E eu me sinto feliz hoje, com a vida que eu estou, que eu tenho. 

P1 – E seus filhos também assistiram o filme do Cinesolar pela primeira vez? 

R – Foi. 

P1 – Começaram por aí? 

R – Foi. Também foi por aí. 

P1 – E eles costumam frequentar? 

R – Quando tem, também vão. Principalmente o de quatorze, ele sempre vai comigo. E a de cinco anos também já foi. Não aqui na comunidade, mas na vizinha. Eu acho que quando teve, ela tinha uns três, quatro anos, ela foi e assistiu lá na frente, toda animada. 

P1 – E mais ou menos qual a periodicidade, assim? De quanto em quanto tempo o projeto funciona, pra passar filmes pra vocês? 

R – Demora. A última vez que teve, que foi até na vizinha, eu acho que está com uns dois a três anos. Mais ou menos nesse tempo, de dois a três anos, que aparece. 

P1 – Certo. E quais são seus sonhos pro futuro, Andrea? 

R – Meus sonhos pro futuro são que eu continue estabilizada, mais e mais, que eu consiga ficar velha e ter onde ter amparo pra mim e pros meus filhos. E que meus filhos continuem no caminho que eles estão, mesmo não fazendo faculdade, mas só em serem calmos, no mundo que a gente vive hoje, pra mim está bom demais. E continuar essa vida que eu estou vivendo hoje, com o meu trabalho, minha vida com a minha família, está bom. Continuar do mesmo jeito. Se vierem melhoras, tudo bem, mas não tenho aquele sonho ainda, um sonho, isso e aquilo outro, não. É trabalhar e viver o que eu não vivi. 

P1 – Tem alguma coisa que você gostaria de falar, de tudo que a gente conversou, que eu não te perguntei? Alguma coisa importante pra você, algum momento importante que você gostaria de deixar registrado?

R – Não, não. Acho que eu falei tudo. A única coisa que eu gosto de dizer, assim: graças a Deus, eu sempre fui uma pessoa que tive Deus no meu coração. Porque, se eu não tivesse – fui uma pessoa muito firme, muito forte – nesse tempo que eu morei em Fortaleza, eu tinha feito alguma besteira na minha vida, mas graças a Deus... Já pensei, quando eu morava lá, só quando eu morava lá, muitas vezes pensei em fazer, mas não _______: "Minha vida é mais importante do que o que estão fazendo comigo". Eu sempre me achei uma pessoa muito forte e vou continuar. 

P1 – Tá certo. Então, vamos pra última pergunta, Andrea: como foi, pra você, contar a história da sua vida pra gente, hoje? 

R - Lá no fundo, eu sinto aquele rancor. Às vezes, dá vontade de chorar, porque tem coisas que eu não conto, mas foram muito mais coisas que aconteceram nesses cinco anos. Então, eu gosto de contar, mas ainda sinto aquela coisa, aquele desconforto, mal-estar. Eu conto, mas sinto ainda. Sinto tristeza quando eu me lembro, porque foi muita coisa ruim que passei lá. Só lá, mesmo. Porque, de resto... Digo muito que só eu e Deus sabemos o que eu passei. 

P1 – Certo. Bom, então a gente agradece muito, Andrea, a sua participação, né, nesse projeto. Foi uma ótima entrevista, pra gente conhecer um pouquinho a sua região, a sua história de vida. O Museu agradece muito a sua participação, Andrea. Muito obrigado!

R – Obrigada também. Eu que agradeço. E estou aqui quando precisar, viu?

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