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História

Arte nas Raízes

História de: José Galvão Aguiar
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Sinopse: Histórias no sítio da família. Infância em Iguape. Escola e brincadeiras da juventude. Relacionamento com a arte. Começo na profissão e primeira exposição em um salão de arte. Relação entre a arte e Iguape. Histórias da adolescência. Família e vida adulta.

História completa

Projeto Museu em Rede Realização Instituto Peabiru, Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de José Galvão de Aguiar Entrevistado por Fernanda Peregrina Iguape, 26 de Fevereiro de 2011 Código: MRI_CB02 Transcrito por Rachel Augusto Revisado por Isabela Borges Vidal Polido Lopes P/1 - Cabine Museu em Rede. Depoimento de José Galvão de Aguiar. Entrevistado por Fernanda Peregrina. Iguape, 23 de fevereiro de 2011. Realização Peabiru, Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Entrevista número dois. Para começar, eu gostaria que você me contasse o seu nome completo, local e data de nascimento. R - José Galvão de Aguiar. Eu nasci em (Parica?), mas moro aqui em Iguape há muito tempo. Nasci em 3 de abril de 1953. P/1 - Qual a origem da sua família? R - Português. P/1 - Portuguesa? R - Portuguesa e índio, se não me engano. Porque é de uma família antiga. P/1 - E você saberia contar alguma coisa da origem da sua família? Alguma história de como eles chegaram aqui? R- Não. Antes tinha um sítio no Peropava, eu morei lá até seis anos de idade e depois nós viemos para cá, para o centro. A gente cultivava banana, arroz... E tudo era praticamente... O consumo era produzido lá, certo? P/1- Como que era viver lá? Na sua infância? R- Não tem muito o que contar. Era assim... Era uma vida difícil, sabe? Por exemplo, a minha casa era de chão batido, pau a pique, sapê, fogo de chão. Tinha _____ farinha, a moenda da cana, então praticamente tudo era produzido ali. Essas enchentes que acontecem aqui em Iguape, elas são milenares. Quando o meu avô percebia que a enchente estava chegando, ele mandava tirar as mudas das plantas, (estiuava?) tudo. A enchente passava, era tudo replantado. Nunca houve um deslocamento, como é feito hoje, essas pessoas ribeirinhas para o centro da cidade, certo? Todas permaneciam no local. P/1- Então, nessa propriedade vivia sua família inteira? Seu avô... R- É, inteira, sim. O avô, os tios, tias. P/1- E como que... Tinha primos também? R- Sim, sim. P/1- Como que era a brincadeira de infância? R- Na verdade, era pouca coisa a gente consegue lembrar, pô. Eu vim para cá com seis anos. P/1- E como foi, então, se adaptar à cidade? A família se adaptar? R- Foi, assim, acho que um pouco difícil, né? Você vem... O meu avô vendeu o sítio, veio para cá e não tinham... Eles não sabiam ler nem escrever, então não tinham noção de quanto valia a propriedade, acredito que venderam a preço baixo. Tanto que não conseguiram adquirir casas nem nada. Moravam de aluguel, sabe? Tinham... Os tios meus eram pescadores, certo? Tinha um que era carpinteiro... E tocavam a vida. P/1- E como você lembra aqui da cidade de Iguape na sua infância? Descreve um pouquinho. R- Sem calçamento. Poucos carros, pouco comércio. E o mais interessante é que Iguape tinha acho que quatro carros, e já tinha semáforo. Tinham dois semáforos aqui, certo? Isso foi há... O que marcou mais para mim. P/1- E, aqui na cidade, você costumava brincar, ia na escola... Frequentava a escola? Como que era o seu cotidiano? R- Sim. Eu frequentava a escola e o Vaz Caminha, o grupo escolar Vaz Caminha. E, à tarde, jogo de bola e outras brincadeiras. P/1- Você podia contar algumas para gente? R- A gente brincou muito de mocinho. Quando assistia um filme de bang-bang, a gente sempre fazia aquelas brincadeiras. Tinha também... A gente montava circo. E o mais interessante é que o ingresso do circo era três palitos de fósforo. Agora, qual a finalidade de você cobrar três palitos de fósforo? Não tem, não tinha. Aqui ninguém fumava. E isso aí era... Até hoje me questiono a respeito. Para que aqueles fósforos? P/1- Sei. R- Três palitos. P/1- E como que era esse circo? Vocês mesmo montavam o espaço? R- É, um espaço, não tinha nem lona, sabe? A molecada se juntava, uns faziam um espetáculo, cada um fazia alguma coisa. Tinha o trapezista, né? Normalmente era um galho de árvore, uma corda, e de vez em quando quebrava o galho da árvore, o cara caia, se machucava... Então era esse tipo de brincadeira. E futebol também, lógico, isso não pode deixar de existir. P/1- E como que era o cotidiano da sua casa aqui em Iguape? R- Minha mãe era lavadeira, certo? E... Sem muita novidade, sabe? Ia para a escola, voltava. Estudava um pouco de vez em quando. Aí, saía para jogar futebol. P/1- Você tem irmãos? R- Não, sou filho único. P/1- Não? Filho único. E da escola? O que é que você lembra da escola que seria, assim, mais marcante? R- Mais marcante? Eu era um cara que fazia muito castigo, sabe? Assim, tipo, não deu eu fazer bagunça na classe, né? Mil vezes, duas mil vezes, certo? Porque eu era muito bagunceiro. Eu era terrível. P/1- Tem alguma bagunça em especial que você acha que seria interessante contar para a gente? R- Tinha um colega de classe, que era abastado, sabe? Então, a empregada levava o lanche para ele na hora do recreio. E nós ali duro, não tinha dinheiro. A gente aprontava e jogava a culpa nele. Só que ele era um cara folgado, contratava a gente para fazer o castigo e nós tomávamos o lanche dele, o pagamento. Todos os dias era dessa forma. P/1- E a relação com os professores, como é que era? R- Apanhei bastante no primário, viu? Era régua, puxão de orelha, entendeu? Mas merecia também. P/1- Teve algum professor em particular que te marcou? R- Olha, apesar da rispidez de como a gente era tratado... Porque havia essa necessidade, né? Felizmente, eu peguei... Todos meus professores de primário foram ótimos professores. Ótimos mesmo. Não tenho nada a reclamar. Inclusive, todos estão vivos ainda e tenho um bom relacionamento com eles. P/1- E como é que foi para você escolher uma profissão? R- Na verdade eu já trouxe esse dom comigo, sabe? Eu comecei a desenhar cedo, tá? Tenho uma habilidade, realmente, para desenho e para pintura, para modelar em papel machê... E isso aí eu já trouxe comigo. P/1- E você já desenhava de infância? R- Sim. P/1- Como é que você fazia para... Você desenhava na escola? Você desenhava... R- Escola, em casa... Eu comecei a ganhar dinheiro com desenho, eu fazia trabalho para os colegas de escola. Então, eu já comecei a faturar cedo em desenho, certo? P/1- E você aprendeu, assim, só por uma habilidade ou você chegou a ter algum curso ou... R- Não, não. É habilidade mesmo. Eu já trouxe comigo. Isso daí é um campo mais complexo de explicar, porque eu já fazia isso antes. Na verdade, assim, eu sou espírita, certo? E eu já passei por aqui várias vezes e uma das minhas habilidades era a arte. E eu trouxe comigo isso. P/1- E como é que foi, assim, você lembra... Você falou que já ganhava dinheiro, né, dos colegas, mas você lembra assim um primeiro trabalho como artista plástico que te marcou mais, que foi mais importante, significativo? R- Olha, eu acho que o mais importante foi eu ter colocado, certo, em termos de arte, uma tela em um salão de arte. Isso foi o mais importante para mim. Porque eu sempre relutei em participar de salão de arte porque eu achava que eu não pintava bem. Até que um dia eu resolvi e fui classificado entre os cem trabalhos e realmente... Aí, quando fui na vernissage, eu pensei comigo: "Eu sou fera." Porque a qualidade dos trabalhos que tinham lá eram maravilhosos, sabe? Então falei: "Puxa, sou fera". E era um trabalho... Uma exposição, um salão de arte que envolvia artistas de todo o país, certo? P/1- Onde era esse salão? R- Em Caraguatatuba. Então, eu achei que, realmente, foi o mais importante para mim. A partir daí, eu perdi o medo, sabe? Comecei a participar mais. Aí comecei a confiar no meu taco. P/1- E qual é a sua relação com a cidade e a sua arte? R- Eu aqui faço vários tipos de trabalhos. Principalmente carnaval, tá? Eu faço decoração de rua, faço alegorias, já fiz escola de samba. Por exemplo, desenvolver enredo, fantasias, carros alegóricos, modelar em papel machê, isopor... Então, essa é minha contribuição. Em termos de arte aqui, eu participo de tudo que for possível. P/1- E tem algum carnaval que tenha, assim, sido mais memorável? R- Sim. Nós tínhamos uma escola de samba chamada 55, e a gente não tinha grana, e cada um participava com o que tinha de dinheiro. Tem um detalhe muito importante, que nós fizemos um vapor chamado Bento Martins, que era o que navegava aqui o Ribeira, né, e ele tinha dois pavimentos. E nós não tínhamos a madeira para fazer o assoalho, sabe, do primeiro pavimento. Duas e meia da manhã um amigo meu foi para casa jantar. Duas e meia da manhã, certo? Aí ele chegou lá, tirou a comida no prato, começou a comer e começou a pensar o que é que ele ia fazer para arrumar a madeira para fazer o piso. Ele não teve dúvida. Pegou um martelo, desmontou o quarto da filha todinha, às duas e meia da manhã. Que era de tábua, né? Trouxe para fazer o piso do carro. Então, essas são umas coisas que marcam a gente, sabe? A garra. Tem que ensaiar muito bem, mas depois entrou a política no meio, separou todo mundo e... Porque aqui tem duas facções, certo? É igual aos Estados Unidos. Aristo... Os democratas e os aristocratas, né? Aqui é Cocho e Berne, entendeu? São duas facções. Então, partido aqui não quer dizer nada. Partido político. São as duas facções. Ou você é Berne ou você é Cocho. E na escola tinha as duas fracções. Então, isso aí fez com que acabasse a escola. P/1- E qual é a sua relação com a cidade além desse envolvimento artístico? R- Em que sentido, moça? P/1- No seu cotidiano, em relação com a cidade. O que você faz... R- Olha, eu só reclamo na verdade, sabe? Pelo desmando. Iguape é uma cidade histórica, que recebe turistas. Só que ela hoje está detonada. O poder público nosso não consegue ajeitar isso daqui. Aliás, já vem de muito tempo, isso. Então, isso daí entristece a gente. As pessoas entram na cidade e não sabem como sair. São feitas placas de papel de cartão indicando a saída da cidade, buracos, sabe? Então depõe. Nós que moramos aqui, dependemos disso daqui, para nós é triste. Então, eu reclamo muito. Demais. P/1- Tem alguma história que você gostaria de compartilhar? Que não foi perguntada. Pode ser da sua família... Não? E como foi contar um pouquinho da sua história? R- Na verdade, a gente sempre gosta de contribuir. Falar museu, museu é história. Uma história viva, na verdade, certo? E qualquer fato ou qualquer evento, você tem que registrar. Assim como nós estamos curtindo os casarios coloniais, né? Mais tarde alguém vai curtir isso que nós estamos fazendo. Então nada é velho, tudo é novo. E pra gente participar de um evento como esse é gratificante, na verdade. Você deixar alguma coisa para o futuro. P/1- E deixa eu te perguntar uma coisa que eu acabei não te perguntando. Com relação a sua juventude, né, o que você falou de deixar para depois. O que é que você gostaria de contar sobre como foi sua juventude aqui? R- Pô, se tivesse que voltar o tempo, eu votaria nos anos 1970, 1980. Que foram as duas melhores décadas. A repressão, certo? Ela mexeu muito com a parte cultural, né, e a gente aproveitou bem isso. Os bailes, as músicas, o rock, entendeu? As festas, os porres... Então isso aí foi... As duas melhores décadas, realmente, sabe? Que eu peguei de 17 para frente. P/1- E como é que era essas festas? R- Aqui era formado o grupo de jovens, né? Por exemplo, na minha turma eram aproximadamente umas 50 pessoas, entre moças e rapazes. Então, se você convidava uma pessoa para um aniversário, você convidava 50 automaticamente. Isso era para velório, certo, missa, para casamento, qualquer festa e qualquer evento. E, quando não tinha algo assim, inventava aquelas festinhas americanas, sabe? Cada um levar alguma coisa, uma bebida, um prato, e a gente girava em torno disso. Tinha os bailes, em um clube aqui que era muito movimentado. E realmente foi ótimo. Se eu tivesse que voltar no tempo, eu voltaria exatamente nos anos 1970 e 1980. Apareceram os artistas Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil... Então você curtia aquilo ali, sabe? Eram algo assim espetacular. Aquilo lá realmente era cultura. Uma cultura musical. Hoje você não acha isso. É muito difícil, certo? P/1- E o espaço aqui da cidade? Mudou muito? R- Não. Não, não. Permaneceu. Acontece que... Por exemplo, da minha turma, a maioria foi embora. E não se renovou. Tem ruas aqui que tinham uma moçada legal, sabe? Hoje se passa e não foi renovado aquilo ali, sabe? Como aqui não tinha, na região não tinha faculdade, as pessoas tinham que sair para estudar. E já faziam a vida para lá. E só voltavam depois que estavam aposentados. Como vários amigos meus que estão aqui agora aposentados. P/1- E você sempre... R- E eu não consegui sair daqui. Sinceramente, eu não consegui. Primeiro que eu era filho único, e terminei o colegial, fiz vestibular, não passei e depois não quis mais saber. Aí só me preocupei em arrumar uma namorada, casar e me estabelecer. Hoje sou... Tenho um casamento de 30 anos, né, bem estruturado. Tenho três filhos. Duas filhas e um rapaz. A gente conseguiu formar a primeira, já formou. Os dois seguintes se formam esse ano. P/1- Você não gostaria de contar um pouco como é que foi ter três filhos aqui, um casamento. R- Foi muito gratificante, sabe, na verdade. Tem uma hora se para e se diz: "Puxa vida, preciso parar com tudo isso aqui, quero só cachaçar todo o final de semana", sabe? Era só porre para lá, porre para cá. E uma hora você pensa: "Puxa vida, eu preciso me estabelecer, né?" E realmente, eu conheci uma menina, certo? Começamos a namorar, namoramos quatro anos, casamos e, logicamente, tivemos três filhos, né? E, foi assim, gratificante, porque são pessoas boas e não tive trabalho nenhum. Não me preocupei com negócio de drogas, porque eles nunca foram usuários. Então, a gente conseguiu realmente formar uma família. Amigos, mesmo, sabe? E eu ainda os coloco no colo, converso. Sou bem requisitado por eles. Então, é muito bom isso. P/1- Obrigada por contar um pouco da sua vida para a gente. R- Eu que agradeço. ---FIM DA ENTREVISTA---
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