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História de: Priscilla Monteiro de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2021

Sinopse

Priscilla Monteiro de Andrade relembra das visitas que fazia à avó, na infância, onde comia muitas comidas típicas como o cuscuz e a macaxeira. Ela conta sobre a separação dos seus pais e a dificuldade de convívio com o padrasto, o que a levou a ir morar com seu pai, na Maré. Priscilla relata sobre sua vivência com o cristianismo, onde ela não se reconhecia, e como as religiões de matrizes africanas a ajudaram a se aceitar como era. Ela recorda também de como se deu seu envolvimento com o teatro, de como chegou a ser co-fundadora da “Cia Marginal”, de todas as questões e debates envolvidos na criação dos espetáculos e a reação dos diferentes públicos.  Priscilla narra, também, sobre o processo na faculdade de psicologia onde sofreu preconceito, e que seus estudos e a percepção da dura realidade que acometia as mulheres daquela região a fizeram co-criar um espaço de acolhimento para mulheres.

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História completa

Minha mãe começou a sentir dor de parto e meu pai não estava em casa, eu sei que ela fala que foi uma aventura, porque a gente pegou o ônibus que era antigamente o 724 que passa em Bonsucesso para saltar em São João de Meriti para poder pegar outro, ela atravessou a linha de trem, tinha que cortar caminho pela linha de trem, e ela fala que quando ela estava no ônibus tendo as dores da contração, as pessoas ficavam, “ah meu Deus, ela vai ter filho aqui”, e o motorista tentou ir o mais rápido possível, ficavam, “senta moça, senta aqui que é melhor”, então ela: “não sentar é pior, sentar é pior”, e ficava lá sentindo as dores e rezando, pedindo para que nada acontecesse comigo, teve todo esse caminho, todo esse trajeto e quando ela chegou lá na maternidade eu já estava coroando, eu já tava nascendo. Minha mãe é de Belém do Pará. Ela tem 05 irmãos, e a minha avó de descendência indígena e meu pai ele é nascido em Recife Paulista, ele é de lá, e meu avô ele também guarda essas características afro-indígenas.

Quem eu lembro mais é minha avó paterna, porque a gente foi alguns momentos para Recife, eu lembro que quando a gente chegava na casa dela lá no Nordeste e eu lembro que dava 06 horas da tarde, ela fazia um mesão, era muita comida, e aquilo ali era tipo um almoço e janta. A gente comia cuscuz amarelo, com carne seca, com queijo dentro que ela botava, aipim, peixe com coco que ela fazia, que eu adorava o peixe com o coco dela, enfim, muito suco de fruta

 

Os meus pais quando eles se conheceram, eles foram morar em Nova Brasília ali naqueles conjuntinhos lá no Complexo do Alemão, eu não cheguei a morar lá muito tempo, cheguei a morar até os 03, 04 anos quando eles se separaram, e aí eu fui morar 01 ano com meus irmãos e minha mãe lá em Belém do Pará

meu pai foi buscar a gente lá em Belém do Pará meio que arrependido, e quando a gente voltou, a gente não voltou para lá, a gente voltou para uma outra favela que é Vigário Geral, e lá eu passei uma parte da minha infância, dos 06 anos até os 08 mais ou menos que eu morei lá, mas não deu muito certo o retorno deles dois e eles se separaram definitivamente.

e meu pai foi morar no Conjunto Esperança e depois foi morar na Vila do João, e a gente já era um pouco grandinho, eu já era adolescente, tinha 14 anos.Minha mãe também casou de novo, e a relação com o padrasto não deu muito certo, e aí eu vim morar com meu pai aqui no Conjunto Esperança.

 

Lá em Vigário Geral, tinha uma amiguinha que ela tinha o cabelo bem crespo, e os meninos implicavam com ela, a gente parava de falar com os meninos. Comigo era mais a aparência mesmo, a boca, falavam “boca de cavalo”, essas coisas assim que geralmente acontece com as pessoas que parece mula, e aí lembrando de mulata, você vai entendendo porque os apelidos existem, e os apelidos racistas, quando a gente é criança dentro desse universo preto a gente não entende, a gente se chateia, mas a gente não entende que isso é racismo, quando a gente cresce, vai para o ambiente branco é que a gente percebe o quanto a gente é negado, o quanto a nossa presença incomoda nesse ambiente e tudo mais.

 

O trabalho com a arte vem junto com a saúde, quando eu comecei a fazer teatro foi em um projeto da Prefeitura da Secretaria Municipal de Saúde voltado para juventude, comecei como dinamizadora, depois virei monitora, depois virei professora de teatro, eu fui indo, e esse projeto tinha essa coisa do próprio jovem ser a pessoa que vai estar de frente com outro jovem educando, trazendo as questões, não é um outro adulto, ou uma pessoa mais velha que vai estar nesse diálogo, e nesse processo eu tinha psicólogos, vários profissionais e também teve a necessidade de chamar professores de teatro, porque como a gente tinha que falar, tinha que ter esse molejo, esse traquejo para falar com os jovens, trabalhar essa coisa da inibição.

A gente chegou a fazer uma turnê pela Maré, rodando nas 17 comunidades com um trabalho de rua que a gente montou que era muito interessante, falava sobre as questões mesmo de como é esse corpo, habitar esse lugar, esse espaço, e ao mesmo tempo como é que esse espaço é visto fora, as pequenas guerras, as guerras internas, como é que o Estado entra dentro do espaço, do território de favela e tudo mais, a guerra de você ocupar o seu próprio corpo e adentrar os outros espaços, “Você faz parte de uma guerra” o nome do trabalho, e foi quando a gente consolidou a companhia, a Cia Marginal. Nesse momento é que a gente pensa sobre o nome, a gente chegou a conversar sobre isso, do quanto o nome tem que falar sobre nós, o nosso trabalho ele fala sobre uma identidade nossa e quanto essa identidade ela está a margem, está de alguma forma excluída, e ao mesmo tempo, o quanto a gente também acaba preferindo estar nesse lugar ali meio da borda para poder conseguir fazer o que você quer, então esse debate ficou na minha cabeça, eu passando por aqui pela Brasil tinha um outdoor assim grandão, que era a Cia dos Ternos e aí eu imaginei o nome Cia Marginal  grande ali, Eu falei - esse nome eu acho que ele representa muito a gente, de como o nosso trabalho é a margem, ele está à margem, ele é marginalizado, então nós somos a Cia Marginal, aí todo mundo, “caramba esse nome mesmo” e ficou.

O nosso objetivo era poder ter um espaço de arte em que nós pudéssemos nos ver, e que as pessoas desse território também pudessem se ver, e que a gente pudesse levar isso para fora, “ó, a gente existe, a gente é cidade também, a gente ocupa também a cidade, a gente faz parte da cidade, a gente é Rio de Janeiro, a gente é Brasil, tudo isso aqui compõem esse lugar, e a gente também quer ser visto, ser falado e ser ouvido”. Então tinha esse norte assim. 

O teatro e a psicologia eram duas coisas que eu me identificava mais, e eu falei, bom, então eu vou para PUC, chegando lá foi bem assim, era engraçado porque quando eu entrei na sala, a sensação que me dava era que a qualquer momento o diretor ia bater na porta e falar levanta foi engano, porque eu não conseguia acreditar que eu tinha passado realmente

Depois da primeira prova que eu falei bom estou aqui, e eu lembro até que eu tirei uma nota altíssima em Filosofia,a Redes tinha uma parceria com a PUC e algumas pessoas já foram formadas por lá, mas eram 05 vagas, naquele ano era um ano que tinha uma leva muito grande, então a gente provocou uma coisa naquele lugar, e as pessoas achavam que a gente não ia conseguir passar, que a gente não era bom o suficiente.

Nessa mesma época que eu estava me formando, a gente estava recebendo várias, notícias de amigas que estavam passando por situações, de pessoas muito próximas que tinham sido morta, que tinha passado por violência muito pesada mesmo, e a gente pensava assim. Qual o espaço dentro do território que pode de fato acolher essas mulheres? Como é que essa pessoa que está passando por essa violência, ela é acolhida de fato? E a gente vê que as pessoas não se sentem seguras de fazer uma denúncia, ou de chegar no posto de saúde machucada, não se sentir segura de fazer esse tipo de coisa, e a gente começou a pensar que talvez seria interessante a gente ter um espaço que pudesse acolher nós mulheres, que fosse um espaço muito mais do que só pensar sobre a doença em si, mas de pensar nas potências. Que potência essa mulher carrega? Como é que a gente pode fortalecer isso para que ela se fortaleça e vá para o mundo, e vá ocupar o lugar que ela quer no mundo, não é um lugar que querem deixá-la, então Casulo vem desse lugar de você ter esse lugar de encontro, de segurança, de estar entre os seus, de estar trocando, de estar partilhando, compartilhando a sua experiência de ser mulher, na sua perspectiva, porque cada mulher é uma, do como é ser criança, como é ser mãe, como é ser mais velha, você vai compartilhando esse momento.

Quais são os grupos que são mais atingidos? Mulheres lésbicas, homens gays, trans, mulheres trans, homens trans, porque existe um padrão e um lugar de privilégio, e quem está nesse lugar é o homem hétero, é esse homem hétero branco, então quando você foge dessa regra, quando você não está nessa regra, quando você não se identifica com esse lugar você é passível, é um corpo matável, então eu posso fazer o que eu quiser com aquele corpo, eu posso estuprar, eu posso matar, eu posso xingar, fazer todas as violências, porque o corpo possível disso tudo. Quando a gente vê as diversas violências diariamente.

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