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História de: Rogéria Moreira de Ipanema
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Nesta entrevista, Rogéria nos conta um pouco sobre sua vivência no Rio de Janeiro, exprimindo suas sensações pelo espaço; lembrou-se do tempo em que visitava o Instituto de Comunicação Ipanema, junto a família. Contou também sobre um pouco de sua infância e adolescência, salientando toda a memória afetiva sobre o trabalho do pai.

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História completa

P/1- Boa tarde Rogéria. Eu gostaria de começar o seu depoimento, gostaria que você dissesse o seu nome completo, o local e a data de nascimento. 

 

R - Rogéria Moreira de Ipanema. Nasci no Rio de Janeiro em 23 de fevereiro de 1960. [risos]

 

P/1- Sobre seus pais. O nome completo e a origem dos pais?

 

R - Meus pais, sou filha dos historiadores, Marcelo Moreira de Ipanema e Cibele Moreira de Ipanema. Meu pai paulista e minha mãe nascida no Rio de Janeiro.  

 

P/1- Você nasceu em que bairro e onde foi criada?

 

R - Eu nasci em Copacabana, mas fui criada na Ilha do Governador. Tive uma rápida passagem no sítio onde meus pais logo que casaram foram morar. Quando todo mundo vinha morar no Rio de Janeiro, vinha para Copacabana, na época dos anos dourados, os anos 1950, e meus pais foram para um sítio sem luz, trabalhar e pesquisar, no Rio de Janeiro, mas moradores de um sítio. Então, o meu irmão mais velho tem uma passagem de 10 anos pelo sítio. Estudou com minha mãe no sitio e entrou pela primeira vez na escola já no ginásio. A primeira vez que foi. Sem luz, faziam de tudo. Inclusive a vida era rural, de melados, de farinhas e de uma produção realmente... Vegetais. 

 

P/1- Onde era o sítio?

 

R – Em Tinguá. Na serra do Tinguá, aqui no Estado do Rio de Janeiro. Quando eu nasci, dois anos eu passei lá e logo eles logo mudaram para a Ilha do Governador. Então, isso também é uma história que faz parte dessa grande história também de geo-ambientalista de papai, dessa ideia de pesquisa e noção de meio ambiente, e contato harmonioso com a Natureza. 

 

P/1- Em termos de formação profissional. Você estudou aonde? Sua graduação?

 

R - Eu tive a minha primeira... O fundamental era ginásio, na Ilha do Governador. Depois eu fiz científico na Tijuca e me formei na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Escola de Belas Artes. Sou formada em Gravura, e fiz uma carreira de Artista Plástica. Depois retornei para tirar o Mestrado e então me formei Mestre em História e Crítica de Arte, pela própria Escola de Belas Artes da Universidade Federal. Retornei, dei aulas há pouco tempo, e atualmente estou dando aula de Cultura Brasileira Contemporânea, na Faculdade de Comunicação aqui no Rio de Janeiro. Inclusive, deixa falar mais um intento de criação e idealização de Marcelo de Ipanema, que fez a primeira faculdade de Comunicação particular no Brasil.

 

P/1- Marcelo de Ipanema foi professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) também, de Comunicação. 

 

R - Também. Ele é que tinha dado a primeira partida, do primeiro curso de Jornalismo em 1949, na PUC do Rio de Janeiro. A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ele se aposentou pela Universidade Federal, na Escola de Comunicação, na ECO (Escola de Comunicação da UFRJ). 

 

P/1- Agora, seu elo aqui como o Casarão dos Prazeres- Rio de Janeiro. O que você se lembra de quando você vinha? Qual foi sua primeira impressão?

 

R - Era muito boa essa emoção. Eu vou falar paralelo porque o que está me voltando hoje... A minha volta aqui me faz retornar na memória o que foi e que foi muito. Eu me lembrei inclusive quando eles tinham acabado de adquirir a casa. Nós não conhecíamos. Eu vim. Eles tinham vindo com uma equipe de arquitetos. E tem uma curva aqui, que antecede a Almirante Alexandrino...Não tem uma curva? Bem próxima aqui à casa, que ao fazer a curva, você vê a casa bem solta no morro, um morrinho e ela ali toda soberana e eu me lembrei com mamãe agora. Falei: “Mamãe me lembro quando você me mostrou: Olha aquela casa. Você gosta dela?” Eu falei: ‘Eu gosto muito.”  E aí ela: “Pois é, a gente aí porque a gente vai fazer o ICI, o Instituto de Comunicação Ipanema.” Eu achei o máximo porque eu sempre gostei. Essa parte toda de história, mesmo que não tivesse – bom, influências teve claro – mas já era uma coisa também minha como a parte da Arte. A História da Arte, a Arte com a História, a História da Arte, eu fui por esse caminho. Eu já gostava muito, nesse tempo eu já fazia uma produção, começando meus bicos de pena, minhas aquarelas, e foi quando inclusive eu fiz um bico de pena de toda a fachada ainda com as árvores da época, daqui da casa, do ICI. A gente chamava mais de ICI, que era  o Instituto de Comunicação Ipanema. Esse negócio de ICI – “mamãe está no ICI” – assim nessa estrutura. 

 

P/1- E por que você estava “sentadinha” para fazer seu bico de pena?

 

R – Não, eu tirei da fotografia. Porque a fotografia foi muito privilegiada, muito ampla, e então eu fiz olhando a fotografia que eu tirei. O original meu foi a base da fotografia. 

 

P/1- Como é que você via esse projeto de seus pais? Como isso era falado na família, como é que seus irmãos...

 

R – Ah, todo mundo... Porque lá em casa todo mundo sempre participou muito da produção deles, em ajudar, em auxiliar, em datilografar. Meu pai escrevia tudo. Ele não era pessoa que ia para a máquina de escrever. Ele fazia toda a redação, toda a parte redacional dele, cartas, escritos, eram todas manuscritas. Isso passava para a máquina de datilografia e passavam pelas mãos dos meus irmãos, que datilografavam esses originais e eram corrigidas lá em casa. Sempre foi. Na casa da Ilha do Governador-Rio de Janeiro sempre foi essa roda viva, de papai produzindo muito. Mamãe também. Cibele produzia muito e não é à toa que hoje ela é... Uma carreira também que os dois fizeram em conjuntamente. Ela atual presidente do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, que eu sou a primeira secretária e essa produção toda sempre fez parte da nossa vida e até hoje. Agora nós estamos juntas no Instituto. Não são coincidências, mas as coisas foram cominando sozinhas. Claro, com bastante influencia, com bastante integração e base, mas não que tivesse sido uma coisa simplesmente buscada pela mão deles. Não. Eu fui me tornando artista, fazendo História da Arte e depois nos encontramos, nessa altura do campeonato.  Mamãe acabando na História, no Instituto. Então, essa parte toda, sempre fez parte da gente. A biblioteca – eles têm uma biblioteca muito grande, muito rica, especializada em História, Comunicação e Imprensa, da qual, a minha tese toda, toda a minha bibliografia, os 400 livros consultados saíram diretamente da biblioteca e dos jornais centenários. A minha produção é sobre a Caricatura na Imprensa, no século XIX. Nossos jornais humorísticos do Rio de Janeiro, da Corte, dos quais também temos os originais. Então foi uma pesquisa...Eu ( incompleto ) os jornais eram ilustrados pela gravura, do qual eu sou gravadora. Essa reunião toda na tese foi retirada essa para parte. Foram 672 páginas de dissertação. Já era um livro pronto. 

 

P/1- Era um doutorado. 

 

R - E em relação a essa...

 

P/1- Como é que era a sua memória de uma menina de 14 anos aqui? O que você se lembra? O que te marcava mais naquela época?

 

R - Eu me lembro de tudo. Os cursos que tinha. Quando eu podia, eu vinha. Às vezes acabava meus cursos lá na cidade, na Tijuca, no Centro e a gente vinha e se encontrava aqui depois. Papai tinha uma Kombi e a gente se reunia e descia. Eu me lembro. Vim visitar várias vezes. Eu me lembro completamente. Eu vim subindo Santa Teresa, falando nas coisas, a gente já veio rememorando a casa, as coisas. Eu gostava muito. Aquela escada da cozinha era a coisa que mais me apaixonava. Aquela escada maravilhosa. Estou mostrando para a minha filha agora, terceira geração que está vendo essa casa maravilhosa. 

 

P/1- O que você diz para a sua filha?

 

R - Eu falei... Desde ontem eu falei “Olha, a gente vai visitar uma casa linda que foi do papai, do vovô Marcelo e da vovó Belinha – que é assim que ela chama ela, a Cibele – e você vai gostar muito porque é um bairro lindo, Santa Teresa.” ‘Ah. Sim. A gente vai andar de “bodinho’?” Eu falei: “Não. Não. Dessa vez a gente não vai andar de bondinho.” Ela é uma que acompanha a gente como eu igualmente eu acompanhava meus pais.  Então toda a visitação a pontos turísticos, a pontos históricos, a museus, ela é igualmente... Eu tive essa mesma formação que eu estou passando para ela. E isso foi muito saudável e isso faz com que a gente tenha uma memória realmente o que lembrar, o que saudar dessa minha vida até hoje. E da casa também. Ela era branca, as janelas eram azuis, por fora, externamente. Teve algumas... Bastante aliás, modificações, com certeza também pelo estado em que talvez tenham encontrado a casa, bastante degradada. Porque ela realmente foi abandonada. Infelizmente ela não ficou mais nas nossas mãos, mas ela está linda. Eu fui lá fora agora, tirei fotos de todos os ângulos. As paisagens que daqui se vê – se via e se vê – o sótão, você abre uma janela e você vê o Pão de Açúcar. A outra, o Corcovado. Quer dizer, os pontos da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Daqui você vê a ponte Rio – Niterói, Niterói. Você vê o Rio de Janeiro todo. Isso era fascinante. Isso não esqueço. Trazia as minhas amigas aqui e as minhas amigas falavam: “A casa do pai da Rogéria, lá em Santa Teresa. Olha a casa. Vamos lá na casa.” Era uma casa que fascinava todo mundo. Era uma coisa... Até hoje. Ainda bem que teve um amparo da oficialidade, do Município, não? Fez essa parada no abandono e pelo contrário, agora a vontade é resgate. Parabéns.

 

P/1- Então, para a gente ir finalizando, o que você acha desse projeto de memória? O que achou de você dar um depoimento para esse projeto?

 

R - Completamente sincero, porque a intimidade que eu tenho com a casa, fiquei muito feliz de poder participar disso, porque é uma verdade, não é só um vislumbre de alguém que vê por fora, ou já viu por algum dia. Nós vimos internamente, e produzimos alguns assuntos aqui dentro. Quer dizer, meus pais, mas a intensidade, a gente o tempo todo vivendo. Então, o apoio que eu pude dar, eu só fico muito feliz e parabéns a vocês. 

 

P/1- Então Rogéria, muito obrigada pelo depoimento.

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