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História

Arrastada pelo idealismo

História de: Cybelle Moreira de Ipanema
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Professora, leciona por boa parte da vida. Forma-se em Geografia e História. Casa-se e com o marido desenvolve diversos trabalhos. Sonho de criar uma instituição de 3⁰ grau. Adquirem o casarão em Santa Tereza no Rio de Janeiro. Criam o Instituto de Comunicação Ipanema. Projeto não avança. Vendem o casarão Pesquisa na área da História da Comunicação na Imprensa.

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História completa

P/1- Boa tarde Cybelle. Eu gostaria de começar nosso depoimento pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R – Paula Ribeiro, muita satisfação de estar aqui podendo prestar depoimento em um trabalho tão importante que vocês estão realizando. Eu me chamo Cybelle Moreira de Ipanema, mas o nome de guerra, o nome literário, o nome com que eu apareço no Instituto Histórico, nos livros é só Cybelle de Ipanema. Eu fui casada, hoje estou viúva de Marcello Moreira de Ipanema. Depois nós podemos falar nele. Você quer saber onde eu nasci.  Eu sou carioca, carioquíssima da gema. Nasci no bairro de Cascadura em 18 de outubro de 1924.  Nasci na década de 1920, no século passado. Quer dizer que estou beirando os 80. Já estou com 77 e tenho muito orgulho disso. De até poder dar exemplo, de uma pessoa que já não é jovem, mas que tem uma atividade, uma preocupação, sobretudo. Quero justamente me engajar nesse projeto de vocês, de preservação da memória, que é o meu ofício, a minha atividade. 

 

P/1- Em termos de origem. A origem de seus pais. 

 

R – Os meus pais eram cariocas também, aliás, minha mãe era carioca e meu pai fluminense e nasceu em Maxambomba. É o nome primitivo de Nova Iguaçu. Eles eram filhos de europeus. A minha mãe era filha de italianos, pai e mãe italianos e meu pai era filho de italiana e francês.  Quer dizer que eu tenho assim uma tendência muito grande, mais voltada pra o francês do que para o italiano, embora tenha três avós italianos e apenas um francês. O meu nome primitivo de solteira era (Bouieu?). Cybelle (Bouieu?). Assim que eu fiz o curso no Instituto de Educação, Faculdade de Filosofia e depois então é que me casei e passei a Moreira de Ipanema, que era o sobrenome de Marcello. 

 

P/1- Em termos de formação profissional?

 

R - Já dei uma entradinha. Sou professora formada pelo Instituto de Educação, lecionei no curso primário nas escolas da Prefeitura do Distrito Federal, depois no Estado da Guanabara - ainda peguei o Estado da Guanabara – me aposentei e fiz o curso na Faculdade Nacional de Filosofia, então de professora secundária. Aí fui professora de escolas de ensino médio, também do Estado da Guanabara. Mas a nossa formação de professores formados pela faculdade, então aí a gente se mete em campo e vai fazer pesquisa. Eu e Marcello fomos da mesma turma. Nós fomos condiscípulos de faculdade. Fizemos Geografia e História e com isso nós nos metemos na pesquisa e nos tornamos historiadores por vocação e por opção, fazendo pesquisa no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional, em todos os locais onde houvesse fontes de referência para a recuperação da História do Brasil. Nos especializamos, nos dedicamos especialmente à História da Comunicação, sobre a qual nós temos muitos livros e muitos artigos publicados juntos. História da Comunicação da Imprensa. Ele é que me levou para esse interesse, porque desde muito jovenzinho pesquisava na Biblioteca Nacional, na seção de livros raros e jornais raros com interesse na imprensa. Então, ele é um pioneiro, inclusive, dos estudos de Imprensa e considerá-la como assunto e como uma possível fonte para a História. Uma coisa que demorou muito a se impregnar nas pessoas, de aceitarem a imprensa, o jornal, o depoimento jornalístico como fonte histórica. Ele foi um pioneiro. Hoje todo mundo aceita isso. Todo mundo ou grande parte pode até aceitar, mas no tempo em que ele levou isso, era uma coisa de estranhar. E ele então esteve desde jovem nisso. Nós estudamos juntos e eu fui arrastada pelo idealismo. Porque ele era realmente um idealista. Tudo o que fazia era com grande preocupação de acertar. Era um verdadeiro Quixote, lutando contra moinhos de vento. Era um idealista. Então ele foi um historiador e pesquisador, dentro exatamente da história da imprensa, da comunicação, da história fluminense. Na história fluminense e carioca também foi um grande defensor do patrimônio cultural e do meio ambiente. Um geoambientalista, no final da década de 1970 e na década de 1980, quando isso era quase que proibido. Proibia-se falar de meio ambiente, de defender a natureza. Ele foi daqueles primeiros, daqueles que entravam em riste, que combatiam as autoridades quando estavam derrubando imóveis, quando estavam permitindo devastação de zona florestal. Se prejudicasse a natureza, ele ia contra a autoridade, ele tinha princípios muito rígidos, um idealista absolutamente completo. Completo. Até hoje eu sou uma entusiasta, ele morreu há nove anos está fazendo agora este mês nove anos, mas a sua memória é muito forte. Demais. 

 

P/1- Em relação aqui ao casarão, Cybelle. Como é a história da família Moreira de Ipanema com essa casa? 

 

R – Exatamente, vivíamos dentro dessa vertente de idealismo. Ele idealizou, eu segui e nós trabalhamos juntos. Pretendíamos fazer uma instituição de terceiro grau. Fazer uma faculdade. Então estávamos procurando um local e procurando anúncios. Ele encontrou o anúncio desta casa, veio aqui ver, se encantou, depois eu vim. Realmente a casa é de espantar, é de agradar, ela é muito linda. Estava muito deteriorada. Foi na década de 1970. No início de 1974. Fim de 1973. Ela era ocupada pelos frades Dominicanos, que até faziam daquele salão lá de baixo um local de realização de missa. Tinha missa aos domingos, não sei se era permanente, todos os domingos. Enfim, alguma hora faziam, era lá embaixo. Botavam umas cadeiras e tinha missa. Eles recebiam também dominicanos jovens, estudantes. Então, esta casa era cheia de tabiques, como se fossem celas, para acomodar muito mais gente. Então nós compramos a casa assim, eles estavam saindo, foram lá para o Leme. Estavam saindo e anunciaram a casa. Já estavam anunciando havia muito tempo. Disseram que estavam anunciando há um ano e não conseguiam vender. Mas apareceu um idealista, Marcello de Ipanema, que resolveu que este era o local interessante e bom para se fazer o que pretendíamos. Não deu certo e não fizemos. Não fizemos, senão em parte, como eu vou lhe dizer. Mas então foi necessário fazer obras. Estava deteriorada e foi preciso demolir esses pequenos tabiques, essas divisões...

 

P/1- Era só aqui no segundo andar, ou embaixo também tinha?

 

R - Também. Mas era mais no segundo andar. Então você verá, eu tenho fotografias. Felizmente eu tenho fotografias que documentam essas obras, que nós fomos demolindo e transformando e pintando. Era muito alto e chegamos até a comprar uma escada de bombeiro para pintar lá fora, aquela extensão enorme, aquela altura enorme, com uma escada de bombeiro. Trouxemos profissionais, pedreiros e carpinteiros e fomos fazendo a reforma até que...se eu pedisse uma aguinha pra você?

 

P/1- Vamos dar uma paradinha. 

 

[pausa]

 

R – A casa esteve conosco mais dois anos, três anos, quatro anos... Até que vendemos. Então, praticamente desde essa época que eu não venho aqui. É um espaço muito grande e hoje vejo que a reforma ficou muito bonita. Felizmente a escadaria ainda é a mesma.  Monumental, suntuosa, que vai do primeiro para o segundo piso. Agora, uma grande modificação foi, quando você subia a escada e dava no patamar, você deparava com um vitrô maravilhoso, colorido, por onde você não via o exterior. Agora tem vidros transparentes. Vidros brancos, transparentes, se vê o exterior. Era um vitrô que pegava os dois andares.  Esse vitrô naturalmente deteriorou, não sei para onde foi. Era do nosso tempo, nós não mexemos, o encontramos e deixamos, como ele já existia anteriormente. Ele figura num filme que foi rodado aqui, do Ziembinski, Tio Maneco, O Caçador de Fantasmas, que tem em vídeo, acessível. Como vocês estão querendo uma documentação antiga da casa, vocês verão no filme com Flavio Migliaccio e (Paulo José?) e outros atores, que havia esse vitrô, que pegava os dois andares, e que não existe mais.  Então, a escada é uma recordação assim muito forte [risos] realmente. Outras coisas, claro que estão modificadas dentro do sentido de um melhor aproveitamento, tudo bem. Mas a gente observa que está diferente, inclusive aqui no segundo piso foi tirado uma parte que hoje está vazia, do primeiro pro segundo há um claro aqui. Quer dizer, tiraram o que seria o piso aqui e o teto lá de baixo. Há uma parte destruída, removida por alguma razão, não sei. O segundo piso era todo contínuo, não tinha essa abertura que tem hoje. E realmente, nós não pudemos, por circunstâncias várias, não conseguimos fazer essa instituição de terceiro grau, mas fizemos aqui um curso de arquivo. Um curso avulso de arquivo, com anúncios, com profissionais especializados, professores pesquisadores e paleógrafos. Fizemos um curso muito bom de arquivo, cuja inauguração também está documentada num álbum muito bonito, com umas fotos que vocês poderão ver, com a presença de grandes personalidades, de grandes intelectuais, que você vai ver daqui a pouco, quando você achar por bem. Quer dizer, fizemos um curso de arquivo, como tivemos também por cerca de um ano ou pouco mais, um segundo grau em convênio com o Colégio Jesus. O Colégio Jesus, aqui de Santa Teresa, um colégio de tradição, um colégio famoso, não me lembro bem a rua, aqui abaixo, que tinha um conceito muito grande como colégio de primeiro grau, mas eles não tinham muito espaço. Queriam fazer um segundo grau, sem possibilidade. Então, conveniamos e funcionou aqui. Vieram vários professores, vários alunos e funcionou um segundo grau. E nós botávamos até uma placa, tinha uma placa ali na subida, antes desse acesso, tinha uma placa em que nós botávamos mensalmente anunciando - Colégio Jesus – segundo grau. Que era aqui na rua...Av. Almirante Alexandrino 2800...Vocês não têm o número?

 

P/1- Não.

 

R – Posso até não me lembrar agora, mas tinha quatro algarismos. 

 

P/1- Como era o nome desse projeto de vocês?

 

R – Nós criamos para isso, nós criamos uma instituição chamada Instituto de Comunicação Ipanema, que era um idealismo de Marcello e de Cybelle e da família. Você terá a chance – minha filha está aí – a Rogéria de Ipanema, que hoje é artista plástica, também membro de institutos históricos como eu sou. E ela também – os meus filhos também - participava do projeto Instituto Ipanema. Então você falou agora e me aflorou a ideia de me caracterizar. Me formei em Geografia e História, sou uma historiadora e sou atualmente presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, que se dedica à história, à apresentação da História da Memória Carioca e Fluminense, quer dizer, da cidade do Rio de Janeiro e do estado do Rio de Janeiro. Eu sou a presidente. Também sou primeira secretária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que é o mais antigo do Brasil, foi fundado em 1838 desde então em funcionamento contínuo e ininterrupto. Então, dentro dessa nossa preocupação, é que nós tivemos vários cursos de terceiro grau, um curso universitário, seria voltado para a área de documentação. Sobretudo para a área de arquivo, área de biblioteca, para a área de museu, para a área de preservação da memória, que felizmente é o que vocês estão fazendo hoje, desenvolvendo o projeto. 

 

P//1 – E o nome Palácio das Vertentes?

 

R - Foi uma ideia de Marcello. Isso é um palácio. Ele está aqui nesse alto, num comorozinho, no alto aqui de uma colinazinha, ele dá acesso para o lado da zona sul, de Laranjeiras, do Cosme Velho, ele dá para o Centro, ele dá para o Rio Comprido, tem uma acessibilidade enorme, desde o centro, desde a zona sul e aqui do próprio miolo de Santa Teresa. Então, esse nome parece que era muito bonito, [risos] Palácio das Vertentes realmente não se registrou. Era mais assim consensual, de falar apenas entre nós. Palácio das Vertentes. 

 

P/1 – Mas vocês usavam esse nome?

 

R - Não. Talvez tenhamos posto em um anúncio, quando anunciamos o curso de arquivo. “No Palácio das Vertentes, na rua Almirante Alexandrino número tal...” Talvez. Pode ser até que sim. Mas não foi registrado nem coisa nenhuma. 

 

P/1- Cybelle, em relação à comunidade vizinha, havia algum tipo de relacionamento? Vocês tinham pessoas da comunidade que trabalhavam aqui? Ou na obra, trabalharam com vocês? Você tem essa memória?

 

R – Veja só. O acesso sempre foi por ali, pela rua Gomes Lopes que era de terra. E aquilo sempre foi uma servidão. Era um acesso e praticamente passava por dentro do terreno, aqui juntinho de onde estamos estacionando. Então era dentro da área. Sempre houve uma convivência tranquila, pacífica. Mas não que houvesse um relacionamento. Não tivemos, nenhuma pessoa de lá trabalhou aqui na obra. Realmente nós trouxemos nossos conhecidos, empregados porque nós também fizemos obras na nossa casa na Ilha do Governador. Nós moramos na Ilha do Governador, aliás, continuamos lá. Então só trouxemos profissionais de lá. Pedreiros, carpinteiros, serventes, tudo era gente que nós trazíamos. Realmente nunca ocupamos pessoas daqui. Mas era uma convivência tranquila. Não era essa evidentemente, mas tinha aqui uma pequena construção, onde havia moradores, um casal com uma filha com quem nós tínhamos um bom relacionamento. Mas eles não eram nossos empregados. Ele morava aí tranquilamente, continuou a morar. Todo o tempo que nós estivemos aqui continuou a morar, mas ele nunca foi nosso empregado. Nós nunca pagamos a ele para vigiar a casa, nem coisa nenhuma. Não foi nosso empregado. 

 

P/1- E sobre essa construção? Isso era uma casinha que havia na frente do Casarão? É isso?

 

R - Não. Era ali assim. A frente é aqui. Tinha uma placa, ela tinha assim uma lembrança de qualquer coisa, teria sido um núcleo comunitário, algo assim. Tinha um nome, ali, mas também nem funcionava. Estava ali uma placa digamos desativada, como tinha a casa do... Não me lembro bem – devia ser um nordestino que às vezes ia ao norte e gostava de trazer queijo de coalho [risos]. A primeira vez que eu vi queijo de coalho. Nós tínhamos um bom relacionamento, evidentemente, mas ele não era nosso empregado.  Como também na comunidade, embora toda essa passagem aqui, nunca houve um relacionamento nem no bom sentido, nem no mau sentido. Absolutamente, nunca houve divergência nem nada. Apenas eles passavam e sabiam que aqui tinha alguma atividade. Foi assim que funcionou. 

 

P/1- Mas vocês eram virados para a Almirante Alexandrino, não?

 

R - Sim. Então todo o acesso se fazia aqui. E há também na Almirante Alexandrino, uma entrada. Aliás, essa entrada nunca foi usada por nós. Nunca foi usada e estava lá. Era um portão de ferro. Nós sabemos que ali seria a entrada principal. Acredito que no tempo de antigos proprietários pudesse até ser ali. Depois é que seria aberta essa picada pelo lado de cá por ser mais fácil. Mas realmente nós também não usávamos a entrada da Almirante Alexandrino. 

 

P/1- Você falou que compraram dos Dominicanos. Você conhece um pouco a história do casarão antes do período dos Dominicanos?

 

R - Olha, o que nos constava era que fora de descendentes do Duque de Caxias. E que o seu período de construção teria sido a segunda metade do século XIX e talvez, como lembra a Rogéria, pelo estilo, pela decoração – ela agora está se recordando – olhando ali as janelas, talvez fosse do fim do século XIX. Tem mais de 100 anos evidentemente. É uma casa de mais de 100 anos de vida e que com ocupações sucessivas felizmente está de pé, é um prédio lindo, tem uma visão maravilhosa, está numa situação privilegiada e felizmente a autoridade pública, a prefeitura, resolveu assumir, reformou e botou sob a administração da Secretaria da Educação, e com a preocupação de fazer projetos que beneficiem a comunidade e que mostrem a presença da autoridade, isso tudo vem a ser um resgate da cidadania. De querer que as pessoas se interessem pelo seu local, se interessem pelo seu patrimônio, e se preocupem em conhecer, como você está querendo saber, o que havia antes. Quer dizer, aquela preocupação do regate da memória.  Assim que se construirá a história de uma região do município do Rio de Janeiro, da cidade maravilhosa. Onde nós, graças a Deus – você é carioca também?

 

R [entrevistador] - Sou carioca. 

 

R [entrevistada] - E ele também? De qualquer maneira, dos cariocas de nascimento e dos cariocas de adoção.

 

P/1 - Finalizando, você vinha com a sua família aqui? Quer dizer, era um ambiente de trabalho a princípio, de você e seu marido. Mas os filhos vinham quando eram pequenos? Você tem lembrança deles aqui?

 

R - Não, não, não. Não pequenos, porque a Rogéria nessa altura ela já era adolescente. Era uma adolescente de 14, 15 anos. E os outros eram mais velhos, e vinham, por exemplo, o segundo veio eventualmente, quando funcionou o curso de arquivo. Vinha vigiar o curso de noite.  Porque o curso era noturno, não cheguei a lhe dizer. O curso era noturno. O curso de arquivo era de noite. Então, o Marcos, que é o segundo filho, vinha aqui ajudar no funcionamento do curso. E o mais velho não mora aqui no Rio de Janeiro, mora em Manaus há muitos anos e não chegou a participar desse sonho. A Rogéria é que realmente participou, e se você quiser entrevistá-la, ela também tem memórias da casa.

 

P/1 – Então Cybelle, pra ir finalizando, uma pergunta que a gente faz a todos: o que você acha desse projeto de memória que está sendo desenvolvido? O que achou de dar o seu depoimento?

 

R - Sem dúvida, como acabei de dizer, eu sou presidente de Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e primeira secretária do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, o mais antigo do país. É claro que nós só temos que nos congratular com as pessoas, com as entidades que se voltam para os mesmos objetivos, que é um objetivo mais do que sadio, de recuperar a memória e a história de uma região. E ainda mais, se entrosando com a comunidade. Não querendo fazer uma coisa de torre de marfim, que até essa casa poderia se prestar. Está lá no alto, seria uma torre de marfim. Mas não é. Não é um projeto de torre de marfim. É um projeto de pé no chão e que vocês realizam, segundo o que eu sei do seu depoimento, que vocês realizam em contato com as pessoas. Realmente vocês, hoje, estão pegando depoimento de moradores, de pessoas que devem ter aquela satisfação de dizer alguma coisa em relação à vivência nesta casa. É obvio que eu elogio o trabalho de vocês, como fico muito satisfeita de ter podido colaborar e contribuir. 

 

P/1 – Então muito obrigada, eu agradeço o seu depoimento e agora vamos ver algumas fotografias. 

 

R - Aqui a casa tal como a encontramos. Vocês veem que está deteriorada, aqui cheia de mato, de vegetação abandonada. Estava deteriorada.  

Aqui vocês têm, como eu falei, modificações que nós fizemos, demolindo os pequenos cubículos. Aqui um aspecto da obra. Vocês identificam bem essas janelas que ainda estão aí, nesse mesmo estilo.  Aqui por exemplo, somos nós, conversando, agindo, trabalhando. Então vocês podem ver este, que é Marcello de Ipanema, meu marido. Eu estou aqui. Nós temos aqui o Dr. Lioberto de Castro Ferreira, ex-secretário de Turismo, foi secretário de Turismo do governo Lacerda, foi um grande batalhador pelo IV (?) Centenário do Rio de Janeiro, por todas as atividades que envolveram as comemorações em 1965. Era o Dr. Lioberto e essa é a senhora dele. Infelizmente já são falecidos. Esses outros são amigos nossos, esses falecidos também. E esses outros amigos nossos em um cômodo que já estivemos recordando. 

 

P/1 - No segundo andar?

 

R - No segundo andar. Isso aqui é no segundo andar. Agora aqui é uma foto da inauguração da reforma, já praticamente pronta. Da reforma aqui da presença do Instituto de Comunicação Ipanema, para a inauguração do curso. Vocês veem discursando Dr. Pedro Calmon, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Marcello de Ipanema, que era então o presidente do Instituto de Comunicação Ipanema. Dr. Celso Kelly, presidente da ABI [Associação Brasileira de Imprensa] e o Dr. Raul Lima, diretor do Arquivo Nacional. Todos grandes nomes da Documentação, da Cultura carioca e brasileira. 

 

P/1 – Em que ano?

 

R - Isso em 1974. E é da inauguração, como você verá também aí dentro do álbum. 

Aqui nós podemos mostrar já uma foto da casa restaurada, em mais bom estado do que estava em relação àquela primeira, em que vocês viam a parede deteriorada. 

Essa aqui é a frente. Aqui está a servidão. Pessoas passando aqui.  Esse caminho da rua Gomes Lopes, que era de terra. Dá bem pra documentar. 

Mais outra, mais perto aqui.

 

P/1- Tinha uma gruta aqui nesta casa? Você lembra?

 

R - Não, não tenho ideia. Agora aqui, por exemplo, aquele arco que dá para a escada. Então nós tivemos, como eu falei, o curso de arquivo, o segundo grau do colégio Jesus. Mas houve um período que nós alugamos a casa, quando não chegamos a fazer o terceiro grau, alugamos para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que fazia então a sua reunião semanal que é, por exemplo, como a missa dominical dos católicos. Eles fazem o culto aos sábados. Por isso é Igreja Adventista do Sétimo Dia. Então aos sábados eles tinham aqui uma grande frequência. Isto aqui são cadeiras também utilizadas pelos adventistas. E voltamos aqui à primitiva. Instituto de Comunicação Ipanema – Solenidade de inauguração - Rio 1974. E com aquela imagem que eu mostrei lá dentro, com Pedro Calmon, Marcello, Celso Kelly e Raul Lima. Aqui é Rogéria, minha filha, adolescente. Aqui eu no dia da inauguração. 

Agora aqui você tem estudiosos, membros do Instituto Histórico. O Fernando Monteiro, já falecido, o Orlando Fantamini (?), falecido, Herculano Gomes Martins que acabou de morrer agora no dia primeiro de janeiro, e esse aqui é o prof. Machado que, felizmente, ainda está vivo. Esse era o público que veio à inauguração. Vocês veem as colunas...

 

P/1- No térreo?

 

R – É. No térreo. É lá no salão. Aqui na mesma solenidade num outro momento. Aqui estou eu discursando. Ali é um pároco de uma igreja aqui de Santa Teresa, cujo nome não me lembro, Marcello de Ipanema e o historiador Hélio Silva.  Tanto Marcello como Hélio Silva, falecidos.    

Vocês veem aqui uma foto do dia da inauguração, noturna, a casa iluminada. E me lembro agora, coisa curiosa, me lembro do depoimento do Pedro Calmon, quando vinha subindo e viu a casa assim, disse: “Parece uma estrela se elevando.” Uma linda imagem. Calmon era um orador esplendoroso. Então disse assim, que parecia uma estrela se elevando. A casa iluminada aqui no alto.

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