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História

Arquiteto por formação, viajante por vocação

História de: Sérgio Teperman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/01/2020

Sinopse

Sérgio não sabe bem que influências recebeu para se tornar arquiteto. Sua mãe o queria médico como o pai. Teria se espelhado no primo distante que profissionalizou a arquitetura no Brasil? Seja como for, fez a FAU e lá teve o privilégio de aprender a partir dos melhores. Tornou-se um deles. Sempre em companhia dos maiores. Aqui e no exterior. Com bolsas que o levaram à Europa inteira, aos EUA. Voltou ao Brasil, seu escritório tornou-se conhecido o suficiente para ganhar dinheiro. Mas a saúde, às vezes, nos prega peças: um problema neurológico e dois infartos. Vieram as restrições: para dirigir, para andar de bicicleta, para cumprir o destino de viajante – acalenta o sonho de ainda conhecer a Patagônia.

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História completa

Nasci aqui mesmo em São Paulo, em abril de 1937. Já são, portanto, 82 anos de muitas histórias. A maioria, boas, devo admitir. Muitas viagens, muito trabalho, devo ter acompanhado o mais icônico da arquitetura brasileira. De perto. Filho e neto da tradição judaica, tenho ainda a filmagem de meu bar mitzvah, aos 13 anos. Mas nunca segui a religião. Só das festas maiores, obrigatórias, é que não escapei. Meu avô paterno fundou a sinagoga Beth El, hoje Museu Judaico. Aqui em São Paulo. A propósito, os avós maternos vieram da Rússia e os paternos, da Bessarábia, hoje Moldávia. Uma coisa curiosa: somente no enterro da minha mãe, descobri que ela era russa e que chegou à Argentina com seis meses. Sempre achei que ela fosse argentina.

Sempre fui bom aluno, o melhor da classe. Minha mãe queria, por toda força, que eu fosse médico. Como meu pai. Eu, de verdade, queria viajar, desbravar, meio aventureiro, uma espécie de Almir Klink. E depois, contar minhas proezas. Cruzar as montanhas e os mares dos lugares. Mas acabei arquiteto, talvez influência do contato com a monumentalidade de determinados prédios, e principalmente de uma presença próxima – Henrique Midlin, arquiteto conhecido e que profissionalizou a arquitetura no Brasil. Meu primo em terceiro grau. Fiz a FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, numa época em que aquilo lá era um sonho: 30 alunos por classe, quase um curso particular; Vilanova Artigas, e este nome diz tudo dentro da Arquitetura; Figueiredo Ferraz, calculista do Masp e prefeito da Capital; Anhaia Melo, urbanista; Vítor Melo, o brasileiro que reequilibrou a Torre de Pisa. No primeiro ano, tirei o quinto lugar em um concurso de arquitetura – eu e dois colegas. Enquanto isso, nas férias, eu ia para o Rio – casa de parentes – curtir o melhor da bossa-nova e outras coisas memoráveis: Orfeu do Carnaval, música de Tom e Vinícius, cenário de Niemeyer. Aí, terminei a Faculdade, fui trabalhar com Jorge Wilhem, o arquiteto mais conhecido de São Paulo na época. Porém, eu queria o meu próprio escritório. E obtive. Era pouco. Queria viajar: Europa, Estados Unidos... Só havia um jeito: tentar uma bolsa. Fui atrás. Ganhei uma da Olivetti. Estacionei minhas ambições e minha vontade de aprender – inclusive aprender a viver, conhecer, intercambiar culturas – a partir de Florença. Mas viajei a Europa inteira. Não conhecia fronteiras: Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Grécia, Israel, Turquia, Escandinávia, Finlândia. De quebra, Nova Iorque.

...Eu vi, no teatro, um show dos Beatles… Me custou quatro dólares.

Mas a história das bolsas, dentro da minha história, merece ser contada à parte: a da Itália rendeu um Fiat 500, tempo disponível para conhecer o país de ponta a ponta; as da Inglaterra e França, um ano acadêmico cada uma e, também a França eu pude conhecer inteirinha, “… Não tinha programa, não tinha um curso, fui visitar todos os castelos, até a arquitetura antiga”. Em algum momento, eu fui de trem para a Finlândia. De lá, através de uma Fundação vinculada à Unesco, eu fui trabalhar em Nova Iorque, simplesmente com um dos cinco arquitetos fundadores da Arquitetura Moderna, um cara super conhecido, inclusive como bom beberrão. Um cara que um dia confundiu quinze para meia-noite com nove horas da manhã, no relógio, e acordou todo mundo. Fiquei um ano e pouco na Finlândia, de qualquer maneira: um país onde as mulheres mandam e onde escurece às quatro da tarde. Aí, em outro momento, acabou a grana e eu voltei. Dividia um escritório com colegas, e também muito trabalho, muito esforço, muitos contatos, muita concorrência, uma entrega total e, aos poucos, algum resultado.

Aí, realmente, a gente ganhou dinheiro e se tornou conhecido.

Ocorreu, no entanto, de eu enfrentar, a partir de 2010, doenças sérias: ataxia cerebelar, que me desorientou completamente a ponto de ter sido encontrado nu na porta da geladeira; dois infartos. Pode-se dizer que estou recuperado, menos financeiramente. E proibido de dirigir e – o que é pior – andar de bicicleta. De tal forma, que não acalento, a essa altura do campeonato da existência, grandes sonhos. Mas um deles é conhecer a Patagônia. Um retorno, talvez, ao meu lado errante, aventureiro, viajante.

Acho que esse é um jeitinho de encerrar: um dos projetos muito bacanas, meus, é o velório do cemitério israelita.      


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