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Arborizando São Paulo

História de: Vicente Eugenio Tundisi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Em seu relato Vicente relembra a história de seus avós italianos e de seus pais, conta como foi morar em Atibaia até os 13 anos, sua vinda para São Paulo, como foi se casar e tornar-se pai. Fez engenharia agrônoma e conta como começou a trabalhar no ramo, muitas vezes com a sua mulher, sobre o seu intuito de melhorar o meio urbano e ter o próprio negócio em uma organização de manejo arbóreo em regiões urbanas. Em seu relato ele da ênfase na sua visão positiva sobre a cidade de São Paulo.

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História completa

P/1 - Vicente, a gente começa perguntando o seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Vicente Eugenio Tundisi. Eu nasci em São Paulo, no dia 10 de abril de 1957.

 

P/1 - A gente vai voltar um pouquinho e falar um pouco sobre o nome dos seus pais.

 

R - Meu pai se chamava (Carmino Biaggio) Tundisi, minha mãe (Teresinha Tiosso) Tundisi, os dois descendentes de italiano, por parte de pai e mãe. Então os meus avós, todos eles descendentes de italiano. Meu avô por parte de mãe é italiano, minha avó por parte de mãe é brasileira, mas filha de italianos. E meu pai é o contrário, minha avó por parte de pai é italiana, meu avô por parte de pai é brasileiro, mas filho de italianos.

 

P/1 - Então já que você voltou, eu queria voltar um pouquinho para essa história da Itália. Você conhece a história de como eles vieram, por que eles vieram? Conta um pouco.

R - Conheço razoavelmente bem. A família do meu pai, Tundisi, são de San Nicola Arcella, uma cidade da província de Cosenza e minha avó de Mormanno, uma cidade próxima a San Nicola. San Nicola é uma cidade litorânea. O meu avô, bisavô, veio naquele tempo que estavam imigrando os italianos, com a onda de imigração para a América do Sul. Falava América, não era Argentina, nem Brasil, falavam América. Isso eu soube porque a minha tia avó, irmã do meu avô - estive com ela na Itália visitando o pessoal - falava sobre isso, ela me chamou atenção para esse fato. Eles não eram lavradores lá, a maioria veio para trabalhar com café. Eram de uma família razoavelmente boa, mas tiveram um problema familiar e dois irmãos vieram para o Brasil, meu bisavô e o irmão dele. Na realidade foram para a Argentina viver como caixeiro-viajante, fazer negócios. Um deles foi para o Uruguai e meu bisavô veio para o Brasil. A família uruguaia cresceu, assim como a do Brasil. Hoje tem a cadeia Tundisi de farmácias, em Montevidéu, da família do meu tio avô... Tio bisavô. O meu bisavô veio para o Brasil, para uma cidade pequena, Mineiros do Tietê. Hoje já é uma cidade muito pequena, imagina há quase cem anos atrás. Comerciante nato, começou a vida, fez fortuna, foi para a Itália, casou com uma italiana - como na época se fazia - ninguém casava com brasileiras, e brasileiras não se casavam com imigrantes. Ganhou mais dinheiro, mudou-se para Piracicaba, expandiu os negócios. Minha avó me contava, a nora dele, que ele era o comprador do Matarazzo de algodão na região. A região de Piracicaba, próximo ali de Americana... Santa Bárbara na época, Americana não existia, era uma grande região de produção de algodão. E ele, como bom negociante, amigo dos Matarazzos, era o comprador. Ele carregava os vagões da Paulista. Em Piracicaba tem a Sorocabana e a Paulista. A Paulista ficava na região mais alta da cidade. Eles moravam na Rua Governador Valadares, uma das principais ruas. A minha avó contava que quando era época de embarcar o algodão, fechava praticamente toda a rua só com o embarque do algodão. Esses fatos que eram interessantes, que me chamaram a atenção. Eram bem de vida, a ponto de irem para a Itália quase todo ano. Imagina só, nessa época, alguém poder sustentar uma viagem para a Itália, a ponto dele ter quatro filhas mulheres e quatro homens. Eram oito filhos no total. Todas as mulheres ficaram na Itália com a mãe, sendo cuidadas pela mãe, e ele com os homens, aqui no Brasil, tocando os negócios. A vida deles era a Itália e o Brasil, o Brasil e a Itália, como hoje os empresários fazem nas suas atividades. Era uma família bem situada. Meu pai nasceu em 28, foi para a Itália em 29. Nós temos uma foto até, deles no navio e tudo o mais. Então, uma família bem situada. Mas, como muitas famílias, o pessoal fala: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. A história também foi assim com a nossa família. Meu bisavô, rico, voltou para a Itália, deixou os negócios com os filhos. Os filhos não souberam administrar como deveria, perdeu fortuna, vieram para São Paulo, para morar em São Paulo. Um fato interessante é que o meu avô casou com a minha avó por indicação do irmão dele. O irmão dele foi para a Itália, casar com a minha tia avó. Quando voltou, falou: “Olha...”, para o meu avô, “Ela tem uma irmã muito bonita, está já na idade.” A idade de casamento era 15, 16, 17 anos. Minha avó casou com 17 anos. Meu avô simpatizou, trouxe uma foto, gostou, trocaram cartas, foi lá e casou com a minha avó. Naquele tempo, casamento de interesse, neste aspecto, também era forte. Minha avó descendia de uma família também nobre, de nobreza, porque o pai dela era Conde. A família do meu avô, Tundisi, não era nobre, eram ricos comerciantes, mas a minha avó era [de] uma família nobre, só que sem dinheiro. O pai tinha falecido. [Haviam] interesses também financeiros nessa jogada, interessava para a família dela ter uma ligação com alguém de posses. Então ela casou. Veio com 17 anos para o Brasil, naquele tempo, morar em Piracicaba. Eles foram morar juntos. Eu me lembrei disso pelo fato de que eram uma família muito unida, tanto meu avô com o irmão dele como minha avó com a irmã dela. Eles foram praticamente morar todo o tempo juntos. Casas geminadas em Piracicaba, depois foram morar na fazenda, mesma fazenda, vieram para São Paulo, moraram juntos. Isso criou, entre os filhos, meu pai, meu tio, e os primos, os primos filhos dos tios, uma união muito grande. Foi um ponto muito importante em toda a história da minha família. Então, uma família típica de italianos, com toda a sonoridade dos italianos e com toda a emoção inerente dos italianos. Vieram para São Paulo quando as coisas não estavam indo muito bem, e aí começou a história em São Paulo. Meu pai veio com em torno de uns dez anos, e fez o estudo em São Paulo, fez Filosofia Portuguesa e Filosofia na USP. Escolheu São Manoel para lecionar. Porque naquele tempo fazia o concurso, hoje em dia também é assim, mas teve oportunidade de ir para São Manoel. Casou com a minha mãe, e mudaram para Atibaia, porque ele não queria ficar longe dos pais, queria ficar perto. Mas não queria ficar em São Paulo. Ele achava a cidade muito agitada, Atibaia é uma cidade próxima a São Paulo e achava que era melhor para cuidar dos filhos. Então foram para Atibaia. Eu nasci em São Paulo, morei até os 13 anos [em Atibaia], meus pais sempre moraram lá. Meu pai faleceu. Sempre morando em Atibaia, nunca saiu de lá. Minha mãe continuou em Atibaia. E eu, aos 13 anos, vim para São Paulo, para estudar, fazer o colégio. Atibaia tinha o colegial, mas meu pai tinha família em São Paulo, tinha os irmãos, eu vim morar com meu tio, aqui em São Paulo.

 

P/1 - Vicente, posso só interromper um segundinho, só para a gente parar nesse ponto aqui, porque a gente vai pegar um monte de coisa que passou, da infância, e tal, que me deixou curioso. Uma delas bem pontual. O nome dos seus avós, que você falou tanto deles. Qual o nome deles quatro?

 

R - O meu avô se chamava Vicente. O meu nome é Vicente também em função de homenagem a ele. Ele faleceu 20 dias antes deu nascer. Eu levo o nome do meu avô paterno, e avô materno, Vicente Eugenio. Meu avô materno é Eugenio. A minha avó, a gente chamava ela de (Cisira?)... Uma coisa interessante também, eu nunca soube a razão, mas o nome (Cisira?) era o nome da irmã dela que faleceu. O nome dela era (Ester Nery) todo mundo chamava de (Esterina?), mas todo mundo tratava como (Cisira?), que era o nome de uma irmã que tinha falecido pequena. São umas coisas que vão ficando. O nome do meu avô por parte de mãe é Eugenio e o nome da avó é (Nicola?).

 

P/1 - Você conhece a história dos seus pais? Como eles se conhecem, enfim, o casamento deles, você conhece essa história, para eles se juntarem?

 

R - Estamos voltando à questão de São Manuel, dos meus pais. Meu pai se formou em Letras e Filosofia pela USP, foi dar aula em um colégio lá em São Manuel. Ele era professor, minha mãe... Devia ter o quê? Uns 22 anos. Se formou com 21... 22, 23 anos, coisa assim. Minha mãe é três, quatro anos mais nova que ele. Se conheceram no meio estudantil. Eles se casaram e em 55 se mudaram para Atibaia. Se você me permite voltar um pouco à história do meu avô por parte de mãe, também é uma história interessante. Se eu começar a ficar... Se o assunto não for interessante vocês me interrompam.

 

P/1 - Não, pode ficar à vontade.

 

R - Meu avô por parte de mãe é descendente de uma família italiana que veio de Murano, próximo a Veneza. Esses migraram por necessidade. E ele era, para vocês fazerem uma idéia, mergulhador em Veneza, buscava moedas dos turistas que jogavam no mar. Ele trabalhava para uma empresa de recolhimento dessas moedas. Acho que era uma empresa que funcionava para a cidade, limpeza. E ele mergulhava. Ele tinha um físico muito avantajado, tinha um bom fôlego e ele era um dos mergulhadores. Então uma família bem simples. O pai dele imigrou para o Brasil. Bom, ele era analfabeto, mas era bem apessoado e gostou da minha avó. Só que minha avó era de uma família muito tradicional de São Manuel. Muito rica, uma das mais ricas. E obviamente a família não queria que ela se casasse com um italiano, mesmo sendo italiano, um italiano pobre, analfabeto, e com poucas perspectivas de vida. Mandou ela para a Itália, para ela estudar lá, para ver se esquecia o meu avô. Quando ela voltou, meu avô ficou sabendo, já tinha ganhado dinheiro. Ele começou a fazer dinheiro com tropa, era tropeiro naquele tempo. Isso no século passado. Já tinha um certo recurso. Ele estava esperando ela na Estação Ferroviária de São Manuel. Quando eles se viram, ela perguntou para ele: “Você não está casado?” “Não. Nem você?” “Também não.” “Então está bom”. Fugiram, casaram e foi tão trágico o negócio porque ele tomou um tiro pelas costas do cunhado dele. O negócio foi muito dramático. Mas ele enriqueceu. E chegou um ponto...

 

P/1 - Mas ele não morreu? Ele tomou um tiro...

 

R - Sobreviveu ao tiro. Morreu com cento e tantos anos. Mas ele fez fortuna, fez dinheiro, com tropa, movimentação de animais, a ponto de ser a maior liquidez na cidade. A cidade de São Manuel é uma cidade de fazendeiros. __________________. Mas o pessoal da fazenda não tinha liquidez na época. Quando dava baixa do café, ou coisa assim, era ele que bancava, emprestava para as pessoas e para os amigos. Então, fez fortuna por conta própria. Mais do que os familiares da minha avó. É uma passagem interessante também. Bom, meu pai então conheceu minha mãe, se casaram lá em São Manuel, mas veio para Atibaia. Escolheram Atibaia, ele foi dar aula em Atibaia.

 

P/1 - E sua mãe...?

 

R - Minha mãe é professora primária, exatamente. Se formou... Como é que fala, na época? Tem um termo para professora primária. Me fugiu o nome. Bom, não é curso superior. Hoje eles ____ curso superior para dar aula.

 

P/1 - Magistério?

 

R - Magistério. O Normal, fez o Normal, veio dar aula também em Atibaia. Ela dava aula no Grupo Escolar, meu pai dava aula no Ginásio. Fizeram a vida em Atibaia. Meu pai, ele tem uma oratória muito boa, se candidatou por indicação das pessoas de Atibaia para ser vereador. Acabou sendo... Não foi eleito na primeira, mas na segunda foi eleito, na segunda vez que ele se candidatou foi o mais votado. Foi o presidente da Câmara de Atibaia e no ano que ele ia ser candidato a prefeito, provavelmente ia ganhar, ele foi cassado. Ele era líder nato. Nunca se meteu com terrorismo, isso aí não, nunca teve isso aí. Mas ele era contra a ditadura e externava todos os pensamentos dele. Por conta disso, ele foi uma das poucas pessoas no Brasil a perder emprego como funcionário público. Ele foi aposentado. E foi preso, ficou seis meses em Perdões, preso. Isso foi em 68. Eu tinha onze anos, dez anos. Me lembro que eu ia visitá-lo em Perdões. Perdões é uma cidade próxima a Atibaia. Dá uns dez, quinze quilômetros. Eu ia todo final de semana visitá-lo lá em Perdões. Mas era uma prisão diferente, porque como meu pai era uma pessoa com uma boa presença na cidade, ele era talvez um dos homens mais cultos da cidade, todo mundo o conhecia. Então tinha um respeito. O delegado da Prefeitura de Perdões... Era ele e mais uma turma que foram presos. Era quase que uma colônia de férias, porque ninguém fechava a cela de ninguém e entre eles tinha o cozinheiro, um outro era outra atividade, um era músico. Aquilo lá acabava sendo uma colônia de férias. E o pessoal ia visitar. Eu ia lá. Tudo solto. Mas não podia sair da cidade, fizeram um compromisso com o delegado. Ninguém saia daqui, mas também ninguém prendia ninguém ali.

 

P/1 - Antes da gente voltar um pouco, como foi este momento da sua mãe, de falar: “Seu pai foi preso”. Como foi isso daí?

 

R - Eu sempre participei de toda atividade. Atibaia é um cidade pequena, você acaba convivendo sempre com toda a situação política. Eu participava dos comícios, era pequeno, mas ia junto, aquela coisa toda. É óbvio que eu não entendia a dimensão da situação. Mas meu pai, antes dele ser preso efetivamente, ele por várias vezes foi chamado a Jundiaí, no quartel de Jundiaí, para aquelas sessões de... Não de tortura, porque ele nunca foi torturado, isso ele me falou, mas sessões de perguntas. Ele e mais a turma de política dele. Então isso eu acompanhava. Virava e mexia, ele era convidado... Convidado daquela forma, fechava o quarteirão, com gente na rua, cercava, gente nos fundos da casa. Um absurdo. Minha mãe chamava: “Entra aqui, ele está chegando da rua. Tomem café.” E tal. Só uma vez que ele... Ele nunca teve receio, só uma vez que ele falou: “Não sei se eu volto. A situação está ficando complicada”. Era uma Páscoa, nós vínhamos para São Paulo. Nós tínhamos muita ligação, toda vez nós estávamos em São Paulo. Minha ligação com São Paulo começa nesses momentos. Vinha muito para São Paulo. Porque a família italiana - aquela coisa toda - minha avó morava em São Paulo com meu tio. Virava e mexia estávamos em todas as festas em São Paulo. Era uma Páscoa, e eles vieram, acho que era uma sexta-feira, ou coisa assim, nós estávamos com viagem marcada para São Paulo. Acabou ficando quase uma semana. Foi a única vez que eu vi ele preocupado. Senti isso no ar. Porque eles chegavam, a gente acordava à noite, chegavam à noite normalmente. A gente acompanhava um pouco isso daí. Mas a minha mãe soube cuidar dessa... Eu nunca vi ela desesperada. Devia ficar, né? Mas eu nunca vi, assim, perder o controle. Isso pra gente dava uma certa estabilidade. Se ela não perdia o controle é porque estava sob domínio as coisas. Isso ajudou muito. Então essa fase que ele ficou preso... Depois ele ficou preso, aquela coisa toda. A gente ia visitar e a minha mãe sempre controlou isso daí, soube controlar. Se ela ficou [desesperada], realmente soube não demonstrar.

 

P/1 - E eram quantos irmãos?

 

R - Eu e mais um.

 

P/1 - Mais velho ou mais novo?

 

R - Mais novo. Eu tive outro irmão, mas faleceu ao nascer.

 

P/1 - Queria voltar nessa parte, então, de Atibaia. Você nasceu em São Paulo, mas foi para Atibaia passar a infância lá. Como era Atibaia nessa época?

 

R - Atibaia, como toda cidade de interior pequena, era muito acanhada naquele tempo, 30 mil habitantes. Meu pai, quando se mudou, tinha uns 10 mil. 30 anos depois tinha o quê? Uns 30 mil. Então a vida era muito rotineira. Meu pai era também presidente do clube. No clube ele construiu uma piscina. Ele gostava muito de esporte. Ele tinha uma ligação muito grande com a juventude, toda a vida. Eram aqueles jogos abertos no interior e ele que organizava a comitiva de Atibaia. Ele tinha... A convivência com a juventude era muito forte. Aquela cineasta japonesa, vocês estão ligados mais na área, o cameraman lá...  Tizuka [Yamasaki].

É, Tizuka Yamasaki. Ela foi aluna do meu pai. Ela cita ele como o professor que mais a influenciou. Porque ele, durante as aulas, fora, [nas] atividade extracurricular, ele chamava os alunos para uma discussão política. Quer dizer, fugir do dia a dia: “Vamos discutir a realidade política, o que cada um acha...” Não com o sentido de criar movimento, mas no sentido de discutir mesmo. Então ela cita esse fato. Ela foi uma das alunas dele. Isso para ele sempre foi um motivo de muito orgulho. Bom, então essa era a nossa vida. A gente ia para o clube, ia para a escola, clube, escola. Eu sempre achei muito boring - por isso minha vinda aqui para São Paulo - mas era interessante ao mesmo tempo. Porque a cidade [era] fácil, você andava pela cidade, conhecia todo mundo. Era nesse aspecto interessante. Mas uma cidade pequena, com todas as vantagens e desvantagens de uma cidade pequena.

 

P/1 - E as brincadeiras quais eram?

 

R - Era... Como tínhamos o clube, era... Eu praticava esporte, natação. Então ia para o clube, ficava lá treinando natação, voleibol. Tinham os bailinhos que a gente participava. E era essa vida. Vida de cidade de interior, você tinha liberdade completa. Tinha bicicleta, andava para baixo e para cima o dia inteiro com a bicicleta, corria pela cidade. Era divertido por isso. Você conhecia todo mundo, estava na casa de todo mundo. Pelo conhecimento que meu pai tinha, a gente conhecia as pessoas com muita intimidade. O meu pai, como eu falei, era uma pessoa muito benquista. Era uma coisa interessante. Lá tem muito japonês. A Tizuka era japonesa. Era interessante porque os japoneses idolatravam o meu pai. Porque, como professor de português, a grande maioria da geração do meu pai são japoneses mesmo. Mas eles enxergavam a necessidade de ensinar para o filho português, porque estavam vivendo num país que fala português, eles têm que saber falar. Não como eu falo. Então, eles consideravam o meu pai uma pessoa muito importante para eles, para a família deles. Em todas as festas de japoneses, todas, sem exceção, a gente era convidado. E era divertido, porque eu gostava de comida japonesa. Acho que eu era o único de Atibaia, ocidental, que gostava de comida japonesa (riso), eu me divertia com aquilo lá. Gostava do convívio com os japoneses. Jogava beisebol com eles, eu era o único brasileiro que jogava beisebol. Convivia no meio deles também. Eu circulava por todo mundo lá em Atibaia. Isso era divertido.

 

P/1 - E com o seu irmão, como era o convívio com ele? O irmão mais novo.

 

R - O irmão mais novo... Tem uma diferença de um ano e meio. Isso é relativamente grande nessa fase da infância. Ele tinha a turminha dele e eu tinha a minha turma. Como eu vim para São Paulo com 13 anos, naquele momento que você começa a se aproximar mais, os irmãos, as idades começam a ficar mais próximas na parte intelectual, eu me afastei, porque eu vim para São Paulo, passei três anos, meu irmão também saiu de Atibaia, veio para a Escola Técnica em São Paulo. Me afastei, saí de casa. Saí de casa com 13 anos, nunca mais voltei. Claro que voltava no final de semana, aquela coisa toda, mas não para o convívio de casa.

 

P/1 - Ainda no convívio familiar, as comidas provavelmente eram italianas, todas. Como é que era?

 

R - Era interessante, porque minha avó... Meu avô faleceu, como eu falei, 20 dias antes deu nascer. Então a minha avó praticamente morava em São Paulo com o meu tio, mas passava um tempo em Atibaia, um tempo em São Paulo. Depois de um tempo, ela se mudou para Atibaia, ficou lá em casa. A gente falava, até brincava, que o arroz e feijão da minha avó italiana era melhor que o da minha mãe brasileira. E o macarrão da minha mãe era melhor que o da minha avó italiana (riso). A gente brincava. Mas eu fui criado no dia a dia pela minha avó, propriamente dito. Minha mãe dava aula. O convívio foi com a minha avó, nessa fase de infância mesmo. Minha mãe dava aula, mas era uma pessoa presente também.

 

P/1 - Mas sua avó era melhor de comida brasileira? De arroz e feijão...? (riso)

 

R - A gente brincava, mas as duas cozinhavam. Nunca senti ciúme entre elas. Minha avó sabia conduzir, minha mãe também. Minha mãe era bem flexível, sabia conduzir isso daí. Minha avó era muito... Personalidade forte. Então minha mãe sabia conduzir. Ela soube conduzir isso aí. Eu nunca vi atrito entre elas. Tanto é que minha mãe cuidou da minha avó até o falecimento dela, que morreu com 97 anos. Praticamente minha mãe que cuidou dela.

 

P/1 - E Vicente, antes da vinda para São Paulo definitiva, teve algumas vindas, né? O que representava para você essa vinda para São Paulo?

 

R - Exatamente esses momentos para mim eram de muita ansiedade. Eu sempre enxergava São Paulo como uma cidade maravilhosa. Todas as festas foram em São Paulo. Natal, Páscoa, aniversário, a gente vinha para São Paulo. Sempre vinha com ansiedade, porque eu comecei a enxergar São Paulo como uma cidade diferente de tudo que eu conhecia. Tinham os bondes, quando eu era pequeno. Me lembro de uma passagem que nunca me foge. Na avenida Matarazzo ali, na Água Branca... Meu tio era agrônomo - o primo do meu pai, a gente falava “tio”. Eu acabei me espelhando nele para a minha carreira. Ele ficava ali na Água Branca. Ele era do Instituto de Zootecnia. O pai dele era velhinho, ia visitá-lo de vez em quando. Eu saía com ele para passear. Tinha, sei lá, cinco, seis anos. A gente circulava por ali. Até hoje quando eu passo lá eu me lembro. São as mesmas instalações da minha infância, só que na minha infância passava os bondes, e a gente andava de bonde. O Mercado Municipal... Achava aquilo lá uma coisa maravilhosa, a arquitetura, de pequeno já me atraía. Até a ponto de hoje, ainda, quando eu estou ali, eu paro e entro lá, para olhar, apreciar o Mercado. São Paulo sempre foi uma cidade atraente para mim. Então eu vinha com muita vontade. Para mim não era nenhum sacrifício pegar ônibus, não tinha carro naquele tempo. Ir para São Paulo, aí troca, pega outro ônibus, até chegar nas casas, aquela coisa toda. Eu ia com facilidade.

 

P/1 - E com 13 anos você veio terminar o colégio, e você veio morar aonde em São Paulo?

 

R - Eu morava com o meu tio, irmão do meu pai.

 

P/1 - Conta um pouco esse processo de vir para cá, dessa mudança.

 

R - Como eu falei, nós éramos muito ligados, a família toda era muito ligada. Meu tio tinha três filhos, dois homens e uma menina, também praticamente irmãos nossos. Eles iam para Atibaia, passavam férias, eu ia para São Paulo, passava férias. Até hoje nos consideramos irmãos, praticamente. Nós tínhamos um convívio muito próximo. Eu vim para a casa dele, ficar com ele esse período de três anos de colégio. E a vida lá era como se fosse a minha casa.

 

P/1 - Onde que era? Qual bairro que era?

 

R - Era Higienópolis. Avenida Higienópolis.

 

P/1 - E qual colégio você foi?

 

R - Colégio Objetivo, que era na Paulista. Era próximo até, então para mim era bem prático.

 

P/1 - E como era a sensação de você morar em São Paulo? O que você via de diferente?

 

R - Para mim não era nenhum drama vir para São Paulo. Enquanto a grande maioria, muitos colegas meus, amigos, vieram para Atibaia, não aguentaram uma semana. Saudade da mãe, do pai, de quem quer que seja. Eu vim para São Paulo sem nenhuma dificuldade. Eu sempre fui... Nós em casa, éramos pessoas independentes. Meu pai sempre nos criou assim. Tem uma passagem interessante. Ele vinha para São Paulo, já tinha carro, teve uma vez, acho que eu tinha 11 anos, uma coisa assim. Ele falou para mim... Me deixou na Praça da República, falou: “Você vai para a casa do teu tio a pé”. Eu nunca tinha andado em São Paulo, só em Atibaia. Você vai, é fácil. Da Praça da República até Higienópolis são três ruas ali, você chega. Imagina, com dez anos, onze anos, minha mulher fala que meu pai era louco. Podia ser também. Mas ele me soltou na Praça da República, e eu peguei, soltei. Para mim aquilo lá era um divertimento, na verdade. Cheguei lá sem problema. Tem uma outra passagem que mostra um pouco dessa independência. Uma vez nós fizemos uma excursão até Porto Alegre. Meu primo, que eu morei com ele, tinha onze anos, eu tinha dez, meu irmão nove e meu outro primo oito. A minha ideia era viajar de trem. O trem já não era hábito naquele tempo. Eu ainda peguei, no meu tempo, a Maria Fumaça de Atibaia, Bragantina. Na época... Não sei se vocês chegaram a ler sobre isso... Tinha a Santos-Jundiaí, e um dos ramais... Ela passava em Campo Limpo e um dos ramais era Bragantina, que ia até Bragança. [Havia] outro ramal, Atibaia-Piracaia. Então, lá atrás era um meio de comunicação para Atibaia. Eu cheguei, na minha infância, a andar de trem, Maria Fumaça, até Campo Limpo, e em Campo Limpo a gente pegava o trem para São Paulo. Teve uma época que nós fomos para Santos, em um Jogos Abertos no interior, de trem. Levamos acho que umas oito horas para chegar em Santos. Saímos de Atibaia com aquele grupo todo do Ginásio lá da escola. Bom, eu queria ir para Porto Alegre de trem. Fiz todo o trajeto. Íamos nós quatro. Não fomos de trem porque descobrimos que ia demorar muito tempo, mas imagina quatro crianças viajando sozinhas, e os pais deixaram. Minha mãe acho que não deixaria, mas meu pai falou: “Vai. Vocês tem condição de fazer a vida sozinhos”. Sempre fui uma pessoa independente. E isso, para mim nunca foi um trauma sair de casa. Então vim para São Paulo, e estudando no Objetivo, meu pai - quando teve esse problema político - teve que achar alguma coisa para fazer na vida. Perdeu o emprego. Ele tinha amigos, um amigo falou para ele: “Olha, vem, tem um terreno aqui, vamos lotear isso aqui, e fazer negócio.” E ele fez, se deu bem nisso daí. Vendeu muitos terrenos em Atibaia para vir para São Paulo. Atibaia sempre foi colônia de férias de paulistano. E, para eu ganhar um trocadinho, ele falava: “Olha, esse grupo aqui você vai receber, prestação.” Eu andava por São Paulo inteirinho, de ônibus, acabei conhecendo muito de São Paulo. Viajando Belenzinho, Lapa, Santo Amaro. Uma coincidência também, eu ia receber um cliente do meu pai numa rua que era ao lado da rua que foi da minha futura... Da rua que veio a morar a minha futura esposa. Coisa interessante. Depois que, evidentemente, a gente identificou isso. Eu rodava São Paulo inteirinho. Aprendi a andar em São Paulo. Quando se fala, ________ São Paulo, _______ para mim sempre foi muito fácil, porque eu acabei sendo forçado a conhecer São Paulo.

 

P/1 - E tem, desse período de andar de ônibus, alguma ou algumas histórias marcante, que você fala: “Nossa, essa foi um grande caso para contar”?

 

R - Não... Não era fácil. Eu saía depois do Colégio, e tinha um roteiro. Saía à uma hora da escola, uma coisa assim, chegava na minha casa nove horas da noite. Andando e cobrando as pessoas. É como eu falei, o que era interessante era que eu ia descobrindo São Paulo cada vez mais. Ia vendo a arquitetura, os parques, cemitérios, ia conhecendo. Isso fez com que... Essa rotina fez com que eu visualizasse São Paulo, talvez de uma forma diferente de muitas pessoas, que enxergam como uma massa amorfa. Eu enxergava com as suas características. Cada bairro mais ou menos com a sua identidade, com as suas diferenças. Então isso... Nunca teve um fato, assim, marcante, que eu pudesse narrar para vocês aqui, mas foi mais o conjunto que marcou.

 

P/1 - Uma pergunta que pode ser que não tenha resposta. Mas apesar de você falar que não foi um trauma, foi uma coisa boa vir para São Paulo, mas eu acredito que podia ter na cabeça de um menino de 13 anos, saindo de casa cedo, vindo para outra cidade morar. Tinha um sonho, uma expectativa, alguma coisa que você planejava fazer em São Paulo? Como: “Quando eu chegar lá minha vida vai ser dessa maneira”... Não sei. Tem um sonho?

 

R - Olha, eu enxergava São Paulo como uma cidade a se alcançar, a ser descoberta. Talvez pelo fato de todo mundo falar que São Paulo é uma cidade difícil, eu não enxergava isso. Para mim, vir a São Paulo e viver São Paulo seria um coroamento dessa visão. Então, para mim era confirmar, talvez, essa sensação. Eu queria morar em São Paulo, queria viver, vivenciar, saber como é viver em São Paulo, passar o dia a dia aqui. Como eu te falei, só passava fim de semana, férias, não morava aqui em São Paulo. Para mim, o sonho era poder viver em São Paulo, e enxergar como que funcionava a cidade. Eu sabia muito bem como funcionava a cidade do interior e queria conhecer São Paulo, saber como era a cidade grande, como era a vida numa cidade grande.

 

P/1 - E sabia já o que queria fazer da sua vida? “Eu quero ser um engenheiro?” Ou não?

 

R - Olha, eu já tinha uma perspectiva. Dois tios me influenciaram. Um tio se chama José Tundisi - ele é vivo ainda - Oceanógrafo, muito conhecido no meio. Me inspirava nele. Sempre gostei da natureza, de uma forma ou de outra. E aquilo... A vida marinha, gosto do mar também, acho que me atraía. Achava uma idéia interessante. Só que não existia curso na época. Acho que hoje tem um ou dois por aí, mas na época não existia. Fazia Biologia, ou áreas da Biologia, depois Pós-Graduação. Pensava em fazer, então, Biologia. Mas eu falei: “Poxa, Biologia. O campo de trabalho de um biólogo é um pouco restrito.” Aí fui ver, fui influenciado por um outro tio, que era Agrônomo. Falei: “Bom, vou fazer Agronomia. Se for Oceanografia que eu quiser [fazer] mesmo, eu pulo para a área”. Mas acabei depois fazendo Agronomia, me dei bem na atividade, fiquei restrito à Agronomia.

 

P/1 - Você falou que conhecia, voltando um pouquinho, conhecia bem o esquema da cidade pequena, e aí descobrir essa... Porque você falou que era um pouco boring (riso). Como era aqui em São Paulo? O que você fazia, como você se divertia? Ia ao cinema? O que você fazia para se divertir, para sair, para descobrir...?

 

R - Bom, nessa fase do colégio era uma fase meio exigente dos estudos. Acordava às seis horas da manhã, ou menos até, estudava até uma hora da tarde, depois pegava mais estudos. No primeiro e segundo ano não tem muito [que estudar], mas no terceiro você já está meio que com o cursinho também. O terceiro ano foi bem voltado aos estudos mesmo. Mas o primeiro e segundo ano acabou sobrando tempo para a gente poder...

 

P/1 - (Pausa) Então, você estava contando...

 

R - O terceiro ano voltado mais para os estudos, atividade muito intensa. De manhã colégio, à noite cursinho, e você sempre revisando matéria. Mas o primeiro e o segundo ano deu um pouco mais de folga. Eu podia participar um pouco mais de atividades esportivas, que era o que eu gostava. A gente se encontrava na Associação Cristã de Moços, ali perto da Consolação, acho que ainda tem aquela sede ali, e visitava primos, amigos. Não era uma rotina muito intensa de atividades. São Paulo também não permite você fazer grandes coisas, é tudo um pouco distante e tal. Mas toda vez que podia eu ia lá no Mercadão, gostava de passear por lá, pelos parques, andava, circulava. Mas era uma rotina também, uma vida de rotina.

 

P/1 - Eu queria que você contasse um pouco dessa casa em Higienópolis, como era, qual rua, qual era a casa. E do bairro também, como era naquela época?

 

R - Eu posso me considerar privilegiado nesse aspecto, porque nós morávamos no cruzamento da Higienópolis com Sabará. E é um lugar muito agradável, porque é um lugar sossegado, e ao mesmo tempo próximo do centro de São Paulo. Podia ir para o centro a pé. Fazia isso com uma certa frequência. Era a casa dos meus tios, meu tio [era] professor de Bioquímica nas faculdades, ele dava aula em várias faculdades, de Medicina, de Bioquímica, e minha tia [era] dentista. Convivia muito com o meu primo... Meus dois primos. O mais velho estudava no Mackenzie, o mais novo ainda estava no Ginásio. Então, circulava com eles e às vezes amigos, muitos amigos. Os próprios primos deles, e meus primos. A gente ficava circulando entre as casas das pessoas. O lugar ali é muito agradável, o bairro é tranquilo porque dá para andar na rua, um bairro seguro, nunca houve um problema sério. Próximo ao Mackenzie. O Mackenzie era uma esquina antes. A circulação dos estudantes muito grande também. Muitos judeus, é um bairro de judeus também. Isso também chamava a atenção, era divertido ver os judeus vestidos de forma tradicional circulando por ali. Mas era um bairro agradável, uma região agradável de se morar.

 

P/1 - E a casa era grande?

 

R - Era um apartamento. Eu não me lembro o número do apartamento, mas é no cruzamento da Sabará com a Higienópolis. Era um bloco de apartamentos.

 

P/1 - Então, quando você tinha 13, 14 anos, isso era mil novecentos e...

 

R - 73, por aí. Não, 72. 71 para 72. Mais ou menos nessa época.

 

P/1 - E o contexto político que seu pai sofreu, você sentia alguma coisa ainda?

 

R - Chegou aí superado, porque meu pai foi preso, foi absolvido depois de seis meses preso. Tocou a vida dele, como eu falei, ele acabou abrindo uma frente de sobrevida com um amigo. Continuou presidente do clube em Atibaia. Ele teve a oportunidade de vir para São Paulo dar aula. Continuou morando em Atibaia. Veio dar aula em várias faculdades em São Paulo. Abriu a outra frente. Foi convidado, deu aula na Politécnica por um período, fez pós-graduação. Aí começou a tocar a vida dele em São Paulo. Voltou a ser vereador em Atibaia por mais dois mandatos. Ele vinha para São Paulo e voltava. Era essa a vida dele, continuou morando lá. Era interessante. Ele dava aula à noite em São Paulo. Vinha no fim da tarde, voltava de madrugada. Nunca quis saber de sair de Atibaia, nunca quis. Com Fernão Dias simplificada, naquela época, não era duplicada, sofreu um acidente feio uma vez na estrada.

 

P/1 - Sério?

 

R - Mas não quis sair de Atibaia. Era cômodo também para a minha mãe, para a minha avó, morar numa cidade pequena. Começaram a ficar mais velhos. Para os velhos é interessante ficar numa cidade pequena, você tem todo suporte. Então ele não quis sair, ele gostava. Acabou tendo essa rotina. Depois ele se aposentou, ficou tranquilo. Meu primo, esse que eu morei, tem uma empresa de importação e exportação. Ele começou a viajar com o meu primo, fazer companhia para ele. Meu pai sempre quis manter todo mundo junto. Então disse: “Agora eu vou com você.” Ele ia para a Alemanha, para os Estados Unidos. Meu primo tem uma casa nos Estados Unidos, ficou um tempo lá. Então ele faleceu lá nos Estados Unidos. Viemos saber depois que acabou morrendo sozinho lá. Meu primo veio na frente, ele ficou lá, eu tive que ir buscá-lo lá depois. Mas ele estava montando uma estrutura para poder levar minhas filhas. Eu já tinha filhas nessa época, então ele: “Eu vou ficar um tempo lá para tuas filhas poderem... Os meus netos poderem passar um tempo lá. Era o sonho dele fazer isso daí, para elas terem oportunidade de aprender inglês, e conviver... Ter uma vida internacional, um pouco mais... Não era sair do Brasil, nunca foi essa a intenção, mas ele queria abrir essa possibilidade. Essa foi a rotina dele.

 

P/1 - E essa época de 13 aos, 17 anos, que você fica em São Paulo pela primeira vez, abre um pouco também a coisa de adolescência, namoro, enfim, mais amigos. Como é que começa a se formar essa turminha, essa coisa toda?

R - Eu tinha o meu grupo de amigos lá do Objetivo. Inclusive tinha alguns de Atibaia, porque acaba se reunindo. Conheci minha mulher, acabei me casando com ela, mas eu conheci ela no terceiro ano do Colégio. Na verdade eu conheci no segundo ano do colégio. A gente já tinha trocado olhares. Depois, no terceiro ano, já tinha se passado uns quinze dias de aula, ela veio para a minha classe. Começamos a conversar, se conhecer melhor, e no meio do ano nós começamos a namorar. Fomos para Piracicaba juntos, entramos juntos em Piracicaba, saímos de lá juntos. Fui para o Banco, ela foi para uma empresa...

 

P/1 - Ela fez o quê?

 

R - Ela fez Economia também. Entramos juntos na Faculdade e saímos juntos da Faculdade.

 

P/1 - Qual o nome dela?

 

R - Helena. Ela era filha de médicos, de Santo Amaro. O pai dela era otorrino, de Santo Amaro. Pai e mãe médicos lá. É o que eu te falei,  ia cobrar um vizinho dela, praticamente lá, ela morava ali. Conhecia bem o lugar que ela morava.

 

P/1 - Quando ela falou, foi um estalo, assim, né? (riso)

 

R - É. Até ela falou... Até eu brinco com ela hoje. Se ela ouvir essa gravação ela vai ficar brava. Eu falo que ela era desorientada. Ela falou: “Eu moro perto do Borba Gato.” Só que a rua dela dava umas dez quadras da frente do Borba Gato. O Borba Gato é uma referência, não é uma rua. Aí eu desci. Ela não me falou o nome da rua, ela me deu só a referência. Desci no Borba Gato, a primeira vez que eu fui para lá, andei dez quarteirões. Eu falei: “Meu Deus do céu, qual é a relação da referência?” (riso) Ela: “Eu achei que fosse perto”. Eu sempre brinco com ela, todo mundo brinca com ela com isso. Mas, então, começamos a namorar. Eu acho que é uma situação única. Nós temos uma vida praticamente juntos desde os 17 anos. Ela foi para a Ciba-Geigy trabalhar, fui para Banco, Unibanco. Conseguimos uma atividade agronômica dentro de São Paulo. Ela dentro de uma empresa química, entrou dentro do Banco, com carteira de crédito rural. Fiquei três anos no Banco, e abri uma oportunidade na Ciba-Geigy. Fui, me candidatei e entrei. Nós dois fomos trabalhar, trabalhamos juntos lá. Depois de onze anos eu saí de lá, fui para a Basf. Ela, seis meses depois, foi para a Basf. Interessante. Ficamos mais uns cinco ou seis anos na Basf. Aí fui para uma outra empresa, _______, empresa dinamarquesa. E ela saiu da Basf e foi para a Bayer, onde ela está até hoje.

 

P/1 - Vamos voltar. Saindo de São Paulo, quer dizer, vestibular, aquela coisa. Você passa no vestibular, passa em Piracicaba, e vão para lá. Como é essa mudança, para uma cidade pequena de novo? Quer dizer, não tão pequena, mas menor?

 

R - A vida, pelo menos para mim, a vida universitária foi voltada para dentro da Faculdade. Eu não sei se vocês conhecem o Campus de Piracicaba, é um Campus muito bonito, muito amplo, tem quase uma vida própria. Tem muitos estudantes, são mais de mil e duzentos estudantes. Tem uma vida social praticamente independente da cidade. A cidade a gente convivia, mas sempre voltado para dentro da Faculdade. Era período integral, passava praticamente o dia todo na escola, tinham mais os estágios lá, aquela convivência. A vida esportiva, eu jogava vôlei na Faculdade, nadava. Você acabava convivendo mais dentro do Campus, dentro da escola mesmo. Eu tinha namorada lá. Era cômodo também.

 

P/1 - Vocês moravam juntos?

 

R - Não. Naquele tempo não tinha disso (riso). Naquele tempo era cada um na sua república. Eu morava na minha república, ela na dela, só de mulheres, a minha só de homens.

 

P/1 - Mas era perto ali (riso)?

 

R - Era. Piracicaba é uma cidade pequena, tudo próximo também. Mas tivemos uma vida normal, sem problema, namoramos todo esse período. Mas foi muito divertido, uma vida acadêmica muito interessante. Sair de São Paulo, longe da família. Minha filha depois também fez isso comigo, foi para Ribeirão Preto (riso). Foi estudar em Ribeirão Preto.

 

P/1 - E vocês se formaram antes, depois casaram? Como é que foi?

 

R - Nos formamos em 78, nos casamos em 80. Fui morar na casa dos pais dela. O pai dela era uma pessoa muito simpática, muito aberta. Teve sete filhos, seis mulheres e um homem. Uma casa... Médico, bem situado, uma casa bem grande, e aberta à comunidade, eu diria. Porque era um médico muito conhecido em Santo Amaro, um dos primeiros otorrinos de Santo Amaro, todo mundo conhecia ele. E tinham muitos amigos. Seis mulheres, você imagina a quantidade de candidatos por perto. Tinha muita gente que circulava na casa. Isso era divertido. E ele permitiu que eu morasse lá, até me convidou. Ele tinha um sítio. Tinha bastante afinidade com ele, até minha mulher ficava meio chateada, porque no final de semana eu ia para o sítio com ele e ela ficava meio assim, de lado (riso). Mas foi um outro pai para mim, foi um outro pai. Convivi com ele até ele falecer, em 88. Foi um período interessante.

 

P/1 - Você quer contar um pouco para a gente do dia do casamento?

 

R - No dia? O dia do casamento?

 

P/1 - É, dos preparativos, na verdade, todo esse entorno.

 

R - O nosso casamento foi também um pouquinho diferente. O meu sogro era uma pessoa muito católica. Ele tinha uma relação muito grande com a Igreja de Santo Amaro, com o Monsenhor. A ponto de o Monsenhor ter feito o nosso casamento. Uma coisa difícil. Foi feito na casa dele, também difícil. Não casamos na Igreja, casamos na casa do Monsenhor. Montamos toda uma estrutura de um altar dentro da casa dele. E nós casamos no mesmo dia em que ele comemorava bodas de prata. Então foi um evento maior. Dividimos aquele momento com ele. Para mim foi uma honra ter dividido aquele momento com ele. Foi uma festa exclusivamente familiar, só a família foi convidada, porque também não cabia muita gente. Mas foi interessante. Até uma passagem, não no próprio dia, um dia antes. Eu estava... Festa de despedida de solteiro. Aquela coisa de garotada. Nós fomos na Avenida Ibirapuera beber uns drinques a mais e o pessoal ultrapassou o limite. Foi interessante que ele, coitado, teve que cuidar das pessoas que estavam em coma alcoólico praticamente, dentro da casa dele. Tinha uns dez assim, deitados no chão e ele tratando, um dia antes do meu casamento (riso). A minha mulher falou: “Não caso mais, não quero casar” criou um stress ali. A ponto de... No dia seguinte, ela falou: “Você estava branco que nem um lençol. Não sei como você aguentou aquele dia. Eu não ia casar. Se não fosse meu pai dizer ‘Não, minha filha, vamos lá, não é assim...’, (riso) eu não ia casar mais com você”. Foi um dia antes, mas foi superado. Foi superado, mas foi divertido. Ele era uma pessoa muito paciente, ele tinha uma paciência. Eu não teria essa paciência não (riso). Ele cuidou da gente e garantiu meu casamento (riso). Foi divertido.

 

P/1 - Vocês ficaram morando lá até 88?

 

R - Não. Morei lá até 83. 82, 83. Casamos no final de 80. Praticamente dois anos nós moramos lá. No início de 83 mudamos para um apartamento. Nós compramos um apartamento.

 

P/1 - Que era aonde?

 

R - Em Santo Amaro também, ali no Jardim Marajoara. Do lado do Colégio Santa Maria. Tinha um condomínio, nós morávamos ali. Depois me mudei, ele já tinha falecido, mudamos para uma casa no Alto da Boa Vista, próximo de onde ele morava. Eu também, nesse aspecto, posso me considerar privilegiado. Eu moro numa casa pequena. Vocês conhecem o Alto da Boa Vista? É um bairro de casas, bem tranquilo. Eu morava na [Rua] Conde d’Eu. Morava na pior casa da Conde d’Eu, porque ali só tem palacetes. E eu não tinha condições de pagar o aluguel de um palacete, então eu morava numa casa muito tímida. Ficamos três anos lá. A casa de um alemão, chato. Aí ele pediu a casa. Fui atrás de uma outra casa, fui numa imobiliária ali perto. Fiz um contato com um corretor, falei: “Olha, eu estou procurando assim, assim.” Ele falou: “Pô, eu acho que eu tenho uma casa para você, é na Conde d’Eu”. Eu falei: “Eu moro na Conde d’Eu. Me fala onde é que eu acho que já visualizo.” Ele foi explicando, eu falei: “Hum, eu sei essa casa, mas eu acho que não é para mim”. “Não, é. É uma casa boa”. “É mais do que excelente.” A casa tinha 2 mil e 500 metros quadrados de área de terreno, 600 metros de casa. Eu falei: “Olha, eu acho que eu estou passando para você uma idéia um pouco errada da minha capacidade financeira.” Ele falou: “Não, a mulher lá aceita. Faz uma proposta”. Fui lá olhar a casa, fiz uma proposta para terminar o assunto, porque ele estava insistindo. À noite ele me ligou: “Olha, a mulher aceitou a sua proposta.” Eu falei: “Mas como? Tem alguma coisa errada aí. Acho que ela entendeu que a minha proposta é por dia, e não por mês”. No fim a senhora queria que... Na realidade ela queria alguém que mais cuidasse da casa do que propriamente pagasse o aluguel que a casa valia. Então moramos quatro anos em um ambiente realmente muito agradável. A casa era enorme, a maior casa da rua por sinal. Eu saí da pior para a melhor casa da rua (riso). Vivemos quatro anos lá. Foi um período muito agradável a nossa vida lá.

 

P/1 - Interessante.

 

R - É. São essas coisas que acontecem na vida da gente (riso). Eu sempre passava ali com as crianças... Saudade dessa época que as crianças eram pequenas... Olhávamos para a casa, ela tinha um gradil enorme na frente. Quem morava lá era uma pessoa de um supermercado grande e ele também era fazendeiro. Ele tinha emas andando ali no gramado, era uma coisa assim. E nós olhávamos. Era uma coisa muito gostosa, bonita, com um jardim enorme e tal. Sempre atraía a atenção. E um dia fui morar lá (riso).

 

P/1 - Bacana. E nesse trajeto, entre uma casa e outra, quando que nasce a primeira filha ou o primeiro filho?

 

R - A minha filha nasceu, a primeira filha, em 84, eu estava morando no apartamento ainda, no primeiro apartamento que eu tinha. A segunda nasceu em 88, 87 para 88, já estava na casa menor. Aí nós fomos... Em 91 nós fomos para essa casa maior. Então a mais velha tinha seis, sete anos, a mais nova três para quatro anos.

 

P/1 - Qual o nome delas?

 

R - A mais velha Carmen. Hoje é médica. E a mais nova Rafaela, cinco anos de diferença entre elas. Está fazendo Marketing na ESPM.

 

P/1 - Queria que você contasse um pouco do nascimento delas, quando a sua mulher estava grávida, todo esse processo. Porque o primeiro é mais difícil, mas sempre tem um gosto, né?

 

R - Está certo. A primeira filha, a Carmen, foi em 84, julho de 84, nós soubemos… Minha mulher estava imaginando que estivesse grávida. Claro, situação de atraso da menstruação, aquela coisa toda, sentindo um pouco mal. Ela falou: “Acho que eu estou grávida.” E foi interessante, porque ela falou para mim, e eu me empolguei. Contei para os meus pais. Os pais dela falaram assim: “Você não devia ter falado”. Porque italiano tem uma forma de reagir diferente da gente, brasileiros. Eles já consideram que você está agora numa situação diferente. Você tem que ter certeza que estava grávida (riso). O pai dela médico, aquela coisa toda. Mas no fim estava grávida mesmo, foi um período bastante interessante para a gente. Vivemos esse período intensamente. E minha mulher sempre trabalhou, ela nunca parou, até o último momento. Teve uma gravidez um pouco complicada, as duas gravidezes dela foram um pouco complicadas, ela teve que ter repouso e tudo o mais. Mas eu tive apoio da minha sogra. Quando nasceu, minha sogra nos ajudou muito. Ficou muito tempo na casa da minha sogra, dando suporte… A gente tinha aquele cuidado. Teve uma passagem interessante, acho que merece ser contada. Naquele tempo estava começando os carros a álcool e eu comprei uma Brasília amarela quatro portas a álcool - para você ter uma idéia (riso) -  carro a álcool, para fazer pegar de manhã... Não sei se vocês pegaram essa época (riso). Naquele tempo era uma dificuldade do tamanho do mundo. Minha mulher sempre foi paranóica com o momento do nascimento. Então ela estava com três meses de gravidez, achava que a criança ia nascer. Eu falava: “Não, não é assim”. E teve um dia que realmente a coisa aconteceu. Mas ela falava: “Esse carro não vai pegar naquele dia”. E o carro não pegou (riso). Aí consegui fazer pegar, mas ela estava em trabalho de parto, aquela coisa toda. Eu fui de casa até a maternidade com ela na minha cabeça: “Eu falei para você que não ia pegar”. Chegando lá a criança nasceu. Até hoje ela fala: “Quase que você faz o meu parto, a culpa é sua porque você comprou um carro a álcool”, não sei o que lá. Era uma Brasília amarela quatro portas a álcool (riso). Até hoje esse é um fato que a gente conta para a família, e o pessoal morre de rir. Eu sempre fui tranquilo. E ela sempre foi neurótica nesse aspecto, sempre se programando antes, sempre bem metódica. Aí nasceu, aqui na Maternidade Santa Catarina, os dois partos foram lá. Depois, um fato que me chama a atenção também, nós saímos de lá, fomos mostrar a minha filha para o avô dela, que também era médico. Mas ela fazia questão de mostrar, ela gostava muito do avô. O avô estava bem velho, e tal, ela falou: “Isso vai ser um presente para ele”. Era a primeira neta... O primeiro bisneto dele, bisneta, no caso.

 

P/1 - E como foi isso?

 

R - Ah, foi muito emocionante. Os dois estavam vivos ainda, o avô e a avó estavam vivos. Foi muito interessante. Não fomos nem para casa, fomos mostrar para eles. Até hoje eu tenho a aliança deles. Quando eles faleceram, eu e a minha esposa ficamos com as alianças deles. Ela tinha um carinho muito especial por eles.

 

P/1 - Como foi virar pai, a sensação?

 

R - Olha, eu diria que foi uma coletividade. Como nós vivíamos muito em conjunto, eu sempre tive o suporte dos irmãos, dos cunhados, das cunhadas. Nunca precisei exercer a paternidade daquela forma tradicional, que segura a responsabilidade. Até porque a minha esposa trabalhava também. Diria que lá em casa nós fomos, nesse aspecto, de certa forma privilegiados, porque tinha todo um suporte familiar muito grande. Apesar de morar em São Paulo, nós tínhamos uma família muito grande, do meu lado e do lado da minha mulher. Então, claro, você tem toda a responsabilidade, mas tem toda uma divisão de tarefas ali. Sempre contei com a minha sogra, minha mãe, meu pai. Quando eu precisava viajar... Sempre viajei muito e minha mulher também sempre viajou, então a gente contava com esse suporte. Foi até uma vida interessante, diferente um pouco do normal. As minhas filhas sempre foram muito cedo para o berçário, acho que com 30 dias já estavam no berçário. Não poderia ser diferente disso, porque nossa vida era muito exigente em termos de trabalho. Acabei dividindo um pouco essa tarefa com os tios, tanto é que todos se consideram um pouco pai, um pouco mãe das minhas filhas, e todos tem uma intimidade muito grande lá em casa.

 

P/1 - Eu queria que você contasse um pouco... A segunda filha já não nasceu com a Brasília?

 

R - Não, já tinha uma estrutura um pouco melhor (riso). A segunda filha foi menos corrido, menos agitado, mas também quase que teve o parto a caminho, mas foi um pouquinho mais estruturado. Ela foi até o ginecologista, rompeu a bolsa, nós fomos até o hospital. E a segunda filha é sempre um pouco diferente. Eu não tive tanto suporte da minha sogra, ela estava já um pouco mais velha, meu sogro já havia falecido. Mas a convivência com os tios continuou praticamente a mesma coisa.

 

P/1 - E esse avós que você falou, das alianças, já tinham falecido?

 

R - Já. Nesse momento já tinham falecido. Seriam os bisavós dela. Já tinham falecido. Aí foi um pouco diferente. Foi mais ligado com a minha família, porque o meu sogro já tinha falecido também, minha sogra já estava numa idade e numa condição que já tinha dificuldade de cuidar. Eu tive mais suporte de casa. Muito embora meu pai morasse em Atibaia, eles vieram para São Paulo para dar suporte, a gente ia para lá, as minhas cunhadas. Mas a segunda foi um pouco prejudicada, ela não teve a mesma atenção que teve a primeira. Não que isso possa ter tido alguma mudança, mas o estímulo foi outro. É interessante isso daí. A primeira foi mais estimulada nesse aspecto. Então, eu acho que [a segunda] foi um pouquinho prejudicada, a convivência com os tios foi menor.

 

P/1 - E como elas se davam?

 

R - A diferença de idade era um pouquinho grande, cinco anos. A mais velha ajudou a cuidar da mais nova. Era uma relação quase de cuidado, não de irmandade. Depois, quando a mais velha foi para Ribeirão Preto, a mais nova tinha seus 14 anos, 13, 14 anos. Então a hora que começa a ter alguma ligação, separa. Agora, minha filha está voltando de Ribeirão, vai fazer residência aqui em São Paulo. Ela já tem o namorado, uma vida um pouco separada. Mas agora começa a conviver mais, porque o final de semana em casa, a gente começa a voltar com um convívio mais unido novamente. Mas vamos ver agora. Eu digo que vai ser uma experiência para ver como ela se comporta. Minha filha passou sete anos fora.

 

P/1 - A mais velha?

 

R - A mais velha.

 

P/1 - Em Ribeirão?

 

R - Exatamente. Fora de casa. Ribeirão é um pouco longe para vir de final de semana, é mais complicado. Diria que ficamos sete anos longe dela, podemos dizer assim. Foi um convívio só de momentos.

 

P/1 - E ela está voltando para a casa de vocês?

 

R - Não. Ela está voltando... Ela e o namorado entraram, ela em uma residência, ele em outra especialidade, mas estão dividindo um apartamento, acho que na realidade é do tio dele. Então ela está morando com ele, estão dividindo lá as despesas. Mas agora estão todos em São Paulo. Pelo menos estamos próximos.

 

P/1 - E ela vai ser médica do quê? Qual a especialidade?

 

R - Ela está no AC Camargo, está fazendo radioterapia. Ela entrou em primeiro lugar lá. Radioterapia...

 

P/1 - Você está orgulhoso.

 

R - Estou orgulhoso (riso).

 

P/1 - Então, vou voltar. Você falou um pouco essa parte familiar. Eu vou voltar um pouco para a sua carreira. Quando você começa o primeiro emprego. Conta o primeiro emprego, descreve um pouco.

 

R - Eu entrei em Piracicaba, namorava com a minha esposa, e por conta disso, uma relação muito próxima com o meu sogro. O meu sogro tinha um sítio e no final de semana ia para o sítio. Sempre gostei.

 

P/1 - Era lá em Piracicaba?

 

R - Não, aqui em São Paulo, no município de ______. Próximo a São Paulo. Tanto é que nós temos o sítio até hoje. Nós convivemos lá no sítio. Quando eu me formei, eu tinha um projeto com o meu sogro, de construir uma suinocultura. Construímos a suinocultura. Fiquei dois anos construindo isso aí. Para mim foi muito interessante, porque eu pude praticar muita coisa que a grande maioria das pessoas não tinha essa possibilidade, de tocar um projeto próprio. Era meu, e eu construí, do nada, construí um negócio. Só que, na realidade, você não consegue se manter com isso. Então estava pronto, pusemos um administrador e eu me candidatei a um emprego num Banco, com a carteira de crédito rural. Fui chamado, fiquei três anos nesse Banco, trabalhando lá com a carteira de crédito. Quando tive a oportunidade de ter uma vivência, uma visão financeira... Para mim falhas de muitas faculdades, porque a forma técnica da maioria, não dá uma visão comercial das atividades. Tive a felicidade de, nesse momento que eu estava trabalhando no Banco, eles estavam transformando a carteira agrícola do Banco numa carteira comercial para as zonas rurais. Então nós não trabalhávamos só com carteira de crédito rural, trabalhávamos também com carteira comercial. Fazíamos de tudo lá. Você acaba tendo que conhecer os outros produtos do Banco. E isso abriu um horizonte maior muito interessante.

 

P/1 - Quando você foi procurar o Banco, você foi procurar pensando “Vou procurar um lugar mais financeiro”, ou foi procurar porque você viu um emprego ali em algum lugar?

 

R - Na realidade, São Paulo não oferecia muitas oportunidades para o engenheiro agrônomo. Eu sempre tive uma vertente comercial. Fui trabalhar em pesquisa. Minha esposa foi trabalhar em pesquisa, acabou fazendo a parte de registro de produtos... Produtos químicos, defensivos, para produtos agrícolas. Mas não era uma área que me agradava. Eu podia ir para isso daí, mas pra ir para uma empresa de defensivo agrícola você tem que ir para o interior e ela trabalhando aqui em São Paulo, como se fazia? Então o Banco era o que chamava mais a atenção e eu tinha alguns amigos que trabalhavam [lá]. Através de um outro amigo, ele falou: “Olha, está tendo vaga em dois, três Bancos”. Acabei entrando em alguns Bancos, escolhi um determinado Banco, o Unibanco, na época. Então fiquei em São Paulo. Foi também uma forma deu estar aqui em São Paulo. Nunca foi o sonho da minha vida trabalhar em um Banco, porque eu nunca gostei de coisa muito burocrática. Era escritório, coisa só de papelada, aquela coisa toda, mas nesse aspecto foi interessante, porque abriu essa questão financeira. Aí na Ciba-Geigy abriu uma oportunidade de vaga como vendedor de defensivo agrícola, na Grande São Paulo. Estava abrindo naquele tempo... A Ciba-Geigy tinha vários produtos para grandes culturas. Soja, milho, algodão, cana, tudo no interior, mas naquele momento eles estavam abrindo uma vaga para São Paulo, porque estava vindo alguns produtos, estavam desenvolvendo produtos para hortifruti. Então era uma oportunidade para eu sair da área de Banco, ir para uma indústria química, as perspectivas eram melhores, e continuar em São Paulo. Naquele momento, uma empresa suíça também abriu uma vaga para uns projetos suíços aqui. A cabeça rolava para as duas, escolhi a Ciba-Geigy, que era uma empresa mais estruturada. Acabei ficando lá. Fui ser vendedor, fiquei três anos como vendedor. Depois fui para a área de Marketing, como gerente de mercado, de produto. Fiquei mais sete anos. Passei por toda essa fase. Depois de lá eu fui para a Basf. Saí da Ciba-Geigy e fui para a Basf, também como gerente de produto, gerente comercial, e fiquei mais sete anos na Basf. Aí uma empresa dinamarquesa me convidou para ser gerente comercial dentro da área deles, porque eles estavam vindo para o Brasil... Já estavam no Brasil, mas queriam crescer e queriam uma experiência minha. Era uma oportunidade para ir para uma empresa menor. Empresa grande é interessante, mas você... Tua capacitação, tua amplitude de gerenciamento é menor. Numa empresa menor você tem menos importância, mas tem mais amplitude de gerenciamento. Então, profissionalmente, é mais interessante. Me pareceu uma proposta válida, acabei indo para lá. Saí de lá depois, trabalhei lá cinco anos. Hoje estou com uma empresa minha, dentro da área de agronomia.

 

P/1 - Conta um pouco. Tem duas coisas antes, que é uma parte importante da vida. Como é que é trabalhar na mesma área, no mesmo ramo da sua mulher, o tempo todo? Como é esse convívio?

 

R - Eu acho que nós soubemos lidar bem com isso. Não é fácil. Sempre as pessoas perguntavam isso, como é trabalhar com a mulher, na mesma empresa. Nós soubemos conviver com isso daí. Ela nunca exigiu comportamento diferente do que eu tinha. Eu tinha que viajar, ela encarava isso com naturalidade. Ela tinha que viajar, ela ia para a Suíça, eu encarava isso com naturalidade. Nem eu e nem ela cobramos um do outro essa questão de ficar fora de casa e tudo o mais. Até pelo fato de que, se eu não posso ser exigido, eu não vou exigir. Eu acho que esse foi o aspecto. As empresas também... Até acho que nós tivemos uma condição especial nessa empresa, entenderam isso de uma forma natural. Não é comum, as empresas às vezes não aceitam isso, mas como a gente tinha um certo nome no mercado, e interessava para eles também, os dois profissionais, acabamos tendo essa oportunidade.

 

P/1 - E as conversas em casa giravam em torno de...

 

R - Sim, mas eu diria que a gente sabia lidar com isso daí, nunca foi um stress, nunca foi difícil lidar com esse tipo de coisa. O assunto acabava sendo... Ia para isso. Mas eu até acho que isso fez com que a gente superasse, talvez, algumas dificuldades do cotidiano de um casal, porque às vezes não tem assunto ou não tem uma rotina. Nesse aspecto eu acho que a gente até tinha assuntos, quando não era da rotina do dia a dia, era da empresa. Então a gente tinha diálogo sempre. A gente almoçava junto, procurava também estar junto. A gente saía juntos para almoçar, à noite saía para um restaurante. É interessante isso aí, a gente trabalhava na mesmo empresa, no mesmo espaço, mas a gente tentava de alguma forma sair do meio profissional e ir para o cotidiano.

 

P/1 - As suas viagens eram mais pra onde?

 

R - As minhas viagens eram para o Brasil todo, praticamente. Como gerente de mercado tinha que visitar todas as lavouras e áreas agrícolas do país, do Rio Grande do Sul até o Mato Grosso. A minha rotina era quase que dentro do avião. A dela menos, mas toda semana ou a cada quinze dias, em Brasília. Quando se faz registro... Registro era junto aos Ministérios, então [era] em Brasília, quando não era na Suíça, na época. Agora ela está na Bayer,, é na Alemanha. Ela continua... Hoje ela é diretora de desenvolvimento da Bayer, então ela viaja muito para a Alemanha, América Latina também. E eu viajava muito pelo Brasil.

 

P/1 - (Pausa) Você estava falando de viagens.

 

R - Estava falando de viagens e essa vontade de conhecer novas... Novas paisagens, forma de vida e tudo o mais. Contei a passagem que eu fui até Porto Alegre. Então, essa vida de viajante sempre me atraiu. [Tiveram] duas viagens [que] eu fui e me chamaram muito a atenção. Foi uma viagem muito interessante. Em 77 fui para a Terra do Fogo,  planejei essa viagem durante três anos. Em 77 ainda as estradas eram relativamente, não digo precárias, mas eram difíceis, simples. Os carros também não eram muito sofisticados. Planejei uma viagem, ia fazer eu, meu irmão e meu cunhado, até a Terra do Fogo. Foram 15 mil quilômetros. Meu pai gostou da idéia e meu pai indo, minha mãe também vai. Então nós viajamos. Saímos de São Paulo em 77. Nesse tempo, o Brasil [no] fim da ditadura, aquele período da ditadura, Argentina forte, e Chile passando por uma situação dramática, aquele momento do Pinochet, mas mesmo assim eu falei: “Eu quero fazer essa viagem, quero conhecer a Terra do Fogo, porque deve ser uma coisa muito... o Sul da Argentina, os Andes. Fiz um planejamento de três anos, todo momento, cada quilômetro, cada parada. E aconteceu exatamente como eu tinha planejado, deu certo. Meu pai acabou se motivando, minha mãe, e nós fomos. Enfrentamos essas dificuldades. Na Argentina a cada cem quilômetros tinha que parar, eles revistavam o carro todo. Entramos no Chile, aquele tempo, a gente não sabia, mas estava em toque de recolher. Nós passamos por Santiago, era umas quatro da tarde, mais ou menos, e procurando hotel, a pessoa falou: “Até às sete horas, achem um hotel”. Porque a gente estava perguntando para um, para outro. “Se você não achar, encosta o carro em qualquer lugar, fiquem dentro do carro, não saiam do carro. Nós temos aqui um toque de recolher, se alguém estiver andando na rua após às sete horas da noite, oito horas, coisa assim, a polícia tem autoridade para matar, atirar. Então fiquem dentro do carro”. Passamos por isso lá também, enfrentamos essa situação lá. Nós descemos o Chile até Portomondo, entramos por Santiago, descemos até Portomondo, entramos em Bariloche, atravessamos a Patagônia, fomos até Comodoro de Rivadavia. Tudo de _______, o que eles falam lá. Estrada de pedra, lá são seixos. 700 quilômetros. Saímos de Bariloche, fomos até Comodoro de Rivadavia. Ficou conhecido como Comodoro de Rivadavia pelas Malvinas depois, aquela base argentina da aeronáutica. De lá fomos até a Terra do Fogo, e voltamos pelo litoral depois. Então, isso foram 15 dias... Não, 20 dias, andamos 15 mil quilômetros. Depois saí recentemente, em 98 acho, fui para o Atacama. Fiz a mesma viagem, mas não até a Terra do Fogo. Fui à Bariloche, Atacama, [mas] aí foi com as minhas filhas, eram pequenas ainda. Minha mulher fala que naquela fase, depois daquela viagem, toda vez que eu convidava elas para passear ninguém queria sair comigo, porque não sabia quando voltava (riso), porque entrava no carro, viajava dez horas seguidas, coisa assim. Uma viagem muito bonita. Naquele tempo, Atacama era pouco conhecido. Hoje em dia é moda, é um dos pontos mais tradicionais de turismo ou de aventura, mas em 77, cruzar o deserto do Atacama, com carro, foi emocionante também. Viajei por lá. Sempre gostei de viajar, pegar o carro e sair dirigindo. Nos Estados Unidos eu também passei um mês viajando assim.

 

P/1 - Bacana. Você foi para onde?

 

R - Fiz as duas costas. Eu desci em Los Angeles, subimos até São Francisco, pelo litoral, desci pelo centro, entrei em Mojave, no deserto, Vale da Morte, Grand Canyon, e voltei para Los Angeles. Pegamos um avião, fomos para Nova York. Viajamos por lá, depois Orlando, aí voltamos para o Brasil.

 

P/1 - Isso com as filhas já?

 

R - Com as filhas. E na Europa também. Peguei meu carro, desci na Suíça, viajei toda a Itália, visitei os parentes, aquela coisa toda, e França. Sempre gostei de pegar um carro e (riso) abrir fronteiras. Ainda falei para minha mulher: “Ainda vou te levar para a Terra do Fogo (riso), só que você não vai saber que você vai”. Mas foi divertido.

 

P/1 - E essas viagens pelo Brasil, Vicente, foram a trabalho a maior parte. Mas conta um pouco o que você foi vendo dessa evolução rural. Você que trabalhou nessa área. Como é que foi mudando o cenário?

 

R - Agricultura no Brasil... O Brasil nunca foi um país agrícola. Nós temos uma atividade rural grande, mas como agricultura o Brasil é de 70 para cá. Antes de 70 o Brasil produzia o quê? Café e cana. Isso era a produção brasileira. O país se tornou um país agrícola depois da instalação da Embrapa e da conquista do cerrado propriamente dito. Está certo? Então aí que se tornou um país que se pode dizer que pode produzir para exportação. Acho que eu peguei um pouco essa fase. Entrei na Ciba Geigy em 86. A partir do final dos anos 70 e 80, o Brasil começou a aparecer mais no mercado internacional como produtor de soja. A conquista do cerrado fez com que o Brasil se posicionasse. As empresas de defensivos começaram a vir para o Brasil com mais intensidade. E aí abriu um campo, novo... não digo novo, mas grande, para os agrônomos, que era a venda de defensivos, desenvolvimento de defensivos agrícolas. A grande maioria dos produtos eram desenvolvidos fora, o Brasil hoje já é uma plataforma de desenvolvimento. Hoje o Brasil, se não é, está entre os maiores mercados do mundo de defensivo agrícola. É um país bastante significante. Mas do final dos anos 70 até agora foi exatamente o [período de] crescimento. Eu peguei essa fase de crescimento. O mercado de defensivo, quando eu comecei a trabalhar, faturava uns 800 milhões de dólares. Hoje o mercado de defensivo no Brasil fatura 7 milhões de dólares. Você vê que crescimento houve nesse período. E, bom, o Brasil tem agricultura desde o Rio Grande do Sul até o cerrado, Goiás, fronteiras novas hoje é Tocantins, Piauí, Maranhão. E eu, como era gerente de mercado, de produto de mercado, a gente pode falar assim, você tem uma linha de produtos, qual é a sua função? É pegar um produto, que às vezes não está em desenvolvimento e levar ele para o mercado, fazer todo o trabalho dele. Criar um posicionamento, definição de preço, estratégia de divulgação e lançar ele no mercado. Eu passei por todas as áreas dentro da empresa. Trabalhei com fungicidas, com inseticidas e com herbicidas. Trabalhava com soja, algodão, trabalhava com cana de açúcar, e isso acabou me levando a todas as regiões praticamente. No Rio Grande do Sul tinha fumo principalmente, que a gente trabalhava. Conheci as regiões produtoras de fumo. Com as suas particularidades, são colônias alemãs, na grande maioria das vezes, com as suas características completamente diferentes dos produtores de cana de açúcar das usinas aqui de São Paulo. Os produtores de soja do interior do Paraná tinham um jeito de produzir soja que é diferente do produtor do Mato Grosso. Cada um com a sua... Muito embora eram filhos, os produtores do Mato Grosso muitas vezes são filhos dos produtores do Paraná ou do Rio Grande do Sul, mas que adotam uma outra atividade, uma outra forma de produzir, pelas características. Mas acabam tendo os mesmos comportamentos. O gaúcho é um povo que fez muita fronteira. Você encontra os CTGs, Centro de Tradição Gaúcha, em todo lugar. Era divertido ver isso. O pessoal em Mato Grosso com a cuia de chimarrão, num Centro de Tradição Gaúcha. Dos mulatos lá, tem muito índio, uma miscigenação muito grande. É interessante ver esse pessoal no meio desse grupo, era um pessoal fora. O mato-grossense tradicional, ele não é agricultor -  é interessante isso aí - ele mexe com gado normalmente, ou faz outra atividade. Quem mexe com agricultura no Mato Grosso são todos de fora, a grande maioria. Mas tinham que conviver, né, muitas vezes com funcionário, essas coisas. Em Minas Gerais, com o café, por exemplo, muitos imigrantes também, italianos, e tudo o mais. São Paulo, os japoneses _____. Então eu tive a oportunidade de conhecer todo esse pessoal, o jeito que eles viviam, o jeito que eles trabalham, a forma como eles se relacionam. Cada um tem um jeito, né? Isso acho que me permitiu também ter flexibilidade e enxergar um pouco mais como você faz uma aproximação com a pessoa e tudo mais. Eu acabei sendo um vendedor. Você tinha que se aproximar das pessoas e acho que isso me ajudou a conquistar algumas vendas boas.

 

P/1 - E quando e por que você resolve parar e falar: “Agora eu vou abrir a minha empresa”? Qual era o sonho?

 

R - Eu diria o seguinte: uma vida em uma empresa, uma vida corporativa, é uma vida que você tem que fazer certas concessões. O mundo corporativo é de certas concessões, que você se permite acho que até um limite. Eu, como vivi desde 83 até o ano retrasado um bom período e passei por bons momentos e maus momentos, apareceu uma oportunidade de ter uma vida com a minha empresa, morando em São Paulo, que eu pudesse definir o ambiente de trabalho, definir a estratégia, eu poder me dirigir, eu definir o meu próprio destino, me fez pensar na chance de desenvolver essa nova frente, como empresário. A minha esposa está trabalhando, então se não desse certo, não íamos morrer de fome. Era uma oportunidade, abrir uma empresa. Se der certo, é uma frente diferente. Uma frente diferente, e fora do mundo empresarial. Se eu conseguir fazer isso daí, eu trago mais independência para a minha família.

 

P/1 - Queria que você contasse a empresa, o que ela é, o foco dela, qual a missão. Conta um pouco qual foi o projeto.

 

R - Esse é um projeto que nasceu há muito tempo atrás. Eu tinha um colega da Ciba Geigy, que também estava um pouco decepcionado com a vida corporativa, a vida empresarial e largou para abrir uma revenda de carro. O negócio dele era vender carro. Se deu bem e tal. E ele também é agrônomo. Mas ele começou a ver a oportunidade. São Paulo, de uns 15 anos para cá, começou a ter muita atenção com o meio ambiente. As leis começaram a ficar muito mais rígidas nesse aspecto. Então os empreendimentos, em São Paulo, para você ter licença para construir o prédio, você tem que passar por uma aprovação ambiental. Isso abriu e abre um campo de trabalho muito interessante para os profissionais da área agronômica, Biologia também. Ele enxergou isso. E eu junto com ele, sempre dando apoio. Sempre enxerguei nele uma pessoa que um dia eu pudesse me associar para fazer um projeto em comum. Eu trabalhando e ele mexendo com carro, a gente sempre conversando, e ele começando a fazer as duas coisas. Até o ponto em que ele falou: “Olha, eu vou tocar minha vida só com a parte ambiental.” E eu dei apoio financeiro para ele em alguns momentos, para ele montar a empresa, tocar a empresa nas horas mais difíceis. Ele estruturou a empresa. Quando eu saí, a empresa já estava com um porte que não me dava o mesmo salário que eu tinha na indústria, mas eu diria para você que as perspectivas são muito boas. Hoje nossa clientela são as grandes empreiteiras. Para dar um exemplo, nós estamos fazendo a reforma da marginal, a parte ambiental de várias frentes somos nós que estamos fazendo. Os transplantes grandes de árvores e plantios, nossa empresa que faz. E licenciamento de empreendimento de prédios, de qualquer obra, indústria, nós que fazemos. Como o rigor da legislação em São Paulo aumentou muito, então necessariamente tem que passar por uma empresa do nosso perfil... E não são muitas. Porque você precisa ter uma tradição, conhecer a legislação, ter equipe. Tem que ter uma estrutura que você não forma de uma hora para a outra. Isso foi um investimento que começou com ele, e agora eu estou podendo também ajudar no processo. Estamos em crescimento. Acreditamos que tudo vai dar certo.

 

P/1 - E essa parte, quer dizer, não é uma inovação, não é uma novidade, mas hoje em dia está muito em voga, que é essa coisa do ambiente. O que isso pega para você, no pessoal, o que isso mexe com você?

 

R - É a oportunidade de continuar dentro da área. É isso que eu acho interessante. Eu estou em São Paulo, no meio urbano, mas podendo trabalhar com plantios, com desenvolvimento de meio ambiente, com vida. Faz parte do dia a dia de um agrônomo. É um plantio, é uma cultura. Não é alimento, mas é plantio igual. É uma planta, que você cuida dela, faz um planejamento. Nós estamos agora com alguns replantios, por exemplo, o Parque Villa-Lobos, nós estamos plantando lá 8 mil árvores. De alguma forma os conhecimentos agronômicos estão sendo exigidos, para fazer o plantio de uma árvore que um dia vai fazer um bem-estar e melhorar as condições de vida de São Paulo. Isso também é empolgante para mim. Como eu falei, acho que ficou demonstrado, eu gosto muito de São Paulo. Se eu puder melhorar a vida de quem vive em São Paulo, isso me atende duas vezes. Uma, porque eu estou dentro da área agronômica, e, segundo, porque eu estou ajudando outras pessoas a viverem melhor em São Paulo. Eu encaro dessa forma. Todo dia é um dia motivador, porque eu estou fazendo algo, estou plantando uma árvore. Corto algumas, às vezes é obrigado a cortar. Mas como a legislação obriga, para cada corte, um plantio muito maior, então o saldo é positivo, nesse aspecto. A legislação já faz essas contas. Estou trabalhando enriquecendo São Paulo com verde, com a parte ambiental, trazer uma vida de novo [para os] pássaros, uma vida de harmonia com a natureza, um pouco mais próximo.

 

P/1 - Nesse caso, só para entender um pouco mais, um exemplo, nesse caso do Villa-Lobos é a própria Prefeitura que contrata vocês?

 

R - Não, nesse caso é uma compensação. Todo empreendimento, você precisa fazer um manejo arbóreo, que a gente fala. O manejo arbóreo é um corte, um transplante ou é um plantio. Essa compensação é fruto de uma obra que está sendo feita na Anhanguera, com a chegada da Marginal. Ali, não sei se vocês estão andando por ali, tem a ampliação dos viadutos, novos, e ali teve que ser alterada a composição arbórea da região. Transplante e cortes. E aí gera uma compensação. Uma das compensações foi esse plantio. Nós ganhamos a concorrência dentro da empresa que fez isso para aquele parque, que é estadual na realidade. Aquele parque não é municipal, aquele em particular, mas tem muitos municipais. Aquele, em especial, é estadual.

 

P/1 - E mesmo as empresas que são privatizadas, como Dersa, por exemplo, que fazem coisas, também tem que compensar o...

 

R - Exatamente. Todas as empresas têm que compensar. Mesmo a Dersa tem que fazer compensação. A Marginal, por exemplo, que a Dersa é responsável, existem várias compensações sendo feitas. Eles estão plantando acho que 150 mil árvores com essa construção da Marginal. 150 mil árvores. É uma compensação muito grande. São Paulo vai ser com certeza uma das cidades mais arborizadas do mundo. A Prefeitura de São Paulo tem um projeto muito grande de arborização. São Paulo, daqui uns 20 anos, vai ser uma cidade muito arborizada mesmo.

 

P/1 - Esperamos (riso).

 

R - Não, sem dúvida. Pode ter certeza disso. Pelo projeto que tem. Você é obrigado. Vai construir um prédio, você tem que fazer uma compensação. Então necessariamente... Isso é um custo adicional para o empreendedor. Mas para o Município, para o cidadão, isso é um benefício grande. E todo prédio quase tem uma compensação para ser feita.

 

P/1 - Então vou fazer as perguntas finais agora. Como análise, assim, Vicente, tanto profissional quanto pessoalmente, qual é, dos dois campos, o seu sonho, ou seus sonhos hoje em dia?

 

R - Bom, alguns sonhos já se realizaram. Eu queria morar em São Paulo e trabalhar na minha área. Eu acho que eu sou uma pessoa privilegiada, porque consegui morar em São Paulo, estruturar minha vida em São Paulo, e trabalho com Agronomia, dentro de São Paulo. Então, para mim, eu consegui realizar muito daquilo que eu imaginava. Para frente eu quero agora um projeto da minha empresa. Estou focando todos os meus esforços para fazer essa empresa se estabilizar - empresa no Brasil não é uma coisa simples de ser construída - que eu possa dar emprego para mais pessoas, para outros profissionais da área de Agronomia. Já temos um agrônomo trabalhando com a gente, além de nós dois, eu e meu sócio. E trabalhar nessa área, conseguir continuar trabalhando, não quero me aposentar. Inclusive a minha idéia era essa, sempre foi essa. Abrir uma empresa própria, porque a vida de um profissional dentro de uma corporação é se aposenta, põe o pijama e vai ver os netos. Eu quero ver os meus netos, mas sem o pijama. Quero ter uma empresa, para eu poder me dedicar e continuar trabalhando. Quero continuar trabalhando nos projetos e continuar na minha atividade. Não quero me aposentar, essa é a minha idéia.

 

P/1 - E a última pergunta: o que você achou de sentar um pouco e contar a sua vida?

 

R - O que me trouxe aqui eu acho, porque eu ouvi na semana retrasada um programa na CBN, que vocês apresentaram o relato de um cidadão. Não me lembro o nome dele qual era. Eu queria exatamente falar um pouco da minha experiência em São Paulo. Acho que eu devo ter transmitido uma visão positiva de São Paulo, acho que é isso que nós temos que levar para a maioria das pessoas. São Paulo muitas vezes é vista como uma cidade feia, uma cidade violenta, uma cidade inóspita. Eu tenho uma visão exatamente o contrário. Acho uma cidade bonita, uma cidade agradável e hospitaleira. Acho que a grande maioria das pessoas não conhecem São Paulo ou não se permitem ver [essa cidade] de uma outra forma, se deixam levar pelo que falam de São Paulo e tem medo de descobrir São Paulo. Talvez pela minha trajetória, eu nunca tive medo de São Paulo, nunca tive medo de descobrir São Paulo. Achei que era uma oportunidade, de alguém que gosta de São Paulo, que vive em São Paulo, que gosta da cidade, quer continuar morando, tem saudades quando sai - quando eu viajo eu tenho saudades e quero voltar para São Paulo - de dar esse relato. De falar para as pessoas: “Descubra São Paulo”. É uma das poucas cidades maravilhosas do mundo (riso).

 

P/1 - (riso) Bacana. Obrigada, Vicente. Foi ótimo.


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