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História

Aqui não é país de se passar fome, né?

História de: Roza Bronstein
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/03/2021

Sinopse

Roza nasceu em uma pequena cidade na Romênia, quando seu território ainda pertencia à Rússia. Cresceu em uma família de judeus sionistas. Ainda em Ataki, sua cidade natal, se casou com seu primeiro marido, David Bronstein. O casal e a filha de três anos saiu da Romênia, fugindo da Segunda Guerra, em 1940. No trajeto, a filha quase foi sequestrada, e Roza lembra dos momentos no navio com aflição. Chegam no Rio de Janeiro e aqui se instalam. Em um primeiro momento, com muita dificuldade financeira. Depois, David monta uma loja de tecidos e por fim vai trabalhar com construção civil, sua formação incial. Roza, depois que torna-se viúva, casa-se mais uma vez. Todos os seus três filhos são do primeiro casamento com David. Apesar de ter se adaptado bem ao Brasil, sente-se triste ao pensar que teve que abandonar sua terra natal, para a qual nunca mais voltou, e sua família, que, em grande parte acabou falecendo em câmeras de gás durante a Guerra. 

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História completa

R- ... Bessarábia. Mas em 1918, os romenos ocuparam Bessarábia e eu virei romena. Sou russa e romena, não é.

 

P/1- A senhora nasceu quando?

 

R- Eu nasci 1913. Olha lá, não espalha.

 

P/1- Não. Fica com a gente. Eu sou indiscreta, mas tudo bem.

 

R- Dia 12 de maio.

 

P/1- Dia 12 de maio.

 

R- 12 de maio. Já sou velhinha, filhinha.

 

P/1- É o dia da minha mãe.

 

R- É. E nós passamos por uma revolução, não é. Vivemos em Bessarábia sob o domínio dos romenos. Mas em 1939, o Hitler entrou na Polônia, 1º de setembro, 1900 e... Eu me lembro bem. 1939. E Hitler entrou na Polônia. Ocupou a Polônia. Depois ele foi marchando para Tchecoslováquia. Depois nos mudamos para Bucareste.

 

P/2- Em que época?

 

R- Isso é 1939. Mas em Bucareste também já não estava bem. Fecharam as lojas, jogaram bombas, nossa loja estava fechada. Então, em 1940, nós uma história, minha filha. O navio afundou. Minha filha, que tinha três anos e pegamos o navio em Gênova, viemos para o Brasil. Mas até chegar ao Brasil é meio, me raptaram. Meu marido queria que volta de volta. Mas tudo passou bem, nós pegamos esse navio. Viajamos um mês. Nós saímos dia 2 de fevereiro. Com um frio de 29 graus abaixo de zero, chegamos dia 2 de março para cá, com 40 graus. Mas quando eu cheguei para cá, queria logo voltar. Porque eu não podia me acostumar com esse calor, com tudo isso. Mas não deu mais tempo. A Itália entrou em guerra. Arrebentou essa guerra. Eu perdi minha família toda. Três irmãos, sobrinhos, tudo, nas câmaras de gás. Eu estava aqui. E não deu tempo mais para voltar. E aqui começou uma vida nova, sabe. Meu marido começou a trabalhar, clientela. Sabe o que é isso, clientela? Isso que eles vendiam em casas, cortes de fazenda. Subia no morro, quando ele voltava, ainda com a roupa de inverno, não é. Aí ele me contou que uma moça, uma preta, chamou ele de meu filho. Na România não se escutou meu filho não. Se escutou só judeu. Nós escutamos filho. Eu... E nós estávamos vivendo assim, com medo mesmo, aqui mesmo com medo. Quando eu vi um preto, eu me afastei. Eu tinha medo. Quando alguém botou a mão na minha filha, eu tinha medo que vão raptar ela. Mas aqui é país bom. O país mesmo é melhor. Com todos esses defeitos, (risos) o país é bom, filhinha.






P/2- Dona Roza, antes da gente entrar um pouco mais na fase do Brasil, eu queria que a gente retornasse um pouco e a senhora contasse um pouco sobre a sua história de vida, a sua adolescência, um pouco da sua memória nessa sua cidade. Como é o nome da cidade?

 

R- É cidade muito pequena. Nem está no mapa. Nem está no mapa.

 

P/2- Mas como é o nome dela?

 

R- Ataki.

 

P/1- Ataki, na Bessarábia.

 

R- É. Ataki. Bessarábia. Eu estudei lá numa cidade grande, perto dessa, estudei lá. Fiz ginásio, mas, entrei na faculdade, meu pai achou que eu tinha que casar, né. Aí, lá, Deus me livre se passa de 20 anos e não casa, não é. Aí, eu casei.

 

P/2- Mas era uma cidade com muitos judeus? Como é que era essa cidade?

 

R- Olha, lá era assim. Sábado não se abria, né. Só domingo. Mas domingo era dia de descanso dos romenos, né. Eu me lembro que eu e meu irmão, nós tínhamos uma... nós trabalhamos com cereais, que meu pai exportava cereais. Aí, se abria domingo, tinha multa. Depois, eu casei, não é.

 

P/1- Mas vamos mais devagar. A senhora está correndo demais. A gente quer assim o comecinho. Cada passo. A senhora vai passar muito tempo com a gente.

 

R- Eu estudei...

 

P/1- A senhora... conta um pouco a sua família. A senhora tinha mais irmãos?

 

R- Eu tinha. Nós éramos seis irmãos. Dois aqui no Recife, quatro éramos lá. Todos morreram. Só eu que fiquei.

 

P/1- A senhora é qual na escada? A senhora é que número na escada?

 

R- Eu sou a penúltima. A penúltima. Eu tinha dois irmãos no Recife, já faleceram. E os outros faleceram em câmara de gás. E eu me salvei.

 

P/1- E eram dois homens e quatro mulheres?

 

R- Não, não. São quatro homens e duas mulheres. Eu sou a penúltima. A última era uma mulher.

 

P/1- Como que era a sua família? Muito religiosa?

 

R- Minha família não. Tradicional. Não era religiosa não. Era tradicional.

 

P/1- Mas era tradicional que fechava aos sábados.

 

R- Ah, fechava sábado. Rosh Hashaná era Rosh Hashaná, Iom Kipur era Iom Kipur. Mas não era fanático. Não era fanático.

 

P/1- Mas Pessach tinha a louça dela toda, tudo, tudo separado?

 

R- Tinha. Minha mãe era meio religiosa. Minha mãe era. Tinha... Pessach tinha louça separada, não é.

 

P/1- Vocês comiam "kasher" em casa?

 

R- "Kasher". Certo "kasher". Que lá é mais fácil. Que o rabino vem, mata as galinhas em casa. Aqui... É isso. Assim eu levei a vida.

 

P/1- E vocês receberam uma educação judaica?

 

R- Eu falo judaica, escreve...

 

P/1- Hebraico? Ou Ídiche?

 

R- Não. Ídiche. Eu estudei no colégio hebraico. Eu sei falar próprio hebraico. Mas mais ídiche. Eu leio ídiche. Eu tenho livros em ídiche, eu leio ídiche. E eu me formei, não é.

 

P/1- Então, como é que foi a sua escolaridade lá?

 

R- Escolaridade era assim já... Lá já batia antissemitismo. Judia não tinha vez. Judia não... era em segundo lugar. Mas ainda estava bom. Porque não tinha Hitler, né. Mas judia era no segundo lugar. Eu até estudei segundo grau numa cidade, chama-se Soroki. E perto da nossa cidade.

 

P/1- Sororoca?

 

R- Soroki. Esquisito, né. (risos) E lá eu me formei. Estudei hebraico.

 

P/1- Mas era um colégio judaico também, em Soroki? Ou não?

 

R- Era. Hebreu brasileiro. Hebreu brasileiro. Hebreu. Hebraico. Estudei hebraico, estudei romeno. Antes eu falava russo. Depois proibiram falar russo, tinha que falar romeno. Aí, me formei lá, entrei na faculdade, mas meu pai não deixou.

 

P/1- A senhora chegou até a entrar na faculdade. O que que a senhora ia cursar?

 

R- Eu ainda não tinha definição que que ia fazer. Eu entrei, mal entrei, meu pai me tirou. Casei com um vizinho meu.

 

P/1- Foi casamento arranjado ou a senhora queria casar com ele?

 

R- Não, não. Queria casar. Não. Por amor. (risos) E tinha uma filha, não é. Ela até também e... Ela chegou com três anos e meio para cá. Ela é romena. Está naturalizada. Eu também estou naturalizada romena. Eu cheguei em 1940.

 

P/1- E a senhora se naturalizou quando?

 

R- Eu me naturalizei em 1953. E a minha filha também.

 

P/1- Mas antes disso. Ainda lá. A gente queria que a senhora descrevesse um pouco a cidade. Tinha sinagoga?

 

R- Tinha.

 

P/1- Quantas perto de casa?

 

R- Tinha sinagoga.

 

P/1- Era grande? Era bonita?

 

R- Era mais ou menos. Tinha judeus, sabe. E toda sexta-feira a gente fechava meio-dia e festejava sexta-feira noite e sábado. Uma cidade pacata...

 

P/1- Vocês iam para sinagoga, faziam Shabat na sinagoga ou não?

 

R- Não, não. Em casa. A cidade pacata, mas é limpinha. Tinha luz. Só tinha... tinha a sinagoga, tinha a igreja, tinha cinco, seis ruas. Só.

 

P/1- Então, uma cidade pequena assim ter uma sinagoga, é uma coisa importante.

 

R- Ah, tinha. Um templo grande.

 

P/1- Tinha comunidade grande. A senhora não tem idéia de quantas pessoas tinha na comunidade?

 

R- Eu não sei se chegou a 1200. Agora não tem ninguém lá. Agora tem pouca gente.

 

P/1- Será que são pessoas que voltaram para lá?

 

R- São pessoas que fugiram, que morreram na guerra também.

 

P/1- Então, era uma cidadezinha de umas cinco, seis ruas, mas tinha uma sinagoga, tinha um colégio judeu, colégio hebreu lá, não?

 

R- Não. Não. Tinha noutra cidade, onde eu estudei.

 

P/1- Mas naquela outra cidade, a senhora se mudou com a sua família ou a senhora ia todo dia e voltava?

 

R- Não, não. Eu morava lá. Porque era longe. Porque não tinha carros como aqui, né. Tinha cavalos, charretes. Então, eu morava lá. Eu tinha uma irmã caçula. Coitada, ela faleceu na guerra também. Câmara de gás.

 

P/1- Vocês moravam lá na casa de família ou num internato?

 

R- Morávamos na casa de família.

 

P/1- Na casa de família de vocês, né?

 

R- É. Casa de família.

 

P/1- A senhora tinha avó?

 

R- Olha, para ser franca, eu não conheci nem minha avó, nem meu avô, nem ninguém. Eu não conhecia não. Porque quando minha mãe casou com meu pai era Rússia. Depois, os romenos ocuparam Bessarábia, 1918, e virou Romênia, né.



P/1- E a família dos seus pais ficou na Rússia, ficou no lado russo?

 

R- Ficou todo mundo. Todo mundo morreu na guerra. Eu perdi minha família toda na guerra. Só eu me salvei. E não sei como.

 

P/1- A primeira guerra, a senhora se lembra de alguma coisa?

 

R- Não. 1914... A primeira? 1914? Não, minha filha. Eu tinha um ano de idade.

 

P/1- É. Mas de 1914 a 1918...

 

R- 1918 era a Revolução.

 

P/1- A senhora se lembra da Revolução?

 

R- Eu me lembro. Eu me lembro. Eu era criança. Tinha cinco anos, quatro, cinco anos, né. Me lembro porque todo mundo fugiu pro outro lado do... era um rio que chama Iester. Um rio. Então, tinha uma ponte, que a gente atravessou essa ponte, com bombas em cima e coisa. E todo mundo... Aí fechou. Depois, veio uma ordem, quem quer voltar, pode voltar. Mas nós não encontramos mais nada.

 

P/1- Ah, vocês chegaram a voltar mas...

 

R- Não encontramos. Tinha...

 

P/1- Tinha sido bombardeado?

 

R- Bombardeado. Bombardeado. Porque era... Foi Taista... Eu não sei se você tá, mas, aliás, meu neto estuda isso, que também se conta a ele que foi Tastran que... Ele fez a revolução e mataram perto da nossa casa. Mas depois, sabe, quando nós voltamos, não tinha nada para comer. Meu pai foi numa roça arranjar beterraba branca, porque lá tem beterraba branca, fez uma sopa de beterraba branca, farinha de milho, fez um angú e isso que nós comemos. Mas aos poucos a gente se recuperou outra vez. Até chegar essa guerra maldita. Essa guerra do Hitler, não é. Quando chegou a guerra do Hitler, eu já estava em Bucareste, morava lá. Mas lá piorou dia-a-dia. Piorou. Então, meu marido tinha dois irmãos, Bronstein, Alexandre Bronstein, tinha chamado para ir para lá. Aí nós fomos, tinha que visar passaporte, e eu já tinha uma criança de três anos e meio. Eu tenho uma filha de cinquenta e três anos.

 

P/1- A senhora casou quando?

 

R- Eu casei em 1934.

 

P/1- Conta como foi seu casamento, como é que foi a cerimônia.

 

R- O casamento era "chupá", se faz lá fora. Casei dia 3 de maio de 1934. E meu pai trabalhava com cereais, então, tinha um salão, sei lá, botaram um tapete de romenos e dançaram. Igual casamento ídiche que aqui não se vê mesmo. Só lá mesmo se vê. Era muito bonito.

 

P/2- Seu pai tinha uma loja, ele exportava cereais?

 

R- Exportava.



P/2- Ele comprava esse cereal onde?

 

R- Esses cereais vêm da nossa... em volta.

 

P/2- Da região que vocês moravam.

 

R- Exportava girassol. Exportava para lá mesmo. para Bucareste. Até para estrangeiro também. Girassol, tudo.

 

P/1- Vocês levavam uma vida folgada ou uma vida apertada?

 

R- Olha, nós não levávamos vida folgada não. Conforme tinha a fronteira Rússia e Romênia, depois de seis horas ninguém podia estar na rua. Que a gente não podia nem olhar para lá, porque eram brigas. Agora já estão... é tudo russo, não é. Mas a gente se acostumou.

 

P/2- Mas eu digo assim, na casa da senhora? A senhora...

 

R- Ah, tava vida boa.

 

P/2- A senhora tinha empregados, a senhora?

 

R- Tinha. Tinha. Agora não tem lá empregado.

 

P/1- Mas naquela época a senhora tinha, sua mãe?

 

R- Eu fui lá em 1978. Eu fui com meu filho. Visitar. A nossa casa ainda está lá. Mas... Meu filho disse: "Mamãe, como você viveu aqui?" Tinha uma vida difícil, na Rússia. Vocês conhecem Rússia. Agora já está mais folgado. Mas vida difícil. Mas em 1939, quando o hitlerismo entrou na... virou Europa toda, não. Já tinha ocupada a Tchecoslováquia, já estava marchando para România, então, nós fugimos. Fugimos com...

 

P/2- A família toda?

 

R- E eu, meu marido e a minha filha. Tinha três anos e meio. Mas nesse navio, minha filha, era para afundar. Afundou. Na hora quando nós subimos no navio, botaram salva-vidas em mim, meu marido e minha filha. Se acontecer uma coisa, para nos salvarmos. Minha filha falava russo, porque na casa dos meus pais se falava russo, né. Agora ela não sabe uma palavra em russo. (risos) Ela é formada. É isso. Ela é formada. Elas querem formar um ______. Filha mais velha. Ela se formou há 15 anos.

 

P/1- Moça bonita.

 

R- É. Aí, quando nós chegamos para cá, eu não gostei nada dessa vida. Estava muito quente. Não tinha ninguém. Ninguém. Minha filha aprendeu logo falar português, esqueceu o russo...

 

P/2- Mas a senhora falava que língua com ela em casa?

 

R- Russo.

 

P/1- Mas a senhora não manteve o russo?




R- Ela não. Eu estou mantendo. Ela não. Ela não. Não. Porque quando ela entrou no colégio, aprendeu logo português. Não falava mais russo não. Ela até hoje não me perdoa.

 

P/1- A senhora disse que ela foi sequestrada?

 

R- Ah, foi sim. Porque na fronteira da Hungria, na fronteira da Hungria, denunciaram meu marido. Porque ele fugiu da guerra. Ele já estava na guerra. Mandaram, deram ordem para vir daqui um ano, dois, três meses...

 

P/1- Mas ele era... ele tinha sido convocado para servir na guerra?

 

R- Sim. Tinha sido convocado.

 

P/1- Como judeu ele tinha sido convocado? Embora judeu tinha sido convocado?

 

R- Principalmente judeu. E quando nós fugimos, fomos denunciados na fronteira da Hungria. É duas horas da manhã, que nós pegamos trem, com 29 abaixo de zero, pararam o trem, mandaram sair o Bronstein. E nós descemos. Eram duas horas da manhã, de madrugada, e eu com criança no colo, com xale de veludo enrolada, aí, eu falei com eles em romeno: "Vocês tem filhos?" Aí eu vi que ele tava chorando. Aí, lá no Bucareste, no hotel, eu botei liras, não é. Aí, eu tirei tudo, disse: "Olha, isso é para você. Deixa meu filho." Os romenos gostam muito de dinheiro. Aí, ele deu ordem, nós pudemos ir. Ele me devolveu a filha. E nós viajamos, chegamos em Gênova. Tinha tanta gente...

 

P/1- Mas eu não entendi. O que que eles queriam fazer com sua filha? Eles queriam a sua filha ou queriam o seu marido?

 

R- Não. Eles queriam meu marido. Mas ele disse se meu marido não ia, eu levo sua filha. Mas meu marido, eu paguei dinheiro, eles soltaram meu marido e deu ordem pro trem viajar e nós fomos. Chegamos na Itália. E lá pegamos Conti Grande, o navio que em 1941, ele ficou retido aqui em Santos. Porque já não podia mais voltar porque a guerra já estava na Itália.

 

P/2- Como era o nome do navio?

 

R- Conti Grande. É navio de luxo. Ouviu falar no Conti Grande?

 

P/1- Eu viajei no Conti Grande.

 

R- Hein? Eu não sei se agora ainda tem.

 

P/1- Não. Tem um novo. Não é mais aquele não.

 

R- Não. Ele ficou retido em Santos porque já não podia mais voltar porque a Itália entrou em guerra. Se demorasse um dia...

 

P/1- A senhora viajou em que classe?

 

R- Olha, filhinha, eu não sei. Não me lembro. Eu sei que Conti Grande é um navio de luxo. Se segunda, se primeira, não me lembro. Que eu nem tinha noção se eu estava viajando, se estava voltando, se estava indo. Porque eu só pensava na minha família, que vão morrer na guerra. E um dia eu estava em cima... Como chama aquilo em cima?

 

P/1- Convés.

 

R- Convés. Eu passava mal, então eu vi os capitães com os binóculos assim, olhando. Não sabia, não entendi nada. Vi um navio com... virado assim, eu pensei... Foi um submarino, eu nunca vi um submarino. Se aproximou do nosso e mandou parar. Porque eles tinham ordem da Inglaterra para interditar nosso navio porque tinha no cabine tinha um casal alemão que ia afundar nosso navio. Aí arrebentaram a porta e acharam esse casal e tiraram. Aí, desde aquela hora, nós viajamos direitinho. Viemos para Brasil. Dia 2 de março.

 

P/1- A senhora se lembra do nome desse casal?

 

R- Casal de...

 

P/1- É. De alemão.

 

R- Não. Ninguém sabia.

 

P/1- E por que que os alemães teriam interesse em afundar um navio de turismo?

 

R- Isso eu não sei. Porque viajavam muitos judeus.

 

P/1- É, mas eles morreriam juntos.

 

R- Não. Eles não iam morrer juntos. Porque eles estavam com submarino. Bombardearam e iam, voltaram de submarino. É política, minha filha. É política. Mas graças a Deus estou aqui. (risos)

 

P/2- E a senhora chegou foi em Santos ou foi direto no Rio de Janeiro? Quando a senhora chegou no Brasil.

 

R- Não. O navio chegou aqui. Depois ele foi para Santos. Mas não voltou mais.

 

P/1- Mas a senhora ficou logo no Rio, né, desembarcou no Rio.

 

R- Fiquei no Rio, na casa da minha cunhada.

 

P/1- Para conseguir um visto para vir ao Brasil foi difícil?

 

R- Foi difícil antes da guerra, quer dizer, na hora da guerra. Mas meu marido tinha vistos antes da guerra. Era válido.

 

P/1- Já tinha visto. Vocês já pensavam em vir para o Brasil?

 

R- Já pensava em sair.

 

P/1- Seus irmãos tinham vindo ao Brasil em que ano?

 

R- Olha, meus irmãos, eu tinha dois irmãos, eles já estavam aqui desde 1926, 1927, esses irmãos.

 

P/1- Então, eles que tinham mandado o pedido para vocês virem para o Brasil, né?

 

R- Foi.

 

P/1- E eles já estavam morando em Recife? Eles sempre moraram em Recife?

 

R- Eles moravam em Recife. Estavam.

 

P/1- E eles faziam o que lá?

 

R- Um tinha lojas de móveis. Tinha uma rua, ele faleceu já. Vocês conhecem Recife? Rua da Imperatriz, Simon Naslavsky. Tinha uma cadeia de lojas de móveis. E o outro não tinha nada. O outro era, assim, estudioso. Ele só estudava. Eram conferências, eram mulheres. Mulheres. Só tenho dois sobrinhos.

 

P/1- Qual o nome do seu irmão?

 

R- Naslavsky. Simon Naslavsky.

 

P/1- E o outro?

 

R- Abraão Naslavsky.

 

P/1- O seu nome de solteiro então é Naslavsky?

 

R- Naslavsky.

 

P/1- E o seu marido não quis ir para Recife para ficar sendo...

 

R- Não, porque ele tinha dois irmãos aqui. Eles tinham aqui "A Vitoriosa", casa de modas. E nós ficamos aqui. Fomos na pensão e .....

 .

P/1- Aonde que era essa pensão?

 

R- Essa pensão era na rua Marquês de Abrantes. Até hoje tem um edifício lá. Pensão da dona Ana (risos)

 

P/1- Pensão da dona Ana?

 

R- Não. Primeiramente nós moramos na casa da minha cunhada.

 

P/1- E ela morava aonde?

 

R- Morava no Catete, numa avenida. Acho que essa avenida ainda tem. Tá lá, não sei. Não passo lá nunca. Minha cunhada também faleceu. Eu tenho mais um cunhado em Petrópolis. Ele tem uma fábrica. Tecelagem Regina. O nome da minha filha caçula. Mais um cunhado. Ele veio com a gente. Ele, estudante da Tchecoslováquia, engenheiro. Ele tem uma fábrica de estampas.

 

P/1- Irmão do seu marido?

 

R- Irmão. Tá vivo.

 

P/1- Seu marido tinha quantos irmãos?

 

R- Três irmãos. Com o meu marido, quatro.

 

P/1- Todos homens?

 

R- Homens. Tinha uma irmã que faleceu na guerra. Na guerra, com crianças.

 

P/1- Ele era seu vizinho em que cidade?

 

R- Eu não sabia uma palavra em português. Mas conforme o romeno, língua latina, não é, e português também língua latina eu paguei... ________

 

P/1- Não. Obrigada.

 

R- Aí, eu comecei comprar jornal, ler jornal. Ainda fala carregado porque sotaque nunca vai sair. Mas eu falo. Eu falo, eu leio. Me adaptei. Tantos anos, né, minha filha. 47 anos.

 

P/1- Mas eu queria voltar ainda a sua família e a família do seu marido. Vocês eram vizinhos? Como é que era? Ele morava num prédio?

 

R- Ah. Lá não tem edifícios não minha filha. Só tem casas, né. Eles tinham uma casa de tecido. Por atacado e a varejo. Aí ele... Eu tinha mais uma irmã, nós saíamos sempre juntos. Ele fez exército lá na România, junto com meu irmão, e ele era... Nós saíamos juntos. E casei com ele. Primeiro namorado.

 

P/2- Como é o nome?

 

R- David Bronstein. Ele faleceu...

 

P/1- E na sua rua moravam só judeus?

 

R- Não. Onde meu marido morava tinha só judeus. Onde eu morava era retirado. Como se fosse aqui Barra da Tijuca. Retirado. Mas sempre nos encontramos. Lá tinha um clube, tinha uma biblioteca ídiche.

 

P/1- Nessa cidade Ataki ou na sua?

 

R- Ataki. Ataki. E lá a gente se... Coitada, minha irmã faleceu lá.

 

P/1- Mas a senhora falou muito no antissemitismo que a senhora sentiu já na época. A senhora sempre sentiu antissemitismo, em todas as épocas?

 

R- Sempre. Lá tinha antissemitismo em todo... Judeu não podia entrar na faculdade. Judeu...

 

P/2- Em Bucareste?

 

R- Não, lá... Em todo lugar. Não só Bucareste. Não podia. Difícil era o judeu que era um médico, um engenheiro. Não podia. Antissemitismo ainda... sempre era. Até hoje tem antissemitismo.

 

P/1- Os judeus moravam em guetos? Eram confinados ou não?

 

R- Não. Esse já foi depois da minha vinda para cá. Judeus eram em gueto em... Meus irmãos morreram na câmara de gás. Bessarábia.

 

P/1- Eles não tentaram sair? Por quê que eles não saíram?

 

R- Não podiam. Não podiam. Não tinha chamada. Eu tentei mandar chamada. Eu mandei. Mas não deu tempo para vir. Não deu tempo para vir. Olha, eu vou lhe dizer uma coisa. Aqui é um paraíso. Com toda essa porcaria que tem aqui, um paraíso. Porque quem vem de lá... Aqui se pode ficar com uma empregada. Você pode sair na rua. Aliás, eles tiram relógios. (risos) Mas foi esses últimos tempos. Mas quando eu cheguei… Sabe que quando eu cheguei tinha 500 carros aqui no Rio de Janeiro. Só 500 carros. E Copacabana era um bairro de luxo, não é. Eu morava no Catete. Agora Copacabana...

 

[troca de fita]

 

P/1- Agora, em Ataki... já não era mais uma cidade de cinco ruas. Era uma cidade maior, com vários bairros...

 

R- Não. Ataki não. Ataki era cidade pequena. Soroki era grande. Ataki era pequena. Era fronteira com Rússia.

 

P/1- A senhora ficou em Ataki quantos anos? Até que idade?

 

R- Até casar.

 

P/1- A senhora não foi para Soroki para estudar?

 

R- É. Mas eu vinha para casa sempre. Férias.

 

P/1- A sua família, então, nunca se mudou para Soroki não. Sempre morou em Ataki. Só a senhora que foi para estudar. E voltava o quê? Fim de semana?

 

R- Às vezes fim de semana, às vezes uma vez por mês. Férias eu voltava. Eu tinha mais uma irmã que estudou comigo, junto.

 

P/1- E o que que vocês faziam para se divertir?

 

R- Tinha clube.

 

P/1- Clube judeu? Só de judeu ou não?

 

R- Não. Mistura.

 

P/1- E os judeus podiam, puderam frequentar livremente?

 

R- Podiam. Podiam. Antes do ano 1939 podiam entrar. Depois, virou tudo antissemitismo.

 

P/1- Mas a senhora sentia alguma forma de antissemitismo quando ia pras festas, quando ia pras reuniões do clube ou não?

 

R- Não. Não sentia não. Só sentia em 1939, quando nós pegamos o trem para ir para a Itália, subiu um antissemita e disse assim: quem é judeu, vou cortar língua. Mas a minha filha falava russo. Então, passamos.

 

P/1- E como ele via que eram judeus?

 

R- Ele não notou que...

 

P/1- Mas ele fez alguma coisa com outros judeus?

 

R- Ele tirou muita gente do trem. Tirou sim.

 

P/1- Mas pelos papéis podia ver. Com seu nome não tinha erro.

 

R- Não, eles não olharam papéis não.

 

P/1- Foi só pela cara e pela língua.

 

R- Foi só pela cara. Pela língua. Porque alemão e ídiche é muito parecido. Mas minha filha como chorava, falava em russo, então...

 

P/2- Mas esse homem era um civil, era um popular ou era um...

 

R- Militar, antissemita. Um militar antissemita. Lá era antissemitismo em todo lugar. Na cidade pequena não é tanto como na cidade grande.

 

P/1- Em Soroki a senhora sentia mais do que em Ataki?

 

R- Sentia sim.

 

P/1- Em Bucareste mais ainda?

 

R- Ih, Bucareste então... Muito.

 

P/1- Eu queria tentar definir de que maneira a senhora sentia o antissemitismo.

 

R- De que maneira? Olha, você sabe que em 1936, 1937, nós íamos sempre a Bucareste, meu marido comprava fazenda lá. Então meu marido comprou um rádio. Naquela época, o rádio era como televisão. Não dessa daqui. (risos) É intermédio disso. Desculpem os copinhos. É de casa. Faz favor.

 

P/2- Obrigada.

 

R- Você quer gotas?

 

P/2- Não, não.

 

R- Você toma sem nada?

 

P/2- Sem nada.

 

R- Que beleza. Ah, é? Toma sem açúcar.

 

[interrupção]

 

R- Nós escutamos pelo rádio que antissemitismo...

 

P/2- O quê que se falava? Era um veículo, né, de acesso a todos, o rádio, mas o que que se falava? Qual era o tipo de propaganda veiculada pelo rádio?

 

R- Propaganda que eles fizeram, eles queriam... Nossa cidade, que era pequena, se juntaram, até a professora minha, que eu estudei no colégio primário, se juntou com pau, com tudo, para atacar judeus.

 

P/1- Mas atacar fisicamente ou atacar... ?

 

R- Fisicamente, para atacar judeus. Que judeu não tinha vez. Isso foi em 1939, quando começou a guerra.

 

P/1- Mas a senhora saiu em 1938, né.

 

R- 1940. 1940. Que já estava ocupada Polônia e Tchecoslováquia. Eles estavam marchando para Romênia. Aí, nós nos mandamos. Não é só nós. Muita gente. Muita gente foi embora.

 

P/1- Mas então, até 1939, vocês podiam ir a teatro se quisessem?

 

R- Já... Olha, antissemitismo na verdade, na verdade, começou em 1933. O Hitler tomou posse em 1933, na Alemanha. E desde 1933 espalhou-se no mundo todo, não sei aqui, mas lá, se espalhou antissemitismo. Em 1936, Hitler tomou posse como presidente, como... que era o maior né. E ele mandava. Você vê quantos judeus - está escrito, com certeza aqui, quantos judeus morreram inocentes. Eles tinham coragem de juntar crianças de idade de até três, quatro anos, botar no navio e soltar o navio no mar. Agora, a juventude daqui não acredita. Quando está dando... de guerra, essas coisas, Holocausto, isso de guerra, eu não estou vendo. A mim não interessa. Mas à juventude deve interessar.

 

P/1- A senhora não acompanha porque...

 

R- Eu não acompanho porque me toca profundamente. Eu perdi família. Eu perdi a família. Como é que posso acompanhar? Mas isso que eles mostram lá nos retratos, tudo, na televisão, tudo é verdade. Agora, a juventude não acredita.

 

P/1- Por que que a senhora acha que a juventude não acredita?

 

R- Porque eu estou vendo muitos, que a juventude acha que não é, foi, não é verdade. Meu filho me pergunta: "Mamãe, foi assim mesmo?" "Foi." Mas ele nasceu aqui. Ele nasceu aqui. Saul Bronstein. Engenheiro. Ele nasceu aqui. Ele não passou isso. Agora, minha filha mais velha, ela já passou comigo muitos meses de fome, aqui mesmo. Que no começo eu não tinha nem o que dar para ela. Comprava maçã, dividia em quatro pedaços para dar para ela um pedaço cada dia. Que ela já sentiu comigo. Eu não tinha nada. Até que meu marido começou a trabalhar, eu não tinha nada para dar para ela. Ela começou ir no colégio, colégio do governo. Colégio... Como chama? Aqui no Botafogo. Na frente da Igreja. Era a primeira aluna.

 

P/2- Qual é o colégio que a senhora está dizendo?

 

R- Colégio México. Colégio México. Ela começou ir no Colégio México. Não falava bem português, mas ela pegou logo.

 

P/2- Mas vocês não... Quer dizer, a senhora viajou num navio considerado um navio de luxo. Mas chegou no Brasil com pouca reserva de dinheiro?

 

R- Nada. Nada.

 

P/1- E até antes. A senhora fugiu de Bucareste com a roupa do corpo. E tinha algum dinheiro? Tinha jóias?

 

R- Nada. Quem tinha?

 

P/1- Nada. Então, como conseguiu pagar a passagem?

 

R- Olha, você está vendo essa casa? Deixei a casa assim, arrumada. Tinha que fugir. Porque se ficava lá, eles matam. Ia estar morta hoje, se eu não vinha pro Brasil.

 

P/1- Como que a senhora conseguiu comprar sua passagem, fazer seus papéis? Isso tudo custa dinheiro. Fazer passaporte.

 

R- Isso ainda foi lá. Que ainda tinha reserva das lojas.

 

P/1- A senhora já tinha comprado passagem, tudo?

 

R- Passagem. Nós levamos dinheiro. Eu dei dinheiro pro soldado para ele soltar minha filha.

 

P/2- E os negócios do seu marido? Também foram abandonados assim?

 

R- Os negócios do meu marido, ele deixou por conta dos pais. Meu pai e pai dele. Mas... Foram assaltados, pronto. Não tinha negócio, não mandaram dinheiro, nada.

 

P/1- Os seus pais moravam ainda em Ataki ou também tinham mudado para Bucareste?

 

R- Não, meus pais moravam em Ataki. Os pais dele também.

 

P/1- Todos continuaram morando em Ataki. Ninguém mudou para Bucareste, nada.

 

R- Não. Só eu.

 

P/1- Então, como que eles podiam tomar conta dos negócios? Era para vender e poder mandar o dinheiro?

 

R- Não, porque meu marido tinha negócio no Ataki. Mas não adiantou. Não, Bucareste, ele liquidou. Ele liquidou. Mas no Ataki que tinha meu marido. O pai tinha as lojas. Tinha nada. Nós tínhamos dinheiro. Mas nós gastamos na passagem. Só. E o resto nós levamos, reservamos para poder... Em liras italianas, para poder... E eu tinha que dar tudo. Chegamos aqui sem um tostão. Com a vida só. (risos)

 

P/2- E receberam, então, ajuda dos familiares que estavam no Brasil?

 

R- Mas meu marido não era tipo de ajuda não. Ele não... ele não admitia que alguém ajuda ele. Logo pegou aquela coisa na cabeça, começou a trabalhar, e fez algum dinheiro. E depois ele comprou uma loja, na 7 de setembro. Chamava Polirosa. Meu nome é... Polirosa. Ela chama Polea, minha filha. Depois ele comprou uma loja, até que ele comprou a Samaritana. Não é do seu tempo a Samaritana. Na cidade. Samaritana, que tinha aviamento de vestido. Não é seu tempo, não. Samaritana...

 

P/2- Ele tinha sócios na loja?

 

R- Não. Não. _____ Samaritana. Depois, ele vendeu a Samaritana e entrou na construção. Aí, faleceu. Ele já está morto há 21 anos.

 

P/1- E a senhora não quis casar de novo?

 

R- Eu casei. Casei, mas meu marido faleceu também, já tem cinco anos.

 

P/1- E o segundo marido, que nome?

 

R- Meu segundo marido era da minha cidade também. Que a mulher dele era minha amiga, faleceu, casei de novo. Vivi quase 10 anos com ele, faleceu. Derrame cerebral. Agora...

 

P/2- Como é o nome dele?

 

R- Jacob Tchkut. Ele não tinha ninguém. Não tinha filhos, não tinha irmãos, não tinha ninguém. Jacob Shilkrot.

 

P/1- E a senhora conhecia ele já da sua cidade ou a senhora passou a conhecê-lo aqui?

 

R- Não. Eu conheci ele aqui. Porque ele veio antes. Nós nos damos. Saímos, jantamos juntos. Eu foi para Israel, aí, quando voltei... Já foi quatro vezes em Israel.

 

P/1- A senhora tem família lá? Tem alguém?

 

R- Eu tenho sim. Tenho. Que fugiram da guerra também.

 

P/2- A senhora tem uma filha do primeiro casamento e o Saul é do segundo?

 

R- Não, não. Desse casamento não tenho ninguém. Eu tenho três filhos. Essa mais velha, a Polea, ela é médica, é fisioterapeuta. Se formou. Tenho meu filho engenheiro, e minha filha é professora de francês. Ela amanhã vai entrar em férias. E tenho três... Cinco netos e um bisneto.

 

P/1- Que bacana. Os netos são filhos de quem?

 

R- De meu marido, o primeiro.

 

P/1- Não, não. Os netos. Os netos são filhos...

 

R- Olha, meu filho tem dois.

 

P/1- Como é o nome do seu filho?

 

R- Saul Bronstein. Ele tem... ele casou com uma brasileira, né, não é ídiche não. Tem um filho de 17 anos e outro de 15. Minha filha tem... mais velha, tem dois filhos. O Alexandre Maurício, trabalha na Globo. Essa "Mandala" que se deu, essa abertura que deu, tudo, é dele, ele que fez. E Sílvia. Minha neta, ela teve neném agora. Tem três meses. Ela estudou na Itália, estudou nos Estados Unidos e... Olha aqui.

 

P/1- Que beleza de moça.

 

R- Ela é linda. Essa é minha filha mais velha. E meu genro. Sadcovitz. E esse menino, ele também está casado. Tá casado... Eu vou lhe dizer a verdade. Eu não me meto, mas na Europa não acontecia isso. O meu neto mais velho, esse está casado. Casou nos Estados Unidos, na...

 

P/1- No consulado.

 

R- Consulado brasileiro, e aqui casou em ídiche ______ tudo. O outro, malandro. Ele trabalha no Globo. Ih, se ele vai escutar que eu disse malandro... Eu chamo ele de malandro. Mora com uma médica e trabalha na Globo. Essa abertura que deu na "Mandala", tudo, é dele. Alexandre Sadcovitz. E minha filha caçula tem menino, de 12 anos, que veio depois de 10 anos.

 

P/1- Qual é o nome da sua filha caçula?

 

R- Regina Tenenbaum. Ela é professora de francês. Amanhã ela já vai entrar em férias na Aliança Francesa.

 

P/1- Aqui a senhora procurou manter as suas tradições? Como que a senhora organizou a sua vida?

 

R- Eu aqui sou tradicional. Pessach, Rosh Hashaná, Yom Kipur, esses feriados nossos, judaicos, eu que dou jantar. Aliás, minhas filhas ajudam e eu dou.

 

P/1- A senhora respeita Pessach inteiro? A senhora não come, não almoça?

 

R- Eu não respeito não. Quem passou por tanto aborrecimentos não respeita não. Come Pessach, mas come pão também e meus filhos também. Só minha neta que ela casou... A minha filha casou com religioso. Ele não é religioso, mas os pais são religiosos. Então, ela come Pessach, assim. E minha neta casou com o filho da Mademoiselle Modas, Dick. Eles são alemães. Minha neta vai Rosh Hashaná na sinagoga, Yom Kipur, ela jejua. E ela...

 

P/1- Ela frequenta que sinagoga?

 

R- A ARI. Ontem... Ontem não, anteontem, que tem terceira idade, que foi lá. Falei com a Silvia Becker. Ela disse que é memorial que estão fazendo da ARI, não é? É. Eu frequento.

 

P/1- A senhora frequenta sempre esse grupo as terças-feiras?

 

R- Terças-feiras.

 

P/1- E como é que a senhora sente? A senhora gosta?

 

R- Adoro. Melhor que ficar em casa. Anteontem esse Nahom, Nahom...

 

P/1- Milton Nahon.

 

R- Milton Nahon, ele deu... ele falou. Vai ter votação, não é, dia 3 de julho. E outra terça-feira vai ter Gerson Berger. Mas está bom. Está melhor que... Eu trabalho nas Pioneiras há 20 anos. Vai fazer 20 anos que eu trabalho. Aliás, hoje, 2 horas, tem um painel na H.Stern. Aí, vou no painel.

 

P/2- Qual é o trabalho que a senhora desenvolve?

 

R- Nas Pioneiras? Nós fizemos tudo, minha filha. Estamos fazendo empreendimentos, por exemplo, cada... Pioneiras tem 20 grupos. Cada grupo tem uma cota para dar pra... trocar em dólares e mandar para Israel, né. Nós temos uma cota de 300 mil. Então nós já fizemos dois empreendimentos. Nós fomos para Poços de Caldas, que sobrou para gente 48 mil. E em carnaval nós fomos Jacaraípe. Jacaraípe é Vitória. Também sobrou a mesma... Agora, dia 7, vamos fazer outro empreendimento. Um jogo, um chá-biriba, que sobra também, para completar a cota. Nosso grupo de 26. Nosso grupo. Eu já trabalho tem 20 anos.

 

P/2- Mas é um trabalho de ajuda a imigrantes? É um trabalho...

 

R- Não, nós também... um trabalho de ajudar Israel para fazer creche para criança pobre. Mas você sabe que não chega. Porque São Paulo, Rio, Recife estão dando, mas é pouco. Que vem mesmo mais é dos Estados Unidos. Porque a gente faz campanha. Outro dia nós fizemos campanha, também. Mas vai pouco.

 

P/1- A senhora se ligou logo às Pioneiras? Como que a senhora se entrosou na comunidade judaica aqui no Rio?

 

R- Eu sempre fui da comunidade judaica. Eu trabalhava no Lar dos Velhos, eu trabalhava no "Froin Farain". Mas meu marido não deixou eu trabalhar. Ele disse se... Ele não gostava.

 

P/1- Isso a partir de quando? Em que ano?

 

R- Em 1938. Ele faleceu em 1937. Em 1938, eu...

 

P/1- Não. 1948.

 

R- Não. 1967. Ele faleceu em 1967. Em 1968, aí, me convidaram para entrar nas Pioneiras, entrei e estou até hoje. É muito bom.

 

P/1- Antes a senhora não participava de nada?

 

R- Eu participava. Mas meu marido não gostava.

 

P/1- Porque que ele não gostava?

 

R- Sei lá. Tinha ciúmes. Não gostava. Ele não gostava.

 

P/2- E no Brasil, a senhora sentiu algum tipo de antissemitismo em algum período, no Brasil?

 

R- Eu até hoje não sinto. Eu até hoje. Meu filho diz assim: "Mamãe, eu não sinto antissemitismo." Ele não sente. Eu tenho uma nora, que ela é maravilhosa. Ela é neutra. Aliás, ela é mais para Israel. Quando eu faço jantar, almoço, eu gosto... sabe o que é esse "geflugeltefish"? Ela gosta. Meu filho diz que ela faz melhor que eu. Então, ele não sente. As crianças são... como é que chama?

 

P/1- Circuncisadas.

 

R- Ela que fez questão. Ela fez. Eu estava em Israel quando nasceu meu primeiro neto dele, aí, eu vim correndo. Mas ela não... Ela é professora. É professora em três faculdades. É um amor.

 

P/2- Como é o nome dela?

 

R- Lídia. Lídia Bronstein. Casaram no civil. Não sinto nada. Eu não sinto nada antissemitismo. Só sinto e... Aqui só tem... ladrões. Isso não é antissemitismo. Mas tem antissemitismo aqui. Se tem, tem.

 

P/1- Como que a senhora acha e sente?

 

R- Acha, porque eu recebo Resenha Judaica. Então, eu estou lendo que em São Paulo assaltaram... assaltaram não, bombardearam uma sinagoga. Tem escondido. Mas tem. Por isso nós precisamos de um deputado ídiche entre... Não é? Você é sefaradim? Você também? Eu me dou muito bem com os Sefaradim. É a mesma coisa. Sefaradim é mais, mais religioso que...

 

P/1- E a ARI, a senhora se filiou a ARI quando?

 

R- Eu me filiei a ARI, que a Sílvia é amiga da minha filha, ela telefonou para eu ir lá, experimentei e gostei. E já vai fazer 3 anos.

 

P/1- Ah, foi só agora. Antes a senhora não frequentava a ARI?

 

R- Não. Não tinha.

 

P/1- Não, mas à sinagoga, a senhora ia?

 

R- Sinagoga não. Não.

 

P/1- A senhora não ia para sinagoga. Que sinagoga a senhora ia?

 

R- Sinagoga, quase nunca. Desde quando meu marido faleceu, não vamos a sinagoga.

 

P/1- Quando ele era vivo?

 

R- Quando ele era vivo, fomos no Templo. Templo.

 

P/1- Vocês participaram da fundação do Templo?

 

R- Eu não sei. Fundação era antes de eu chegar. Agora?

 

P/1- Não. Era 1930 e pouco.

 

R- Não. Eu não estava aqui.

 

P/1- Mas como ele foi construído, levou anos e tudo.

 

R- Nós tínhamos lugares lá. Tudo escrito, no Templo. Agora não.

 

P/1- Seus filhos fizeram... seu filho fez Bar-Mitsvá lá?

 

R- Meu filho fez no Templo Bar Mitsvá. Agora meu neto vai fazer. Esse ano, dia 30 de março, ele vai fazer, no CIB. Ele já está se preparando. Ele está no A. Liessin. Colégio A. Liessin.

 

P/1- Seus filhos estudaram em colégio judaico?

 

R- Estudou essa, a Regina, a caçula. Estudou no A. Liessin. Fez até ginásio lá. Mas faculdade ela já... Depois ela fez... Ela está lá na... Professora na Aliança Francesa, ela fez. Hoje ela é professora.

 

P/1- E a senhora se casou, quando se casou pela segunda vez, a senhora se casou no religioso onde?

 

R- Só no religioso. Em casa.

 

P/1- Ah, em casa. Fez o casamento em casa? Que bacana. Quem foi que fez o casamento?

 

R- Foi um rabino. Eu não estou vendo mais ele. Que morava no Catete. Eu não estou vendo mais. Ele disse assim: "Olha, eu faço casamento e desfaço casamento." Aí, encontrou meu marido, disse assim: "Como é? Tá bom? Se não tá bom, tem outra." (risos) Mas ele... não estou vendo mais ele não.

 

P/1- Não, até para casamento não precisa de rabino. É só ter a "Minian".

 

R- Não, mas tinha "chupá".

 

P/1- E seus filhos como que reagiram? A senhora já tinha filhos, netos, tudo.

 

R- Muito bem. Ah, mas não falaram nada. Estavam solidários comigo. Até que eles gostaram de eu não ficar sozinha. Mas, infelizmente, ele faleceu.

 

P/1- A senhora lia muito. A senhora lê Scholem Aleichem, lê em ídiche. A senhora sempre acompanhou o surgimento desses escritores iídiches ou a senhora descobriu eles aqui no Brasil? Como que foi?

 

R- O quê?

 

P/1- O Scholem Aleichem...

 

R- Scholem Aleichem, minha filha, é cômico. Eu tenho em ídiche. Eu sempre leio ídiche.

 

P/1- Mas a senhora já tem de lá ou a senhora passou a ler aqui?

 

R- Não. Aqui. De lá eu não trouxe nada.

 

P/1- Mas a senhora já lia lá?

 

R- Eu já lia. Eu estudei no colégio iídiche.

 

P/1- É. Mas o que queria saber, a senhora frequentava, a senhora disse que tinha uma biblioteca ídiche, a senhora frequentava essa biblioteca?

 

R- Tinha sim, muito boa. Tinha.

 

P/1- A senhora recebia jornais?

 

R- É.

 

P/1- E a senhora acompanhava esses jornais?

 

R- Esses jornais não vinham de lá, vinham de Bucareste. Vinha de lá. Mas eu tenho em ídiche. Tenho. Eu leio em ídiche. Eu não pego no sono até que não vou ler um livro. Eu não pego no sono.

 

P/1- E a senhora hoje lê o quê? Para pegar no sono, o que que a senhora lê?

 

R- Para pegar no sono eu leio qualquer coisa. (risos)

 

P/1- Lê em português?

 

R- Ah, leio em português muito bem.

 

P/1- Agora, para se divertir ou para ter prazer na leitura, o que que a senhora lê?

 

R- Qualquer coisa. Olha, eu tenho um livro agora, estou lendo um livro. Porque eu não gosto de televisão. Está dando as novelas bestas, não tem nada. Ela fica até meia-noite vendo. E eu fico lendo. Eu tenho diversos livros aqui, vou te mostrar. Tem da terceira idade, livro. "A idade de cada um". Sabe. Clarice Lispector, a irmã dela, escreveu esse livro. Até me deu autógrafo. Aqui. E "A felicidade de cada um" já quase acabei. Fernando Sabino também acabei. Eu estou lendo. Leio jornal. Agora, para ler jornal, prefiro livro, porque jornal só anda... só coisa de ruim. Não é? Só domingo eu compro jornal.

 

P/1- E a faculdade, Dona Roza? Eu queria ainda voltar a sua escolaridade. A senhora fez toda a sua escolaridade em Soroki, fez o ginásio. Lá tinha científico? Ou um normal? Como que era?

 

R- Tinha normal. Tinha sim. Eu fiz.

 

P/1- Fez normal. E aí, depois, para entrar na faculdade, tinha um concurso tipo vestibular ou entrava direto?

 

R- Era. Tinha vestibular. Tinha. Mas não era igual aqui. A gente na hora fez. Não é igual aqui.

 

P/1- Mas fazia uma prova para entrar?

 

R- Fazia uma prova, entrava. Não ia entrar se fosse em 1939, que já era antissemitismo.

 

P/1- Que já era proibido já entrar.

 

R- Já. Nem pensar. Judeus sofreram muito lá. E ainda estão sofrendo.

 

P/1- Agora, uma vez que a senhora fez a prova... Isso aqui era que ano? 1930 e...

 

R- Não. Isso era 1929. 1930.

 

P/1- Então, tinha faculdade de medicina, tinha várias faculdades. A senhora escolheu fazer a prova em que faculdade?

 

R- Eu entrei na faculdade, mas eu não tinha definido ainda.

 

P/1- Mas podia entrar em qualquer faculdade? Quer dizer, a senhora entrou numa faculdade letras ou de ciências humanas...

 

R- Não, não. Na faculdade... Eu nem me lembro, sabe. Nem me lembro como chamava aquela faculdade. Mas eu não defini ainda o que que vou querer. Mas eu estava há pouco tempo na faculdade. Eu casei logo.

 

P/1- Mas a senhora chegou a entrar e a cursar alguma coisa ou não?

 

R- Um mês.

 

P/1- E casada a senhora não podia continuar? Seu marido não queria também?

 

R- Ah, não, porque eu ajudei na loja.

 

P/1- Ah, bom, aí a senhora passou a trabalhar, ajudar. Agora está entendido. Aí, a senhora passou a ajudar o seu marido, trabalhar na loja. O seu pai, a senhora já tinha ajudado na loja ou não?

 

R- Meu pai não tinha loja. Vendia cereais. Ele exportava.

 

P/1- Ele só tinha os contatos diretos, não tinha loja.

 

R- O pai do meu marido tinha loja. Loja de fazendas. Por atacado e a varejo. Casimira. Que lá é frio, lá se usa só casimira. Mas não tinha...

 

P/2- A loja do seu marido era de tecidos?

 

R- Tecidos.

 

P/1- E aqui, então, ele veio e passou a vender tecidos, começou como ambulante?

 

R- Ambulante. Mas depois ele alugou uma loja e vendia.

 

P/1- Onde é que ele trabalhava mais? Onde é que ele começou o trabalho dele, a situação dele? E como que ele fez a freguesia dele?

 

R- Aqui? Ele tinha uma loja na 7 de setembro.

 

P/1- E, mas isso antes dele ter a loja?

 

R- Mas ele fez ambulância. Não tinha fregueses. Era ambulante.

 

P/1- Mas ele não tinha uma freguesia certa que ele ia?

 

R- Não. Antigamente, nem é do seu tempo, se vendia um corte a prestação, todo mês recebia dois cruzados, dois cruzeiros, naquela época. Não tinha nem cruzeiros, não sei.

 

P/1- Era mil réis ainda.

 

R- Nem sei que que tinha naquela época. Mas depois, ele não era acostumado de andar na rua, ele andava com um terno de casimira, no calor, né, morrendo de calor. Aí, ele comprou uma loja, e a loja... comprou outra, aí, depois, era Samaritana. Depois, ele vendeu e construiu edifícios.

 

P/2- Ele chegou a estudar no Brasil, não?

 

R- Não.

 

P/1- E lá, ele tinha estudado?

 

R- Ele estudava. Mas ele não era engenheiro. Era construtor. Construtor é uma coisa, engenheiro é outra coisa.

 

P/2- E sempre sozinho ou ele tinha sócios, tinha outras pessoas?

 

R- Não. Não. Ele gostava de trabalhar sozinho. Sempre sozinho.

 

P/1- A senhora tem alguma coisa ainda que se lembra, que gostaria de contar?

 

R- Não, minha filha. Eu posso dizer que vocês estão fazendo um trabalho muito bonito. Mas... Que não me compromete uma coisa. Que tudo que eu falei é pura verdade. É pura verdade. Graças a Deus que estou aqui. Eu não tenho ninguém. Não tem irmãos, não tem irmã. Só tenho meus filhos e meus netos. Só mesmo. A minha filha mais velha, eu chamo ela de mãe, que ela se encarrega de tudo. Ela me protege demais. E eu não posso me queixar dos outros filhos também. Só isso. Graças a Deus me adaptei aqui no Brasil. Para ir lá para Europa, nem pensar. Nem no sonho. Já viajei...

 

P/1- A senhora voltou para visitar?

 

R- Já. Já. Já viajei muito. Que nós tínhamos uma loja de aviamento, tinha que comprar. E Walter Pinto, do Recreio, comprava aqueles aviamentos de vestidos, rendas, tudo. Então, de 10 em 10 dias nós tínhamos que ir para Europa. Meu marido foi para Calais, perto da França, comprou a renda "guipure", e eu fiquei na França. Trouxe essa coisas todos, esse relógio, é tudo de lá.

 

P/1- Isso também são peças muito bonitas.

 

R- Isso foi em 1950, 1952. E agora, na minha idade, eu só quero aproveitar. (risos)

 

P/2- Eu só gostaria de perguntar uma coisa para senhora. No período da guerra, a senhora... A senhora veio em 1940 pro Brasil, né?

 

R- Já estava a guerra.

 

P/2- Já estava a guerra, né. Durante esse período, a senhora teve algum contato, a senhora recebia cartas, a senhora recebia notícias?

 

R- Não. Nada. Cortou. Cortou tudo. Tinha nada.

 

P/1- O que eu gostaria ainda que a senhora contasse seria a sua fuga. Eu acho que falta, deve ter coisas assim muito interessantes e dolorosas, que eu gostaria que a senhora contasse. Desculpe se a gente vai fundo, mas é importante.

 

R- Não, eu... Olha, estou dizendo que graças a Deus que minha filha está viva. Porque naquela época já tinha antissemitismo, que ele tirou minha filha da minha mão. Disse: "Ou seu marido volta ou minha filha fica aqui." Mas eu dei dinheiro todo a ele. E só um santo protetor me protegeu, que ele começou a chorar também e me deu, devolveu a filha e deu ordem para chegar. Mas no navio era triste. O navio era de luxo, um navio bom, um navio bonito, mas era triste. Porque de hora em hora a gente tinha que botar salva-vidas. E ela chorava. Não sabia o que é isso.

 

P/1- E no período de bombardeios, no navio, a senhora tinha que estar de salva-vidas.

 

R- E quando eu cheguei aqui, de longe eu vi, quando chegou ao navio, eu vi os edifícios, que lá não... ainda estou vendo os edifícios. Parecia assim, caixinha de fósforo, um em cima do outro, de longe. Cheguei aqui, no navio, eu toda assustada, cheia de aborrecimento, segurando minha filha com toda força, embrulhada num xale de veludo com...

 

P/1- Um calor de 40 graus.

 

R- Calor de 40 graus. Meu cunhado tirou a mala assim, e chegou um que ele era preto, estava branco aqui, branco aqui, olhos esbugalhados, pegou a minha mala, eu disse: "Meu Deus!" Falei com ele: "Olha, ele me tirou a minha  mala." Ele disse: "Não se incomoda. Ele não vai..." Eu disse: "Mas ele não vai tirar minha filha não?" Estava tão assustada. Mas eu vi que ele está branco aqui. Branco aqui, eu disse: "Ele trabalha no carvão, ficou preto."

 

P/1- A senhora nunca tinha visto um preto antes?

 

R- Lá não tem. Agora já tem.

 

P/2- Quantos anos a senhora tinha? Só pra...

 

R- Cheguei em 1940, né. 27 anos, né. 27 anos.

 

P/2- E o seu marido?

 

R- Meu marido era dois anos mais velho.

 

P/1- Mas seu marido tinha sido convocado para servir?

 

R- Ele tinha sido convocado para servir. Mas eles deram... eles deram para ir para casa, para esperar chamada.

 

P/1- Ah, bom, ele não chegou a começar. Ele estava na reserva.

 

R- Não. Não. Não. Era na reserva, mas chamava já desertor. Que ele desertou. Por isso ele foi denunciado.

 

P/1- E a senhora tem idéia de quem tinha denunciado?

 

R- A gente sabe sim. Já morreu. Um vizinho ídiche.

 

P/1- Ah é, é?





R- Morava em Israel. Morreu há pouco tempo com 97 anos. Ele viveu 97 anos. Denunciado por ele. É. Porque quando nós estávamos em Bucareste, que o pai do meu marido vem correndo - porque lá não tinha telefones como aqui - vem correndo de trem, não é, "Depressa, some, porque você já está denunciado."

 

P/2- Mas porque que o vizinho denunciou, Dona Roza?

 

R- Inveja. Inveja que a gente sai. Tem gente ruim. "Id" também, não é? Judeus também tem gente ruim. Você pensa que só ele? Gente ruim, que tem gente bom.

 

P/2- Porque o seu marido e a senhora, então, indo para Bucareste, a senhora tinha um nível de vida da senhora tinha aumentado, assim, estava um pouco mais alto, a senhora estava numa situação boa financeiramente...

 

R- Não, mas nós estávamos, antes estávamos no Ataki para se despedir do pessoal. Então, ele viu que a gente vai embora, então, ele denunciou. Chegou a Bucareste queriam... Mas tá aqui.

 

P/1- Foi um vizinho de Ataki que tinha denunciado?

 

R- Vizinho de Ataki.

 

P/1- Que loucura. E esse conseguiu fugir como? A senhora tem idéia?

 

R- Quem?

 

P/1- Esse vizinho, como que ele conseguiu se salvar?

 

R- Ele não salvou, ele morreu. Não. Ele se salvou sim. Ele morreu... Bom, ele já tinha isso aqui... Ele se disfarçou que não é judeu. E ele já tinha... Para você ver, que ele tinha jeito de denunciar. Já tinha jeito... Ele estava... Nós vimos ele em Israel.

 

P/1- E o sionismo? A senhora tinha alguma ligação, a sua família tinha alguma ligação?

 

R- Tinha sim. Tinha.

 

P/1- Como que era essa ligação com o movimento sionista?

 

R- Sionismo, lá tinha aquela caixinha que a gente jogava moedas, né. E todo filho tinha uma caixinha.

 

P/1- Conta isso melhor pra...

 

R- Aqui não tem? Você nunca viu?

 

P/2- Eu não conheço.

 

R- Tem uma caixinha que é branca e azul. E tem "Mogen David". E todo mundo, toda criança jogava uma moeda. No fim do mês vinha um dos sionistas, abria aquilo, e aquilo a gente mandava para Israel. Tinha sionismo.

 

P/1- Mesmo na sua cidadezinha pequena vinha alguém, pegava e mandava.



R- É. Sim. Meu pai era sionista. Meu pai era sionista. E mandava para Israel. Já se mandava naquela época dinheiro para Israel.

 

P/1- Era Palestina ainda, né.

 

R- Palestina ainda.

 

P/1- E vocês não queriam ir para a Palestina? Não pensavam em ir para lá?

 

R- Não. Eu tenho uma prima que ela é "Shomer". Ela foi para Palestina, ela casou lá, tem um filho paraquedista. Eu nem sei se ela está viva ainda. Que ela estava meio... Não sei. Eu vi ela. Eu vi ela em 1978, que foi eu e ela. Ela estava meio paralisada, na cadeira... Ano passado eu também fui em Israel. Eu não podia procurar ela porque eu foi em excursão, então, não deu tempo não. Telefonei, o telefone, acho que mudaram, que não era esse telefone. E tinha muitos e muitos que foram... Mas a gente... Idosos não foram.

 

P/1- Mas havia uma organização para poder levar as pessoas?

 

R- Tinha. Tinha sim. Tinha.

 

P/1- Mas vocês não pensaram em ir?

 

R- Não. Nós nunca pensamos isso. Não fosse essa guerra, não vinha para cá.

 

P/1- E dos partidos? A senhora disse que tinha uma prima do Shomer. Tinha outras pessoas de outros partidos?

 

R- Não. Não tinha. Só tinha isso. Comunista não podia ser. Porque Romênia e comunismo eram brigados. Deus me livre se alguém dizia que é comunista. Não podia ser. Eram brigados.

 

P/1- Seu pai pertencia a algum partido?

 

R- Meu pai era sionista. Eu sei. Até as reuniões se fazia na casa dele. As reuniões.

 

P/1- Mas que tipo de reuniões?

 

R- Se juntaram para dividir essas notas para ir pedir dinheiro para Israel. Porque Israel não era Israel, era sionista, né. Mas era Israel, era Israel.

 

P/1- Mas todo mundo passando dificuldades tão grandes, como que dava para ainda deixar alguma coisa?

 

R- Dava. Não. Antes da guerra não era todo mundo que passava dificuldades. Dava para ir.

 

P/1- Quer dizer, fome a senhora só passou... depois da guerra.

 

R- Nem passei fome, graças a Deus. Fugi. Cheguei aqui... Bom, aqui não tinha nada. Dividi. Comprei pão para mim, para meu marido e para ela, mas não tinha assim... Aqui... Mas aqui não é país para se passar fome não. Né?

 

P/2- A senhora morou um tempo numa pensão. E depois? Compraram um apartamento em Copacabana?

 

R- Não. Não. Depois eu aluguei. Aluguei na 19 de Fevereiro, em Botafogo. Morava alguns anos lá. Depois, aluguei na Vitório da Costa. Morava alguns anos... Eu já mudei tanto de residência. Depois, eu comprei uma casa no Leblon, na General San Martin.

 

P/1- Isso foi em que ano?

 

R- Morava lá... Foi em 1954, 1956.

 

P/1- Porque o Leblon ainda, realmente, só casas. Era difícil...

 

R- Casa. Depois, eu foi assaltada lá, aí me mudei pra... comprei apartamento no Flamengo, Praia do Flamengo, 400. Depois, meu marido faleceu, vendi aquela casa, comprei aqui.

 

P/1- Tem mais alguma coisa?

 

R- Não. Tudo bem.

 

P/1- Agradecer muito...

 

FIM DO DEPOIMENTO

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