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História

Aprendizagem constante

História de: Oswaldo Amoroso
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2005

Sinopse

Oswaldo passou a infância no Brás, onde vivenciou muitas brincadeiras de rua com os irmãos. Ingressou no grupo escolar e realizou curso de técnico em contabilidade na Escola 30 de Outubro. Seu primeiro trabalho foi aos nove anos, como aprendiz de tapeceiro, e o primeiro com carteira assinada, na fábrica de móveis Paschoal Bianco. Atuou como faturista na União Comercial de Tecido, notista na Martins Pimenta Cia Ltda, correntista no  Banco Cruzeiro do Sul e contador no Banco Auxiliar de São Paulo. Comenta as mudanças no processo de trabalho e seu amor pelo Corinthians.

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História completa

P - Senhor Oswaldo, qual é o seu nome completo, data e local de nascimento.

R - Pois não. Oswaldo Amoroso, 26 de fevereiro de 1930, São Paulo, Capital.

P - O nome dos seus pais?

R - Miguel Amoroso e Cristina Salatini Amoroso.

P - Onde eles nasceram?

R - Meu pai na Argentina e a minha mãe brasileira, no Brasil. O meu pai de Santa Fé do Sul, Argentina, Santa Fé do Sul.

P - E os seus avós?

R - Meus avós eram italianos.

P - Por parte de pai e mãe?

R - Agora você me pegou, viu? É aquilo que te falei, eu não sei, acho que da parte da minha mãe.

P - Quantos irmãos o senhor teve?

R - Nove irmãos, seis homens, três mulheres.

P - Como era a sua casa na infância?

R - Morava no Brás, casa de aluguel, bem grande, tinha quintal. E dormíamos em camas divididas. A maioria naquela época era solteiro, pagava aluguel, a casa era grande.

P - Seu pai trabalhava em quê?

R - Trabalhava na Matarazzo, Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, no escritório.

P - E sua mãe?

R - A minha mãe não trabalhava, só em casa, para sustentar nove não era fácil, fazer comida para nove não era fácil, nove irmãos.

P - Como era a relação entre os irmãos?

R - Muito boa, nunca tivemos problema, muito respeito, minha mãe era exigente, exigia educação nossa, exigia mesmo, respeito acima de tudo. Nós tínhamos muito respeito pelo pai, pelos meus pais, tanto é verdade, meu pai era mais amoroso e a minha mãe mais enérgica, só um olhar dela já dá para entender tudo, viu? A gente respeitava mesmo.

P - Como eram as brincadeiras de rua?

R - Naquela época as ruas não tinham asfalto, era rua de terra mesmo. A gente brincava de lanterna. A gente punha fogo, madeira, uma lata de óleo, um pedaço de arame, lanterna. Pular fogueira, na fogueira punha batata, ela cozinhava e a gente comia. E jogava bolinha, bolinha de gude, verdade mesmo E futebol, clube de esquina, era essa a vida da gente. Cinema, a gente era louco para esperar o domingo para ir no cinema assistir Tarzan, Flash Gordon no Planeta Marte, que a gente não acreditava. (risos)

P - No cinema iam todos os irmãos, quem levava?

R - A gente ia sozinho, no Brás, ia sozinho.

P - Que comidas o senhor gostava mais?

R - Era mais assim: arroz, feijão, batata e ovos, era quase que no domingo fazia um franguinho, macarrão, principalmente macarronada, isso aí era sagrado, no domingo era sagrado mesmo, a minha mãe cozinhava muito bem, muito bem mesmo, também feijoada, esses eram quase que os pratos normais mesmo, não tinham outros.

P - E quando havia festa, comemoração de algum aniversário?

R - Na minha época que eu me lembro não tinha festa de aniversário, não tinha festa não, nenhuma, pelo menos na minha família, nós éramos pobres, não tinha comemoração de jeito nenhum.

P - E na escola quando o senhor entrou no...

R - Grupo escolar?

P - Grupo escolar. Pode contar um pouco?

R - No grupo escolar como eu te falei, foi o meu vizinho quem fez a minha inscrição porque na época eu estava quase completando sete anos de idade, então eu peguei uma doença: catapora. Então passava-se uma pomada e ficava envolto num cobertor, então eu não podia fazer a minha inscrição, tinha que ir acompanhado de uma pessoa maior. Eu não me lembro qual das minhas irmãs foi junto com o meu vizinho fazer a minha inscrição no grupo escolar, quando eu fiquei bom não perdi o ano. Isso foi em 1937 por aí, eu sou do 30, foi em 37, completei sete anos entrava na escola, era quase que obrigatório, sete anos tinha que ir para o primário, ia fazer o curso primário.

P - Depois que terminou o primário continuou na escola?

R - Terminei o primário e fui direto, terminei quqtro anos, 37 a 41. Aí eu tive que dar uma parada porque eu tinha sempre vontade de estudar, mas eu tinha que completar 14 anos porque não podia entrar com menos de 14 anos em outra escola assim de curso mais avançado, curso técnico. Foi aí então que em 1944 eu entrei na Escola Técnica de Comércio 30 de Outubro, que existe até hoje e me formei em técnico em Contabilidade. Peguei uma reforma que eu te falei, não me lembro quem era o Ministro da Educação na época, o curso era cinco anos e passaram para seis e mudaram o nome, a nomenclatura, de contador passou guarda-livros, depois técnico em contabilidade, rapaz, houve um rolo dos diabos Eu fiz esse curso aí.

P - Ficou seis anos na Escola 30 de Outubro?

R - Onde o senhor Delfim Neto também se formou, Delfim não sei se foi da época, eu fui de 50 eu acho que ele era de 47 por aí, tem a fotografia dele lá na escola, tem mesmo.

P - No tempo em que ficou entre o grupo escolar e a escola técnica, o fez alguma outra coisa?

R - Trabalhava.

P - Já trabalhava?

R - Já trabalhava. (risos)

P - O que o senhor fazia?

R - Eu comecei a trabalhar com a idade de nove anos, por necessidade mesmo. Então eu comecei como aprendiz de tapeceiro. Abria a crina, antigamente fazia estofado era com crina, então pegava aquelas crinas, desamarrava a crina para deixar ela bem fofinha para fazer o estofamento, hoje é tudo espuma. E tem uma passagem interessante, eu não me lembro quanto eu ganhava, não me lembro mas eu sei que era uma mixaria desgraçada, era um quarto que dava para frente da rua, era uma tapeçaria, reforma de móveis estofados. Eu me lembro um dia eu criei coragem, que ganhava aquele dinheirinho muito miúdo, eu via meu patrão, a gente falava patrão naquela época, ele alugava carroça para transportar os móveis estofados, entendeu? Sofá, cadeira, então onde eu trabalhava até chegar nas casas de móveis que era perto do grupo escolar, mais ou menos uns 600, 700 metros. Chegava no sábado tinha que fazer entrega. Um dia eu criei coragem e falei: "Olha, em vez do senhor pagar carroça, alugar carroça, o senhor não quer pagar para mim o que paga pro carroceiro? Eu levo tudo." Eu era forte, viu? (riso) "Está certo", concordou. Então eu pegava aqueles sofás grandes, não é meu velho? Punha aqui na cabeça e ia entregar e ganhava aquele dinheirinho que dava para comprar bala, gastava para o cinema, essas coisas.

P - Quanto tempo ficou nessa...

R - Fiquei até... eu fui depois para Móveis Paschoal Bianco em 44, uns quatro anos, cinco, seis anos.

P - Aonde ficava esse trabalho? Quem era...

R - Você diz a tapeçaria onde ficava? Ficava na Rua Monsenhor Anacleto, no Brás.

P - E o dono dessa tapeçaria?

R - Eu não me lembro mais, viu? Quem trabalhava nessa tapeçaria que começou assim, foi o meu irmão que hoje é comerciante de madeira. Ele é que me arrumou nessa tapeçaria para começar. E um belo dia na esquina, fica muito na esquina, veio um rapaz lá morar na rua e falou assim: "Quem quer trabalhar no escritório?" "Eu." "Quem sabe escrever a máquina?" "Eu." E sabia mesmo, que eu fiz o curso de datilografia, antigamente fazia o curso de datilografia, era três, quatro meses por aí. E fui trabalhar no escritório da Fábrica de Móveis Paschoal Bianco, em 1944. Fui lá, só que tinha um pequeno porém, não é que era auxiliar de escritório então tinha que entrar mais cedo, abria às 8 horas, entrava às 7:10, 7:15, que com o espanador eu tinha que limpar, tirar o pó e pôr uma garrafinha de água na mesa do dono da empresa. E eu fazia isso, ia mais cedo, limpava o escritório, abanava, era sempre o primeiro a chegar. E comecei a ficar, como se diz? Olhando os outros a trabalhar, viu? O que os outros faziam, não fazia. Então eu pedia: "Olha, foi vendido aquele móvel, então precisa bater duas duplicatas, prazo e tal." "Deixa eu bater, deixa eu fazer?" Depois de um tempo. "Mas não vai errar." E batia à máquina e fui indo assim, aprendi muito ali.

P - Esse trabalho era com carteira assinada?

R - Já, carteira assinada, 44 já carteira assinada porque você não podia trabalhar com menos de 14 anos, não podia. Era proibido o trabalho para menor de 14 anos naquela época.

P - Depois desse trabalho o senhor entrou na 30 de Outubro?

R - Ah, sim, paralelamente eu entrei na escola 30 de Outubro em 44, entendeu? Já estudava e trabalhava em escritório porque o meu objetivo, eu queria ser contador, entendeu?

P - De onde veio isso?

R - O quê?

P - Essa vontade de ser contador.

R - Excelente pergunta que você me fez, excelente pergunta, excelente mesmo, uma pergunta bastante inteligente. Eu lia "Estadão" naquela época e via assim as carreiras, viu? "Contador, contador, precisa-se de contador, contador, contador", era um tal de precisa de contador, aí eu falei: "Pô, é aí que eu vou." Foi por causa disso, cismei, eu falei: "Puxa, é uma profissão que tem oportunidade, vai durar muito tempo." E com essa leitura foi que cismei de ser contador e eu me formei e fui até o fim. Até hoje ainda tem no "Estadão," "precisa-se de contador," tem até hoje pode ver, é procurado, é menos procurado, mas ainda é procurado.

P - Nesse tempo de estudo e trabalho paralelo havia tempo para diversão...

R - Eu vou te contar, eu entrei nessa Indústria de Móveis Paschoal Bianco e no início o horário era bom porque era das 8 às 6 horas. Então a escola era lá pertinho e dava tempo de eu ir para casa, jantava e ir para escola independente de condução. Mas aí surgiu uma oportunidade na União Comercial de Tecidos, que era na Praça da Sé e um próprio colega da Indústria de Móveis Paschoal Bianco, do escritório, ele convidou: "Puxa, Oswaldo, você não quer ganhar mais?" "Claro que eu quero" Estão precisando de um faturista lá, faturista é quem emite duplicata, registrava duplicata, tinha que passar no copiador, a gente chamava copiador de fatura, copiador depois é até interessante. Eu, como já tinha essa experiência aqui na Móveis Paschoal Bianco eu fui lá, se não me engano ganhar bem mais do que eu ganhava, viu? Três vezes mais, fiquei feliz da vida: "Vou sim" E fui para essa União Comercial de Tecidos cujo donos eram, se não me engano até hoje tem, eram os Gasparian. Gasparian ainda tem umas lojas aí na 25 de Março, aí no foco dos tecidos. Bom, lá eu trabalhei até... não sei se fiquei dois anos. Sei que saí para trabalhar. Posso dar outro passo?

P - Pode, fique à vontade.

R - Aí saí para trabalhar no Martins Pimenta e Companhia Limitada, no escritório também, era aqui na Rua Paula Souza. Só que lá entrava às 7 horas da manhã, não podia chegar atrasado um minuto porque o dono já estava lá, entendeu? Um minuto que chegava atrasado o cara dava uma olhada assim, o português tinha um "puta" de um bigode. Ih, estou falando palavrão. (risos)

P - Fique à vontade.

R - E trabalhava lá no escritório da Martins Pimenta e Companhia Limitada, saía às 6 horas, 20 para as 8, mais ou menos tinha que ir para escola, na escola ficava até 11 horas, 11 e meia por aí, eu vivia dormindo, dormindo não, vivia com sono, cansado, viu? Eu me lembro que nas últimas aulas, que às vezes, ufa Um ou outro colega arriava mesmo, a gente arriava. Na escola hoje em dia é diferente, o professor ditava as aulas, tinha que escrever mesmo, hoje em dia não, vocês tem panfleto já com os escritos, não é isso? Tinha que escrever mesmo, era bom porque você aprendia barbaridade. Bom, eu trabalhei no Martins Pimenta até 48 por aí, acho que eu entrei em 46 e saí em 48. Eu só sei dizer que aconteceu o seguinte: uma bela noite como eu te falei, eu tenho um irmão que gostava de dançar. Tinha um senhor lá junto com o meu irmão e ele me apresentou: "Olha, esse aqui é o inspetor chefe do Banco Cruzeiro do Sul." "Ah, prazer" Ele ficou olhando para mim, meu irmão acho que já tinha falado alguma coisa para ele e eu não sabia, ele me perguntou: "Você estuda?" Eu falei: "Estudo" "E o que você está fazendo?" "Eu pretendo me formar contador." "Ah, está bom. Que hora você entra?" Eu falei: "Às 7 horas da manhã." "Sábado também trabalha?" "Também trabalho no sábado." "Você quer trabalhar no banco?" Eu falei: "Trabalhar em banco?" Eu fiquei meio assim. "Vem amanhã conversar comigo." Eu nem sabia o que era inspetor chefe, o que era isso, mas fui lá. Fiz um pré-requisito, um questionário, ele deu uma olhada, eu não lembro quanto eu ganhava, eu não me lembro mesmo. Eu só sei que ele olhou e falou assim para mim: "Bom, você é datilógrafo, está estudando, você está bem, joga futebol?" Falei: "Jogo futebol sim". (risos) Mas eu não sei porque ele me perguntou porque é que eu jogo futebol. Ele falou: "E para sair dessa firma aí como é que você faria?" "O quê, já?" "Não, porque lá no banco é do meio - dia às 6". "Como é que é?" "É do meio - dia às 6." "Começo amanhã" (risos) Eu falei: "Começo amanhã" Cheguei na outra firma e pedi demissão mesmo, fiquei uns dias assim, que eu fiquei de folga e em 1 de setembro de 1948 já estava eu lá no banco.

P - Como era o ambiente de trabalho na Paschoal Bianco?

R - Na Fábrica da Móveis Paschoal Bianco o ambiente era bom, mas só que ocorria o seguinte: o senhor Paschoal Bianco era um senhor de idade, italiano, a gente tinha um medo dele desgraçado, era um homem enérgico, rapaz, "puta merda". A gente não podia parar de trabalhar, tinha que se virar, fazer alguma coisa porque não podia ficar parado não, viu?

P - Existia algum regimento interno que falava assim...

R - Não.

P - Nada disso.

R - Não tinha regimento, mas havia muito respeito pelo horário, viu, muita honestidade, fazia as coisas direitinho. Procurava fazer de tudo para não errar, às vezes eu substituía até a telefonista, a moça lá que era telefonista era o PABX naquele tempo. Às vezes substituía ela também, ia almoçar, ficava no lugar dela, não tinha problema. Para progredir eu fazia qualquer negócio mas sempre com a intenção de progredir, entendeu? Não tinha problema não.

P - Na Martins Pimenta era parecido?

R - Na Martins Pimenta eu fazia muito era emissão de notas fiscais, saída dos produtos, então fazia muita emissão de notas fiscais e depois eu fui trabalhar também no faturamento da Martins Pimenta porque eu já tinha prática.

P - Como era o trabalho do senhor no faturamento?

R - Era emissão de duplicatas, fatura. Então a fatura para você ter uma idéia tinha que ser copiada, era ordem fiscal, você tinha que copiar a fatura num livro de registro de fatura. Então você punha aqui um balde de água e uns pedaços de algodãozinho, chama de algodãozinho porque a folha do livro era que nem um papel de seda, entendeu? Muito sensível, então a fatura, o papel carbono era copiativo, chamava papel carbono copiativo, entendeu? Então o livro era mais ou menos desse tamanho, dava para você pôr as duplicatas assim, você punha uma, duas, três, quatro, cinco. Pegava o algodãozinho molhava na água mas torcia ele bem, punha em cima dessa folha, fechava a folha, fechava o livro e aí ia para prensa. Tinha uma prensa mesmo, punha lá e então a prensa tinha dois, como é que vou dizer, pedaços de ferro assim grossos, então você fazia força, aí deixava lá uns 30 segundos e depois desvirava, apertava bem e depois desvirava. Tirava as faturas e ficavam copiadas no livro copiador de fatura, hoje em dia não é mais nada disso. (risos) Era um serviço bacana.

P - O senhor se lembra do começo, no Banco Cruzeiro do Sul?

R - Lembro. Comecei aqui na Rua Santo André, era uma agência aqui na Rua Santo André aí no foco dos tecidos, os turcos. Aí eu de cara já fui trabalhar como correntista, era uma função, rapaz

P - Que consiste em quê?

R - Consiste que seria o controle do saldo das contas correntes dos clientes.

P - Conta um pouquinho como era o seu trabalho.

R - Então, lá era o seguinte: era um bloco como se fosse um bloco de notas fiscais. Você tinha a primeira via, o papel carbono no meio. Modos de dizer, o Paulo ia lá fazer um depósito, muito bem Ia no caixa, trabalhava perto do caixa, pegava aquela via do depósito, Paulo V.Tossetti, eu ia lá na folha dele e registrava depósito número tal, seu crédito é tanto, tirava o saldo, punha o saldo atual. A mesma coisa cheque, ia um cheque para o caixa, pagavam direitinho, vinha parar na minha mão, então eu ia na conta no Paulo, sacou, cheque número tanto, debitar o saldo anterior, diminuía, saldo atual. Era assim, no punho (risos) Com a máquina de somar de lado, ia fazendo a soma, controlava as contas correntes.

P - E quando vinham cheques do interior ou de outros estados?

R - Era raro naquela época vir cheques dos outros estados, era muito difícil, rodava mais era aqui cheques da praça, vinham cheques de outros bancos que a gente chamava de cheques de compensação. É a mesma coisa que hoje você pega um cheque do Paulo a seu favor, você deposita no Bradesco e o cheque dele é do Banespa. Então vinha via Banco do Brasil onde era feita a compensação e caía aqui no Banco, lá na central eles faziam as divisões de agências, agência tal, todos aqueles cheques emitidos por determinada agência caíam naquela agência. Vamos supor, a minha agência era denominada Agência 25 de Março, então todos os cheques de 25 de Março caíam na 25 de Março, aí pegava e tinha o conferente, conferir extenso, data, assinatura e depois vinham para minha mão, eu verificava se tinha saldo e já lançava cheque por cheque, um por um.

P - Se não tinha, qual era o procedimento?

R - Se não tinha eu dava, eu estava subordinado ao sub-contador então dava o cheque pro sub-contador: "Olha, esse aqui tem tanto de saldo, esse é o cheque." Parava aí a minha função, se quisesse pagar era problema deles, se pagava tudo bem, vistava, ele vistava eu conhecia o visto, falava: "Não, esse aqui está autorizado, pode pagar." Então debitava e o cliente ficava devedor, ficava devedor mas cobria durante o expediente. A turma aí da 25 de Março era muito forte, clientes muito fortes mas às vezes acontecia isso, um descuido do cliente controlar o saldo. Agora aqueles que emitiam cheque sem fundo mesmo era meio difícil, porque naquela época honravam os cheques que emitiam, hoje em dia, de uns anos para cá, viu, você sabe mais do que eu, cheque sem fundo, borboleta, que vai, que cai. (risos), voador.

P - Tinha o seu grupo de clientes ou o cheque que caía na sua mão...

R - Não, eu não tinha grupo de clientes, eu controlava o contas-correntes. Na agência tinha gerente, sub-contador...

P - O cheque que chegava na sua mão...

R - O cheque era assim: tinha o balcão, antigamente era balcão, você apresentava o cheque no balcão, você recebia uma chapinha com um número. Por exemplo: número 13, falando um número bonito. Então no verso do cheque colocava: 13-1, o que é que era esse 1? Senhor Paulo trouxe da chapinha número 13 com um único cheque. Vamos supor que o senhor Paulo veio lá com dois cheques, então 13-2, então você veio com dois cheques. Então esses cheques passavam por um conferente que ia conferir a firma direitinho, o preenchimento, e vinha para eu lançar para ver se tinha fundo. Eu lançava, estava tudo ok e então eu passava o meu visto e mandava o cheque para o caixa. Então quando chegava no caixa ele sabia. Ele não chamava pelo nome: "13, Chapinha número 13." Aquele barra 2 ele sabia já que era dois cheques e pagava. E ia caminhando assim.

P - O senhor disse que achou muito bom esse horário do meio-dia às 6 horas.

R - Achei bom mas depois aconteceu o seguinte: a agência foi evoluindo e começou a aumentar o serviço, rapaz. Eu vou te contar, rapaz, tinha dia que eu quase que não dava conta mas esforçava, levava a coisa a ferro e fogo mas conseguia terminar o serviço. Com o tempo também me convidaram para trabalhar na parte da manhã. Eu não disse não. Só que tem um porém, eu me lembro, meu contador, até só recentemente ele me telefonou que queria uma coisa da Associação dos Bancários. Então eu não me esqueço o nome: o meu amigo Alcides de Lima, foi meu professor no Cruzeiro do Sul, verdade mesmo, entendia barbaridade. O que é que eu estava falando? Esqueci. Ah, precisavam de mim na parte da manhã também. Eu falei: "Senhor Lima, acontece o seguinte..." Eu tinha em mente uma coisa, viu, se não me deixavam fazer aquilo que eu queria para progredir eu era capaz de pedir a minha demissão porque havia emprego, o mercado de emprego estava bom, eu tinha sempre isso em mente, queria ganhar aquilo que eu merecia e tudo bem, entendeu? Porque havia chance, havia oportunidade e eu também me esforçava. "Senhor Lima, acontece o seguinte: venho na parte da manhã se não tem problema, mas ocorre que eu gostaria de fazer outro serviço. Contas - correntes eu já sei." "É, está sobrecarregado, mas dá para você ficar mais um pouco, me lembro, mais um tempinho." Aí eu falei: "Fico, mas você precisava pôr alguém para eu ensinar." "Não, o que é que vai vir uma máquina aí Vai vir uma máquina e você vai ver como vai melhorar a coisa." Eu fiquei meio assim... máquina Aí veio de fato uma máquina, chamava-se essa máquina Remington Hand. É uma máquina que o carro dela tem mais ou menos um metro. Então o que é que aconteceu com essa máquina? Aquelas folhas que eu registrava toda a movimentação de contas correntes, nós passamos a fazer numa folha já direitinho que cabia nessa máquina, datilografava, você tinha, por exemplo, 10 mil de saldo, vai, você sacou um cheque de mil, então nessa máquina você datilografava e imprimia, vamos supor, mil reais, o saldo qual seria? 9. Eu apertava lá um botão já dava o saldo: pumba, 9 mil. (riso). O dia em que eu fizesse aquilo lá não tinha problema mais, e criamos uma prática desgraçada E o Senhor Lima, ele cumpriu o que prometeu, depois eu ensinei um outro naquela máquina e aí fui fazer outro serviço. Quer saber qual era esse outro serviço? Eu era louco para aprender o livro - diário. O livro - diário era um livro - fiscal que não podia atrasar mais do que oito dias. Então toda aquela movimentação, seja documento de caixa ou documentos contábeis, documentos contábeis vocês devem ter idéia, é aquilo que não é documento de caixa, que é serviços mais internos, entendeu, são documentos mais internos. Então tem que passar tudo aquilo no livro - diário a tinta, tinha que escriturar mesmo a tinta. E eu gostava de fazer, pegar todos aqueles cheques, (riso) no punho. Agora, isso aí, é lógico, ia para um controle, toda movimentação contábil, toda movimentação de caixa ia para um controle que a gente chamava de resumo. Nesse resumo você, era o sub-contador que fazia, era um serviço de responsabilidade, ele inseria todos os débitos e créditos de todas as contas - de - razão, é aquela pergunta: contas - de - razão? Será que dá para entender o que eu estou falando? Contas - de - razão como é que eu vou te explicar? Seria toda aquela movimentação, mais fácil entender, de débito e crédito de caixa que no fim dá um saldo. Então no razão aparece movimentação de tudo que entrar em dinheiro no caixa e tudo o que é saída no caixa. Esse aí era o resumo. Com esses dados, vamos supor, de débito de caixa, crédito de caixa, nós fazíamos o balancete diário. Então saía o balancete por razão de contas. Então você tinha um balancete, caixa: hoje: dia tal, saldo: tanto, despesas gerais, contas e compensação, salários, tudo era feito nesse balancete. Precisava prestar atenção mas ocorre que aquele saldo total geral que a gente chamava do razão, o ativo tinha que bater com o passivo: 10 mil no ativo, 10 mil no passivo. E o meu livro - diário também tinha que bater, você entendeu? O meu livro diário tinha que bater: 10 mil aqui, 10 mil aqui, tinha que bater no duro. Se houvesse algum erro...

P - O que acontecia?

R - Você tinha que fazer o acerto, a gente chamava de estorno. Eu me lembro a primeira vez que eu errei, eu tratava aquele livro com um carinho, meu amigo Para eu chegar no sub-contador, invés de eu debitar uma conta eu creditei, eu fiquei com um medo desgraçado (riso) É verdade. Era o Rui, eu me lembro. "Puxa, Rui, eu cometi um engano, rapaz, lá no livro, preciso estornar isso aí." Precisa pedir autorização para estornar, entendeu? O estorno eu podia fazer mas tinha que pedir autorização. "Não, eu faço o estorno." Ele fazia. Então eu creditei, ele debitava, então anulou o lançamento. Era tanto serviço assim, modo de dizer, intelectual, não é bem a expressão intelectual, mental, você invés de debitar você creditava, precisava prestar atenção, prestar atenção mesmo. No fim do dia tinha que bater mesmo, não tinha escapatória.

P - Quanto tempo ficou fazendo esse trabalho?

R - Eu, como te falei há pouco, aquilo quando aprendia uma coisa eu já ia pro contador: "Escuta, o senhor não quer me dar uma chance para eu ir para outro setor?" (riso) Eu queria aprender, entendeu? Eu não me lembro o tempo que eu fiquei, honestamente eu não me lembro. Eu falei: "Eu quero ir para seção de cobrança, o senhor me dá uma chance?" "Oh, te dou sim". "Então o senhor pega um funcionário para fazer o livro diário e põe." (riso) Tinha colegas assim: "Ô, Oswaldo, olha, eu queria aprender o seu serviço." "Peraí, eu vou pedir lá para o Senhor Lima porque assim você fica no meu lugar." E girava tudo na agência. E foi assim que eu aprendi barbaridade

P - Quanto tempo no Banco Cruzeiro do Sul?

R - Eu fiquei, entrei em 1º de setembro de 1948, eu saí, puxa vida, em agosto de 53. Fui ser sub-contador, fui ser contador, só que tinha o seguinte: tinha que saber mesmo senão você não era promovido. Eu fui promovido na frente de N colegas mas não é por causa disso que me viram a cara não. Eles sabiam da minha boa vontade, precisava, queria aprender e aprendi. Ao mesmo tempo eu estava estudando contabilidade, então juntava o útil ao agradável, vai. Então fui ser sub-contador, pouco tempo, contador de agência. Para você ter uma idéia, acho que eu tinha vinte anos por aí, já carregava nas costas um fardo, viu, meu amigo Sabe lá o que é coordenar funcionários, ser responsável por tudo, era responsável, era o contador da agência, não era mole não. Um belo dia, como eu te contei, estão precisando de um gerente lá em Avaré. Eu não sei o que me deu, (riso) quando eu soube dessa vaga: "Não quer me dar uma chance não?" E lá fui eu para Avaré. (riso).

P - Foi para Avaré, mudou para Avaré?

R - Não, fui sozinho.

P - Quanto tempo ficou em Avaré?

R - Fiquei um ano e pouco lá em meados de 52, por aí, quase o comecinho de 53. Mais interessante, eu não contei lá embaixo, o mais interessante, eu me lembro, quando eu cheguei em Avaré eu tinha um colega que trabalhou comigo aqui na Agência 25 de Março. (riso) Eu falei: "Puxa vida." Eu vi que no primeiro contato, só que ele era uma pessoa assim, como é que eu vou dizer, era bom colega só que era teimoso, sabe, meio turrão, e eu não estava nem aí, nunca fui carrasco de ninguém mas tinha que me obedecer, a diretriz era a minha da agência, eu era o responsável total. E fiquei lá, a agência de Avaré. Confesso para você que no cargo de gerente às vezes me dava calafrio dos negócios que fazia porque era tudo promissória, não tinha duplicata, em Avaré. Aqui em São Paulo era duplicata, tinha conteúdo comercial, você forneceu alguma mercadoria então era feito a duplicata direitinho porque era mais confiável negociar com duplicata que com promissória ou letra de câmbio. "Ah, vendi um gado para aquele." Nessa base, meu velho. Agora, você tinha que fazer o cadastro do cliente então eu tinha informações do cliente mas mesmo assim precisava tomar cuidado, viu? Acontece que nunca perdi um real que seja, falando em real, um real, nunca perdi um real para o banco.

P - Lá em Avaré...

R - Lá em Avaré, meu amigo, o que me doeu mais foi a solidão, não tinha amigos, só tinha esse conhecido mas ele tinha a sua família, o banco fechava às seis horas religiosamente. Então às vezes eu não tinha o que fazer, rapaz, eu ia jogar pião num barzinho lá, ia jogar bilhar sozinho para passar a noite, ia jogar bilhar sozinho. Porque em Avaré mesmo no hotel não tinha muito assim clientes, era difícil amizade, você não via ninguém na rua, rapaz, era um deserto. Passou seis e dez você não via ninguém, só ficava aquele barzinho lá aberto não sei por que. (riso) Eu ia lá, ficava conversando com o dono, batia um papo, lia jornal, revista, ligava rádio, sofri, viu? Nossa Senhora Você quer saber a verdade? Me arrependi.

P - Que lembranças tem de Avaré, de São Paulo no começo de 50?

R - Mas em 50 eu estava ainda aqui em São Paulo.

P - Então.

R - Você quer dizer o movimento assim de pessoas?

P - Eu queria sua impressão da cidade.

R - Em 50 a vida era melhor, viu, pelo menos assim na parte de segurança. Não havia muitos dos outros estados vindo para cá, imigração, não havia muito não. Então havia mais honestidade, mais segurança e era uma vida melhor. Você tinha fartura das coisas, você tinha poder de compra, que hoje em dia se fala muito em poder de compra, você tinha muito poder de compra e não havia desemprego não, naquela época não havia desemprego, é que hoje a mocidade sofre com o desemprego. Não havia muita concorrência assim entre empregados. Eu acho que era uma vida melhor que a de hoje.

P - O que um rapaz de 20, 25 anos, fazia na cidade além de trabalhar?

R - Naquela época? Ah, tinha clubes, como eu te contei, futebol, cinema, não é verdade?

P - Pode contar.

R - A gente jogava bola. Danças, tínhamos danças aqui na Rua São Bento, a gente se divertia, tinha diversão mas era mais cinema e futebol naquela época, cinema e futebol.

P - O senhor ia ao estádio, freqüentava estádio ou era várzea só.

R - Várzea, mais na várzea. Nós tínhamos muitos campos aqui na Várzea do Glicério, aquilo era... agora tem indústria de... tem escritórios, Brasilwagen, essas firmas aí mas tudo aquilo chamava-se o Morro do Piolho, um morro que se chamava Morro do Piolho. A gente ia em cima daquele morro e pulava para baixo. (riso). Era gostoso Então era campo de futebol adoidado. Formava um time e lá ia: "Ah, vamos convidar aquele time para vir jogar contra." E tinha muitos times aqui em São Paulo, tinha mesmo.

P - Como era quando queria aproximar-se de alguma moça?

R - Então muito bem. Então eu vou contar o meu caso. Naquela época a gente tinha o footing, que seria o seguinte: você conhece a Avenida Rangel Pestana?

P - Conheço.

R - Eu não sei se conheceu, tinha lá o Grupo Escolar Romão Pulgari, era lá pertinho. Então naquelas avenidas só passava bonde, entendeu, só tinha bonde, ônibus era raro, tinha mas era raro. Então você com os seus amigos você ia fazer o footing à noite, principalmente aos sábados e domingos, andava para lá, andava para cá e as mocinhas desse lado, os homens desse. (riso) Eu controlei minha mulher. Foi assim que eu controlei, com todo o respeito, foi assim que eu conheci a minha esposa. Era respeito, não tinha nada de balbúrdia não. O única coisa que nós tínhamos raiva naquele tempo era o que a gente chamava de Coca-cola. Coca-cola era, vamos dizer, os alunos da Aeronáutica. Então eles vinham fardados, aquele fardamento intocável, sapatos brilhavam, a gente via muitos até com a latinha de graxa na mão, você acredita? A gente tinha uma bronca deles e às vezes quebrava o pau. "Aquela namorada é minha, não sei o quê." E quebrava o pau e vinha a polícia, vinha a turma dos Coca-cola e sentava o pau na gente. E brigava mesmo, viu, brigava porque eles queriam ser os tais. A gente chamava eles de Coca-cola. (riso)

P - Metidos a conquistadores.

R - Metidos a conquistadores, são uns filhinhos de papai aí, viu? Então a gente quebrava o pau mesmo. Se você estava controlando uma menina ou estava namorando com ela e eles tiravam, ah, meu velho, juntava a sua turminha, nós...

P - Controlar era flertar?

R - Controlar, quer dizer, flertar, namorar, entendeu? Era minha namorada e vinha um Coca-cola e tirava, quebrava o pau mesmo, ia até polícia, rapaz, por parte deles Coca-cola, não a polícia militar, a polícia deles porque eles eram tudo, como se diz, para manter a segurança eles tinham, nós não.

P - Quando foi para Avaré já estava namorando?

R - Estava noivo, foi um dos motivos que eu pedi a minha transferência para cá. Solidão de lá e um dos motivos para pedir minha transferência para cá porque de gerente passei a ser contador e aceitei.

P - Ainda no Cruzeiro do Sul.

R - No Cruzeiro do Sul.

P - Voltou de Avaré já...

R - Vim como contador para cá. Mas já tinha... pim, vou sair, vou sair pelo seguinte: liquidaram o banco naquela época, eu não vou dizer a idade, eu não sei por que motivo liquidaram o banco. Então nós tínhamos uma gratificação semestral que a gente ganhava e eles foram diminuindo essa gratificação, foram diminuindo. Peguei, falei: "Vou sair." "Vou sair." E eu tinha um amigo que trabalhava no Banco Auxiliar, falei com ele, falou: "Te conheço, vamos lá falar com o dono do banco." Era o senhor... Comendador Alberto Bonfiglioli. Me atendeu, sem camisa. "Estou trabalhando num banco assim, que o senhor sabe, estão liquidando, eu não sei se estão precisando de gente aqui ou não." "É, estão liquidando mesmo, estão vendendo agência, somos até capaz de comprar uma agência aí do Cruzeiro do Sul." Ele era italianão mas era sincero: "O que é que você sabe fazer?" (riso) "Já fui..." "Ah, está bom." Então pegou o telefone, se não me engano, o Pereira que era inspetor chefe, não, o senhor. Jorge Baldus era diretor administrativo ou superintendente. "Ô, Jorge, vai um moço aí, aproveita ele, vê o que ele pode ser aproveitado." Mas assim me deu um calafrio, rapaz. Falei: "Já estou dentro." "Vê no que pode ser aproveitado." O senhor Jorge me apresentou para o inspetor chefe, senhor Pereira, mas não me falou nada. "Quando você puder, fica uns dois dias aqui no banco." Eu pensei: "Como é que eu vou fazer? Meu Deus do céu Vou precisar ficar doente lá no outro banco dois dias." Inventei alguma coisa lá. Fui fazer o exame que eles falaram, o velho comendador disse assim: "Você precisa fazer exame de sufficienza." (risos) Exame de capacidade. Então lá fui eu com o senhor Pereira, me deram umas folhas com diversos problemas, como que faz isso, como faz aquilo, dois dias, dois dias mesmo, o que é uma duplicata, o que é uma promissória, como se calcula juros, como se debita isso, como se debita aquilo. Fiz, entreguei para ele, fiz em dois dias. Ele falou: "Bom, é o seguinte: amanhã você dá uma passada aqui." Eu falei: "Senhor Pereira, eu vou ser sincero com o senhor, eu já faltei dois dias no banco, não daria para eu passar na hora do almoço?" "Ah, dá sim, você vê o horário que você puder passar." Fui lá e falou: "Tudo bem Você foi bem aqui, nós vamos precisar de você sim, nós estamos para abrir uma agência em São Caetano do Sul, eu me lembro bem, e eu acho que você vai ser nosso gerente." Eu falei: "Tudo bem, mas..." "Você pode pedir demissão do banco". Eu fiquei meio assim, boca a boca, rapaz, eu fiquei meio preocupado. "Puxa vida Como é que eu vou fazer?" Eu falei: "Senhor Pereira?" Aí ele viu a minha preocupação. "Senhor Pereira, eu estou conhecendo o senhor faz dois, três dias, eu vou pedir demissão assim?" "Não Pode vir começar a trabalhar dia 1º de setembro" Se não me engano era dia 20 e pouco de agosto por aí, eu falei: "Nossa Senhora do Amparo" E pedi a minha demissão no outro banco. "Seja o que Deus quiser" Aqueles dez dias rapaz... dia 1º de setembro eu fui lá e tudo bem. Aí entrou problema até de salário, viu? Eu me lembro, eu não sei se era contos de réis, eu ganhava 5 mil e 200 contos, acho que era, não me lembro bem. Ele falou assim: "Você vai começar aqui com 4 mil, menos, daqui a três meses nós vamos ver." Eu fiquei meio cabreiro porque tinha esquecido de falar sobre salário, mas ele pediu a carteira profissional e ele viu lá, eu vi que ele notou isso, eu falei: "Tudo bem?" "Você vai estagiar na agência Rangel Pestana, você vai fazer um estágio lá." Muito bem. Eu fui lá fazer o estágio e nesse estágio o gerente era um que tinha trabalhado comigo no Banco Cruzeiro do Sul. (risos) Aí eu falei: "O senhor Pereira me mandou fazer estágio." Ele era meio grosso, viu? Era meio grosso, então não puxava muito assunto com ele. Então o que é que aconteceu? Logo de cara eu falei: "Puxa, eu preciso ficar senhor da situação." Então eu me apeguei no plano contábil, inclusive que é um modo de dizer porque é um sistema que é outro, sempre tinha muita diferença, certo? A parte contábil, eu fui fazendo um resumo, o que fazia lá no Cruzeiro do Sul um funcionário, eu falei: "Eu vou fazer um resumo aí eu fico vendo o que vai caindo, cheque, ficha." Eu fazia até cópia dos lançamentos do próprio punho, levava para casa, porque era duro, ninguém tinha tempo de ensinar porque você já era um contador, você já era um gerente de outro banco, mas mesmo assim tinha diversificação, por isso é que eles mandaram estagiar. "Amigo," ele falou, "Eu acho que você vai ser gerente". Pois eu fui ser contador do Banco Auxiliar numa agência. O Pereira me chamou: "Olha, você terminou o seu estágio aí 15 dias nessa agência, você vai passar umas semanas em outras agências mas lá você vai assumir a contadoria". Eu fiquei meio assim. "É o seguinte: 4 mil, daqui a três meses nós passamos para o que você ganhava lá no outro banco, está bom?" "Tudo bem" Tudo bem. Eu fui para outra agência e nessa outra agência quem estava respondendo pela contadoria era um inspetor, então eles não tinham contador, entendeu? Fazia falta, eu falei: "Puxa, agora que eu comecei a entender que em vez de gerente eu vou ser contador, mas vou ganhar a mesma coisa." Não esquentei a cabeça, e esse inspetor era muito católico, rapaz, muito educado, viu? Valdomiro, "Senhor Valdomiro, eu estagiei 15 dias lá na agência Rangel Pestana, eu me lembro como o senhor Pereira mandou, mas eu preciso um tempinho que eu vou ter alguma dificuldade aqui, a agência está uma bagunça danada." Uma bagunçada, estava mesmo, saía fora de hora. Ih, rapaz Nossa Senhora Tinha dia que não dava tempo nem de almoçar Bom, depois de um mês mais ou menos eu assumi e tinha que fazer aí o livro de ata, você era o contador, fazia uma ata passando para a minha contadoria, tentando escrever essa ata no livro de registro de ata, assumindo toda a parte contábil, tudo, tudo, caixa e tudo, você era responsável por tudo, eu assumi. Eu falei: "Meu Deus do Céu" Então me esforcei ao máximo, trabalhei fora de hora, trabalhava mesmo. Depois dos três meses veio lá os 5 mil e 200 mesmo, viu? Sem eu pedir e aí eu fiquei contente. E foi assim, deixei a agência em ordem, trabalhei para danar.

P - Quanto tempo ficou no Auxiliar?

R - Fiquei nessa agência, fiquei se não me engano 14 anos, amigo 14 anos De 1953 se não me engano. Aí veio uma oportunidade em junho de 67, então o que ocorreu em junho de 67? Ocorreu que o senhor Jorge Baldus, que era diretor presidente, me chamou e falou: "Você é o primeiro da lista para assumir a agência." Eu falei: "Tudo bem, senhor Jorge." Então eu ia para agência Água Rasa, iam abrir lá uma agência e ao mesmo tempo estão abrindo aqui uma gerência, o departamento vai se chamar Dosb." Eu perguntei: "O que é Dosb, senhor Jorge?" Ele era um homem de poucas palavras mas de uma decisão, um homem que tomava decisão rápida. "Dosb é Departamento Orientador do Serviço Banco e você também está escalado." (risos) "Então vamos fazer o seguinte: você escolhe." Olhando assim para mim, como ele era gerente de todas as agências: "Eu preferia que você fosse gerente de uma agência." Que vai ser a Agência Água Rasa, estavam remodelando e tal, eu fui ver a agência, viu, no Largo do Arroz, eu já tinha até autorização para visitar clientes antes de abrir a agência. Então como eu trabalhava no sábado, eu fui naquelas ruas e comecei conversando naquelas fabriquetas de calçado: "Vamos abrir a agência do banco, eu vou ser gerente." "Ah, pois não." Eu queria sentir. "Pô aqui é um bairro bom," eu falei, "Puxa É um bairro muito bom." Meu amigo, a agência não sei o que houve não abriu, não sei o que houve, problema de local, carta patente, naquela época tinha que ter carta patente para abrir uma agência e custava uma fortuna, era uma fortuna você ter uma autorização para abrir uma agência bancária. Eu já estava cansado de agência, eu falei: "Então vou escolher o Dosb." E escolhi o Dosb, lá tinha a sua diretoria, o senhor Carlos Dias, não sei se ainda está vivo, encontrei ele faz uns três anos, velhinho, era um mestre. E formaram esse Dosb. Então eu fiquei lá como coordenador da parte contábil uma boa época porque foi... eu não me lembro que época foi. Era o seguinte, eu não sei se era o Banco Central, Sumoc, tinha que padronizar a contabilidade bancária que um banco tinha uma conta, outro banco tinha outra, então fugia ao controle da Sumoc, não me lembro se era Sumoc, acho que já era Banco Central, tem que padronizar. Então eu fui encarregado eu e um outro colega de padronizar toda a contabilidade do banco e foi duro, era um livreto desse tamanho do Banco Central. "Puta". Ao invés de contas transitórias passivas era outro nome que o Banco Central dava, entendeu? Então nós tínhamos que adaptar essa conta que o banco tinha, tinha que transferir o saldo para essa conta, mas mexia com tudo, com toda a parte contábil. Não foi fácil. E tinha que orientar os contadores.

P - Nesse tempo entre Cruzeiro do Sul, Auxiliar, aconteceram greves? O senhor participou de alguma?

R - Aconteceram. Não é bem que eu participei, eu ainda era contador da agência, eu me lembro que eu não fechei a agência.. (riso) Mas veio uma turma com panfleto do sindicato e me fizeram fechar a agência na marra, não me trataram mal não: "Caro colega, assim, assim, assim, você tem que fechar." Eu peguei o telefone e comuniquei para o meu inspetor chefe: "Olha, estão me fechando a agência aqui na marra. O que é que eu devo fazer?" Ele falou: "Feche, você não se exponha não, você fecha a agência." Fechei a agência, mandei os funcionários embora, e não sei se em 1966, acho que por aí, foi 69 dias de greve se não me engano, por aí. Os banqueiros não queriam dar aumento.

P - Quando aconteceu isso?

R - Eu não sei se foi em 66, viu, rapaz, eu não me lembro bem o ano, viu? Eu não tenho idéia do ano mas foi uma greve a longo prazo, foi mesmo. Tanto é que eu estava na agência quando acabou a greve, todo mundo recebeu uma bolada, atrasado, etc e tal, e recebemos. O Banco Auxiliar era um bom banco, viu, ótimo banco, era uma família. Tinha calor humano.

P - Foi o melhor lugar aonde o senhor trabalhou?

R - Para mim, foi.

P - Por quê?

R - Tanto é verdade que eu tinha em mente ser contador de uma empresa e não em banco, eu não tinha idéia de ficar muito tempo no banco, mas comecei a gostar e aquilo parece que era uma praga. O que ocorre? Entrei em 53, não é isso? Setembro de 53, eu casei em maio de 53, me esforcei, tal e coisa, tanto é que trabalhei lá até... isto é outra história, já comecei em setembro, já era casado. Sabe que eu me perdi do que você perguntou. Fiquei quase 34 anos, então me sentia bem, era recompensado, ganhava bem. Para você ter uma idéia daqueles 5 mil e 200 contos, eu não me lembro bem, vai, eu me lembro que era 5 mil e 200 e alguma coisa, o gerente tinha muito mais anos de casa do que eu, ele ganhava pouco mais. Então eu notava que havia uma certa... ele não me falava, mas... É que vai gravar. Olha, eu tinha mais capacidade do que ele, certo? Essa que era a verdade. Então carregava tudo nas costas, amigo. (riso) (Pausa da entrevista).

P - Continuando, senhor Oswaldo, queria que contasse como era o ambiente de trabalho no Banco Auxiliar.

R - Muito bom ambiente, principalmente de coleguismo, viu, de sinceridade, com diretores, tudo, muito bem tratados. Para você ter uma idéia, o comendador visitava as agências e não queria saber nada da parte contábil, nada disso, ele queria ver o espelho da agência, a agência limpinha com as mesas em ordem. Ele chegava até falar assim, eu me lembro, ele usou uma expressão: "Filho, aquela mesa está um pouquinho para cá. Vamos pôr no lugar?" Ele mesmo vinha comigo e nós colocávamos a mesa no lugar. Era um homem sensacional, viu? Eu me lembro que ele veio uma vez na agência e nós tínhamos impressos lá, inúmeros impressos, tinha número 1, 48, 39, 1.025, era uma, duas, três, quatro, umas cinco carreiras de prateleiras de cinco metros assim de comprimento. E não tinha vidro, não tinha nada, então aquilo com o tempo aquele pózinho, tal. Olhou, puxa vida, eu sempre mandava limpar aquilo mas era tanta responsabilidade, tanta coisa na cabeça, às vezes esquecia. Tinha o limpador, vai limpar lá, ele tinha que saber sua obrigação. Um dia ele veio visitar a agência, rapaz. Foi lá ver os impressos assim, só com o dedinho. (riso) Eu falei: "Agora eu estou frito." Ele deu uma olhada. Eu falei: "Pois é, comendador. Eu gostaria que se fizesse aqui portas de correr com vidro para eu ver os impressos, o estoque e tal, o número. Mas já pedi, ninguém toma providência, eu não sei o que está havendo." Então vinha sempre junto com ele, vinha um rapaz que se chamava Franco, que era o chefe do almoxarifado. "Franco, vem cá, anota aí: fazer vidro, como o contador da agência quer. Pois vai vir os marceneiros aqui amanhã e você fala com eles como você quer que faça isso. Olha que eu vou voltar aqui depois de pronto." "Pois não, senhor Comendador." Olha, no dia seguinte estavam lá os marceneiros. (riso) Eu falei: "Eu quero assim, assim e assado." Fez direitinho e veja só que aconteceu? O comendador foi fazer uma viagem para o exterior, se não me engano para os Estados Unidos, e tinha o assessor, né, o senhor Carlos de Jóia, que era o diretor superintendente do banco e nós fomos convidados a ir no aeroporto para nos despedirmos dele, desejar boa viagem, e fomos. Chegou na minha vez: "Comendador, boa viagem e tal." "Filho, fizeram a prateleiras?" (riso) Filha da mãe. Você vê o que o homem tinha na cabeça. Falei: "Fizeram sim." Ele me perguntou, rapaz. Ele se preocupava com a beleza da agência, com a limpeza da agência. Era um homem espetacular, viu?

P - Naquela época os militares estavam no governo, né?

R - Estavam no poder naquela época, 64,que estourou a Revolução, não é isso?

P - Eu queria saber sua opinião em relação aos militares.

R - No meu caso,como eu não era muito político, vai, eu me preocupava mais em trabalhar do que ter relacionamento político. No caso eu ouvia falar de muitas coisas e pau-de-arara, surgiu aí o famoso pau-de-arara. Mas eu nunca comentava isso com ninguém. Não que eu tivesse receio, é que eu não gostava de política, essa que é a verdade. Mas ocorreu um fato curioso. Eu morava, eu morei em frente ao Sindicato da Companhia de Gás de São Paulo, então tinha amigos lá. E nessa época estão prendendo muitos líderes sindicais, eu não sei se era, político, uma série de coisas. E lá o presidente tinha lá suas dúvidas, ele me convidou para acertar o livro do caixa lá do sindicato e como eu trabalhava ainda naquela época, eu falei: "Olha, eu não posso porque tem... aí vai documento, uma série de coisas." Os bancos trabalhavam no sábado também aquela época. "Eu só posso fazer alguma coisa de noite ou sábado e domingo." Ele falou: "Não tem importância, mas tem que ser você." Eu falei: "Está bom." Agora, quem controlava o livro - caixa era o enfermeiro, não tinha maldade, não tinha maldade nenhuma. Em todo caso eu tinha que fazer bater o numerário, dinheiro que tinha lá no banco, lá no caixa, tinha um pequeno caixinha com a parte contábil. E fiquei lá uns quatro, cinco meses e fiz, deixei tudo limpinho. E não é que bateram lá mesmo no sindicato, mas não aconteceu nada porque tinha o meu relatório. Porque teve gente aí que andou desvirtuando, saiu nos jornais, não é segredo de ninguém.

P - O que acontecia com as pessoas que partcipavam do sindicato, eram ameaçadas?

R - Olha, do sindicato eu não posso dizer nada porque eu me associei ao sindicato não faz muitos anos não, viu? Eu não me preocupava com o sindicato, não me preocupava mesmo. Eu tinha muita coisa na cabeça para dizer a verdade, tinha muita responsabilidade, então eu não me preocupava nem de ser associado daquilo, deixava o sindicato de lado. Você vai perguntar por quê? Ainda naquela época, se o funcionário era sindicalizado, principalmente do Bradesco ou do Banco Mercantil, eu não sei não, viu, cuidado, cuidado, porque eles mandavam embora mesmo. Que eu saiba teve turma que foi mandada embora por ser sindicalizada. No Auxiliar eu não me sindicalizei por respeito, porque eu gostava do banco. Falei: "Não, eu não tenho necessidade do sindicato." Eu não era sócio do sindicato e nem me importava com o sindicato.

P - Então, quando veio a preocupação de...

R - Foi numa campanha que o sindicato fez e já naquela época já não havia mais essa reserva para quem era sindicalizado e uma boa turma lá no Auxiliar sindicalizaram. Eu falei: "Tudo bem, vai". Não me aconteceu nada, me associei ao sindicato, não tive problema nenhum, ao contrário, o sindicato me foi útil no fim, no final. Aí é outra história.

P - O senhor se lembra se tinha alguns funcionários do sindicato que promoviam greves dentro do Banco Auxiliar?

R - No Auxiliar nenhum, isso eu te garanto, que eu saiba nenhum, nenhum. Tanto é verdade que nessa época de, eu não sei se é ano de 66, eu ia na agência, ia arrumar alguma coisa, fazer alguma coisa.

P - O senhor diz. durante as greves?

R - Eu ia, tinha a chave da agência, não tinha problema nenhum. Só não abria o cofre porque o cofre só abria com duas chaves, eu tinha uma e o gerente tinha outra, não podia abrir o cofre sozinho em hipótese alguma, isso não podia. Mas que houvesse assim funcionário revoltado com o banco não, eu digo e repito para você, era um ótimo banco, viu, bom banco.

P - E no Safra?

R - Você quer que eu chegue no Safra, então vamos lá. Eu saí por contragosto do Auxiliar. Para dizer a verdade não saí, saíram comigo. Por quê? Porque foi acho que 15 de novembro de 1985, eu não sei se 14 ou se 15, viu, recebi uma notícia muito ruim, tinha acabado de sair aí da Rua Boa Vista, jantei, peguei meu cigarrinho, meu café, liguei a televisão, no Canal 5, Jornal do Brasil: "Foi decretada a liquidação extrajudicial do Banco Meridional, do Comind e do Banco Auxiliar." Eu, puft. Foi decretada a liquidação extrajudicial do Banco Auxiliar. Quem era o presidente? Senhor José Sarney. O banco não estava em estado de insolvência não, foi política, tanto nós como o Comind e até o Meridional que está até hoje aí, o Meridional existe até hoje, vocês sabem disso, não? Fica na Rua Boa Vista quase pegado ao Auxiliar, que era a nossa sede na Boa Vista, está até hoje aí, está abertinho, estão lá os funcionários. O que eu passei, meu amigo. Para mim, particularmente para mim foi bom, agora fiquei nervoso. Mas eu não queria nunca que acontecesse isso com o banco, de jeito nenhum. Agora eu te pergunto por que foi bom para mim. Porque eu entrei em 53, fiz opção para o fundo de garantia que me pediram em 1969, já era estável no banco, certo? Você assinando o fundo de garantia, a lei do Fundo de Garantia foi criada em 66, se não me engano em julho de 66, você podia ser dispensado do serviço. Você vê, optei em 69, só saí na liquidação, em 28 de novembro de 1986 porque o Banco Central, eu estava na gerência de custódia, devo ter até aqui alguma coisa, gerência de custódia, o Banco Central me segurou praticamente um ano, não é isso? Me segurou um ano. Agora, gente que perdeu o emprego, ganhávamos muito bem, ia para outro banco porque na liquidação extrajudicial, desculpe dizer, eu encampei a briga, vamos dizer, dos 32 funcionários estáveis que tinha à época, nós perdemos o cargo, todo mundo, perdemos o cargo, mas não diminuíram nosso salário nem nada. E eu lá, puta vida. Era gente que chorava, a gente não se conformava, viu? Nossa Gente que morreu por causa disso porque ficaram magoados. Teve gente que morreu mesmo. Foi uma desgraça Porque não só atingiu o banco como atingiu também a Cica, sabe o que é a Cica, é uma potência. Era coligada, era também do Comendador, a Cica. Foi uma desgraça, meu amigo. Eu sei que eu ouvi dizer o seguinte: que o vice-presidente da Cica morreu na mesa dele, deu um enfarte enorme. A Cica era em Jundiaí, a sede era em Jundiaí. Agora eu te falo, para mim foi bom por quê? Recebi indenização que eu tinha anteriormente ao fundo de garantia: 16 anos, em dobro, recebi meu fundo de garantia com multa de 40% que parece que é assim até hoje. Fiz meu pé - de - meia para agüentar essa grande aposentadoria. (riso) Mas preferia, o Manuel e Paulo, preferia não ter recebido essa indenização e ver o banco aberto até hoje porque eu sabia que eu podia ir até lá, seria uma porta aberta, ia ver os meus colegas, os meus amigos. É uma mágoa que eu guardo até hoje.

P - Pode nos contar um pouco sobre as mudanças que aconteceram dentro do sistema bancário?

R - Muito bem. Lembra que eu falei que eu fui convidado para participar do Dosb, tinha fácil acesso à diretoria, principalmente com o diretor Carlos de Jóia, que era o nosso diretor superintendente. Então eu não sei foi em 71, por aí, começou a era da modificação da informática. O Bradesco naquela época, ou em 60 ou 70 por aí, implantou caixa executivo. O que é que era caixa executivo? Você apresenta o cheque direto no caixa, lá é conferida a assinatura, uns falavam que era bateria, bateria era onde que fica os cartões de assinatura assim nas costas do caixa. Uns criavam (sleeps?), chamavam (sleeps?) que era o controle de contas-correntes, do saldo das contas correntes. O Bradesco implantou o sistema de caixa executivo e nós no Auxiliar fomos o segundo. E eu fui incumbido de organizar essa parte, não entendia nada de computador, para você ter uma idéia nosso computador era um armário bem grande, um não, diversos armários grandes a toque de lâmpadas e válvulas e temperatura, aquilo funcionava com uma temperatura. Criei equipe, fiz, modo de dizer, um roteiro como se deve implantar, o que deve fazer nas implantações, tem que treinar bem os caixas porque não tinha assinatura, tinha aquele receio. Mandava, junto com essa equipe mandava um contador, tinha equipe, 13 elementos, só tinha um gerente na minha equipe e 12 contadores, tudo gente boa, eu é que pegava eles. Então ia sempre... e quem entendia de caixa. Então na implantação eu já levava o meu roteiro: "Olha, vocês vão fazer isso, qualquer dúvida vocês me telefonam." Porque, modéstia à parte, podia perguntar o que quisesse na parte contábil porque eu tinha tudo aqui. Como é que diz o outro: o meu negócio é número mesmo. E eles iam implantar o sistema eletrônico, o caixa executivo, a gente chamava sistema eletrônico, implantava nas agências. Antes disso, é lógico, ia o encarregado de criar os caixas, mudava o perfil dos caixas tudo direitinho. Ia um funcionário que entendia de caixa, instruía os caixas o que é que tinha que fazer e na parte contábil eles instruíam o resumista o que é que tinha que fazer, entendeu, porque acabava com o resumo. Lembram-se que eu falei de um resumista? Acabava com o resumo. Acabava com o contas-correntes. Aí surgiu uma primeira discussão, mas foi um pouquinho de ciúme do senhor Buareto, o gerente lá do sistema eletrônico, ele queria criar (sleeps?) de controle, eu era contra, eu queria criar listagens que era mais fácil. Então numa reunião da diretoria eu expus os motivos porque eu não queria (sleeps?) e sim listagens, (sleeps?) é uma folha, vai, só aqui tinha uma capinha de celulose, a sua folha de contas-correntes era colocada aqui, você vinha sacar, o caixa ia lá, tirava, acertava o saldo aqui. Então o caixa tinha que sair de lá, vir para aqui, bateria era como se chamava e voltava para cá. Então eu estudei esses movimentos. Então no nosso caso, expliquei para diretoria era mais vantajoso, o caixa andava menos porque tinha que andar muito, a listagem. E venci a parada. Então foi feita a listagem. Era uma listagem só, o cliente já tinha o seu código no talão de cheques, então os caixas consultavam e lançavam lá na própria listagem e pagavam o cheque rapidinho. E implantamos esse sistema eletrônico na parte contábil, tudo, tudo e a parte de contas correntes, todo aquele movimento, ficha contábil, cheques, depósito, tudo aquilo, a gente formava bloquetes em grupo de 50. Por que em grupo de 50? Porque tinha que fazer um diário na centralizadora nossa que era aqui na Boa Vista, tinha que passar por uma máquina que já tinha data automática, digitava o código do cliente, debitava ou creditava no saldo. Então aquilo lá saía dessa máquina, chama-se máquina {Odite?), saía uma, como é que eu vou dizer, oh, meu Deus do Céu Saía uma fita codificada, você olhando assim não via nada mas se você entendia, você sabia que aqui era número 6, que aqui era número 1, de 0 a 9. Agora essa fita era passada para uma leitora, uma máquina leitora que gravava uma fita celulose, toda a agência, entendeu? Gravava uma fita celulose então ela formava um rolo, um rolo grande, já viram fita de cinema? Fita cassete, vai, pequeninha? Aquilo era em maior dimensão e formava todo aquele movimento de toda agência e daí ia via computador e daí emitia a listagem e no dia seguinte estava na agência tudo, saldinho, nome do cliente, tudo direitinho, atualizado.

P - Houve muitas demissões, não?

R - Isso que eu ia te falar, eu tenho um defeito na minha vida, quando eu peguei essa incumbência, esse gerente da eletrônica achava por bem que tinha que reduzir o quadro e eu achava por bem que não tinha que reduzir o quadro coisa nenhuma. Que ele não entendia bem da parte funcional de agência. Eu falei: "Você não entende bem quanto eu entendo." E é verdade. "Eu assumo essa incumbência porém vocês brecam as admissões, não admitem ninguém, só se for gerente ou contador que precisa, aí é outra coisa, mas breca as admissões de funcionário, deixa o Recursos Humanos lá parado um tempo." "Mas como?" "Vamos aproveitar os funcionários que tem, à medida que vai aparecendo outras sessões, alguma coisa ainda que eu não sei, na implantação que eu não sei, eu vislumbro mas eu vou ficar quieto porque a responsabilidade vai ser minha, eu vou aproveitar o funcionário." Meu amigo, não foi um para fora, transferi caixa: "Onde você mora? Na Penha?" O outro: "Moro lá em Guarulhos." "Então vamos fazer a troca?" Vamos conciliar:"Você vai para Guarulhos, você mora na Penha vai para Penha." Conciliar os funcionários por quê? Porque o gerente aí da... não é que eu falo mal dele, não se trata de falar mal, se trata da ética profissional, negócio de, na época demitir funcionário o banco ficava malvisto, entendeu? "O banco vai ficar malvisto, isso não convém. Preferível você brecar as admissões e ir aproveitando à medida que forem surgindo vagas, eu entro em contato com o Recursos Humanos." E entrei em entendimento com o senhor Álvaro (Cime?) Júnior, que foi gerente de Recursos Humanos, entrei em entendimento e ele falou: "Você está certo, você breca as admissões e vai me informando o que você precisa e eu vou vendo nas agências, o meu pessoal vai me informando." Por que perder emprego, não demitimos, viu? Manuel, nenhum Na minha vida bancária nunca mandei um funcionário embora, minto, mandei um só, mas por desfalque.

P - Nos anos 80, quais foram as mudanças?

R - Essas mudanças da informática para cá, que eu acho que foi a desvalorização do bancário, desvalorização profissional do bancário, eles foram muito desvalorizados. Naquela época, como eu já te contei, acho que essa parte eu não te contei, quem fazia os descontos das duplicatas tinha que calcular juros, tempo, capital, tempo, taxa de juros então você tinha uma máquinazinha que se chamava Bruvisga, você tinha que calcular aqui, então você pegava uma prática mental terrível, hoje em dia não, vem tudo pronto, eletronicamente tudo pronto, desvalorizou o funcionário. Você vê, pode gravar aí à vontade que já te provo, eu tenho conta no Itaú, perto da minha casa no Tatuapé tem uma agência Itaú. Eu tenho pena de ver aqueles funcionários caixas trabalhando, você vê que eles estão extenuados, estressados, dá uma pena, rapaz Parece que estão com medo de perder o emprego. Tem os caixas e o anti-caixa que eles chamam, é uma moça, pode ir lá, fica olhando assim nos caixas, fica olhando. Um dia eu fui lá sacar um dinheirinho, me deram uma senha. Eu já sabia o que era, ela anotou quanto tempo eu levei daqui até o caixa me pagar o cheque. Quer dizer, e o caixa vendo. Desumanizou, desvalorizou o funcionário bancário e particularmente nas empresas aí também desvalorizou muito. Desvalorizou muito o homem, desvalorizou mesmo.

P - Diante de tudo isso qual é a perspectiva que o senhor vê para os bancos e para os bancários?

R - Para os bancários eu acho que é uma profissão em extinção, viu, infelizmente, infelizmente. Está diminuindo, nós tínhamos quando eu ingressei em banco eu me lembro assim, acho que existia 541 matrizes de banco, 541, certo? Hoje eu não sei, mas acho que chega perto de 140 por aí, fusões, liquidações. Hoje mesmo você vê firmas grandes aí devido ao Plano Real, fazendo fusão, firmas grandes uma com a outra, fusão mesmo. Eu acho que a máquina foi um mal necessário, mas desvalorizou o homem, desvalorizou bem. Desvalorizou e eu temo pelos meus filhos, pelos meus netos, eu sempre falo isso para minha senhora: "Puta vida, esse camarada aqui." Eu tenho três netos. "Que será que ele vai pensar do avô, que mundo que ele me deixou" Você vê, rapaz Hoje em dia garoto, eu vejo pelo meu neto, tem 10 aninhos, antes disso, já fica lá no computador, no vídeo-game, fica. Porque a impressão é que vai ser uma máquina, viu? O homem já não usa toda a sua capacidade mental, para informática pode ser, mas assim para algum outro tipo de atividade. Até contador está entrando pelo cano.

P - Por quê?

R - Por causa disso, não precisa usar tanto a cabeça assim não tanto o cérebro. Tanto é que se eles mexerem aí, que estão querendo reformar a Previdência e tributos, que querem, aqui é uma terra que tem quantos? 51 tributos. Eles querem reduzir, vai desvalorizando o homem, querem reduzir para dois, três, um, não sei .

P - O trabalho que o senhor fazia, como é feito hoje?

R - Então, naquela época era como eu te falei: tudo do próprio punho, cálculo do próprio punho. Você tinha, modo de dizer, o cliente entregava a duplicata para cobrança, para você ter idéia, era feito um borderô, certo? O cliente relacionava o número da duplicata, a praça, o nome do sacado, o vencimento e o valor da duplicata, com aquilo de lá e com a própria duplicata nós tínhamos um bloquete, chamava-se bloquete que tem mais ou menos umas seis vias, então você punha todos aqueles dados da duplicata nesse bloquete, mas tinha que pôr papel carbono e bater mesmo na máquina, viu? Arquivar uma parte em ordem de vencimento, outra parte em ordem de cedente que a gente falava, cedente é o emitente da duplicata. Isso aí era trabalho, precisava de gente e precisava usar a cuca, tinha conferente, mas precisava de gente. Cálculos de juros de contas-correntes, por exemplo, era terrível, era terrível. Você tinha o saldo de contas-correntes hoje, vai dia 8 hoje, amanhã você movimentava, você deixou 20 mil, quantos dias você deixou esses 20 mil reais? Um dia? Então você punha aqui um vezes 20, você tirava os dois zeros dos centavos e punha aqui dois zeros ponto zero, zero, zero. E isso aí ia acumulando e chegava no fim do semestre você já tinha um total de número de juros chamava e com a máquininha você calculava o juros que tinham que ser creditados na conta dos clientes. (risos) Hoje a máquinazinha eletrônica faz diariamente, desprezou o serviço do homem.

P - Como o senhor foi sentindo toda essa transformação?

R - Eu senti inclusive no próprio Banco Auxiliar, todos os setores foram jogados lá para o sistema eletrônico e tinha às vezes queixas de funcionários: "Puxa, eu fazia isso, agora eu estou fazendo outro tipo de serviço e isso aqui para mim, desculpe, é mixaria." A expressão: "Isso para mim é mixaria, acho que não vou aprender mais nada." E é assim, não aprendia nada, não aprendia mesmo. Hoje você vê em agência de banco poucos caixas, poucos funcionários dentro da agência, reduziu o número de funcionários, reduziu mesmo. E para onde vai essa gente? Qual é a nova perspectiva de atividade, de profissão? Eu não vejo, não vejo mesmo, viu? E é aí o ponto que eu temo, e eu não sei se eu sou pessimista nesse ponto, mas os meus 66 anos e pelo que eu já tive em atividade eu não estou vendo profissão.Diziam: "Mas abrem-se outros campos de emprego." Eu gostaria que alguém me respondesse qual. Eu vejo isso aí, economistas falando isso na televisão, são uns enganadores, eu não vejo profissão nova aberta, não vejo, que se abre, não vejo mesmo. Se você souber me avisa que eu vou prevenir meus netos.(riso)

P - O senhor tem saudades do que fazia?

R - Tenho, tenho, eu vou dizer porque. Tenho porque eu gostava daquilo que fazia, é o que eu transmiti a meus filhos duas coisas: faça aquilo que você é capaz, se esforce naquilo que você gosta. Mesmo outro dia meu filho, não sei, saiu uma circular da empresa, sabe certo tipo de vendedor assim cuca meio fresca... "Alguma não sei o quê." "Não senhor." Eu ensinava aos meus subordinados o seguinte: "Sai uma circular no banco, se você não entender a primeira vez leia mais 12 até você enfiar na cabeça tudo." Foi aí no banco que eu me valorizei, não foi brincadeira, se eu apanhava naquilo eu levava para casa, lia até me afunhanhar, vai, até entrar na cabeça e aí eu tive um bom conceito no banco. Tanto é que quando abriram aquele novo departamento foram só dois escolhidos, fui eu e um outro colega, só dois no banco inteiro em 120 agências. E o assessor de diretoria, modéstia a parte, falou assim: "Vocês foram escolhidos a dedo." (risos)

P - Se começasse hoje, faria tudo de novo ou partiria para outra?

R - Eu partiria para outra. O meu objetivo não era trabalhar em banco.

P - Qual?

R - Eu sempre queria ser contador de uma empresa, empresa não bancária, era o meu objetivo. Mas depois começou, banco era uma praga, eu comecei a gostar, gostar, criei amizade, era respeitado, pronto, aí fui embora. E tive chances de sair do banco, tive muitas até para ganhar mais. Mas eu não saí, não saí por um motivo: para não me aventurar, apesar que eu graças a Deus me julgo capaz, mas já era casado, tinha filhos, já tinha que pensar duas vezes. Tinha que pensar bem o passo que ia dar. Mas o meu objetivo era trabalhar em empresa particular, não banco, eu gostaria de ser contador de uma firma, gostaria mesmo.

P - Esse era o objetivo?

R - Esse era o meu objetivo.

P - E tinha algum grande sonho?

R - Em parte tinha, porque eu queria montar alguma coisa minha, entendeu? Eu queria montar alguma coisa para mim mesmo.

P - Em que área, ou não tem definida?

R - Escritório contábil eu não queria, vou te contar, viu, não queria mesmo. Eu cheguei, foi pouca coisa, foi pouco tempo, foi uma sociedade aqui no ramo de gêneros alimentícios aqui na Fernando e Silva, tinha um armazém interessante. Depois de tantos anos eu fiquei nesse armazém, o armazém era um sobrado e esse sobrado era do tio da minha esposa, mas ele vendeu, faleceu e depois os herdeiros venderam, quem comprou fez armazém. E alugamos esse armazém, não era mau negócio não, mas faltavam recursos, era muito pesado, o jogo era muito pesado e aqui essa turma de gêneros alimentícios eles te comem por um pé, questão de preços, tal. Fiquei lá uns seis, sete meses, só não demos prejuízo, mas não ganhamos quase nada também, mas passamos para outro mas... eu gostaria de ter continuado, agora não tenho mais condições, não tenho mais vontade.

P - Que profissão deseja para o seu neto?

R - Eu acabei de falar, é a minha preocupação, eu não sei, não vislumbro, não consigo vislumbrar, rapaz Gostaria que alguém me desse alguma aura, alguma opinião, não consigo vislumbrar, viu? Não consigo, melhor coisa hoje em dia é ser jogador de futebol. (riso) Mas não consigo mesmo. Na área de medicina, administração de empresas, advogado, professor, não sei, está tudo lotado, viu, está mesmo. Tanto é verdade que hoje em dia eu sei de casos que na própria empresa o empregado puxa o tapete do outro, incrível a situação que chegamos, a concorrência entre os próprios colegas, triste Antigamente não tinha disso.

P - Era melhor antigamente?

R - Era melhor porque você tinha oportunidades, lembra que eu falei, eu pedia: "Olha, eu quero trabalhar naquela seção." Então eu me esforçava, queria aprender, tinha chance, sabia onde queria chegar mas tinha oportunidade. Hoje em dia, rapaz, você galga um cargo muito grande você toma cuidado, viu? Toma cuidado porque já tem gente atrás de você e quando você menos espera te puxa o tapete. E é duro. O que está ocorrendo hoje em dia? Você trabalha numa empresa, ganha o suficiente para se casar, sua esposa trabalha também, tem que trabalhar, você pensa que está seguro, rapaz, você não está seguro. Então o que ocorre? Não é novidade. Perde emprego, vai morar junto com os pais, os pais se tiverem uma casinha mais ou menos constróem uma casinha nos fundos, os pais sofrem, sofre a família inteira, precisa arrumar um outro emprego, está brabo, é experiência, tem que entrar sabendo. Não é como antigamente, antigamente eu quero aprender aquilo mas já tinha um que sabia e me ensinava, com a força e vontade eu aprendia rapidamente, certo? Hoje em dia não, você vai numa empresa já: "Cinco anos de experiência, o que você sabe, o que não sabe." Já tem que no dia seguinte estar pronto para atividade. É uma judiação. Mas o gozado é o seguinte: até vinte e um anos, canso de ver no jornal: "Até vinte e um anos com experiência de cinco anos na função, tal." Ah, aonde é que se viu, rapaz? Não existe isso. Dou ojeriza, fico bravo de ver esses trocinhos aí no "Estadão". "Precisa-se de experiência, com cinco, dez anos de experiência e X de idade." (riso) É impossível.

P - Como nasceu o gosto pelo Corinthians? Quem o influenciou e como é que foi isso?

R - Interessante. É boa a sua pergunta. Aquele meu vizinho que fez a minha inscrição no grupo escolar quando eu estava com catapora, era o Zinho e o pai dele chamava-se Aparício. E o pai dele, o Aparício chegou a jogar no Corinthians, pode lá que ainda eu vi outro dia a fotografia dele antiga. Aparício Delgado, coisa assim, tem a fotografia dele no Corinthians. Então, Zinho: "Meu pai jogou no Corinthians, meu pai jogou no Corinthians." E um dia ele me levou ver o Corinthians lá na Fazendinha, a gente ia de bonde, era longe, viu, rapaz, morava no Brás, precisava pegar o bonde, descer a Rua São Jorge e ia ver lá o Corinthians. Então fiquei louco, né? E gostei, aí peguei amor ao Corinthians.

P - Quando foi isso?

R - Puxa, isso aí... olha, eu fiquei sócio do Corinthians, mas você faz me lembrar cada uma, viu, rapaz Eu escrevi uma carta para o atual presidente, agora dia 15 de agosto, agora dia 15 de agosto. Está com ele essa carta e não resolveram. Eu não vou gravar o motivo mas é uma bruta injustiça. Em 1942 entrei de sócio no Corinthians. É coisa rapidinha. Esse título que eu tenho que eu vou transferir para o meu filho, como eu te falei, é de 1962, mas só que eu entrei de sócio em 1942 porque não havia título, você pagava mensalidade, entendeu? Então recentemente eu escrevi, 15 de agosto agora eu mandei uma carta aí para o nosso presidente pedindo que não me cobre a taxa de transferência sobre um título que eu comprei remido, está aqui, aqui no meu bolso, de um que é associado dos bancários, ele não quis mais o que engraxava sapato: "Ô, tem um corinthiano, acho que fica com o título." Está aqui o título. Eu estou ainda para transferir para o meu nome, só não transferi porque é 420 reais de transferência, eu estou achando uma bandidagem. Está aqui: título remido. Com isso aqui, individualmente, depois eu não pago mais mensalidade, entendeu? Mas eu sou sócio desde 1942, rapaz, eu já paguei mensalidade para burro, viu? E eu mandei uma carta aí para o nosso amigo Dualib me isentando, a expressão certa, de pagar essa taxa de transferência de 420 reais. Até hoje não recebi resposta, vou pagar, não vou mais pedir favor para ele.

P - O senhor freqüenta o Corinthians? Vai ao Clube?

R - Freqüento todos os domingos, domingo que eu não vou no Corinthians eu passo a semana mal. (riso) Eu não completo a semana.

P - Mais alguma coisa que gostaria de falar antes de encerrar a entrevista?

R - Aí você tocou. Porque é que me saíram, vai? Do Banco Auxiliar foi por causa da liquidação extrajudicial, certo? Eu saí de lá em 28 de novembro de 1986, fiquei mais um ano porque o Banco Central me segurou, aí eu fui para o Banco Safra. Recebi um convite de um amigo para ser, lá a expressão correta era inspetor de negócios, inspetor de serviço é uma coisa, inspetor de negócios é outra coisa. Todos os negócios: desconto, empréstimo que a gerência fazia nós íamos, como inspetor de negócios, eu tinha que viajar, ia ver se estava dentro da normalidade do banco, pegava duplicatas frias, entendeu, ver se não houve alguma coisa assim fora do normal, não é verdade? E só fiquei no Banco Safra até o... 28 de novembro saí do Auxiliar, deu tempo de tirar fotografia, 1 de dezembro eu estava no Safra, tive dois dias de folga, queria pegar um mês lá: "Não, não." 1 de dezembro eu estava no Banco Safra, eu saí em outubro de 87. Tinha que viajar, eu tive um problema com a minha senhora, entendeu? Porque eu estava viajando e ela teve disritmia, por sorte aquele dia não sei como, o meu filho, ele é casado, tem a casa dele e tal, ele não vinha almoçar na casa da mãe, depois que ele se casou ele mora perto, perto não, mais ou menos, uma, duas, terceiro quarteirão adiante, aquele dia ele cismou de filar bóia em casa, acho que ele estava lá por perto, quando ele vai abrir a porta a minha senhora diz que estava assim virando os olhos e eu estava no Sul, estava em Porto Alegre. Ele me telefonou, tal, ela ficou dois dias e duas noites na UTI. Nossa Senhora do Amparo Aí eu fiquei me remoendo todo. Sabe de uma coisa, não vou trabalhar mais. Já eu fiz meu pé-de- meia, não é pouco, tal, vai dá para aposentadoria, pedi minha demissão. E ganhava bem só que era um banco, meu velho, vou dizer a verdade, vai, no terceiro mês eu fiz a minha carta de demissão e pus nessa pasta aqui, não me adaptei, não me adaptei. Como eu tinha outros colegas que, em virtude da quebra do banco, eu fui o primeiro a entrar nessa, não, fui o segundo, tinha dois que já eram funcionários, eles aumentaram o quadro em mais nove, e foram colocados: um, dois, três, quatro mais um, cinco do Auxiliar. Eu não me adaptei, no terceiro mês, rapaz, eu fiz a minha carta de demissão sem data e pus aqui. Eu não me sentia bem, vai. Eram 8 horas de serviço, não que eu queria moleza. A coisa muda um pouquinho de um banco para outro, certo? Ninguém te ensinava nada, para você aprender só... E fora da coisa, né, sempre muda, muda, se você tem que perguntar, ninguém te ensinava nada. Você saía com outro colega, é lógico que eu fiz estágio com outros, não nego. É isso aí. Eu encerrei a minha carreira bancária em outubro de 87. Conta quantos anos? 39, né?

P - De 48 a 87.

R - 39 anos.

P - O que achou de dar esse depoimento?

R - Eu achei muito útil. Vocês daí vão fazer tabulações, é verdade, e vai servir. Deus queira que alguma coisa que eu falei com toda a sinceridade vai servir de subsídio para vocês enfrentarem o dia de amanhã. Só que eu não sei se respondi certo o que o Manuel perguntou, o que eu vislumbro para vocês, para os meus netos no dia de amanhã, que eu sou sincero, não sei, não sei, não sei. O que eu posso vislumbrar e dizer o seguinte: vê se ganha na loteria para montar alguma coisa para eles. Mas está difícil, né, de ganhar na loteria. (risos)

P - Senhor Oswaldo, muito obrigado pela entrevista.

R - Gostei aqui do ambiente de vocês, foram muito educados, vou transmitir aos colegas que vêm que não me encostaram na parede não, fiquei tranqüilo, não tem problema, pensei que ia sair propaganda de alguma coisa, mas já vi que é coisa interna, espero que tenha sido útil a vocês, com toda a sinceridade.

P - Foi. Obrigado.

R - Estamos aí. .

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