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História

"Aprender, conviver e multiplicar"

História de: Mônica Zagallo Camargo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/01/2019

Sinopse

Irmã do meio, “o sanduíche”, brincava com os dois irmãos na infância. Gostava de jogar e vôlei e admirava a professora de Educação Física da escola, o que a conduziu a cursar Educação Física. Rapidamente engajada nas questões sociais, escolheu como profissão a área da educação – tal como a mãe, professora –, onde sentiu que podia fazer a diferença. De rebelião da FEBEM à viagem para a Suíça, são incontáveis as histórias propiciadas pelas experiências que pôde compartilhar com as crianças, jovens e equipe ao longo da carreira como coordenadora pedagógica.

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História completa

P/1 – Primeiramente obrigada, Mônica, por ter aceitado o nosso convite.

 

R – Eu que agradeço, acho que vai ser bem legal (risos).

 

P/1 – Pra começar a gente faz uma identificação, não se preocupe porque vai fluindo, tá?

 

R – Tá bom.

 

P/1 – Qual o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Mônica Zagallo Camargo, nasci em São Paulo, na Vila Matilde.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – César Rocha Camargo e Adelaide Zagallo Camargo.

 

P/1 – E qual é a atividade profissional dos seus pais?

 

R – A minha mãe era professora, é falecida; o meu pai é auditor.

 

P/1 – Os seus pais são de São Paulo, mesmo?

 

R – O meu pai é de Araraquara e a minha mãe é de São Paulo.

 

P/1 – Você sabe alguma coisa da história deles? Como eles se conheceram, como vieram parar aqui?

 

R – Eu sei algumas histórias deles. Eu sei que o meu pai era muito mulherengo, tinha muitas namoradas, e a minha mãe era o oposto: Tinha pouquíssimos namorados e era oito anos mais velha que meu pai. Quando eles se casaram, minha mãe tinha 33 e o meu pai 25. Ele usava uns ternos vermelhos, uma coisa assim, bem... Sabe? Todo perfumado. E ele casou com a minha mãe, que era professora. Acho que ela o pegou para ensinar outra maneira de ser a ele (risos). Aí ele parou de fumar, foi fazer faculdade. Todo mundo conta que ele mudou da água para o vinho. E o meu pai é filho único, de mãe solteira, em Araraquara. Até essa historinha é muito boa, vou contar porque é boa. Quando os meus pais se casaram, tem que prestar atenção nessa...

 

P/1 – Espera: Como ele chegou em São Paulo? Ele estava em Araraquara...

 

R – Ele chegou em São Paulo, a minha avó veio pra cá. Na verdade, até eu tenho que lembrar que meu pai é de Araraquara, porque, como cidade do interior, tem esse preconceito muito grande. A minha avó veio rapidamente pra cá. Para o meu avô, a minha avó foi uma aventura, mas, para minha avó, o meu avô foi o homem da vida dela. E o meu pai é a cara dele. Então ficou uma história meio difícil de aceitar naquele tempo, em Araraquara, e eles vieram pra São Paulo. Eu não sei exatamente quando, mas sei que meu pai era pequeno. Vieram para São Paulo, e minha avó nunca casou com ninguém, porque, afinal de contas, foi o grande homem da vida dela. Só que o meu avô, português daqueles bem machistas, que precisa de uma mulher cuidando dele, dando comida e tal, perdeu a minha avó.  A minha avó faleceu bem cedo, com 54 anos. Então, três meses depois dos meus pais se casarem, o pai da minha mãe, que era viúvo, casou com a mãe do meu pai, que era mãe solteira. Entendeu?

 

P/1 – O pai...

 

R – Repita (risos). O pai da minha mãe era viúvo, certo? Português, e queria de novo uma mulher para cuidar dele. E a mãe do meu pai era mãe solteira. E aí, três meses depois dos meus pais se casarem, os pais deles se casaram. Loucura, hein? Detalhe é que a minha mãe passou a ter madrasta e sogra na mesma pessoa (risos), e isso ninguém merece (risos). Essa é a história que eu sempre tenho que contar com calma porque as pessoas sempre pedem para repetir (risos). Essa história é boa e é ruim, tem seus conflitos familiares, mas é boa, a história é boa.

 

P/2 – E eles foram morar em que bairro?

 

R – Eu lembro de morar na Vila Matilde, eu não sei se os meus pais moraram em outro lugar antes dali, mas eu só lembro desse lugar. E até a minha tia morava em frente, eu não lembro de outro local na infância.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho dois irmãos, um mais novo e um mais velho.

 

P/1 – O nome deles?

 

R – Ricardo e Rogério. Ricardo é o mais velho, eu sou a do meio, sou o sanduíche, famoso.

 

P/1 – Ricardo é o mais velho...

 

R – Isso, e o Rogério é o mais novo. Ricardo é o mais velho, o Ricardinho. E o Rogério é o caçulinha. E eu sou o sanduíche (risos).

 

P/1 – Mas você tem ideia do nome? Porque os homens começam com “R” e você com “M”...

 

R – A minha história de nome é inexplicável: A minha mãe queria Letícia, meu pai queria Patrícia, ficou Mônica. Ainda eu perguntava: “Mas aonde foi...” “Não, foi só para não criar atrito”. Não teve nenhuma lógica razoável. Nossa, mas de Patrícia pra Mônica, de Letícia... Eu sei que Letícia significa alegria, e a minha mãe queria Letícia por isso, mas eu não consigo entender até hoje por que eles colocaram Mônica. E era a época do lançamento do gibi da Mônica, então acabou sendo um nome da época. Como quando teve a novela da Jade e teve um monte de Jade. O meu era o gibi.

 

P/1 – Interessante, legal. A gente vai falar um pouquinho da sua infância. Você se lembra da sua casa, como é que era quando você era pititica?

 

R – Eu me lembro dessa casa na Vila Matilde, que até eu fui, depois, mais velha lá. E é impressionante, porque o corredor parecia enorme, e eu cheguei lá e era um corredorzinho tão pequenininho (risos). Definitivamente, quando a gente é pequeno vê diferente. E era uma casa... Na verdade era do meu vô, entre aspas, “um predinho”, e tinham dois apartamentos embaixo e dois em cima. No de frente morava minha tia com as minhas primas, e a gente morava no outro. O mais legal dessa casa é que tinha um terrenão atrás que, para não ficar baldio, a gente criava bicho. A gente teve 40 animais: tinha pato, galinha, tartaruga, ganso, tinha variações do mesmo tema: Galinha garnizé, galinha normal... Tinha pato selvagem, pato não sei o quê... Mas era muito, muito bicho. E tinha umas histórias muito boas dos bichos também, porque os bichos têm uma lógica, né? Teve uma pata que botou os ovos mas não chocou. E a outra pata chocou os ovos. A minha mãe conta que quando nasceram os 22 patinhos, foram 11 para cada mãe, amigavelmente. Eu falei: “Nossa, sem advogado, nem nada” (risos). E tem muitas histórias, era uma coisa bem legal. Às vezes morria e minha mãe comprava outro bicho pra gente não ver que estava faltando, dos 40. Acho que ela achava que a gente iria perceber que faltava um dos 40. Todos tinham nome.

 

P/1 – Nossa. E você se lembra dos nomes?

 

R – Eu não me lembro dos nomes. Outro dia eu e meus irmãos estávamos conversando disso, tinha uma pata que se chamava Gata Borralheira, é a que eu lembro, os outros eu não lembro.

 

P/1 – E como era o dia a dia na sua casa? Você lembra? O seu pai ia trabalhar, a sua mãe...

 

R – O meu pai trabalhava e viajava muito. Eu lembro daquelas caixinhas de plástico da Varig, sabe? Tinha uns copinhos, uns negócios, e quando ele chegava de viagem, o mais legal era esperar as caixinhas do avião e tal. Mas eu lembro que era bem complicado a ausência do meu pai, porque ele viajava muito. Auditor externo, fazia coisa em Porto Alegre. Tanto que teve uma época da minha infância que eu morei em Porto Alegre por três anos. Depois a gente voltou pra São Paulo de novo.

 

P/1 – Três anos? Que período foi, mais ou menos?

 

R – Eu fui alfabetizada lá em Porto Alegre. Foi bem legal, eu tive uma vida muito diferente da que eu tinha em São Paulo. Só que teve aquelas coisas da língua, de falar guri, guria e tudo. E quando chegou aqui em São Paulo foi meio traumático, porque tem aquelas gozações de escola. E eu fui parar na diretoria porque o menino falou que eu tinha chamado de gorila, e eu tinha chamado de guri. Sabe, umas coisas assim. E pra criança tudo fica grande. Eu achava aquilo: “Ah, meu Deus, o pessoal goza do jeito que eu falo”. Mas foi bem bacana, a gente aprendeu bastante sobre a região, porque o pessoal do Sul é meio bairrista, às vezes até demais. Aquela coisa meio separatista, assim. Eu aprendi muito sobre a região lá, foi interessante.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu fui para lá com seis pra sete. Sei que eu fiz a primeira, segunda e terceira série lá.

 

P/1 – Forte mesmo. Foi lá que você aprendeu a ler mesmo.

 

P/2 – É difícil você não pegar o sotaque do Sul, né?

 

R – É, muito forte. Nossa, e veio arrastado, sabe?

 

P/1 – E nessa época você tinha uma professora preferida lá?

 

R – Professora preferida? Não. Eu lembro de uma coisa, da mudança. Porque em Porto Alegre as escolas públicas eram melhores que aqui em São Paulo, até pela situação da cidade, de ter uma situação sócio-econômica diferente de São Paulo. Eu me lembro da mudança.

 

P/1 – “Melhor”, que você fala, é no espaço físico, conteúdo...

 

R – Acho que tudo. Eu lembro que eu gostava mais da escola de Porto Alegre, que tinha aula de macramê, tinha umas coisas diferentes.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Macramê é aquela trança. Sabe aquelas samambaias que pendura e tem aquelas coisas de sisal? Aquilo é macramê. Você aprendia. E as aulas eram diferentes, tinha umas coisas diferentes. A aula de macramê era dentro de um bonde, a escola tinha uma parte mais rural, eu gostava mais da escola de Porto Alegre. Quando eu cheguei aqui em São Paulo as escolas eram aquelas coisas mais urbanas, mais prédio...

 

P/2 – Você estudava em escola (do estado?)?

 

R – Eu sempre estudei em escola pública, até a oitava série. Aí o meu pai, como auditor “Tio Patinhas” (risos), ele guardou, guardou, guardou dinheiro e a gente estudou no Arquidiocesano no primeiro, segundo e terceiro colegial, porque o plano dele é que isso daria uma base pra gente entrar na USP [Universidade de São Paulo]. Todo mundo tinha que entrar na USP, e todo mundo entrou na USP. E foi essa a lógica: Até a oitava série era escola pública, ele guardava dinheiro pra gente fazer uma escola mais forte e tentar uma universidade pública. E deu certo.

 

P/1 – E dessa época do ensino fundamental, o que você guarda de lembrança marcante?

 

R – Eu guardo a história da festa junina que eu trouxe a foto. Porque eu estava esperando o meu par pra dançar, eu devia ter uma paixão infantil, e o menino não foi, eu tive de dançar com o meu irmão. Eu estou de bico na foto, assim. Uma coisa que eu guardo bastante. Eu guardo uniforme, era a conga vermelha, shortinho de almofadinha – que parece uma almofadinha –, blusa branca e o bonezinho. É superforte. E a coisa dos meus irmãos: Toda vez que eu lembro de escola, eu lembro, tinha uma coisa... Eu tava numa série, eles pra cá, outro pra cá.

 

P/2 – Essa foto é de alguma escola em Porto Alegre ou é aqui?

 

R – Eu não consigo lembrar.

 

P/2 – Deve ser, porque é segunda série, né?

 

R – Deve ser de Porto Alegre. Eu acho que é de Porto Alegre.

 

P/1 – Segunda série...

 

R – Se falar que eu lembro exatamente que escola era, eu não lembro. Mas deve ser de Porto Alegre.

 

P/1 – Você morava perto da escola, quando você veio pra São Paulo?

 

R – Era próximo, eu ia a pé. Eu nunca morei muito longe da escola, não. Por ser pública. A última que eu estudei era atravessando, e eu sempre chegava atrasada até, porque você vai andando naquele mole de ser muito perto (risos) e você atravessava correndo.

 

P/1 – E como era a saída da escola?

 

R – A saída? Eu estudei muito tempo naquele turno horroroso das onze às três, sabe? Você tem que comer quando não tem fome, e eu lembro disso porque eu sempre fui muito ruim pra comer, muito chata, nada eu gostava. Tinha a briga antes de ir pra escola, pra terminar de comer e ir pra escola. Acho que o mais marcante na minha memória era isso, porque eu era muito ruim pra comer. E agora tenho uma filha que é muito ruim pra comer. Aqui se faz, aqui se paga (risos).

 

P/1 – E o Arquidiocesano? Porque ele é distante da sua casa. Como é...

 

R – Ah, isso foi uma revolução. Meu pai saía cedo, deixava a gente lá sete e quinze da manhã. A gente morava em Interlagos e estudava no Arqui, que era Santa Cruz. Saía super cedo de casa, não era atravessar a cidade porque é Zona Sul também, mas é longe. Ele deixava a gente de manhã e a gente voltava de metrô e ônibus. E isso foi uma coisa super diferente. Não tinha gostar ou não gostar, também porque tinha muita novidade, ir para uma escola grande, tudo diferente. Tinha aquela coisa da novidade, e era legal também a escola. Mas o que eu lembro que chamava atenção é que era muita gente. Na escola que eu estudava a gente fazia parte do Grêmio, da Comissão de Formatura da oitava série, e todo mundo conhecia todo mundo. Então, quando eu cheguei no Arqui era um mundão, assim, de gente. Eu era do terceiro I. Então, A, B, C, D, E, F, G, H... Era muita gente, isso eu lembro que foi difícil. Não era “A Mônica da Comissão de Formatura da Oitava Série”, que tinha uma oitava série. Eu era a Mônica do terceiro “I”, que tinha zilhões de pessoas. Isso foi bem diferente.

 

P/1 – E como foi o andar de ônibus? Porque até então vocês moravam pertinho, agora seu pai levava vocês de manhã. É um lance de vocês se locomoverem sozinhos, não é?

 

R – É isso mesmo.

 

P/1 – (Inclusive na volta?)?

 

R – É, às vezes sim, às vezes, não. No começo voltava todo mundo junto, mas daí um está numa série, outro na outra, um tem laboratório à tarde, outro não tem. Foi aí que eu comecei a circular sozinha mesmo, e meus irmãos também. Eu tinha muito sono no começo, porque tinha que acordar muito cedo, e quando eu voltava, às vezes eu perdia o ponto do ônibus, porque eu estava com tanto sono... E meus irmãos também, às vezes os três perdiam o ponto do ônibus (risos). A gente sempre ia parar uns dois pra lá (risos). Dá uma desadaptada, porque você pegar e atravessar a rua para ir pra escola e depois você acordar de madrugada, pegar o carro, ir pra escola e voltar de ônibus... Muda tudo, não é? Tenho recordações boas, por mais diferente que tenha sido.

 

P/1 – Tem alguma coisa que te deixou marcada, nesse período?

 

R – Do Arqui... Ah, é um período de adolescência, né?

 

P/1 – Namoradinho, essas coisas...

 

R – Eu tinha um namorado que era do clube, não era da escola. Comecei a namorar com 15 anos, e ele era mais velho que eu, tinha 21, e ele tinha uma moto. O meu pai não suportava a moto. E depois, na minha família, teve uma fatalidade, porque meu primo faleceu em um acidente de moto. Então ficou aquela coisa proibida, moto, moto, moto. E, às vezes, ele ia me buscar na escola de moto. Eu chegava em casa, dava uma ajeitada no cabelo – porque moto dá aquela desajeitada –, punha capacete e tal, mas sempre o cabelo fica meio estranho nas pontas, aqui. (risos). Ele me deixava na esquina para eu ir a pé, pra parecer que eu estava chegando de ônibus (risos). Afinal de contas...

 

P/1 – De que clube vocês eram sócios?

 

R – Clube Indiano, é ali na Represa de Guarapiranga. A gente adorava ir pra lá, ia todo o final de semana pra lá, batia cartão no clube.

 

P/1 – Mônica, uma coisa só pra não passar batido: Você falou que estava morando em Interlagos, mas você era da Vila Matilde. Então vocês mudaram de casa?

 

R – Da Vila Matilde eu fui pra Porto Alegre, de Porto Alegre eu voltei pro Consórcio, e do Consórcio que eu mudei para onde eu morei, em Interlagos.

 

P/1 – Nessas mudanças todas era tranquilo fazer um grupo de amigos? Você tinha um grupo?

 

R – Eu sempre tive. Eu me considero razoavelmente extrovertida. Eu me viro, não fico muito tempo sozinha, deslocada. O período mais difícil foi o retorno de Porto Alegre, como eu comentei. Porque sotaque acabava, dava uma... “Aquela menina esquisita que fala cantado”, entendeu? Esse período eu lembro que foi mais difícil, tanto pra mim quanto para os meus irmãos. E a gente também não sabia matéria de São Paulo. Terceiro ano era pra estudar a cidade de São Paulo, e eu só sabia do Rio Guaíba, não sabia sobre o Rio Tietê (risos). Ficou um período de estresse, e eu lembro que minha mãe me ajudou, sabe aquela coisa de reforço? Como minha mãe era professora, ela fazia aquela função de: “Não, vamos estudar”.

 

P/1 – Sua mãe era professora de quê?

 

R – Minha mãe era professora de Magistério, primeira à quarta série. Na época nem lembro como chamava. Ela deu aula e parou quando teve os filhos, aquela coisa bem da época mesmo, de que a mulher parava de trabalhar para cuidar dos filhos.

 

P/1 – Você lembra na sua casa de ter coisas da escola, sua mãe corrigindo? Você se lembra disso?

 

R – Eu me lembro de algumas histórias da minha mãe que ela dava aula em uma escola meio rural. Então ela pegava trem, ônibus e uma carroça pra dar aula. E ela sempre contava essas histórias. Ela tinha uma coisa muito forte com Educação, não sei por que eu fui trabalhar na área de Educação (risos). Na verdade, eu não ligava, às vezes a gente não liga os ponteiros de imediato, né? Mas tem umas coisas que... Eu sempre achei que eu era muito diferente da minha mãe, porque ela parou de trabalhar e eu jamais pararia de trabalhar. Isso foi o que diferenciava eu, dela. E hoje em dia eu acho que a gente tem um monte de coisa em comum, porque eu trabalho na área de Educação, acho que muito em função de todas as histórias dela. Ela falava: “Se você quiser trabalhar em Educação você tem que ser persistente, mas não queira ganhar dinheiro”. Ela sempre brincava com isso. Ela contava essas histórias da carroça, que é uma coisa que você tem que ficar ali com muita força, muita vontade. Você tem que ter um dom pra coisa. Ela falava essa coisa de dom. Hoje em dia eu não sei, acho que tem uma coisa de vocação, mas acho que não é um dom, é uma coisa que se desenvolve. Mas foi muito forte isso, ela como professora, no quanto influenciou no que eu sou hoje, profissionalmente.

 

P/1 – A gente quer passar para isso mesmo, mas antes, só para não passar batido: Você se lembra de quais brincadeiras?

 

R – Eu só brincava de coisa de menino, porque eram dois irmãos: carrinho de rolimã, bicicleta, só coisa... Até minha mãe estressou uma época, porque eu era meio molecona demais, e eu fui fazer aquele curso “Joyce, Manequins e Maneiras”, sabe? Pra aprender andar melhor, uma coisa assim, mais feminina (risos). Mas foi isso. Era um barato. E tinha uma coisa muito legal na minha casa: Os meus irmãos tinham as bonecas deles e eu tinha o meu carrinho de rolimã, essas coisas. Isso era muito legal, porque não tinha essa coisa: “Porque ia brincar de boneca e ia...” Que era um baita preconceito na época. Mas as bonecas eram de papel. Vocês lembram daquelas bonecas de papel que você trocava as roupas? Tinha um monte. Você trocava a roupa, contava história e tal. Eles tinham os bonecos deles, porque era casal, normalmente. Vinha aquela revista dura que você destacava e colava as roupas. Eles tinham os bonecos deles e eu tinha as minhas. E os carrinhos também. Eu tinha os brinquedos de menino, achava muito legal. Eu não tive filho homem, mas eu acho que faria a mesma técnica. Tem coisas que a gente abomina, do que os pais fazem e não quer fazer igual, né? Mas acho que tem coisas que a gente acaba falando: “Não, isso aqui foi muito legal, vou fazer com os meus também”.

 

P/1 – E não teve o lance de brincar de escolinha? Ainda mais com a sua mãe professora, não teve isso?

 

R – Não lembro muito disso, viu? Não lembro.

 

P/2 – Fiquei curiosa sobre o que você fazia nesse curso de boas maneiras.

 

R – Do Joyce, Manequins e Maneiras? Era aquele lá na Oscar Freire, todo frufruzinho, tinha depois o desfile.

 

P/1 – Você fez quanto tempo esse curso?

 

R – Eu não lembro, acho que eram uns meses, não era muita coisa não. Mas tinha essa coisa de desfilar, modelo. Era um curso de modelo, mas tinha também das boas maneiras. Como, por exemplo, “como fazer uma maquiagem”, o que eu não sei até hoje (risos). Tinha de como andar, como sentar. Aquelas coisas dos talheres, sabe? De comer. Eu confesso que eu não me dediquei muito na parte prática, porque eu não me lembro muito, mas eu lembro que adorei desfilar. Porque imagina, você adolescente, aquela coisa de ser modelo. Então adorei, achei o máximo. O desfile de final do ano foi o máximo. Mas durou pouco também a história de desfile no final do ano, meus irmãos sempre tirando uma, né?

 

P/3 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha uns 14, 15 anos. Eu lembro que o meu namoradinho foi no meu desfile de formatura do Joyce Manequins e Maneiras (risos).

 

P/1 – Sua mãe que ficou preocupada e colocou...

 

R – Não, não. Acho que tinha uma coisa assim: Tinha uma coisa que eu queria e tinha uma coisa que ela achava bom também. Porque, afinal de contas, às vezes eu era... Só irmão, né? Eu gostava de brincar de Forte Apache. Eu me lembro até hoje do primeiro dia que eu menstruei. Eu estava brincando de Forte Apache e não combinou aquela coisa, assim, né? Não tinha...

 

P/1 – Ó, fui acertada! (risos).

 

R – É (risos). Foi mais ou menos isso, viu?

 

P/1 – Como foi a relação com os seus pais na época da adolescência? Fora o seu pai que não queria _______?

 

R – É sempre ruim a relação com os pais na adolescência. Acho que é uma fase de tanto conflito, é natural. Tentar falar não como alguém que estuda nessa área, mas eu... Sei lá, você transgride, acha que eles são uns malas, eles não sabem de nada. O que era isso... E eu lembro que o meu pai era muito chato com horário, mas muito chato. Então eu saía com o namorado de casa às nove e tinha que estar de volta às dez. Teve um dia que a gente foi na padaria, comeu um hamburguer e voltou. Era muito chato com horário, com tudo. E a minha mãe, por incrível que pareça, ela sempre foi a mais rédea curta em casa, porque o meu pai viajava muito, ela era a que botava ordem na casa. E nessa época, até que ela deu uma... “Não, deixa ela ficar mais um pouquinho, conheço a mãe do rapaz”, aquelas coisas de dar uma suavizada para não ser tão traumático. Porque o meu pai, se bobeasse, entrava na festa pra ver se a festa estava adequada para a filha. Sabe aquela coisa de mico, mesmo? A primeira festa na faculdade... Eu entrei com 17 para 18 anos, não tinha 18 ainda, e ele falava que eu era menor de idade, e que, enquanto eu fosse menor de idade, ele iria entrar na festa para ver se a festa estava adequada. E aí tinha um mico, né? Seu pai entrar na festa para ver como estava a festa.

 

P/1 – E teve esse episódio?

 

R – Teve esse episódio. Foi bem complicado. Primeiro ano de faculdade, você vai a uma festa numa república de meninos e seu pai entra na festa. Mas passou também, passou. Ah, foi aquela tiração de sarro e tal. Mas não sei, acho que eu não dava muita trela, falava: “Deixa pra lá”. Eu lembro de poucos atritos muito fortes na adolescência. Mas me lembro uma vez que eu falei que ia fugir de casa, aquela coisa assim. Fui até o ponto de ônibus e falei: “Vou morar com a minha prima”. Tinha umas coisas assim. E eu brigava muito com a minha mãe, muito, muito, sempre briguei. Mesmo depois na vida adulta, a gente sempre brigou muito. Uma relação de amor e ódio. A gente é muito diferente, essa coisa dela... Ela é ainda muito da linha de casar, ter filhos, viver em função dos filhos e tal. E eu sempre questionei muito isso. Mas ela tinha um lado... Depois que os filhos cresceram ela começou a fazer Liceu de Artes e Ofícios, fazer uma parte meio de artesanato, mas era meio uma regra da época: Não podia trabalhar, mas podia fazer cursos de artesanato. E foi mais ou menos isso que aconteceu. E na adolescência não podia ser diferente, a gente tinha os arranca nossos. Porque a minha mãe não gostava muito de perfume, nem de maquiagem, nada muito perua. E eu era médio, não era muito perua, mas queria fazer uma depilação, queria botar brinco. Então pus brinco escondido, maquiagem tinha que ganhar. Era muito raro minha mãe falar: “Vamos comprar uma maquiagem”.

 

P/2 – Tinha uma religião, alguma coisa assim?

 

R – Não, a minha mãe sempre foi muito simples. Sabe aquela mulher simples? “Pra quê, pra quê essa coisa toda de batom, depilação, brinco. Você é bonita assim”. Uma coisa meio... Não dar muito valor. A roupa da minha mãe era sempre muito básica, não tinha essa coisa de salto alto. Ela nunca foi uma mulher muito feminina, nesse sentido de mais vaidosona, nunca foi.

 

P/1 – Como foi sua entrada na faculdade, você saiu direto? E a opção pelo curso?

 

R – É, foi muito difícil, porque eu estava no terceiro ano do colegial e tinha uma maratona: você tinha o colegial no Arqui, que já era puxado pra dedéu, e depois você fazia o cursinho. Então eu me lembro que era uma época assim... Eu me lembro eu e os meus dois irmãos: o meu irmão mais velho é “o” CDF [Cabeça de Ferro]. Sabe aquele cara, o primeiro da turma, que tira as melhores notas e tal? Eu sou aquela mais ou menos; estudo, estudo, tiro mais ou menos e vou mais ou menos. E o meu irmão mais novo é aquele cara que não estuda nada e vai bem pra cacete. Aquela coisa que você não consegue explicar, é o descolado (risos). O último filho, né? E eu lembro que foi super... Aquela coisa de estuda, estuda, estuda, e aquele peso de passar na USP, passar na USP.

 

P/2 – Você já sabia o que queria prestar?

 

R – Eu não sabia, 17 anos era muito cedo. Eu sabia essa coisa de ser professora. Eu queria dar aula, mas eu ficava: “Ai, mas dar aula? Primeira à quarta, não...”. Eu gostava de jogar e, olha as associações: Se eu gosto de jogar vôlei, acho que vou gostar de dar aula de vôlei, né? E eu adorava... Ah, você falou da professora da escola, eu adorava a minha professora de Educação Física. Ela era uma negra forte, sabe aquela mulher meio guerreira? E ela tinha... Eu lembro que eu admirava muito ela, ela tinha umas histórias de que ela tinha perdido um filho, e ela era muito forte. Eu admirava, achava ela o máximo.

 

P/1 – Você lembra o nome dela?

 

R – Eu acho que era Inês. Era “I” alguma coisa, mas eu acho que era Inês. Ela me marcou. Eu acho que eu queria ser guerreira que nem ela, ela era muito forte. E eu prestei Educação Física. Nos primeiros anos eu já achei que eu estava no lugar errado, sabe, assim? Mas aí eu fui começar a fazer as disciplinas na área de Educação e falei: “Ai, não é Educação Física, mas é essa história aqui de Educação”. E eu vivi aquela crise de “termino ou não a faculdade?”. Porque você pode falar: “Não, não é isso, eu vou parar e tal”. E eu acho que eu segui o conselho certo. Meu pai falou: “Cata o diploma e depois você vê o que você quer da vida”. Porque o meu pai tinha terminado a faculdade mais velho, lembra que eu te contei? Eu fui à formatura do meu pai, entendeu? Eu tenho uma foto com o diploma do meu pai, eu devia ter uns três ou quatro anos de idade, por aí. Ele era todo diferente; casou com a minha mãe, que convenceu ele a fazer uma faculdade. Então, eu fui à formatura do meu pai. Quando ele terminou a faculdade eu já era nascida.

 

P/2 – O que ele estudou?

 

R – Ele fez Ciências Contábeis, depois fez outras coisas e se tornou Auditor. Mas eu me lembro dessa história de eu pequena com o canudo. Aliás, tem uma fotona lá na casa do meu pai, comigo com o canudo do meu pai. E aí, acho que isso pegava, de ser alguma coisa importante. Para o meu pai tinha muito o peso do diploma: “Pega o diploma e depois você...”. Como se fosse também uma coisa burocrática. Acho que ele sentiu isso na carreira dele, de que ele precisava de um diploma para conseguir ir mais à frente. Então ele tinha isso. Eu peguei, depois fui fazendo outras coisas, e acabei indo rapidamente para a área de Programas e Projetos Sociais. Com 23 anos eu já estava na antiga Secretaria do Menor, que depois virou Secretaria da Família e Bem Estar. Eu entrei logo nessa área de programas sociais. E sabe quando você fala: “Estou no lugar certo, é aqui”. Mas entrei como professora de Educação Física.

 

P/1 – Antes disso você nunca tinha trabalhado?

 

R – Não, eu fazia uns bicos, extra de Natal, essas coisas. Tinha uma coisa muito legal na minha casa que assim, nada era muito de mão beijada, tudo você tinha que fazer sua parte: estudar era sua parte, por exemplo. Era inaceitável não ir bem na escola, ou não estudar, ou negligenciar estudo e tudo. “Faz a sua parte”. Tinha essa coisa, que era até bem rígida. Mas hoje em dia a gente... Eu que sou mãe, falo: “Putz, será que de vez em quando não é bom ser rígida?”. Porque a gente está exatamente na transição de que a gente não sabe muito como educar os filhos, às vezes a gente acha que é frouxo demais, às vezes acha que é rígido demais. Então fica com umas referências misturadas, do pai e da mãe da gente. Nessa coisa de estudo não tinha exceção: “Sua parte é estudar”. Acho que isso acabou sendo, pra mim e para os meus irmãos, superpositivo. E o que você perguntou mesmo?

 

P/1 – Você começou a fazer os bicos...

 

R – Ah, fazia quando queria alguma coisa diferente que meu pai falava: “Ah, tá”. Eu pegava e ia fazer monitoria de recreação em acampamento, trabalhei na Sears em véspera de Natal. Nunca me esqueço, 11 horas da noite a mulher me pede 22 sabonetes para presente. E na Sears tinha um jeito de embalar especial, eu dei uma ralada... Era engravatado, tinha aquelas coisas ainda do tipo de embalagem. Era legal porque você tinha a coisa do saber quanto custa, de que é duro ganhar dinheiro e tal. E eu ia viajar com esse dinheiro, ou comprava uma coisa que eu queria e tudo. Às vezes eu percebia que meu pai tinha condição de fazer, mas ele fazia disso uma experiência pra gente. Então ninguém teve nada muito no mole. Acho que isso eu acabo tentando reproduzir com as minhas filhas, de que é duro ganhar, dinheiro não dá em árvore, então vamos lá: “Qual é a sua parte na história?”.

 

P/1 – Em relação aos projetos sociais, você estava na faculdade, ainda, quando teve contato com isso?

 

R – Não. Eu tinha a coisa das histórias da minha mãe, que era a escola rural, então já tinha essa história de trabalhar em locais bem complicados, de muitos desassistidos. Eu lembro da minha família... A minha mãe tinha uma moça que ajudava a gente, que era meio que da família. Tinha uma coisa social na minha casa de tentar ajudar. Não ajudar no sentido de dar as coisas também de graça, mas de tentar contribuir. Eu lembro da Léia, que era essa pessoa que cuidava da gente e tinha dois filhos, que perdeu um filho por asfixia de feijão, aquelas fatalidades de comida e tal. Eu lembro da minha mãe fazendo um trabalho com ela para ela voltar a ter prazer pela vida. Ela ficou muito arrasada na época. Então eu lembro desse lado mais humano, digamos assim. E acho que isso acabou pegando.

 

P/1 – E como é que pintou essa história de ir pra fundação? Você já tinha ouvido falar na Fundação Gol de Letra?

 

R – Eu vou contar um passinho antes. Eu entrei na Secretaria do Menor, vivi aquele famoso choque, pra ver se é isso que você quer mesmo.

 

P/2 – Quando você entrou na Secretaria do Menor?

 

R – Com 23 anos, logo que eu me formei. Eu entrei com 17 pra 18. 19, 20, 21... É, eu tinha um ano de formada, no máximo, quando eu entrei na Secretaria do Menor. E era lá no M’Boi Mirim, no Jardim Ângela, que é um lugar que hoje melhorou muito, mas foi naquela época que se chamava de “Triângulo da morte”, e que tinha uma confusão muito grande ali, estilo gangue. Era um lugar muito complicado. E na época teve uma rebelião na antiga FEBEM [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor]. Eles levaram os jovens para lá, e a gente meio que ficou dentro do local, médio funcionário, médio “sai se eles deixarem”, médio refém, a gente brinca. Um negócio meio confuso, porque foi uma rebelião muito feia. A gente estava lá, na verdade, para trabalhar no Clube da Turma. De repente acontece uma rebelião da FEBEM, colocam todo mundo lá. Aquela confusão toda.

 

P/1 – Você estava lá enquanto estava acontecendo...

 

R – Isso.

 

P/2 – A polícia levou ou tirou...

 

R – Eu trabalhava no Clube da Turma, que não tinha nada a ver com a rebelião.

 

P/2 – O Clube da Turma era no mesmo lugar?

 

R – Era da Secretaria do Menor. A única ligação era o fato de ser do Estado e tal. Mas quando aconteceu a rebelião, não tinham onde pôr os jovens, eles saíram distribuindo. E um dos lugares onde eles distribuiram... Exatamente. Foi lá. Aí foi o primeiro choque do mundo como ele é, eu brinco. Eu vi muitos jovens pularem o muro, vi a polícia fingir que não via eles jogarem cobertor vazio e voltar com um monte de bebidas e drogas. Eu vi aquela coisa que foi assim: “Nossa”. Aí você vê a história como ela é mesmo num lugar assim. E eu namorava o meu marido – na realidade essa é outra história –, e ele tinha um Opala branco. Um Opala branco, naquela região, naquela época, era carro de justiceiro. Ele foi me deixar pra trabalhar em um Opala branco. Eu comecei a circular lá e vi que as coisas não estavam legais pra mim, que sempre tinha alguém no meu cangote, com uma cara feia. Eu falei: “Meu, o que está acontecendo?”. E aí me chamaram na diretoria para me explicar que estava todo mundo achando que eu era namorada de justiceiro. O justiceiro é o cara da comunidade que apaga. Eu falei: “Pô, tá fácil agora, né? Estou aqui de namorada de justiceiro” “E os caras falaram que você não sai” “Agora ficou mais fácil ainda”.

 

P/2 – Quem eram os caras?

 

R – Os meninos da rebelião, da FEBEM.

 

P/2 – Eles acharam que iria matar eles?

 

R – Não, eles acharam que eu era namorada de justiceiro, portanto namorada de justiceiro não é uma pessoa confiável. Onde eu ia eles me seguiam, tudo. E, na verdade, a história era: “Ela não sai, porque ela é namorada de justiceiro”. Como se eu fosse levar informação pra justiceiro, essas coisas que, para mim, até então, eram de outro mundo. Eu só sei que passei umas duas ou três horas meio como refém e meio tentando sair. Até que arrumaram um esquema com um jovem que era dos dois lados e eu fui comprar cigarro, entendeu? Vou contar da Secretaria, né?

 

P/1 e P/2 – Isso, como é que chegou lá...

 

R – Eu lembro que eu terminei a faculdade já no pé da arte-educação. Então, eu já fazia parte do grupo de dança, já gostava muito da coisa do teatro, e já tinha começado meio... Grupos de estudo nessa área, assim, de arte-educação, já tinha dado uma esquecida, um pouco, na história da Educação Física. Mas como Educação Física e arte-educação dá casamento, porque dá pra você trabalhar com corpo... Eu lembro que eu dava aula de dança, trabalhava com consciência corporal, que na época era a palavra do momento. Eu fui atrás da Secretaria já sabendo que era programa social: “É essa história aqui que eu quero”. Secretaria do Menor, na época. Eu fui, tinha uma seleção, tudo, e eu entrei. Esse Clube da Turma estava sendo inaugurado, toda equipe nova. Sabe aqueles processos que começam do zero, super legais e tudo. Só que o cara chegou pra mim e falou: “Olha, eu sei que você é de arte-educação e tal, mas só tenho vaga para futebol”. Falei: “(Caramba?). Eu podia dar futebol, porque eu tinha a faculdade de Educação Física, e eu percebi que eu ia ter que comer um pouquinho de grama no que eu não quero pra depois eu conseguir ter o que eu quero. Lembro que eu fui dar aula de futebol de campo no Jardim Ângela, entendeu? Euzinha aqui. E eu já era casada, foi bem complicado. Eu, com 23 anos, lembro que eu estava com a aliança e o cara falou assim: “Ah, você é furada?”. Eu olhei e não entendi direito, ele fez assim com a aliança. E eu fiz assim: “É, né?”. Nossa, que vocabulário receptivo, primeiro dia de aula, o cara olha pra sua aliança e fala: “Ah, você é furada?” “Ah, sou”. E era uma campinho de terra lá no fiofó. Eu falava assim: “Gente, se me acontece alguma coisa aqui, já era”. E aí acho que foi quando eu percebi que eu não tinha medo. Todo mundo falava assim: “Nossa, mas você está dando aula lá embaixo, naquele campo de terra, o cara falou que você é furada”. Eu percebi que eu não tinha medo, não. Eu era como a professora de Educação Física lá da escola, eu não tinha muito medo, não. Aí foi. Fiquei com o futebol um tempão, e dava aula com a Cibele, que foi uma parceirona minha, uma mulher super descolada. Nós duas éramos uma dupla quase de homens, a gente brincava, porque a gente dava futebol, entendeu? (risos). E eram duas mulheres dando futebol. Pra eles: “Ah, pelo amor de Deus, duas mulheres dando futebol”. Era super complicado, eles não gostavam, não.

 

P/2 – Era tudo adolescente?

 

R – É, dava aula pra marmanjo de 17 anos.

 

P/1 – Então era diversificado? Como era a faixa etária?

 

R – Tinha tudo; seis, 12, 17, até 18 ia, que era a idade. E eu encontrei com um deles, foi muito doido, encontrei com um que virou jogador de futebol, não por minha causa, é claro, porque já era bom e eu não tive nada a ver com isso (risos). Eu encontrei com ele, ele é coordenador do projeto do Edmilson. Ele foi lá na Gol de Letra e falou assim: “Mônica Zagallo”. Eu falava: “Meu Deus, gente do céu”. Eu não lembrava dele. Ele falou: “Daniel”. Eu fiz assim, e ele falou: “Da Secretaria do Menor, do M´Boi Mirim, do Clube da Turma”. Eu: “Gente, olha que mundo pequeno, fui encontrar lá na Gol de Letra”. E ele falou um negócio que eu amei, me senti toda orgulhosa. Eu falei: “Meu, como é que você lembra de mim e do meu sobrenome? Com certeza não foi pelo que eu te ensinei de futebol, né?”. Ele falou: “Não foi, foi porque quando eu fui fazer peneira...” − e ele jogou futebol – “eu tirei o bigode. Você virou pra mim e falou: ‘Até que enfim você tirou esse bigode pra tirar essa cara de mau. Aposto que você foi melhor na peneira”. E ele tinha ido melhor na peneira. Porque ele tinha um bigodinho daqueles que deixava ele muito carrancudo, muito com cara de malvado. E ele brincou, falou: “Eu lembro que você me azucrinava pra eu tirar o bigode, e no dia que eu tirei o bigode, passei na peneira”.

 

P/2 – O que era essa peneira?

 

R – Peneira de futebol. Sabe essas peneiras de clube?

 

P/2 – Pra selecionar...

 

R – Pra selecionar os meninos. E ele jogou um tempão. Falou assim que o que ficou foi que eu fiquei azucrinando ele pela postura. Ele tinha uma postura... Ele era mal-humorado, parecia o Mutley, sabe o cachorro “gru gru gru”? E com aquele bigodinho, então... Eu falava: “Meu, tira esse bigode, melhora esse humor, pelo amor de Deus!” (risos). E foi isso que eu marquei na vida dele, mas eu gostei da marca que fiz, que foi... “Dá a cara a tapa, faz a peneira, mas dá a sua cara, pare de ficar com essa cara de mau”. Parece aquela música da Maria Rita: “Com essa cara de malvado, só pra disfarçar o que você é”.

 

P/1 – Mônica, deixa só eu entender um pouquinho: Esse tipo de trabalho que você foi fazer era uma coisa nova? Não existia esse...

 

R – Ah, programa social era uma coisa muito...

 

P/2 – Era para atender a comunidade...

 

R – É. E não tinha como hoje, sei lá, curso. Já era uma coisa muito mais forte que na época da minha mãe, em outras épocas. Mas não tinha esse montão de organizações que tem hoje, nem essa lógica. Pelo menos, não que eu me lembre.

 

P/1 – E isso atendia à comunidade do Jardim Ângela, é isso?

 

R – À comunidade do Jardim Ângela.

 

P/1 – Você lembra como as pessoas iam?

 

R – Elas se inscreviam, tinha uma triagem, tinha assistente social. Tinha uma equipe grande também de psicólogos. Era uma equipe multidisciplinar, como são as organizações hoje. Olha a ironia: Esse Clube da Turma, depois que saiu da Secretaria do Menor, ele foi para uma parceira do Instituto Sou da Paz, que é onde eu estou trabalhando hoje, olha que mundo pequeno! Não é muito doido? Então, quando eu fui fazer a seleção do Instituto Sou da Paz que eles falaram: “Ah, a gente tinha um trabalho no Jardim Ângela”, eu falei: “Onde?” “Ah, no M’Boi Mirim” “Ah, no antigo Clube da Turma?” “É, no antigo Clube da Turma”. Eu falei: “Gente, esse mundo é muito pequeno”. Era da época da Alda Marco Antônio, foi uma época que teve muita coisa, esse trabalho se organizou de uma maneira muito diferente no Estado. Não estou falando nem positivamente, nem negativamente da Alda Marco Antonio, mas eu lembro que teve uma coisa muito forte de investimento, em fazer Clubes da Turma.

 

P/1 – Antes disso, você estava falando do Opala branco...

 

R – Ah, eu estava contando da história do Opala branco. Essa história foi difícil. E a gente não tinha inaugurado o Clube da Turma, a gente estava naquele momento gostoso de fazer planejamento, todo mundo se abraçando, trocando ideias, se conhecendo; quando teve a bendita rebelião da Febem e não perguntaram nem A mais B. Colocaram os meninos lá, em uma situação de rebelião, que já é uma situação de agressão forte, violenta e tal. Mas dentro da linha do: “Eu não tinha medo”, eu achava que eu ia dar conta da história, mas não tinha vivido a história do futebol ainda, porque as atividades não tinham começado. E aí foi que eu passei a primeira grande tensão. Eu não acho que o trabalho na ponta seja perigoso, que você vai passar esses momentos, mas eu acho que é muito bom se você tiver essa serenidade em momentos de conflito, porque eles podem acontecer. Mesmo na Gol de Letra existiram alguns momentos difíceis, de toque de recolher, de momentos onde a história estava tensa. Acho que tem um lado seu que, se você tiver pavor, medo e achar que alguma coisa vai te acontecer, você com certeza não vai trabalhar nessa área. Pelo menos não dentro da comunidade, você vai trabalhar, talvez, numa coisa mais de escritório e tudo. E eu gosto um pouco da ponta mesmo. Um pouco, não, muito. Eu gosto mesmo de estar lá. Essa história, foi que aí eu tive que fingir que ia fumar um cigarro, ou comprar um cigarro pra não sei quem, e eu saí sem bolsa, sem nada. Eu saí, me botaram dentro de um camburão, andei de camburão (risos), e me deixaram em casa.

 

P/1 – A polícia que fez isso?

 

R – Sim, a polícia. Por causa dessa história toda, porque estava tudo muito tenso, sabe? Rebelião, infelizmente já tinham assassinado um menino lá dentro, a pancadas. Então eles não sabiam muito, estava tudo muito nervoso, e já tinham queimado colchão, jogado comida na parede, estava tudo muito tenso. Então qualquer situação que pudesse oferecer risco, eles tentavam tirar a gente de lá de dentro. E foi isso que aconteceu comigo: Quando perceberam que tinha esse mal-estar com eu ser “namorada de um justiceiro”, eles falaram: “Vamos tirar você daqui”.

 

P/2 – Você ficou algumas horas de refém?

 

R – É, fiquei duas ou três horas bem tensa. Cheguei em casa...

 

P/3 – Você já era casada?

 

R – Era casada, já. Eu casei super cedo. Casei com 22 pra 23 anos.

 

P/1 – Como foi isso? Como você conheceu o seu marido?

 

R – Eu o conheci na Faculdade.

 

P/1 – Mesmo curso?

 

R – Mesmo curso, eu sou caloura dele. Mas é que ele já foi marido, ex-marido, por isso que eu falei que é outra parte da história.

 

P/1 – E o desfecho? Você continuou depois indo... Acabou o negócio e você voltou pra Secretaria?

 

R – Voltei, trabalhei lá um tempo bom. Deixe-me ver: Eu entrei em 93. Trabalhei lá uns dois anos e meio e eu prestei concurso em Diadema. Fiquei oito anos em Diadema, como funcionária pública.

 

P/1 – Mas é escritório ou é...

 

R – Não, Secretaria de Educação, lá era tudo junto: Secretaria de Educação, Esporte e Lazer, era tudo embolado. Eu trabalhei no Departamento de Esporte, porque minha formação era de Educação Física. Fiquei oito anos em Diadema, também foi um lugar que eu aprendi muito, porque Diadema tem um histórico, aquela coisa de reverter a cara de Terra de Pixote, saiu de segunda cidade mais violenta para a vigésima sexta. Teve toda uma história de programas sociais, de investimento nessa área. Diadema foi um lugar... Meio que um laboratório, de que é possível você mudar a fama de um lugar, porque depois que você ganha o rótulo, pra tirar, vou te contar... (risos). E acho que Diadema foi bem isso.

 

P/1 – E como era a sua atividade lá? A sua rotina?

 

R – Eu fiz tudo em Diadema. Aliás, essa história de fazer de tudo, normalmente eu faço de tudo em um lugar, mesmo. Eu comecei como professora dentro de um programa para mulheres, aí já tinha mais a minha cara. E com crianças. Eu conseguia trabalhar com arte-educação e tinha uma coisa meio ginástica. A chamada para as mulheres era meio ginástica, mas não era ginástica, exatamente. E era um projeto do Departamento de Esporte, mas tinha vínculo com a Casa Beth Lobo, que é de violência contra mulher e tinha a parte de planejamento familiar junto com a Saúde. Era um projeto multidisciplinar que existe até hoje, tem um número absurdo de mulheres envolvidas. Se eu não me engano, quando eu saí, eram três mil mulheres. Eu não sei quantas mulheres são hoje.

 

P/2 – Que o projeto atende?

 

R – Sim. E em Diadema as pessoas são muito politizadas, isso é uma coisa muito forte em Diadema, eu gostei muito de ver. Politizadas no sentido de saber dos direitos e dos deveres. Esse grupo de mulheres, ai do prefeito que mexer com elas, está lascado. Não tem como não continuar o programa, ele é um programa apartidário (risos). Pode entrar o partido que for, porque elas têm uma força muito grande. E eu vivi as mudanças, eu comecei como professora, virei Coordenadora e depois eu virei Coordenadora de Região, como eles chamam. E você vive as dificuldades das mudanças de Administração, aí que eu me desencantei um pouco, porque quando você é concursado...

 

P/1 – Quando você entrou lá era na gestão de quem?

 

R – Era gestão do Felipe.

 

P/1 – De que partido?

 

R – PT [Partido dos Trabalhadores]. É que lá o PT, entre ele, é um quebra. Entendeu? Então mesmo que entre outro PT, é quebra na geral. O PT, internamente, é muito dividido em Diadema. Depois eu vivi outras administrações, só que tem aquela coisa: Você está num cargo de coordenação, volta a dar aula, aí vai pra Coordenação de novo. Teve uma hora que isso me cansou um pouco, foi aí que eu resolvi que ia sair. E eu estava numa fase de muitas mudanças na vida, então eu resolvi que ia sair de Diadema. A minha mãe estava com câncer. Foi uma fase que eu falei: “Meu, eu preciso mudar isso aqui”. E aí, um ano depois dessa fase de mudanças de: “Quero mudar, vou mudar de qualquer jeito”, eu tive um local entre a Gol de Letra e Diadema. Eu saí para outro local, que era um projeto pontual, de um ano, com a (Fundação Vita?). Fiz uma transição entre Diadema e a Gol de Letra, e nesse tempo minha mãe faleceu, eu me separei e entrei na Gol de Letra. Eu entrei na Gol de Letra numa hora, assim, que eu precisava, realmente, de uma coisa onde eu pudesse pôr a minha libido: “É aqui, agora, que eu quero fazer um [super] trabalho legal, porque a minha vida está muito complicada”. Eu perdi a minha mãe em dezembro, me separei em julho, e entrei na Gol de Letra em novembro.

 

P/1 – Você já tinha as meninas?

 

R – Já tinha as meninas. A Manuela devia estar com uns dois anos e meio pra três, a Jade tinha cinco anos, por aí. Então, foi todo aquele “bla bla bla”. E eu entrei na Gol de Letra. Entrei na Gol de Letra com aquela gana desgraçada de que, “Aqui vai ser o lugar onde vai dar certo, porque a minha vida está meio complicada”. Fui com muita gana.

 

P/1 – Você já tinha ouvido falar da Gol de Letra?

 

R – Nada. Olha só, eu estava na casa de uns amigos, na verdade, naquela coisa de... Todo mundo pergunta, quando você se separa: “Ah, o que aconteceu? Conta a história”. Ou o que você não sabe que acontece, né? (risos). E eu estava conversando e falando disso: “Eu estou mudando de emprego”. Eu nunca fiquei desempregada, mas é que trabalho é diferente: Você ter tesão pelo que você está fazendo é uma coisa, e você trabalhar pra gastar o seu sustento é outra. Eu estava naquela fase de que eu estava trabalhando, mas eu não estava com tesão, fazendo o que eu gosto de fazer, tal.

 

P/1 – Nesse lugar intermediário?

 

R – Nesse lugar intermediário. E eu comentei: “Ah, eu estou querendo”, e ele falou: “Ah, eu ouvi dizer que estão precisando de alguém lá na Gol de Letra”. A primeira coisa que eu falei – se eles me ouvem, vão me matar –: “Ah não, gente. Começar do futebol, de novo”. Eu já tinha começado com futebol lá na Secretaria do Menor: “Só tem vaga pra futebol” “Ah, então dá futebol mesmo, depois eu me viro”. Eu falei: “Ah não, futebol de novo, não. Estou fora”. Aí o Leo, que é esse meu amigo, falou: “Olha, eu estou achando que você está enganada, não é só escolinha de futebo, não. Acho melhor você dar uma olhada”. Aí eu, mesmo meio assim... “Futebol, é uma sina” (risos), falei: “Não, eu vou ver”. E entrei no site. “Opa, não é só futebol”. E vi umas palavrinhas mágicas: “arte-educação”. Falei: “Não, acho que aqui dá para mandar o meu currículo”. E mandei o currículo.

 

P/1 – Em que ano que foi isso?

 

R – 2002.

 

P/1 – E aí? Você mandou o currículo?

 

R – Faz tempo, né? 2002. Daí eu mandei o currículo, fui na Gol de Letra e fiz uma entrevista com o Sóstenes. Eu fiz a entrevista, foi super legal. Sabe quando a pessoa te deixa à vontade e parece que você conhece há mais tempo? Bla-bla-bla. Lembro que eu saí (brava?) comigo, porque ele falou: “Quanto você quer ganhar?”. E eu, sempre muito pouco ambiciosa: “Ah, se eu ganhar o que eu estou ganhando hoje e fizer o que eu gosto, está ótimo”. É, que eu nunca fui muito ambiciosa, né? Então, sei lá. O meu marido, um cara mais comerciante, ele pede dois “x” para chegar no “x”. Eu: “Se eu ganhar o “x” que estou ganhando hoje e fizer uma coisa que tenho uma prazer absurdo...”. Não que o dinheiro não me faça falta, mas eu sou pouco ambiciosa. Eu falei o valor que eu ganhava. Depois eu cheguei em casa e falei: “(Caramba?), que toupeira, vou trocar seis por meia dúzia”. Não, não vou trocar seis por meia dúzia, porque tinha uma coisa lá que me agradava, né? E ele me explicou: “Eu gostei muito de você, só que você vai participar do processo, porque a gente acabou contratando nesse meio tempo, chegaram muitos currículos e a gente não está dando conta de entrevistar todo mundo, a gente contratou um lugar para fazer a seleção”. E a seleção parecia a Santa Inquisição, sabe? Foram sete etapas, foi enorme.

 

P/1 – Como eram, o que eram as etapas?

 

R – Tinham várias etapas. Tinha uma etapa que era uma entrevista coletiva, com umas 40 pessoas. Tinha a fase do currículo, que eu já tinha passado, teve umas duas dessas. Depois teve uma parte que era prática, que você tinha que fazer uma atividade com as pessoas. Depois tinha uma parte que era uma redação, que você tinha que escrever sobre os projetos, depois tinha uma entrevista com algumas pessoas da equipe.

 

P/1 – Você, sozinha, com as pessoas da Gol?

 

R – Isso, da Gol. Tinha [teste] psicológico, aqueles exames lá. E gente... Eu lembro que eu respirei fundo... Fui uma atriz no dia da avaliação psicológica. Porque assim, minha mãe tinha morrido, eu tinha me separado, e ela falou assim: “E você, emocionalmente?”. Eu respirei fundo, dei aquela (esticada?) na cadeira e pensei: “Não posso começar a chorar agora” (risos). A vontade de chorar era imensa, eu respirei fundo e falei: “Estou em um momento difícil, mas está tudo bem, está tudo ótimo”. E aí foi, passei dessa... Eu fui, firme que nem geleia.

 

P/1 – A redação era tema livre?

 

R – Não. Você tinha que entrar no site da Gol e falar sobre alguns projetos. Eu lembro que tinha uma coisa muito forte, porque tinha tido um arranque muito forte na Gol com a parte pedagógica e parte social, então...

 

P/1 – Você chegou depois?

 

R – É, eu cheguei, tinham trocado cinco coordenações. Eu fui, na verdade, contratada com a Olga, na mesma leva. O que acabou foi que a Coordenadora Social saiu, a Olga entrou, mas a Olga era do mesmo processo seletivo que eu. E nós entramos meio que juntas, eu para a parte de Pedagógica e Olga pra parte de Social. Isso foi meio que fundamental, porque a gente sofreu um bocado no começo, pelas sequelas do conflito interno que tinha. Lembro que no teste já tinha uma coisa de como integrar, já tinha aquela missão de: “Vocês têm que fazer essas áreas se darem bem”.

 

P/2 – Porque o racha era entre...

 

R – Porque o racha era entre a área social e pedagógica.

 

P/1 – Porque a área social era relativamente nova, também, não tinha isso?

 

R – A história que eu sei é que no começo não tinha muita divisão, depois foram acontecendo as divisões. Acho que as divisões nascem um pouco das demandas, não é? Tinha uma demanda para trabalhar com família muito forte, e tem a coisa do dia a dia com criança mesmo. E nasceram essas duas áreas. Mas tinha um conflito que, na verdade, até a Sonia viveu que, assim, passava um pouco pela Filosofia do trabalho. Então não era um conflitinho, era um baita de um conflito, porque, na minha opinião, algumas pessoas tinham, ainda, algum resquício assistencialista muito forte. E isso dava uma batida muito de frente, meio que quase inconcebível você ter uma coisa muito assistencialista quando você...

 

P/2 – A área social tinha essa (vertente?) muito assistencialista?

 

R – Na minha opinião sim, na época que eu entrei. É confuso, é complicado. E tinha, também, algumas pessoas na área pedagógica que eram bem, bem, Escola da Vila, bem... Pessoas que pensavam mesmo em uma coisa de autonomia, corresponsabilidade, e não de fazer o bem. Isso, pra mim, já tinha caído há muito tempo. Pode ser que na época em que eu fui entrar na área de Educação, que eu via minha mãe na carroça, talvez isso ainda fizesse algum sentido, mas agora não fazia mais.

 

P/1 – Toda essa atividade que você fez da seleção foi na Gol de Letra, mesmo, na Vila Albertina?

 

R – Não, teve uma parte no Instituto IPO, esses testes psicológicos, do “você está bem?”. Depois...

 

P/2 – O que é IPO?

 

R – É Instituto de Psicologia Organizacional, acho. É isso aí, que a Ana Maria... É tão engraçado que eu me comunico com a Ana Maria até hoje. A gente fez o processo seletivo e acabou que, sabe aquelas pessoas que...

 

P/2 – Quem? Da Abrinq?

 

R – Ana Maria do IPO. Não sei explicar, aquelas coisas de empatia. Foi tão legal fazer o processo. E o marido dela foi operado há pouco tempo, eu troco e-mail, até hoje assim. É uma pessoa que eu tenho consideração. Fui fazer, depois, um curso com ela, marcou o processo seletivo. Eu gostei do processo seletivo, foi bacana. Apesar de ter sido longo, foi muito bacana. E eu estava precisando me sentir assim, super poderosa, passar por sete etapas e... Então aquilo foi muito bom para minha auto-estima, me fez bem. Eu lembro que o Sóstenes ligou para dar o resultado e eu estava chegando com as crianças da escola. Sabe quando você abriu a porta de casa, tocou o telefone, mas uma das crianças está no cadeirão, a outra tá berrando porque caiu a mala... ? E ele me ligou e falou que eu tinha sido escolhida. Eu fiquei muda, não tive reação, não sabia se falava: “Espera um pouquinho” e pegava as crianças, ou se eu falava... Aí eu falei: “Que legal!”. Super original, né? Mas eu fiquei meio muda. Ele ainda brincou comigo, depois que eu entrei, ele falou assim: “Nossa, eu esperava uma empolgação maior”. Mas sabe quando a coisa fica assim... Eu fiquei meio passada. Ao mesmo tempo que eu queria muito e que eu achava que tinha chances de conseguir, na hora que me falaram eu... Sabe? Fiquei meio que em estado de choque. Mas foi muito legal esse período da entrada na Gol.

 

P/1 – Você já conhecia a Vila Albertina, o local onde ficava a Gol de Letra?

 

R – Eu conhecia porque uma das etapas foi lá.

 

P/1 – E o que você achou, quando chegou no local?

 

R – Ai...

 

P/1 – Se bem que você tinha passado pelo Jardim Ângela, né?

 

R – É, para mim, a coisa da comunidade não pega nada, muito pelo contrário, pega a favor. Eu falo: “Opa, é o meu meio” (risos). Mas eu lembro do corredor. É uma coisa que até hoje, quando eu entro na Gol, me pega. Aquele corredor, você entrou na Gol, tem a rampa e tem o corredor. Parece que ele tem uma energia. Eu lembro que quando eu estava indo para a seleção, lembro... Sabe quando você dá aquela respirada no corredor e anda? E teve outra cena engraçada no corredor também: eu estava saindo da seleção, tinha achado que tinha mandado super bem. E tinha uma senhora, entre 50 e 60 anos, mais velha, que também estava prestando a seleção. E bom... Gente, não vou contar nenhuma novidade, coisa do mito, do Raí, tal. Eu falei: “Poxa, vim aqui e nem vou ver e tal”. E quando a gente virou na escada, virou no corredor, vem ele, de óculos escuros, camisa branca, aberta, sabe? Calça jeans. Eu olhei e falei: “Nossa Senhora”. Respirei fundo: “fuuu”. Vamos fingir naturalidade, você está num processo seletivo. Eu fingi naturalidade e falei: “Oi, boa tarde”, a senhora que estava do meu lado também fez. Acabou, eu olhei pra cara dela, ela olhou pra mim. Eu não esqueço até hoje da frase que ela falou: “É homem pra gente passar mal mais de semana sem repetir lugar, não?” (risos). Eu falei: “Gente, perfeito, né?”. Saí e falei: “Gente, eu fui à seleção, vi aquele deus grego, foi ótimo” (risos). Todo mundo perguntava e eu falava: “Foi ótimo” (risos). E essa frase eu conto porque... Vocês podem fazer um livro só dessas histórias, gente. Vocês podem fazer um livro das histórias das mulheres vendo pela primeira vez o Raí na frente, tem histórias ótimas. Conheci o homem nesse dia, no corredor. Imagina, ele vindo assim, no corredor.

 

P/2 – O corredor tem uma energia...

 

R – O corredor tem uma energia. E tem altas histórias dos moleques. Moleque foge pelo corredor, você olha assim e fumina só com olhar. Então aquele corredor é um lugar... Para mim, aquele corredor é um dos símbolos da Gol de Letra.

 

P/2 – E tem a ver com passagem também, né?

 

R – Acho que sim. E, às vezes, a gente colocava umas exposições, ele tem uma energia.

 

P/1 – E você lembra o primeiro dia que você começou, a atividade que foi?

 

R – Eu lembro. Eles fizeram reuniões infinitas. Fizeram... Sabe assim, quando você acha que tem que saber sobre o mundo em 24 horas? Então, todas as áreas falando, eu lembro que saí zonza de lá. E lembro de uma... A pessoa que foi minha assistente, durante muitos anos, uma pessoa muito querida. Se vocês pudessem entrevistar seria muito legal, que é a Andréia Rondinelli. Trabalhou muitos anos na Gol de Letra, junto com a Patrícia, que também tem muitos anos de casa. Ela é antes de mim. Ela estava de licença maternidade, e foi nesse dia que eu estava lá. No começo você está toda comedida e tal, e ela falou que eu estava lá sentada, com a perna cruzada, e um sapatinho de boneca, sabe? Ela falou que olhou assim para mim e pensou: “Essa aqui não dura três meses” (risos). Depois ela me contou essa história. Eu falei assim: “Pô, que moral que eu estava”. E ela: “Pessoa não dura três meses porque eu estava toda... Ah, eu acho que’”... Sabe quando você está toda, num lugar... Chegando? E eu lembro que o dia a dia da Gol de Letra ele te mostra quem você é muito rápido. São 120 crianças por período, correria para tudo quanto é lado. É um grau de energia... Se você passar uma manhã na Gol de Letra você sai cansado. Acho que por isso que ela falava: “Essa daí não vai durar três meses”, porque precisa de muita energia para aquele lugar. Isso é uma coisa muito marcante na Gol de Letra: as pessoas. Sabe quando, na cabeça te vem a Patrícia, a Ângela? São pessoas, em algum sentido, muito fortes... De ter alguma coisa que aguente o tranco ali. E tem que ir de corpo inteiro, de: “Deixa eu trabalhar aqui”. Você tem que trabalhar de corpo e alma, um lugar que te exige. É muito forte o negócio.

 

P/1 – Você entrou como professora?

 

R – Não, entrei coordenando a área pedagógica.

 

P/1 – Já como coordenadora?

 

R – Eu já estava coordenando em Diadema, e nos outros locais eu já estava na função de Coordenação. Acho que o passado de professor é muito legal, porque quando você coordena a equipe de professores mas você sabe o que é uma sala de aula... Não que não existam bons coordenadores que não tenham passado pela sala de aula, mas eu acho que tem uma diferença, sim. E aqueles que não esqueceram o passado, né? Porque o núcleo da sala de aula. Assim, sei lá, dei aula em escola do Estado, 42 por turma, é impossível você esquecer o que é isso. Então você viveu, chorou, chegou em casa arrasada, pensou em pedir demissão. Você quase perdeu a cabeça e falou uma bobagem para uma criança. Você já quase se mordeu para não socar. Já fez de tudo, né? Então eu acho que isso me ajudava muito no dia a dia da Gol de Letra, porque eu já tinha vivido aquilo. A dificuldade que é uma turma, com uma história complicada, com um lugar complicado, com poucas oportunidades, com uma escola pública que também não tem lá os seus melhores momentos na história do nosso país. A escola pública está numa fase super complicada, eu sou uma das defensoras. Eu acho que é muito fácil culpar a escola pública, mas ela é consequencia da história. E tem muita gente boa dentro da escola pública, sim. Eu ainda acredito, tem muita gente boa. Tem escolas públicas que o diretor é ponta firme, a coisa vai, o grupo anda. Mas, no geral, está muito complicado.

 

P/1 – Como funciona a área pedagógica da Gol de Letra? Como é que é isso?

 

R – “Vixi” Maria, agora? Acho que eu ainda sei...

 

P/1 – Ou como funcionava... Quantos educadores, como que é isso?

 

R – Quando eu saí, a nossa equipe, no total, eram 60 pessoas, mas não todos profissionais. A gente trabalhava muito com jovens ou pessoas em formação. Tanto que a área, por exemplo, social, tem os agentes sociais que são adultos em formação. E na área pedagógica, tem os jovens em formação. Eu acho essa estrutura muito bacana, só que ela também é muito complicada, porque, ao mesmo tempo, você tem profissionais, mas tem gente em formação. Então você tem um de 15, meio jovem educador; você tem os atritos em ter gente em formação, dá um trabalho danado. Mas eu acredito muito na proposta, porque tem uma troca ali. Tem coisas que só eles sabem. Só ele, de 15 anos, que conhece o primo da Mariazinha, que é vizinho do Pedrinho e que vai, de repente, dar um toque pra gente que o Pedrinho hoje não está legal por causa disso, disso e disso. Então eu gosto da equipe interdisciplinar, assim. E trabalhei uma época no Cecae [Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais] da USP, e também era equipe interdisciplinar. Interdisciplinar que eu digo é gente da comunidade, profissional de tudo, e não só pedagogo, pessoas com formações diferente. Porque não tem jeito, o historiador olha e vê uma coisa, o matemático olha e vê outra coisa, o assistente social olha e vê outra coisa, e uma pessoa da comunidade olha e vê outra coisa. Então, quando você precisa de todos os ângulos, de todas as fotografias de um lugar, você vai precisar ter uma equipe assim, eu acredito bastante. Mas quando eu entrei foi muito difícil, porque as coisas estavam muito bonitas no papel, mas não estavam acontecendo na prática, por vários motivos. Não que agora esteja tudo perfeito, mas tinha uma questão muito grave assim: tinha uma equipe muito desestruturada, porque as coordenações tinham saído, tinha muita divergência. Tinha uma equipe que trabalhava junto, mas não trabalhava em grupo, isso era uma questão. A metodologia estava no papel, mas não acontecia muito na prática. A metodologia de projetos, o que é hoje fazer metodologias de projetos da Gol de Letra, na época as pessoas falavam: “Ah, a metodologia do projeto”. Existem várias maneiras de você fazer metodologia de um projeto. Mas o que é hoje a Gol de Letra foi uma coisa construída com a equipe. Então o que virou hoje o princípio de: “Aprender, conviver, multiplicar”, é uma coisa que foi fruto da equipe, não só pedagógica, mas, nesse caso específico, ficou mais concentrado mesmo na área pedagógica. A gente sempre teve uma interface com a área social, mas a coisa da sala de aula, da relação, mesmo, de ensino e aprendizagem, de levar esse prazer do aprender para as crianças, foi uma coisa construída na equipe pedagógica. E eu só aprendi. A mesma coisa: É o músico, o de teatro, a professora de dança, também... Gente diferente convivendo por um objetivo comum. Mas foi muito trabalhoso, não estava tudo acontecendo, estava tudo muito no papel.

 

P/2 – Quando você entrou, você implementou essa metodologia? Como que ela estava sendo aplicada?

 

R – Ela tinha alguns conceitos. Por exemplo, esse termo metodologia de projeto já era usado, mas não na maneira como depois se organizou. Não tinha, por exemplo, um tema norteador por ano, como se trabalha hoje. Não tinha, por exemplo, essa estrutura de “aprender, conviver e multiplicar”, que foi uma coisa que, na verdade, foi se enxergando a partir do exercício de ver: “Nossa, mas e os objetivos? Como é que a gente faz isso? E como é que a gente faz aquilo?”. Quando você vai organizando as coisas, a metodologia vai se desenhando, e foi isso que foi acontecendo na Gol de Letra. E acho que uma das coisas que eu mais sinto, talvez seja uma frustração, é que eu acho que, se você perguntar para os Educadores da área pedagógica, talvez todos saibam te explicar com muita clareza qual é a metodologia da Gol de Letra. Mas, talvez, pras pessoas que não são da área, talvez a gente não tenha feito uma tecla SAP tão legal como eu acho que a gente deveria ter feito. Eu lembro uma vez [que] o Raí me perguntou e eu fiquei ofendidíssima. “Mas qual é a metodologia da Gol de Letra?” “Nossa, como é que você não sabe?”. Porque eu acho que essa coisa do profissional de Educação e tudo, ele fica, às vezes, meio no mundo dele, naquela coisa da metodologia. E, às vezes, ele não sabe explicar pra outra pessoa: “Olha, é assim, assim, assim”. E eu acho que a gente talvez tenha se preocupado pouco com essa coisa de externalizar o que é a metodologia, o que é o jeito de fazer Educação da Gol de Letra. Eu acho que está melhorando, com certeza com o livro isso vai ficar muito mais claro. Mas eu, pelo menos, pensava: “Pô, o cara da Secretaria ou do DI, ele tinha que saber de cor, apropriado”. Ele sabe do ponto de vista dele. Bom, talvez eu seja muito exigente também, de querer que a pessoa saiba falar sobre uma questão mais específica, mas eu saí com essa sensação, assim.

 

P/1 – Mas você pegou uma fase que ela foi sendo construída, né?

 

R – Eu te diria assim, que ela tinha as fontes. Quando você fala assim: “Ah, de que água estou bebendo?” “Estou bebendo daqui, daqui, estou bebendo de Paulo Freire, de princípios da Escola da Vila, de uma visão de quatro pilares. Estou bebendo de várias fontes”. Só que você bebe de várias fontes e cria o seu alicerce, aonde você vai construir as suas coisas. E isso que a gente fez em equipe, e eu acho que assim que tem que ser feito mesmo. Eu não acredito muito que uma metodologia seja igual em um lugar. A própria palavra, “me-to-do-lo-gia”, como fazer em um determinado contexto. Então, sei lá, a metodologia do Objetivo. Eu não acho que seja igual em todas as unidades, acho que tem uma parte mesmo que é adaptar o contexto, o contexto exige adaptações. Vou dar um exemplo bem concreto: A gente não tinha na metodologia nada tão forte sobre mediação de conflitos, como hoje a gente tem um projeto agregado à Gol de Letra pra isso. Por quê? Porque nasceu de uma demanda, nasceu de uma impotência nossa em lidar com os conflitos de agressão verbal e física. “Meu, não está dando, não estamos conseguindo, não estamos superando”.

 

P/1 – Lá dentro?

 

R – Lá dentro. As crianças com um nível de agressão verbal e física em um nível fortíssimo. “A gente não está dando conta”. Aí vem uma coisa que agrega na metodologia, que cola na metodologia, que vai começar a fazer parte dela. E hoje em dia já tem um projeto agregado, e amanhã acho que ele nem vai ser mais agregado, vai ser parte.

 

P/1 – Você pegou o surgimento dessas coisas novas na metodologia. Na nossa preocupação, na linha do tempo, como que a gente encaixaria? O que surgiu antes, o que surgiu depois e o que é, sem querer ofender... Como a gente poderia entender o que é essa metodologia da Gol de Letra?

 

R – Acho que o primeiro momento, 2002 ou 2003, era uma coisa mais de formar uma equipe pra pensar junto, acho que isso é uma coisa bastante forte. E tinha algumas coisas que já aconteciam. Acho que o primeiro processo, que tanto eu como a Olga vivemos foi assim: Você não chega mudando as coisas, você chega olhando o que existe e como organizá-las, como tentar melhorar e como fazer da sua equipe uma equipe mais forte. A gente começou a conversar sobre uma metodologia e, de repente, tentar coisas diferentes, a partir de 2004. E tudo dentro de um processo. Não teve uma coisa assim: “Ah, começamos já trabalhando com um tema norteador, começamos já fazendo avaliação individual”, não. Começamos trabalhando esporadicamente com temas _______ (?), começamos a avaliação em grupo, começamos colocando coisas mais gerais pra depois virar o que virou. A metodologia em si é muito pautada no conceito de quatro pilares, só que ela foca em três vigas mestras. Quando a gente fala em aprender, a gente tem uma preocupação muito grande que as crianças, os jovens, as famílias, qualquer sujeito dos projetos da Gol de Letra aprendam. “Como eu vou fazer isso? Eu vou dar aula, vou fazer oficina, formação com os jovens, vou fazer formação com agente social”. Assim eu vou ter diferentes estratégias para esse sujeito aprender. A gente parou nas fontes que bebeu. Então, na área de Educação, e eu imagino que em outras áreas também, na verdade você não é uma coisa, você não usa um autor. Você usa não muitas, mas tem que ter uma lógica. Não é uma educação tradicional, mas, vamos supor, a gente tinha a visão sócio-histórico-cultural, tentar acreditar que a criança não é só aquilo que se apresenta ali na sua frente, saber a história, família. Então tem outras pessoas que já falam até na visão sistêmica: indivíduo, família, comunidade. Isso tudo permeava. Tanto que a área social acredita muito nessa visão sistêmica, de você trabalhar o indivíduo, a família, e esse indivíduo no coletivo. A metodologia da Gol de Letra vai sofrer todas essas influências, se você parar pra pensar nas três palavras: Aprender, conviver e multiplicar. Tem o aprender, que é o foco no sujeito, o que esse sujeito vai conseguir, seja ele uma criança, um jovem, uma família. Independente do projeto, que a gente está falando da Gol de Letra. A convivência, que é um benefício mais coletivo, então, individual, coletivo, de você ter regras de convivência, aprender a construir seus objetivos comuns e que isso fortalece uma sociedade mais justa, e a questão comunitária. A gente tem esses três benefícios: individual, coletivo e comunitário. A gente pode ler a ideia dos três princípios da Gol de Letra de diferentes formas. E outra maneira que a gente leu também, e que a gente usou bastante, foi baseado nos quatro pilares. Então os quatro pilares da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] têm sido bastante utilizados por serem bastante didáticos, eles não têm um vocabulário difícil, de que a pessoa não entenda o que é, e eles são muito utilizados.

 

P/1 – Quais são esses quatro pilares?

 

R – Aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. São esses os quatro pilares. E a gente: “Ah, legal, quatro pilares e tal”. Só que tinha: “Isso que é, isso não é. A gente não está tão preocupado assim com essa parte aqui, é mais essa”. Aí você começa a perceber que: “Ah, não sou também só isso, ou só aquilo”. E a gente tinha uma coisa muito forte nos nossos projetos, principalmente no FAC, que é Formação de Agentes Comunitários, que os quatro pilares não davam conta. Aprender a conviver, ser, fazer... Não vem o multiplicar, o fazer para outro coletivo. E aí é que veio as três palavrinhas: aprender, conviver e multiplicar. Porque a gente começou a olhar que, mesmo baseando nos quatro pilares, a gente tinha um “quê” a mais na questão da convivência, a gente queria que essas pessoas multiplicassem, então precisava investir no acreditar no coletivo, não tinha como não investir. A gente foi organizando dessa forma. O aprender, que é a primeira palavra que a gente usa na metodologia, é saber se aprendeu mesmo, porque a gente acredita que música é importante, que teatro é importante, que a expressão oral e escrita da criança se desenvolve, que ela vai ser um sujeito que se expressa melhor, vai se entender melhor com a mãe. Os benefícios totalmente pessoais. E tem uma ligação direta, que não tem como escapar na Gol de Letra, que é com transferência de aprendizagem pra escola. A gente quer, sim, que eles tenham melhor desempenho na escola. Verificar isso que é uma coisa muito complicada. Mas que a gente quer, sim, que eles tenham prazer em aprender, que eles tenham um compromisso diferente com a aprendizagem, isso é muito forte na Gol. Por isso esse jeito diferente de tentar ensinar, porque quando você tem um tema norteador, e aí nós vamos pular para Paulo Freire, pra estudar o que tem significado na sua vida, você... Meu, não vou querer estudar sobre as cerejas da Holanda, mas se você me falar que nós vamos estudar sobre o pé de caqui do seu João, que é o meu vizinho, eu vou falar: “Pô, que legal, nós vamos estudar”. A ideia dos temas norteadores é para ter esse lado gostoso da aprendizagem, para a criança perceber que as coisas se conectam. Eu lembro muito do África-Brasil, eu adorei esse tema norteador. Ano de Copa, então, que países da África estão participando, já participaram de campeonatos, como é que funciona o futebol na África, como é que foi a seleção africana na Copa. Você fazer relações, aí você estuda o mapa da África e consegue fazer um gancho com o futebol, que é uma coisa extremamente forte na vida deles, ainda mais no ano de Copa. Como é que você consegue estudar ideograma em Artes Plásticas? Porque vai fazer um colar. E o que significa um ideograma, o que é um símbolo africano? Quais são as influências da África no Brasil? Isso deixa o conhecimento muito mais gostoso, e eu sempre falo de colcha. Parece uma colcha, porque as coisas se ligam, tem diálogo. Eu não vou para uma aula e eu não entendo para que aquilo me serve e, vou pra outra e também, um fala “a”, outro fala “b”. Eu consigo achar uma relação. A ideia de ter temas norteadores é que a criança possa relacionar as áreas. Isso falando mais de Virando o Jogo. No caso dos jovens, também tem temas norteadores, mas aí os temas são um pouco mais rápidos, até por característica do jovem. No aprender eu vou adaptar o que eu quero, não é uma relação exatamente de ensino e aprendizagem, até porque tem essa ideia de que a gente aprende e constrói isso junto com eles. Mas eu acho que, independente do sujeito, mesmo que sejam os agentes sociais, que não é um programa pra criança e para o jovem, tem a relação do que eu vou proporcionar de novo e como é que essa pessoa se desenvolve pessoalmente, esse é o mais forte do aprender. O conviver vai vir com aquele leque de coisas enormes que passa por mediação de conflito, por ouvir o outro para conseguir expressar minhas ideias, por: “tudo bem, você é corintiano, eu sou palmeirense” “como eu vou falar sem ser agressivo”. E parece coisa pequena, mas é enorme. O que ficou mais marcante pra mim – porque pega bem a educação de valores –, eu conversando com um pai, uma história engraçada, mas para mim, me deixou mal por séculos. O moleque vivia passando a mão na bunda das meninas. Eu conversava com o moleque, conversava com o moleque e não tinha Cristo que fizesse. Bom, vamos chamar os universitários, né? Chamei os universitários, sentei e falei com o pai e com o menino. Sempre, e isso eu acho uma prática interessante na Gol, de outros lugares também, porque assim, não tem essa coisa de chamarem o pai para falar do filho, porque a escola faz um pouco isso. Ele não é um retardado, ele tem que participar da conversa, tem que estar aqui para saber que a atitude que ele está tendo tem consequência e que a gente precisa negociar com ele uma mudança de atitude. Depois a gente descobriu que é super inovador e sistêmico, “bla bla bla”, mas a gente fazia isso meio que intuitivamente, e a Olga faz isso até hoje com muita, muita competência. Então já tinha essa coisa de família junto e tal. E, voltando pra Educação de Valores, o pai... Eu falei, falei, e o pai meio mudo. Eu falava alguma coisa e ele: “Não, a senhora tem razão”, aquela coisa muitas vezes formais. Por fim, ele termina falando assim: “E outra, né? Já falei para ele: Se for para passar mão, passa numa gostosa, [baita] menina magrela e sem graça”. Aquilo me deixou num estado de... (risos). De que adiantaram os meus 40 minutos aqui? E a gente falava: “Nossa Senhora, haja Educação de Valores” (risos). E eu, muito magrela também, bem mais magra do que eu sou hoje, me senti até ofendida na condição (risos). Assim, uma questão de gênero, não tinha muito o que falar, e que vem no dia a dia com as crianças. Eles não são ETs. Eu brinco, falo que eles trazem uma mala que vem a Igreja, a escola, a rua, o tio, vem tudo dentro da mala. E a gente também leva as nossas malas para dentro da Gol de Letra. Eu levo minha família, minha história e não sei o quê, não sei o que lá. Então, quando chega aquele bando de mala, aquele bando de coisa diferente, realmente, a educação de valores não é uma coisa tão simples, mesmo porque não pode virar um dogma. Eu lembro uma menina que falava: “É, esse jeito aqui de vocês quererem resolver tudo na conversa só funciona aqui”. E, de certa forma, ela tem razão. Então é uma coisa que, para um determinado momento, só funcione no local, mediado por adulto e tal. E é isso. Eu lembro que o dia a dia é muito complicado, porque, por mais que você tenha todo esse esquema norteador de mediação e não sei o quê, tem horas que um educador perde a cabeça, que faz o que não tinha que fazer, e nessas horas, para quem está de fora, é muito difícil, sabe? É muito complicado. Eu lembro uma vez, esse moleque era um mestre em falar umas coisas bem na hora das visitas. Parece que cai por terra muito rapidamente. Lembro uma avaliadora externa que esteve lá. Ah, porque deram uma bronca no menino e a fulana falou alto. Falei: “Meu, você não sabe nem com quem a gente está falando, nem qual é a história dessa família”. Lembro de um moleque que eu fiquei lá horas falando com ele, falando que estava todo mundo bravo com ele. A hora que eu virei e falei: “Olha, está todo mundo puto” “Jura, está todo mundo puto?”. Quer dizer, o palavrão é o que me ligou a ele (risos). Na casa dele, provavelmente, todo mundo só falava usando palavrão, e eu lá, tentando usar palavras que, para ele, não faziam o menor sentido. “Óh, tá todo mundo puto com você” “Uh, você está brincando, né?” O puto foi o que salvou a minha relação com ele, e eu acho que a Educação no dia a dia tem isso, e talvez por isso seja tão difícil de explicar, porque parece que você tem que usar a coisa certa na hora certa. E com ela você tem que falar de um jeito e, com você, tem que falar de outro. E é óbvio que existem regras de respeito e direitos humanos e tudo. Mas não adianta também eu falar: “Ah, bababa”, quando a pessoa está precisando de uma voz que chacoalhe ela. Acho que a área pedagógica vive esses dilemas: Qual é o limite? Qual é o limite de você ser mais duro? O que é uma sanção, que a gente chama, e o que é uma punição? E é tudo muito confuso, é como educar filho, eu não sei se estou fazendo certo ou errado. E acho que isso fortalece muito a equipe pedagógica, porque só a gente entende a gente. Todas essas crises existenciais que a gente vive, acho que isso dificulta que a metodologia fique assim. Gente, é isso, a gente tenta trabalhar com o indivíduo, a gente tenta trabalhar para que existam objetivos comuns entre aquele grupo que se formou e tenta fazer com que esse grupo multiplique, de alguma forma, na comunidade. É óbvio que é um conjunto, porque multiplicar na comunidade não é só fazer projetos na comunidade, a gente sempre discutiu muito isso. Se o menino aqui aprendeu a não jogar mais papel no chão e ele não joga mais papel no chão, ele também está multiplicando, com atitudes simples e bestas. Se ele não agride mais fisicamente, ele também está multiplicando. Se ele lê mais, se ele lê para os filhos à noite, ele conta histórias, porque lá é muito forte a questão da... Vocês sabem disso, já?

 

P/1 – Fala, por favor.

 

R – Não, a gente tem o trabalho de mediadores de leitura, existe um estímulo muito forte à leitura, e a gente brinca e fala assim: “Se metade tiver o hábito de ler para os filhos à noite, olha que gerações de gente mais culta a gente vai ter, mais alfabetizada e com maior desejo pela leitura”. Acho que essa coisa do hábito da leitura, se a gente consegue mudar aqui, vai mudar lá, porque vai multiplicar, e isso vai... É meio formiguinha, fica parecendo de vez em quando. Mas eu acho que os grandes impactos sociais são feitos de coisas pequenininhas que viram um montão e coisas realmente maiores, quando se faz um projeto. Aí já se pensa em desenvolvimento local, onde a gente tem uma rede da Vila Albertina que consegue trabalhar melhor o desenvolvimento local, é um conjunto. Agora, quando a gente sai da Gol de Letra e vai pra coisa mais comunitária, até o aprender, conviver, multiplicar, a gente está muito dentro dos projetos pedagógicos. Quando a gente sai, começa a dialogar mais ainda com a área social. E eu acho que é até uma dificuldade pra Gol de Letra, e sempre foi, porque é difícil você fazer as duas coisas bem: fazer um desenvolvimento, de tão diário, com uma equipe tão grande, um custo também muito alto, essa que é a grande verdade, porque os programas e projetos da Gol de Letra têm um custo alto. É muito RH [Recursos Humanos], é gente. Para fazer um bom trabalho com gente precisa de bastante gente, então é caro. Acho que essa parte da comunidade sempre foi um grande desafio. Ter uma coisa, não que a gente não seja aberto à comunidade, a gente é aberto, mas ter um trabalho mais efetivo com associações de bairro e tal, sempre foi uma grande dificuldade, na minha opinião.

 

P/1 – Quando você entrou, chegou a sentir essa transformação, essa ida, proximidade da Gol com a comunidade? Porque você pegou quando estava abrindo, né?

 

R – Eu tenho muita dificuldade com eventos. É muito pessoal. Eu tenho a sensação que os eventos fazem o “bum”, fazem coisas bacanas, mas eles não têm raiz, essa é a minha sensação. Eu posso fazer uma baita de uma campanha, um evento maravilhoso, desde que depois eu tenha alguma coisa que realmente mude no dia a dia. Senão, a sensação que eu tenho é que, com o tempo, as coisas se diluem. Então acho que tinham grandes eventos. Tinha um dia de fazer a diferença, um número enorme de gente, mas não sei se isso mudava a comunidade. Tinha o seu lado positivo, eu não estou tirando o lado positivo, eu acho que um grande evento, um grande dia de fazer diferença, onde você tira documento, ele é um “bum” de cidadania, mas não é ali que a cidadania se constitui, se consolida, mesmo. É no exercício de cidadania. Mas aí é papo de educadora total, né? Porque você vai achar que tudo é um processo educativo, é uma questão de você ter um direito, mesmo, na hora que você chega em um posto de saúde, na escola, na hora que você vai falar com o seu vizinho. E eu acho que essas relações precisam se fortalecer não só nos eventos, elas precisam ter uma continuidade. Os eventos podem ser grandes alavancas. Sabe alavanca? Você vai dar uma injeção de ânimo na coisa, acho que tinha uns eventos como alavanca, mas que o trabalho da ponta não estava suficiente, não achava ele forte, mesmo. Porque a gente corre um risco muito grande, nessa área, que é achar meia dúzia de gente bacana e ajudar essa meia dúzia de gente bacana. E, lembro que tinha umas coisas: “prata da casa”, os meninos que eram. Eu tenho muita dificuldade com exemplos. Eu quero 70 mil Vanderleis, não quero um Vanderlei, sabe? Sou meio ambiciosa nessa história, tanto que às vezes eu sou até meio chata. Acho muito legal ter os exemplos, porque eles marcam, mas desde que fique claro que não é essa pessoa que a Gol de Letra contribuiu para que ela fizesse o projeto de vida dela, acho que isso é muito forte. A gente não ajuda ninguém, a gente trabalha junto, e essa pessoa cai a ficha uma hora, tanto que tem gente que precisa de um ano de Gol de Letra, gente que precisa de dois, de sete. Eu não sei quando vai cair a ficha. Tem jovens que a ficha cai super rápido e o cara vai pro mundo, e tem outros que não, que demora mais tempo.

 

P/1 – Deixa só eu voltar um pouco. Quando você entrou como Coordenadora Pedagógica, você entrou para um programa, não é isso? Como é que funciona?

 

R – Não, já fritava o peixe e olhava o gato. Era o Virando o Jogo e o FAC, de crianças e jovens.

 

P/1 – Já tinha o FAC nessa época?

 

R – Isso.

 

P/1 – Dentro do programa...

 

R – Só que o FAC era menorzinho, ele tinha música, teatro, audiovisual, não tinha tantas oficinas, era um trabalho mais de oficinas isoladas. Por exemplo, os educadores não tinham reuniões juntos. Na verdade tinham oficinas, a professora de jornal dava aula de jornal, o professor de música dava aula de música, e eles tinham seus projetos internos, mas não tinham um projeto em comum, entendeu? Isso começou depois também.

 

P/1 – Que foi o projeto norteador que você disse.

 

R – É, que a gente começou a ter fóruns, sarau, projetos desenvolvidos pelos jovens. Porque até então era: “Se o professor quisesse fazer, ele fazia”. E essa é a questão da metodologia, ela tem que estar tão enraizada nas pessoas que fazem que todo mundo, de alguma forma, fazem algumas coisas iguais. Que é, por exemplo, multiplicar pra comunidade. Então os professores que tinham mais jeitão e gostavam de sair para a comunidade, saíam. Os que não tinham tanto jeitão e não gostavam tanto, não saíam. Não era uma regra, era uma regra no bom sentido: “Se todo mundo vai multiplicar, então todo mundo vai sair”. E essa saída é difícil, porque às vezes a pessoa não se sente capaz, ou não se sente com perfil para fazer coisas externas, para fazer atividades de intervenção externa, então tem todo um trabalho aí de formação dos Educadores, pra pessoa falar: “Não, é legal fazer um evento”. A gente usa muito esses eventos para marcar o grafite na escadaria. Adorava os grafites na escadaria. Não sei se vocês conseguiram fotografar alguma. E esse tipo de evento mobiliza, chama a comunidade, os outros jovens veem que tem o programa. Mas por que eu quero fazer um evento? Porque eu quero que mais jovens vejam que eu tenho um programa, porque eu quero que mais jovens entrem no programa, porque eu quero trabalhar no “tête-à-tête”. Na minha cabeça, os eventos não podem estar desconectados de não agarrar o cara no evento.

 

P/1 – E dessas saídas, qual você destacaria? Quais foram as primeiras?

 

R – Quais foram as primeiras? Caramba...

 

P/1 – Porque isso deve ter começado na sua época.

 

R – Eu acho que as primeiras foram da música, eu lembro do pessoal da música saindo.

 

P/2 – Quem fazia aulas de música? Eram os agentes?

 

R – Jovens.

 

P/1 – FAC?

 

R – É. Tem o Virando o Jogo, dentro do Virando o Jogo tem o programa de monitores, que são os jovens que atuam com as crianças menores, mas que também estão sendo formados por professores. Tem os jovens na mediação de leitura, os jovens das próprias áreas, que são os monitores, como se fossem estagiários dos professores. Eles são um grupo, tem jovens em vários lugares na Gol de Letra, isso que confunde. Depois tem a Formação de Agentes Comunitários, que tem os jovens que realizam projetos de intervenção na comunidade, e tem os jovens da Ângela também, que são os jovens do Jogo Aberto, que já é outro programa. E tem os jovens... Nossa, quantos jovens, não consigo nem lembrar. Tem outras parcerias menores. Por exemplo, tem do Aprendiz, tem parceria com a Leroy, que faz uma coisa de marcenaria. E isso tudo é jovem, são várias estratégias para jovens, o que eu acho muito legal, porque para o jovem, diversidade é muito importante. Não dá para colocar o jovem no formato Virando o Jogo todo dia, com horáriozinho fechado, grade horária e tal.

 

P/2 – Mas as aulas de música, de capoeira, de dança...

 

R – À noite, duas vezes por semana...

 

P/2 – São pra jovens?

 

R – São pra jovens, 15 a 21, a gente estava discutindo se 15 a 24, não sei como está hoje.

 

P/2 – As crianças não fazem aula de teatro?

 

R - Fazem, porque dentro da grade do aprender, que a gente estava conversando, tem atividades ligadas ao desenvolvimento de expressão de leitura e escrita. Então entra leitura e escrita, a gente acaba colocando informática aí, porque a gente acaba fazendo muita ligação com a questão do conhecimento. Depois vai ter um leque grande de atividades em arte-educação. Dança, teatro, capoeira, e depois a parte de repertório noturno, que vem Educação Física, esporte, eles têm três tipos de atividade no Virando o Jogo. No caso dos jovens, eles optam: “Eu quero fazer audiovisual” “eu quero fazer não sei o quê” “não sei o quê lá”. A gente tinha, na época – e não sei como está isso –, uma coisa muito complicada, que era fazer uma linguagem básica pros jovens para tentar pegar a questão da leitura e escrita, porque, infelizmente, é um problema nacional. Chega na sétima, oitava série, não sabe ler e escrever, e aí, de que adianta ser um cara, ter um leque cultural... Mas é o acesso, né? Você não garante o acesso se não tem o mínimo, assim. E é muito difícil trabalhar com leitura e escrita com jovem. Você tem que, quase, se vestir de um personagem, porque é muito difícil. E aí, a gente também fez um trabalho com os educadores para ver se a gente conseguia... Por exemplo: No roteiro que tem que fazer o vídeo, vamos tentar fazer alguma coisa de leitura e escrita. Ah, tem que escrever a peça, vamos colocar para escrever. Mas é muito difícil, um desafio grande, reverter, na verdade, o que se tornou um buraco.

 

P/1 – Aquele tema norteador, você chegou a pegar quantos temas norteadores?

 

R – Quantos temas? Vamos lá.

 

P/1 – Porque o primeiro foi com você, né?

 

R – O primeiro foi comigo, eu estou tentando lembrar só...

 

P/2 – Se eu não me engano agora é o sexto. Então foi em 2003 que deve ter começado.

 

R – O primeiro... Lembra que eu falei que a gente não fez tudo de cara, no processo? No primeiro foram três temas norteadores, a gente dividiu em três.

 

P/2 – O Virando o Jogo tinha um...

 

R – Não, dentro do Virando o Jogo mesmo tinha a parte de leitura e escrita, dividia pelas áreas. A parte de leitura e escrita trabalhou com contos tradicionais, e a gente dividiu por faixa etária, também. Os pequenininhos trabalhavam com contos tradicionais, os mais velhos trabalharam com mitos e contos de terror, aquelas coisas, assim, que eles gostavam. E os mais velhos trabalharam com autorretrato, que tem até aquela caixa, não sei se vocês viram aquela caixa da Redecard, com produtos deles? Eles fizeram os Três Porquinhos. Aqueles livros são lindos, são livros artesanais mesmo, não sei se vocês chegaram a ler.

 

P/2 – Sim, muito bonito.

 

R – Muito bonito, né? E aí a gente trabalhou. Tinha tema norteador, mas a gente dividiu por faixa etária, fez um tempo diferente. É aquela história do processo de adaptação: você não começa a coisa do dia pra noite, você vai adaptando, não só as crianças, como a sua equipe, também, pra trabalhar daquele jeito. Então o primeiro que eu me lembro foi esse, que a gente fez com essa questão do tema norteador. Depois o primeiro geralzão...

 

P/1 – Tinha a palavra Geradora, não é? Do Paulo Freire.

 

R – É. O primeiro geralzão qual foi, gente? Teve o África-Brasil, mas acho que ele não foi o primeiro.

 

P/2 – Foi em 2004 a Copa?

 

R – O África-Brasil deve ter sido 2006, isso mesmo. Ah, eu tenho isso em algum lugar, mas não vou lembrar.

 

P/1 – Tudo bem, fique tranquila (risos).

 

R – (Risos). Eu sei que esse ano é circo, teve um ano que quase foi água, mas não foi.

 

P/2 – Ano passado foi meio ambiente, não foi?

 

R – Teve um de cultura nordestina, teve um ano... Qual é? O pessoal trabalhou com Literatura de Cordel...

 

P/1 – Fica tranquila. Você ficou até quando na Gol?

 

R – Eu fiquei até julho de 2008.

 

P/1 – E nesse período que você trabalhou na Gol, a sua trajetória, dos resultados, quais resultados você poderia citar, que você conseguiu visualizar nos programas ou projetos?

 

R – Acho que teve os pessoais, né? Porque não dá pra escapar. Você fica falando da gente ficar contando a história da gente, acho que tem o pessoal. Eu tive muita autonomia pra trabalhar na Gol de Letra, e isso te deixa profissionalmente muito em êxtase, de você poder acertar e errar. De tentar... Isso foi muito bom, foi um período da minha vida profissional muito bom, e dava sede. Está bom, mas você quer fazer melhor, e não tem nada melhor no trabalho do que você sempre querer evoluir, querer fazer que a coisa aconteça de outra forma. Acho que tem uma coisa que é difícil pra caramba, que eu vivi na Gol, que é de sair de pé pra vidraça. Você sai da função de professor, onde você metia a boca na direção e você começa a ser Coordenadora e Gerente. Ser chefe não é uma coisa fácil. E isso pra mim foi um super aprendizado também, porque eu sou leonina, eu quero ser legal, eu quero ser amada por todos, e [é] impossível você ser amada por todos, ser cem por cento legal, é impossível você não ter conflitos, não ter hora que as pessoas devem botar um dardo e um alvo em você (risos). Porque foi...             Meio que faz parte, você faz isso meio que inconscientemente. Eu devo ter feito zilhões de vezes também (risos). Tem uma hora que você não está a fim de ver a parte que te cabe no problema e você externaliza: “Ah, mas também, não tomo mais decisão”. Falando ainda das questões pessoais, acho que eu vivi uma grande impotência agora no final, de que assim, eu não estou a fim de desconstruir o que eu construi junto com vocês. E foi a minha saída da Gol de Letra. Eu não tenho estômago, sabe? Foi tanta construção, tanta coisa tá-tá-tá-tá, e aí, aquilo deu um, “Acho que minha missão está cumprida. Não, não, não, espera, que minha missão está cumprida?”. Aí, começaram os desgastes pessoais, porque eu não aceitava acabarem com alguns programas, ou fecharem ou mandarem embora. E eu comecei a perceber que eu amava aquele lugar de qualquer jeito, tudo o que eu tinha construído e que eu tinha que fechar o meu ciclo lá. Mas não era uma coisa ruim e nem uma coisa de abandonar o navio. Tanto que uma vez doeu, porque a pessoa disse assim: “Ah, agora que está em crise você vai...” “Não, eu fiquei na crise, eu terminei e entreguei todos os projetos que tinha que entregar”. A sensação que eu tive, que teve uma hora que deu, meu ciclo aqui acabou, não tem mais lugar pra mim, porque também mudou a estrutura da Gol. Eu vou ser Gerente do quê? Mudou a estrutura da história e a sensação que me deu é que parecia que não tinha mais lugar. E foi legal, porque eu precisei elaborar uma saída, coisa que, para mim, é muito raro. Eu sou daquelas que: “Deu?”, virei as costas e fui embora. E isso é muito doído, porque você sofre, sofre quando é impulsiva. Todo mundo diz que eu continuo sendo impulsiva, eles acham que eu elaborei “pacas” (risos). Acho que, pro meu perfil... “Nossa, você saiu?”. Para mim, eu elaborei muito. Meu, seis meses! Pra mim, seis meses é uma super elaboração. Mas talvez, pra outras pessoas, que tenham outro tipo de perfil, seja o suprasumo da decisão rápida. Pra mim, não. Eu elaborei a minha saída e ela foi muito dolorosa. Tanto que, só de falar eu já fico toda... Porque é uma coisa que você, sei lá, tem todo o momento de vida. Você foi e mergulhou e colheu os frutos. Eu tive muito apego pelas pessoas, e a sensação... Eu trabalhei isso em terapia, até. O problema não é sair daquele lugar, o problema é não ver mais as pessoas. A sensação que eu tinha é que todo mundo ia morrer (risos). E eu tinha uma coisa muito forte com as pessoas, então foi trabalhar isso. “Não, ninguém vai morrer, você vai continuar vendo”. Mas é óbvio, muda. Muda a relação do cotidiano, você não vê mais no seu dia a dia. E eu tinha uma coisa muito forte com as crianças e os jovens. Eu gosto, gosto do barulho. Cheguei no Sou da Paz: “Mas que silêncio insuportável!” (risos). Eu gostava do barulho. E é tão engraçado... Acho que esse fato é importante de falar: teve um fato muito desgastante emocionalmente, que também contribuiu para a saída, que a sensação que eu tinha é que aquilo deu uma boa virada, que foi o falecimento de um menino lá. A gente teve um atropelamento que eu socorri, eu e a Ângela. Então é assim, meu, o moleque tem duas paradas respiratórias e duas cardíacas na minha mão. Eu fiz Educação Física, eu sei o que é uma parada respiratória e uma parada cardíaca. E a sensação de impotência tinha sido muito grande. Três dias depois o outro morre?

 

P/2 – Ele morreu?

 

R – Não, um outro. Caiu do vão do MASP [Museu de Arte de São Paulo]. Caiu, não. Foi fazer uma brincadeira de adolescente, idiota, e foi uma fatalidade. Aquilo me deixou tão sem chão, tão impotente, que eu cheguei à conclusão que talvez fosse bom pra mim, profissionalmente, me afastar um pouco da ponta. Você precisa ter muito estômago para estar na ponta há tantos anos. Eu estava há 15 anos na ponta. Na ponta que eu digo é: Morreu fulano, assassinou beltrano, “pa-pa-pa”. E, por mais que eu seja forte, tem uma hora que isso te desmonta. Eu acho que, sei lá, data de validade, entendeu? (risos). Acho que preciso estar num lugar um pouco mais afastado da ponta, mas eu ainda vivo esse conflito, porque faz uma falta desgraçada.

 

P/1 – Mas tem uma coisa legal, pra não deixar batido, que foi esse intercâmbio com a Suiça.

 

R – Esse intercâmbio com a Suiça foi bom, porque...

 

P/1 – Foi quando?

 

R – Foi logo quando eu entrei, eu tinha seis meses, um pouquinho mais, de Gol de Letra. E conviver com as crianças, né? Essa coisa de acordar de manhã, você conhece os hábitos, as manias, as brincadeiras. Você vai meio como “mãe”, porque vai pra cuidar de um bando de marmanjo que vai ter saudades, que vai chorar, que uma fica menstruada, a outra está afim do outro. E você finge que não vê e vai, né? Eu voltei...

 

P/1 – Mas como é que foi a notícia de você ir? Primeiro porque pra ir pra Suiça não é um negócio...

 

R – Não tinha... Aquela coisa, tinha acabado de ser contratada. Eu falei: “Gente, ganhei na loto, né?” (risos). Tinha acabado de ser contratada e, seis meses depois, ia pra Suiça. Mas é que tinha uma questão, tinha que ir alguém da Coordenação e que tivesse a maior proximidade possível com as crianças. Então meio que era eu, mesmo eu estando há pouco tempo na Gol de Letra. E eu curti pra caramba, acho que foi um marco. Hoje eu entendo até algumas coisas das crianças em função do que eu vivi, da lógica deles, porque você toma café da manhã, conversa sob a lógica de mundo deles, que às vezes é muito diferente da nossa, do que a gente foi criado. Não é que são diferentes, mas... “Ah, Mônica, eu não acho isso” “Mas por que você não acha isso?”. É outro tipo de papo. Você nunca tem tanto tempo para conviver com uma criança que você trabalha como numa viagem em que você fica 20 dias, e de uma maneira muito pessoal. Eu tinha saudades das minhas filhas e, às vezes, eu falava no telefone e chorava. Eu ficava disfarçando: “Ah, você está chorando, né?” “É, eu estou chorando”. Eu fiquei mais gente, a sensação assim... Eu perdia aquela coisa de “A Mônica coordenadora”, porque tem, a diretora da escola, a que dá bronca, que chama o pai, aquela coisa chata, para uma relação mais próxima deles.

 

P/2 – Isso que eu fiquei curiosa de você contar da viagem um pouco mais. Mas, antes disso, acho que seria a gente escutar um pouco o teu dia a dia: como era o seu dia a dia de trabalho na Gol de Letra? Porque você está falando dessa coisa toda de ter proximidade da criança, e eu estava aqui pensando que você estava num patamar um pouco diferente, que você talvez tivesse mais proximidade com os professores, sabe? Como era o seu dia a dia,  sua circulação lá dentro?

 

R – Não é assim na Gol. Eu acho que, de certa forma, eu criei isso. Eu não acredito muito em mundo de adultos e mundo de crianças, entendeu? Lembro que quando eu entrei, eles batiam na porta. Depois eu até comecei a reclamar, porque eles não batiam mais na porta, entravam na sala a hora que quisessem para falar comigo, pra falar com qualquer outra pessoa do pedagógico. Não tinha essa coisa de não acesso, então, às vezes, tanto pra reclamar: “Ah, o professor não sei o quê falou que não sei o quê lá, não sei o que lá”, ou senão pra te entregar um desenho que ele fez. Eu sempre tive uma relação muito próxima com as crianças, mas eu também meio que construí isso. No final estava mais difícil, mas, por exemplo, eu sempre tive o hábito de participar da aula das crianças, fazer aula junto com elas. Lembro uma vez que eu fui lá dar um... Quase que me esborrachei no chão, mas eu dei um aú.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Aú é aquela estrela da capoeira. Quase me esborrachei, mas fiz. E aquela coisa de você se aproximar, mesmo. Acho que o melhor jeito que você tem, para ajudar, por exemplo, um educador que está com dificuldade, é você conhecer o cotidiano dele. Então eu tentava ao máximo assistir às aulas, e no começo eu conseguia mais, agora no final eu praticamente não conseguia entrar em uma sala de aula e tudo. Mas eu ainda acredito que as relações próximas facilitam. Por outro lado, às vezes eu tinha que entregar um relatório para uma financiadora e entrava o Joãozinho, a Maria, e queria conversar. “Mas agora eu não posso conversar”. Vocês já foram lá? É um vai e vem de crianças o tempo inteiro, não tem muito essa de “aqui é dos adultos, aqui é das crianças”. Acho que a sala da sede é mais reservada, a gente tem até as piadas: A Casa Grande e a Senzala. O lugar onde não pode entrar a bagunça.

 

P/2 – Onde é a sala da sede? É aquela do lado da secretaria?

 

R – Ah, do Sóstenes e do _______, não sei o quê.

 

P/1 – Mesmo assim entra, porque a gente estava organizando o acervo ali no antigo Nucon, e ali de vez em quando entrava um dos meninos.

 

R – A gente brincava assim: Onde está a dança, as raízes? Na Senzala, não está na Casa Grande, a gente brincava assim. A bagunça, a coisa das raízes, fica aqui.

 

P/2 – Você estava contando da história da viagem. Como surgiu essa parceria com a Suíça, só pra registrar?

 

R – A história acho que eu não tenho os detalhes. Sei que o Raí é amigo pessoal do prefeito de Berne, e eles têm, por hábito, na prefeitura de Berne, fazer esses intercâmbios, tanto que a Gol de Letra não foi a primeira. Fizeram com crianças da Alemanha, crianças da África, sempre no histórico de alguma questão social.

 

P/2 – Mas o que as crianças fizeram lá?

 

R – Nossa, de tudo que você possa imaginar: oficina de cerâmica, oficina de informática, esporte aquático, uma programação super intensa; você volta exausta, come 50 quilos de chocolate suíço e volta quatro quilos mais gorda, é mais ou menos isso (risos.). Mas é muito bacana, é um intercâmbio muito legal, muito legal. Tem os seus “senões”...

 

P/2 – Como escolher as crianças?

 

R – Ah, é super difícil, super difícil. Tem aquelas coisas de às vezes não conseguir levar a criança que a gente escolhe porque o pai é sumido, porque não consegue autorização da mãe, ou não consegue achar a mãe.

 

P/1 – Mas qual é o critério na seleção?

 

R – Era mais de um: alguns critérios eram dados por eles, “x” números de meninos, “x” números de meninas, faixa etária e tudo. A gente fez várias reuniões com os educadores e esse processo foi legal. Teve uma vez que a gente tentou fazer uma votação com as crianças. Mas gente, eles foram muito trapaceiros na votação, eles quase compravam voto na fila dos outros. Daí não funcionou muito essa história de fazer a parte de votação deles. Mas tinha uma coisa de que não era o melhor aluno, mas também é uma criança que participa, que respeita as regras, não sai espancando nem xingando o outro e tal. Tinha aquela coisa da evolução pessoal, uma coisa de... Eu tenho isso em algum lugar, mas tinham critérios bem legais que eram de atitude, de participação. A gente olhava um pouco o contexto da família, também. Então não ia mandar dois irmãos, aquelas coisas de você perceber... Ou uma criança que estava precisando de um estímulo para virar. Foram muitas reuniões com os educadores, tanto para definir os critérios, que não passavam por ser o melhor aluno porque não ia ter graça, mas passava muito pelas questões de atitude: crianças que tivessem atitudes que a gente achava que deviam ser, de alguma forma, reconhecidas pelos outros, entendeu? “Ó, vale a pena ser legal. Eu vou pra Suíça, eu vou, de alguma forma, ser reconhecido”. Mas é difícil escolher.

 

P/1 – Mônica, você falou que houve umas transformações na Gol, fechamento de projetos. Só pra poder situar a gente nessa mudança...

 

R – É difícil, pra mim, falar, porque na verdade as coisas têm suas historinhas. Então assim, a Gol de Letra sempre foi, também, uma instituição de dois ex-jogadores, um na Itália e um aqui. É óbvio que, no decorrer dos anos, aconteciam algumas coisas de um querer uma coisa, outro querer outra. Mas eles sempre foram – e isso eu sempre admirei muito –, muito amigos, e muito claros no que eles queriam. Nessa fase da desestruturação, principalmente financeira, a sensação que eu também tive é de que estava meio sem rumo. Sabe quando uma coisa está em crise, não sabe muito pra onde ir?

 

P/2 – Isso foi quando?

 

R – Isso começou em 2007, na verdade. E a gente teve um grande... Dois anos de avaliação. A minha expectativa era que: “Pôxa, a gente avaliou, agora a gente vai disseminar”. A minha expectativa era de continuar em grande estilo, quando começaram a acontecer coisas de não grande estilo. O processo de avaliação foi bem tumultuado, já terminou de uma maneira que não foi muito legal, por motivos com a consultoria. Sabe aqueles fechamentos meio tortos? Na verdade, hoje eu entendo porque fechou daquele jeito também, porque já estava com aquelas questões financeiras, porque as coisas também já estavam meio confusas.

 

P/1 – Só para eu entender, esse processo de avaliação vai o quê? Uma auditoria...

 

R – Não, foi uma equipe, da Backup, que era de uma doutora. Ela tentou avaliar tudo, e esse foi, na minha opinião também, um dos motivos que deu uma estressada. Porque é muito difícil você avaliar Rio, São Paulo em tudo, foi uma demanda enorme pra equipe, que estava meio estressada. Sabe quando está estressada? Eram onze instrumentos de avaliação para aplicar nas crianças. Estava tudo... Sabe quando estava na hora de abaixar a poeira? E a poeira continuou subindo (risos). Por outros motivos, mas a poeira continuou subindo. E aí veio o nascimento, não sei direito quando foi, dos Atletas pela Cidadania, com foco na lei do aprendiz. Daí veio uma discussão muito grande de que trabalhar com questão da lei do aprendiz, mas meio sem perna. A Gol de Letra tem essa estrutura de sempre querer fazer mais e melhor, e cada vez com menos. O que é o desejo de todo mundo, mas é jogo duro. E aí, quando você está também ali, sentindo o estresse da equipe e tal, começaram, no meu caso, as primeiras divergências. “Olha, aqui está complicado”. Sabe? Se tinha assistente, já não tinha mais. Se tinha “x” educadores, já tinha menos. “Pô”, continuar fazer mais, melhor e outras coisas e novo, com a mesma equipe, começa a ficar uma coisa mais complicada. E aí começaram essas vacas magras, gato subiu no telhado. O processo, infelizmente... Eu acho que a Gol de Letra não teve, historicamente, na minha passagem, processos ruins, não transparentes, autoritários e de difícil digestão. É óbvio que uma coisa aqui, ali, você concorda mais, concorda menos, mas tudo muito correto, muito ético e tal. E esse processo foi muito às avessas, muito às avessas porque criou um pânico: “Olha, as coisas não vão bem, o Rio fechou” “Calma, nada vai acontecer em São Paulo”. Cinco dias depois, cinco pessoas de São Paulo são demitidas. Criou um clima assim, de todo mundo agarrado na cadeira. A brincadeira era Big Brother. Brasileiro tem bom-humor, né? Nos bastidores, a brincadeira era Big Brother, quem vai ser o próximo a sair da casa, porque ficou um clima muito ruim. E eu, como estava no meio do caminho, ficava tentando: “Bom, eles devem ter tido os motivos deles pra terem sido tão radicais”. Mas por mais que eu entendesse os motivos deles, eu não conseguia aceitar em como eles tinham feito as coisas. Em como, no processo, eles tinham feito as coisas. Então, pra dar um exemplo, pra não ficar tão inconcreto, por exemplo: morreu o cachorro de oito meses das minhas filhas. O pai foi avisar. “Você sabe como vai falar?” “Já”. Eu achando que ele vai contar uma historinha, ele vira e fala assim: “Meninas, o Doc morreu”. Assim, qual é a preparação que você fez para falar: “O seu cachorro, que você tanto amava, de oito meses, que era um filhote, morreu?”. Esse processo foi muito punk. A gente também brinca: “Mas também, um bando de homem na direção de alguma coisa, a gente vai esperar o quê? Certa sensibilidade? Vamos lá, vamos conversar.” (risos). Brincadeira, claro, mas eu acho que talvez, talvez...

 

P/2 – Mas aí o Rio fechou? O que mudou mais...

 

R – A notícia inicial era essa, tanto que a gente brinca e fala: “ressuscitou”. Porque o Rio não fechou, mas a primeira notícia é: “O Rio fechou, 15 pessoas foram mandadas embora”. Aí fechou aqui, cinco pessoas foram mandadas embora. Tanto que eu fiquei sabendo às cinco da tarde...

 

P/2 – Que projeto saiu daqui?

 

R – O FAC. Na verdade fechou... Também não fechou. Foi tudo assim: “Ó morreu, não, não morreu. Calma, está em coma”. Foi tudo meio assim. “O Rio morreu”, depois: “O Rio ressuscitou”.

 

P/1 – Porque lá fechou em Niterói, não foi?

 

R – Isso.

 

P/2 – E abriu no Caju?

 

R – Não, já tinha aberto no Caju. Quando fechou, fechou tudo. Mas depois a Bia veio, começou a pegar uma pessoa aqui, outra ali, e não fechou. E a gente também só sabe de orelhada. Sabe aquela história que o que faltou, se é que dava pra ter... E eu entendo o lado deles, que às vezes não dá pra ser transparente, tem hora que não dá, é falar e aguentar o tranco. Foi que criou um clima de caos, insegurança, insatisfação, gente mandando currículo pra tudo quanto é lado porque não se sabe o dia de amanhã. Foi bem complicado. E é tão engraçado que algumas pessoas sabiam que eu ia sair. É tão engraçado, acho que minha fisionomia é tão transparente, que sabiam que eu ia sair, que pra mim tinha ficado um pouco inviável mesmo. Acho que muitas pessoas conseguiram superar, e hoje, olhando de fora, eu falo: “Pô, né?”. Sabe quando bate aquela coisa, assim? Eu não me arrependo de ter saído, mas... Que legal que fulano conseguiu superar. Tinham dois caminhos, mas pra mim só teve um.

 

P/1 – O impacto na comunidade. Você sentiu, da época que você atuou na trajetória, mudança na comunidade?

 

R – Eu consigo ver muito a comunidade nas crianças, no dia a dia. O que eu vejo... É muito diferente entrar no Gol de Letra hoje e entrar quando eu entrei pela primeira vez. Lembro que tinha uma fase, eu até contei uma historinha pra vocês do dia da faxina, porque aquilo foi muito simbólico: “Ah, é parede pixada, cuidado zero, eu não estou nem aí”. Era briga o tempo inteiro, era uma coisa de muita agressividade, com tudo, com as paredes. Eu me lembro do primeiro dia, quando eu fui conversar com os caras bacanas da Gol de Letra, aqueles moleques bem (perigosos?). Eu entrei na sala, eles pegaram as cadeiras e começaram a bater em cima da mesa. Eu entrei, olhei para aquilo... “Mas que recepção calorosa, chegou a coordenadora pedagógica”. Eu perguntei: “Vocês querem bater as cadeiras nas mesas e nas paredes?”. E eles: “É!”. Aí eu falei: “Então vamos combinar um tempo. Vocês batem dois minutos, pode ser?” “Aee!”. Deu um minuto e 15 e eles pararam. “Não, não, não, mais 45 segundos, por favor. Vocês vão bater mais 45 segundos. Afinal de contas, vocês combinaram comigo dois minutos” (risos). Comecei assim, com prova de fogo, eu falo, tendo que me virar porque eles não tinham limite. E não tinham limite não porque os professores não eram bons, é porque é aquela história, entra coordenação, sai coordenação, eu faço o meu trabalhinho lá na minha sala de aula, mas eu não tenho gente falando igual... O tempo inteiro. A criança é isso. Se você fala “A, A, A”, beleza, “eu entendi A”. Se fala “a“, “b”, “c”, “d”, pronto, [lascou]. Isso acontece dentro da família. Se o pai autoriza, a mãe desautoriza, pronto, dançou, a criança vai ser uma lástima. Acho que essa coisa de falar a mesma língua é o que mais educa, e é isso que a gente não tinha. A gente não tinha uma equipe falando a mesma língua, e é isso que a gente foi construindo. Então, quando eu saí de lá, por mais difícil que tenha sido o processo e tudo, tinha uma equipe falando a mesma língua. E isso não tem preço, para uma pessoa que estava no cargo que eu estava. Essa equipe não só sabe executar a metodologia Gol de Letra... Porque uma coisa é falar da metodologia. Sabia executar a metodologia Gol de Letra, como falava a mesma língua. Como sabe proceder da mesma maneira com a criança, a criança não vai driblar, entendeu? Porque ela vai ter o mesmo contorno. A criança precisa de contorno, não tem muito jeito, o contorno dá segurança. Então acho que as crianças passaram a se sentir mais seguras, e isso a gente vê. Eu conto do dia da faxina porque foi muito simbólico. Eles pixavam, e era criança com balde e escada limpando e não sei o quê. E toda hora, “Fulano, vai lá limpar”. E foi tendo alguns marcos, deles aprenderem a cuidar, de que aquele lugar é deles, não é nosso, que aquela parede é dele. E hoje em dia tem até o contrário, eles mesmos se autofiscalizam. Eu brinco e falo que esse é o sonho de consumo de qualquer educador, quando ele não precisa mais ser o educador, quando qualquer um é um educador. Quando você vê a criança virar pro outro e falar: “Ô meu, não joga papel no chão” “Ó fulano, não faz isso, não”. E não é porque a professora ou o educador não vai gostar, mas é porque eu sei que não é bacana, porque eu sei que não é correto.

 

P/2 – O dia da faxina é anual, como é?

 

R – Não, aconteceu nesse contexto aí.

 

P/1 – Quando você entrou?

 

R – Acho que foi de 2003 pra 2004, foi um dos marcos, assim. E lavar parede é muito simbólico, né? Lavar parede, lavar chão, é uma coisa muito física. Eu lembro que os educadores fizeram guerrinhas de água, tem aquela coisa do lado da brincadeira da faxina, que não tem como não ter. E aquilo deu uma força, tanto na equipe dos educadores, como das crianças, de limpar, de lavar, de vamos cuidar do que é nosso.

 

P/2 – Pela estrutura, né?

 

R – Exatamente. Foi muito legal, muito bacana mesmo, acho que deu uma força...

 

P/2 – Vocês fizeram uma vez?

 

R – A gente fez uma vez. E acho que tem essa coisa de fazer junto, sabe? Criança é isso. E o Sóstenes e outras pessoas, o Raí, outras pessoas que são um nível hierárquico mais acima, ficavam espantados com as festas, porque parece um bando de formiguinha, tanto os educadores como os jovens em formação, pra arrumar e desarrumar as coisas, pra montar e desmontar a festa. Acho que isso é muito da minha postura, da postura dos educadores, porque eu nunca deixei de pegar uma vassoura no final da festa, os educadores também nunca deixaram de fazer as coisas junto com as crianças. Não é uma coisa de: “Você vai lá limpar?” Não, “nós vamos limpar”. Aí é que a coisa muda. Vai pregar alfinete? Vai pregar alfinete. Eu vou pregar alfinete, o João vai pregar alfinete, todo mundo vai. E foi legal que eu comecei a ver isso geral. Você começava a ver o pessoal de DI no final da festa, ajudando.

 

P/2 – O que é DI?

 

R – DI é do Desenvolvimento Institucional. Porque às vezes é difícil envolver as pessoas que têm essa função de escritório, com essa coisa mais chamelenta, da área pedagógica.

 

P/1 – Agora sim, aprendizagem. O que você tirou pra você?

 

R – Ai, eu já falei tanta coisa.

 

P/2 – É que você falou desse grande marco da faxina. Teve algum outro grande marco que, talvez, a gente não tenha perguntado, entendeu? Algum dia que tenha marcado muito.

 

R – Eu contei esse, contei do CD também, que foi dos jovens, que foi um dos primeiros que eu vivi. Foi muito bacana, de produzir o CD com eles.

 

P/1 – Mas o que era? Era um grupo?

 

R – Era um grupo de jovens que faziam uma oficina, e eles gravaram um CD com músicas próprias, que é o CD do Nobai, que vocês tem que ter, vocês podem pedir lá. O processo foi muito legal, porque também era bem no começo da Gol, e marcou bastante, eu virei produtora executiva do CD, não sabia fazer nada. “Ah, tem que fazer masterização” “aham, e aí, como é que faz essa tal de masterização?”. Foi uma coisa que me marcou também, mas com o grupo de jovens, porque a criança te puxa pra zilhões de ideias, e os jovens, às vezes... É que a gente tem memórias mais adultas dos jovens, então acho que não são tão marcantes, às vezes. Até me policiei, preciso até perguntar se mandaram a história do FAC pra vocês também, que eu acabei mandando pra lá pra não contar só história de criança, sabe? Porque isso é uma questão lá na Gol. A gente fala que a Gol, primeiro, era só de criança, não crianças e jovens. Acho que hoje ela é uma instituição de crianças e jovens, mas sempre a criança fica mais naquela coisa do apego da criança, e o jovem...

 

P/1 – E teve lançamento, como foi?

 

R – Teve, o lançamento estilo... Naquele Teatro São Paulo, que tem a peça na Zona Norte. Eles tocaram, teve um show, foi maravilhoso.

 

P/1 – E pra comunidade, esse CD?

 

R – Levamos a comunidade até o teatro. Era distribuído, foi distribuído em alguns eventos nossos, o CD. Eles todos ganharam um número “x” de CDs para distribuírem para os familiares e tal.

 

P/1 – Mas esse grupo se manteve só até o lançamento do CD, não tem mais...?

 

R – Ele era um grupo da oficina de música, não era um grupo de música.

 

P/2 – Se você pudesse traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, como você traduziria?

 

R – Como traduziria? Acho que é um sentimento mesmo. Acho que é um lugar muito apaixonante. E ficou com uma marca assim, quando fala na marca Gol de Letra, parece que a origem da Gol de Letra... Escrevi até isso também, a origem da Gol de Letra é a Vila Albertina. É como, assim... Ah, como nasceu a Gol de Letra? Ela pode ter nascido em 1998, e ela ter os marcos legais dela. Mas quem fez a Gol de Letra o que ela é hoje, na minha opinião, foi a Vila Albertina, os moradores de lá, as pessoas de lá. Talvez até dentro da linha daquilo que eu acredite que uma coisa se faz em um contexto. Então a Gol de Letra foi originada por aquela vila lá, ela é aquilo. E ela é super apaixonante.

 

P/1 – Legal. Pra você, Mônica, o que você acha? A ideia é contar os dez anos da Gol de Letra. O que você acha desse trabalho de resgate de memória, que a gente está fazendo?

 

R – Ai, estou adorando. Acho que é narrar. Você organiza, ressignifica as coisas. Fora fazer bem, pessoalmente faz bem, acho que tem uma coisa que parece que você vira eterno. E isso dá uma sensação tão boa, tão confortável de... “Nossa, ficou eterno!”. Eu tenho uma coisa muito forte com ter história pra contar. Acho que eu tive filhas porque eu tenho uma coisa materna muito forte, mas eu falo: “Gente, alguém tem que contar minha história”. Acho que é o lado leonino, não é possível. Eu fico achando que essa história de contar histórias de geração pra geração é realmente muito rico. Eu gosto da coisa do Museu, e eu até comentei com você que o Osmar, lá do Rei das Batidas, eu ia no Rei das Batidas e tem a história do Osmar, ele me chamava de Mônica Galo, não Zagallo.

 

P/3 – O Osmar é o que veio aqui?

 

R – É garçom do Rei das Batidas.

 

P/3 – Garçom do Rei das Batidas. Ele veio aqui, é depoente do Museu.

 

R – Exatamente. E no livro dele eu estou lá, me senti toda orgulhosa. Eu conheci, na verdade, o trabalho do Museu, por ele, porque ele me deu o livro autografado e me contou que tinha feito o trabalho com vocês. E eu falei: “Pô, tem coisa mais legal?”. E da brincadeira que ele faz pra gravar o nome das pessoas. Uma pessoa especial e que fez parte da minha faculdade, eu vivia lá no Rei das Batidas e tal. Não sei, até parece que as historinhas se ligam, né? Aí fui no Museu da Pessoa, que tem a ver com o Jardim Ângela. Acho que só quando você registra é que você consegue perceber que tem histórias que se cruzam em um determinado momento, e isso também é sensacional.

 

P/1 – Mônica, tem alguma coisa que a gente não tenha te estimulado, alguma coisa que você queira deixar registrado, algo que nós não perguntamos?

 

R – Não. Eu tenho um caso específico, mas que eu contei, eu mandei a história pra vocês. Por mais que a gente seja treinado como educadora, não personificar e não ter um carinho especial por uma criança, isso sempre acontece, né? E tem um menino que foi muito especial pra mim, que foi o Joseph, eu pus lá um nome fictício para ele, mas ele mexeu... Ele tinha uma história de vida muito complicada, e ele mexeu muito, eu não sabia mais o que fazer com ele. Ele surtava, batia em tudo. Eu não sabia mais o que fazer com ele, e foram muitos anos de trabalho, de trabalho meu, da Olga, da equipe. E quando você vê virar... E o menino foi para o abrigo, saiu da vó, que era alcoolista. Uma história super complicada que eu até relato rapidamente, que eu mandei pra você. Quando você vê, parece que é história de vocês, aqui no Museu, viram alguma coisa concreta que você pega. Então, pra mim, o Joseph... Sabe aquela coisa de missões que foram cumpridas? E com ele eu não tenho dúvida, de que você viu o tamanho da encrenca, todo mundo foi atrás de minimizar, resolver, estimular e não sei o quê e você vê, tanto que no último dia que eu vi ele dançando a capoeira e eu chorava, parecia que o menino tinha morrido. Mas é aquela coisa de você ver uma transformação muito grande. O Vanderlei é um caso, o Vanderlei... “Pô”, o cara mostrava a bunda no ônibus, um saco, né? Ia pra passear, tirava as calças, mostrava a bunda no meio do ônibus. E agora, um [super] homem maravilhoso. Essas coisas, por mais que a gente seja treinado como profissional, e falar: “não, é um todo, tem que tratar todas as crianças iguais”, você tem os seus chamegos especiais.

 

P/1 – E o que você achou de ter dado esse depoimento, de ter contribuído com seu depoimento?

 

R – O que mais que eu não falei?

 

P/1 – Você gostou de estar aí?

 

R – Ah, gostei, só essas luzes aqui, essa câmera aqui, mas tudo bem, vai.

 

P/1 – Então está bom, é isso. Muito obrigada.

 

R – Muito obrigada! Foi muito legal, viu? Adorei.

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