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História

Aprender com a vida

História de: Jose Tomé Sanches
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2021

Sinopse

Infância na roça. Mudança para cidade de Alto Alegre. Trabalho na usina sucroalcooleira. Trabalho em posto de gasolina. Ingresso na White Martins. Treinamento em Bauru. Planta de Ilha Solteira. Construção da usina de Sertãozinho. Trabalho na produção de acetileno. Crise nos anos oitenta. Segurança no trabalho. Família. Premiação de quarenta anos na White Martins.

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História completa

 

P/1 – Tomé, seja bem vindo! Primeiro, gostaria de te agradecer por ter vindo e aceitado o nosso convite. Para começar, eu gostaria que o senhor me falasse o seu nome completo, a idade e a data de nascimento.

 

R – Eu me chamo Jose Tomé Sanches, nascido em 21 de fevereiro de 1949, em Alto Alegre [São Paulo]. 

 

P/1 – E o nome dos seus pais? 

 

R – Meu pai é Jacinto Tomé Gonçalves e o nome da minha mãe é Angela Sanches Tomé.

 

P/1 – Você conheceu os seus avós?

 

R – Conheci.

 

P/1 – E quais eram os nomes deles? 

 

R – Minha avó era Dolores Sanches Tomé e meu avô eu não me lembro. 

 

P/1 – Tudo bem. E o que os seus pais faziam?


R – Meu pai era sitiante. Ele tinha um sítio. Na época, mexia com café e gado.

 

P/1 – E a sua mãe não ajudava?

 

R – Ajudava.

 

P/1 – E seus avós também?

 

R – Não, os meus avós vieram da Espanha, então eles... Meu avô não conheci, era muito pequeno e não o conheci, mas a minha avó eu conheci. Minha mãe faleceu quando eu tinha nove anos.

 

P/1 – Mas a sua avó ajudava? Vocês moravam com a sua avó? Como era...

 

R – Não, a minha avó faleceu também. Ficamos... As minhas irmãs que nos criaram.

 

P/1 – E em quantos irmãos vocês eram?

 

R – Somos em quatro.

 

P/1 – Você é o caçula?

 

R – A minha irmã é a caçula. Tem o irmão mais velho, que já faleceu, tem minha irmã, depois eu, depois a outra irmã.

 

P/1 – E como era lá no sítio? 

 

R – Ajudava, era aquela vida dura. (risos) Trabalhávamos na roça e era muito difícil. (risos)

 

P/1 – E o que você mais fazia para ajudar?

 

R – Ah, eu mexia com criação, com animal. Apartava vaca para tirar leite e levava o almoço, a merenda, para o meu pai na roça. Trabalhei na roça até uns quinze anos mais ou menos. Aí, meu pai falou assim: “Ah, isso não vira nada, não, vamos para cidade deixar isso de lado”. Mas só que o sítio ficou, está lá até hoje. Depois, meu pai faleceu, repartimos e temos até hoje, não vendemos. 

 

P/1 – E alguém cuida lá? Vocês plantam alguma coisa?

 

R – Sim, cuida. Planta cana. Arrendamos entre meus irmãos todos. 

 

P/1 – E do que o senhor mais gostava no sítio?

 

R – Ah, de andar a cavalo... (risos) Era a coisa que eu mais gostava. Era o meu hobby. (risos)

 

P/1 – E o senhor ainda anda a cavalo?

 

R – Ando. Lá ainda passeio... (risos)

 

P/1 – (risos) Mas na infância o senhor trabalhava bastante, ajudava. Dava tempo para ir à escola? Como era?

 

R – Naquele tempo, você estudava, entrava no primeiro ano e ia até o quarto ano. Depois, o pai falava: “Não, chega! Vamos trabalhar pro sítio, pra roça...”. E não incentivava nada. 

 

P/1 – A escola era perto da...?

 

R – Era nada, andava três, quatro quilômetros a pé. Era difícil. 

 

P/1 – E iam todos os irmãos juntos, ou vocês iam para escolas diferentes?

 

R – Morava muita gente no sítio, então, juntávamos a turminha e íamos todos juntos para escola, a pé (risos). Era muito difícil. Eu acho que era o grande erro daquele tempo, não incentivar os estudos. Eu só tenho uma irmã que é formada, a mais nova, depois da mudança para a cidade... Mas os outros irmãos, nem... 

 

P/1 – Mas o senhor lembra alguma matéria, alguma professora que gostava?

 

R – Ah, eu lembro das professoras, todas, só que por nome, não lembro. Mas era muito rígido. Ali era... (risos) Mas dos nomes não me lembro mais.  

 

P/1 – Tinha alguma matéria? Português ou Matemática...

 

R – Eu gostava muito de Geografia. Naqueles tempos, você sabia de tudinho. Todos os estados, todos os rios, todos os afluentes... Gostava muito. Depois que saí, eu me arrependi tanto de não ter estudado...

 

P/1 – Vocês iam a pé para a escola. Como era? O que vocês faziam para se divertir com os seus amigos ali do sítio? Você aprontava?

 

R – Ah, brincava muito. Pescava, nadava nos rios, vixe, era muito gostoso. Naquele tempo caçava muito passarinho, armava arapuca. (risos) Era divertido. Tinha muita fruta... Era sofrido, mas tinha umas partes gostosas. Tinha muita fartura...

 

P/2 – Como fazia para caçar passarinho, fazer arapuca? Como era? 

 

R – Ah, fazia uma arapuca, preparava a armadilha. Ele ia entrar para comer o milho dentro, a arapuca desarmava e o pegava. (risos) Ou senão usava estilingue (risos) e matava também. Era gostoso, era divertido. E havia muito jogo de bola aos domingos, em campinhos de grama, de sítio. Baile... Tinha muito baile. Éramos moleques e todo sábado havia baile no sítio. Aqueles “terreirão” de tijolo.

 

P/1 – E o que tocava?

 

R – Ah, só arrasta-pé. (risos) 

 

P/1 – (risos) O senhor começou a dançar desde cedo, então?

 

R – Ah, depois que fui para a cidade mudou, né? Depois que fui para a cidade, acabou tudo isso. Até uns quinze, dezesseis, dezessete anos, acompanhava muito. Mas depois... Andávamos uns dez quilômetros até o centro da cidade. Aí meu pai mudou para a cidade e acabou tudo. Ficou tudo para trás.

 

P/1 – Todos vocês foram para a cidade?

 

R – Todos fomos para a cidade. 

 

P/1 – E como foi a mudança de casa?

 

R – Ah, foi diferente, porque no sítio era tudo escuro, lamparina... Com a cidade, já tinha luz, rádio, depois vieram a televisão, a geladeira... Foi tudo melhorando.

 

P/1 – Mas a casa já era cercada?

 

R – Já era cercada, forrada. No sítio não tinha nada disso (risos). Melhorou, melhorou bastante.

 

P/1 – E com quinze anos, então, você foi para...

 

R – Para a cidade. 

 

P/1 – Qual cidade?

 

R – Alto Alegre.

 

P/1 – Alto Alegre mesmo. E como era Alto Alegre?

 

R – Uma cidadezinha pequenininha, de três mil habitantes. Não tinha asfalto, não tinha luz. No começo, nem luz tinha. Depois, no ano seguinte, chegou a luz.

 

P/1 – E como foi para o pessoal receber a luz?

 

R – Foi novidade. (risos). Vixe, era uma coisa... Todo mundo ficava na rua olhando (risos). Eram aquelas luzes que você precisava ir ao poste para acender ainda a rua inteira.

 

P/1 – E era uma festa?

 

R – Ixi, era uma festa! E quando chegou a televisão também foi uma festa. Só os bares tinham. Nas casas, ninguém tinha (risos)

 

P/2 – Você lembra quando viu TV pela primeira vez?

 

R – Lembro. Acho que foi na Copa. Acho que sim... Teve um jogo importante, não sei se foi um amistoso ou Copa... Estava na janela olhando por fora do bar. Era moleque e eles não deixavam entrar muito naquele tempo. Os pais eram muito rigorosos. 

 

P/1 – E o que o senhor fazia na cidade? Começou a trabalhar? Como foi...

 

R – Não, não trabalhava na cidade, não, porque era menor. Como meu pai ia para o sítio todo dia a cavalo, nós ficávamos na escola. Entrava cedo e saía meio dia da escola. Aí, talvez à tarde, nós fossemos ao sítio. Mas eu já não trabalhava tanto no sítio. Quando completei os dezessete anos, tirei a primeira carteira profissional. O irmão mais velho já trabalhava em uma usina de sucro-álcool, em Alto Alegre. Quando eu fiz dezessete, ele falou: “Vou arrumar um serviço pra você lá”. Entrei na usina e fiquei uma safra, um ano. Eu falei: “Ah, não gostei muito”. (risos)

 

P/1 – O que o senhor fazia na usina?  

 

R – Ah, eu trabalhava na parte onde temperava a garapa. Era dosador, como se chamava naquela época. Você colocava a cal e o enxofre para dar o tempero à garapa, para que ela possa ir aos outros setores, para o filtro, para o vácuo. Então, eu temperava a garapa. O açúcar é branco porque vai o enxofre. Se não for o enxofre, ele fica escuro. Eu trabalhava no setor da usina que tinha o químico.

 

P/1 – Mas o senhor não gostava muito dessa coisa de química?

 

R – Ah, não gostei, mas não pelo químico. Não gostei por causa do lugar, do serviço. Era muito barulhento, muito sujo, cheiro muito forte. Meu irmão falou: “Não, fica aí sim, né, que agora você não vai...”. Porque acabou a safra, a usina manda todo mundo embora. Ficam bem poucos. Só os da manutenção. Mas ele falou: “Vou arrumar um serviço pra você”. Eu falei: “Não, não vou ficar aqui, não. Vou embora, chega!”. (risos)

 

P/2 – Mas como era o seu trabalho? Chegava a cana...

 

R – Os caminhões traziam a cana e a moíam. A garapa vinha, depois, para o nosso setor. No nosso setor é que faziam as misturas. Lá tudo passa por setor. A garapa, no processo, até chegar nas turbinas, para sair açúcar. 

 

P/2 – E você misturava a garapa com o quê?

 

R – Nós misturávamos a cal e o enxofre na garapa, para dar o ponto nela.

 

P/2 – E ali ficava branco?

 

R – Ali, não. Sai branca, depois, lá na frente. Se você não coloca enxofre, sai açúcar mascavo, que o Japão compra. É o açúcar puro, não tem química. Então, fica branco só porque põe enxofre. E é só a fumaça dele, só o...

 

P/1 – É o refino mesmo.

 

R – Sim. Põe ele para branquear. Então, trabalhei um ano só e falei: “Não, não gostei, não quero, não”. Meu irmão trabalhou mais de trinta anos na usina. Trabalhou muito tempo. Quando estava na usina, tinha um amigo, que trabalhava em um posto de gasolina, na beira da estrada, na Rodovia Marechal Rondon [SP-300, cujo traçado segue na direção oeste do estado de São Paulo até a divisa com o Mato Grosso do Sul]. Saí da usina em 1967 e, em 1968, fui para o posto. Fiquei dois anos no posto de gasolina. Era posto e restaurante.

 

P/1 – E o senhor trabalhava no quê?

 

R – Eu ficava à noite, tomava conta do posto. Os donos trabalhavam, ficavam até umas nove, dez horas e falavam assim: “Agora você olha aí pra mim”. No outro dia, eles voltavam.

 

P/1 – E ali o senhor encontrava um monte de motoristas?

 

R – Nossa, tudo o que você pensava, passava ali. Gente boa, gente ruim, de tudo quanto era jeito passava ali, porque era um entroncamento. Passava quem vinha de [São José] do Rio Preto [SP] para [Presidente] Prudente [SP] e quem vinha de Bauru [SP] para Três Lagoas [MS].

 

P/1 – E que produtos mais rodavam, mais passavam por ali?

 

R – Produtos? Ah, de tudo... Rodovia, então, passa tudo o que você pensar. Passa coisas que vem do Mato Grosso, do Paraná, de Presidente Prudente. Ali era um entroncamento. Só que o posto era de combustível e refeição. Era pouso. Todos os caminhoneiros passavam e pousavam ali.

 

P/1 – Há alguma história dessa época, do posto, que o senhor se lembra?

 

R – Ai, tem tantas. (risos)

 

P/1 – Escolhe uma que tenha sido marcante, diferente para o senhor.

 

R – Falando em medo... Naquela época, em 1968, havia uma quadrilha de bandidos em São José do Rio Preto. Eles assaltavam posto, roubavam tudo quanto é coisa para levar ao Mato Grosso. Eles passavam de madrugada. Às vezes, eu falava assim para o colega: “Ah, eu vou dar um cochilinho, qualquer coisa você me chama”. Uma noite, eles vieram e perguntaram se tinha uma bateria para emprestar, se tinha dinheiro para trocar um cheque. Eu falei: “Ih, rapaz, o patrão saiu daqui agora. Não tem dinheiro nenhum no caixa. Se vocês quiserem comer alguma coisa aí né, não tem problema, depois vocês pagam”. “Não, comer agora, não. Nós queríamos trocar o cheque.” Acho que eles queriam ver se eu abria o caixa, se tinha dinheiro, mas eu nem... Dois dias depois, pegaram eles e aí saiu a foto estampada no jornal. Eram os caras que conversaram comigo (risos). Falei: “Nossa, rapaz, que fria que eu tava entrando”. (risos) Essa história marcou, não esqueço até hoje. 

 

P/1 – O dono do posto te agradeceu, não? (risos)

 

R – (risos) Agradeceu. E ele tinha dinheiro, porque entrava muito dinheiro. E acho que ele desconfiou. Falei: “Ih, rapaz, o patrão saiu daqui agora, rapaz. Levou todo o dinheiro”. Mas falei sem malícia, sem nada (risos). E acho que ele acreditou.

 

P/2 – O senhor morava sozinho?

 

R – Morava sozinho.

 

P/2 – Depois que a sua mãe faleceu, seu pai não casou mais?

 

R – Não, não casou mais. O posto era longe de Alto Alegre, ficava uns trinta quilômetros. Como no posto tinha quarto, tinha tudo, eu ficava lá sozinho. Depois dos dezessete anos, eu fiquei sozinho e me virei, sabe? Não dependia mais de ninguém. Meu pai até podia ajudar, tudo, mas eu toquei o barco... 

 

P/1 – E o que o senhor fazia para se divertir, quando não estava trabalhando no posto à noite?

 

R – No posto, eu trabalhava à noite. E o dono falava assim: “Ó, Tomé, você, vou precisar ficar com você até mais tarde. Você pega a perua e vai até a cidade…”. No caso, Penápolis [SP], a uns dez quilômetros. “...Você vai lá, assiste um cineminha, né, depois dá uma volta por lá.” Aquele tempo era praça, mais no interior. Então, as mulheres rodam para um lado e os homens para o outro (risos). Eu ficava, ia ao cinema, ficava lá até quando dava meia-noite, uma hora e ia embora. E ele, ele era muito... Porque quando eu entrei, a turma se aproveitava e passava muito a mão nele no posto. Não havia empregados honestos. Então, eu cheguei e comigo era tudo em cima, a coisa mudou. Então, o que eu pedia para ele, ele fazia. O meu divertimento era esse. Ia para a cidade e passava no cinema. Naquele tempo, o cinema era o forte...

 

P/2 – Que filmes você assistia, o que você mais gostava?

 

R – Ah, eu gostava muito de bangue-bangue (risos)

 

P/2 – Lembra de algum?

 

R – Ah, filmes do John Wayne, do Steve McQueen. Tinha outro, um italiano, eu esqueço o nome... Eu gostava de bangue-bangue, não perdia um, gostava de todos. (risos)

 

P/1 – E na pracinha, como eram essas voltas (risos)?

 

R – Era bom para paquerar. Ixi, para paquerar era uma delícia... (risos)

 

P/1 – As meninas de Alto Alegre?

 

R – Era Penápolis. O posto ficava em Penápolis.

 

P/1 – E Penápolis era maior?

 

R – Era maior, já tinha uns trinta, quarenta mil habitantes, por aí. 

 

P/1 – O senhor namorava bastante essa época?

 

R – Ah, namorava, eu era bem namorador (risos). Enrolei muito, casei até velho. (risos)

 

P/1 – Mas não foi nessa época que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Não, não. Mas já a conhecia, porque ela foi criada quase junto comigo (risos). Só que demorou, foi um tempo depois... (risos)

 

P/1 – Vamos chegar lá (risos). E quanto tempo o senhor ficou no posto? 

 

R – Eu fiquei dois anos. Havia os caminhões que faziam a rota de Bauru a Três Lagoas, na barragem, na obra que estava acontecendo. Os caras dos caminhões que faziam a firma, falaram: “Ó, Tomé, vai abrir uma filial da White lá em Ilha Solteira [SP]. Você não quer que eu traga uma ficha pra você preencher, aí eu levo pro gerente, ele olha, daí vai precisar de empregado”. Naquele tempo, não falava currículo, falava-se ficha. “Traz, sim, que eu preencho” (risos). Ele me trouxe uma ficha, eu a preenchi e, na outra semana, ele falou assim: “Ó, o gerente mandou você ir lá em Araçatuba [SP]”. A filial é em Araçatuba, e ia abrir a usina, a fábrica em Ilha [Solteira]. São duzentos quilômetros de Araçatuba a Ilha Solteira, mais ou menos. O gerente me chamou e falou assim: “Semana que vem dá pra você vir e já começar a trabalhar?”. “Nossa, moço, mas eu tô trabalhando… (risos) Não, não posso, não. Me dá mais um tempo?” “Eu te dou mais quinze dias, então. Seu serviço tá garantido.” “Poxa, vou sim, né?”. Lá teria um melhor ordenado do que eu ganhava. Eu falei: “Epa, vou sim!”. (risos) Cheguei e falei para o patrão: “Vou sair”. “Por quê?” “Ah, arrumei um serviço, ganhando um pouquinho mais.” “Não, se for pra ganhar mais, eu te pago.” “Bom, vou ganhar tanto.” (risos) “Ah, não. Aí também não…” (risos) Eu entrei em acordo com ele, que falou: “Ó, mas se você não gostar lá, você volta que as portas estão abertas”. Eu saí, acertei com ele, fui a Araçatuba, levei a carteira, eles preencheram, deixaram tudo prontinho, e falaram assim: “Você vai pra Bauru, fica lá um mês, pra você dar um treinamento, aí depois você desce pra Ilha”.

 

P/1 – E aí você se mudou para Araçatuba?

 

R – Não. Fui direto para Ilha Solteira. Fiquei uns dias em Bauru para o treinamento da White. A White tinha, naquela época, acho que umas trezentas filiais. Em tudo quanto é cidade tinha. E cidade de grande porte grande. De Bauru, fui para Ilha Solteira.

 

P/1 – E como foi o treinamento lá em Bauru? 

 

R – Foi para aprender a encher cilindro, aprender todas as normas de segurança, porque a White é muita rígida em segurança.

 

P/1 – O senhor já tinha alguma ideia de gases?

 

R – Não, nada. Nem sabia o que era. Não tinha noção nenhuma, nenhuma.

 

P/1 – E como foi receber essas informações?

 

R – Ah, de um lado foi aquele baque (risos). Aquela diferença... Ainda no começo, eu falei: “Nossa, onde que eu vim?”. (risos) Porque no começo de uma obra tudo é difícil. Tudo está sendo construindo. Quando a obra foi iniciada em Ilha Solteira, tudo era mato. Derrubou tudo, fez estrada, fez a cidade inteirinha. Então, é difícil para você se acostumar. É uma vida totalmente diferente, é duro.

 

P/1 – E em Bauru, quem fazia treinamento era só para a planta de Ilha Solteira?

 

R – Não, íamos para conhecer cilindro, entender como enchia os cilindros, conhecer as normas da White. Você tinha uma noção de como era. E estavam montando Ilha Solteira, mas não estava funcionando ainda.

 

P/1 – Mas muita gente fazia treinamento?

 

R – Não, só eu fui. Havia o encarregado e os caras que trabalhavam no enchimento. Eles explicavam como é que engatava, como enchia e tudo... Eles faziam e davam um treinamento. 

 

P/1 – E a planta de Bauru era grande?

 

R – Não, era pequena também. Naquele tempo, as usinas no interior eram todas pequenas.

 

P/1 – Eles estavam fazendo a de Ilha Solteira maior? Como era?

 

R – É que Ilha Solteira era uma obra, uma barragem da CESP [Companhia Energética de São Paulo]. Era uma das maiores barragens, na época, em construção no Brasil. A Cesp exigiu da White Martins que montasse uma planta de oxigênio e uma usina de acetileno.

 

P/1 – O que é a CESP?

 

R – A CESP, que era a dona da barragem, é a Centrais Elétricas de São Paulo [antigo nome da CESP]. O governo era dono dela. É muito grande. Para você ter uma ideia, trabalhando na obra, só na CESP, havia doze mil homens trabalhando. Na barragem. Na White, nós éramos uns vinte funcionários.

 

P/1 – E vocês acompanharam toda a construção da barragem? 

 

R – Toda. A barragem é no rio e Ilha Solteira fica a uns três, quatro quilômetros para cima da barragem, do barranco do rio. Era pertinho. Todo dia estava lá, escutava tudo. Desde quando eles começaram a desviar o rio, explodir o meio do rio, para levantar o concreto, a barragem.

 

P/1 – E a White fornecia os gases?

 

R – Nós ficamos lá doze anos fornecendo gás. Primeiro, ela levou uma planta de oxigênio líquido para uma planta bem pequenininha em 1969. Então, produzia o oxigênio para a barragem. Trabalhava dia e noite, não parava, nem domingo, nem feriado, nem nada, direto. Depois, montaram uma planta de acetileno e eu fui para o enchimento, daí quando veio a planta de acetileno, fui transferido. 

 

P/1 – Também fazendo enchimento.

 

R – Enchimento... Então, fiquei oito anos no enchimento.

 

P/1 – Conta um pouco como era o dia a dia. Você acordava muito cedo para trabalhar?

 

R – Era escala. Tinha os horários das seis às duas e das duas às dez. Uma semana era em um horário, a outra semana em outro.

 

P/1 – E vocês moravam em alojamento em Ilha Solteira? 

 

R – Sim, no começo era no alojamento. Comia no “bandeijão” da CESP, onde comia aquele povão todo... Depois, vai melhorando, vai mudando e conseguimos casa.  Para você ter uma ideia, no começo, a CESP fez casas para aquela cidade inteira. Acho que havia quase quinze, vinte mil pessoas morando na cidade. Ela fez cinema, fez hospital, escola, fez tudo. 

 

P/1 – E vocês usufruíam como?

 

R – Nós trabalhávamos para a CESP, para fabricar, produzir e vender para a obra.

 

P/1 – Como era a relação com os funcionários da CESP?

 

R – Era boa, mas era muito rígido, na época. Era aquela época de militar, então, a coisa ali era... Não entrava bebida alcoólica na cidade, o exército tomava conta. Se pegasse briga na rua, aprontando qualquer coisa na rua você era mandado embora, não havia essa história, não.

 

P/1 – E os militares ficavam circulando? 

 

R – Lá chamavam de inspetoria, a sede do exército. Em Três Lagoas, era quartel. Então vinham aqueles tenentes reformados, eles tomavam conta... A ordem era severa. Para você ter uma ideia, para entrar na cidade, você precisava ter um selo no carro, senão não entrava. Para tudo você precisava ter autorização. Se não, você não... Era lei militar mesmo. (risos) 

 

P/1 – E a White Martins precisava prestar esclarecimento, satisfação à polícia?

 

R – Você entrava ali e já tinha um mandamento. (risos) Eles falavam: “É assim, assim, assim, assim, a norma. Ou você cumpre ou você está na rua”. (risos)

 

P/1 – O senhor se recorda de ter acontecido alguma confusão entre os funcionários, alguma coisa que tenha te marcado nesse período?

 

R – Eu lembro uma confusão que aconteceu na fila no horário do almoço. Um tomou o lugar do outro...  Vixe, veio o guarda, tombaram Perua... Sei que virou um tumulto danado na hora do almoço.

 

P/1 – Tinha sindicato?

 

R – Não, não havia sindicato algum. Eu sei que ajustava e mandava gente embora todo dia. Você chegava e o emprego era garantido. Tinha vaga para tudo. Mas isso acontecia mais no trabalho bruto, na obra da barragem... Lá tinha banco, tinha tudo.

 

P/1 – E o senhor ficou lá por doze anos?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Viu a barragem inteirinha, assim?

 

R – Nós vimos só o grosso, só o concreto e a terraplanagem, porque o resto demorou um bom tempo ainda. Para você ter uma ideia, a barragem tem seis quilômetros só de comprimento.

 

P/1 – E a White Martins continuou?

 

R – Não, ela fechou depois de doze anos. Nós estávamos tão acostumados com o lugar, era gostoso e aí veio a triste notícia: “A filial vai fechar”. (risos) 

 

P/1 – E na época, não falavam o porquê?

 

R – Não, não comentavam nada. Até que falaram: “Vai fechar Ilha Solteira e Ribeirão Preto e vai abrir Sertãozinho”. O gerente chamou os funcionários e falou: “A gente não vai aproveitar todo mundo, né, mas os operadores de acetileno da planta, né, vocês, nós vamos aproveitar, vamos mandar vocês pra Sertãozinho, vocês vão ser transferidos”.

 

P/1 – Aí o senhor se mudou de novo?

 

R – Em 1981... Também foi outra mudança dura de acostumar…

 

P/2 – O senhor ficou de 1969 a 1981 e você lembra o que os trabalhadores da CESP reclamavam de lá? Por que saíam tantos, por que tinha esse rodízio? Você tinha bastante contato com eles?

 

R – Ah, não sabia nada. Havia gente de todo tipo nessa turma da CESP. Sei lá, não dava certo, briga, discutia, brigava, ia embora... Porque vida de obra é difícil. Você não viu agora há pouco tempo a reportagem lá do Belo Monte? A bagunça que foi lá, o quebra-quebra? É difícil, é duro, trabalhar com muita gente é duro, é difícil agradar todo mundo... (risos)

 

P/2 – Mas você chegou a ter casa. Saíram do alojamento e foi para uma casa, ou não?

 

R – A CESP não dava casa para solteiro. A preferência era para casado. Solteiro tinha de ficar no alojamento mesmo. E lá era tudo classificado, desde os trabalhadores braçais até o encarregado, o engenheiro, o supervisor, tudo. Era tudo separado por nível.

 

P/2 – Separado?

 

R – Tudo separado. Até o clube era separado. Você não entrava no clube dos engenheiros. (risos) Lá era fogo, era ditadura, era muito rigoroso. 

 

P/2 – E vocês, mesmo estando na White, tinham que…

 

R – Nós tínhamos um crachá, mas só se eles dessem um crachá para o nível que você subiria, mas se você não era encarregado, eles não davam. Até para comer, era tudo separado. Se você fosse trabalhador braçal, era aquela bandeja que tem aquela correia, um atrás do outro. Se você já era encarregado, aí já era em uma mesa e se era engenheiro já era outro tipo, mas tudo separado. Casa também, tudo era separado. Existiam cinco tipos de casa, tudo separado. Eles fizeram a cidade e depois que a obra acabasse era para desmanchar, derrubar tudo. Mas depois, entrou gente na cidadezinha, vereador, e prefeito: “Não, não, não pode”. Não deixaram acabar a cidade. O governo mandou uma faculdade para lá, a UNESP [Universidade Estadual de São Paulo] e, hoje, tem quase cinquenta mil habitantes. Tem um movimento que é fora de série. A ideia era como em Três Lagoas, na Usina de Jupiá. Acabou a barragem, eles derrubaram tudo. Em Ilha Solteira também, iam acabar e derrubar. Dava dó... É uma cidade em que a fiação é toda subterrânea, é uma coisa linda. Tudo bem ajardinado e aí falaram: “Ah, vai acabar com isso?”. Foram em cima do governador e não deixaram. O governador decidiu mandar uma universidade para lá, pelo menos, para dar uma força. Agora não tem a obra, é manutenção e operação, então não vai muita gente. 

 

P/1 – E agora quase não há indústrias por ali?

 

R – Não. Indústria mesmo não existe.

 

P/1 – A White foi para Sertãozinho. O senhor sabe para onde foram as outras empresas?

 

R – Ah, mas não tinham outras firmas. Acho que as firmas mesmo eram todas de fora. Tudo vinha de fora. Havia uma firma de blocos muito grande, que fez a cidade. Acabou a cidade, a firma fechou também.

 

P/1 – E depois o senhor foi para Sertãozinho?

 

R – Em 1981, fui para Sertãozinho, onde também estava fazendo o prédio, fazendo as montagens. Em Sertãozinho já não ia ser usina de oxigênio, ia ser de enchimento pronto, tanques térmicos. Pegava o líquido em Paulínia [SP] e em Piracicaba [SP] e levavam para encher lá. Mas iam montar uma usina de acetileno grande em Sertãozinho. Acho que era o dobro da Ilha Solteira.

 

P/1 – E o senhor acompanhou a construção dessa usina de acetileno?

 

R – Também. Levamos lá na montagem. Foram todos os mecânicos de São Paulo para lá, montaram toda a usina e nós ficamos operando.

 

P/1 – E o senhor pegou um pouco, em Sertãozinho, a parte de enchimento?  

 

R – Lá eu peguei a parte do enchimento do oxigênio. Depois, fui para o acetileno.

 

P/1 – Conta um pouco desse crescimento da unidade de Sertãozinho.

 

R – Olha, cresceu e a coisa mudou muito. Vixe, a White melhorou cem por cento... (risos) Tanto em segurança, como na usina mesmo. Em sete, oito anos, a usina automatizou tudo. Sei que houve um avanço muito grande em Sertãozinho.

 

P/1 – E quando começou a produção de acetileno?

 

R – Em Sertãozinho? Começou em 1981. 

 

P/1 – Ah, começaram juntos?

 

R – Já, a fábrica foi montada, funcionou tudo. Nós que viemos da Ilha Solteira fomos para o acetileno, para fazer a fábrica funcionar. E a turma de Ribeirão foi para a parte do enchimento da usina. Hoje, em Sertãozinho, enche-se o oxigênio, o argônio, o hidrogênio, o CO2 [gás carbônico]. Já na Ilha Solteira, não, era só oxigênio e o acetileno... 

 

P/1 – Conta um pouco as tuas funções com o acetileno. Como era?

 

R – No acetileno, só tem duas funções. Você trabalha ou no enchimento ou na operação. Eu comecei no enchimento e depois fui para a operação. Estou até hoje na operação.

 

P/1 – Mas o que o senhor faz?

 

R – Eu trabalho na produção. É um gerador grande no qual você põe carbureto, abastece, e tem todo o processo até chegar no engarrafamento. Passa pela filtragem, o enchimento de cilindro, pesagem. Só que hoje é tudo automatizado, tudo feito por computador.  

P/1 – E o senhor vai acompanhando?

R – O computador controla tudo, qualquer problema, qualquer defeito, toca o alarme. Você vai lá, vê o que é, e ele fala o que aconteceu, se é defeito... Hoje, ficou uma maravilha... Antes, você tinha de descobrir o que era, hoje, não. (risos)

 

P/1 – Mas, na década de 1980, como era esse treinamento? O senhor voltou a ter o treinamento em Bauru? Em Sertãozinho teve novos treinamentos?

 

R – Não, não teve porque já sabíamos trabalhar. Fomos transferidos para chegar e rodar a usina, pôr a planta para trabalhar.

 

P/2 – O senhor falou que hoje é tudo automatizado. Como somos meio leigos no assunto, Tomé, queria que você dissesse, então, como era antes, quais eram os problemas que você precisava resolver e, hoje, como é que resolve? Você pegou essa mudança, essa transição?

 

R – Antes era tudo manual. Para fechar uma válvula, tinha de ser na mão, ver uma temperatura, uma entrada d’água, você precisava ligar a bomba, então, tudo era manual. Hoje, você dá um clique, ligou a fábrica e já funciona tudo. Vamos supor, faltou água, aquela válvula já dá o alarme de que não tem água... Além disso, no próprio computador, já avisa, toca um alarme de que está dando problema em tal lugar. Melhoramos muito!

 

P/2 – Quando foi isso?

 

R – Já faz sete para oito anos. Em Iguatama [MG], a White tem uma fábrica muito grande de carbureto que vinham em tambor. Então, era duro para você mexer com ele. Era preciso amarrá-lo, levantar nas talhas, então era uma mão de obra pesada. Hoje, já não, hoje vem tudo em bags, aqueles sacolões, tudo mais prático para abastecer. Você precisa abastecer de carbureto de hora em hora. A cada hora precisa pôr quinhentos quilos de carbureto na planta. O carbureto é uma pedra que vem de Iguatama, de uma fundição. Eles fundem a matéria-prima e trazem para Sertãozinho. 

 

P/1 – Em que ela se transforma?

 

R – Sim, nós a pegamos, colocamos no gerador grande, misturamos na água, pegamos o gás e sai o material, a cal.

 

P/1 – Tomé, o senhor lembra, logo no começo da unidade de Sertãozinho, quais foram os primeiros projetos, quem vocês atendiam?

 

R – O atendimento de Sertãozinho é mais para as usinas do sucro-álcool, que são as que mais consomem. Produzem açúcar e álcool por seis meses e, depois, ficam seis meses paradas. Até a cana crescer, vir o corte de novo, elas desmancham, põem tudo no chão e reformam tudo. É quando eles usam o acetileno e oxigênio à revelia.

 

P/1 – O acetileno serve para quê, nesse caso?

 

R – É para solda, para corte. O acetileno pega o fogo e o oxigênio cria e aumenta a pressão.

 

P/1 – Ah, para limpar mesmo o terreno?

 

R – Não, para cortar ferro, ferragem... Fazer manutenção, cortar chapa, cortar tudo. Eles gastam muita caloria em chapa. Então, é muito usado em usinas. Vão desmanchar, por exemplo, bastante ferragem, tubulação, então eles cortam tudo com o acetileno e o oxigênio. Você nunca viu maçarico em que sai aquele fogo? Então, você o usa, põe no ferro, corta tudo. É muito usado. É o que mais gasta... Agora, nas usinas está acabando a safra, então, de dezembro, janeiro até março, abril, gasta muito. Agora, por exemplo, estamos atendendo... Está saindo acetileno aqui de Sertãozinho e está indo para Porto Velho [RO], para a barragem de Belo Monte. A cada dez, quinze dias, sai uma carreta de cilindro.

 

P/1 – E aí vocês aumentaram a produção?

 

R – Aumentamos. Para você ter uma ideia, em Ilha Solteira fazíamos oito, dez toneladas. Em Sertãozinho, fazemos mais de cem toneladas de gás por mês.

 

P/1 – É uma das plantas que mais produzem?

 

R – Não, a que mais produz é a unidade de Diadema [SP]. Produz, acho que cento e setenta, cento e oitenta toneladas. Nós fazemos cem, cento e dez toneladas. Na parada das usinas fazemos mais, depois, cai um pouco. Agora, talvez, vá aumentar mais, por causa das obras da barragem para Porto Velho [RO]. 

 

P/1 – E para o interior, então, Sertãozinho é a que mais fornece?

 

R – No caso do acetileno pega uma região de uns cem quilômetros para lá de Campinas [SP] e vai até Uberlândia, em Minas Gerais... Nós abastecemos até Goiânia [GO], Cuiabá [MT] e, agora, até Porto Velho. Aí vem subindo para o fundo para [Presidente] Prudente até Bauru, pegando essa região todinha. O acetileno está centralizado todo em Sertãozinho. Só o acetileno. Agora, para o resto das outras coisas, há mais filiais por aí.

 

P/1 – E, em todo esse tempo que o senhor esteve em Sertãozinho, viu essa demanda aumentar?

 

R – Aumenta, todo ano dá uma espichadinha. (risos)

 

P/1 – Apesar de o senhor estar na operação, como foi perceber o aumento do número de clientes?

 

R – Anima, né. Quanto mais você vende, mais anima, mais você gosta. Tem gente que já não gosta... (risos) Eu acho que quanto mais serviço tem, mais gostoso é, você sente que está mais garantido no serviço. Na empresa, quando você chega na plataforma, no pátio, no depósito de cilindros e não vê nenhum cheio, fala: “A coisa tá boa!”. (risos) É bom sinal, está vendendo. Agora, quando você vê que está tudo no estoque, cheio, fala: “Ih!” (risos)

 

P/1 – E na época de crise, no final dos anos 1980? Vocês viram muito produto em estoque?

 

R – Ah, deu uma caidinha, sim. Mas nos produtos que a White vende não tem muita crise. Porque no mercado, são eles e mais umas duas empresas, então, sempre tem quem... Vamos supor, um hospital tem que gastar em oxigênio. Firma mesmo, se não gastar, também para... Às vezes, dá uma caída, mas sempre está equilibrado. 

 

P/1 – Mas vocês não diminuíram a produção? Como ficou a produção nesse tempo? 

 

R – Não. Diminuíram os funcionários, mas a produção continua. Às vezes, eram três turnos de produção, então, passou para dois. Mas é difícil a White mandar embora, porque ela segura. Ela fala assim: “Vou mandar agora pra ter que pegar de novo? Dá outra reagida, e aí?”. É um aperto para nós por seis meses, porque as usinas param. Aí tem que correr para três turnos. É preciso ajustar? Na década de 1980, fecharam muitas usinas... Foi o que você falou da crise. Fecharam muitas filiais de acetileno, mas, as que ficaram abertas cresceram, dobraram a produção. Porque as pequenininhas fecharam, mas ficaram as grandes... Em Sertãozinho, havia dois compressores que enchiam. Dobrou para quatro, então, supriu a outra que fechou lá na frente. 

 

P/1 – E aí ficaram quais?

 

R – No estado de São Paulo tem Sertãozinho e Diadema. Acho que tem uma em Manaus e na Bahia. Mas na década de 1980, fecharam oito fábricas, mas pequenininhas. Bauru fechou, Uberlândia, Campinas, Londrina, Cuiabá também... Ah, há uma em Belo Horizonte e outra em Contagem, que havia fechado, mas voltou a abrir.

 

P/1 – E fechava na produção do acetileno ou também fechou no oxigênio?

 

R – Não, só o acetileno. É que na parte do acetileno também vieram, depois, muitas máquinas modernas, outros tipos de máquinas de cortar. O acetileno para produzir como o carbureto, precisa de muita matéria... A White precisa investir em reflorestamento, meio-ambiente, negócio de minério, então, torna-se caro. O acetileno é um dos gases mais caros para a White.

 

P/1 – Hoje, o acetileno é usado mais na parte de soldagem mesmo?

 

R – É. Mas é mais de corte, porque para solda, hoje, há muitas máquinas para soldar.

 

P/1 – E na época em que a Praxair comprou a White Martins, você sentiram alguma mudança? 

 

R – Ah, eu acho que para nós continuou a mesma coisa, a White não mudou. Desde quando entrei, acho que a White passou por um par de donos. (risos) Quando eu entrei, a White era da Union Carbide. Depois, acho que teve outro dono, em seguida, passou para a Praxair. Mas, para mim, eu não percebi diferenças. Mas houve muitas mudanças, não... 

 

P/1 – Mas na operação?

 

R – Na operação, não, continuou igual. Melhorou em segurança, em tudo foi aprimorando muito. 

 

P/1 – Na verdade, é sobre isso que eu queria perguntar. Como é a questão de segurança na operação?

 

R – É cem por cento. A segurança está em tudo. Assim, se você souber fazer uma coisa, você para e não faz. A ordem é essa. Mesmo o gerente vindo: “Não, tem que fazer!”. Você não faz e acabou. É só falar assim: “Ó, eu não fiz porque eu não sabia, eu não estava seguro”. Você tem mais força que o... (risos) Você não faz. É tudo muito seguro, todos os serviços que você fizer, parte elétrica, parte mecânica, é preciso travar com cadeado. É uma segurança. Aconteceram uns casos, na Bahia, uns caras que morreram em um gerador de acetileno. Foi aí que a segurança dobrou mesmo.

 

P/1 – O gerador de acetileno trabalha em uma temperatura muito alta? 

 

R – Não, não é pela temperatura. É porque é inflamável, pega fogo muito fácil. Então, se você mexer nele, na manutenção, precisa inertizar, passar bastante nitrogênio, medir se ainda tem gás. Tem o encarregado que vem fazer toda a medição, para liberar que você trabalhe, faça a manutenção. Não pode fumar, não pode ter cigarro lá dentro, você não pode. Uma faísca é muito... (risos)

 

P/1 – Dá para comparar, o começo em Sertãozinho com o que é hoje na questão de segurança?

 

R – A segurança, a cada mês, ano melhora cada vez mais. Cada vez eles batem mais em cima. Eles vão mudando, vão melhorando. Não admitem erros, nem acidentes.

 

P/2 – Você pode contar um exemplo do que fazia antes e hoje não faz mais?

 

R – Antes, quando eu entrei na White, para fazer a manutenção desse gerador, jogava fora tudo o que havia dentro e entrava nele. Hoje, é preciso medir para saber se tem gás dentro, um cadeado fecha a porta e é o gerente que abre o cadeado para você entrar, autorizar. Ele, o encarregado, acompanha a medição, para ver se está zerado mesmo. Se não, você não entra. Se você entra, dentro, outro fica tomando conta... Você tem de estar com o EPI [equipamento de proteção individual] completo. A segurança é fora de série. Só se tiver que acontecer alguma coisa... É muito, muito seguro, eu acho que a White investiu muito nisso. E outra, ela dá tudo o que você pensar. Os EPI’s  não faltam, você tem todos. 

 

P/1 – O que é EPI?

 

R – É como se... Você tem o capacete, a máscara, o protetor auditivo, o botinão... Nós usamos umas roupas Nomex, cujo tecido é igual ao dos macacões da Fórmula 1, são antichamas. Se você vai trocar um cilindro, pôr carbureto, para abastecer tem o capuz, o visor, tem tudo.

 

P/1 – Tinha essa preocupação antes? 

 

R – Antes não tinha esse negócio, em Ilha [Solteira] não havia nada disso. (risos). Então, a coisa vai evoluindo, vai mudando.

 

P/1 – E vocês têm de usar esse equipamento todo dia? Independente se vai ter…

 

R – Todos os dias. Você entrou na fábrica, tem de usar óculos, máscara…

 

P/1 – O macacão?

 

R – Antes era macacão, agora é calça, camisa, botinão. Se o cara, hoje, for mexer com outro tipo de gás, usa outro tipo de máscara. Para entrar, você tem treinamento em espaço confinado. Antigamente, você entrava sem nada, hoje, você tem de fazer exame, precisa estar com tudo em dia, senão você não participa.

 

P/1 – E sobre o cuidado com a saúde, você falou dos exames. Há alguma assistência?

 

R – Sim, todo ano você faz o exame completo. Pede pulmão, coração, auditivo, nossa... É uma bateria de exame. Todos os anos.

 

P/2 – Já deu alguma alteração?

 

R – Eu nunca. Para você ter uma ideia, do tempo que eu estou na White, nunca peguei um atestado. (risos) Nunca perdi um dia de serviço por causa de atestado. Já tive uma gripinha, uma coisa ou outra, mas nunca me afastei. E nunca sofri acidente também. Muitos colegas nossos sofreram acidentes. Nada sério, mas de machucar. Sempre tem colega que machucou o dedo em uma prensa, com uma pancada... Eu nem isso, graças a Deus.

 

P/1 – Teve alguma coisa que o senhor viu e te deixou assustado?

 

R – Na Ilha Solteira, não tinha tanta coisa, mas acontecia mais. Então, pegou fogo na boca do gerador, mas isso há trinta, trinta e cinco anos... Naquela época, não havia nada disso... Hoje, a White Martins investe muito em segurança. Muito, muito.

 

P/1 – E vocês têm treinamento para…

 

R – Temos treinamento direto. Você treina e ainda assina um documento dizendo que você fez o treinamento. Fomos semana passada a Campinas, fazer um treinamento de espaço confinado na White. Fazemos treinamento com bombeiro, para conhecer o extintor, mexer com a mangueira, temos brigada. É tudo tranquilo, por isso que em segurança do trabalho é dez. (risos)

 

P/1 – O treinamento é de quanto em quanto tempo?

 

R – Todo ano fazemos treinamento aqui em Campinas. De espaço confinado e, na filial, fazemos treinamento para mexer com hidrante. Temos motobomba, hidrante. Então, se pega fogo à noite, e não tiver ninguém, tudo é acionado automaticamente. Possuímos aqueles sprinklers, quando a temperatura esquenta, eles estouram, as bombas entram e já jogam água em tudo.

 

P/1 – Não tem mais turno de madrugada?

 

R – Não. Domingo, por exemplo, não tem ninguém. Assim, se não tiver ninguém, aciona automaticamente sozinho e está tudo interligado.

 

P/1 – E nesses quarenta e dois anos passaram muitas pessoas?

 

R – Nossa... (risos) Passou.

 

P/1 – O senhor lembra algumas coisas que o senhor ensinava quando chegava o pessoal mais novo?

 

R – Eles ficam curiosos, querem aprender como é que funciona a produção, o gerador. Sempre você está passando, ensinando um, ensinando o outro... O gerador e a planta são americanos, então, só a White tem. Você entra, não sabe nada, tem de aprender ali dentro. Você precisa aprender e não há outro jeito. 

 

P/1 – E o senhor explica?

 

R – Então, é preciso caso entre um novato. Lá são três turnos e três operadores. Somos eu e mais dois, cada um em um horário e um de reserva ainda para as férias. Então, aquele que entrar naquele horário, passa para os outros... A cada horário, são quatro funcionários, três no enchimento e um operador do gerador da planta. 

 

P/1 – Mas o senhor é o mais experiente dali.

 

R – Se tiver vontade... (risos) Aprende. Tendo vontade, você aprende logo. (risos) 

 

P – E como é o relacionamento? Porque são sempre três que ficam... 

 

R – A cada horário são quatro. À noite, o nosso chefe não fica. E o serviço, a máquina, a planta puxa. Você ligou, ela produz mesmo, precisa dar andamento, tem de pôr o cilindro, tirar, pesar. O cilindro, também, é tudo automatizado, você traz na balança, acetona, engata um chicote na válvula dele, vê a pressão, o residual e acetona sozinho. Deu o peso, você torna na balança para ver o peso que tem. Vai para o computador e, de lá, vai para o escritório. Tudo é automatizado.

 

P/1 – E esses dados passam pelo senhor?

 

R – Sim, controlamos e passamos para o escritório. O escritório faz a venda.

 

P/1 – Porque depois eles que vão fazer a distribuição?

 

R – É, esse é o dia a dia. 

 

P/1 – O senhor lembra algum desafio ou alguma coisa que tenha te marcado? De repente, o atendimento de uma demanda muito grande…

 

R – Não, demanda grande não tem, porque a planta produz X e pronto. Vou ter as capacidades. Os compressores produzem tanto por hora, então, não tem como falar assim: “Não, vamos fazer, hoje, o dobro”. Não tem jeito. Vamos supor, caso encha cem cilindros por dia, são cem cilindros. Não tem como: “Não, vamos encher hoje, duzentos, trezentos”.

 

P/1 – E acontece algum imprevisto nessa operação?

 

R – Ah, ocorrem imprevistos, às vezes, quando você está produzindo, fabricando, ocorre um problema, quebra um compressor, quebra alguma coisa, para e você tem de esperar os mecânicos da White arrumarem. Às vezes, os imprevistos acontecem, ocorrem esses problemas. Ou, então, às vezes quebra uma coisa que não tem como pedir aqui em São Paulo.

 

P/1 – E aí como faz para resolver?

 

R – Pegam e mandam para os caras em Diadema nos socorrer.  Enche logo o caminhão e manda buscar aqui. (risos)

 

P/1 – Qual foi o maior tempo que o senhor já teve de esperar?

 

R – Ah, isso é rápido. Leva, no máximo, um dia. No outro já está funcionando tudo. Hoje em dia precisa ter uma peça de reserva, uma solução.

 

P/1 – E o acetileno sai dali e vai para todo o Brasil, então?

 

R – Vai para o estado de São Paulo e, acho que para mais uns quatro estados. Nós atendemos aqui, Minas, Goiás, Mato Grosso e Porto Velho. E atende o Paraná também, um pedaço de Bauru para cima, de Ourinhos, até Londrina, pega tudo também. Na filial em Bauru, tem os caminhões que vendem, depois, a carreta recolhe, pega os cilindros vazios e traz de volta para Bauru, a Planta de Sertãozinho pega e leva de volta para Bauru. Em Goiânia, por exemplo, vende em Goiânia, recolhe e traz para Sertãozinho. Em Minas, em Uberlândia [MG] também, eles vendem tudo, pegam, trazem para Sertãozinho e volta. Em Porto Velho, a cada quinze dias, uma carreta também pega uns trezentos cilindros e aí leva para Sertãozinho. Enche e volta. Essa demora mais. Espera uns dois, três dias e volta.

 

P/1 – E o pessoal das carretas fica lá mesmo?

 

R – Eles ficam esperando a carga. Chegam, descarregam, deixam a carreta e ficam aguardando.

 

P/1 – Vocês têm contato com eles, ou não?

 

R – Temos. Eles ficam: “Quando vai sair?”. Ou: “Enche logo!” (risos) Mas não temos como... (risos) Produz X, não tem como fazer milagre. (risos)

 

P/1 – E o senhor completou trinta, quarenta anos de empresa?

 

R – É. A White tem umas premiações. Você faz vinte e cinco anos, ganha relógio de ouro e uma viagem. Nos trinta, você tem direito à viagem também e recebe, também, quatro, cinco salários. De cinco em cinco, você vai recebendo prêmio.

 

P/1 – O senhor já ganhou vários?

 

R – Eu ganhei aos vinte e cinco, de trinta, de trinta e cinco e quarenta de empresa (risos). Foram quatro…

 

P/1 – E como foi a festa dos quarenta?

 

R – De cinco em cinco anos, eles fazem festa para o funcionário, para as famílias. Os funcionários alugam uma chácara e saem. (risos)

 

P/1 – E a festa de quarenta foi boa?

 

R – Foi boa, Vixe... (risos). Eles dão uma placa dos quarenta anos…

 

P/1 – E aí foi toda a família?

 

R – Foi toda a família. É bom, é gostoso (risos)

 

P/1 – Conte-nos um pouquinho sobre a sua família.

 

R – Então, eu namorei muitas meninas lá na Ilha [Solteira], mas não deu certo. (risos) Eu vim para Sertãozinho, onde também não deu certo... Um dia voltei a Alto Alegre e encontrei uma menina. Começamos a namorar em 1981. Em 1986, eu casei em Sertãozinho. Casei meio tarde. Tinha trinta e cinco anos... (risos) 

 

P/1 – E ela?

 

R – Ela tinha vinte e seis, são nove anos de diferença. Não é muito. (risos)

 

P/1 – E ela foi com você para Sertãozinho?

 

R – Foi comigo para Sertãozinho. Temos três meninos, ela teve o primeiro e teve aquele negócio preeclâmpsia [hipertensão que ocorre na segunda metade da gestação]. O médico falou: “Ó, sossega, não tenham mais não, porque é perigoso”. Depois de mais uns anos, quatro, cinco anos, ela engravidou de novo de gêmeos. O médico falou: “Nossa!” (risos). Ela teve a gravidez também normal.

 

P/1 – E todos meninos?

 

R – Os três homens. Até tem um dos gêmeos, que está com quinze, ganhou a São Silvestrinha, aqui em São Paulo, no Ibirapuera. Ele é corredor. Um dos gêmeos, o Gabriel.

 

P/1 – E o senhor ia vê-lo correr, o senhor acompanhava?

 

R – Ia, ia a todas as corridas. Ele foi para Salvador também, ganhou em segundo lugar. Ele até ganhou uma bolsa do governo. (risos) 

 

P/1 – Ele ainda corre, ou não?

 

R – Corre... Você já ouviu falar na Maria Zeferina Baldaia? Ela é corredora e ganhou a São Silvestre, acho que em 1982 [foi vencedora da São Silvestre em 2001]. Eles são muito amigos e treinam juntos. Então, eles são os corredores da cidade. (risos) 

 

P/1 – E os seus filhos moram com você?

 

R – Moram. O mais velho trabalha, é torneiro e estuda. Vai para o terceiro ano de Engenharia. Um corre e o outro faz técnico em Automação. Forma-se agora, no fim do ano.

 

P/1 – Todos estão seguindo a carreira na indústria?

 

R – Sim, estão... (risos) Porque ali tem muitas indústrias, então, acho que é o mais fácil para trabalhar, para quem tem uma profissão e é qualificado em Sertãozinho. Não falta serviço. Mas precisa ter qualificação. É o que eu falo, tem de estudar. Hoje em dia, eu me arrependo tanto... Se eu tivesse estudado, era encarregado na White. Mas não tenho estudo e eles não pegam. Eles põem lá dentro, por exemplo, um engenheiro formado da rua, mas não pegam um que tem prática lá dentro, sem estudo. E é o certo mesmo. Eu acho que não está errado (risos). Acho que tem de estudar, hoje em dia, está tão fácil estudar. É só querer, não fica caro. No meu tempo, você tinha de trabalhar, precisava se virar. Meu pai mesmo, não me deixou estudar de jeito nenhum. Falou: “Não, o quarto ano tá bom demais pra você”. (risos) Depois que eu entrei na White, eu devia ter continuado, mas, também, por correria de escala, de serviço... Marquei bobeira. 

 

P/1 – E seus filhos estão estudando?

 

R – Sim, eles estão. (risos) E eu fico no pé deles. O mais velho gostava muito de bola, não queria estudar. Até jogou como profissional no Sertãozinho, era bom de bola. Mas ele viu que tinha muita sacanagem na bola, muito empresário e parece que ele desanimou um pouco. Eu falei: “Ah, você quer bola, então vai”. Ele fez SENAI [Serviço Nacional de Aprendizagem], fez tudo. Também entrou em uma firma trabalhando como torneiro e falou: “É, acho que eu vou ficar nisso aí mesmo”. (risos). Ele parou dois anos, voltou e já está no terceiro ano de Engenharia. Falei a ele: “Você tá vendo? Tem que estudar pra pegar uma coisa melhor” (risos). É uma realidade e, não tendo estudo, só sobra bucha... Hoje em dia, as firmas não estão pegando nem o Segundo Grau, já não está valendo nada. Porque as escolas de hoje em dia ficaram muito fraquinhas. Não é como antigamente, em que o estudo era mais forte. Hoje, se você não tiver um nível de estudo bem alto... Além disso, tem que dominar bem o computador, se não dominar, fica para trás. 

 

P/1 – Em Sertãozinho há muitas escolas? Tem o SENAI…

 

R – Tem. SENAI, escolas. E está encostado em Ribeirão Preto, que tem tudo. Existem todas as faculdades em Ribeirão e a prefeita ajuda, dá ônibus. Hoje em dia, vou falar, só não estuda quem não quer. Querendo, você estuda, sim.

 

P/1 – E as indústrias de Sertãozinho?

 

R – As indústrias ajudam, pagam, até formam o funcionário. Porque não tem funcionário. Tem pouquinho, por isso eles estão correndo atrás.

 

P/1 – A White Martins ajuda? Oferece essa opção?

 

R – A White paga... Acho que dez por cento, não sei, parece que ajuda. Tem um colega que trabalha junto comigo, formou-se engenheiro. A White deu um desconto, sim, não é muito. O que a White dá muito são os convênios. Nisso a White é muito boa e para quem quer estudar, dá ajuda, sim. A maioria das firmas, hoje, ajuda. Bem poucas que não... O sindicato tem o desconto. Hoje, tem tantos descontos para você pagar… Até meu menino agora, foi na faculdade, está pagando há três anos. Agora, parece que ele vai ganhar bolsa. (risos) Está vendo, está mais fácil, tem o ENEM também... Tem tanta coisa, que no meu tempo, há trinta, quarenta anos atrás, não havia nada disso. Se você não bancasse tudo... Era muito difícil. 

 

P/1 – Mas eu quero falar um pouquinho mais de Sertãozinho. Que tipos de indústrias existem lá?

 

R – De sucro-álcool existem todas que você imaginar. Eles fazem a usina completa, desde a caldeira, a moenda, a destilaria, tudo. Desde o negócio de [corte no áudio] para a lavoura, o maquinário para plantar a cana, carroceria de caminhão para puxar aquele treminhão. As indústrias fabricam tudo, tudo o que você pensar para a indústria de usina.

 

P/1 – Produção de etanol também?

 

R – Tudo. Tem a DMB [empresa de máquinas e implementos agrícolas], de Piracicaba, está lá. Todas essas firmas grandes foram para Sertãozinho.

 

P/2 – E a White fornece para eles na entressafra?

 

R – A White vende para todos. A White tem caminhão que vai vendendo para todos.

 

P/1 – Com os incentivos do governo para o etanol, há alguns anos, houve alguma mudança?

 

R – Ah, eu acho o nosso etanol é caro. Eu acho que incentivo, só se for para o usineiro. (risos) Por isso que eu acho que o etanol está caro. O sitiante e o fazendeiro vão plantar muita cana, porque compensa. Acho que vai expandir. Acho que vai aquecer mais as indústrias e a região crescer mais.

 

P/1 – Bom, falamos um pouco da sua trajetória, da questão regional, de Ilha Solteira, depois, Sertãozinho. Tem alguma história que o senhor queira contar? O senhor passou por várias cidades durante toda a sua vida, viveu várias carreiras…

 

R – A região melhorou. Saí de Ilha Solteira, vim para Sertãozinho, tudo mudou. As histórias... A coisa foi melhorando, eu acho. Mudou tudo para melhor. Ah, deve ter alguma coisa, mas agora, assim, eu não lembro... (risos)

 

P/1 – Seu Tomé, desde quando o senhor cuidava do posto, até agora, como operador, qual é o maior aprendizado que levou de toda a sua trajetória?

 

R – Eu acho que com o tempo, a vida, você aprende muita coisa. Acho que com os erros, você aprende muito. (risos) Primeiro você tem de errar, para depois acertar. Então, eu aprendi muito.

 

P/1 – E o que o senhor acha que a White mais ensinou?

 

R – Eu acho difícil ter uma empresa igual a White, viu? Direita, honesta, uma empresa boa de se trabalhar. É o que eu vejo, dos comentários, dos meus moleques mais velhos que trabalham, acho que é uma empresa muito boa. Muito... Ali, estou há quarenta anos. Chega dia 15, dia 30, nunca falta... Todo ano você tem de tirar férias, não tem meio termo: “Ah, eu não quero sair de férias esse mês, ou esse ano. Me dá o dinheiro aí que eu vou ficar trabalhando”. Não tem não disso, você está de férias... Venceu o teu ano, você está de férias. E o convênio, tudo o que você tem, uma cobertura muito grande. Eu acho uma empresa muito boa. E você se apega né, veste a camisa da empresa. (risos)

 

P/1– Nesses quarenta e dois anos, teve alguma fase, alguma dificuldade que o senhor superou?

 

R – Não, eu falo para os meus colegas, acho que nunca estive em crise. (risos) Sempre a coisa correu bem, porque sou um cara muito controlado. Eu acho que se o cara se controlar certinho... nunca me faltaram as coisas. Sempre tive minha casa, carro, todas as minhas coisas. Nunca passei apertado, nunca comprei nada fiado. Não gosto, não compro. Acho que a honestidade da White passou pra mim. (risos)

 

P/2 – Tomé, como é o seu dia a dia hoje? você levanta cedo, vai para a fábrica... Quais são os grandes problemas que você tem de resolver?  

 

R – Em casa eu sou, assim, resolvo tudo. O que precisa, a mulher fala: “Ó, precisa isso. Aqui, ali”. Eu corro, vou atrás. Pagar conta em banco, levar os meninos às vezes... Agora não porque agora eles já estão grandões, mas ia levar ela no médico. Quando tinha os gêmeos era triste, porque moramos em Sertãozinho, e não temos parentes para tomar conta, então, tinha de correr, corro atrás de tudo. Para você ter uma ideia, até em mercado eu vou. Se falar: “Ah, precisa ir no mercado”. Eu já sei tudo o que precisa comprar. Então, o dia a dia é assim. Levanto cedo, se estou saindo às duas, levanto cedo, trabalho, e na parte da tarde faço tudo o que precisar fazer. Então, eu resolvo depois.

 

P/2 – Você trabalha até às duas da tarde?

 

R – Sim, tenho o horário das seis às duas. Outro das duas às dez, e das dez às seis. São três turnos. Você vai rodando.

 

P/1 – Vai mudando semanalmente?

 

R – Não, são seis meses, depende do horário que você está. Aí você faz os teus afazeres, tudo o que precisa. No domingo vem em Ribeirão, dando uma volta no shopping, dá uma passeada ou volto para Alto Alegre, vejo meus irmãos, a minha sogra. Moram todos lá. Então, vamos passear, dar uma volta. Eu gosto muito de pescar, é meu hobby principal hoje. (risos) 

 

P/1 – Tem muito lugar lá para pescar?

 

R – Tem, tem o Tietê. Lá ele passa limpinho... (risos) Acho que ele nasce perto de Mogi das Cruzes [SP].

 

P/1 – Salesópolis [SP].

 

R – Nasce por ali, mas depois que desceu por Promissão, para Penápolis, ele vai cair embaixo, perto de Ilha Solteira. Lá o rio é limpinho, a água é um cristal e tem muito peixe. 

 

P/1 – E dá para nadar?

 

R – Dá. Até os nossos amigos têm muitos ranchos na beira do rio. Adoro rancho. (risos)

 

P/1 – (risos) O senhor continua gostando?

 

R – Gosto. O que eu mais tenho saudade da Ilha [Solteira], depois que eu fui embora, foi do rio. Para pescar é uma delícia. 

 

P/1 – Alto Alegre é perto de Sertãozinho?

 

R – São uns trezentos quilômetros. De Ilha Comprida, já dava duzentos. Mas lá, eu não falei para você, meu pai tinha um sítio que ficou para nós e o temos... Mas ficou lá ainda. É dos irmãos. Somos em quatro irmãos. De vez em quando, também, vou ver a sogra que mora lá também, em Penápolis. A minha mulher vai sempre lá. 

 

P/1 – Você continua tendo contato com os seus irmãos?

 

R – Eu tenho. Meu irmão mais velho morreu. Tenho a minha irmã mais velha, que ainda mora em Alto Alegre e uma irmã, a mais nova, também mora em uma cidadezinha perto.

 

P/1 – Elas foram para outros ramos?

 

R – A mais nova é professora, já está aposentada. A mais velha, o marido dela tem sítio e eles vivem de renda. 

 

P/1 – Ninguém mais na família foi para a indústria? 

 

R – Não, não. Só eu. Dos irmãos, só eu estou nas indústrias e eu também, já estou com vontade de parar também. Chega... (risos)

 

P/1 – Chega (risos)?

 

R – Dar o lugar para outro... (risos) Pescar mais tranquilo. (risos)

 

P/1 – Quais são os seus planos?

 

R – Acho que eu não quero trabalhar mais, não. Se for para sair de lá para entrar em outra coisa, prefiro ficar na White. Não saio. Eu sei que vou sentir muita falta, mas sair de lá e querer entrar em outra firma, não. Então, eu fico nela mesmo. Trocar o certo pelo duvidoso? Não adianta agora, também. Se eu sair, não quero fazer nada, quero parar mesmo. Quero só passear, andar, pescar, curtir um pouco. 

 

P/1 – Aposentar.

 

R – Trabalhar é uma coisa muito boa, mas você fica muito preso, né, você não tem folga. Só os domingos. Não tem muito lazer, por causa dos horários.

 

P/1 – E tem que fazer plantão?

 

R – Não, é só a escala de horários, plantão, não. Mas na escala são três que rodam. Só nas férias que você pode voar longe. (risos)

 

P/1 – (risos) Estamos encerrando, o senhor quer falar mais alguma coisa? 

 

R – Eu esqueci de falar, também, que eu fui para Manaus, para Cuiabá também. O cara de lá ficou doente e eu fiquei por uns vinte dias, um mês, trabalhando.

 

P/1 – E como foi lá?

 

R – Foi gostoso. Eu gostei de Cuiabá. Era uma coisa nova, uma usina pequenininha. Gostoso.

 

P/1 – Era planta de acetileno?

 

R – De acetileno também e era uma planta muito antiga do meu tempo (risos). Eles falaram: “Ó, Tomé, você que conhece essa planta aí, é do teu tempo, vai lá e resolve”. Fui para Cuiabá. Foi gostoso.

 

P/1 – Faz tempo? 

 

R – Uns dois, três anos atrás.

 

P/1 – E lá o acetileno é mais para…

 

R – Também para a mesma coisa, para a indústria.

 

P/1 – Mas lá não tem tanta usina?

 

R – Não, mas tem indústrias. O acetileno é muito usado em indústrias. Usa em tudo o que você pensar que mexe com ferragens. Não é só para a usina de sucro-álcool. De modo geral, quem mexe com montagem, usa acetileno.

 

P/1 – Só para entender melhor, o acetileno é usado para o corte, mas há outros gases para corte?

 

R – Para corte eu acho que não tem. Acho que é só o acetileno. As oficinas de funilaria para soldar as latas de carro, para emendar, usam muito o oxigênio e o acetileno. E tem muito consumo, muita e muita indústria. 

 

P/1 – Em Cuiabá, estão nascendo as indústrias?

 

R – Em Cuiabá é mais, acho que relacionado ao negócio de soja. Tem a manutenção de equipamento, de tratores, de grades, aquelas coisas. Você mexe em oficina pesada e tudo gasta.

 

P/1 – Para o senhor, o que significa a White estar fazendo cem anos?

 

R – Ah, acho que significa muita coisa. É uma honra, um mérito. Acho que os cem anos dela foram bem conquistados. (risos)

 

P/1 – E o que o senhor achou da ideia de contar a história da empresa, a partir da história dos colaboradores?

 

R – É bom. É uma coisa que não morre, fica gravado para sempre, né. Se você é novinha e não tira uma foto sua... Nunca mais. (risos) Então, é bom gravar, registrar. Acho que isso é muito bom. 

 

P/1 – E o que o senhor achou de ter registrado todas essas histórias?

 

R – Bom! Eu fiquei contente, alegre. É bom participar.

 

P/1 – Então, eu queria agradecer ao senhor. Por toda a atenção de vir aqui e ter contado a sua história para nós. O Museu da Pessoa e a White Martins agradecem. 

 

R – Obrigado.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – De nada (risos).

 

P/2 – Parabéns pela história!

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