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História

Aprender a fazer muitas coisas pelo bem do povo

História de: Ana Elizabeth León Gonzales
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2015

Sinopse

A psicóloga Ana conta sobre suas origens, a escola que seus avós maternos instituíram em Palmira, Colômbia, sua cidade natal. A influência do engajamento social de seus pais se refletiu após se formar na universidade, quando, através de trabalhos em ONGs, passou a se interessar por atividades em comunidades carentes. Apaixonada pelo idioma português, mudou-se para o Brasil em 2013 e hoje trabalha numa organização voltara para as questões imigratórias na cidade de São Paulo.

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História completa

Eu nasci na cidade de Palmira, Valle del Cauca, na Colômbia. Meu avô materno chamava Gonzalo e a minha avó Beiba. Eles se casaram e tiveram cinco filhas. Eles criaram uma escola em Palmira que até hoje existe. Por parte paterna, minha avó chama Cecilia e o meu avô chama Ranizeto. E eles são de outra região da Colômbia, do departamento de Cundinamarca. Eles casaram muito jovens; minha avó tinha 16 anos e o meu avô também. Ele trabalhou na empresa como eletricista. Moravam em Bogotá, numa região um pouco mais distante, onde eles têm uma casa também, que existe ainda, mas eles já não moram lá.

 

Minha avó materna nunca terminou os seus estudos primários e nem fez algo diferente a cuidar da casa e dos filhos. Meu avô trabalhou com várias coisas, instalações elétricas. Porém, meu avô conhecia também a terra e animais e naquele sítio eles criaram galinhas e outros animais; produziam café. Palmira tem uma parte rural e eu falo que uma parte da minha família materna tinha essa ligação, porque meu avô que trabalhava em várias questões como advogado, como médico. Ele comprou também uma casinha, um sítio que era o lugar de férias.

Quando o meu avô morreu minha avó vendeu esse lugar. Meu avô morreu porque ele estava, junto com outras pessoas, abrindo caminho para essa região del Valle, fazendo estrada e colocaram dinamite na montanha e ela caiu em cima dele, não sei bem os detalhes, mas foi o único morto e esse sitio. A família nunca mais teve contato, até uns anos atrás, que minha mãe voltou para essa região del Valle e se casou, pela segunda, vez com uma pessoa que trabalhou com o meu avô quando jovem. Acho que já tinham namorado, acho que foi o primeiro amor, uma coisa assim. Eu acredito que a família tem uma influência enorme em como que a pessoa é. Acredito que a família do meu avô tinham também pessoas formadas. Meu avô não se formou, mas recebeu essas informações e a vida nesses tempos era aprender a fazer muitas coisas pelo bem dos outros, pelo bem do núcleo familiar.

 

Minha mãe chama Maria Fernanda Gonzales. Meu pai chama José Willian León. Minha avó sempre foi muito forte com a questão da educação, em se formar e ir para a faculdade; se não tinha faculdade na cidade, mandava os filhos para fora. Minha mãe foi, aos 16 anos de idade, para Bogotá. E ela queria estudar algo das Ciências Sociais, mas uma tia que estava estudando Sociologia largou e a minha avó proibiu que as filhas estudassem algo semelhante. Ela teve que escolher entre uma Engenharia e escolheu Engenharia de Alimentos, uma coisa que ela não gostava, e fez o dever de estudar isso na capital, onde ela conheceu o meu pai. Meu pai tentou fazer faculdade, mas ele sempre esteve engajado em coisas sociais desde jovem. Eles se conheceram e foram morar juntos sem que a minha avó soubesse, porque minha avó é bem católica.

 

Era aquela época dos anos 70, 80, que foi, para a Colômbia, uma época forte em termos de movimentos sociais, porque foi impactada pela questão do narcotráfico, da criação das guerrilhas que veio antes. Para suportar um estado historicamente com direitos, porque a Colômbia não teve muita representação política de esquerda nas presidências, mataram os candidatos, mataram os lideres sempre de esquerda.

Nessa luta de defesa, meus pais estavam engajados com grupos, fazendo comunicação alternativa, alfabetização, tudo como forma de fazer as pessoas reagirem e fazer e se coletivizarem para suportar aquela época no país.

 

Meus pais se casaram e foram morar na cidade. Quando eu tinha quatro eles se separaram. Eu passei sete anos da minha vida em Bogotá. Meu pai também morava em lá, já em outra casa e tudo. A gente morava num bairro da periferia de Bogotá, populoso, muito longe da onde eu estudava. Meus pais me inscreveram numa escola particular, alternativa, de pedagogias diferentes, onde não tinha uniforme e eu tinha que sair às cinco horas da manhã, minha mãe contratou um carro para eu ir até essa escola e voltar. Minha mãe também trabalhava longe; nossa casa era um pequeno apartamento, tínhamos muitos vizinhos que cuidavam de mim, eu brincava na rua e coisas assim, de bairro.

 

E pela saúde da minha mãe fomos morar numa cidade pequena. Ela é asmática e eu sempre fui alérgica também a coisas assim, humidade. Mas também acho que tem a ver com esse divórcio dos meus pais. Isso foi muito difícil de superar. Meu pai estava em Bogotá, eu visitava ele e fazíamos várias coisas que não fazia com a minha mãe; sempre tinham questões do trabalho dele, onde eu acompanhava reuniões com grupos. Eu lembro ter ido no projeto onde ele trabalhou bastante numa o que aqui chamam de favela, com jovens e eles tinham também esse esquema de ensinar a fazer pão, escola política. Para mim, escutar o meu pai educando, ensinando coisas, era especial.

 

Eu estudei numa escola privada quando nos mudamos, com uniforme, com professora e a lousa, com horários, mas por ser uma cidade tipo do interior, era engraçado, tudo era muito perto, eu fazia natação depois da escola e sozinha, aos nove, dez anos. Eu acho que brinquei muito pouco, porque não tinham crianças nesse lugar onde eu estava morando. Eu assistia muita TV com a senhora que me cuidava, que era bastante agressiva comigo, muito brava. Eu fiz um ano de escola lá e minha mãe falou: “Vamos voltar para a casa da sua avó”, e voltamos.

Aí, eu comecei a estudar na escola da minha família, em Palmira, que era bem tradicional. Era uma cidade não tão conservadora, tinha de tudo, de todas as tribos urbanas e eu transitei por todas, com os punk. Eu curtia com eles, depois ia com os outros de metal, também com os colegas de escola.

 

Eu fiquei muito distante dessas discussões políticas. Ter morado com minha avó me fez fechar os olhos para muita coisa. Minha mãe sempre colocava as coisas com um olhar crítico, mas eu fiquei ausente, eu não queria saber. Eu comecei a me interessar pela faculdade, mas nunca me envolvi em nada, nem com colegas de universidade, nem por fora, sobre algo político. Eu tentei na Universidade del Valle e me apresentei em Sociologia porque a pontuação não dava para Psicologia, mas eu sabia que queria estudar Psicologia.

Eu fiquei interessada pela questão da subjetividade, um interesse pela pessoa, pela mente, pelas emoções. Eu escolhi uma universidade privada, bem burguesa com pessoas que nessa época, você já sentia essa influência dos grupos de narcotraficantes, você começa a ver nas paisagens, pessoas com certos perfis, mulheres com cirurgias estéticas, na Colômbia isso é muito forte, mulheres com próteses de silicone. Isso é um dos danos maiores que o narcotráfico tem feito ao país, que é mudar essa visão do corpo. As mulheres dos narcotraficantes estão com a forma e um protótipo muito especifico.

 

O meu primeiro trabalho, eu acho que foi a primeira experiência já do mundo real. Eu sai do ovo e arranjei um trabalho na puta merda da Colômbia, um dos municípios mais pobres e mais ricos em recursos naturais, população negra, na sua maioria, ou afro colombiana e eu trabalhei como coordenadora aos 23 anos, de um centro de família e crianças. Era um projeto sobre primeira infância e foi muito importante. A cidade chama Acandí e o estado chama Chocó. Chocó tem parte no litoral pacifico e no litoral atlântico. Essa é a única cidade que é do litoral atlântico.

Eu, menina de cidade, urbana, de universidade privada, chego num contexto onde não tem água potável, não tinham carros, porque era na frente do mar. Eu trabalhava com crianças de zero a seis anos e as suas mães, de 15, 16, 17 anos. E conheci pessoas que trabalhavam nesse lugar, eram de outras partes da Colômbia e ao final, eu senti que eu era uma estranha, que tive muitos problemas com as professoras por isso, por mínima experiência, por não ter um olhar também mais maduro. Mas eu aprendi bastante.

 

Eu decidi voltar pra Calle e comecei a procurar emprego e a ir numa fundação que trabalhava com crianças com deficiência. Trabalhava numa equipe com terapeutas, fonoaudióloga, eu era psicóloga. Fiquei um ano e aprendi sobre deficiência, que também é uma outra coisa que tem me impactado. A humanidade de uma pessoa com deficiência é incrível. Eu trabalhava num serviço que era financiado pelo governo para crianças vulneráveis.

 

Em 2006 eu fui para a Venezuela, no Fórum Social Mundial e tive contato com a língua portuguesa, com o Brasil, e eu me apaixonei! E depois desse dia eu viria estudar no Brasil. Trabalhei e decidi que viria. Em 2013, eu vim como voluntária numa ONG que se chama ACER Brasil, e essa ONG é em Diadema, num bairro mais vulnerável, e trabalha com crianças e famílias. Fiquei três meses como voluntária e ali, eles me ofereceram para ficar um ano. Eu voltei para Colômbia, fiz o visto de voluntária e vim para o Brasil.

Tive muito contato com famílias envolvidas com o tráfico, crianças envolvidas com o tráfico, todas as questões da periferia, porque a ONG é desse bairro e minha casa foi dentro da ONG, era uma casa de voluntários. Eu morava com voluntários da Europa, geralmente, todos eles de países da Europa. Foi uma experiência incrível. Aprendi inglês morando com eles, e aprendia português trabalhando.

 

Eu posso dizer que eu me mudei aqui para São Paulo em julho deste ano. Até julho, eu morava em Diadema. Eu me mudei porque acabou o meu contrato e aí veio esse trabalho com imigrantes. Quando vim pro Brasil tinham umas pessoas que falavam: “Boliviana”, eu respondia: “Não, Bolívia não é Colômbia”, eu às vezes, brincava, mas hoje em dia eu já respondo com um outro tipo de resposta: “Pablo Escobar, FARC, delongas, cocaína…”, então eu já corto ou falo de outro jeito, porque eu já entendi que não é brincadeira isso. Um país com essa diversidade e com esses preconceitos e essas imagens estereotipadas.

 

Agora estou trabalhando no Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante. A questão do meu trabalho é direitos dos imigrantes. O tema da imigração desde de uma perspectiva dos direitos humanos. Eu sou assistente psicossocial. A cidade de São Paulo tem muita coisa com o tema da imigração e da migração, em geral.

Eu faço um atendimento, mas não como psicóloga, mas voltado a explicar às pessoas os serviços que tem na cidade, muitas pessoas não conhecem os serviços da cidade, pela barreira da língua; porque o Brasil tem, por exemplo, um sistema de saúde que é para imigrante acessar também, ou de assistência social.

 

Eu vim para estudar, para fazer um mestrado. Meu plano era ir na ONG, aprender português e depois, fazer mestrado. Até agora, eu não entrei para fazer o mestrado. Tenho trabalhado e sei que eu quero estudar, aproveitar a qualidade da educação, mas também do olhar, da forma de educação que tem no Brasil, tenho gostado muito.

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