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Aprender a aprender

História de: Cleusa Helena Pisani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/06/2018

Sinopse

Cleusa Pisani, a Cléo, nasceu em Barretos em 1942, mas mudou-se ainda pequena para São Carlos. Queria ser professora desde criança e passou por todo tipo de atividade ligada à educação: de professora de catecismo e de literatura latina, ainda criança, até sua formação em Letras e especializações. Nessa entrevista, ela nos conta como foi trabalhar no Senac e como desenvolveu a metodologia do “aprender a aprender”.      

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História completa

P1 – Bom dia, Cléo.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Qual é seu nome completo?

 

R – Cleusa Helena Pisani.

 

P/1 – Local e data de nascimento?

 

R – Barretos, estado de São Paulo, no dia 21 de agosto de 1942.

P/1 – Qual é a origem da sua família? Conte um pouquinho sobre ela pra gente.

 

R – A minha mãe e o meu pai são brasileiros, mas são descendentes diretos de italianos. As minhas duas avós são da Calábria, meu avô materno é de Pádova e meu avô paterno é de uma cidade no norte da Itália que, no momento, eu não me lembro o nome... Bruschi. Vieram pro Brasil no final do século XVIII e passaram a morar na região de São Carlos. Depois se estabeleceram em São Carlos - minha mãe é de São Carlos, o meu pai é de Descalvado, uma cidade ali perto de São Carlos também.

 

P/1 – Qual é o nome deles?

 

R – O meu pai é Guarino Pisani. Ele faleceu em 1946. Minha mãe é Maria Flora Faco Pisani; ela é também falecida, em 1991. Eles se casaram em 1938. Meu pai morreu muito cedo, minha mãe nos criou praticamente sozinha, com a ajuda de uma tia-irmã do meu pai e dos meus avós maternos. Ela foi uma grande lutadora e uma grande heroína, esse é o conceito que as pessoas de São Carlos têm dela.  Ela criou três filhos, desde a tenra idade, praticamente sozinha.

 

P/1 – Tem dois irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos: uma irmã, que é mais velha e meu irmão, que é mais novo. Minha irmã é Mariângela, o apelido dela é Nininha, e o meu irmão é Antônio Carlos.

 

P/1 – Descreva um pouco os fatos marcantes da sua infância.

 

R – Aos 13 anos de idade perdi meu pai e esse foi um fato que marcou muito nossa vida, porque praticamente fomos criados sem ele. Minha mãe sempre lutou muito, batalhou muito pra nos manter na escola. Sempre nos incentivou muito a estudar, a ir pra escola, porque ela não tinha muita instrução e encontrava muita dificuldade na época pra nos criar. Então com isso nós conseguimos. Talvez pelo grande incentivo que ela nos tenha dado, nós sempre nos interessamos e gostamos muito de estudar, sempre fomos bons alunos na escola e sempre tivemos uma paixão incrível pelo ensino, pela escola, pela curiosidade que os estudos despertavam em nós. Queríamos sempre estar sabendo mais. Isso nos ajudou a ter uma escolaridade muito boa. Sempre fomos muito elogiados na escola, pelo nosso comportamento, pela nossa capacidade de aprender.

 

P/1 – A sua infância, você passou em Barretos?

 

R – Lá em São Carlos. Eu conheci Barretos depois de adulta, porque [quando] nós viemos pra São Carlos eu ainda era muito pequena. Meu irmão nasceu em São Carlos. Embora esse fato do falecimento do meu pai tenha nos marcado muito e fosse uma infância muito batalhadora, tivemos uma infância alegre e gostosa. Minha mãe tinha por nós um grande amor, ela nos criou um por todos e todos por um, muito unidos, com muito amor, muito carinho, muita dedicação. Somos unidos até hoje. Nós também brincávamos muito, havia muitas crianças na nossa vizinhança. Minha mãe trabalhava fora; nós tínhamos um quintal grande, a criançada se reunia toda lá pra brincar, então nós inventávamos muitas brincadeiras, era muito gostoso. Íamos pra escola, na saída da escola também íamos estudar, fazer as lições, os estudos, então nos reuníamos em casa, às vezes até dez pessoas. Havia pessoas de séries diferentes na escola, mas estudávamos todos juntos. Era interessante também, porque quem estava em série mais adiantada conversava o que estava aprendendo com os que estavam nas séries mais atrasadas. Talvez isso também fosse importante pra nós na época. Tínhamos também… Nós morávamos perto de uma igreja católica em São Carlos, que frequentamos muito, e lá também tinha muita atividade cultural, teatro, dança, coral da igreja. A criançada se reunia muito lá pra brincar porque tinha um pátio muito grande em frente à igreja, onde a gente podia brincar, jogar bola. Ttinha balanço, essas coisas que criança gosta, quermesse. Nós nos reuníamos muito lá também pra brincar, de forma que a nossa infância foi muito gostosa, embora com grandes dificuldades.

 

P/1 – Descreva um pouco agora a sua juventude.

 

R – Na minha juventude eu também continuei me desenvolvendo. Fui estudar no instituto de educação São Carlos, Dr. Álvaro Guião, onde eu fiz o ginásio e o colegial clássico, porque o primário eu fiz no Grupo Escolar Coronel Paulino Carlos. Ambas ficam no centro de São Carlos e [eram] de qualidade muito boa, porque na época que estudei as escolas eram de qualidade muito boa, tínhamos grandes e bons professores. Nessa época do ginásio, que já é uma parte que a gente começa a se tornar jovem.

Entrei na escola com seis anos de idade, no primeiro ano. Entrei analfabeta no primeiro ano do curso primário. A gente tinha na escola muitas atividades culturais. Eu participava do grêmio, sempre fui uma pessoa muito política, desde criança, talvez. Participava das atividades culturais da escola, cantava no Orfeon [coral orfeônico, comum nas escolas da época], fazia teatro também na escola e além disso estudava muito. E passeávamos; com o pessoal da escola, nós fazíamos excursões e também com o pessoal na igreja. Desde criança, sempre fomos muito criados em conjunto social com os grupos que nos cercavam. Na igreja, com o grupo do catecismo, da cruzada. Na escola, com o grupo da escola: fazíamos excursão, íamos pras fazendas, pras cidades, conhecer outras coisas. Isso também era muito interessante, porque ajudava nosso relacionamento social fora da família. Depois também: fazendo o curso clássico, nossa classe era muito pequena, então nossa turma era muito unida. Éramos acho que treze ou quatorze pessoas no curso clássico. As classes foram… Elas começaram com trinta, mas foram diminuindo. Terminamos, acho, o curso com quatorze pessoas. Saíamos muito, íamos passear, paquerar, ao cinema - na época tinha cinema na cidade. Nós gostávamos muito de cinema e frequentávamos bailinhos da escola, pra juntar dinheiro pra formatura. E também a Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, funcionava a todo vapor, então tinha também muita atividade lá, frequentamos muito.

 

P/1 – Você diz que desde criança já era muito política, você é política. Você participou de algum movimento político nessa época?

 

R – Na época da ditadura, eu trabalhava na Escola de Engenharia de São Carlos, mais precisamente no Centro Acadêmico. Lá o movimento estudantil foi muito intenso, tanto que, quando houve a repressão forte aqui em São Paulo, a luta passou a ser em São Carlos, o centro da... Então eu convivi muito nesse meio também, já tomava partido contra a ditadura nessa época, até porque sempre preservei a liberdade. Eu acho a liberdade, acima de tudo, um bem que a humanidade tem que ter e preservar e cada povo tem o direito de decidir seu destino. Os meus avós são italianos, então acho que isso também contribui muito pra nossa formação política. E tomada de posição não só na política partidária, mas na política nossa, ao tomar atitude frente às coisas. A luta pela sobrevivência, a luta pelos ideais que defendemos.

 

P/1 – A sua atividade política então era através do grêmio, que você...

 

R – Eu participava, apoiava. Raríssimas vezes saí à rua pra apoiar os movimentos, mas dentro do centro acadêmico sempre apoiei. Sempre dei o maior apoio às atividades contra a ditadura e sempre lutei muito por partidos políticos que pregassem a liberdade, que pregassem o desenvolvimento social. Também nessa época, eu também fazia teatro amador em São Carlos, que era um grande centro de cultura na época. O teatro amador era um destaque muito grande na cidade e no estado de São Paulo. São Carlos foi um dos grandes pólos: São Carlos, Santos e Rio Preto, esses foram os principais movimentos do teatro amador no estado de São Paulo e participei muito, desde de 67 até mais ou menos 75. Depois disso, quando o movimento começou, participei da federação de teatro, da estadual, da municipal. Participava também dos movimentos culturais, das comissões de cultura que tinha na cidade, de cinema, de teatro, de literatura. Depois, quando o movimento de teatro começou a… O declínio do teatro amador, foi criada na Universidade Federal de São Carlos um grupo de dança folclórica, do qual eu participei por muito tempo. Era um grupo muito interessante porque além da dança folclórica, que difundíamos também nas cidades… Com o teatro amador, acho que nós estivemos em quase todas as cidades do estado de São Paulo fazendo apresentação. Foi um boom, uma coisa muito interessante. Depois, com os grupos de dança, também participamos muito, principalmente das festas juninas que existiam nas cidades próximas de São Carlos. Na região de Santa Eudóxia, a Universidade Federal também desenvolvia uma atividade cultural. Nós participávamos junto à população dessa cidade, que era na época uma cidade essencialmente rural, perto de São Carlos. Era muito gostoso. Nós íamos pra lá desenvolver programas de arte, pintura, dança também, com as pessoas lá. Era muito interessante.

 

P/1 – O que você queria ser quando crescesse?

 

R – Professora. Quando era criança, entrei na escola com seis anos de idade -  eu já disse que era analfabeta quando entrei na escola. A minha irmã ia pra escola e eu chorava o dia inteiro, queria ir pra escola também. Não podia entrar na escola antes de sete anos e na época não tinha curso como tem hoje, pré [pré-escola], os prés. A minha mãe conseguiu que eu entrasse no primeiro ano na Delegacia de Ensino de São Carlos. Fui autorizada a entrar, porque ela fez também… Ela travou uma batalha em São Carlos pra conseguir me matricular na escola, porque não podia. E aí eu fui. Nessa época, eu chegava em casa e imitava meu professor. Eu tinha um lousinha, que havia ganhado de um vizinho da minha avó. Os gizes, eu pegava os toquinhos da escola, escondido. E eu ficava… Depois que eu saía, porque ia pra escola de manhã, depois do almoço ficava à tarde na escola dando aula. “Pro vento”, mas eu ficava. O que a professora ensinava, eu ficava à tarde ensinando “pro vento”. Mas parecia que tinha uma classe lotada e o meu irmão brincava, “lá vai ela dar aula pras assombrações”. Era muito legal. Minha mãe achava professor uma coisa belíssima. Acho que isso nos influenciou muito, porque nós três somos professores. Então desde essa época… Depois, [quando] tinha uns nove anos, fui dar aula de catecismo na igreja. Eu dava aula pras crianças também, de sete, oito anos - olha só a minha ousadia. Nessa época, eu comecei a descobrir que decorar as coisas era muito complicado, porque você decorava e não sabia o que estava falando. Olha, com nove anos de idade! Comecei a descobrir que era muito mais interessante a gente entender o que estava falando. Então, por exemplo, se eu ia rezar um Pai Nosso, eu falava assim pra criançada como eu: “Vamos conversar um pouco sobre o que significa falar ‘Pai nosso, que está no céu’’. Era uma frase, a gente ficava um tempão, cada um falando o que achava que isso significava. Era muito interessante. E aí a outra frase, até que você analisava o Pai Nosso inteirinho. As crianças também aprendiam a rezar mais rapidamente; um dia passou a catequista e falou assim: “Nossa!” Depois a gente começava a fazer isso também com o catecismo - tinha catecismo, não sei se vocês também frequentaram a igreja. São lições que as crianças estudavam na época, não sei se hoje ainda estudam. Tinha as perguntas e as repostas. “Quem é Deus?”, “Deus é um espírito perfeitíssimo, eterno, criador do céu...” Vamos ver o que é isso pra gente. Um dia, a catequista-chefe passou e falou: “Nossa, como vocês estão adiantados!”. Eu era também uma criança, não tinha nem o que responder. Ela achou que eu ia muito rapidamente, mas ia rapidamente mesmo, porque quando você discute, você entende. Entendendo, você até decora as coisas mais facilmente, então acho que sempre quis ser professora.

Quando estava no ginásio, eu dava aula particular. Os meus professores mandavam algumas pessoas, que estavam em séries antes da minha, pra eu dar aula particular de Português, de Latim - porque eu estudava Latim, né? Eu dava algumas aulas particulares e quando estava no terceiro [ano do] clássico, minha professora de Latim me encarregou de dar as aulas de Literatura Latina pros meus colegas. Aceitei a missão com a maior… Eu falei pra ela, “Mas eu não sei Literatura Latina”. Ela falou: “Não tem importância, eu te empresto os livros”. E me emprestou mesmo. Uma pilha de livros, que eu estudava muito pra preparar as aulas pros meus colegas. E eu era muito séria, o pessoal tirava muito sarro, falava “Você está pior do que a professora, não para de ficar ensinando”. Eu dava aula muito séria, parecia que era eu a professora e ela sentada lá. Ela ficava sentada, assistindo as minhas aulas. Acho que sempre quis ser professora mesmo.

 

P/1 - A sua formação, você fez em São Carlos, magistério...

 

R – Não, eu não fiz magistério. Fiz faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na área de Português e Francês.

 

P/1 – Em São Carlos?

 

R – Não, estudei em São José do Rio Pardo. Na época que fui fazer faculdade, não havia curso noturno na UNESP de Araraquara. E eu precisava trabalhar pra estudar, então tive que estudar numa outra cidade. Viajava todo dia pra ir pra lá.

 

P/1 – Então você tem formação acadêmica em Filosofia...

 

R – Sou licenciada em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em São José do Rio Pardo. Depois, eu fiz na UNESP de Araraquara curso de especialização em Teoria Literária e Gramática da Língua Portuguesa. E em São Carlos fiz, na Universidade Federal de São Carlos, especialização em Tecnologia Educacional. Fora isso, participei de inúmeros seminários, cursos e congressos na área também das Letras, das Artes, de Teatro e também na área de Pedagogia -   na área de Pedagogia eu sou autodidata.

 

P/1 – A gente vai falar um pouco da sua atuação profissional. Com que idade você começou a trabalhar?

 

R – Eu comecei a trabalhar, mais ou menos… Eu tinha acho que uns 19 anos. Aqui, em São Paulo, foi meu primeiro emprego. Eu trabalhei na… Porque antes de fazer faculdade eu vim pra São Paulo e fiz meio ano de cursinho aqui. Na época que terminei o curso clássico, não precisaria nem fazer “facul”, fazer cursinho pra entrar na faculdade. Poderia ter feito exame direto, só que eu fiquei um tempo sem estudar. Pra fazer o vestibular, vim aqui em São Paulo fazer um cursinho na USP e fui trabalhar, porque eu não tinha condição de… Eu trabalhei na Bendix do Brasil. Equipamentos para autoveículo - foi meu primeiro emprego, onde eu era auxiliar de secretária. Consegui esse emprego porque eu escrevia muito bem.  Segundo o entrevistador, o chefe de pessoal que fez a entrevista, os testes, eu escrevia muito bem, embora não tivesse prática de trabalho. Era muito boa datilógrafa também… E cálculo, matemática, essas coisas, então eu já consegui um emprego, logo que vim pra São Paulo. Na época, não era tão complicado a gente conseguir trabalho, tendo uma boa formação. Até hoje defendo que a boa formação do indivíduo faz com que ele tenha uma boa carreira profissional, porque a formação geral é que dá condição de você ter mais facilidade pra aprender outras coisas. As questões do trabalho específico não são tão complicadas de aprender se você tem uma capacidade boa lógica de raciocínio, de assimilação, de comparação etc. Você transforma, transpõe uma aprendizagem pra outros campos. Trabalhei aqui em São Paulo por dois anos e depois voltei pra São Carlos.

 

P/1 – Que idade você tinha, Cléo?

 

R – Tinha uns 19 anos, fiz carreira profissional rapidamente. Voltei pra São Carlos porque minha mãe fez uma cirurgia, então ela precisava que eu ficasse do lado dela. Voltei pra São Carlos, fui trabalhar lá e fui fazer faculdade em São José do Rio Pardo.

 

P/1 – Esse seu próximo trabalho era...

 

R – Em São Carlos continuei trabalhando, também nessa área. Depois que eu fui, trabalhei numa indústria, no setor de venda. Fiquei lá um tempo e depois fui trabalhar numa construtora. Na construtora fiz uma carreira rapidamente. Eu já tinha uns 23, 24 anos e era encarregada de departamento pessoal de uma construtora, que tinha aproximadamente uns 500 empregados e fazia construções em vários estados do Brasil. Eu era responsável por todo o departamento pessoal, desde a contratação até a demissão e acordos na Justiça do Trabalho. Depois eu saí, fui trabalhar na Escola de Engenharia, no Centro Acadêmico. Lá eu trabalhava meio período, ganhava o mesmo salário da construtora e tinha mais disponibilidade pra estudar, então dei preferência. Foi muito bom porque lá eu tive um experiência muito boa. Foi lá que eu comecei propriamente a trabalhar com cursos. E aliado à experiência que eu tinha já na indústria, nas empresas privadas… Comecei a trabalhar em multinacionais, então tive uma boa formação de trabalho. O Senac me chamou porque precisava de uma pessoa pra dar cursos na área de Arquivística e Correspondência Comercial. Eu era uma das únicas pessoas em São Carlos que tinha curso de Letras, Correspondência Comercial e Oficial e Arquivística. Eles precisavam de pessoas que tivessem esse trânsito, aí me chamaram... [Perguntaram] Se eu queria dar curso lá, em 1974. Eu topei e fiquei até me aposentar.

 

P/1 – Aí você começou...

 

R – Eu trabalhei até o final de 78 no Senac, à noite, dando cursos. E na Escola de Engenharia, no Centro Acadêmico, trabalhando à tarde e à noite, dando cursos até fora de São Carlos.

 

P/1 – Então a sua carreira no Senac iniciou em 74...

 

R – Em 74. Até o final de 78 eu trabalhei nos dois lugares. Depois o Senac me propôs um trabalho em período integral, foi quando eu saí do Centro Acadêmico e passei só a trabalhar no Senac.

 

P/1 – Fale um pouco então desse seu trabalho desenvolvido no Senac.

 

R – Ingressei como instrutora de formação profissional, que era pra dar cursos. Em seguida - eu não sei, acho que um ano e meio ou dois -, o Senac mudou a definição da ocupação pra monitor de formação profissional. Eu também fui transferida de ocupação - de instrutora passei a ser monitora de formação profissional. Fiquei dando cursos, mas em 78… Eu dei cursos no Senac de 74 a 78, quando passei a [ser] monitora de formação profissional. Depois de 78, eu já era monitora quando passei a trabalhar em período integral no Senac, porque  criaram um centro de autoinstrução. O diretor do Senac na época, o Fernando dos Prazeres, achou que eu tinha condição de assumir esse centro de autoinstrução. Então eu tive… Eu já frequentava muito São Paulo quando era monitora: participava de reuniões no Hotel São Pedro, junto com técnicos, com diretores, na época havia essa mistura nas reuniões. Participavam os diretores, os assistentes de diretor, os técnicos e também monitores, então eu já tinha esse entrosamento muito grande no Senac. Passei a dirigir esse centro de autoinstrução no Senac, frequentando também muitas reuniões em São Paulo.  Foi quando fiz o curso de Tecnologia Educacional na Universidade Federal de São Carlos. Eu precisava ter mais instrução nessa área, que era uma coisa nova, estava sendo implantada. E o Senac tinha uma experiência muito boa de ensino à distância, mais por rádio. Tinha também na época ensino à distância, enviando os manuais pras pessoas estudarem em casa. Nesse centro de autoinstrução as pessoas iam estudar lá - sozinhas, mas iam estudar lá. Eu orientava os estudos dessas pessoas, ao mesmo tempo que também foi incorporado ao centro de autoinstrução o acervo do Senac. Então passei também a me responsabilizar pelo acervo, até porque também sou documentalista, dava cursos de arquivo etc.

 

No Senac de São Carlos, coordenei todas as áreas de cursos que tinha na época: área de Beleza, de Escritório, de Saúde - de Informática, começou depois. Tinha também cursos, que eles chamavam na época de Desenvolvimento Empresarial. Eu fazia muitos contatos com as empresas de São Carlos, lá sempre teve muita indústria de médio e grande porte. Na área da metalurgia, em outras áreas também: de malharias, fábricas de toalhas, tapetes São Carlos. Tem muitas indústrias grandes lá - a Clímax, que era a Indústria Pereira Lopes, hoje é a Eletrolux - e outras indústrias da área metalúrgica; São Carlos era um grande centro metalúrgico. Passei a fazer muito contato também com os gerentes de Recursos Humanos, pra desenvolver os programas de desenvolvimento empresarial. Eu também dava cursos dentro dessas indústrias, de aperfeiçoamento pro pessoal nas áreas de arquivo. Eu dava consultoria técnica nas áreas de arquivística, além dos contatos pra montar os programas de desenvolvimento empresarial. Nessa época também, passei a fazer muitos contatos com a Universidade Federal, na área da Engenharia de Produção e na área de Saúde, de Enfermagem. Nós desenvolvemos cursos de especialização em Enfermagem do Trabalho, Engenharia do Trabalho e também de Técnico e Segurança do trabalho. Fizemos isso em convênio com a Universidade, porque na época os cursos de especialização não podiam ser feitos como hoje, nas organizações particulares. Tinham que ter convênio com as Universidades, então esses cursos de especialização foram dados em convênio. Nós fizemos o primeiro de Técnico e Segurança do trabalho em convênio com a Universidade Federal, por causa da Engenharia de Produção. O pessoal da saúde, da área de Enfermagem se interessou em montar conosco o curso de auxiliar - auxiliar não, de Enfermeiro do Trabalho - e depois também saiu [o curso] de Engenharia de Trabalho. Na época, os cursos eram dados sobre a supervisão da Fundacentro, que é um órgão do Ministério do Trabalho.  

 

P/1 – Quer dizer, seu primeiro local de trabalho no Senac foi em São Carlos...

 

R – No Senac foi em São Carlos. Trabalhei lá por quatorze anos.

 

P/1 – Depois você...

 

R – Nesse ínterim, quando eu trabalhava em São Carlos, me convidaram aqui em São Paulo pra organizar os arquivos da área de escola. Na época iam ser microfilmados e precisava fazer um plano de arquivo. Então vim pra São Paulo; fiquei aqui mais ou menos uns seis meses, fazendo todo o levantamento, as entrevistas e as pesquisas com as unidades, pra poder agrupar todo o material que estava nas unidades - operativas, elas se chamavam na época -, nos arquivos centrais. Junto com uma outra pessoa, que era especialista em microfilmagem, que trabalhava na Secretaria Geral - na época existia esse departamento, cujo diretor era o Zé Carlos Fernandes, que ainda hoje é funcionário do Senac em São Paulo. Nós montamos o projeto: o plano de arquivos na área escolar, o arquivo central. Toda a documentação foi microfilmada. Também participei aqui em São Paulo de vários projetos na área de Escritório, pra atualização de cursos, pra estudos também, nessas áreas de escritório. Em 1989 vim pra cá trabalhar na Gerência de Formação Profissional.

 

P/1 – Qual era a sua atuação junto a essa gerência?

 

R – Eu trabalhava com a formação, com os projetos, montagem de cursos da área de Escritório e depois passei a desenvolver projetos, junto com a Neusa Góes, de formação de professores, de docentes do Senac. Foi onde começamos a desenvolver a teoria do “aprender a aprender”, que eu já aplicava quando era professora no Senac, já desenvolvia. Logo que comecei a dar cursos no Senac, eu já trabalhava com a teoria do “aprender a aprender”, só que não sabia que era esse o nome. Eu trabalhava muito com a participação dos alunos, com os grupos de trabalho. Eles construíam todo o trabalho: eu ia só supervisionando, coordenando as atividades e inserindo novas ideias, novos conteúdos, para que eles pudessem se desenvolver e criar os programas, os projetos deles, dentro de sala de aula. E com muita liberdade, eles tinham muita liberdade pra montar os grupos, também pra mudar de grupo enquanto estavam fazendo os projetos. Se um aluno não se sentia bem no grupo que estava - eles mesmos escolhiam os grupos -, podia mudar pra outro grupo, contanto que pedisse permissão, consultasse se havia vaga, fizesse a entrevista, pra ver se poderia ser aceito no outro grupo. E toda essa trama, essa transa empresarial já era desenvolvida nos cursos que eu dava, então eu já tinha muita experiência em trabalhar com “aprender a aprender”. Quando nós começamos a desenvolver projetos, junto com a Gerência de Pessoal e com a Beth Fadel, já começamos a aplicar toda essa teoria. Quando o Senac fez a proposta estratégica da década de 90, onde aparece o “aprender a aprender”, descobrimos que era tudo que nós estávamos fazendo, nos cursos que estavam sendo importados no projeto, com a base no conhecimento. Depois, [quando] estávamos trabalhando na Gerência de Formação Profissional, houve uma mudança estrutural no Senac e todas as gerências que existiam no oitavo andar - que eram as gerências que administravam os cursos -, todas as áreas de formação do Senac foram transformadas em Centro de Especialização. Foram criadas as unidades especializadas. Eu fiquei, fui trabalhar com Cordão, que passou a ser o gerente da Unidade Especializada de Educação - o Centro de Educação, que se chamava… Como é que eu esqueci o nome? Era Centro de Educação, mas tinha um nome que eu me esqueci agora. Daqui a pouco eu me lembro.

Eu fiquei ainda trabalhando um tempo com a formação dos professores. Posteriormente, aos poucos foi mudando essa formação de docentes e passei a coordenar a área, uma área de formação nesse centro de educação. Transformei esses cursos que dávamos pra professores em cursos que eu dei o nome de... Como é que chamava o curso que eu dava lá no centro de… “Pedagogia do ‘aprender a aprender’ e a formação das pessoas”. Parece que existe ainda esse curso; não sei se com a mesma proposta, mas parece que ainda tem esse título no Centro da Consolação. Passei a coordenar então, dava esses cursos não só pra professores de escola, professores do Senac, mas pra diretores, também pra diretores de empresas, de Recursos Humanos, na área de treinamento. Muita gente passou a frequentar esses cursos, porque viam nesses cursos a proposta de não só ser professor propriamente dito, mas de coordenar grupos. Como eles trabalhavam com grupos - o departamento de Recursos Humanos trabalha com grupos e treinamentos -, participaram muitos gerentes. Veio gente da Petrobrás do Rio de Janeiro, da... Na época era Telesp, várias empresas de grande porte. Uma vez, veio uma professora da Universidade Federal da Bahia fazer curso aqui no Senac, esses cursos que eu ministrava, então isso também me deu muita experiência. Uma visão de mundo muito maior, porque em contato com essas pessoas você automaticamente passa a desenvolver-se também. Essas pessoas também tinham uma grande contribuição pro desenvolvimento desses projetos e desses cursos. Eu coordenava também outros projetos, em outras atividades de formação em várias áreas, na “Ética e a formação das pessoas”, o “Aprender a aprender e a formação das pessoas”. Na época havia esse grande movimento, nas indústrias, de mudança na organização. Criei toda a metodologia do “aprender a aprender”, centrada no “Aprender a aprender, a formação das pessoas e a nova organização do trabalho”. Esses cursos abrangiam toda essa proposta de aliar o “aprender a aprender” à formação das pessoas e a nova organização do trabalho, que na época era muito difundida; pretendiam que ela fosse muito participativa, embora o povo das indústrias achasse que ainda estava muito centrada no taylorismo. Como processo de mudança, de transformação, é um processo lento quando se tratam de pessoas, então fazia parte também uma certa… Não demora, mas uma certa adaptação a essas novas metodologias de transformação do trabalho e transformação social. E as pessoas também aliavam muito esses cursos que eu ministrava à educação dos filhos, porque viam uma proposta muito interessante de conversa, de diálogo - os meus cursos sempre foram muito baseados no diálogo. Eu sempre me baseei muito no Paulo Freire nas minhas discussões. Se vocês pegarem hoje os meus escritos, tem muita coisa do Paulo Freire, fundamentando as coisas que escrevo na área de educação.  Então depois do centro... (PAUSA).

 

Foi criada... Acho que foi na década de 80, depois que o diretor regional passou a ser o senhor Luiz Francisco de Assis Salgado, logo em seguida… Eu não tenho precisamente qual foi o ano… Ou na década de 90 - não, na década de 90 acho que já trabalhávamos nesse centro. Acho que foi mais ou menos em 90, 91, que foram criadas as Unidades Especializadas no Senac. E depois, mais ou menos em 1995, eu passei a trabalhar no Centro de Educação Comunitária para o Trabalho - que depois passou a ser Centro de CGT, mas eu já tinha me aposentado quando mudou de nome. Fui trabalhar lá, o que foi pra mim uma grande satisfação, porque sempre tive muita preocupação social e não tinha tido ainda oportunidade de trabalhar com esse público que o Centro de Educação Comunitária trabalhava. Na Escola de Engenharia, quando trabalhava no departamento de pessoal, eu trabalhava com pedreiro, com as serventes, carpinteiros, eletricistas e com pessoal do escritório, mas era um pessoal que já tinha ou profissão ou ocupação. O pedreiro tem a ocupação; os serventes, auxiliares, todo esse pessoal. Os engenheiros, eles têm formação. Quando eu trabalhava nas indústrias, as pessoas tinham formação. Quando fui trabalhar na Escola de Engenharia, no Centro Acadêmico, eu trabalhava com estudantes da Escola de Engenharia, então era um pessoal que tinha já uma formação de elite. As pessoas que conseguem terminar o ginásio, que hoje é o Ensino Fundamental, o curso colegial, que hoje é o Ensino Médio, que estão na Universidade, são a elite intelectual do país. Independentemente da classe social, porque quando você consegue ascender na escola, você já é elite. As pessoas já são excluídas, logo que entram na escola, neste país.

Eu passei a trabalhar com essas pessoas, a maioria excluídas.

 

P/1 – A sua atuação social se iniciou com esse trabalho?

 

R – Não se iniciou com esse trabalho porque desde que eu estava na igreja dando aula de catecismo… Também fui dar aula de catecismo na zona rural. Quando tinha preparação das crianças pra fazer primeira comunhão, eu era também convidada a dar aula pra essas crianças na zona rural, então esse contato eu já tinha. Organizar programas, cursos, comecei esse contato no Centro de Educação Comunitária; o Zé Luiz Gaeta Paixão era o gerente na época. Foi nessa época  que eu comecei a desenvolver projetos pra esse pessoal. Como eu já havia também trabalhado em São Carlos, no próprio Senac, com o pessoal que vinha da zona rural pra morar nas cidades da vizinhança, que eram também cidades rurais, eu comecei a perceber a diferença de instrução entre dar um curso pras pessoas que estão frequentando a escola normalmente e dar curso pra esse pessoal que vem da zona rural, que trabalha na lavoura, os camponeses. Eles ainda não eram boias-frias, mas já eram uma tendência, porque moravam na cidade e iam pra fazenda trabalhar. Comecei a perceber a mudança de comportamento e o choque cultural da zona rural com a urbana, que é muito grande. Pra você trabalhar numa empresa, na cidade, você precisa de certos códigos que eles ainda não têm condição de ter, é por isso que são também excluídos. Muitas vezes, eles têm dificuldade até pra arrumar emprego em serviços gerais, porque a cultura rural é diferente da cultura urbana. Então o código… As pessoas dizem, “pra se comunicar não é necessário falar bem”, mas quando você vai trabalhar é. Se não você não se comunica com o público que precisa daquele serviço onde você vai trabalhar - numa loja, numa indústria, num escritório, onde quer que seja... Uma linguagem que eles dizem [que é] erudita, mas é a linguagem, o código com que as pessoas na zona urbana se comunicam. Embora hoje a nossa língua esteja deteriorada, ainda há exigências de se escrever bem o português, de se falar corretamente o português, pra que você consiga até projetar uma boa imagem da empresa, da firma, da companhia em que você está trabalhando. Então eu percebi que [a diferença] era muito grande, porque essas pessoas queriam também ingressar nesses tipos de trabalho e não tinham condição. E o Senac me mandou dar cursos, imagina só, da área de escritório pra essas pessoas. No primeiro dia que cheguei numa cidade rural em São Carlos - Ibaté, ela fica a dez quilômetros de São Carlos -, percebi que a proposta de curso que eu tinha pra lá não ia dar certo. Assim que eu comecei a conversar um pouco com eles, pra entender o que eles estavam esperando, percebi que eles não iam conseguir aprender facilmente a mexer com documentos comerciais, a escrever cartas, a mexer com essas coisas de escritório. Imediatamente, na conversa com eles, conforme fui recolhendo depoimentos, mudei a estratégia de curso pra trabalhar um pouco as relações humanas - como se davam as relações humanas deles na cidade, na roça, no campo etc. Mudei a estratégia e tive que trabalhar outro curso. Claro, comuniquei ao Senac, que era… Eles se sentiram muito mais à vontade. Depois fui introduzindo algumas coisas, questões da área de escritório pra podermos conversar e introduzi um curso mais leve, vamos dizer assim. Quando eu vim trabalhar no Centro de Educação Comunitário, essa cultura eu tinha também: que a formação deles era diferente, que tinham pouca instrução escolar e que tinham uma vivência fantástica, porque o pessoal que vinha da roça também tinha. Eu também tinha muito contato porque minha família, meus avós trabalhavam na lavoura, eram lavradores na Itália. [Quando] eles vieram pro Brasil, continuaram trabalhando na lavoura, eu tinha um tio que virou fazendeiro. Então sempre tive muito contato com esse pessoal, era da família do meu pai esse tio que virou fazendeiro. Pra mim não foi um choque trabalhar, ir pras periferias, estar em contato com esse pessoal porque eu sempre achei que essa gente tem muita coisa interessante pra gente aprender, pra aprendermos na vivência com eles. Eles têm uma experiência de vida fantástica. Fui construindo os programas, os projetos, desenvolvendo com o nosso pessoal no Centro de Educação Comunitária, tendo um contato direto com todos os professores. Eu já tinha [contato] com os professores das unidades do Senac, com os gerentes, por causa da vivência. Nós demos cursos em quase todas as unidades do estado de São Paulo, então tínhamos muito contato com todo esse pessoal. E lá no centro, especificamente, que tinha uma metodologia de trabalho diferenciada, era uma unidade onde eu não tinha conseguido ainda dar cursos. Algumas pessoas tinham feito cursos comigo lá no Senac, na [Rua] Dr. Vila Nova, mas reunir todo o pessoal, discutir os programas, discutir os cursos, isso eu passei a fazer lá dentro.

 

P/1 – Como eram as atuações desse centro e a sua atuação direta no Centro de Educação Comunitária?

 

R – Eu trabalhava com a formação de todo o pessoal e trabalhava muito na supervisão de todo o trabalho que era desenvolvido lá. A Neusa Góes, quando fui trabalhar no Senac, era a técnica principal da unidade; depois ela foi nomeada gerente, quando o Zé Luiz se aposentou. Quando ela foi nomeada gerente, eu passei a ser a pessoa que dava assessoria direta pra ela. Como ela tinha muita atividade externa, eu coordenava todas as atividades lá dentro.  

Sempre tive um relacionamento muito bom lá com todo mundo, adoro esse pessoal até hoje. Mesmo com as pessoas que já saíram do Senac eu mantenho contato, estamos sempre conversando, via telefone ou correio eletrônico; muitas pessoas do Senac com as quais trabalhei, tenho muito contato até hoje. Hoje também participo do grupo do Senac dos aposentados e simpatizantes. Todo mês tem almoço, nos reunimos e quem quiser pode participar, tanto que tem muita gente que está na ativa e que participa também. São pessoas que eu gosto muito.

Eu gostei, o Senac foi uma experiência muito grande de vida pra mim e foi um lugar… Eu sempre trabalhei muito tempo: no centro acadêmico eu trabalhei por dez anos, no Senac eu trabalhei por 26 anos, uma parte desses dez do centro acadêmico eu trabalhava no Senac também. Sempre trabalhei muito tempo nas empresas, nunca fui despedida em nenhuma empresa onde eu trabalhei; eu sempre pedi a conta e sempre me perguntaram quanto eu queria ganhar pra ficar. Eu sempre estava mudando porque eu gosto de mudar. No Senac, talvez eu tenha ficado muito tempo porque mudei muito de trabalho, tive sempre outras perspectivas, sempre aprendi coisas novas. Todo lugar em que eu trabalhei, eu sempre falava assim: “Sou desbravadora dos sertões em todos os lugares em que eu vou trabalhar e preciso implantar coisas porque não tem”. Fui sempre tendo que desbravar, aprender coisas novas, pra poder desenvolver meu trabalho. Foi com isso que eu adquiri todas as experiências que tenho hoje e lá no centro passei a ter muitos contatos com as organizações sociais. Também passei a ter muito contato com empresas. Eu passei também… Auxiliei um pouco o programa “Educação pro trabalho” - a Neusinha foi a idealizadora do projeto, mas depois da implantação eu também auxiliei bastante, na implantação e na finalização do programa. Fui em Brasília, também fiz contatos em Brasília. Tive também participação direta na alfabetização de adultos; tive a participação direta na coordenação, fiz muitos contatos em Brasília pra poder implantar o projeto de alfabetização de adultos. Tive muito contato com universidades, principalmente com a PUC e com a USP, quando nós implantamos o projeto; no recrutamento de professores, nos docentes que iam lecionar no projeto, com as ONGs, pra nós implantarmos. Depois também, pra buscarmos patrocínio pra desenvolver o “Educação para o trabalho”, pra fazermos as parcerias de alfabetização de adultos e em outros programas que o Educação Comunitária implantava aqui em São Paulo. Tivemos que buscar muitas parcerias. Participei muito dessas atividades e fazia também a divulgação, montava os projetos, os programas. Nessas batalhas todas, que travamos juntos no Centro de Educação Comunitária, ele tomou o vulto que ele tem hoje.

Na época do José Luiz, o centro passa a ser… Era Uniforte, Unidade Móvel de Formação Profissional; na gestão do Zé Luiz passa a ser denominado Centro de Educação Comunitária para o Trabalho. Passa a ter esse enfoque mais amplo, a mudar a sua estratégia de atuação também. A Uniforte trabalhava nas cidades onde não havia unidades do Senac, eram cidades menores. Aqui, trabalhava muito nas periferias de São Paulo com organizações sociais, que não tinham estrutura ainda, eram muito precárias. O Centro de Educação Comunitária passa a ter uma outra visão da formação profissional nessas periferias. Passa a atuar em São Paulo - nessa época a Uniforte também já estava muito centrada aqui em São Paulo, passa a profissionalizar essas organizações sociais, dando um caráter mais profissional a elas. A relação não é de… Como é que fala? De beneficência, é de formação, então tem que ser mais profissional. Depois vão se desenvolvendo os projetos, surgem as organizações não-governamentais, que são as ONGs atualmente. Elas vivem muito com verbas do governo, mas na época ainda tinham um caráter mais independente - nasceram com essa proposta de ser mais independentes, mas também têm muita dificuldade. Passam a receber verbas governamentais, até porque passam a substituir o Estado em várias atividades. Elas formam todas essas parcerias e passam, por conta disso, a receber mais verba dos governos municipal, estadual e federal. O Senac também passa a atuar na profissionalização dessas organizações sociais, trabalhando muito diretamente com as pessoas que desenvolvem os projetos, os programas e quem coordena esses programas. A primeira experiência, me parece que foi a parceria com a ABRINQ, para desenvolver as organizações sociais. A ABRINQ tinha os projetos, estava precisando, então o Senac fez o primeiro projeto de profissionalização de organizações sociais não-governamentais. Depois aplica toda essa tecnologia pra desenvolver outras organizações. O Senac faz as parcerias e passa a desenvolver docentes de organizações sociais, coordenadores e até diretores, porque antes implantava os cursos nessas organizações; depois ele passa, além de implantar os cursos, a profissionalizar esse pessoal.

 

P/1 – Você atuou diretamente na Uniforte?

 

R – Não, só quando ela fazia trabalhos na região de São Carlos. Não sei se você sabe, as unidades se localizavam em cidades estratégicas e tinham que dar conta de várias cidades que estavam no seu entorno. São Carlos, na época que eu trabalhava lá, dava conta de quase 40 cidades; quando a Uniforte ia pra essas cidades, nós sempre dávamos apoio. Estávamos junto, participávamos. O Senac também participava dos programas que eram desenvolvidos com a Secretaria do Trabalho do estado, com financiamentos federais pra desenvolver programas em várias cidades desse entorno. Nós participávamos não só como docentes, mas também contribuíamos com a organização e administração. Embora o pessoal da Secretaria de São Carlos tivesse um pessoal especializado, na época eram diferentes as estruturas governamentais. Eles organizavam e nós participávamos com eles da divulgação, do recrutamento das pessoas que participavam desses cursos. Tínhamos muita parceria com esses projetos. Depois, quando houve o desenvolvimento desses projetos com o FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador], eu já estava trabalhando aqui em São Paulo. Passei a coordenar todos esses programas com o FAT aqui com a Secretaria, que já se chamava Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo e com aqueles programas que eram pra desempregados, que eu não me lembro… Eram os cursos, como se chamavam aqueles cursos que trabalhavam com desempregados, tinha na prefeitura e tinha no estado? Era pra desempregados, a pessoa trabalhava quatro dias em repartições públicas e um dia ela ia pro Senac, pra fazer curso. Acho que daqui a pouco vou lembrar como se chamavam esses programas. Eu coordenava tudo isso, não só aqui em São Paulo, mas no estado inteiro; eu fazia toda a coordenação desses programas. Tivemos que montar, no Senac, todos os cursos de qualificação profissional pro FAT. Depois nós também montamos esse [curso] pra desempregados, da prefeitura. Eu me esqueci como chamavam esses cursos, mas daqui a pouco eu me lembro. Você não lembra também, Lourdes?

 

P/2 – Requalificação?

 

R – Era requalificação, mas ele tinha outro nome que era pra… Esse pessoal trabalhava.  O pessoal do FAT não, só fazia curso pra requalificar; esse pessoal do programa da prefeitura e do estado pra desempregados tinha um nome especializado. Desculpa, acho que mais ou menos... Não sei se eu deixei de falar algumas coisas que vocês querem, podem ficar à vontade pra perguntar.

 

P/1 – Esse Centro, que é o Centro de Educação Comunitária, e toda essa trajetória que você vem descrevendo, você entende que é diferenciada de outras atividades da instituição Senac?

 

R – Olha, na época...

 

P/1 – Por que eu lhe pergunto isso? Você vem narrando todo um trabalho que vai considerando o perfil das pessoas que vão se aproximando, tem uma análise das pessoas que estavam no campo, da cultura, da questão urbana… Enfim, tem um contexto que você vem trazendo junto com essa história do Senac, até chegar no Centro de Educação Comunitária. Esse trabalho é diferenciado dentro da instituição?

 

R - Na época ele era, por uma questão muito simples: os programas do Centro de Educação Comunitária eram gratuitos porque trabalhavam prioritariamente com o pessoal de baixa renda - baixa mesmo, que não tinha condições pra pagar os cursos do Senac. Eram programas diferenciados e eram também outros tipos de programa. Enquanto existiam no Senac as unidades que davam cursos na área de escritório, formação de pessoal pra atender demanda de escritório… Eu não entendo escritório como está difundido no Brasil, escritório [como] lugar de burocracia; eu entendo escritório [como] um lugar de negociação porque é no escritório que se dão todas as relações de negócios, de compra, de venda, de pagamentos, recebimentos, marketing, tudo isso, de relações sociais, fiscais, trabalhistas etc. O escritório, embora não pareça, porque as pessoas no telefone parece que são máquinas, é um lugar de negociação por excelência, então eu entendo escritório como lugar de negociação e não de burocracia. Existe uma burocracia que organiza essa organização, mas não deveria ser prioritária como ela é. As pessoas que estão nos escritórios deveriam ser treinadas para atender os clientes e negociar com eles , porque é isso que se faz em escritório, né? Desde o meu primeiro emprego foi isso que eu fiz;  meu primeiro emprego foi na área de vendas, então eu atendia os clientes ao telefone, tinha os vendedores. Os [cursos] de educação comunitária são diferentes, têm que ser dados de forma diferente - uma metodologia diferenciada, porque as pessoas têm pouca instrução. Embora se ensinassem as mesmas coisas, tinha que ser de uma forma que aproximasse muito mais o docente do seu aluno. Embora já estivesse, em grande divulgação e atuação, a metodologia do “aprender a aprender”, lá ela tinha que ser muito maior, mais especializada da parte do docente, pra que esse docente pudesse entrar diretamente no mundo desse aluno - cliente, como o Senac gostava na época de dizer; não sei se isso ainda hoje se mantém, mas eu acho que está mais ameno, pode se falar aluno, professor. Na época, a preferência era por cliente, por docentes etc.

Ele tinha que entrar nesse mundo do aluno pra ter maior facilidade de conversar, de dialogar com ele, pra que pudesse ensinar e os alunos aprenderem a tecnologia que esses docentes tinham pra que aprendessem. É claro que a ênfase sempre foi na aprendizagem, acho que desde que entrei no Senac tive isso muito claro que não é importante o que se ensina, mas é importante o que se aprende e como se aprende - aí passa a ser importante o que se ensina e como se ensina. Mais recentemente, também passamos a trabalhar com o desenvolvimento das competências, que já era uma coisa muito falada nas companhias, nas empresas, mas ainda pouco conhecida. Quando se falava “você é competente”, era porque você sabia fazer as coisas muito bem e resolver problemas muito bem, mas as pessoas não tinham muito claro como é que se dava esse “fazer bem e resolver bem os problemas”. O ensino por competências passa a destrinchar isso e a dar mais, a instruir mais a respeito de como se dá a competência e como ela se articula nas cabeças das pessoas, pra que elas consigam resolver os problemas de forma competente, quer dizer, adequada. Como você analisa o problema, levanta as hipóteses, raciocina em torno delas, analisa, faz comparações, assimilações, pra decidir por uma solução que vai realmente solucionar o problema, embora às vezes a gente erre. Os erros passam a ser experiência de vida e não mais motivo de reprovação; tudo tem o seu limite, porque cada um tem um conhecimento que a experiência de vida levou a ter. Solucionamos os problemas de acordo com a nossa experiência de vida; às vezes não é a melhor solução porque não chegamos ainda no patamar de buscar a melhor solução. É isso que o professor, os dirigentes, os líderes têm que entender, que cada um tem o conhecimento, que o conhecimento e individual, embora ele seja... Que aprendizagem é coletiva, mas cada um produz o seu conhecimento; no convívio social ele se aperfeiçoa, se modifica, se transforma, mas cada pessoa tem um estágio de desenvolvimento cognitivo, que leva a tomar decisões que às vezes não são as melhores, mas que naquele momento era a condição que ela tinha. Por isso que eu gosto muito de uma frase da Fanny Abramovich, quando ela diz, naquele livro dela “Quem educa quem?” que eu acho muito interessante, que o importante não é só ensinar, mas entender que as pessoas chegam ao ponto que elas puderem naquele momento. Que elas tenham, percebam que têm uma longa trajetória a seguir, é mais ou menos isso que ela diz. Acho isso muito importante,  acho que isso é fundamental para que possamos ter uma relação social harmônica, gloriosa, simpática, elegante com as pessoas e de entendimento com cada um. É isso que faz o nosso convívio social ser agradável, ser interessante, que incentiva as aprendizagens e o nosso relacionamento, porque somos todos iguais. Isso é importante numa sala de aula, que o professor perceba que está numa relação de horizontalidade. Todos têm a oportunidade de se expressar, a oportunidade de falar, é o diálogo que permeia tudo isso. É o diálogo que nos torna iguais.

 

P/1 – Você fala com muita paixão, Cléo. O quanto você contribuiu e influenciou nessa trajetória sua de atuação no Senac, nos produtos que você ajudou a elaborar e criar?

 

R – Não é que eu me preocupei, mas eu acho que sempre consegui ser o que eu sou. Sempre as pessoas me disseram, não só as pessoas que estiveram comigo em sala de aula, mas as pessoas com quem eu convivi no trabalho, nas relações de amizade, que eu sempre fui muito eu. Uma vez, uma pessoa num curso - ela era, acho, gerente de recursos -, de treinamento numa Secretaria de Estado, eu acho que na do Meio Ambiente, se não me engano... Ela virou pra mim e disse assim, “Cléo, você não ensina o ‘aprender a aprender’, você é o ‘aprender a aprender’, porque você não se esforça, você participa com a gente como um igual. As teorias são suas, não são coisas que você está repetindo de livros, de onde você ouviu. Você não está repetindo, você criou o seu discurso, o discurso é seu”. Várias pessoas sempre me disseram isso, que eu tinha um discurso que era meu. No discurso livresco, você repete o que o outro disse, mas nem sempre incorporou, porque acho que aprender é incorporar as aprendizagens. Por isso que é complicado quando o aluno responde hoje numa prova o que foi perguntado e amanhã ele esquece. O professor deu um embrulho e pediu o retorno do embrulho, como fala o Álvaro Vieira Pinto, no “Sete lições sobre educação de adultos”. Os mestres agiam como [se estivessem] dando um embrulho e na prova pediam a devolução do embrulho. Quer dizer, faz a pergunta pra responder aquilo que ele ensinou e do jeito que ele ensinou. Aprender é incorporar as aprendizagens e suas ações passam a refletir aquela aprendizagem. Acho que isso contribuiu muito, porque até hoje encontro pessoas que trabalharam comigo na década de 70 e em outros locais que dizem “Até hoje estou aplicando o que você me ensinou”. Eu até dou risada e digo “Mas você não mudou nada? O mundo já mudou bastante, né?”. Eles falam “Não, mas a maneira de aplicar é que fica”. No Senac também, muita gente com quem eu convivi, com quem eu trabalhei, os cursos que eu dei, dizem pra mim que foram de grande valia porque estão aplicando até hoje tudo que aprenderam. Outro dia, estava num sebo da Rua São Bento. Encontrei uma pessoa que fez curso comigo, acho que há uns dez anos no Senac. Eu nem lembrava. Ele disse assim pra mim, “Cléo, eu fiz curso com você lá na Dr. Vila Nova, esqueceu?” Aí eu lembrei. Ele falou, “Nunca fiz um curso tão interessante na minha vida, estou aplicando até hoje”. Ele já se formou em Direito. Eu falei: “Que bom ouvir essas coisas”. Eu sempre encontro muita gente, sempre participo de seminários na área de Educação. Encontro muita gente com quem trabalhei, dei cursos, meus ex-alunos, então eles sempre me dizem alguma coisa que me deixa gratificada, gratificada pelos elogios. A maneira como eles falam, aquele carinho que eles têm, acho isso muito interessante.

 

P/2 – Você atuou no Senac até que ano?

 

R – No ano de 2000 me aposentei; acho que foi em outubro, mais ou menos.

 

P/2 – Com o CTG?

 

R – [Quando] eu trabalhava lá, não era CTG ainda...

 

P/2 – Ah e...

 

R – Ele passa a ser CTG depois, acho que logo que eu saí, se não me engano.

 

P/2 – Sim. Me fale um fato marcante da sua atuação, das suas trajetórias todas do Senac.

 

R – Quando eu fui trabalhar em São Carlos… Eu me esqueci de mencionar que enquanto trabalhei lá também promovi paralelamente atividades que eu tinha por obrigação desenvolver. Eram as atividades de coordenar os projetos, os programas, os cursos, os contatos, tudo isso que a gente faz no Senac. Eu fiz dois salões de arte, artes plásticas, que tiveram assim uma repercussão enorme, não só na cidade, mas na região, porque as pessoas se inscreveram, participaram. Em São Carlos, no começo da década de 70, eu participei da organização de dois festivais nacionais de teatro amador, que foram os dois únicos, porque depois as prefeituras passaram a não dar mais apoio. Hoje o [festival] de São José do Rio Preto, que começou depois do nosso, é internacional; o de Santos também, acho que começou conosco, Ouro Preto começou um ano depois. O nosso parou por falta de apoio político da prefeitura. E dois festivais nacionais de cinema, em São Carlos. Eu sempre tive uma cultura muito voltada pras artes. Então era promoção do Senac de São Paulo, mas eu coordenei esses dois projetos de salas de arte em São Carlos. Eu dei uma amplitude um pouco maior do que ele tinha, por causa dessa minha… Busquei patrocínio nas empresas, busquei dinheiro, patrocínio pra montar, então pude montar coisas um pouco maiores. Promovia também jantares nos restaurantes que o Senac tinha em São Carlos, típicos, então ano indiano, noite árabe, e convidava os árabes da cidade pra ir lá trabalhar junto com o nosso pessoal do restaurante, pra fazer os jantares… Os italianos, noite portuguesa. Depois o pessoal do Senac tocou; onde existiu o restaurante também houve essas manifestações. Acho que tudo que eu fiz no Senac sempre me marcou muito.  O ensino profissional, passei a ter mais contato com ele quando fui trabalhar na Escola de Engenharia, que era o ensino profissional por excelência, já era o terceiro grau. Quando eu entrei no Senac, os cursos eram muito voltados pro especifico e eu achava que só aquilo não era suficiente, que os cursos tinham que abranger a parte das relações humanas e as outras questões que envolvem o trabalho, como a segurança no trabalho, a higiene no trabalho, a questão da apresentação pessoal no trabalho. Essas coisas são muito requisitadas.

Eu achava que a formação tinha que ser mais ampla e que a cultura geral era primordial pra que você conseguisse assimilar as técnicas específicas do trabalho daquela ocupação. Então, por exemplo, porque uma pessoa tem que saber se situar geograficamente, saber localizar a cidade, onde vive, conhecer a cidade onde ela vive, como ela se locomove dentro dessa cidade? Por que é importante? Porque ela vai lidar no trabalho dela com outras pessoas, de outras cidades, com outras culturas, porque as culturas são muito regionais também e com formações das mais diversas, então ela precisa saber transitar nesses meios. Ela precisa saber História, Geografia, precisa ter um conhecimento da Sociologia, que é o que rege as relações humanas. E precisa ter conhecimento da legislação trabalhista, da legislação tributária.

 

P/1 – Vai ser necessário trocar uma fita.

 

R – Já falei quarenta minutos?

Além de tudo isso que eu já mencionei, que as pessoas precisam ter cultura geral pra poder ter uma desenvoltura no trabalho, ter uma postura profissional, as pessoas devem saber, independentemente do curso que estão fazendo, porque pagam impostos. Onde esse dinheiro é aplicado, que é recolhido no país? Por que que então nós não temos todos esses equipamentos que deveríamos ter, à medida em que pagamos impostos? A pessoa precisa saber fazer análise política, não só política partidária, mas política de projetos sociais, de ações e de políticas públicas. As pessoas precisam saber intervir, atuar nesses projetos, pra poder reivindicar, senão você fica reivindicando por reivindicar e não sabe nem porque está reivindicando, como às vezes a gente vê, entrevistando alguém que está no movimento: “Fulano, que é que você está [fazendo] aí?, “Eu não sei. Vi, passando, e entrei”. A pessoa tem saber porque está ali, tem que saber reivindicar, porque ela está reivindicando. Pra isso, ela tem que fazer análise social e política do momento que ela está vivendo. Pra ela fazer análise social e política do momento que está vivendo é necessário que ela conheça a história do seu país, do seu povo, a história dela nesse contexto social - quer dizer, contexto é sempre social, é redundante - pra você fortalecer o que você está dizendo, você fala de contexto social. Eu achei sempre muito importante que, além de aprender as técnicas de trabalho… As pessoas também tinham que ter desenvolvido essa cultura social. Não precisa ter a matéria específica, porque eu sempre achei isso bobagem, mas dentro do que você está estudando o professor tem que ter uma formação ampla, pra que ele possa discutir essas questões com os alunos. Como? Não criando discursos e discussões à parte, mas fazendo com que essas discussões surjam daquele ensino que ele está se propondo a fazer. Isso também é uma arte. O professor pra mim é um artista, porque é uma arte ser professor.  Embora hoje as pessoas achem que qualquer pessoa possa ser professor, não é bem assim. Acho que as pessoas têm que ter um bom preparo, um bom desenvolvimento intelectual e uma boa formação pra enfrentar uma sala de aula.

 

P/2 – Eu tenho uma curiosidade, Cléo. Queria que você falasse um pouco sobre o perfil desse profissional. Queria que você falasse se você consegue perceber características comuns entre esses profissionais que atuam nessa área ou se é uma coisa...

 

R – Qual área?

 

P/2 – Na área social, que fez esse trabalho diferenciado no Senac, identifica um, um traço… Queria que você falasse um pouco sobre isso, o perfil desse profissional.

 

R – Uma coisa, que me parece que as pessoas de um modo geral têm… Elas têm que ser abertas, têm que saber ouvir e não podem nunca… Aliás, professor nenhum, educador nenhum, líder nenhum pode repreender as pessoas porque não tomaram uma decisão correta, quer dizer, a mais adequada para aquele momento. Eu acho que as pessoas têm que ser abertas, têm que saber entender o que ocorreu com a cabeça do outro pra que ele tomasse aquele tipo de decisão e acho que muitas pessoas que trabalham na área da docência, da formação, da educação comunitária têm isso. No próprio Centro de Educação (que hoje se chama Senac Penha), que está ainda lidando com essas questões sociais, eles têm esse perfil, acho isso essencial. As pessoas precisam ter participação, iniciativa, colaboração; precisam assumir o compromisso e a responsabilidade pela sua ação, pra que ela possa estabelecer isso também junto como seu grupo de trabalho - pra mim isso é essencial. Esse é o perfil que eu acho que tem…  Não adianta eu dizer assim “Eu deixo os meus alunos participar”. Na medida em que você está falando isso, você é autoritário, porque o participar não é deixar, é criar situações em que participem, criar as situações em que tenham iniciativas, pra que as pessoas sejam criativas. Ninguém pode ser criativo “do nada”. Não adianta eu dizer assim, “Desenha uma flor qualquer”. Como tem aquela história da professora, que sempre pediu pro aluno desenhar a flor que ela queria que ele desenhasse. Depois, ela pede pra cada um criar uma flor e eles desenham. Os alunos desenham a flor que ela sempre pediu que eles desenhassem, né? Então você não cria situações de participação, de iniciativa, de colaboração e compromisso. Quando você participa, você tem iniciativa, você assume, se responsabiliza, coopera com as pessoas, porque o trabalho cooperativo é: cada um faz uma parte, depois nos juntamos, vamos criar um trabalho só. Isso é trabalho cooperativo. Se você não cria situações em que isso ocorra, você não consegue isso, nem no seu trabalho, nem na sua sala de aula, em lugar nenhum; nem como líder, nem como docente, nem como chefe, nem como gerente. Essas qualidades, eu acho essenciais.

Tenho um irmão que dá aula na Universidade; ele dá várias questões, depois tem uma pergunta que ele diz assim: “Agora faça a pergunta que você queria responder e eu não fiz”. Numa prova, porque eles são obrigados a fazer prova. Tem algumas questões que ele dá um tempo pro pessoal resolver sozinho; as que eles têm dificuldade, ele manda se reunir com outro, porque ele diz assim: “Quando a gente está trabalhando e tem dúvida, a gente tenta perguntar pra um colega que sabe aquilo pra resolver o problema. Quando o colega também não sabe, a gente telefona pra uma pessoa que a gente conhece que tem mais experiência, pra ajudar a gente a resolver o problema, não é assim? Então aqui na sala de aula também é assim, pra vocês perceberem como as pessoas colaboram umas com as outras no trabalho”.

Eu acho isso importantíssimo, que estabeleçamos essas relações no nosso grupo de trabalho. Grupo de trabalho pra mim é qualquer trabalho: no escritório, na sala de aula, no grupo social, no grêmio, na associação, onde estivermos.

 

P/1 – Você está falando de relacionamentos, Cléo. Conte um pouco pra gente sobre os relacionamentos que você cultivou no Senac.

 

R – O pessoal do Centro é um pessoal que eu tenho o maior carinho e que tem comigo também porque nunca se esquece de mim, a exemplo do que estou fazendo hoje aqui. Tem várias pessoas que eu não sei… Se eu nomear, posso estar incorrendo em… Esquecer de falar sobre alguém. Não é esquecer, mas por algum motivo deixar de mencionar. Percebo quando eu as encontro em uma festa na rua ou no restaurante, em qualquer lugar que eu esteja, que eu encontre as pessoas. Os novos, as pessoas pras quais eu sou apresentada, dizem assim: “Você é a Cléo, o pessoal fala muito em você lá”. Acho que isso é um carinho enorme. Embora eu não tenha grandes… Tenho algumas pessoas que são muito próximas de mim, que hoje também não trabalham mais no Senac, mas que trabalharam. Outro dia mesmo, encontrei uma pessoa no teatro que trabalhou comigo, no Centro de Tecnologia Educacional. Ela trabalhou uns dois, três meses lá. Ela fez a maior festa na entrada do teatro quando me viu, lembrou meu nome,  conversamos muito. Ela me deu mil abraços, mil beijos, me apresentou pras pessoas que estavam com ela, [disse] que eu fui uma grande companheira, ela trabalhou alguns meses no Senac… Eu achei fantástico, falei “nossa, mas que maravilha”. Acho isso muito bom. Mesmo quando eu viajo, lá em São Carlos eu encontro as pessoas que trabalharam comigo no Senac, elas fazem a maior festa. O pessoal fala assim, “mas que falta que você faz”. Puxa, quer coisa melhor que isso? Fico muito feliz com essa retribuição que eu tenho e é o carinho também, que eu acho que sempre tive, que faz… Sempre tive muito amor pelas pessoas que me rodearam.

 

P/1 – E conte quais são as atividades que você tem atualmente.

 

R – Atualmente eu desenvolvo projetos. Eu presto serviços, desenvolvo projetos pra algumas organizações sociais. Pro próprio Senac eu desenvolvi vários projetos, fiz também alguns projetos de pós-graduação. Fiz alguns projetos lá no Centro, no CTG, e Centro de Tecnologia...

 

P/1 – E Gestão.

 

P/2 – do Terceiro Setor.

 

R – Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor. Faço também muita revisão de projetos em algumas empresas. Elas mandam [projetos] pra eu fazer revisão, às vezes elas mandam também pra eu montar o projeto. Faço revisão de tese, revisão de dissertações de mestrado, teses de doutoramento; faço também revisão de trabalho, de conclusão de curso. Faço revisão -  eu não faço o trabalho. Quando alguém me propõe fazer o trabalho, eu não acho isso legal. Quando as pessoas falam assim: “Você faz o trabalho pra mim?”. Eu falo “Fazer não, eu faço revisão do que você tiver pronto”. Eu não faço, acho isso deselegante, antiético.

 

P/1 – Você disse que tem alguns textos escritos. Fala um pouco pra gente quais são, qual é esse seu trabalho...

 

R – São projetos que eu faço. Faço projetos, por exemplo, de cursos. Tenho que fazer a introdução, fazer a justificativa, criar a metodologia, então é nesses trabalhos que eu introduzo muitas teorias de autores que eu gosto, que eu me identifico. Eu tenho que justificar, você tem que fundamentar o que você está dizendo, então eu cito Paulo Freire, cito muito Álvaro Vieira Pinto, cito a Léa Depresbiteris, que também eu gosto muito, a Fanny [Abramovich] e outros educadores que estão em voga. O [Manuel] Castels, aquele espanhol que eu gosto muito, sociólogo; [Mário Sérgio] Cortella, eu também gosto muito dele, o próprio Jarbas [Novelino Barato], que tem muitos textos, eu o cito muito. Busco muito nessas pessoas, quando eu preciso de textos pras pessoas trabalharem na área de educação. Você sabe que foi no Centro de Tecnologia e Gestão Educacional que eu fundamentei toda a teoria que eu criei no “Aprender a aprender e a formação das pessoas”. Eu criei toda a metodologia, toda a teoria que fundamentou a metodologia do “Aprender a aprender”. Uma das primeiras pessoas que fez isso fui eu, só que eu não escrevi. As pessoas que fizeram cursos comigo publicaram muitas coisas e eu percebi que foram muito fundamentadas nas teorias que eu tinha desenvolvido com elas, em sala de aula.

 

P/1 – Cléo, agora estamos caminhando pro final da entrevista. Conta pra gente quais são seus projetos de vida?

 

R – Eu continuo trabalhando, gosto muito de fazer o que eu faço. Gosto muito de cinema, de teatro, de bailar, eu gosto muito de dançar. Faço as coisas, vou fazendo. Eu tenho muitos amigos. Tenho amigos que convivem comigo hoje que são amigos de infância, moram inclusive aqui em São Paulo e eu convivo com eles também, tem os amigos novos que eu fiz aqui na cidade e convivemos muito. Às vezes eu trabalho também com eles; quando tenho muito trabalho, eu divido um pouco com as pessoas. Tenho muitos trabalhos.

O meu projeto de vida é ter um bom relacionamento com as pessoas. Gosto de viajar, sempre que posso eu viajo. Agora não, está meio difícil, mas agora que o dólar está baixando, quem sabe o euro abaixa também? A gente pode fazer algumas viagens, gosto muito disso. Eu fiz algumas viagens internacionais, gostei muito de tê-las feito; foi pra Europa, mas é para lá mesmo que eu gosto de ir.

 

P/2 – Que lugar você conhece?

 

R  - Eu conheço a Itália; muitas cidades, bem no interior da Itália, são lindíssimas. Adorei a Itália, porque acho que o italiano gosta muito da sua pátria e isso foi passado pra mim pelos meus avós, pelos meus tios. A cultura italiana sempre foi muito presente na minha casa. Estive em Paris umas três vezes, fui pra Londres uma vez só. Fui pra Áustria, pra Praga, pra Roma três vezes e visitei…

Na primeira vez que eu fui pra Europa, fui pra Itália, então visitamos várias cidades e foi muito bonito. Recentemente eu estive, no final de maio, numa festa em Santa Catarina que se chama “Ritorno Alle Origini” [“Retorno às origens”, em italiano],  justamente numa região da Itália que colonizou a Santa Catarina. Esse pessoal veio como imigrante, mas o governo deu terras pra que eles povoassem aquela região, que não tinha ainda muitas pessoas. Então deu teto pra esses italianos, eles foram pra lá colonizar e preservam até hoje a cultura italiana, que por coincidência vem de Vêneto, que é de onde meu avô materno vem; ele é de Padova [Pádua, em português]. Achei lindíssima a festa, eles falam italiano até hoje. Embora estejam na terceira, quarta geração, eles falam italiano desde que nascem. Nas escolas também tem [ensino de] italiano e português, então eles falam muito bem italiano. Eu me deliciei porque eles usavam as mesmas expressões que meu avô usava. Tive muita convivência com meu avô materno porque meu avô paterno morreu antes de eu nascer. Eles usavam as mesmas expressões, o mesmo jeito de falar, as mesmas histórias que meu avô contava que eram feitas nas colônias italianas, eles também faziam na gincana que  fizeram lá. Eu me deliciei na festa. E andei por todas as cidades, o roteiro da colonização italiana, achei muito bonito. São as viagens internacionais que eu fiz, andei por esses lugares. Onde eu vou mais? Eu visito museus, eu visito os lugares onde tem arte, que na Itália é lindíssimo… Vou a concertos, gosto muito também. As igrejas são belíssimas, os corais são muito bonitos. É isso que eu gosto de fazer. Visitei na Itália os museus de Roma, a Itália e um museu a céu aberto, tudo é arte na Itália! É uma beleza, visitamos Pompeia, as ruínas de Roma, o Coliseu… Nossa, uma coisa maravilhosa. Se tivesse dinheiro eu vivia visitando essas coisas, porque é muito gostoso. A Itália tem um negócio assim: a gente estuda História no ginásio - História de Roma, História Antiga, História Geral e estudava-se mesmo a história romana, a história egípcia, a história dos gregos. Estudávamos mesmo, não só porque os professores eram muito bons, mas também porque achávamos aquilo uma maravilha. Imagina estudar o Julio César, Augusto, a Grécia Antiga e aquelas coisas que aconteciam. Parecia que a gente estudava, só que era bonito também. Eles falavam de leve das lutas, das guerras do Peloponeso, de Esparta, da destruição dos impérios, dos assírios, dos hebreus, dos caldeus, dos gregos, mas era uma coisa que a gente achava fantástico. Quando você chega num lugar, por exemplo, você chega na Itália e você vê essas coisas que você estudou, é outra história. Você entra no Coliseu, você estudou aquilo lá no tempo do Nero... Então você vê aqueles monumentos belíssimos que foi não sei quem que construiu, outro imperador não sei de onde, você fala: “Puxa, que maravilha! Eu estudei tudo isso nos livros, eu vi tudo isso nos livros de História e agora eu tô pisando no mesmo lugar que eles pisaram”... Pompéia, né? Eu acho isso fantástico. Hoje eu não sei, eu acho que a moçada não estuda mais nada disso nas escolas, mas nós estudávamos e gostávamos muito.

 

P/1 – Seu sonho?

 

R – Humm?

 

P/1 – Qual o seu sonho?

 

R – Ganhar na loteria!

 

P/1 – Pra poder viajar?

 

R – Também. (risos) Eu vou ganhar, você vai ver. Até hoje ganhei dois reais na Lotofácil. Eu ganhei dois aqui, dois ali. (risos)

 

P/1 – Você gostaria de contar algo que a gente não perguntou?

 

R – Eu gostaria de perguntar pra vocês se vocês gostariam de saber algo que eu não falei, porque eu acho que eu falei… Falei sobre minha família, falei sobre minha mãe, falei sobre os meus avós, os meus irmãos. Eu tenho… Minha irmã mais velha é voltada às artes, ela sempre desenha, pinta muito bem. , Dá cursos de pintura e de desenho -  e música, ela toca quase todos os instrumentos. Ela é autodidata, aprende a tocar qualquer instrumento que você der pra ela; no dia seguinte, ela já está tocando, mesmo que nunca tenha visto o instrumento. Ela sempre foi assim, sempre deu aula na cidade - de música, de canto. Ela tem uma voz lindíssima, canta muito bem, e meu irmão é formado em Administração de Empresas e em Pedagogia. Depois ele fez mestrado também na área de Educação na Federal de São Carlos, tem vários cursos de especialização também. Tem uma coisa marcante na vida dele: quando ele foi receber o diploma  na Faculdade de Filosofia da UNESP de Araraquara… Quando foi anunciado o nome dele pra pegar o diploma de pedagogo, uma professora disse: “Esse eu faço questão de entregar”, uma professora titular. Na hora que ela foi entregar o diploma, ela disse pro povo inteiro, “ele foi o melhor aluno que já passou pelas minhas mãos nesta faculdade”. Foi uma glória, todo mundo aplaudiu e eu achei aquilo muito bonito. Ele também é professor, muito bom professor, porque os alunos dele acham que ele é ótimo professor também. Então nós três estamos nessa área, acho que por influência da minha mãe mesmo, porque ela gostava muito. Ela achava professor a coisa mais linda do mundo.

 

P/2 – Você falou da sua mãe, que ela trabalhou bastante, que trabalhos ela desenvolveu pra criar vocês três...

 

R – Minha mãe fez de tudo.

 

P/2 – Vocês três.

 

R – Ela fez de tudo, até porque ela não tinha quase instrução. Naquele tempo, as pessoas iam pouco à escola, principalmente as mulheres. Os homens iam mais. Meu avô tinha essa cultura, que mulher não precisava ir pra escola.

Minha mãe fez de tudo e depois também começou a bordar, porque minha mãe bordava muito bem. Antigamente tinha a Companhia Paulista de Estrada de Ferro - não sei se vocês sabem, se conhecem, porque foi tudo desativado. Agora estão brigando, querem que ativem de novo - e a minha mãe bordava aqueles emblemas que o pessoal que trabalhava na estação tinha nos bonés e nos uniformes. Ela trabalhou muito tempo fazendo isso e só parou de fazer quando nós começamos a trabalhar. Ela lutava com muita dificuldade porque a pensão... Vocês sabem que a pensão de INSS é… Imagina antigamente o quanto era, não dava nem pra fazer a despesa de uma semana. Meu avô ajudava com o que ele podia, porque eles também eram pobres. E meu avô ajudava assim: fazia a despesa mensal e dava um [pouco] pra nós. Uma tia do meu pai, religiosamente, sempre contribuía, todo mês. Ela recebia e mandava uma parte pra minha mãe. Foi assim que nos criamos e digo que hoje ainda sou pobre, mas eu fui muito mais pobre. Graças a Deus, nós conseguimos dar pra minha mãe uma vida muito melhor, tanto que ela dizia assim, “nunca imaginei ter carro na vida”. Imagina, na época dela ter carro era uma coisa de milionário. Ela falou “e eu tenho dois aqui em casa”. Um era meu, outro do meu irmão, eram dois Fusquinhas, mas tinha dois, né? Onde ela queria ir, ela ia de carro porque a gente levava.

Eu e meu irmão construímos essa casa porque quando [meu pai] morreu, ele tinha comprado um terreno com uma casinha “pititica”. Queria construir uma casa, mas morreu e fomos criados no centro de São Carlos. Depois, quando ficamos adultos, nós fizemos o financiamento e construímos a casa, a nossa casa.

 

P/2 – Cléo, como foi pra você relembrar essas coisas todas? Como é que foi pra você participar dessa entrevista?

 

R – Eu gostei muito, porque vocês são muito agradáveis e eu gostei muito de vocês... Com você, eu já tinha um relacionamento muito grande. Como você, eu sempre estive no Senac, com a...

 

P/1 – Cecília.

 

R – Com a Cecília eu tinha conhecimento mais de leve, vamos dizer, porque tivemos menos contato. Você entrou no Senac depois que eu saí, né?

 

P1 – Foi.

 

R – Mas as vezes que estive lá, eu sempre te encontrei. A gente conversou um pouco, mas conversou. Eu sempre tenho pelas pessoas, mesmo que eu conheça pouco, um carinho, porque sempre quando chego onde trabalhei, as pessoas já me conhecem, mesmo as que não me conheciam pessoalmente. Sempre me tratam muito bem, me dão um afeto que não é comum. Eu acho isso muito legal, então gostei muito de ter sido convidada pra estar aqui. Vim com muita satisfação, com muito amor.

 

P/2 – E a gente agradece de coração, porque você é uma pessoa que tem um brilho especial. Agradeço pela generosidade porque você ajudou a gente a recuperar muito da história e foi um prazer enorme ouvir a sua história de vida. Tem muita coisa que você contou aqui hoje que também pra mim foi novidade. Foi uma honra falar com você, Cléo.

 

R – Obrigada! Eu tenho também por vocês um grande carinho, estou sempre à disposição. O que eu puder fazer… Não tenho muita coisa, mas o que eu puder fazer, puder ajudar, estou sempre à disposição de vocês todos. Quero que vocês saibam que eu tenho e sempre tive pelo Senac um grande carinho. Quando minha mãe ficou doente, eu estava trabalhando aqui em São Paulo. O Senac me mandou pra São Carlos, fiquei lá seis meses cuidando da minha mãe, só cuidando da minha mãe, que foi assim que o diretor regional falou que era pra eu fazer.  Recebi religiosamente meus salários, nunca ninguém me perguntou como eu ia repor as horas. E nunca ninguém pediu pra eu repor. Achei isso um grande carinho que o Senac teve comigo, que eu nunca tive oportunidade de agradecer. O Salgado nunca permitiu, mas quero fazer publicamente agora esse agradecimento. Principalmente ao Jarbas e às pessoas que colaboraram pra que eu pudesse ter dado essa... Era uma alegria mesmo pra minha mãe que sempre nos quis juntos dela.

Isso pra mim foi muito importante. Não só por isso, mas pela experiência de vida, pelo tempo que eu passei no Senac. Tenho pelo Senac um grande carinho e  pelas pessoas com as quais eu trabalhei: o Cordão, o Jarbas, a Biar, o Tonhão, o Fernando dos Prazeres, foram todos meus gerentes, com quem eu trabalhei. Eu tive sempre um bom relacionamento, sempre me entenderam e sempre eu compreendi bem. A Neurinha, o Zé Luiz Paixão...

E a todos vocês, muito obrigada.

 

P/1 e P/2 – Obrigada, Cléo.

 

 




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