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História

Aprendendo desde a letra A

História de: Celoi Schuck Nunes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

Preta relata sua infância na casa de macega e costaneira, sua produção de bonecas e o trabalho na roça para ajudar os pais. O sonho de poder concluir os estudos foi realizado na idade adulta, motivada pelo trabalho voluntário na revitalização da escola de sua comunidade. A mudança na escola promoveu novas atitudes na população local, que passou a se preocupar com os resíduos produzidos na região.

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História completa

P/1 – Eu gostaria que você começasse falando pra mim o seu nome completo.


R – Celoi Schuck Nunes.


P1/ – Onde você nasceu?


R – Eu nasci aqui mesmo, na comunidade de Linha São Roque


P/1 – E a data do seu nascimento?


R – 16 de julho de 1977.


P/1 – Celoi ou Preta, né? Você sabe me dizer a origem da sua família?


R – O meu pai é de origem alemã e a minha mãe é de origem brasileira.


P/1 – O seu pai nasceu na Alemanha mesmo?


R – Não, os pais dele vieram pra cá recém casados, daí tiveram família aqui.


P/1 – E você sabe como é que os seus avós vieram pra cá?


R – Foi quando deu uma guerra, daí se extraviou bastante... Daí eles acabaram vindo… escapando, acabaram vindo pro Brasil e ficaram aqui.


P/1 – E você conheceu os seus avós?


R – Só o meu avô, a avó, não.


P/1 – E ele falava como com você?


R – Ele falava em brasileiro, mas bem atrapalhado, era bem... tinha palavras que ele não conseguia dizer direito em português.


P/1 – E o quê os seus avós faziam?


R – Trabalhavam na agricultura. Meu avô, esse que era alemão, ele era serrador. Ele trabalhava no mato derrubando árvore pra levar pra serraria que, na época, era tudo no Brás...


P/1 – Você se lembra do seu avô?


R – Um pouco. Faz muitos anos que ele faleceu. Eu ainda era pequena, mas lembro um pouco dele.


P/1 – E a sua avó?


R – A minha avó eu não conheci.


P/1 – E os seus pais, o quê que eles faziam ou fazem?


R – São agricultores. Hoje os dois estão aposentados, mas sempre trabalharam na agricultura. O meu pai trabalhou um pouco de tempo de empregado, mas foi pouco tempo; trabalhou aqui na granja, na época era a Vipal, trabalhou 13 anos.


P/1 – O quê que ele fazia?


R – Era coletador de ovos, auxiliar de granja.


P/1 – E nessa época, como agricultor, qual era o tipo de lavoura que os seus pais faziam?


R – Milho e feijão. 


P/1 – E você tem irmãos, irmãs?


R – Tenho. Nós somos em nove irmãos; tenho três irmãs que faleceram ainda bem pequenas e somos em seis filhos vivos, quatro irmãos homens e uma mulher.


P/1 – E esse seu nome, Schuck, você sabe o que quer dizer?


R – Não [risos], não sei.


P/1 – Tá bom. E onde você passou a sua infância?


R – Sempre aqui. Nasci, me criei, sempre morando aqui, sempre…


P/1 – E onde você nasceu?


R – Eu nasci aqui mesmo na comunidade, nasci em casa. Na época vinham as parteiras, chamavam em casa, elas vinham e realizavam o parto. Minha mãe teve… oito filhos ela teve em casa com a parteira, daí o nenê ela teve que ir pro hospital.


P/1 – O nenê é o menorzinho?


R – É [risos].


P/1 – E você se lembra de ver a sua mãe dando à luz em casa?


R – Não, ela não deixava. Ela sempre botava a gente pra ir pra um vizinho. Sempre dava uma desculpa pra gente sair pra não ver.


P/1 – Mas você lembra que sempre ia uma parteira até lá? Como era?


R – A parteira era uma mulher que morava longe daqui, depois veio morar pra cá, ela era uma velhinha bem… já estava com a idade bem avançada e ainda fazia partos, ela era bem legal a velhinha. Marcolina era o nome dela.


P/1 – Então você cresceu aqui mesmo, né, nessa localidade? E como era a casa que você passou a sua infância, você se lembra?


R – Lembro, era uma casa… quando eu era bem pequenininha, era uma casa bem... casa de chão, coberta de capim, rodeada de costaneira, e depois quando o meu pai começou a trabalhar aqui na empresa, ele começou a comprar essas madeiras mais curtas, tocos de tábua, na serraria e conseguiu fazer uma casa melhor. Daí conseguiu botar assoalho na casa, mas sempre foi uma casa bem humilde, bem simples.


P/1 – Como é que era esse telhado de capim?


R – Macega; arranca a macega. Só corta a raiz dela e daí vai prendendo uma em cima da outra, bota bastante macega.


P/1 – E você falou que tinha costaneira, é isso? 


R – Costaneira. 


P/1 – O quê que é isso?


R – É os refugos da tábua. Quando tem a madeira, tira a parte em volta dela: é a costaneira.


P/1 – E isso vocês faziam o quê com a costaneira?


R – Essa era rodeada a casa.


P/1 – Pra fazer o telhado?


R – Não, o telhado era de capim, que era essa macega, e a parede da casa era de costaneira.


P/1 – E você falou que era de chão, né?


R – De chão.


P/1 – E como era em volta? Onde você morava tinha lavoura?


R – Tinha, em volta da casa era tudo terreiro. Daí, um pouco mais retirado do terreiro tinha a lavoura, daí o pai plantava em volta da casa o milho, o feijão, batata doce, aipim, amendoim...


P/1 – Vocês tinham criação também?


R – Só uma vaquinha de leite [risos].


P/1 – E você costumava ajudar os seus pais?


R – Sim, desde pequena o pai sempre levou todos nós pra roça pra ajudar porque a família era grande, tinha um irmão doente, então tinha que ajudar.


P/1 – O quê que você fazia? Como você ajudava?


R – Eu tinha uma enxadinha dessa largurinha assim, cabinho bem curtinho, e eu ia capinar, eu e o meu irmão, sempre pertinho um do outro. Nós ‘ia’ ajudar a capinar. E no inverno nós ‘ia’ quebrar erva. Tinha um cesto, quebrava tudo, botava naquele cesto, puxava longe, e, no verão, era na roça.


P/1 – Quebrar erva, você quebrava como?


R – Tem um que sobe no pé e corta, daí nós pegávamos o galho grande e deixávamos os pequenininhos, tirávamos a madeira grossa, deixávamos só a madeirinha fina e as folhas pra fazer os fardinhos pra mandar pro secador.


P/1 – E você fazia os fardinhos?


R – Hã, hã.


P/1 – Eram feitos como esses fardinhos?


R – Fincávamos quatro estacas: duas assim e duas assim, e colocávamos quatro taquaras aqui e três aqui em forma de x, e daí ia trazendo aquela erva, colocando ali, e aquelas estacas era pra erva não cair fora. Aí íamos socando, socando e, quando desse de cem quilos pra mais, eram amarradas as taquaras e era feito o fardinho.


P/1 – Que interessante, eu não sabia [risos]. E você brincava nessa época? Do que você gostava de brincar?


R – [risos] Nós íamos no potreiro do meu avô. O pai da minha mãe tinha um potreiro. Então, quando era época de maria mole, nós cortávamos bastante pés de maria mole, colocávamos todos de pé e fazíamos as casinhas. Quando não tinha maria mole, tinha samambaia. Nós fazíamos aquele monte de samambaia e fazíamos casinha, pegávamos roupa. A mãe brigava com a gente porque sujava a roupa [risos], pegava a roupa e fazia uma boneca e brincava de boneca. Daí eu tinha mais duas primas minhas, nós brincávamos sempre as três juntas; elas sempre vinham ali pra casa no domingo pra nós brincarmos de boneca. 


P/1 – Então vocês faziam as bonecas?


R – Sim.


P/1 – Eu só não entendi muito bem... vocês pegavam uma folha que chamava maria mole, é isso? 


R – Um pé.


P/1 – Um pé. E aí vocês brincavam?


R – Daí, a maria mole dava pra fincar ela no chão porque ela dava madeira. Se a terra é boa, ela dá [madeira] grossa assim e a samambaia, não. A samambaia nós colocávamos toda deitada e não amassávamos pra ela não baixar.


P/1 – Aí botavam roupa...


R – Não, daí nós fazíamos a boneca. Nós fazíamos de casinha aquele cercado de maria mole ou de samambaia...


P/1 – Como se fosse a casinha de vocês?


R – Como se fosse a casinha. É, e daí pegávamos a roupa, enrolávamos e fazíamos a boneca.


P/1 – E a sua mãe não gostava?


R – Não gostava porque daí sujava a roupa e ela tinha que lavar [risos].


P/1 – E você tinha algum sonho de ser quando crescer? Você queria ser alguma coisa?


R – Eu tinha. Eu queria muito ser professora [risos].


P/1 – Que legal. E falando em professora, como foi a sua ida pra escola?


R – Olha, eu chorava muito pra estudar porque eu sempre gostei muito de estudar... Nós tínhamos um colégio mais pra baixo ali, que era um colégio de madeira. E aí depois foi construído esse colégio aqui, só que só tinha até a quarta série. Aí, quando eu terminei aqui, eu chorei bastante. Aí, o pai e a mãe me deixaram estudar na Picado Silveira. Era longe pra ir, mas daí eles conseguiram transferência de um irmão meu e nós íamos juntos, e ele estava na segunda série. Eu estudei lá até a quinta série e depois eu chorei pra eu continuar estudando, só que, na época, não existia transporte escolar. Tinha o Expresso Azul que passava aqui, mas tinha que pagar particular. Daí, como o pai e a mãe eram pobres, não tinham condições, daí eu fui um pouco, mas eles não conseguiram me dar a passagem para o ano inteiro, aí eu tive que parar de estudar.


P/1 – Então quer dizer que você estudou aqui na Dom Pedro I?


R – Estudei quatro anos… cinco anos. Comecei no prezinho e fui até a quarta série.


P/1 – E o quê que você se lembra? Como era a escola?


R – Eu lembro bem de quando era no outro terreno. Era uma escolinha de madeira bem simplesinha: tinha uma varanda que era a cozinha; a área era bem pequenininha, dai tinha as ripas, tinha uma grade de ripa de cima a baixo na área, e um pátio bem grande. 


P/1 – Mas não era nesse prédio aqui?


R – Não, era de madeira e era em outro lugar. Depois cederam esse terreno aqui e construíram, mas era pequena quando construíram a escolinha aqui.


P/1 – Mas você não chegou a estudar aqui nessa escola?


R – Estudei só um pouquinho. Estudei dois meses aqui.


P/1 – E você lembra então como que ela era aqui?


R – Era bem pequenininha: só tinha duas salas, não tinha essa e nem a secretaria lá e não tinha a parte da secretaria e a outra sala.


P/1 – E como é que era a sala?


R – Era apertado porque era bastante aluno [risos]. Até na inauguração desse colégio eu participei. Nós fizemos uma apresentação. Minha turma, que era da quarta série, fez a apresentação de inauguração do colégio.


P/1 – Ah, então você faz parte da inauguração. Você lembra mais ou menos o ano?


R – Não, não lembro. Depois, por incrível que pareça, na reinauguração, eu também participei com uma apresentação [risos], foi bem...


P/1 – E nessa época que você estudava, quando criança, você teve alguma professora que foi marcante para você?


R – Uma professora que eu sempre gostei... Sempre gostei muito das professoras, não posso me queixar de nenhuma, mas uma professora que eu adoro muito, e hoje ela ainda dá aula aqui, é a Lídia. Ela foi a minha professora desde a primeira série. Daí, na quarta série, teve uns meses em que a professora Isaura deu aula, mas 90% do que eu estudei e aprendi foi com a Lídia.


P/1 – E aí, mais na sua juventude, Preta, algo mudou em relação a sua infância para a sua juventude?


R – Olha, a minha juventude foi uma juventude, assim, bem... como é que eu vou dizer? Bem aprisionada porque eu ia da igreja pra casa e de casa pra roça. Eu não... depois, quando eu sai de casa, que eu já tava com 17 anos, aí eu fiquei um ano trabalhando de empregada doméstica porque eu disse pra mãe: “Mãe, um dia eu quero casar e eu não tenho um pano de prato”, o enxoval que eu tinha, meu pai ganhou um saco de retalho em uma malharia, e eu emendei pedaços de malha, assim, dessa malhas de camiseta. Tinha uns que eram largos, assim, numa ponta e na outra, estreito. Aí, eu inverti a ponta larga pra um lado e a estreita pro outro lado daqueles panos pra eles ficarem do mesmo tamanho. Fiz pano de prato daquilo ali; pegava os pedacinhos quadradinhos de retalho, colocava uma cor no meio e os outros em volta de outra cor, pra fazer guardanapo. Aí, eu disse: “Mãe, o meu enxoval é isso aqui. Eu tenho que comprar alguma coisa”, daí a mãe e o pai não queriam que eu saísse de casa. Eles tinham muito medo de eu sair de casa; daí eu saí, trabalhei um ano de empregada doméstica, e eu comprei um pouco do meu enxoval naquele ano que eu trabalhei. Só que sempre que pegava o meu salário: primeiro, comprava fruta, bala, bolacha pros meus irmãos, pra depois… E comprava coisas de comer também pra trazer pro pai e a mãe, e, depois, eu comprava um pouquinho... Então, eu aproveitei a minha juventude, não posso me queixar, mas, assim, eu ia pra igreja... Mas, no mais, assim, de fazer festa, não [risos].


P/1 – E onde foi que você foi trabalhar?


R – Na primeira vez eu fui pra São José do Herval trabalhar na casa de uma… ela era escrivã aposentada. Gostei de trabalhar lá, não tenho o que me queixar, só que estava difícil pra mim vir pra casa também porque não tinha ônibus, aí eu vinha a cada 15 dias. Eu sai de lá e fui parar em Fontoura, na casa de uma mulher. Ela é professora e eles tinham um mercado e lá, quem mandava na empregada, se ficava ou não, era a guria de três anos. Aí, eu cheguei, me dei bem com a guria, me dei bem com a patroa também [risos] e saí de lá porque me casei.


P/1 – E você conheceu o seu esposo onde?


R – [risos] Essa é uma história bem engraçada [risos]. Eu estava cuidando da guria porque a mãe dela ia se operar das varizes. Era um domingo de tarde. Eu peguei a bicicleta dela e fomos caminhar na rua, e daí tinha uns amigos meus que estavam indo pra Caxias pra trabalhar. Eu conversei com os meus amigos ali, e ele estava junto e começou a conversar comigo, e eu, como... Puxou conversa comigo, eu tô conversando [risos], eu conversei com ele também. Eu saí dali, e ele disse pros guris que ia me namorar, daí os guris duvidaram. Ele voltou dali 15 dias, ficamos juntos e já logo nos casamos.


P/1 – E ele é de lá mesmo?


R – Não, ele é daqui também, só que ele é do outro lado, do interior pra lá. Ele é da Linha; nasceu na Canga Quebrada e depois ele foi morar na Linha Formigueiro.


P/1 – E como foi o namoro? Como que a sua família reagiu?


R – Foi curto [risos]. Eu o conheci, nós ficamos juntos duas vezes, daí ele veio pra cá de volta e me disse que queria conhecer a minha família. Eu vinha passar o final de ano em casa e o trouxe pra conhecer a família. Ele chegou ali, conheceu a família e, no outro dia, já falou em casamento [risos].


P/1 – Você estava esperando?


R – Não [risos]. Daí ele falou em casamento. O pai já concordou, só que ele falou isso no dia primeiro de janeiro pra nos casarmos no mês de junho, e, quando foi dali a 15 dias, ele me convidou pra ir num baile. Eu disse: “Deus me livre, se o pai descobre que eu fui num baile ele me mata”, e ele: “Não, mas vamos”, aí a minha patroa me disse: “Vá aproveitar a tua vida. Agora vocês estão namorando, tu vai deixar ele ir no baile sozinho?”, eu fui no baile, Cheguei lá, tinham uns amigos daqui [risos] e um deles não aceitava o meu namoro por nada na vida, aí ele disse: “Eu vou lá e vou contar pro pai dela que vocês estavam no baile”, aí, no outro dia, ele foi buscar o pai pra darmos os nomes, aí casamos em março.


P/1 – E por que esse amigo foi falar pra sua família?


R – Ele era um ex-namorado meu [risos] e ele não queria que eu me casasse, queria que eu voltasse pra ele.


P/1 – Entendi. E como foi o dia do seu casamento?


R – Foi um dia frio, no dia dois de março. Nós nos casamos de manhã. Era muito frio e depois, de tarde, esquentou um pouco. Foi um dia bem legal, bem...


P/1 – E vocês têm filhos?


R – Temos três filhos. O meu primeiro faleceu, daí eu tenho dois vivos.


P/1 – E quando vocês se casaram, vocês foram morar onde?


R – Farroupilha.


P/1 – É longe?


R – É longe.


P/1 – Por que vocês foram pra lá?


R – Porque o meu marido arrumou um emprego pra mim e pra ele lá, aí nós fomos pra cuidar de um velhinho. Foi o único lugar que eu não me dei bem com o meu emprego. Eu briguei com o velhinho lá, e viemos embora.


P/1 – Vieram pra onde?


R – Voltamos pra Fontoura. Ficamos um mês e fomos morar em Pouso Novo. Lá, nós ficamos quase um ano e voltamos pra cá, daí não saímos mais daqui.


P/1 – E aí, assim, o seu contato aqui na comunidade, como era? Você voltou e como você começou a trabalhar? Você participava das coisas da comunidade? Como que foi essa volta? 


R – Nós voltamos pra cá, daí, lá em Pouso Novo, o velhinho que morávamos perto dele não queria que viéssemos pra cá, aí ele disse: “Até vocês chegarem lá, conhecerem o pessoal e arrumarem serviço, vocês vão sofrer”, daí eu disse pra ele: “Não, lá é o meu lugar”. Chegamos aqui já começamos a pegar empreitada pra roçar potreiro, roçar no meio das ervas e, daí, nós até frequentávamos aqui. Era um salão que, nos domingos, era a igreja. Depois nós fomos pra igreja evangélica, aí hoje nós somos evangélicos e frequentamos a sede da igreja em Fontoura. Nós vamos lá.


P/1 – Quando que você começou a trabalhar aqui na empresa?


R – Fazia três anos, quatro anos que eu estava de volta aqui. Um dia, eu vim aqui, preenchi um currículo e aí, dias depois, teve alguém que disse que jamais eu ia ser chamada para trabalhar aqui na empresa. Eu me entristeci bastante, aí não vim mais fazer currículo. Um dia, uma tia minha, que já faleceu, foi e me falou: “Vá lá, faça a ficha e deixe lá”, daí eu disse pra ela: “Tia, eles disseram que jamais vão me contratar”, e ela: “Não, mas quem falou não está mais ali”. Aí eu vim, né. Ela foi, insistiu, e eu vim, fiz o meu currículo. Na outra semana já me chamaram para eu vir fazer entrevista e já fui contratada. Tô com oito anos e dez meses de empresa


P/1 – E o quê que você faz lá? 


R – Eu comecei coletando ovos, depois fui ajudar na recria, vacinar pintinho, fazer seleção. Depois me colocaram na lavanderia por um período, depois eu voltei para a granja, voltei para a lavanderia de novo, aí fiquei mais um tempo. Fui para a granja de novo e agora já faz um bom tempo que eu tô na lavanderia.


P/1 – E, Preta, como é que você ficou sabendo do projeto de transformar, de melhorar a escola?


R – É que o Otávio sempre comentava que ia fazer esse projeto porque o colégio estava… falar o português correto, estava bem feio. Ele disse que a comunidade estava crescendo, e a empresa decidiu ajudar com esse projeto, com a ação social para melhorar por causa da… as crianças ficam mais alegres e aprendem melhor. Eu percebi no meu próprio filho, ele se animou mais quando viu o colégio assim. Muitas coisas que eu tentava fazer pra que ele aprendesse, e ele não… hoje, ele por si próprio, diz: “Não, mãe, o colégio ficou mais bonito depois que nós cuidamos mais. Nós temos que cuidar mais”.


P/1 – Como chama o teu filho que está aqui?


R – Ismael.


P/1 – E ele está em qual ano?


R – No quinto ano.


P/1 – E, quando ele estudava aqui a escola, como estava? Você falou que estava feia, Como que era?


R – Tinha um pátio bem feio, a pintura estava feia também. Aqui na frente tinha uns pinheirinhos que não eram podados. Era bem feio, nem enxergava o colégio.


P/ 1 – E aqui dentro, aqui no prédio, como que era?


R – Um lixo. As crianças comiam bala, salgadinho e jogavam tudo em volta. A professora falava, mas só tinha um baldinho dentro da sala para colocarem lixo. Eles ficavam correndo lá fora e não vinham colocar o lixo. Hoje, eles mesmos já cuidam e não jogam mais lixo no pátio.


P/1 – E aí, assim, quando você soube então do projeto, você se dispôs a trabalhar de alguma forma, né?


R – Hã, hã.


P/1 – O quê que você fez exatamente?       


R – Eu vim aqui, ajudei a plantar um pouco das fruteiras, do pomar; essa grama aqui da frente eu plantei. Um pouco eu ajudei por causa do meu serviço ali porque eu sou de área da sozinha. Daí vinham as outras mulheres da granja ajudar mais e eu vinha também, mas pouco já, né?


P/1 – Mas esse pouquinho que você vinha, como você se sentia de vir?


R – Eu me sentia feliz porque jamais eu esperava que esse colégio passasse por uma transformação como passou. E, pra mim, que sou aqui da comunidade, nasci aqui, me criei aqui, tô criando meus filhos aqui também, pra mim foi um orgulho, foi muita felicidade porque… quem sabe se até os meus netos não vão estudar aqui? Pra mim é um motivo muito alegre de ver o colégio como tá, do jeito que tá hoje.


P/1 – E o seu esposo participou? O quê que ele achou de você estar participando?


R – Ele sempre me incentivava. Se ficasse fazendo alguma coisa depois do horário, era para eu ficar também pois ele não podia ajudar porque ele tava pra fora. Na época, ele estava trabalhando pra fora, dai ele não podia ajudar, mas ele sempre foi a favor. Ele sempre disse: “Nós temos guri que…”, o meu mais velho sempre estudou aqui também e agora tem o mais novo que já está no quinto ano, mas quem sabe um dia os filhos deles não vão estar aqui também.


P/1 – E o seu filho que estuda aqui te contava o que estava acontecendo, as coisas que ele aprendia aqui na escola?


R – Contava. Ele chegava em casa com os trabalhinhos, porque eles ganhavam as gincanas sobre o lixo, e ele chegava: “Mãe, senta aqui que eu quero te mostrar aqui, ó” “O quê?” “Trouxeram pra gente pintar, pra gente escrever”. As musiquinhas que ele aprendia, aí eu tinha que me sentar e esquecer de tudo até que ele me mostrasse todas as coisas dele, cantasse as musiquinhas pra eu escutar. Aí tinha que esperar ali e eu dizia para ele que ele tinha que continuar se dedicando, se esforçando e não esquecer aquilo, que não fosse só naquele momento ali, mas que fosse lembrado sempre. Aí ele ficava faceiro, ia correndo contar para o avô também.


P/1 – E você acha que, no aspecto de entender essa história do lixo, que você tem que separar, né, o quê que mudou para ele, na sua casa, na comunidade? Qual que foi essa mudança?


R – Olha, para os meus filhos... daí o pequeno começou a passar para o maior. Hoje eu ainda tenho um pouquinho de problema com o guri que é o maior porque ele come uma bolacha e, muitas vezes, ele ainda deixa o papel em cima da mesa, e o pequeno já chega e diz: “Lucas, você tinha que estudar aqui no colégio. Lixo é no lixo, não é em cima da mesa”, e vai, separa tudo. Em casa, ele ficou bem mais organizado e a comunidade aqui também melhorou bastante porque hoje vem o caminhão do lixo recolher todo o lixo, então só deixa o lixo jogado quem não pensa no futuro. O caminhão tá vindo toda semana, às vezes, uma semana ele não vem, mas na outra, ele já vem. Tá recolhendo o lixo do…


P/1 – E, Preta, por que você acha que é importante essa coleta seletiva do lixo?


R – Eu acho que é importante por causa da poluição. Muita gente não separava o lixo, colocava tudo misturado, vidro, lata, papel, plástico, e jogava nas matas, muitas vezes, até perto de fontes de água. Aí, como que ia beber uma agua ali cheia de lixo? E hoje já… até tinha uma mata aqui em cima que tinha bastante lixo, um acúmulo de lixo que era… o pessoal se movimentou, foi lá, recolheu todo aquele lixo. O caminhão veio, carregou, e hoje a mata ali é limpa.


P/1 – Você participou desse dia?


R – Participei. 


P/1 – Como que foi esse dia? Descreva um pouquinho pra mim.


R – [Risos] Foi bom. Nós dividimos uma equipe para um lado e outra pra outro, aí nós chegávamos nas casas entregando panfleto, tentando conscientizar o pessoal, né? Foram poucos os que não entenderam, foi bem raro algum que saiu meio mal. A maioria do pessoal entrou em acordo nesse… passamos recolhendo o lixo ao redor das casas, trazíamos para a estrada, e o caminhão recolhia. As crianças do colégio foram junto, participaram também, né, foi bem… bem legal!


P/1 – E em relação a horta, de ter uma horta aqui na escola, o que você acha disso?


R – Eu acho que melhorou 100% porque antes era feito… ia lá fazia um canteirinho redondo, plantava cenoura, salsa tudo junto [risos]. Hoje, cada planta tem o seu canteiro; uns canteiros bem fechadinhos, a água não leva o adubo, tem a proteção do gelo, do sol, né, aquele sombrio por cima dos canteiro e as crianças têm as verduras o ano inteiro agora. 


P/1 – E o seu filho aprendeu a fazer o quê na horta?


R – Ah [risos], ele adora picar bem a terra.


P/1 – Picar a terra?


R – Hã, hã


P/1 – Como que é?


R – Ele pega a enxadinha, pica bem a terra e aí ele quer plantar salada. Ele adora salada! Ele aprendeu bastante a lutar na horta


P/1 – Vocês têm horta em casa?


R – Temos.


P/1 – E ele ajuda?


R – Ajuda.


P/1 – Ah, tá. E você acha que esse exemplo aqui da escola, da escola ter ficado dessa forma, de ter melhorado, isso está servindo de exemplo para outros lugares aqui na comunidade?


R – Eu acho que tá porque até na Picada Silveira, que é um colégio bem maior, eles começaram a observar aqui e a questão do lixo. Eles estão bem cuidadosos também porque antes não eram tanto e eles começaram a observar que ia ficar muito chato que um colégio pequeno fosse bem limpinho, bem arrumadinho e eles lá com um colégio grande com o lixo jogado em volta, aí começaram a cuidar mais também. Então eu acho que foi uma grande referência para muitos colégios.


P/1 – E, Preta, o que exatamente te motivou a participar desse projeto?


R – Porque foi o colégio que eu sempre estudei, então eu tenho amor por esse colégio e é na comunidade que a gente mora, então fica bonito uma coisa bem ajeitadinha. As crianças se sentem melhor no colégio bem arrumado, bem limpinho. Então isso é pelo bem das crianças e da gente… porque eu sou muito ‘crianceira’; tenho só dois filhos, mas eu sou muito ‘crianceira’. Então se eu vejo que uma criança está bem, por mim estou satisfeita. Então pelo bem das crianças eu… e estou sempre disposta. O que precisarem que eu ajude, estou sempre à disposição.


P/1 – E você lembra como que era o parquinho ali antes?


R – Os brinquedos eram todos quebrados, era um perigo as crianças brincarem ali porque era aberto e vinham os grandes ali. Às vezes eu passava aqui, trabalhava no domingo, passava, tinha num casal de namorado, brincando no parquinho. Aí, estavam lá sentados na roda namorando, brincando, aí, quando as crianças vinham pra brincar, estava tudo quebrado. Vinham, pulavam ali e estragavam os brinquedos. Aqui, esse portão era aberto, era um portãozinho de madeira. Ele era um quadro de madeira e com tela, aí só enroscava a corrente… no palanque que tinha na entrada, era um perigo e entrava quem queria. Não tinha como manter os brinquedos, sempre… a prefeitura veio, arrumou os brinquedos, dali a pouco, tava tudo quebrado de novo.


P/1 – E hoje, quando você passa por aqui e vê a escola assim, o quê que você pensa?


R – É um orgulho. É uma emoção bem… porque jamais imaginava que ia ficar assim, né? Quando eu passava ali e via os grandões destruindo os brinquedos, aquilo… eu ficava triste, né. A gente falava, eles diziam: “Não é teu, tu não tens nada a ver com isso”, aí aquilo me aborrecia. Na hora do recreio, as crianças não podiam brincar nos brinquedos porque estava tudo quebrado.


P/1 – E a ideia desses cinco S, você chegou a ter contato com isso?


R – Hã, hã


P/1 – O quê que ficou pra você dessa história dos cinco S?  


R – Ah, isso é um negócio bem interessante! Disso aí eu gostei muito porque isso aí… até as crianças já vão crescendo… eles vão crescendo umas crianças organizadas porque é bem interessante isso aí, eu gostei.


P/1 – Você sente que o seu filho, às vezes, comenta disso?


R – Hã, hã. Até em casa, muitas vezes, ele vê uma louça suja em cima da pia, já diz: “O Lucas tinha que estudar os cinco S pra ter o senso de limpeza” [risos]. Ele é… ele comenta bastante sobre a seleção porque eu tenho… eu sou assim, vou começar falando de mim. Eu ganho um presente, o papel do presente vai pra dentro da caixinha, eu guardo. Eu leio um jornal, eu pego aquele jornal, boto dentro da caixinha e guardo, aí ele vem e fala: “Não sei porquê, a mãe já lê, pega e bota fora, não fica guardando tudo que é coisa, guarda só o que precisa, tá nos cinco S”, só que eu vou guardando [risos] e eu tenho o Samuel, meu guri mais velho, que é igual a mim. Ele guarda tudo que é papel e eu sei que não é o correto. Às vezes, meu marido vai e faz uma limpeza nos meus papéis [risos]. Eu tinha os papéis dos presentes que ganhei de casamento. Eu tinha até pouco tempo, daí o meu marido queimou tudo [risos].


P/1 – Seu marido fez os cinco S?


R – [Risos] Ele vai, ele tira tudo que é papel.


P/1 – E você lembra, na época que se estava pensando nessa reforma, na melhoria da escola, se você chegou a dar alguma opinião sobre o que você achava legal fazer?


R – Não, não. Não cheguei a dar opinião.


P/1 – E como é que foi, na reinauguração? Você falou que participou, né?


R – Hã, hã.


P/1 – Como é que foi esse dia? O quê que você lembra?


R – Foi um dia bem legal também. Daí foi feito… feita a abertura aqui, e nós pouco participamos da cerimônia. Só chegamos aqui no iniciozinho porque nós tínhamos que ensaiar lá no salão, e era lá o restante da cerimônia. Dai, nós viemos aqui, a professora chegou. Nós já subimos pra lá, aí eu não cheguei a assistir à cerimônia. Mas, lá no salão, as crianças, por série, né, foram fazendo a apresentação. Depois, nós fizemos e a turma do EJA [Educação de Jovens e Adultos] fez a apresentação também e teve um almoço depois das apresentações.


P/1 – O seu filho se apresentou também?


R – Hã, hã.


P/1 – O quê que ele fez na época?


R – Eles fizeram a apresentação dos anjinhos. Agora eu não lembro como é que foi a apresentação dele porque eu estava atrás aguardando para fazer a apresentação. Nós não podíamos assistir as outras apresentações.


P/1 – O que foi essa apresentação que você fez?


R – Nós fizemos sobre a natureza, sobre os cuidados, desmatamento, contaminação do ar, poluição do ar, contaminação das nascentes.


P/1 – Conta um pouquinho desse período que você estudou no EJA. Foi aqui na escola?


R – Foi aqui. Pra mim foi um sonho, né, porque eu sempre queria estudar mais, mas quando teve o EJA na Picada Silveira, que seria o lugar mais perto, eu tinha o meu neném que mamava no peio ainda, aí não tinha como eu ir e deixar ele. Hoje ele tá com 11 anos e, quando chega a noite, ele não fica sem eu estar junto com ele. E daí, na época, ele era pequenininho, daí não tinha como… daí, passou aquele período, veio o EJA, o Dilamar me perguntou se eu me interessava, eu disse: “Sim, pode por meu nome na lista que eu venho estudar”. Eu passei bastante dificuldade para vir porque na época, o meu marido estava trabalhando para Caxias, aí ele veio embora e ele foi fazer uma arrumação na casa porque a nossa casa estava caindo [risos], aí fomos reformar a casa. Naquele período eu tive que faltar bastante às aulas, mas Deus... chegava a tarde e eu ficava agoniada para vir para o colégio e não podia vir, aí aprontamos… Depois eu peguei os cadernos das guria e olhei um pouco nos caderno delas, mas a gente perde um pouco aquela matéria porque eu perdi na hora em que o professor explicou, mas eu aprendi bastante. Sempre fui péssima em matemática e eu consegui aprender bastante. Foi a matéria que eu sempre fui péssima e eu consegui aprender bem nesse período de EJA.


P/1 – Por que antes não existia o EJA aqui?


R – Não. Foi o primeiro ano que teve, daí esse ano tá continuando.


P/1 – Depois da reforma da escola?


R – Depois da reforma.


P/1 – Que foi uma ideia que vocês deram, que vocês gostariam que tivesse EJA. Como é que foi?


R – Foi. E o Dilamar, que é o nosso técnico ali, e a Lediane, que é a coordenadora, que correram atrás. Eles batalharam bastante e conseguiram o EJA para cá. Aí, teve bastante gente que começou a vir, desistiu, mas perdeu de aprender. Eu gostei, aprendi bem, não posso me queixar, eu aproveitei. Aí, os dias que eu faltei, eu perdi, realmente eu sempre digo que naquele dia eu perdi aquela matéria, embora eu copiasse dos outros, mas não é como estar na hora que o professor explica, mas…


P/1 – E, Preta, o que você acha que você aprendeu também com esse projeto aqui, sendo voluntária do projeto da nova escola e da reforma da escola? O que você sente que você aprendeu?


R – Eu aprendi que… olha, se a comunidade se mobilizar, como tava se mobilizando para juntar o lixo, podia muito bem ter ajudado aqui mais pra… porque esse projeto foi pra comunidade. Então, eu aprendi que coisas boas todos têm que fazer juntos, unidos, não só esperar por…


P/1 – Você pensa em outras coisas que você gostaria de fazer? 


R – Na comunidade?


P/1 – É.


R – Olha, na comunidade eu acho que se fosse do meu alcance, gostaria de fazer uma creche. Eu não pretendo ter mais filhos [risos], mas uma creche e talvez… sei lá, a comunidade se mobilizar, né, e ajudar nessa creche porque tem bastante criança em volta. Hoje não tá tanto, mas há tempos atrás tinha muita criança pequenininha chupando bico e caminhando na rua. Se tem uma creche, eles poderiam ficar na creche. Talvez até a comunidade pode um ajudar a fazer uma limpeza, fazer uma merenda na creche.


P/1 – Pra você o que foi ser voluntária nesse projeto? O que significou ser voluntária?


R – Olha, foi muito bom porque eu nunca tinha… pra começar, eu nunca tinha visto uma ação assim, então, pra mim, foi muito emocionante, muito legal. 


P/1 – Tá bom. Preta, era isso o que eu queria conversar com você. Tem alguma coisa a mais que eu não te perguntei e que você gostaria de falar, deixar registrado aqui?


R – Não. Por mim foi muito legal isso aqui porque que nem se eu falei: eu adoro muito esse colégio que foi onde eu aprendi desde a letra A. Praticamente todo o meu estudo foi nele porque eu fui um ano lá pra Picada Silveira, mas eu vim completar o meu primeiro grau aqui, então, pra mim, esse colégio é do coração mesmo!


P/1 – E há alguma história que tenha sido muito marcante pra você? Alguma coisa que você gosta de lembrar, que você conta para os seus filhos, que você passou, que você viveu aqui durante esse processo da reforma, de repensar a escola?


R – Agora de momento, eu não lembro [risos].


P/1 – Então tá ótimo.


R – Mas sempre tem alguma coisa, mas na hora a gente não lembra.


P/1 – Sem problemas, você já falou um monte de coisa interessante pra gente aqui.


R – Na hora não vem a ideia.


P/1 – Não, mas você já falou outras coisas muito legais. Então, tá bom. Obrigada, Preta, é isso.


FINAL DA ENTREVISTA

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