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História

Aprendendo com as histórias

História de: José Pedroso da Silva
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 26/01/2016

Sinopse

Por Caroline Vieira.

Na entrevista com o José Pedroso, que nos recebeu muito prontamente, pude escutar um relato cheio de detalhes, de alguém que tem uma memória invejável. Dizem que a memória é constituída daquilo que escolhemos lembrar. Depois dessa entrevista, tive a impressão que o senhor Pedroso não deixa nada cair pela viela do esquecimento! Nessa conversa ele relembrou diversos acontecimentos de sua vida e do cotidiano da cidade, sempre com o olhar vivo e entusiasmado. Jamais imaginaria que aquela tarde de conversa seria uma boa viagem ao tempo, numa Cosmópolis muito diferente dessa atual, mas que nos ensina muito e nos faz compreender melhor sobre o lugar que vivemos. Espero que o leitor possa também aprender com esse relato!

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História completa

Sou filho de Benedito Pedroso da Silva e Rosalina do Espírito Santo. Nasci em Mairinque, na região de Sorocaba, em 09 de Março de 1939. Minha família morava nessa cidade, onde meu pai atuava como ferroviário na central da Estrada de Ferro Sorocabana. Nessa época minha mãe estava doente do pulmão e sabendo da situação, os amigos do meu pai disseram que o clima de Cosmópolis seria muito bom para a cura dela, visto que o clima de Mairinque era frio. Com essa esperança de cura, meu pai pediu transferência pra Cosmópolis, onde também havia a Estrada de Ferro Sorocabana.

 

Chegamos a Cosmópolis em março de 1946. Infelizmente minha mãe não resistiu e faleceu em 26 de Maio do mesmo ano. Depois disso meu pai voltou trabalhar no setor da Sorocabana em Santos, como maquinista. Ficamos sozinhos em Cosmópolis, eu e mais quatro irmãos, a Benedita Antônia (Benê), Hilda, Alice e o caçula João, que tinha apenas dois anos. Eu tinha seis. Assim seguimos o nosso destino. A Benê era a mais velha e com treze anos teve que deixar a escola para cuidar dos irmãos. Não tínhamos ninguém para nos orientar e acompanhar. Comecei ir à escola porque via as crianças indo, e curioso, fui descobrir para onde elas iam todos os dias.

 

Comecei a frequentar a escola e não entendia porque a professora dava bilhetinho para casa, o recado era sempre para arrumar um uniforme, que eu não tinha. Algumas pessoas quando souberam dessa situação se compadeceram e me deram o uniforme. Segui o estudo e completei o primário com onze anos no Grupo Escolar de Cosmópolis, esse nome mudou posteriormente para Grupo Escolar Rodrigo Octávio Langaard Menezes, através de um projeto de Lei. Essa escola situava-se na Rua Dr. Campos Salles, depois passou a funcionar como Escola de Comércio Municipal de Cosmópolis, depois escola Dr. Moacir do Amaral.

 

Engraxando sapatos  mesmo estudando, com oito anos comecei a trabalhar como aprendiz de sapateiro na sapataria do seu Guilherme Catosi. Contei com a ajuda de sapateiros que me apoiaram muito, como o Sérgio Rampazzo, e também outro personagem ilustre de Cosmópolis, o Joel Mariano. Iniciei o aprendizado da profissão e nesse mesmo período consegui uma caixa de engraxar sapato. O meu ponto de trabalho como engraxate era no bar do Santo Rizzo. O bar do Santo Rizzo era o QG (Quartel General) da sociedade e da política da cidade. Tudo o que se passava na cidade era reunido dentro do próprio bar, ali aconteciam todos os fatos, reuniões, causos e fuxicos! Como sempre tive memória boa, captava tudo e fui conhecendo a história de Cosmópolis através do bar do Santo Rizzo. Ali eu sabia de tudo que acontecia, pois na Avenida Esther se dava toda a movimentação da cidade.

 

Tinha muitos bares, alfaiataria, sapatarias... Com dez anos comecei a absorver todas as histórias, quem era cada pessoa, quem fazia o quê. Por exemplo, o delegado Dr. João, escrivão Marcolino, carcereiro Vazolé. Eu sabia de todo mundo, e sempre engraxando sapato! Ali eu tive meu grande amigo, o seo Santo Rizzo, pai do Rodolfo Rizzo. Ele sempre falava: “Pedrosinho, se você não engraxar direito, vou avisar o prefeito!” Então eu ficava engraxando sapato com ainda mais capricho! O pessoal ficava com dó de mim, eu com a calça rasgada, camisetinha furada e engraxando sapato... Com esse trabalho de engraxate, na loja eu poderia comprar caderno, lápis...

 

Naquela época o Grupo Escolar tinha uma espécie de “caixa” para pessoas pobres e necessitadas, mas eu não tinha direito por conta do meu pai que trabalhava na Sorocabana, no entanto, ele havia nos deixado. Um belo dia apareceu o Antônio Faceli, funcionário da prefeitura, e falou: “Pedrosinho, o prefeito quer falar com você”. Pensei “meu Deus do céu, o prefeito quer falar comigo!”. Lembrei logo das chamadas do seo Santo Rizzo, de que se eu não engraxasse direito ele chamaria o prefeito. Então fui com a caixinha de sapato e do lado o funcionário da prefeitura, a caixa tremia nas costas, fiquei com medo!

 

Cheguei à prefeitura, subi a escada e cheguei até o prefeito, que era o Dr. João Guilherme Paz Hermann, um homem sisudo, bonachão: “vamos logo que eu preciso engraxar meu sapato, tenho uma reunião urgente em Campinas”. Quando ouvi isso fiquei aliviado. Engraxei o sapato, cuspi no pano para lustrar. Ele perguntou quanto era e eu disse “não é nada não”, eu estava tão nervoso! Ele me deu uma gorjeta e eu voltei para casa. Esse foi o primeiro susto que eu tive!

 

Fui crescendo, trabalhando sempre em sapataria, me tornei um profissional, conseguia fazer calçados, sapatões e botinas. Vida Escolar Certa vez encontrei um colega com quem eu jogava futebol, e então o convidei para uma partida e ele me disse que não iria porque precisava ir à aula de admissão. Eu perguntei o que significava “aula de admissão” e ele explicou que era uma prova para entrar no Ginásio, com início das aulas no ano seguinte. Quis saber como eu poderia fazer o mesmo, mas ele disse que não daria tempo, pois ele estava se preparando há seis meses para a prova. Mesmo assim fui conversar com a professora Dona Santa, que morava na Rua Ramos de Azevedo. Fui à noite, quando todos os alunos estavam em aula. Conversei com ela e fui alertado sobre o pouco tempo para estudo que eu teria até a data da prova, mesmo assim ela me emprestou um livro de história e pediu que eu voltasse no dia seguinte para avaliar meu desempenho.

 

No outro dia estudei o livro enquanto trabalhava na banquinha de sapateiro, batendo sola de sapato e lendo ao mesmo tempo. Percebi a minha facilidade para decorar. Quando foi no dia seguinte a professora quis tomar os pontos de história e eu falei tudo. Ela me deu mais dois livros e pediu que eu voltasse depois. Então ela me disse que eu poderia fazer o “madureza”, um curso que faz tudo em um ano, sendo que o Ginásio durava quatro anos. Falei que não conseguiria fazer por conta do trabalho. Fiz a admissão e passei com a nota sete, entrei no Gepan no período da manhã. Era uma dificuldade porque eu tinha que trabalhar para sobreviver, era uma lista grande de material escolar e livros para comprar. Para conciliar o trabalho com a escola eu comecei a trabalhar durante a noite.

 

Conversei com o dono da sapataria, o senhor Guilherme Catosi, e ele me arrumou uma banquinha com bastante material: taxinhas, pregos, sola, e a levei para casa. No Gepan era obrigatório fazer educação física depois da aula, o que consumia mais tempo, eu saía desesperado para trabalhar depois! Eu gostava de futebol, aproveitava e jogava bola. Chegava em casa, tomava banho e ficava batendo sola, fazendo sapato até onze horas da noite. E assim foi esse período. Outra maneira para ajudar na compra dos livros era o trabalho como garçom nos bailes de carnaval do Cosmopolitano Futebol Clube, já que coincidia com o período de férias na escola. Enquanto meus amigos estavam dançando, eu trabalhava! Trabalhava durante quatro noites e então conseguia comprar o material escolar, fiz isso durante quatro anos, de 1958 a 1961. Fomos a primeira turma de formandos do Gepan. Entre os homens da turma do Gepan, eu era o mais velho e o José Honorato Fozzati, um pouco mais novo que eu, estava sempre me acompanhando. Nós fizemos um baile em julho no período de férias escolares e o resultado foi tão grande, que com o lucro conseguimos arrecadar o dinheiro para pagar vários custos do Baile de Formatura. Contratamos o Biriba Boys (banda), a Floricultura Campineira (decoração) e ainda sobrou dinheiro para todos os alunos viajarem por uma semana em Poços de Caldas (MG).

 

Infelizmente, não participei da viagem, pois com a conclusão do Ginásio fui chamado para trabalhar em Campinas a partir de 2 de janeiro de 1962. Foi uma escolha difícil: viajar e perder o emprego ou trabalhar e não viajar. Escolhi a segunda opção. Essa parte foi uma experiência tão positiva que nós criamos uma família. Queira ou não nós mudamos a cultura de Cosmópolis naquele período. Fui chamado para trabalhar na Usina Ester e ficava difícil ir estudar em Campinas. Foi criada em Cosmópolis a Escola de Comércio em 1964 e eu terminei os últimos meses em Cosmópolis. Tenho o privilégio de dizer que sou da primeira turma de formandos do Gepan, da primeira turma da Escola de Comércio de Cosmópolis. Fiz o curso técnico em contabilidade e depois fui estudar administração de empresas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Trabalhei por dezoito anos na Usina Ester na parte de escritório, no setor financeiro, como caixa... O chefe do escritório gostava que os funcionários passassem por várias funções para aprender diferentes tipos de serviço.

 

O primeiro mercadinho de Cosmópolis era de minha propriedade. Ficava na Rua Baronesa na esquina com a Rua Expedicionários. Certa vez eu e minha esposa estávamos voltando da missa e nós passamos nesse local e ela comentou que ali seria uma boa localização para um açougue. Ela sugeriu o negócio e eu complementei a ideia com a proposta de montar uma mercearia junto com açougue. E fizemos isso. O negócio foi tão bom que construímos o Supermercado Baronesa, hoje Supermercado Davinha. Ficamos por um bom tempo com o negócio, vendemos o mercado, mas mantivemos o prédio. Hoje o mercado é tocado pelos meus netos, proprietários do Supermercado Davinha.

 

Baixa e Alta Avenida Ester A Avenida Ester era dividida, era a parte alta e a baixa. Essa divisão era feita pela linha de trem da linha Sorocabana, passava entre a Praça do Coreto e a Praça do Relógio. A linha era controlada por um funcionário da Sorocabana, o Mano Paixão. Ele ficava numa guarita e toda vez que o trem passava ele abria e fechava a porteira. As pessoas que moravam na parte baixa da avenida se sentiam discriminadas, muitas não tinham trabalho fixo, trabalhavam de pedreiro, açougueiro no matadouro, entre outras funções. A única pessoa que sobressaía nessa região e que comandava politicamente era o senhor Orlando Perucci, filho do Antônio Perucci.

 

Eles tinham um bar, conhecido como Bar da Barroquinha, que era o ponto de encontro da parte baixa. Todos os acontecimentos, principalmente políticos, se davam ali. Era um bar movimentado, pois ficava perto da Estação da Sorocabana, todos que transitavam na área passavam pelo Bar. Na parte de cima o QG era aonde eu engraxava sapato (Bar do Santo Rizzo), onde também era uma central de informações, fofoca, onde as pessoas se encontravam. Havia ali um chalé do jogo do bicho, que naquela época não era proibido. As donas de casa iam lá jogar. E assim acompanhamos o crescimento da cidade e as histórias dos moradores. Eles chamavam os moradores da parte baixa de “pessoal da biquinha”, pois nessa parte tinha a famosa “Biquinha”, onde tinha seis nascentes de água, numa área de propriedade da Sorocabana, que fez uma casa com maquinário para bombeamento dessa água das biquinhas para o reservatório da Estação da Sorocabana, onde era feito o abastecimento das máquinas. Nesse local as lavadeiras se concentravam, enquanto lavavam as roupas falavam de assuntos da cidade, era a central de fofocas.

 

A Biquinha serviu muito para o fotógrafo Guilherme Hasse. Ele ia até lá para revelar as fotografias, pois o filme precisava ficar imerso na água. Ele morava na Avenida Ester, na esquina com a 7 de abril. Levava uma hora para tirar uma foto. O pessoal ficava sem paciência, querendo ver logo, e o Guilherme fazia os retoques e as artes finais lá na Biquinha mesmo. Às vezes a pessoa estava com pressa para retirar a fotografia e perguntavam para ele “a minha foto está pronta?”. Ele respondia que a foto estava na água e as pessoas estranhavam.

 

Na verdade a filha dele havia levado a foto lá na Biquinha. São histórias! Às vezes muitos clientes se surpreendiam com as fotos produzidas, pois não ficavam satisfeitas com o resultado e reclamavam. Para evitar esse tipo de constrangimento, Guilherme Hasse colocava na frente do seu Atelier a seguinte frase: “fotógrafo não faz milagre, cada um é o que é”. Armazém do Paquito Nessa mesma localização (Barroquinha) havia um armazém bastante famoso na cidade, o Armazém do Paquito, um espanhol que ficou na história de Cosmópolis. Um fato engraçado era a maneira de anúncio usado pelo comércio. Tinha uma pessoa que fazia serviço de som, o Chico Coimbra, um morador da antiga Colônia do Carandina, uma seção da Usina Ester que não existe mais. Ele ficava no campo de futebol do Carandina e só fazia propaganda do Armazém do Paquito. Ele dizia: “você tem que comprar no armazém do Paquito, porque lá vocês vão encontrar bacia para menino de alumínio, pente para mulher de tartaruga, gaiola para passarinhos de arame, meias para senhora de seda, botinas de homem de elástico”, ele misturava as coisas, trocava a ordem das palavras. Não se sabia se o homem ou a botina eram de elástico!

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