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História

Aprendendo com a vida

História de: Heloisa Alves Belfort
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/04/2014

Sinopse

Em seu depoimento, Heloísa conta como desde muito nova sentiu-se uma mulher, na pele de um homem. Fala sobre a sua infância e sobre suas amigas. Recorda a ida para São Bernardo do Campo em busca de melhores condições de vida. Lembra os primeiros tempos da vida de prostituição que escolheu exercer em São Paulo e sobre o sonho de voltar a morar em Rondônia e reconstruir sua vida.

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História completa

Meu nome é Wilson Alves Belfort. Nasci em 15 de agosto de 1986, em Porto Velho, Rondônia. O nome do meu pai é Juscelino Alves Pedrosa, da minha mãe é Astrogilda Alves Belfort, todos são de Porto Velho, Rondônia. O meu pai era segurança de uma fundação da minha cidade e a minha mãe trabalhava de faxineira nas casas dos outros, até antes de eu vir para cá. Meu pai é separado da minha mãe. Eu não vivi muito com a minha mãe, eu morei com ela uns tempos, minha mãe era super legal, passava o dia trabalhando, nunca brigou comigo, nunca foi chata. Agora o meu pai é um cara muito cabeça quente, que trabalhava demais, brigava porque a gente ficava na rua, solto. A casa era bem humilde de madeira, bonita, um quintal bem grande, tinha vários pés de fruta, tinha pé de manga, eu gostava de me divertir brincando, subindo nos pés das árvores. O bairro era um bairro tranquilo, bom, rua de cascalho, bem humilde, mas bem legal, tudo bonitinho, nada fora do lugar. Hoje se chama Bairro Eletronorte. Tenho três irmãs e um irmão. Um é Vilson, outra é Viviane, Bruna e Beatriz. Eu brincava com meus irmãos, brincava com outros amigos também, a gente brincava mais de pique-esconde, eu brincava muito de elástico, pular corda, brincava de boneca com as minhas amigas. Jogar bola nunca fui muito bom de jogar bola, mas às vezes a gente jogava entre as meninas e os meninos. Gostava de subir em árvores.

 

Eu comecei a frequentar com sete anos a escola. Eu tentei estudar, como não tinha pai sempre do lado, eu fui para escola, estudava. Eu fui um aluno problemático também, às vezes eu respondia a professora, como eu não tive educação dentro de casa, respondia à professora, eu falava que ia ao banheiro e ficava no pátio conversando ou ia para quadra, ou, às vezes, eu pulava o muro e ia para rua. Era perto da minha casa, umas três quadras para baixo. E eu fazia isso, eu pegava o ônibus e ia para o centro da cidade com as minhas colegas. A escola se chamava Eduardo Silva. Eu fiquei lá até a segunda série, depois já fui para outra escola que se chama Nações Unidas, foi onde eu comecei a fazer supletivo. Eu parei um bom tempo, fiz a primeira até a segunda série, parei e fui morar na casa dos outros e eu não estudava. Meu pai casou de novo, minha madrasta não tratava a gente muito bem, eu não gostava e fui morar na casa de uma colega. Eu tive que sair de lá e eu fui morar com a minha colega, Keiciane. Eu tinha uns nove anos de idade. Eu fiquei até os dez, 11 anos, voltei para o meu pai de novo, voltei a estudar, fiz a terceira série e parei de novo.

 

E quando eu comecei a sair para baladinha, comecei a me divertir com as minhas amigas, já são outras amigas, tinha Renata, Monique, Darlen, Simone. Tinha quatorze para 15 anos. A gente ia para um barzinho de pagode de sexta a sábado, se chama Habib’s. De lá a gente ia com uns caras, amigos nossos, ia para pista do aeroporto e ficava lá aquele monte de carro, aquele monte de som, todo mundo bebendo, escutando aquelas músicas do sucesso, igual aquele negócio do Bonde do Tigrão. E dia de domingo a gente ia para Gingos Dance. Mas eu lembro, às vezes, quando eu saía com as minhas amigas de eu estar estudando, eu voltei a estudar, eu não cheguei a fazer a quinta série, mas eu estudei direitinho depois que eu comecei a estudar à noite, fiz o supletivo nesse colégio Nações Unidas, e eu gostava quando acabava de ir para escola a gente se encontrava na pracinha e ficava lá até mais tarde, depois cada um ia para sua casa, às vezes a gente ia tomar sorvete e foi na fase que a gente começou a sair com pessoas mais velhas do que a gente para dar dinheiro para gente. As minhas colegas, não era nem eu, eu era só a companhia. A minha madrasta foi embora e eu voltei a morar com meu pai, comecei a estudar e a fazer isso. Como eu gosto de limpar casa, sempre gostei de limpar casa, é uma coisa que o povo me ensinou, eu fazia faxina na casa dos outros e ganhava 30, 20 reais, 50 às vezes. E eu fui ajudante de cozinha, eu ganhava 150 por mês, trabalhava de segunda a sábado e também ganhava meu dinheiro. Mas teve uma época que estava muito chata, eu estava lá limpando o salão do restaurante e, às vezes, limpava a casa deles quando eles pediam. Eu fiquei nove meses.

 

Eu tenho um tio chamado Severino, que também ele é homossexual, eu ia para casa dele no final de semana e ele me dava dinheiro para ir para balada, quando eu falava assim: “Tio, eu queria comprar uma roupa nova”, ele pegava me dava o dinheiro e falava: “Então limpa o jardim para mim, limpa a varanda”, ele me dava dinheiro e eu comprava. Eu vim para São Paulo acho que eu tinha completado 18 anos. Foi em 2005, final de 2005. Uma amiga minha chegou de São Bernardo do Campo para a minha cidade, eu conheci ele quando era homossexual. Ele veio para São Paulo, colocou prótese, botou silicone no bumbum, deixou o cabelo crescer e apareceu bem bonito, eu fiquei naquela ilusão. Ele chegou na minha cidade, me viu que eu já estava me arrumando, com 12 anos eu comecei a me arrumar de mulher, já não me arrumava mais de menino. Esse meu amigo foi e me viu e falou: “Nossa, você é bem legal, você está tomando hormônio?" Eu falei: “Não, não estou tomando,” nem sabia o que era hormônio. E foi lá, me deu a dica, eu comecei a tomar Perlutan com Gestadinona, os bicos começaram a ficar bonitinho, a aparência do rosto começou a ficar mais legal, o corpo começou a dar um formato mais legalzinho, ele falou: “Se você for para São Paulo você vai ganhar muito dinheiro lá, porque os homens lá pagam para ficar com você, com pessoas igual a gente,” que eu não sei o que. Ela me falou coisas boas, só me falou coisas boas, que ia ganhar dinheiro, que ia botar peito, que ia fazer a minha vida, que eu ia ter coisas legais, e quando eu cheguei aqui não foi nada disso.

 

A cafetina, a finada Jéssica, ela foi ligou e disse: “Ah, eu tenho umas meninas para levar,” veio eu, Heloísa, a minha amiga Jennifer, a Chiquilita e a Vanessa, e a o nome dele é Mária, a gente chamava ela de Mária, nós cinco. Ela já tinha vindo para cá só veio nós quatro de inexperiente. E a cafetina falou assim: “Ah, manda as passagens”. Mandou as passagens da gente e a gente veio de ônibus de Porto Velho para cá. Ela morava em São Bernardo, ela morava no Calux, em São Bernardo. Quando eu cheguei na casa, era um prédio de quatro andares, tinha um porão onde ficavam as meninas que não ganhavam muito dinheiro. Fazia plástica com ela, botava silicone, peito, essas coisas, o último andar era isso, primeiro eu morei no porão, recém-chegada morei no porão. A primeira conversa que eu tive com ela, ela me chamou de filhinha: “Nossa filhinha, nossa, você é bonita”. E tipo assim, eu fui a melhorzinha que chegou, eu e a Jennifer. A Lorraine, que é a Chiquilita, e a Vanessa já eram um pouco meio homem, meio afeminado. A Jennifer é loira, dos olhos verdes, bonita, o apelido dela foi de surfista e o meu de menina, sempre me chamou mais de menina, porque eu parecia mais menina. Ela me explicou que eu tinha que pagar a passagem, a diária é 25 reais com almoço e o café preto.

 

Eu fiquei morando com ela, fiquei nessa situação acho que uns quatro meses, até eu pegar a malícia da vida. Então, eu comecei a me intoxicar de hormônio, toda semana, em quatro em quatro dias eu tomava uma Perlutan e uma Benzenustril, às vezes tomava Perlutan e misturava com a Benzenustril. Então comecei a inchar, o peito começou a ficar mais bonito, eu comecei a ter uma forma mais feminina, o cabelo começou a ficar mais grande. Eu comecei a ganhar mais dinheiro, aprendi a me arrumar, aprendi a me maquiar. Eu tinha bastante medo de entrar no carro dos outros, porque queira ou não eu via filme, aqueles filmes americanos, essas coisas de mulher prostituição que parecia depois saía num cliente e o cliente ia lá e, pã, saía dali, eu tinha medo que acontecesse isso comigo. Então, eu só ia nos hotéis que eu conhecia e da onde que eram perto do lugar onde eu trabalhava, longe dali eu não ia, não entrava nos carros dos clientes, porque as meninas falavam que o homem podia me levar para outro canto. Eu cheguei aqui em 2006, passei 2007, 2008, 2009, até agosto de 2009 eu estava sem documento, passei bastante tempo sem documento, sem nada. Uma colega minha tirou xerox do RG dela e eu entrei nos hotéis com isso, com o RG dela e falava para mim que sempre que um policial me abordar eu dizer que não tinha RG, tinha que esconder, porque se ele me pegasse com o RG ele podia alegar que eu tinha roubado o RG, eu estava com o RG de outra pessoa então ia dar problema. Até que eu conheci um cara e o cara me ajudou, ele pediu para eu fazer exame de doenças e precisava de documento, para ver se era uma pessoa legal, saudável e com quem estava se envolvendo. Ele saía com as minhas amigas e um belo dia eu estou lá trabalhando, ele para mim, pergunta o preço, vamos para o hotel, ele começa a falar um pouco meio enrolado, ele é francês. E ele ajudava muito as minhas amigas, trazia perfume importado para elas, 212, Chanel, dava dinheiro para elas transarem com ele sem preservativo, elas me contavam isso, dava 300, 400 reais, então ficava marcado. Eu comecei a sair com ele, ele começou a vir da França e me ligar, trazer presentes, me dar dinheiro, ele pediu para eu fazer um teste, que ele falou que queria ficar comigo, que ele era uma pessoa que era limpa, dizia que era limpa, que não sei o quê, queria ter um relacionamento mais legal comigo, eu falei: “Tudo bem,” ele falou: “Olha, te dou 600 reais para você arrumar seus documentos e para você fazer o exame”. Foi quando eu fui no Correio, como eu não trouxe nenhum registro, não trouxe nada, fiquei tipo assim indigente aqui em São Paulo mesmo. Tive que ir no Correio para conversar no cartório da minha cidade para mandar o registro pelo correio, até que eu fui, acho que foi no dia 12, nove, dia 13 de agosto que eu fiz meu RG em São Paulo, até agora eu não tenho CPF, não tenho título de eleitor, mas eu tenho o número do CPF, título de eleitor eu nunca fiz.

 

Teve uma vez que eu estava lá, esse dia é um dia bem legal, eu estava bem bonita, logo que começou o ano de 2008. Teve um belo domingo que eu fui para rua de ônibus olhando as pessoas, olhando os prédios passando, cheguei na rua trabalhando. Eu vejo uma policial feminina na esquina abordando minhas amigas e eu comecei a falar para as meninas que a policial era o ó, ela xinga a gente de homem, é uma recalcada, uma frustrada, a minha amiga que estava no hotel junto comigo falou assim: “Heloísa, para com isso por causa que ela vai querer entrar aqui dentro e vai querer te levar para delegacia,” eu fui lá parei, fiquei lá dentro da salinha, que tinha uma salinha no hotel, fiquei sentada, conversando com elas quando o funcionário do hotel falou assim: “Eles estão vindo aí,” tudo bem, e ela apontou para mim: “Você, me acompanhe,” eu falei: “Por quê? Não fiz nada” quando eu entrei dentro da delegacia ela olhou para mim e falou: “Você vai ficar presa por você me chamar de macaca,”. Eu não chamei ela de macaca, mas foi isso. Minhas testemunhas foram essas meninas que eu não conhecia e eu não conhecia, elas conheciam a cafetina que eu morava com ela, a Daiane, mas não me conheciam, foram minhas testemunhas, só falaram assim para o delegado: “Vocês viram se ela chamou a policial de macaca?” Elas falou que não, não vi nada, não conheço, não posso falar, mas como não tem testemunha, nem nada, a voz dela é mais forte do que a minha e eu fiquei lá. O doutor Michael foi com as minhas colegas levou uma roupa para me trocar assim, assado e eles falaram que eu tinha já ido para outro lugar e não estava lá. A policial amarrou meu cabelo todinho para cima, fez o negócio e ainda falou que meu cabelo dava qué: “Cabelo da mona dá dinheiro”, que era um cabelo grande, bem bonito, cuidado, cortou, depois passou a máquina, deixou minha cabeça no zero. Tinha dinheiro na bolsa, estava com uns 300 e poucos reais na bolsa, ele tipo assim, rasgou o dinheiro todo na minha frente, falou que eu não ia precisar de nada disso lá, meu telefone, minha bolsa, tudo ficou com eles, o RG da minha colega. Quando eu saí eu deixei as coisas para as minhas colegas que estavam lá, deixei para elas, voltei para casa onde eu morava das meninas onde eu morava e foi bem difícil.

 

Eu fiquei na Jéssica até o começo de 2007. A minha amiga Jennifer, a mais bonita, pegou e veio para capital morar com a Elizete. A Elizete tinha apartamento na Paulista, na Augusta, na Frei Caneca, na Paim, na Nove de Julho, na Avenida Faria Lima, ela já é uma cafetina mais bem legal. Eu fui, me acertei com a Jéssica, não devia mais nada a ela, as diárias atrasadas, a passagem, tudo, já tinha pagado. Eu já estava na fila de colocar o peito com ela, eu fui e cancelei isso, tipo assim, eu vim embora de lá em maio, eu ia colocar o peito em junho, porque tinha tudo marcado essas coisas, tinha outras meninas na minha frente. Depois recomecei, minha amiga foi me acolheu de novo na casa dela, eu morava escondida, sem a Elizete saber. Ela me ajudou, me deu uma roupa, me deu uma calcinha, me deu um sutiã, me deu uma blusa e uma calça, o sapato e a bolsa eu tinha, e eu fui trabalhar. Acho que eu fiz uns 800 reais. Desde que cheguei aqui a cafetina levou minhas coisas de volta para lá, tirou uma agenda que eu tinha de contatos de pessoas que moravam perto do meu pai, que eu perguntava dele, e fiquei sem contato, nunca falei com ele. A única pessoa com quem falei foi com meu tio Severino.

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