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História

Aprendemos a vida inteira, morremos sem saber nada

História de: Sebastião de Oliveira Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/08/2011

Sinopse

Sebastião de Oliveira Mendes conta um pouco sobre sua infância na fazenda em Atibaia, onde sua família vivia. Ele relembra os tempos de escola e o posterior abandono dos estudos para se dedicar à lavoura. Em 1951, Sebastião vem a São Paulo e se estabelece no Jardim Peri, onde ele mesmo construiu a própria casa. No depoimento, fala sobre o casamento e o nascimento das filhas. Relembra a trajetória como vendedor em diferentes empresas, e depois, como autônomo, consertando máquinas de lavar. Com quase oitenta anos não se entrega fácil, compartilha o seu sonho e deixa um conselho de como aproveitar a vida.

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História completa

P/1 – Senhor Sebastião, vou pedir pra o senhor dizer seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Sebastião de Oliveira Mendes. Eu nasci na Fazenda Ferraz, no bairro de Caetetuba, em Atibaia.

 

P/1 – E que dia o senhor nasceu?

 

R – Dezessete de outubro de 1933.

 

P/1 – Quais eram os nomes dos  seus pais?

 

R – Meu pai se chamava Antonio de Oliveira Mendes e a minha mãe Ana Rosa.

 

P/1 – O que eles faziam?

 

R – Meu pai era lavrador e a minha mãe era doméstica.

 

P/1 – Em Atibaia.

 

R – Em Atibaia.

 

P/1 – Como os seus pais eram?

 

R – A minha mãe era descendente de espanhol. Meus avós eram espanhóis, eu não conheci. E meu pai era descendente de português com cabocla. Era brasileiro, nascido em Itatiba. 

 

P/1 – Como era a casa da sua infância?

 

R – A casa da minha infância era uma casa simples, numa fazenda. Onde a gente vivia da lavoura: plantação, criação de animais. Tinha vaca, tinha porco, tinha galinha. Minha infância foi nesta casa. 

 

P/1 – Quantos irmãos o senhor tinha?

 

R – Eu tinha cinco irmãos. Três mulheres e um homem. 

 

P/1 – E o senhor é qual?

 

R – Eu sou o último da escada. Eu sou o caçula. Sou o mais novo. 

 

P/1 – Como era a cidade em volta?

 

R – A cidade de Atibaia na época que eu era criança era pequena. Não existia movimento nenhum, porque na época não tinha carros também. A cidade era composta de dois automóveis de aluguel. 

 

P/1 – Só tinha dois automóveis?

 

R – Só dois automóveis de aluguel, daqueles bem antigos: 28, 29. É o que eu me lembro da época que eu era criança. A locomoção era feita com charrete ou em lombo de animais. 

 

P/1 – Vocês iam sempre pra cidade?

 

R – Sempre, sempre, não. Era coisa difícil. Até o quarto ano eu não ia quase pra cidade. Ia-se uma vez cada quinze dias, um mês. Passava até dois meses sem ir pra cidade.

 

P/1 – O que vocês faziam lá?

 

R – A gente ia à igreja rezar. Às vezes tinha alguma festinha, quermesse. Então meu pai levava a gente pra assistir. Mas era difícil, não era fácil, não. Porque tinha que ir a pé. Eram seis quilômetros de caminhada, não tinha condução. 

 

P/1 – E a escola como era?

 

R – A escola primária, até o terceiro ano eu fazia no bairro de Caetetuba. Eram três quilômetros de caminhada. Eu ia três quilômetros a pé. Da primeira à terceira série eu fiz ali. Na quarta série eu tinha que andar mais três quilômetros pra chegar à cidade.

 

P/1 – Como era a escola?

 

R – Era uma escola rural. Que tinha a estação da estrada de ferro e logo em seguida tinha uma praça e tinha a escola. E a gente estudava ali. Eram trinta e oito, quarenta alunos e uma professora que dava aula.

 

P/1 – Era aquela foto que o senhor me mostrou?

 

R – Aquela foto que te mostrei eram todas as crianças do terceiro ano. Anterior àquilo não tenho foto nenhuma.

 

P/1 – E como o senhor ia pra escola? Caminhando?

 

R – Eu ia caminhando, a pé, descalço. Aquele tempo não tinha sapato. Era a pé e descalço. Não tinha frio, não tinha chuva, não tinha nada.

 

P/1 – Você ia com seus irmãos?

 

R – Eu nem com meu irmão não ia. Porque meu irmão já estava no quarto ano. Já tinha passado pra outra escola. No começo fui com ele, depois, não. Aí ele passou pra outra série e mudou de escola e eu fiquei na mesma até a terceira série. Eu ia com meus colegas. De todos aqueles tinha uns três ou quatro que eram colegas meus de caminhada. 

 

P/1 – E do que vocês brincavam?

 

R – Naquele tempo tinha muitos brinquedos: jogar pião, bolinha de gude, pipa não tinha dinheiro pra comprar linha. A situação era difícil. E brincadeira normal de moleque na época. Jogar bola, né? Que isto aí nunca deixou de existir.

 

P/1 – E depois do quarto ano o senhor foi estudar na cidade?

 

R – O quarto ano eu fui fazer no Grupo Escolar José Alvim de Atibaia, que ainda existe até hoje. 

 

P/1 – O senhor ia a pé também.

 

R – Ia e voltava a pé. Eram seis quilômetros pra ir e seis pra voltar. E todos os dias. Saía de casa às cinco horas da manhã e chegava em casa uma hora da tarde. 

 

P/1 – Depois que o senhor acabou esta escola o senhor foi trabalhar?

 

R – Infelizmente eu já trabalhava antes. Porque na lavoura não tem limite de idade pra trabalhar. Lá nasceu, cresceu até os seis anos e já começa a luta. Então eu continuei trabalhando com meu pai até nós mudarmos pra São Paulo. Deixei a escola e fui trabalhar na lavoura. Ali não dava pra estudar mais porque não tinha como estudar. Não tinha dinheiro e não tinha escola também. Tinha que ir à outra cidade para continuar os estudos.

 

P/1 – Em que ano vocês vieram pra São Paulo?

 

R – Nós mudamos para São Paulo em 1951. Se eu não me engano fim de 51 ou começo de 52. Foi em 51 que nós mudamos pra cá.

 

P/1 – O senhor tinha dezoito anos.

 

R – Tava com dezoito pra dezenove anos. 

 

P/1 – Como foi chegar à cidade?

 

R – Foi difícil. Foi difícil. Pra quem sai do mato, de uma fazenda e vem aqui pra São Paulo é muito difícil pra se manter no começo aqui. Depois acostuma.

 

P/1 – Como vocês chegaram? Chegaram de trem?

 

R – Aqui só tinha o trem, mas nós tínhamos uma mudança. A minha irmã tinha uma casa aqui. Ela tinha ficado viúva e tinha comprado uma casa. E nós viemos morar na casa dela. Ali mesmo no bairro onde eu moro até hoje, no Jardim Peri. Só que a dificuldade pra eu ir à cidade, porque lá também não tinha condução, só tinha o trem, o trenzinho da Cantareira. E a gente tinha que acordar cedo pra pegar o trem das seis e vir pra cidade pra trabalhar aqui no centro. Nós conseguimos arrumar serviço. O meu irmão trabalhava numa firma, na Rua Senador Queiroz, e ele me arrumou serviço ali. Antes disto a gente fazia serviço bruto, não tinha profissão, tinha que enfrentar o que desse. Então a gente enfrentou tudo que deu.

 

P/1 – O que o senhor veio fazer?

 

R – Na verdade eu trabalhei inicialmente em serviço de limpeza.

 

P/1 – Era num escritório?

 

R – Não, era uma firma de tecidos. Ela revendia tecidos no atacado. Era um atacadista. Eu entrei lá pra fazer limpeza: limpar o chão, limpar o balcão, fazer café. Como um estafeta dentro da firma. E depois ali eu passei a trabalhar na sessão de amostra. Comecei a confeccionar amostras de tecidos. E ali foi melhorando, fui progredindo. Até que eu saí dali. Trabalhei uns dois anos ali e saí dali.

 

P/1 – E o senhor foi pra onde? 

 

R – Fui pra Tecidos Buri. Foi uma grande firma. Me ajudou muito.

 

P/1 – E o senhor já conhecia a sua esposa?

 

R – Não, eu era solteiro.

 

P/1 – Com quantos anos o senhor casou?

 

R – Eu casei com vinte e quatro anos. E eu conheci a minha esposa nesta segunda firma, a Buri. Porque eu entrei lá e depois de um ano ela entrou lá também. Certo? E, inclusive, ela foi ser minha chefe. Foi contratada como chefe. E está até hoje. E está até hoje como chefe.

 

P/1 – E aí? Vocês começaram a namorar como?

 

R – Lá dentro mesmo começamos a namorar. Depois de dois anos nós casamos e aí fomos tocando a vida.

 

P/1 – E aí vocês continuaram morando no Jardim Peri.

 

R – Continuamos morando no jardim Peri. Meu pai tinha uma casa com dois cômodos embaixo, feito um porão, e nós reformamos aquilo e quando casei mudei pra lá. Depois que eu construí a minha casa. Meu pai tinha comprado um terreno pro meu irmão que não teve condições de pagar. Então eu comecei a ajudá-lo, dividimos o terreno e fizemos duas casas neste terreno.

 

P/1 – O senhor mostrou uma foto construindo. Como foi a construção?

 

R – Esta história é um pouco longa. Nós tínhamos construído uma casa. Eu viajava na época, já estava trabalhando fora de São Paulo.

 

P/1 – Onde o senhor trabalhava?

 

R – Quando foi na Buri eu comecei a viajar. Na Buri eu entrei como confeccionista de amostra. Depois eu falei com o dono da firma que eu não queria ficar naquele serviço, que não era o meu objetivo. Mas também não tinha instrução pra muita coisa. Eu queria ser viajante. E ele me deu esta oportunidade. Aí eu comecei a viajar pra ele. Nós construímos uma casa neste terreno que eu moro até hoje, na frente. Só que a rua era de terra, era uma estrada praticamente. Naquele tempo a prefeitura dava um alvará de construção. Eu tirei o alvará e construí. Só que depois da casa pronta a prefeitura rebaixou quatro metros esta rua, aí eu fiquei lá em cima, pendurado. Aí eu tive que construir outra casa. Desmanchar aquela e construir outra. Aí é que vem o problema de eu estar trabalhando direto pra construir a minha casa. Aí fui eu que construí, não paguei pra construir. A primeira eu paguei pra construir. A segunda eu desmanchei a primeira pra construir.

 

P/1 – Você desmanchou toda a casa?

 

R – Toda, pra construir a segunda. Porque eu fiquei no alto. Não dava pra fazer uma escada como eu tinha planejado. Duas casas gêmeas e fazer uma escada aberta no meio. Tinha um metro e vinte de muro dava pra fazer a escada. Depois subiu mais quatro metros, eu fiquei com quase cinco metros de altura, não tinha condições. Aí fui obrigado a demolir pra fazer outra. Aí foi uma história de quatro, cinco anos. Talvez até mais. Pra terminar foram seis anos. Que era sábado domingo e feriado que eu trabalhava. Eu e meu irmão. Durante a semana eu trabalhava no comércio. Quando eu viajava, ficava quinze dias fora e meu irmão ficava tocando o serviço no sábado e domingo. Quando eu vinha, eu trabalhava sábado, domingo e feriado.

 

P/1 – E vocês estavam morando na própria casa?

 

R – Tava morando na própria casa. Porque nós construímos dois cômodos no fundo. Desmanchamos a parte da frente. Ficamos com uma parte na frente e uma parte nos fundos. Então fazia aquele translado, né? Cozinhava na frente e dormia nos fundos. Assim até terminar. Fui construindo um sobradinho. Tem dois quartos, sala e cozinha embaixo. Mas foi difícil no começo. Foi difícil porque não tinha cômodos apropriados. Era tudo meio a meio. Uma parte cozinha na frente e dormia atrás. Então tinha noite que tinha que fazer alguma coisa, tinha que sair; locomover. Mas consegui fazer. 

 

P/1 – Suas filhas já tinham nascido?

 

R – Duas delas já, mas duas nasceram nesta casa nova. Inclusive, quando nasceu a segunda, eu tive que levantar de madrugada pra colocar uma porta porque não tinha. (risos). Eram três horas da manhã e eu estava colocando porta no cômodo pra poder assistir. Nasceram em casa também, né, não tinha condições.

 

P/1 – Quem ajudou a fazer o parto?

 

R – Ah, tinha uma parteira na época. Ela era competente e nós a chamamos. E eu assisti todo o parto. Normal, das duas últimas. As duas primeiras foram no hospital. Mas as duas últimas foram em casa que nasceram.

 

P/1 – E aquela foto que o senhor me mostrou que está em lua de mel em Aparecida. O senhor passou a lua de mel lá?

 

R – Passei a lua de mel em Aparecida.

 

P/1 – O senhor ia todo ano?

 

R – Dinheiro pouco a gente tem que procurar o local mais fácil. Naquele tempo era difícil dinheiro. E eu ia todo ano pra lá. a minha família toda era muito católica. Eu não tenho distinção de religião. Hoje não falo nada de religião nenhuma, mas que todas elas são boas. Desde que saiba conservar. Então eu ia todo ano. Eu tinha uma tia que era freira e ela estava tomando conta de um asilo em Taubaté, então eu ia à Aparecida e na volta parava para visitá-la. Aí passava o dia. Almoçava com ela. Trazia pra casa quando ela podia vir. Então a gente fazia esta visita. Era quase que obrigatório todo ano ir pra lá. ia visitar minha tia e ia até Aparecida.

 

P/1 – E depois? As suas duas últimas filhas nasceram já nesta casa que o senhor construiu. O senhor ainda estava na mesma empresa ou o senhor começou a fazer outra coisa?

 

R – Não, eu estava na Buri ainda. Trabalhei na Buri dez anos direto. Eu trabalhei dois anos interno e dois anos trabalhei viajando. Eu começava em Ribeirão Preto.

 

P/1 – Onde o senhor ia?

 

R – Primeiro eu comecei a fazer a Central do Brasil. Eu começava aqui em Mogi das Cruzes e ia até Queluz, divisa do Estado do Rio de Janeiro. Depois me transferiram pra o norte do Estado de São Paulo. Eu começava em São Simão, perto de Ribeirão Preto e ia até Goiânia. Eu fazia Araguari, Uberlândia, Uberaba. Todas aquelas cidades. Com jipe. Porque São Paulo, que era o estado melhor, não existia estrada. O asfalto ia até, além de Campinas, Americana. Depois de Americana já começava a estrada de terra e ia até o fim da viagem. Ia até Goiânia sem asfalto. Era tudo terra. E de camionete fui uma vez ou duas e não consegui fazer a viagem porque quebrava muito. Aí me deram um jipe. Este daí me levou até hoje. 

 

P/1 – O senhor ia sozinho?

 

R – No começo eu tinha um motorista, porque eu não tinha carta. Mas depois eu tirei a carta. Aí eu fiquei trabalhando sozinho. Andava o Estado de São Paulo todinho e ia até Araguari, Catalão. Aquele tempo era tudo sertão por lá.

 

P/1 – E o senhor ficou assim por oito anos e depois?

 

R – Depois a Buri acabou com o atacado.

 

P/1 – Ah, isto o senhor ia vender. O senhor já levava mercadoria?

 

R – Não, eu levava o mostruário e o freguês escolhia. Que o jipe tinha uma grade no meio e eu carregava dez malas de amostra. Toda confeccionada; cada amostra tinha um padrão e um nome. Então eu abria o mostruário para o freguês e ele escolhia e eu fazia o pedido. Aí eu mandava pelo correio o pedido. Mandava pelo correio, a firma separava e despachava pelo transporte que o freguês pedia. 

 

P/1 – A empresa que mandava.

 

R – A empresa mandava a mercadoria. E financeiramente, no começo eu era financiado por eles, depois eles me passaram como autônomo. Aí a despesa era por minha conta. Então a gente tinha que largar o jipe lá pelo triângulo mineiro e vinha de trem pra cá. Porque eu não podia ficar mais que um mês fora de casa. Eu tinha as crianças pequenas. Meu pai morava perto da minha esposa, mas mesmo assim preocupava. Então eu voltava pra casa uma vez por mês, a cada vinte dias. Mas era de trem, não vinha de carro porque era muito dispendioso. Não tinha dinheiro pra isto. Mas era bom.

 

P/1 – Você chegava a conhecer as cidades?

 

R – Eu tinha que conhecer porque eu tinha os clientes. Os comerciantes de tecidos, eu visitava todos. Eu ia tirar pedido. Eu não era vendedor de olhar no cara. Tinha que tirar o pedido e ele assinar o pedido pra confirmar. Senão não funcionava. Eu chegava no cliente, abria o talão de pedido. Preenchia o processo todo. E eles escolhiam o tecido e eu marcava o nome do tecido e ele escolhia a cor, o padrão que ele queria e depois eu mandava pelo correio pra firma. É um trabalho que eu gostava de fazer, porque antes eu confeccionava amostras. Eu não queria ficar nisto aí. Eu queria ser vendedor.

 

P/1 – Quando o senhor fazia confecção de amostras o que era?

 

R – Um padrão disto aqui, por exemplo, tem diversas cores: tem lista azul, tem lista amarela, tem lista vermelha. Eu fazia o mostruário, conforme eu recebia da fábrica, eu fazia o meu mostruário. E mandava pro vendedor. 

 

P/1 – Cortava os quadradinhos e identificava.

 

R – Identificado e mandava pra o vendedor aquela mostra. Isto era confeccionar amostra. E o vendedor mandava o pedido de acordo com a amostra que eu fazia.

 

P/1 – Você fazia mostruário para todo mundo.

 

R – Pra todos os vendedores. Nós tínhamos trinta e dois vendedores na Buri. Eu fazia trinta e duas amostras além do balcão de vendas que tinha em São Paulo. 

 

P/1 – Aí cada tecido novo que saía o senhor fazia uma amostra nova.

 

R – Exato, eu fazia amostra e mandava para os vendedores. Porque eles recebiam. Um recebia em São José, outro em Ribeirão Preto. Tinha vendedor pelo Brasil inteiro. Então eu fazia as amostras e mandava pra eles. As alterações de preço; cancelamento de pedido. Quando não tinha mais o tecido, eu mandava pra cancelar e mandava os mostruários novos. Toda semana eu tinha que fazer isto aí. 

 

P/1 – E depois que o senhor parou de fazer isto? 

 

R – Aí eu fui ser vendedor. Depois que eu parei de fazer amostra.

 

P/1 – Não, não. Depois que o senhor saiu da firma?

 

R – Depois que eu saí da firma eu entrei numa outra firma que chamava “Cristais Candeia”, eu fui trabalhar no Estado do Rio de Janeiro. Aí fui fazer o Estado do Rio de Janeiro todinho, fui até o Espírito Santo. Como eu era comissionado, eu fiz uma viagem que foi um sucesso. Mas o artigo de cristais, de presente, ele não tem uma rotatividade muito boa. Vende numa época, mas a outra para. Então eu fui até Vitória no Espírito Santo e consegui fazer oito cargas. Que vendia carga fechada. Enquanto não completava os caminhões, não mandava a mercadoria. E era tudo à vista. Eu vendia, o caminhão ia, entregava e eu recebia. Aí quando foi na segunda viagem, que demorou uns seis meses, eu voltei pra fazer a nova visita e não deu resultado e aí eu saí. Aí comecei a trabalhar em São Paulo. Foi aí que eu voltei pra trabalhar em São Paulo.

 

P/1 – Estes cristais, o senhor foi pro Rio trabalhar lá.

 

R – Fui vender no Estado do Rio. Não é uma cidade só, todas as cidades do Estado do Rio. Eu não me lembro de todas, mas visitei todas elas. E fora da Guanabara, naquele tempo era Guanabara, fora da Guanabara eu fazia todo o Estado. Começava em Queluz e depois ia embora até... A última cidade que fiz lá? Campos. Foi a cidade de Campos no Estado do Rio, divisa com Espírito Santo.

Aí eu voltei pra São Paulo; cheguei na firma e falei: “Não dá pra continuar viajando”. Eles queriam me mandar pra Bahia. Eu falei: já estou deixando de viajar no Rio, que era mais perto. A dificuldade de comunicação na época era muito grande. Não existia telefone. Quando pegava um telefone pra falar com São Paulo eram quatro, cinco horas. Não tinha igual a hoje que você pega um telefone e fala na hora. Naquele tempo não tinha isto daí.

 

P/1 – Pedia a chamada.

 

R – Pedia a chamada e ficava esperando. Da zona de Ribeirão Preto eu cheguei a ficar cinco horas pra falar com São Paulo. Do Rio de Janeiro cheguei a ficar seis horas esperando uma ligação pra São Paulo. Então havia muita dificuldade de comunicação. As crianças já estavam precisando de escola; precisando mais de mim e eu peguei e deixei de viajar e fiquei trabalhando mais em São Paulo. Aí comecei a trabalhar aqui como vendedor. Até acertar foi difícil. 

Eu comecei a vender produto de plástico, né, pra uma firma que não me lembro o nome, até que eu arrumei uma outra firma, a última em que eu trabalhei, foi metalúrgica. Arrumei uma metalúrgica pra eu trabalhar como vendedor. Aqui em São Paulo. Chamava Companhia Mormanno; era trefilaria de arame. Aí comecei a trabalhar aqui e fiquei mais catorze anos trabalhando pra eles. Foram praticamente duas firmas que eu trabalhei durante o período de luta. Depois esta firma foi vendida, passou pra outra e eu fazia diversos setores aqui em São Paulo. Trabalhava com carro e ia vendendo. Meu ramo sempre foi o de vendas. Nunca gostei de ficar preso em casa.

 

P/1 – E o senhor fez isto até se aposentar.

 

R – Eu fiz isto até aposentar.

 

P/1 – E o senhor aposentou nesta empresa.

 

R – Aposentei nesta empresa da Companhia Mormanno, que era trefilaria de arame. Depois ela foi vendida pra Siderúrgica Fiel. Eu continuei com eles até conseguir a aposentadoria. Como toda firma. Vai mudando a equipe de chefe de venda e os vendedores sempre dão uma quebra. Quando quebraram eu pedi a aposentadoria.

 

P/1 – E quantos anos faz que o senhor se aposentou?

 

R – Me aposentei em 1981. Mas não parei, continuei trabalhando. Naquela época quarenta e nove, cinquenta anos, era velho. Não conseguia mais emprego. Meu objetivo não era parar; era continuar. Mas só que eu tive que mudar de profissão.

 

P/1 – E o senhor foi fazer o quê?

 

R – Fui consertar máquina de lavar. Aí aprendia a profissão de conserto de máquinas de lavar, na Brastemp. A Brastemp não me conheceu, mas eu aprendi na máquina dela. Aí fiquei quase dez anos trabalhando com isto.

 

P/1 – Quem te ensinou?

 

R – A natureza, a vida. 

 

P/1 – O senhor ficou mexendo.

 

R – A natureza, a vida. A minha máquina me ensinou a trabalhar. Que ela enguiçava e eu procurava saber o que tinha. Eu conversava com um técnico, ele me dava a dica mais ou menos, eu ia lá, desmontava e fazia. Né? Nunca tive problema pra parte de mecânica. Eu peguei e fazia. Aí comecei a consertar pra fora. Fiquei quase dez anos trabalhando com máquina de lavar. Eu arrumava freguês. Comecei arrumando a minha e depois comecei arrumar a dos fregueses. Arrumei uma boa freguesia e fiquei trabalhando com aquilo lá.

 

P/1 – Como o senhor fez a divulgação? Como as pessoas ficavam sabendo?

 

R – A divulgação é o seguinte, o cara falava: “Ah, tem uma máquina encrencada lá. não quer trabalhar?”. Eu falava: “Vou dar uma olhada pra você”. E comecei a trabalhar pro vizinho, terceiro, terceiro e aí foi aumentando sozinho. A divulgação foi feita de boca a boca. Não foi propaganda, nem nada. A pessoa conhecia; confiava; e eu ia lá fazer o serviço. E tocava pra frente. E aquele vai dando serviço pra outro. A gente fez um trabalho, né? Através do trabalho que a gente consegue fazer alguma coisa. Eu consegui assim. Não foi divulgação, não foi propaganda, não foi nada. Foi na luta mesmo. 

 

P/1 – E o senhor ficou vários anos fazendo isto?

 

R – Quase dez anos fazendo este serviço. Mas por conta própria. Tinha minha aposentadoria, aparecia serviço e eu ia fazer. Se não aparecia, não tinha problema. Mas nunca gostei de ficar parado, não. Sempre trabalhando.

 

P/1 – E depois que o senhor parou de consertar?

 

R – Aí a situação mudou bastante. Eu precisei parar não por minha questão, mas por problemas de saúde. A minha esposa, já faz uns quatro anos que não consegue fazer mais nada. Ela tem um problema de Alzheimer e ela não consegue. Não posso deixar ela sozinha. Eu tenho que ficar constantemente junto com ela. Quando ela altera tenho que levar pra casa de uma filha, que é a mais velha. Aí melhora e eu a trago pra casa de novo. Mas precisa estar constantemente junto. É pra alimentação, pra ir ao banheiro. Tem que estar sempre junto com ela. Fica difícil, hoje não dá pra fazer. Tenho vontade, mas não dá pra fazer mais nada. Infelizmente deu uma parada agora na minha vida.

 

P/1 – Faz uns quatro anos isto? 

 

R – Faz uns quatro anos que estou nesta situação. 

 

P/1 – E hoje o senhor cuida dela. Como é seu cotidiano hoje?

 

R – Hoje, infelizmente mais eu cuido dela. Eu tenho um quintal. Minha casa, dou a manutenção, faço a pintura. Faço o que tem que fazer lá. Tem um quintal, me divirto plantando uma verdura. Fazendo algumas coisinhas pra não ficar parado. Mas não posso me ausentar de dentro de casa. Porque ela não pode se levantar; se locomover de um lugar pra outro. É perigoso dela cair. Como já caiu uma vez e fraturou uma vértebra. Então a gente tem que fazer um monte de adaptação pra poder viver junto. Porque senão não dá. E quando ela quer sair, levantar, tem que estar junto e ao lado dela pra continuar a vida. A vida a dois é complicada. 

 

P/1 – É. Por quê?

 

R – A vida a dois é complicada. 

 

P/1 – Quais são as coisas mais importantes pro senhor?

 

R – Qual?

 

P/1 – O que é mais importante hoje para o senhor atualmente?

 

R – O importante pra mim na verdade é viver bem. Porque sem ela não existe nada na vida. É amor, esperança e viver bem. Eu gostaria, se pudesse, de viajar, porque eu gostei muito de viajar. Sempre viajei muito, mas hoje infelizmente não dá. Mas o mais importante é viver bem e saber viver. Porque aqui a gente vive, nasce e morre sem saber nada. Aprendendo a vida inteira. E morre sem saber nada. Porque não tem condições. Você vai, vai, vai. Aprende, aprende, aprende. A  vida é um aprendizado, mas chega uma hora que você para. Tem que parar com tudo. Não tem muita sequência. Então até que venha a reta final a gente tem que tocar a vida e ir levando.

 

P/1 – E o senhor tem algum sonho?

 

R – Tinha.

 

P/1 – E qual era?

 

R – (risos). Continuar viajando. Conhecendo o mundo. Porque não tem coisa melhor. Apesar que eu conheço bastante. Levei minha esposa pra conhecer bastante porque eu viajei muito com ela.

 

P/1 – Depois que seus filhos cresceram...

 

R – Depois que minhas filhas cresceram, se formaram. Mesmo quando elas eram pequenas eu viajava muito.

 

P/1 – Aí o senhor levava a sua esposa. 

 

R – Os lugares bons que conheci quando viajava trabalhando, depois eu passei a levar a minha esposa pra conhecer. Quer dizer, então, é um fruto muito bom. Fui bem acompanhado. A gente conhece bastante coisa neste Brasil. Não posso me queixar, não. Eu gostaria de continuar conhecendo, mas agora não deu. Tive que dar uma pausa e uma parada. Não tem condições. Mas é muito bom.

 

P/1 – Seu Sebastião, como foi contar sua história?

 

R – Eu acho que é uma divulgação de vida. Porque a gente já está com setenta e oito anos. Eu não me entrego à toa. Mesmo com setenta e oito anos e as dificuldades que eu tenho, eu quero continuar vivendo e fazer com que os outros vivam também. Este é meu neto. Ele é um cara legal pra chuchu. Todos eles são. Ele me ajuda muito, mas o que eu pude fazer por eles quando eram pequenos eu fiz. Acho que é bacana. Eu acho que é bacana. A história deve ser válida pra qualquer um. Pra família toda. E pra ter mais que precisa. Porque é muito fácil pra gente falar: ah, tô ruim de vida. Reclamar não resolve. Resolve enfrentar a realidade. Não resolve reclamar. A gente tem que ser otimista. Pra viver bem tem que ser otimista. Pelo menos eu entendo assim a vida. Ela é muito boa só sabendo viver ela. Porque não adianta querer que ela venha trazer algo mais que não vem. A gente que tem que procurar. Então depende de cada um. A minha opinião é esta daí. 

 

P/1 – Obrigada, viu. 

 

R – Se falhei em alguma coisa me perdoa que nunca fiz isto. 

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