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História

Apaixonado pelo Brasil

História de: Franco Mikuletic
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2005

Sinopse

No pós-guerra, Franco estava em um campo de refugiados na Itália e namorava uma garota que queria vir ao Brasil. Escondeu-se debaixo do banco do trem onde ela estava, mas a polícia o descobriu e o retirou do trem. Mas ele não desistiu. Veio para o Brasil e se estabeleceu em São Paulo, no bairro do Belenzinho. Ali trabalhou, se casou, teve filhos. Nesta entrevista, ele confessa ser apaixonado pelo país.   

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História completa

P/1 – Boa tarde, seu Franco.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Queria começar a entrevista pedindo que o senhor falasse seu nome completo.

 

R – Eu me chamo Franco Mikuletic.

 

P/1 – E o senhor nasceu onde? Em que data?

 

R – Eu nasci em 25 de outubro de 1933, na cidade de Ilirska Bistrica, [que] se localiza na Eslovênia, entre vinte quilômetros de Trieste e 34 de Rijeka, antiga Fiume.

 

P/1 – E o senhor se lembra do nome completo de seus pais e da sua mãe?

 

R – Meu pai se chamava José Mikuletic e minha mãe chamava-se Carolina Bastiancic Mikuletic.

 

P/1 – E o senhor conheceu seus avós?

 

R – Conheci bastante meus avós. Meu avô era mais _______. Ele viajava e de vez em quando eu ia de carona, na charrete dele. Ele viajava por toda aquela redondeza, porque era o único médico que tinha naquela região, na época; talvez a cada mil quilômetros tinha um médico. Ele era do exército da Áustria e pelo bem da população eles cediam para assistir parturiente, cavalos, vacas; tudo que era vivo na redondeza [era] ele que cuidava. Na época, não existiam veterinários, então médico tinha que fazer tudo. De vez em quando, eu embarcava na charrete dele e nós ficávamos uma ou duas semanas rodando, até que o exército vinha procurá-lo e o levava de volta.

 

P/1 – Como é que se chamava seu avô?

 

R – Ele se chamava Andrea Mikuletic. Sei que é esquisito um homem com Andrea, mas na Eslovênia isso é normal.

 

P/1 – Tem muita gente que chama Andrea?

 

R – Pouca gente, mas em vez de André, lá é Andrea.

 

P/1 – Então, ele era médico e...

 

R – Isso, [médico] do exército da Áustria-Hungria. Ele cuidava [de] todos municípios na redondeza.

 

P/1 – Como é que as pessoas o chamavam?

 

R – Olha, [foi] o que minha irmã me contou, porque nem lembro, mas chamavam de doutor.

 

P/1 – Certo. O senhor podia contar um pouquinho dessas viagens? Onde o senhor dormia?

 

R – Eu dormia em todos os lugares onde ele dormia, porque depois de uma consulta, vinha aquela farrinha deles: comida, bebida... Ele gostava e pra mim era tudo novidade.  Pouca coisa que eu lembro, até que um dia eu caí da charrete.

 

P/1 – Caiu da charrete?

 

R – Caí. Aí minha mãe parece que não [me] deixou mais fazer essas estrepolias com ele.

Um dia acordei e estava tudo em chamas; me colocaram dentro de um carro e me levaram pra Rijeka - na época era Fiume. Fui pra colégio interno, fiquei lá [por] dois anos.

 

P/1 – O senhor tinha que idade?

 

R – Eu tinha seis anos. Mas era um martírio lá, todo dia tinha que tomar banho.

 

P/1 – Todo dia?

 

R – Gelado. Quase todos tomavam banho quente, aquela farra. Nós gritávamos, chorávamos no banho frio. [Para] todos que mijavam na cama, era banho frio. Só dia de escola, que era de manhã, e depois à tarde também. Tinha mais um... Não gostava também. Tinha que andar de sainha.

 

P/1 – De sainha?

 

R – Todo estudante lá andava de saia preta. E o pior é isso, que nós gostávamos de aprontar. Toda vez que aprontávamos, o castigo era macarrão com leite.

 

P/1 – Macarrão com leite?

 

R – Isso não era nada bom, odiava isso aí. Mesa separada, macarrão com leite. Eu era tão bonzinho, que numa semana comia três, quatro dias macarrão com leite.  (risos) Até que um dia - que nós adoramos, o dia era mais feliz -, caíram duas bombas. Uma caiu no estaleiro, que era pertinho e outra caiu a uns quinhentos metros do colégio interno. Eles fecharam o colégio. Acabou-se banho, desde aquele dia eu não vi mais água por um bom tempo. Fugia da água que não tinha nem ideia.  Aí acabou a guerra... Não, começou a guerra ali.

 

P/1 – E aí o senhor voltou pra casa?

 

R – Como ninguém me veio buscar eu embarquei num trem, me pendurei num trem, e voltei pra Eslovênia.

 

P/1 – Sozinho?

 

R – Sozinho. Não, veio uma molecada junto, mas no caminho desceram, se perderam. E eu, sozinho, cheguei na Eslovênia e procurei um tio. Não sei [por] que motivo, mas nós não éramos bem vistos lá com os tios. Não sei se nós aprontamos muito de pequenos, mas eu consegui ficar com ele.

Começou a guerra. Aí começou aquela farra: bombardeavam, guerreavam. Nós íamos na torre da igreja, pra observar tudo. Não é que um dia os miseráveis vieram lá e arrancaram o sino da igreja? Mas nesse ínterim, o padre nos nomeou como coroinhas. Também começou boa farra aí. Nós roubávamos vinho do padre, colocávamos água no garrafão dele. O padre corria atrás de nós.

 

P/1 – Ele desconfiava?

 

R – Desconfiava, cada vez o vinho era mais branco. (risos) Quando fazia missa, pra vinho ele abaixava o copinho dele, e pra água ele levantava rápido. Mas chegou uma hora que o vinho ficou clarinho e ele pegou com a boca na botija.

 

P/1 – E o que mais vocês aprontavam como coroinhas?

 

R – Nós éramos meio rebeldes. Todo mundo se escondia na guerra e essa hora é que nós nos divertíamos. Íamos olhar os mortos. Nós procurávamos, todo mundo, nós procurávamos coisas dos mortos. Nós só queríamos procurar armas, revólver, essas coisas. Éramos moleques demais.

 

P/1 – O senhor lembra a primeira vez que viu um morto na guerra?

 

R – Não. Lembro da primeira vez que eu vi uns quinze mortos. Era uma venda grande e tinha um enterro. [Em] todo enterro eles vão todos chorando, na Eslovênia, mas quando acaba o enterro, todo mundo vai à cantina e faz aquele jantar ou almoço, aquela festa. Não é que os malvados… Caiu uma bomba lá apegado à cantina. Eu tinha atrasado porque era aquele que carregava a cruz do defunto.

 

P/1 – Era o senhor?

 

R – Era eu. É uma cruzinha na frente do... Enterro [era] tudo a pé. Mas toda hora tinha enterro e aquele dia eu me atrasei porque o padre lá mandou... Nós fizemos alguma arte no enterro e ele [nos] segurou um pouco, aí salvamos nossa vida. [Quando] chegamos lá pra comer, só tinha um buracão e uns quinze mortos lá. Outra vez nós tínhamos que fazer enterro.

Enterro era fácil, porque o caixão era sempre o mesmo. Nós colocávamos um pano embaixo e quando fazia o furo, cova, nós colocávamos aquele caixão em cima da cova, soltávamos o pano [e o] defuntinho caía lá dentro. Eles fechavam e nós levávamos o caixão embora.

 

P/1 – Ah, sim. Entendi.

 

R – Fizemos uns trezentos enterros com o mesmo caixão.

 

P/1 – O senhor contou então que era um costume olhar no corpo dos mortos pra ver se tinha objetos de valor, armas...

 

R – Soldados? Todo mundo dava uma revistadinha, porque podia. Nós só queríamos bobagem, armas. E assim a guerra foi indo até que a malvada acabou. Acabou nossa farra também. Só sei que eles vieram na nossa casa e levaram duas carroças cheias de armas, o exército. Nós fazíamos fogueira no meio da praça e colocávamos granada dentro. Aquilo fazia um... (risos) Alguém cansou dessas farras e retiraram todas as nossas armas.

 

P/1 – Então o senhor achou muitas armas? Conte algumas coisas que o senhor achou.

 

R - Todo soldado, quando foge, larga tudo. Eles costumavam largar marmita também, tinha aquelas latinhas com carne e marmelada. A tecnologia, naquela época, era muito primitiva; pra eles comerem no front e não estragar carne eles a enfiavam dentro da marmelada. É ruim comer, a primeira vez é difícil. Carne com marmelada é horrível, mas depois a gente foi acostumando.

Nós estávamos muito interessados em batata, coisa assim. Todo soldado carregava um pacote de... Atualmente, chamam de batata chips. Eles tinham pacotes dessa batata pra alimentar os cavalos. É muita neve, o cavalo [é] que puxava canhão. E todo soldado tinha que carregar ração dos cavalos. Quando nós descobrimos que batata chips era boa pra comer, coitados dos cavalos. (risos) Eles passavam mal.  

Assim a guerra foi acabando e nós... Tristeza também. Matou-nos de tristeza quando acabou a guerra.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Acabou o divertimento. Nossa farra foi a guerra. A guerra foi coisa mais linda que nós achávamos.

 

P/1 – E era uma turma? Quantos eram?

 

R – Turminha, mas foi diminuindo a turma.

Toda vez que caía um avião corriam lá e pegavam coisa de avião, como aquelas balas, e iam abrindo pra tirar pólvora, pra nós fazermos aquele caminho pra... Explodir outras coisas. Eles iam batendo de vez em quando com pedra, aquilo explodia e morriam.

Como eu vi a primeira vez que aconteceu, eu fugia disso. Eu corria mais onde caíam os pilotos e os procurava, era menos perigoso. Nós usávamos paraquedas pra fazer tenda, essas coisas. Mas sempre tinha que chegar antes do exército, senão nada de tenda.

 

P/1 – A turma era de garotos da sua idade? Eram mais velhos?

 

R – [Da] minha idade. Nove, dez, onze anos. Durou quase cinco anos a guerra. E era uma beleza.

 

P/1 – Então o senhor tinha uma casa cheia de armas?

 

R – Cheia, mas bastante gente tinha. Era divertido.

De vez em quando a gente pegava também na guerra os caminhões que eles largavam. Soldados largavam caminhões. Nós não sabíamos dirigir, aí íamos lá o dia inteiro, até acabar última gota de gasolina. (risos) Ou caíamos num barranco, porque os pneus eram todos de borracha cheia, duros, não tinha ar no pneu. Então, não tinha problema.

Largavam o caminhão e fugiam. A farra era nossa, aqueles caminhões e rodávamos...

 

P/1 – Nisso, o senhor morava com seu tio?

 

R – Com meu tio, até acabar a guerra e meu tio me despachar pra Rijeka, Fiume. Nós íamos à escola um dia sim, dois dias não. Quando era bombardeio, nós não íamos a escola, mas da próxima vez que íamos ficávamos até a noite. Não foi moleza pra mim.

 

P/1 – Seu Franco, antes da gente terminar essa parte, que eu quero que o senhor fale um pouquinho mais de sua família. O senhor passou a guerra como um divertimento, como o senhor falou. O senhor lembra de algumas dessas histórias, de algumas das travessuras que vocês faziam?

 

R – Na guerra?

 

P/1 – É.

 

R – Travessuras sim. Fizemos bastante. Por exemplo, tem uma senhora que, não sei, mexemos com o cachorro dela e ela bateu em nós com uma vara, aquela vara da cerca. Nós apanhamos nas pernas, a mulher era braba. Domingo ela foi à igreja, nós colocamos uma granada, não morreu ninguém. (risos) Colocamos no canto da casa dela, mas nós não tínhamos ideia do que ia acontecer. Colocamos aquela pólvora que a turma desmontava das balas, fizemos um caminho e fugimos.  A danada da bomba derrubou meia casa. Caiu tanto, tudo da casa. Em resumo, foi simples. Fiquei três dias escondido dentro de um barril. Tinha aquele barril vazio, e eu fiquei três dias dentro do barril.

 

P/1 – E ela nunca descobriu?

 

R – Todo mundo procurou, mas não achou que fomos nós. Algum outro pagou o pato. Só uma vez mais eu fiz uma travessura, bem pequena. Toda meninada tinha pai e mãe, tudo bonitinho; nos chamavam de “pangaré”. Eu tinha calça até aqui [curta], preta. [Com] neve, aquele gelo, quem ia lavar pé? Descalços. Nós éramos meio rejeitados da molecada, aí foram todos pra igreja.

“Vocês não vão à igreja?” “Não, nós queríamos...” Já tínhamos brigado com padre, nós ficamos até longe da igreja por opção, porque o padre já tinha nos mandado andar. Aí nós pegamos... Tinha umas granadas que se chamavam Società Romana. Eram granadas vermelhas.

O sino bateu, acabou a missa. E nós jogamos duas bombas numa lagoa gelada. Fez um buraco assim, bem no meio dessa... Podia ser uma piscinona grande, só que era natural. Aqueles almofadinhas vieram correndo pra escorregar no gelo. Era um atrás do outro, entrando na água.

São pequenas travessurinhas, mas ficamos outra vez três dias escondidos no barril.  Pão preto, nós roíamos pão e...

 

P/1 – Já que o senhor falou, o que vocês comiam no dia a dia na guerra, além da carne com marmelada?

 

R - Olha, carne com marmelada era raro, [só] quando a gente conseguia afanar dos guardas do exército. Geralmente, eles fazem um pão [no] dia primeiro do mês. Ele fica até o dia trinta guardado e cada dia ele fica mais gostoso. Então nós rasgávamos aquele pão e mandávamos bala.

Isso no inverno; no calor, lá é reino de batata. Batata, maçã e cerejinha. Não é mole. Tem gente que não mastigava a cerejinha e depois de umas horas dava aquela disenteria. E sempre tinha alguém que era mais antipático e saía aquela cerejinha inteira. Nós lavávamos. Lavávamos um pingo, passávamos no mato e colocávamos pros caras comerem. (risos) Pequenas travessuras, nada grande.

 

P/1 – Seu Franco, quando a guerra acabou, o senhor saiu da casa de seu tio. O senhor voltou a fazer contato com seu pai e sua mãe?

 

R – Não, eles já tinham morrido. Eles tinham morrido no dia que me levaram pra colégio interno. Em resumo, todos aqueles anos de guerra, nós estávamos na escola italiana - eu nasci também no regime italiano. Quando acabou a guerra, fui remetido de volta pra Rijeka. Procurei uma tia e me ajeitei lá. Comecei a estudar em croata - na época era iugoslavo. À manhã e à tarde era aula; trabalhava na companhia de cinema, só à noite que trabalhava.

 

P/1 – Então o senhor foi alfabetizado na Croácia?

 

R – Em croata e na Croácia, tanto que reconheceram de tempo da guerra, todos os diplomas italianos foram considerados no ginásio. Não começamos de estaca zero. Só sei que nós tivemos que fazer dois anos de ginásio em um ano. Perda de guerra, mas compensavam, de manhã e à tarde escola.

Assim foi até esse dia derradeiro que eu vim pra Itália. Na época era zona franca, Trieste; era governo inglês e americano. Saí de Rijeka, não fui fugido. Eu cismei e falei: “Vambora, vambora.” No meio da rua andamos oitenta quilômetros a pé e atravessamos a fronteira com a maior... Por farra, ainda sentei em cima do marco. Entrei. Iugoslávia e zona V, que era de Trieste. Sentei em cima dele. “Se querem atirar, atirem.” Ninguém apareceu.

Cheguei em Trieste e [foi] esquisito: nos viram e a polícia inglesa nos parou.  “Documento.” Que documento? Nós não tínhamos nada. Com a mão explicamos e fomos direto pra delegacia.

Começou o tormento. Uma noite ficamos na delegacia. E não é que tinha que tomar banho? (risos) Mas tomei banho quente. Encheram a gente de vacina; estava com o peito assim [inchado], vacina todo mundo tomou. E doeu, não sei que diabo de vacina era.

Fiquei uns quinze dias e não sei por que motivo faltou eletricista e já fui nomeado chefe deles. Aí fiz meu grupinho lá em Trieste. Conheci brasileiros, povo mais alegre. Muita gente nasceu aqui e ficou lá no campo de concentração - campo de refugiados, chamavam. De dia eles podiam sair, à noite eles tinham que dormir no campo.

Eu era chefe de cinco campos, então eu tinha uma permanente que não tinha jeito [de] ficar só num campo. Conheci bastante brasileiros e gostei da turma. Eu fui a uma escola pra aprender português e não é que a professora [no] segundo dia me expulsou da escola?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Sei lá eu. Ela mora aqui em São Paulo, a malvada. Ela me expulsou da escola,  mas tudo bem.

Eu conheci umas meninas e elas fizeram opção pra ir pro Brasil. Chegou [a] carta e elas embarcaram no trem. Como eu tinha namoradinha, eu me enfiei embaixo do banco do trem, onde ela estava sentada. Quando chegou na fronteira entre a Itália e Trieste, a polícia olhou e me tirou de lá. Alguém me dedou, devia ser mãe dela.

Fiquei uma noite preso dentro do banheiro. Voltei pra Trieste. O malvado guarda me levou direto pro tribunal algemado. Tinha um… Devia ser coronel, juiz... Tinha uns cinco ou seis na minha frente, julgou logo, aí chegou a minha vez. Ele perguntou pro tradutor: “E esse, o que que aprontou?” O defensor falou assim: “Nós o pegamos no trem, fugindo sem documento.” O juiz falou: “Você não fala nada?” Ninguém me perguntou nada. “A namorada ia pro Brasil e eu queria ir junto, me escondi embaixo.” Elechamou o promotor: “E vocês o prenderam por isso? Tirem já a algema dele, levem-no lá no campo, de carro.” O juiz ficou brabo, era muito pouco pra eles irem.

Voltei pro campo. Um dia, brasileiros jogaram futebol, brasileiros do campo, e nós que éramos eletricistas, encanadores, [jogamos] contra eles. Um frio! Veio o cônsul brasileiro, ele veio de Milão. Não é que nós apanhamos de uns 5 x 0 de futebol? Era um frio! Nós tomamos as todas blusas deles, no vestuário. Vestimos [as] blusas e fomos embora.

 

P/1 - Seu Franco, conta um pouquinho mais desse jogo. O senhor jogava de quê?

 

R – Eu? Eu jogava de centroavante, mas só uma vez joguei bola aqui no Brasil.

 

P/1 – No país do futebol você não joga bola?

 

R – Joguei uma vez, no Pacheco, mas tive que jogar de cueca e a malvada caía toda hora. Não foi [um] bom jogo, mas bom foram os chopes e churrasco depois do jogo.  

Voltando a Trieste, quando o jogo acabou eu fui falar com o cônsul brasileiro. Falei: “Olha, gostei muito do povo, eu queria ir pro Brasil.” Ele anotou meu nome e foi embora. Passou uns tempos, recebi uma carta pra me apresentar, porque eu ia pro Brasil. Tudo bem. Chegamos no trem…

Mas antes disso, eu fui... Eu estava tão aborrecido que namorada foi embora que eu fui me alistar no exército americano. Eu fui lá, fiz teste, mediram roupa, tudo. Era pra embarcar, suponhamos, amanhã, só que a Iugoslávia tinha entrado no neutralismo no mundo, era neutra. Cortaram todos que vieram da Iugoslávia no exército americano. Em represália, nós nos alistamos no exército francês, na Legião Estrangeira. Tudo de novo. Exame. Por incrível que pareça, todo mundo foi aprovado. E como eu estava na eletricidade, passei o cargo pro engenheiro, eu me atrasei. O caminhão estava indo embora com eles, até a estação do trem. O coronel falou assim: “Não, não. Nosso carro te leva.”

Eles me levaram até o trem. Cheguei na estação, todos [se] despedindo. Muitas namoradas. “Ei, ciao bella”... Quando fui entrar no trem, tudo trancado. Eles entravam no trem, mas sair ninguém mais podia. Eu me aborreci: “Quer saber? Não quero mais saber desse exército.” Voltei pro campo. Fiquei meio chateado, entendeu? Não fui.

Depois que veio a tal carta do Brasil. Ah, fiquei tão feliz. Coloquei terno, ganhei terno lá e cheguei dentro do trem: “Pode trancar [o] trem à vontade agora.” E todo mundo tinha jantar no trem. Maçã, lanche, atrás dos caras. Eu falei: “Dessa vez eu vou  fazer uma malandragem.” Eu sentei no lugar de um outro cara. Comi o lanche dele, maçã, tudo. Quando acabou, fui procurar meu lugar, aí tinha um cara: “Ei, tá no meu lugar.” Entrei no meu lugar. Outro lanche, outro jantar...

Isso foi bonito. Viajamos a noite inteira. Fomos pra Gênova e depois de uns dois dias embarcamos no navio. Navio era de guerra, mas levava oitocentos passageiros. Tinha poucos em Gênova. Embarcamos, tudo bem. Quando chegou em Lisboa lotou esse navio.

 

P/1 - Foi a primeira escala, Lisboa?

 

R – Primeira. Mas lotou, lotou. Até comecei a entender alguma coisa em português. Nós queríamos descer em Lisboa, não deixaram. Nós parecíamos bicho de outro mundo. Não deixaram, ficamos no navio um dia inteiro sem ninguém descer. Aí partimos.

Quando chegamos, [passamos] umas cinco horas em Lisboa - mar revoltado, restaurante… Eu e mais nove brasileiros, gaúchos, que fomos no festival da Europa, com bombacha, com roupa típica... Nove brasileiros e eu jantando lá. Nós parecíamos reis dentro do navio.  Todo mundo passando mal lá fora, brancos, todo mundo “chamando o Hugo.” Não dava nem pra andar mais, marcavam o caminho por todo o navio.

 

P/1 – Onde o senhor conheceu esses gaúchos?

 

R – No navio, nesse restaurante. Na África tem uma ilha portuguesa, [nas] ilhas Canárias. [A] cidadezinha chama-se Funchal.  

 

P/1 – Ilha da Madeira.

 

R – Ilha da Madeira. Não nos deixaram descer também. E [os] brasileiros desceram todos, só nós não podíamos descer. Mas nós queríamos ver como é que era. Nada feito.

O navio zarpou, chegamos em Las Palmas, aí nós tapeamos. Tinha lá uns frades portugueses. Nós afanamos, emprestamos roupas deles, vestimos aquilo e descemos. Ninguém perguntou nada. (risos) Do porto, fomos até a cidade a pé.

Quando nós vimos aquelas mulheres, cabelo até aqui [longos], olhos grandes... Nós nunca vimos mulheres tão bonitas. Ficamos abobados.

O que nós vimos? Feira na rua. Nunca tinha visto feira.

 

P/1 – Não?

 

R – Não. E cachos de banana. Nós encostamos e o cara falou: “Pode experimentar.” Nós não entendíamos o que ele falou, mas ele fez assim... Veio uma senhora,  pegou banana, comeu, jogou casca na rua, pegou outra e foi na outra banca. Falei: “Aqui é bom. Vamos comer banana.” Nós comemos banana. O navio apitou e nós comendo banana. Com aquela farda de frade, fuçamos a batina e começamos correr. Chegamos, entramos e do jeito que nós saímos do navio, entramos. Aquelas bananas... Nunca tinha comido banana.

O navio zarpou e foi embora. Aí chegou no Equador, tinha aquela festa de... No Equador fazem festa desgraçada. E nós fazíamos aquela farra de piscina. Eu fui batizado lá.

P/1 – Como é a farra no Equador?

 

R – Biquíni - quando não caía, porque lá era permitido, já no Rio de Janeiro não deixaram. Mas era comida, bebida, tudo à vontade. Esses shows, palhaçada. Passou o Equador, o comissário de bordo chamou treze de nós. “Olha, tem um telegrama.” Não tinha telex na época. “Recebemos um telegrama que vocês treze... Cancelaram vosso desembarque em Santos. Vocês vão ter que desembarcar no Rio de Janeiro.” “Onde fica Rio de Janeiro, onde fica Santos?” “Nós vamos parar antes no Rio.” Bom, até lá, tudo bem.

Chegamos ao Rio de Janeiro. Aquilo, nós achávamos coisa de outro mundo. Descemos do navio, os caras, os quatro guardas e um cara na frente, direto pro barquinho da Marinha. E to to to to to... Uma hora de barco.

Era [na] Ilha das Flores. Bonita, toda tratada, realmente só flores. Tinha uns canhões [de] antes do Dom Pedro, acho. Tinha uns canhões velhos, mas só pra enfeite. E fomos lá.

[Foi a] primeira vez que nós comemos arroz e feijão. Eu gamei.

 

P/1 – Gostou?

 

R – Até hoje. Eu adoro arroz e feijão. Pode me dar a comida que quiser, mas se tiver um feijãozinho, dispenso qualquer outra coisa. Pode me dar carne, o que quiser, mas eu troco tudo isso por arroz e feijão.

Beleza, lá já era bom. Nós ficamos um dia, veio uma professora na ilha e começou a nos ensinar português. Ficamos quinze dias nessa mordomia: só comer, dormir e estudar português. [Com] quinze dias veio um barco da Marinha, nos embarcou e... Uma hora de volta [para o] Rio de Janeiro. Todo mundo: “Vamos pôr terno, tudo.” “O que vai ser?”  Colocaram no exército, num caminhãozinho e [nos] levaram.

Voltamos pra Ilha das Flores?

 

P/1 - Não, vamos voltar pra Itália, porque o senhor vai contar pra gente como o aprendeu a profissão de eletricista.

 

R – Tudo bem. Quando cheguei, metade da Europa estava arruinada. Eletricidade também não era tão velha na época, na Europa. Começavam a instalar luz em vários lugares.

Cheguei no campo de refugiados; antes era crematório de judeus. Era uma antiga fábrica, os nazistas aproveitavam e queimavam os indesejáveis ali. Quando instalaram o campo, nós tivemos que derrubar metade do crematório e fazer hotel, moradia pro povo que fugia do leste. Tinha bastante russos, até generais russos que fugiam do tzar ainda, todos velhinhos já. Mas ali era a última morada deles. Quase todos morreram lá, de velhos mesmo.

E eletricidade… O engenheiro falou assim: “Olha, vocês tem que fazer. Querem ter luz? Façam luz.” E eles deram... Veio fio e material dos Estados Unidos e nós começamos a instalar [em] todo o campo. É por isso que eu era mais queridinho. Quem trabalhava comigo… Não era bem trabalho, era bastante farra no meio também. Coronel emprestava caminhoneta militar e nós íamos tomar banho no mar. Quer dizer, nós éramos bons pra ele e ele era flexível conosco. E ali tive que aprender e também ensinar eletricidade. Os brasileiros, tinha bastante deles.

 

P/1 - Porque tinha brasileiro nesse campo de refugiados?

 

R - Em 48 eles foram convidados pra voltar pra terra deles. Veio um navio em Santos e arrastou um monte de famílias pra lá. Eles não se deram bem; ficaram dois, três anos e fugiram pra Trieste, pra esse campo de refugiados, porque aí não precisavam pagar a passagem. Eles não tinham como pagar a passagem pra voltar pro Brasil e o consulado brasileiro era de difícil acesso a eles, não sei se era por causa política. Só que desse jeito era bem mais fácil, fugir pra Trieste e a ONU... O Brasil dava o visto e a ONU pagava a passagem. Então a maioria dos brasileiros voltou e moram aqui mesmo, nesse bairro. Mooca...

 

P/1 – Eram filhos de imigrantes da Iugoslávia que voltavam?

 

R – Eram iugoslavos também. Eram filhos e alguns netos ainda. Por incrível que pareça, eu me identifiquei bem com eles. E como o regime era meio...

[Em] alguns campos mandavam ingleses e [em] outros, americanos. Não precisa nem dizer: no campo americano tudo era permitido, mas nos ingleses, era aquela disciplina. [Às] dez horas tinha que desligar as luzes. Ninguém podia ter fogareiro elétrico, mas eu permiti. Todos brasileiros que pediam, eu autorizava. Às vezes, fornecíamos, porque nós aprendíamos de outros, turco, árabe, tinha russos, poloneses; alguns de nós tiveram que aprender e nós cedíamos pros brasileiros.  Em troca vinha aquela fritada de ovo, aquele arrozinho... Era bem mais divertido. Podem ver, eu estou aqui por causa deles. E por causa de umas namoradas miseráveis que viajaram e me largaram lá.

 

P/1 – Essa é da história do trem?

 

R – Do trem. Mas eu tinha mais uma namorada, inclusive eu doei uma namorada para um amigo meu, esse foi [o] mais dramático que aconteceu em história de despedida. Ele se chama Mino Malogna. Eu tinha uma namorada, ela se chamava Mirella. Alta, cabelos morenos, quase pretos e olhos grandes. Ela chorou, chorou... “Eu vou embora.” Desci do trem e falei “Vem cá, Mirella. Hoje você vai ser namorada do meu amigo aqui. Abraça ele que... Olha, tô dando de coração. Se precisamos trazer pra testemunhar isso aí...” Metade da estação, que tinha umas quinhentas pessoas, bateram palma.

De tanta choradeira, no fim saiu tudo com muita alegria. E estou no Brasil. Nunca mais vi minhas namoradas aqui, nem sei onde elas andam.

 

P/1 – Seu Franco, vamos falar um pouquinho do Brasil. O senhor estava lá na ilha aprendendo português. Quais as primeiras palavras que o senhor aprendeu de português?

 

R – Obrigado.

 

P/1 – Que mais?

 

R – “Obrigado”. “Bom dia”. “Até logo”. “Comida”.  (risos) Era tão fácil... Nem eu sabia que era tão difícil. E muitas coisas não aprendi até hoje.

Ficamos quinze dias na ilha e os malvados nos levaram pro Rio de Janeiro. Colocaram-nos dentro de um caminhão do exército e [nos] levaram pra Catete. Perfilaram-nos todos numa sala lá, os treze. Aí veio um alto senhor e um senhor mais baixo, todos de terno claro, como se fosse hoje. Era terno claro - não, era bege. Ele foi lá, deu a mão pro primeiro: “Parabéns.” E deu uma carteira pra ele. Aí olhou outro, deu pra outro. Chegou a minha vez, deu a carteira, me deu a mão: “Parabéns.” [Quando] acabou tudo, veio outro secretário e falou: “Agora vocês vão trabalhar.” “Viemos pra isso!” O outro falou assim: “O senhor presidente Getúlio Vargas deseja boa sorte a todos vocês.” E o homem se retirou.

Deram pra nós água com groselha, um lanche de mortadela e voltamos pro caminhãozinho. Veio um malvado de novo, um secretário alto e falou: “Vocês três vão pra Belo Horizonte. Vocês quatro vão pro Rio Grande do Sul. Vocês dois vão pro Paraná.” “E nós?” “Vocês vão voltar pra ilha.”

Fomos pra ilha. Passou um dia, dois... “Agora tá chato. Metade foi embora, agora estamos só nós.” Aí deu uma ideia: “Tem uma ilha lá, vamos até lá à noite.” A Marinha tinha um barco, perto da sentinela. O sentinela ia lá embaixo e conversava com umas meninas na ilha; nós pegamos o barquinho da Marinha e fomos até a ilha.

Nós vimos aquelas bananas bonitas. Trepamos e aquilo caiu; pegamos um cacho desse tamanho, quase de um metro, e levamos até o barco. Remamos até metade do canal. Começamos a comer aquelas bananas; começou a endurecer os lábios, saía leite da banana. Não prestou. Não conseguimos comer a banana.

Voltamos pra Ilha das Flores, entregamos o barco e amarramos lá, com banana e tudo. O guarda ainda estava lá, conversando com as meninas.

Disse no dia seguinte: “Vamos ter que sair daqui. Aqui não vai dar pé.” Tinha aquelas portas dos quartos... Desmontamos duas portas. Como estávamos em quatro, disse: “Dois ficam em cada porta e nós vamos flutuar até o outro lado.” O outro lado parece que se chama Leme. Niterói, Leme, qualquer coisa assim. Colocamos aquela porta na água, deitei em cima dela. Desceu a porta, desci eu, afundou as duas nossas barcaças. (risos) [Quando] nós fomos olhar bem, as danadas eram de peroba. (risos) Portas pesadas, por isso eram tão pesadas pra levarmos até a água.  Voltamos lá sem porta, sem nada, frustrados.

Passou uns dois dias, vieram uns caras e falaram: “Os quatro pra São Paulo.” Papelada. E veio a barcaça da Marinha. Embarcamos nela e entramos no trem da Central, os quatro. E andamos… Andamos a noite inteira. Chegou em Cruzeiro, ficou umas cinco horas. Iam trocar a locomotiva e lá [íamos] nós pra São Paulo.

Faltavam dois dias, um dia pro Natal. Viemos a São Paulo e nos levaram no Almeida Lima - era a Imigração. [Quando] chegamos lá, fomos direto pro restaurante, pra ver se tinha arroz e feijão. Feijão tinha, mas tinha macarrãozinho, o feijão se escondia dentro. Beleza. Também gamamos! Foram uns três pratos, comemos como nunca.

Passou um dia... Na véspera de Natal, todo mundo foi pra cidade. E nós não deixaram sair. Falei: “E agora?” Ao lado da [Rua] Visconde de Parnaíba tinha umas plantas, coisa de uns dois metros e pouco. Levamos uma mesinha do restaurante, escalamos o muro e eu me joguei.  Falei: “Bom, se cair em cima das plantas...” Caí em cima dum guarda. (risos) O malvado tinha garrafa na mão; ele estava escondido, era vigia de lá e [estava] tomando a birita dele. Começou a gritar como louco, pensou que o assaltaram... Aí os outros pularam também e [ele] gritou. Correram outros guardas; nós o estávamos socorrendo, porque o homem ficou maluco de tanto gritar. E não é que fomos detidos de novo? Nos levaram pra dentro do Almeida, dentro da Imigração, e [no] dia seguinte embarcaram só dois de nós pro Rio de Janeiro, de volta.

 

P/1 – E o senhor estava junto?

 

R – Eu e mais um. Mas nós não fizemos nada de mal. Só queríamos zanzar pela cidade, ver como era o Natal. Mandaram a gente de volta pra lá. Aí fomos pro Ministério do Exterior, tudo ali embaixo, na avenida… Não sei como chamava. Veio um, veio outro, aí veio o secretário: “Que nada, isso não é nada.” Veio um relatório [dizendo] que nós atacamos o guarda. Falei: “Não.” Aí veio o tradutor. Tinha uma vantagem, eu falava três idiomas. [Quando] cheguei ao Rio, quase todo mundo falava italiano.

 

P/1 – Que idiomas o senhor falava?

 

R – Falava esloveno, croata e italiano. E quando cheguei ao Rio, quase todo mundo falava italiano. Era em 53. Expliquei: “Foi assim, assim. Não nos deixaram sair à noite pra ver como era o carnaval, véspera… Fazem quase um carnaval no Natal, né? Nós nunca vimos. Pulamos muro e infelizmente o cara estava embaixo do muro.” Resmungaram entre eles qualquer coisa e... “Tudo bem. Vocês dormem hoje aqui e amanhã vocês voltam pra São Paulo.”

Deram a passagem e fomos à Praça da Alegria, lá no Rio. É Praça Alegria, acho. Era um abrigo de mendigo. E não é que os caras queriam me dar injeção? Era vacina. “Mas espera um pouquinho.” Nós já falávamos meio italiano, meio português;  eu tinha a carteira comigo. “Olha, já fui vacinado.” Não adiantou nada. Até hoje tenho raiva de injeção. Carcaram injeção de novo em mim, no braço. Dormi numa cama com uma lona. À noite, aquilo fecha e tudo bem. Ah, tomei sopa, davam sopa lá de noite.

De manhã cedo nós embarcamos de trem e voltamos pra São Paulo. Voltamos ao mesmo lugar, mas o guarda nos olhava torto. Passávamos por ele e não queria nem piscar conosco.  E ficamos...

Um dia, nós saímos da Imigração e encontramos uma brasileira que estava lá em Trieste. “Vocês estão aqui?” Falei: “Claro, só nós.” “E vocês moram onde?” “Nós não moramos. Estamos estacionados na Imigração.” “Então vocês vão comigo, porque uma senhora tem um quarto pra alugar e no Belém tem um monte de serviço. Lá é moleza.”

Não falou três minutos. Nós pegamos carona com ela. Viemos pro Belenzinho. Era nessa ruazinha mesmo.

 

P/1  - Qual rua?

 

R - Serra da Bocaína, número 302.

 

P/1 - Isso era em que ano?

R - [Era] 1954 já, porque no Natal ainda estava na Imigração e no Ano Novo já estava no Belém.

 

P/1 – Seu Franco, como era aqui o Belém? Como era a Rua Serra da Bocaína em 54?

 

R - Era mais alegre. Tinha barro até o joelho quando chovia, mas o povo era mais povo. Agora todo mundo é mal-humorado.

Na época, eu mudei pra [Rua] Serra da Bocaína. A senhora que nos acolheu e alugou quarto, o marido dela era médico desse [Moinho] Santista, que nós estamos aqui. Ele trabalhava aqui e faleceu. Ela ficou sozinha e nós ocupamos a casa dele.

A Serra da Bocaína tinha festas, aniversário. O povo cumprimentava todo mundo. Agora, vizinho parece múmia. Todo mundo passa por você, nem olham na cara, nos olhos. Criança brincava até dez horas da noite de bola e as meninas de cabra-cega, coisa assim. Era muito alegre a rua, o Belém todo era alegre.

Fiquei aqui uns dias aqui na dona Emília e fui procurar serviço. Encontrei serviço nessa mesma rua, só que tem outro nome. Taquaritinga se chama agora, mas ela é de frente pra delegacia da Mooca. Trabalhei lá.

 

P/1 – O que o senhor fazia?

 

R – Eu entrei como eletricista, mas eu me dava mais com máquina. Fiquei torneiro lá; me deram um torno e eu desempenhei rápido torneiro mecânico.

Era sempre meio atrasadinho no trabalho e sempre ia correndo trabalhar. Um dia corri, olhei pra trás e vejo quatro cavalos correndo atrás de mim, com quatro guardas em cima dos cavalos. Eu corri, mas os danados corriam mais que eu. Encostei num ferro velho, justo onde está a delegacia hoje, e falei: “Olha, vou lavorare aí.” Aí falaram: “Esse não é a que... Da metalúrgica?”

A Metalúrgica Paulista fazia greve e a cavalaria vinha. Aquele tempo a Metalúrgica Paulista era um nome aqui no bairro, era coisa grande. Tinha muitos operários e de vez em quando entravam em greve. Eu voltei pro trabalho e os cavalos e os guardas foram embora.

Eu não entendi nada, também. Por que aconteceu isso? Depois explicaram pra mim que aquilo lá era pra pegar grevistas, esses que quebravam coisas, sei lá eu.

A dona Emília falou assim: “Por que você não vai trabalhar no [Moinho] Santista, que é essa casa aí?’ “Tudo bem.” Ela pegou o telefone, ligou pra cá e no dia seguinte [me] mandou trabalhar. Vocês viram que facilidade que tinha na época. Daqui, todo lugar que queria, ia trabalhar. Trabalhei aqui acho que uns dois meses.

 

P/1 – Como era aqui na época?

 

R – Beleza. Tinha mil mulheres quase pra cada homem. (risos) Você quer coisa mais linda? Eu me engracei com uma, bonitinha. Um dia, correndo atrasado, cheguei pra marcar cartão. Ela deu um sorriso de Penha a Lapa. Só via um dente aqui e outro aqui. E eu caí de costa, quase. Falei: “Não, não, não.” Perdi o entusiasmo, perdi a namorada. Já chegava meia hora antes, só pra não encontrá-la mais.

Trabalhei aqui com bastante vontade, era divertido aquilo. Um dia, o chefe me chamou: “Franco, vem cá. Eu sei, você aqui está…”

Mas também fizemos bastante farra. O chefe era tão idoso, mas tinha espírito de moleque. Você [se] distraía, ia ao banheiro; quando voltava, você pegava a sua máquina, eles tinham enchido de graxa. Aí eu falei: “Espera um pouquinho. De malandragem eu sei mais que ele. Eu saí da faculdade da malandragem.” Fui ao banheiro ali... Tinha uma fila de banheiros, não sei se tem ainda ou derrubaram. Eu fui lá e aquele cocô de manhã, amarelo, peguei num papel e levei até lá. Todos se distraíram e eu colocava nas maçanetas. O chefe também foi lá com o engenheiro e eu fui lá na porta do chefe, entendeu? E eu lá, quieto. Meu Deus do céu, quando eles passaram a mão... E aquilo, [à medida que] ficava mais tempo, mais cheirava. O chefe chamou todo mundo. O engenheiro lavou a mão, xingando - chamava-se Dr. Mário. Lavou tudo. Seu Martim suspendeu todo mundo por dois dias.

 

P/1 – Todo mundo?

 

R – Todo mundo, menos eu. (risos) Aí eu cheguei pro Martim e falei: “Martim, isso é errado. Fui eu que passei. Não é justo você castigar todos eles.” “Já tá falado, tá falado.” “Se alguém for despedido, vai confirmar isso aí.”  

Passou uma semana. O Martim me chamou de novo no escritório e falou: “Franco, eu preciso de você. Tenho um amigo e ele está encrencado. Ele tem muito serviço e a turma está trabalhando lá, mas não funciona.” Eles davam um serviço pra mim e eu já estudava o serviço antes, depois atacava o serviço e fazia mais fácil, mais rápido. Aí ele me tirou daqui, me levou na Rua Itabaiana, na Mooca. [O dono] chamava-se Antônio Melli.

Fui trabalhar. Trabalhei um dia, dois. “Não, não. Você não vai sair mais daqui.” Eles faziam bujões de carter pra Simca Chambord, só que eles trabalhavam à moda antiga. Faziam, suponhamos, cem bujões por hora; eu adaptei a máquina, fazia duzentos, então acabava o material e eu ia pra casa. A turma achava que... “Como é que...?”

 

P/1- Como que o senhor bolou?

 

R - Simplifiquei as coisas. Em lugar de usar a máquina pra fazer rosca, adaptei tarraxas pra fazer rosca. Eu fazia todas as peças em bruto e depois colocava um por vez. A tarraxa passava. No que eles mais perdiam tempo [era para] fazer rosca, limpar rosca, experimentar rosca… Nunca dava certo. Uns tentavam, outros saíam. Era duro. Quer dizer, na rosca a máquina nunca dava certo.

 

P/1 – Tudo no controle?

 

R – Perfeito. Não fui eu que fiz, foi a tarraxa, porque a tarraxa já é molde daquela rosca. Foi moleza. Aí o homem não me largava mais, mudou pro Brás e me levou junto. E aí casei, me parece que casei.

 

P/1 – Conta então a história de seu namoro e casamento.

 

R – Eu era sempre meio atrasado pra trabalho. A moça que eu queria namorar também nunca era a primeira da fila, ela costumava ir em cima da hora pra trabalhar. Ela morava em frente à fábrica onde trabalhava, então no horário ela atravessava a rua e já estava na fábrica.

Eu a vi assim um dia, dois dias... Alta, tinha uns brincos... Não, brincos não usava pra ir trabalhar. E tinha uma outra irmã junto, uma peste, sempre estava agarrada nela. Mas eu...

De sábado, eu a vejo uma vez com cadeira na mão, ia ver um filme. Passavam na vila, uma travessinha ali. Chama-se Vila Anette. Passava um filme de Roy Rogers, não sei de quem mais. Eu, bonzinho, pegava a cadeira dela, carregava pra ela. Assim começamos a namorar.

Um dia, a mãe dela me pegou pelo peito: “É sério o namoro com minha filha?” “Mas claro!” “É pra casar?” “Claro.” Bonzinho, [eu] era, aí entrei na casa dela. O pai dela tinha quase dois metros, forte. Olhou pra mim. “Senta.” Sentei. Pegou uma garrafa de vinho, botou na mesa. Pegou um copo, botou o vinho, pegou um presunto, aquele defumado e começou a cortar. Comecei a jantar, almoçar, tomar café e comecei... Até dormia até umas seis horas lá, atravessava a rua e ia pra casa.

Foi e marcamos o dia de casamento. E eu sempre falava pra ela: “Rio, maravilhoso. O dia [em] que nos casarmos, vamos para o Rio de Janeiro passar a lua de mel.”

Fizeram aquela festa. Eu não tinha ninguém aqui, ela tinha um monte de parente e amigos.

A festa foi até de madrugada, aí peguei minha mala e ela e fomos pro Rio de Janeiro. Cheguei num posto de gasolina e falei: “Você pegou a passagem?” “Não. E você?” “Não.” “E vamos viajar como? Você fica no posto, que eu volto.” E eu voltei, correndo. Lua de mel e eu correndo feito um louco. Peguei as passagens e chegamos quase atrasados na rodoviária.

Pegamos um ônibus... Naquele tempo, a Via Dutra era só uma via magrinha, era estrada vai e outro vem. Era...

 

P/1 - Mão livre.

 

R - Viajamos, viajamos…

Não é pra contar que deu ‘mijaneira’? A minha esposa - já era esposa, estava...  Não aguentou mais. Não é que o homem parou? Não sei se ela se borrou, só sei que desceu todo mundo correndo desse ônibus. Não é como agora, hoje tem toalete a bordo. Aquele tempo foi [na] cara dura.

Chegamos ao Rio. “Nesse hotel? Vamos?” Subimos no hotel. Não tinha janela, a porta não fechava. Ela falou: “Não, esse hotel não.” Aí fomos ao Mem de Sá, que é um hotel bonito. Aí sim: belo apartamento, aquele café da manhã. Comecei a ser brasileiro! Aquela mordomia.

Fomos ao restaurante almoçar. Fomos pro Corcovado, mas dessa vez nós fomos de bonde. Uma vez, naquela trapalhada de Ilha das Flores, nós conseguimos sair escondidos no barco da Marinha e tivemos que ir a pé até o Corcovado. Fomos a pé!  Descer foi moleza, mas subir, nunca chegava. Vinha aquele trenzinho, a gente se encostava, ele passava e nós pedalando a pé pra cima. Vimos o Rio de Janeiro inteiro, mas com a língua até aqui, [como] gravata. E descia fácil, descer foi moleza.

Chegamos no [bairro] Silvestre, ali pegamos um bonde. Chocamos do lado de fora e de Silvestre até Lapa - acho que é Lapa, que tem aqueles arcos - até lá nós fomos todos chocados. Da Lapa fomos até a Praça XV; fomos a pé também, aí voltamos pra Marinha de novo, foi moleza.  

Eu levei a esposa pra ver o bonde, sentado, tudo bonitinho. Ver Cristo, na maneira... Pão de Açúcar fomos ver também, mas de bonde, nada a pé. Nem sabia como ir a pé mais.

 

P/1 - Seu Franco, o senhor não falou o nome de sua esposa.

 

R – Ah, é? Chama-se Francisca Maria.

 

P/2 - Ela também é de origem...?

 

R – Os pais dela são dálmatas, uma região muito quente. Gente braba. Já ouviram falar da Dalmácia?

 

P/1 – Dalmácia.

 

R – É, ela [tem] origem lá. Geralmente, lá a gente é alta e forte. [De] todos os lugares que eu fui, nunca vi gente tão forte como dálmatas. E olha que lá eles não têm muita mordomia, não. É pedra. Eles colocam terra, trazem terra em sacolas e em cima das pedras eles plantam verdura, uva e figos. Trabalham, lá não tem moleza.

 

P/1 – O senhor estava falando de sua lua de mel no Rio de Janeiro.

 

R – Só foi farra, só mordomia. À noite, era aquela barulheira - ela tá falando pra não contar tudo - e de dia, só passeio. Fomos a Copacabana, vimos tudo. E aí minha esposa falou: “Olha, eu estava tão ruim na ida, de estômago. Vamos comprar azeitona salgada na volta? “Vamos.” Fomos, me parece que era Casa da Banha, algum lugar perto de Copacabana, e compramos tal azeitona.

Voltamos no ônibus e tinha dois senhores ao nosso lado. Ela abriu aquele vidro de azeitona e deu pro senhor que era da polícia. Não sei se levou preso, ele veio pegar um preso em São Paulo. Aí ele pegou azeitona e colocou na boca. Começou assim… [fazendo careta] Eu não sabia se o homem ia chorar, gritar. “Ah, pega, bem!” Eu peguei uma e era puro sal. (risos)

E assim voltei. Mandei um monte de cartões do Rio de Janeiro pra São Paulo. Nós chegamos e depois de uns quinze dias vieram os cartões. O correio era rápido mesmo! E assim começou minha vida de casado.

 

P/1 – O senhor foi morar onde?

 

R – No mesmo lugar onde eu estava morando, na velhinha, Dona Emília. Moramos [lá por] vários anos. E depois meu sogro falou: “Não, não. Vocês vão morar comigo lá.” Ele construiu casas no fundo [da casa] dele e nós moramos [por] bastantes anos. Até filhos tivemos lá, dois.

 

P/1 – O senhor tem dois filhos?

 

R – Dois filhos. O Belém foi maravilhoso.

Depois eu, por força de... Fui trabalhar, montar televisão. Você vê que eu era bem versátil, comecei a montar televisão em casa.  Pode não acreditar, mas eu montava televisão e vendia pros parentes e amigos. A primeira oficina foi minha esposa que me montou. Quer dizer, ela que financiou. Até hoje não devolvi o dinheiro pra ela.

Trabalhei [por] bastante tempo e em frente à oficina estava o hospital. E estava lá o curso... Como eu tinha tendência à Medicina, por herança fui fazer um curso no hospital. Só tinha mulheres, era o único homem. Tudo bem. Injeção, campo cirúrgico, tudo foi fácil, mas na hora de ginecologia, eu era acanhado. Colocar sonda em senhoras, às vezes me atrapalhava porque não tinha experiência boa, mas fui aprovado assim mesmo. De vez em quando errava com a sonda, mas fui… Passei no curso. Fizeram festa, elogiaram, até diploma recebi.

Veio um médico também, deu um curso de Radiologia e como era fácil… Eu fui integrado ao hospital. Trabalhei acho que um ano e pouco; meu cunhado me arrumou um serviço mais fácil. O problema no hospital… Era fácil, só que eu ia pra casa e tinha que tomar banho. Não é mole. Tinha que tomar banho, aquela má vontade.

Deitava na cama e quando eram duas, três horas da madrugada, na porta as ambulâncias, de sirene aberta. Na vizinhança, todo mundo resmungando. Tinha que levantar e correr pro hospital, que na época não tinha como agora. Agora nós temos resgate, temos tudo, mas na época tinha só nós aqui, que era essa ruazinha de baixo. E qualquer acidente que tinha, mesmo nessa fábrica, nós que atendíamos. Como radiologia era primeiro estágio, mesmo [de] tiros, facadas, a primeira coisa era meu serviço. Fraturas... Eu era a primeira vítima, morava pegado ao hospital. Era domingo e não tinha hora, eu quase nem ia pra casa. De domingo ficava às vezes direto no hospital. Esses malvados… De sábado, aqui ao lado, a molecada fazia corrida e enchia o Pronto Socorro. Só tinha esse aqui.

 

P/1 – Corrida?

 

R – Racha, a molecada fazia. Roubavam o carro do pai, da mamãe e faziam na rua. Não tinha avenida, como agora. Quando batia carro, sobrava pouca coisa porque não tinha faróis, pouca sinalização e ruas muito ruins. E o sangue da molecada é muito quente. Dezesseis, dezessete, dezoito anos.

Meu cunhado falou um dia: “Olha, tem um lugarzinho pra você trabalhar mais calmo.” E foi. Na Praça da Bandeira, no centro. Vendas. Em uma semana comecei a vender igual àqueles velhos vendedores.

 

P/1 - Vender o que, seu Franco?

 

R – Material elétrico. Conhecia o ramo. Trabalhei [por] uns dois anos e fui vender pra um conhecido... Não o conhecia, mas fui vender numa companhia de alumínio na Praça… Não sei se ainda está lá, mas era na Praça da República. Fui vender lá. Vi que eles estavam comprando horrores e outro tipo de mercadoria. Passei na Vila Prudente e falei pro cara: “Olha, tem uma firma aí que está comprando todo esse equipamento, são inéditos no Brasil. Vá lá e vai ver que vocês vendem. Estou vendendo pra toda São Paulo e não vi ninguém fazer painéis. E eu vejo aqui vocês fazendo painéis.” “É. Nós estamos fazendo papel colado.” “Bem, então a Álcool Minas, eles estão montando fábrica acho que é em Poços de Caldas, coisa assim.”

O Argeu foi lá com engenheiro e [no] mesmo dia já trouxeram pedidos. “Tá bom, mas os transformadores você vai comprar de mim.” “Natural, mas você vai trabalhar comigo.”  Falei: “Não posso. Trabalho lá.” “Você vai trabalhar comigo.” Eu nem culpa tinha, só indiquei e o homem se entusiasmou demais. Trabalhei [por] dois anos.

Depois de dois anos, minhas cunhadas abriram uma firma na [Rua] Serra da Bocaína e me convidaram pra ser chefe de vendas. Mas era chefe, vendas, era motorista, era entregador…

 

P/1 – Essa firma era de quê?

 

R – Era de acessórios têxteis, de material elétrico. Por incrível que pareça, onde nos encontramos agora é uma firma têxtil. Era nosso cliente. Como você vê, morreram quase todas as firmas têxteis. Toda fiação. O Belém era [um] reino de indústria, agora está um cemitério. Agora é uma… Agora, só de olhar... Aqui, toda rua só tem fábrica têxtil fechada. Gasparian, Vicunha, tudo isso morreu. Nós também fechamos. E nesse ínterim, eu me aposentei também.

 

P/1 – Em material elétrico? O senhor se aposentou trabalhando na firma das cunhadas?

 

R – Isso, isso.

 

P/1 – Por quanto tempo o senhor trabalhou lá?

 

R – Dois anos.

 

P/1 – E depois?

 

R – Depois eu... Essa parte, que é mais... Começou ‘a guerra pra mim’, começou aquela alegria. Eu comprei um ônibus com dinheiro da minha esposa - não é pra minha firma. Assim nós íamos para o Paraguai, trazíamos turmas que iam pro Paraguai, faziam compras, vinham pra São Paulo. E isso foi, foi...

 

P/1 - O senhor dirigia?

 

R – Só às vezes. Eu tinha dois motoristas. Eu os vigiava o caminho inteiro, não queria dirigir. Eu queria realmente observar como eles dirigem.

Fui um dos primeiros leitos de São Paulo. [De] ônibus. Como eu tinha sempre umas ideias, eu coloquei a primeira televisão em ônibus em São Paulo. Leito com televisão. E não tinha sossego mais: Jair Rodrigues, onde ele ia fazer festa, lá íamos nós levando o Jair. Wanderleia, todos os artistas viajavam naquele ônibus. Era sossegado. Como eles falam: “A noite inteira nós cantamos, gritamos, depois nós dormimos no ônibus do Franco como santos.” E realmente assim aconteceu.  

Depois eu fui a um folclore dos Amigos da Dalmácia. Na época era SAIUG, Sociedade Amigos da Iugoslávia, mas viajava assim mesmo. De domingo, eu ia ensaiar no clube - eu, minha esposa e até meus filhos.

Não é que um dia, um miserável mandou um convite pra nós irmos pra Europa? Tudo bem. Organizamos o povo aqui e nós fomos uns quarenta, entre dançarinos e cantores. Eu fazia as duas partes: dançava e cantava. Sempre pagava o pato. E organizamos essa viagem. Lotamos quase o ônibus - o avião. Foram 106 passageiros.

 

P/1 – 106?

 

R – Fizemos um trato com o governo na época: nós levamos passageiros, mas não vamos pagar nada. Bailarinos, nem cantores. Tudo bem. Só que arrumamos passageiros e era barato realmente, era cinquenta dólares a diária. Mas lá o governo tinha que dar café, almoço, jantar e hotel com cinco estrelas. Se não tiver cidade com cinco estrelas, tem que ser quatro ou três estrelas. E o ônibus lá [tem de ser com] ar condicionado.

Concordaram [com] tudo e embarcamos todo mundo pra Holanda. Lá fretaram um avião menor e nos levou pra Zagreb - agora é capital da Croácia. E ficamos lá. Desambientamos um pouco, porque era fuso horário. Aqui era um frio danado; [quando] chegamos na Europa eram quarenta graus, um calor de rachar, então tomamos aquele chopinho e esfriamos um pouco. O primeiro show que fizemos, numa cidadezinha perto da capital, não é que passou nos jornais? De manhã, todos os jornais publicaram nossa fotografia. [Na] televisão passou. [Era] amador, nós não queríamos tanto...

Fomos em várias cidades. Fomos pra Polenha, fomos a Bred. Quanta bomba joguei naquele... Quando no inverno, aquilo fica só gelo. A turma esquiava lá, patinava. E eles [diziam]: “Que lindo, que lindo.” E eu não achava nada muito lindo, não. Quantas vezes eu me escondi lá pra não apanhar.

Depois fomos em várias cidades no litoral dalmatino, fomos até a terra da mãe dela. E em todos os lugares nos receberam com a maior festa. Só que nós cantamos em língua croata e fizemos show brasileiro.  

 

P/1 – Show brasileiro?

 

R – Brasileiro. Fizemos... Cantamos várias músicas brasileiras e dançamos frevo. Até hoje lembro. A rodinha, dançaram. (risos)

 

P/1 – Então vocês se apresentaram na Holanda?

 

R – Não, não. Começamos com o litoral da Croácia, que é Dalmácia e fomos até Dubrovnik. Fizemos uma festança, as rádios locais transmitiram depois exatamente o nosso show - quer dizer que era bom. Nós fomos pra Medjugorje, fomos em várias cidades na Bósnia.

Fomos pra Sarajevo. Em Sarajevo não era show oficial, mas [era] no hotel do Frank Sinatra. Holiday Inn, era do Frank Sinatra. Fizemos um show que alemão, americano, chinês, todos sambaram naquele hotel. Não podia ser menos. Um monte de brasileiros, todo mundo alegre, eles nunca viram tanta alegria.

Chegou o dia e nós fomos pra Belgrado, onde agora estão jogando bombas; nós fomos ver quando estava inteiro. Fomos ver a casa do Tito e fazer show numa cidade pertinho [de] lá. Agora jogaram uma bombinha lá. Fizemos o show e tudo bem. Fomos até pra Novi Sad, com aquelas pontes que derrubaram. Atravessamos tudo quando estava inteiro ainda. E fomos fazer um show na Croácia, mas do lado, quase Hungria; fizemos um show noturno. A rapaziada lá aderiu e fizeram um misto brasileiro. Eles e nós, tudo tranquilo, montamos nos ônibus. A metade daquela meninada foi ver o show na capital da Croácia, [em] Zagreb. Era um festival.

 

P/1 - Seu Franco, estou curioso. O que tinha no show? O que vocês cantavam?

 

R – Olha, cantamos “Barracão de Zinco”, cantamos um monte de coisa.

 

P/1 – E o senhor era cantor também. Dançava e cantava?

 

R – Também. Nós giramos tudo quanto era cidade e não éramos mais nós, era mais interessante. Fomos de novo para Zagreb. O festival era no dia seguinte, no teatro principal. À noite, tivemos que fazer tudo isso que nós fizemos na excursão. O teatro era pequeno, só tinha quatro mil pessoas. Nós fizemos a mesma palhaçada que sabíamos fazer: dançamos, cantamos inocentemente. A turma aplaudiu em pé. Aí eu pensei: ”Pronto, acabou.”

[No] dia seguinte era festival - aquilo não era festival, era uma apresentação no teatro noturno. Até cobravam a entrada, nem nós sabíamos que éramos tão artistas. No dia seguinte, veio o ônibus no hotel e falou: “Olha, vocês vão ter que ir pra concentração.” Tudo bem. Levaram a gente num tipo de escola, ginásio: “Olha, vocês ficam, brasileiros aqui.” Vimos lá franceses, italianos, albaneses, russos. “Não, é festival na praça.” Tudo bem. Veio televisão, filmou a gente. Fizeram aquela carreata na rua, nós tocando, batendo bumbo. Calor. Mulherada dando água pra nós na rua. Estava tudo molhado.

Chegamos à Praça da República. A televisão estava lá e falaram assim: “Três minutos cada um.” Nós passamos na frente da televisão e fizemos tudo que sabíamos fazer, mostrar quem somos. O diretor da TV falou: “Para, para, mande-os voltar.” Falei: “Não. Falou três minutos, só três minutos.” Saímos e fomos a vinte metros do palco, que não era a nossa vez ainda pra apresentar. Todo o povo - tinha uns dez mil na praça -, em lugar de olhar os outros no palco, foram ver nossas meninas, e nós encostados na parede lá. Todo mundo [foi] ver aqueles trajes lindos. Nós tínhamos umas três meninas vestidas todas de preto. Eu nem sei como chama esse traje, mas todo mundo foi lá e a televisão... Eu [estava] de chapéu, fizemos aquele samba do Rio de Janeiro e cantamos “Cidade Maravilhosa”. Cantamos umas quatro vezes. Saímos do palco aplaudidos e todo mundo atrás de nós. Eu joguei o chapéu pro público. Pra nós, acabou a história. Nós: “Tchau, tchau”.  

Todo mundo ia pra Creta e uma turminha falou: “Franco, não dá pra arrumar um ônibus pra nós irmos pra Veneza?” Falei: “Claro.” Falei com minha amiga que era a guia, falava idioma bonito pra ela. Arrumou [um] ônibus. Falei: “Nós vamos pra Rijeka”, que é... Eu fiquei lá. “Lá vamos ficar uns cinco dias. A tia da minha esposa mora lá, e de lá eu vou pra Veneza.” E ela marcando. “E de lá?”  “Vamos pra Roma.” “E de lá?” “Vamos pra Paris.” “Ah, é? “Só até Roma você não marca.” Marcou. “Vou te mandar ônibus.” Inocentemente perguntei: “E hotel?” “Não, vou te arrumar tudo isso aí.”

No último dia a turma queria me linchar. “Franco, cadê o ônibus? Nós não vamos viajar?” “Já tá tudo resolvido.” Mas ninguém botava fé. Aí veio o ônibus, um lindo micro-ônibus. A moça veio e me deu toda a papelada. Aí eu: “Só pra perguntar. Quanto é a diária aí em Paris?” “A diária é 125 dólares por pessoa, mas nós vamos dar o voucher, vocês não precisam pagar nada. Só 25 dólares aqui.” “E em Veneza?” “25 dólares.” E em Roma?” “25 dólares.” “Mas como?” “O governo troca o voucher. Nós damos pra ele cinco estrelas aqui, na Riviera, em qualquer lugar, eles não dão dinheiro nenhum. Eles vão dar esse papel, que vocês vão entregar pra ele. Quando o turista dele vem pra cá, nós trocamos a papelada. Dinheiro não gira entre governo, só que eu preciso cobrar 25 dólares de vocês, de cada um.” De graça.

 

P/1 – De graça.

 

R – “E o ônibus, quanto vamos pagar?” “Vocês vão pagar cinquenta centavos por quilômetro.” “Cinquenta centavos? Mas isso não é nada. Nós estamos em dezenove.” [Eram] 1500 quilômetros.

Pegamos esse tal ônibus. A turma que queria me linchar queria me botar no céu.  A turma que desconfiava e que queria ir conosco, nós não deixamos. “Não, agora não. Duvidaram, adeus.”

Chegamos em Rijeka, aí o cara falou assim: “Vocês vão ficar aí parados?” “Não. Leva a gente pra Eslovênia que tem uma gruta” - chama-se Postoila, acho que [é a] segunda gruta no mundo. Fomos lá. Todo mundo pagava dez dólares a entrada, nós, só dois dólares. Mandávamos o cara [comprar o ingresso]: “Você que é da terra, vai lá e compra.” Fomos almoçar pegado à Itália, no Jockey Clube. Ninguém podia entrar, mas com aquele ônibus do Estado não me perguntaram nada. Entramos lá, aquele almoço! O [mesmo] custo dos funcionários lá.

Rodamos de novo e fomos pra Opatija. Brasileiros em Opatija, nunca vi tanto entusiasmo pra água. Vocês não acreditam, mas nossa molecada era tudo jovem.  Chegamos ao Balneário, turista [pagava] dez dólares. Fui eu: “Me dá uma entrada aí.” Dois dólares.

Filmadora, levamos lá. Nós tínhamos um garoto bom, mas era acanhado. Entramos no Balneário, um monte de menina de topless. Isso nunca se viu... Nem sonhava ver isso. E o nosso cinegrafista começou a filmar chapéu, guarda-chuva... Aí meu filho foi lá: “Espera um pouquinho. Dá a máquina aí.” E ele começou a filmar direitinho.  Cada garota linda. Cada... A alegria começou aí. E quem tirava aquela meninada da praia, me diga?

Fomos almoçar e voltamos pro hotel. Fomos ver a tia e à noite deu uma tempestade. Como eu não carrego roupa suja, eu tomo banho e lavo cueca junto, meia junto. Tomar banho é difícil, mas quando tomo, faço isso. A minha esposa pegou um cabide e pendurou na janela. E sabe aquelas cuecas samba-canção?  Estava escrito assim: “Moinho Santista. Farinha de qualidade.”

De manhã fui pegar, cadê a cueca? [Era um] hotel cinco estrelas. Uma cueca pendurada na janela, ficaria seca de manhã. Fui pegá-la, não estava. O vento veio e caiu bem na portaria do hotel. A minha esposa não quis pegar a cueca, ficou com vergonha.  Tive prejuízo, perdi uma cueca.

Veio uma turminha do mar e fomos pra tal de Veneza. Passamos a fronteira e ninguém quis revistar ninguém. Pediram passaporte. O guarda olhou: “Brasileiro? Abre isso aí.” Atravessamos, aí fomos trocar dólares com liras.

Fomos almoçar. Um banquete! Como tinha bastante brasileiro comigo que gostava de um chopinho, falei: “Vamos lá.” Veio o garçom e eu falei: “Por favor, me traz o maior chope que você tem.” O cara foi embora, eu sabia falar italiano... Amigo, veio o almoço, nós comemos lasanha e veio o tal de chope. Um copo tinha sete litros. Toda a mesa tomou chope e ainda, olha, sobrou chope. Ele falou: “Lei ha voluto il più grande che noi ci abbiamo.” Você queria o maior que tinha, tudo bem.

Fomos ver Veneza. Pegamos umas barcaças e chegamos na Piazza San Marco, pombo de tudo quanto é lado. Dão milho, ele pula na mão.

 

P/1 – Muito pombo, não?

 

R – Muito pombo.

A turma foi ver lá o palácio. Eu já conhecia esse palácio, já tinha visto antes e levei minha esposa. O cara filmando tudo, nosso cinegrafista. Vimos Veneza e fomos embora pro hotel. De noite a turma: “Vamos voltar pra Veneza.” Mas como nós estávamos em Mestre, que é a seis quilômetros de Veneza… Em Veneza é só hotel velho, coisa muito primitiva. Esse era o melhor hotel, só que era a seis quilômetros de Veneza. O hotel era bom e nós tínhamos um ônibus nosso mesmo.

No dia seguinte, eu falei pra minha esposa: “Vamos visitar minha irmã? Ela está pertinho de Veneza. Somos turistas.” Ele [o motorista] entrou numa cidadezinha medieval, só que os carros estavam dentro da muralha. O guarda, bem na praça, parou. Eu desci do ônibus: “Che succede?” “Não. Esse ônibus não vai sair daqui.” “Carabinieri, se entrou, como não vai sair?” O carabinieri tirou o chapéu. “É mesmo. Como vocês entraram? O ônibus não entra aqui.” “Mas esse entrou. Nosso motorista é bom demais.” “Põe bom nisso. Ninguém consegue entrar com o ônibus aqui.” Entramos no ônibus e não é que ele saiu sem bater no muro?  

Fomos ver minha irmã. Vi a irmã, voltamos pra Veneza e fomos pra Roma, todos nós. No caminho, paramos perto de Florença pra almoçar. Até ganhei um presente lá, um prato, só que minha esposa quebrou outro dia. Vou descontar dela daquilo que devo pra ela.

Chegamos em Roma um dia antes, mas pra entrar em Roma tem sete entradas.   Pegamos um mapa e por mapa nós fomos, mas nosso motorista... É duro se entender lá. Eu vejo um carinha e falei: “Para lá, perto daquele carro.” O carinha era cigano. “Vocês querem ir pra lá? Moleza. Vão atrás de nós.” O cigano, com carrinho da Fiat, levou nós em Porta Maggiore. Era dos romanos, grande entrada. O hotel estava na praça. Chegamos lá e eu falei: “Olha, nós temos uma reserva.” “É, vocês tem reserva pra amanhã.” “São brasileiros?” “Todos.” “Minha mulher é brasileira e eu já morei em São Paulo.” Falei: “Qual o problema?” “Problema é que eu vou resolver pra vocês. Vou dar os quartos.” Deu.

Eu pedi um quarto pro motorista, porque nós tínhamos o voucher, mas o motorista não. Disse: “Bota ele em qualquer lugar.” Ele o colocou no porão; tem um quartinho no porão, mas é aquele quartinho bom, bonito. Ele até gostou.

Fui trocar dólar e falei: “Já que nós somos parentes - você casou com uma brasileira e eu também -, troque dólar pra nós.” “Dólar brasileiro eu não troco. Veio do Brasil?” “Veio.” “Eu, na minha casa, no cofre, ainda tenho dólar brasileiro. Vem tudo falso.” “Não, mas o nosso é bom.” Conversa vai, conversa vem, ele trocou por lira. A mulherada encheu a mala daquelas porcariadas. Compram tudo. Tudo que não precisa, elas compram.  

Foram ver o tal de Vaticano, eu já o tinha visto. E uma três vezes foi lá a turma pra ver as ruínas do Coliseu.

P/1 – Vocês ficaram quanto tempo nessa viagem?

 

R – Olha, uns quarenta dias. Só que, sem contar o Coliseu, minha mulher cismou: “Eu quero ver Fontana di Trevi.” “É uma porcariazinha, não é nada. É uma água que sai da pedra.” Mas foi a pé. E anda, anda... O pior é que você vai, mas na volta tem que andar também.

Na volta, uma nora atual, que na época era namorada de meu filho: “Eu quero ver…”  Sei lá, um negócio de... Ela pediu pra ver o Pantaleion, Pantaneão, sei lá. Uma ruína antiga. Falei: “Graças a Deus. Tá vendo esse morrinho? Tá lá em cima. Podem ir. Tá vendo [onde] aquele ‘Coca-Cola’ está escrito?” Estou lá, tomando cervejinha... “Não quero mais ruína nenhuma.” Elas foram. “Ah, que linda.” E eu, [no] barzinho.   Primeiro bonde que veio, elas entraram: “Ah, não ando mais.” Fui de bonde.

Fomos embora. Todo mundo marcando hora pra amanhã à noite viajar pra Paris. “Preciso comprar passagem antes.” A turma: “Não, isso é fácil.” “Conheço. Já estive aqui várias vezes. Itália, Paris, não é tão mole.” Fui lá e o cara falou: “Não tem passagem.” Eu falei: “Ah, é? E com essa notinha verde aí?”  “Dá uma volta por aqui, já te arrumo. Só que vai ter problema. Não vai ter todo mundo junto, são dois numa cabine, quatro na outra...” À noite chego lá, todas as passagens [estão] na mão dele. Paguei. Tudo bem.

Subimos no tal trem. Leito. Tcha, tcha, tcha... Todo mundo abrindo cama, dormindo.  E não é que uma chata fica perto de mim? Eu boto a mala ali, ela tirava. Eu não tinha sono; fui lá olhar a Torre de Pisa, Gênova... Eles todos roncando. Andam o dia inteiro, à noite estavam mortos. Eu devia dormir a maior parte, sabia o que me esperava.

Chegamos à fronteira. Na fronteira italiana eles desligam o restaurante italiano e amarram um restaurante francês. Tudo bem.

Vieram os policiais e eu com dezenove passaportes. Uma menina que tinha vindo conosco não tinha visto francês. Conversei com o doutor, ele pegou na mão, o guarda veio, olhou... “Ah, você...” Falou pra ele. “Não quero ver nada.” Ainda bem, eu não tinha visto.

O trem vai embora e eu lá no corredor, eu e um cunhado meu. Chegamos perto de Paris, olho assim e vejo dois discos voadores. Disse: “Se eu falo pra alguém, o cara vai ficar pirado.” Fiquei quieto. Meu cunhado falou: “Você viu?” Falei: “Se é aquilo que eu vi, eu vi. Eu vi um negócio esquisito.” “Esquece isso, senão vão dizer que fomos ao restaurante e tomamos muito vinho.”

Chegamos em Paris. Começou a nossa historinha ali assim: veio um baixinho com uma carretinha, nós enchemos aquilo de malas. O que a gente tinha de mala, tranqueira dentro, não está escrito. Todos lá, dezenove pessoas, fazendo procissão atrás dele. Falei em italiano: “Amico, eu preciso de um ônibus. Mandei aquele de volta pra Iugoslávia. Preciso de um ônibus aqui.” “Moleza. Em dez minutos o ônibus está aqui”, ele falou. “Vamos pro porão.”

Fui lá, troquei lira por franco. [Ele] ligou pra uma companhia: “Olha, tem dezenove brasileiros que precisam de um ônibus pra levar pro hotel.” “Pra brasileiro não tem ônibus.” Bateram o... Outra companhia: “Tem dezenove brasileiros precisando de ônibus...” “Brasileiro? Não mandamos ônibus pra brasileiro.”

“Espera um pouquinho, baixinho”, eu falei. “Vamos inverter a história. Tem dezenove passageiros que vieram da Itália. Não precisa contar tudo, né?” Aí ele ligou pra outra: “Tem dezenove passageiros que precisam de um ônibus.”  “Em dez minutos está aí.”

Coloquei de lado, no pátio da estação e aí chegou um ônibus bonito, ultramoderno, azul. Nós embarcamos. Veio um cara nosso e falou: “Franco, não tem ônibus bonito assim no Brasil, não?” Motorista fez assim pra mim: “Brésilien?Ih!”

Dinheiro? Era setenta dólares o frete. “Setenta dólares? Vem cá. Eu o arrastei pro exchange. “Troca dinheiro?” “Troca dinheiro.” Cem dólares. Peguei setenta francos, era cinco [francos] por um [dólar] naquela época. Ele pegou o dinheiro dele. “Assim tá bom?” “Assim tá bom.” Dinheiro francês, dane-se. Não é todo mundo que carrega dinheiro falso, miserável!

Nós fomos pro tal hotel. Adivinha onde? No centro, a uns cem metros do Moulin Rouge, na boca lá de Paris. Belo hotel. E quem diz que tínhamos reserva pra aquele dia? Não tínhamos, chegamos um dia antes. Todo mundo falava inglês no nosso grupo, mas ninguém conseguiu se entender com a mulher. É diferente o inglês, eu falei pra ela. Inglês é uma coisa...

Pulamos essa história aí. Ficamos uma hora e pouco. Não queriam nos embarcar no quarto porque não nos entendíamos. Liguei pra um amigo meu em Paris, eu falava pra ele e ele explicava pra ela. Arrumaram dezessete lugares. Ela falou: “Dois eu não tenho. Tem outro hotel.” “Então manda pro outro hotel.” Mandou.

Aí começou bonito, nos tratavam como reis. A cobertura, deram pra nós. Coisa fina. Eu ia à janela, cheio de mulher pelada do outro lado se trocando... Elas parecem que gostam de ficar nuas, as francesas. Pra nós, elas eram novidade. Mas já era a fome, meio-dia. “Vamos almoçar.” “Onde? “Moulin Rouge.” Era, pra nós, vinte dólares o almoço. Comi coisas boas, sabem cozinhar. O vinho era bom.

A molecada se espalhou por Paris, pra tudo quanto é lado. De vez em quando a turma me arrastava, mas eu não queria ir. A minha esposa foi à [Galeria] Lafayette, uma loja que começa aqui e acaba na Praça da Sé. É uma loja que não tem fim. Fui na última loja, no terraço, pedi um chopinho e esperei umas quatro horas ela vir dessa tal de Lafayette.

 

P/1 – Seu Franco, vamos ter que voltar pro Brasil daqui a pouquinho.

 

R – Voltamos rápido.

Foi aí que nós voltamos. Passou um pouquinho, elas foram ver um monte de coisas, só que pra alugar o ônibus era difícil porque nós éramos brasileiros, então veio um grupo alemão, uma companhia. Umas mocinhas alugaram na hora o ônibus. Ônibus francês, companhia alemã; nos levaram pro aeroporto e fomos pra Amsterdã. Embarcamos e viemos pro Brasil.

Tivemos bastante farra também em Amsterdã. Um cara em cima de nós num apartamento pensou que era como na França. Na França [era] caminha fininha. Na Holanda, pra você tomar banho, você se afoga embaixo do chuveiro. Ele abriu tudo. A água começou a inundar metade do hotel. Hotel cinco estrelas, ainda é do rei o hotel.

E nós voltamos pra tal de São Paulo. Embarcamos no avião com mala [pra] tudo quanto é lado. Eu, como era meio guia, tinha livre bagagem, mas vim com umas oito malas. Chegamos ao Viracopos, minha mala era daqui até a parede. Ninguém foi revistado. A moça falou: “Pode abrir a mala.” Falei: “Só tem tranqueira. Vamos abrir.” Ela falou: “Não, não. Só abre a pequena.”

“Pode ir embora. Meu marido é igual, só resmunga”, falou pra minha mulher.  Aí viemos pra São Paulo.

 

P/1 – Seu Franco, o que o senhor faz atualmente?

 

R – Atualmente eu estou de castigo. Estou com o ônibus parado e praticamente aqui a Embratur nos proibiu de viajar. Quem tem um ônibus só não tem chance mais de viajar, tem que ter no mínimo cinco ônibus e tem que ser novo. Nós temos um ônibus encalhado, [de] leito. Estou aposentado, fazendo exatamente nada.

 

P/1 – Há quanto tempo o senhor mexe com ônibus?

 

R – Olha, provavelmente há uns dez anos. Um pouquinho mais, uns quinze anos. Faz onze anos que viajei pra Europa, então mais.

 

P/1 – Alguém da família trabalha com o senhor?

 

R – Trabalhava um filho meu, mas agora nós estamos todos sem fazer nada.

 

P/1 – O senhor tem quantos filhos e como se chamam os filhos do senhor?

 

R – Chama-se Sidney e o outro se chama Cláudio.

Tenho quatro netos. Um se chama Franco, e a menina chama-se Guiomar. São do Sidney. E do Claudio, um se chama “Pestinha” e outro…(risos) Ele é um pestinha. Palavra que... Sábado eu… Não vou conversar nunca mais com ele. Eu fui tomar banho com ele e o malvado abriu todas as torneiras de água fria. Não temos mais conversa. Ele se chama Luís Filipe e a menina se chama Giovana. Se esquecer o nome, a nora me mata. A história é assim.

 

P/1 - Seu Franco, vou perguntar pro senhor, já no final da entrevista. O senhor é apaixonado pelo Brasil. O que brasileiro tem que chama tanto a atenção do senhor?

 

R – A única coisa que o ser humano tem. Ele não tem problema. Brasileiro pode estar se afogando e ainda é feliz, não tem... Agora, até tem alguns mesquinhos. Agora. Mas naquela época era feliz, brasileiro não tinha problema.  Quem gostava de dinheiro, de indústria, de coisa difícil eram os árabes, gregos, turcos, judeus... Brasileiro não tinha essa malvadeza. Ele gostava de viver feliz.

Quem é mais feliz? Aquele que quer tudo pra ele, acha que o mundo vai agarrar tudo ou aquele que só quer comer, almoçar e dormir, dançar, sorrir, ver os filhos, netos, ver uma boa praia, umas lindas garotas? Isso é bom.

A ganância não leva a nada. Eu nunca me preocupei, mas nunca mesmo em querer ganhar alguma coisa. Eu sempre fui privilegiado. Todos queriam que fosse chefe. Eu não sei, mas nunca me preocupei.

 

P/1 – Tem alguma coisa na vida que o senhor queria ter feito e ainda não fez?

 

R – Realmente, eu não tenho nada... Eu concluí tudo o que eu desejei na vida. Eu, nem divorciar eu consegui. Em quarenta e poucos anos, eu não consigo nem brigar com a esposa. Toda vez que ela manda, eu falo: “Sim, senhora.” Eu não consigo encrencar com ela. E pode ver, [são] quarenta e poucos anos casado, não é um dia só. Esses cabelos brancos são por alguma coisa, mas não adianta. Não há meio de brigar com ela.

 

P/1 – O que o senhor achou de vir aqui contar a sua vida? O senhor já tinha feito isso antes?

 

R - Eu só uma vez fui entrevistado pela polícia, quando fiquei embaixo daquele banco de trem. Os guardas me perguntaram: “Mas por causa de uma mulher você arriscou tudo?” Falei: “Paixão é cega.” Eu não sei. Pra mim era muito importante vir pro Brasil, não importava como.

Nunca mais ninguém me entrevistou por nada. Aliás, nunca nem preso fui. Nem na delegacia eu entrei. Eu sei que é triste. Acontece.

 

P/1 – Foi bom contar essa história? O senhor relembrou de muita coisa?

 

R – Olha, a história contei toda e é verdade. Se eu contar tudo de novo, vocês vão ver que não tem... Só se encrencam na história aqueles que contam mentiras. Tudo o que eu disse é verdade.

Minha esposa lá de longe está fazendo assim: “Mais por cima!” Quer dizer, se eu contasse tudo, tintim por tintim, nós vamos ter que ficar dois dias. E vamos acabar sendo amigos.

 

P/1 – Eu então queria agradecer a entrevista. Foi muito boa.

 

R – Eu que agradeço. Mas se foi bom eu não sei. Faz parte de um ser humano que exista bastante como eu no mundo, que não pensa em ganância. Eu podia ter vinte ônibus se quisesse, mas pra mim um era muito. E se tivesse dois, eu já não teria um, já teria me confinado em: “Onde está um, onde está o outro.” Um já me deu toda a alegria na vida. Olha, me deu tanta alegria, como minha esposa me deu e meus filhos me deram. Minha sogra me deu umas pancadas, essa é a sina de muita gente. Mas realmente, o ônibus só me deu alegria.



 

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