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História

“Aos olhos do Pai, você é uma obra-prima”

História de: Kátia Regiane Bueno Antenor Custódio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2021

Sinopse

Infância com irmãos. Mudança de casa. Infância livre no sítio, com muita bagunça e ajuda nas atividades de casa e na criação de animais. Período escolar. Volta para cidade. Curso Técnico em Contabilidade. Casamento aos 15 anos. Gravidez aos 16 anos, maternidade e depressão pós-parto. Apoio da família e saída da depressão. Mudança para São José dos Pinhais. Curso de vigilante. Trabalho na Renault. Falecimento da mãe. Curso de Soldador. Trabalho como soldadora. Entrada na Rumo Logística de Araucária como soldadora de encanamento de freio dos trens. Primeiro dia de trabalho. Desafios e aprendizados profissionais. Novo casamento e segundo filho. Rotina. Pandemia. Realização profissional. Sonhos.

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História completa

P/1 – Kátia, pra começar, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo.

 

R – Meu nome é Kátia Regiane Bueno Antenor Custódio.

 

P/1 – E onde você nasceu?

 

R – Mauá, São Paulo.

 

P/1 – E em que data?

 

R – Dezesseis de agosto de 1980.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – João e Domingas.

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – A minha mãe era professora e meu pai foi soldador e teve outras profissões também. Foi policial e por fim ele foi professor.

 

P/1 – Eles eram professores do quê?

 

R – Primário.

 

P/1 – E como você descreveria seu pai e a sua mãe?

 

R – Ah, a minha mãe sempre foi uma mãe protetora, amorosa. E meu pai era rígido, mas ao mesmo tempo ele era amoroso, também.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram?

 

R – Sei. O meu pai tinha vindo de Minas Gerais e trabalhava em São Paulo, naquela época na Volkswagen. E daí ele conheceu minha mãe, que tinha recém vindo do Paraná pra lá, pra São Paulo. E aí, a minha mãe passando em frente à casa dele, ele olhou pra ela e viu, e diz que se apaixonou de cara por ela. Foi assim. Ele é treze anos mais velho que ela e diz que todo dia ela passava lá em frente e ele já gostou dela de cara.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Sim, tenho quatro irmãos. Somos em quatro, tenho três.

 

P/1 – Qual é o nome deles?

 

R – É Adriana, Marcos e Welington.

 

P/1 – E você está em que parte da escadinha?

 

R – Eu sou segunda.

 

P/1 – E como é essa relação, tanto com seus pais, quanto com seus irmãos?

 

R – Bom, minha mãe já é falecida. Eu só tenho agora o meu pai. Minha mãe faleceu com 45 anos, bem jovem. Mas eu me dou bem com eles, principalmente o que é abaixo de mim, o Marcos. Somos mais que irmãos. Ele é meu melhor amigo. E, na realidade, ele é quem me instrui, assim, toda vez que eu preciso de alguma orientação, eu já ligo pra ele. Ele é mais novo, mas é ele que me ajuda.

 

P/1 – E quando você era pequena, você lembra de algum dia marcante da sua infância, com eles?

 

R – Ah, nós éramos bastante arteiros. A minha irmã, não. Ela era mais tranquila, a mais velha. Nós três, os três mais novos, éramos bastante bagunceiros. Então, geralmente era eu que os levava para as bagunças. Mas era bagunça de criança, assim. Era pular de cachoeira, era coisas assim, entendeu? Era sempre esses tipos de arte. Mas nós três éramos unidos nas bagunças.

 

P/1 – E o que vocês gostavam de fazer, quando eram pequenos?

 

R – Ah, era sempre essas brincadeiras assim: pega-pega, esconde-esconde… geralmente era fazer aquilo que meu pai e minha mãe não deixavam. Igual eu falei: às vezes nós íamos na casa dos vizinhos, atacava pedra e corria… (risos) era coisa… era esse tipo de arte. Igual eu falei: tinha cachoeira que eles não nos deixavam pular e nós íamos e pulávamos, quando eles não estavam, os esperava saírem. Teve uma fase em que nós moramos no sítio, daí os esperava irem pra cidade e a gente, alguém encobria, eles encobriam, estavam indo, nós três adiantávamos o serviço e ia pro rio. Então, geralmente era esse tipo de brincadeira. Jogar bola. Nós três jogávamos, íamos pros campos, jogar bola. Era só eles saírem e nós íamos aprontar. Nós íamos aprontar, nós três.

 

P/1 – E a sua família... quando você era pequena, você lembra de algum cheiro, alguma comida que remeta à sua infância, à sua família?

 

R – Ah, a minha mãe gostava bastante de cozinhar. Na realidade, minha mãe sempre foi muito prendada. Então ela - desde que nós morávamos na cidade - fazia umas comidas muito gostosas, mas a que eu mais lembro é na época do sítio. Que ela fazia e sempre tinha aquele cheiro de fogão a lenha. Então, teve uma fase, nós moramos acho que sete anos no sítio, então é a parte que eu sinto mais saudade, foi essa época. E o que eu mais lembro, assim, quando chove e eu ouço os passarinhos cantar, eu sempre lembro quando eu era criança e da época que a minha mãe era viva. Então, é um tempo que não volta, é saudade. Então, toda vez que eu ouço - quando chove, assim - os passarinhos, o som dos passarinhos cantando, eu sempre lembro e dá saudade. 

 

P/1 – E quantos anos você tinha, quando vocês foram morar no sítio?

 

R – Quando nós fomos morar no sítio eu tinha acho que dez anos e morei lá até os quinze anos. Foi pouco tempo, é. Dez anos, até os quinze. Mas foram tempos, assim, bem… que a gente viveu… foi uma época que, se a gente for falar, assim, foi pouco tempo. Hoje a gente vê que é pouco tempo. Mas foi tão importante, marcou tanto, que parecia que foi muito mais. Na época, quando a gente era criança, parecia que foi muito mais, de tão gostoso que era. Porque eu lembro que, quando nós viemos de São Paulo, nós viemos pra Campo Mourão e fomos pra esse sítio e chegando lá nós não conhecíamos planta, pé de abobrinha, melancia, nada. Nós nem sabíamos que dava, assim, no chão. Então, tudo pra nós era novidade. Rio. Então, eu acho que é por isso que nós nos tornamos umas crianças mais arteiras ainda, porque a gente queria viver tudo, correr atrás dos bichos. Eu lembro que nós montávamos em cima dos bois. Na hora que meu pai saía, nós montávamos nas costas dos bois e aprontávamos demais. E nós caçávamos cobra, nós caçávamos tatu, tudo que nós podiámos caçar, assim, que era proibido, nós queríamos fazer. 

 

P/1 – E você sabe por que seus pais decidiram se mudar pro sítio?

R – É, porque meu pai viveu… na infância dele, ele nasceu no sítio. E ele sempre falava que ele tinha vontade de criar… nos criar… criar os filhos no sítio. E aí, quando ele teve a oportunidade de comprar o sítio, ele não pensou duas vezes em nos trazer pro sítio. E aí foi uma fase, assim, que nós vivemos cinco anos… na realidade, o meu pai tem sítio ainda, mas daí a gente vai pegando a adolescência, a gente vai querendo trabalhar, querendo ter os próprios… tomar os próprios rumos na vida. E daí nós começamos a pensar em trabalhar, sair, estudar. Mas o motivo dele querer ir pro sítio foi por isso, pra dar uma vida mais tranquila pra gente, pra que a gente conhecesse roça, sítio, criasse, assim, mais na simplicidade, na tranquilidade, porque São Paulo é agitado. Então, é correria demais e, nessa época, meu pai era policial. Então, era uma época - ele foi soldador e depois ele foi pra polícia - em São Paulo muito conturbada, demais. E daí ele queria trazer a gente para uma parte mais sossegada, mais tranquila e foi aí que ele comprou esse sítio que, na realidade, era uma herança da minha mãe. Minha mãe herdou uma casa e essa casa trocou num sítio.

 

P/1 – Você lembra da primeira casa que você morou, como que era?

 

R – Lembro. Eu tenho uma memória boa, desde São Paulo, a casa de lá. Lembro bem. Era uma casa de material, era uma casa verde, de esquina. Era muito gostoso lá porque, como eu falo, assim, eu sempre fui muito arteira. Nessa época eu tive caxumba e aí minha mãe saía pra trabalhar e daí ela… aí deu caxumba de um lado, aí deu caxumba dos dois lados, daí a médica falou: “Olha, vai ter que cuidar dela”. E minha mãe tinha que trabalhar e minha mãe começou a me levar pro serviço com ela, pra que eu não ficasse pior. E indo pro trabalho dela, eu aprontava no trabalho dela, de tão bagunceira que eu era, porque em casa… ela me deixava em casa, eu lembro que eu pulava a janela. Era uma janela de veneziana e a cozinha era no térreo, mas a parte dos quartos era no segundo andar. E aí minha mãe me deixava com a minha irmã, daí eu pulava a janela. Eu pulava pra sair pro quintal, bagunçar. E nisso a caxumba desceu. E minha mãe falou: “Não, eu vou ter que dar um jeito nessa menina” (risos). Eu lembro bem, desde São Paulo. Eu era bem bagunceira (risos).

 

P/1 – E o sítio, como que era? A casa em volta, assim?

 

R – Então, esse primeiro sítio que meus pais compraram, eles trocaram numa casa na cidade. A casa era bem boa, era uma casa de madeira bem gostosa, em Campo Mourão. Aí meu pai comprou um sítio, ele trocou por um sítio. Esse sítio não tinha… era uma casa muito simples, na realidade. Era uma casa bem simplezinha, diferente da casa que nós tínhamos em São Paulo e da casa que nós tínhamos em Campo Mourão. Mas a realização nossa como crianças, de estarmos ali no sítio, fazendo - com aquela liberdade - o que queria e tomando banho de rio e de cachoeira, era outra vida. Mas a casa era bem simplezinha. Depois meu pai comprou tijolo para construir, acabou não construindo, vendeu o sítio e comprou outro sítio, já com a casa pronta. Aí a casa era um pouco melhor. Mas sempre casas de madeira, eles sempre gostaram de casa assim, de madeira. Até o sítio que meu pai tem hoje, ainda é o sítio que ele comprou antes da minha mãe falecer, está lá ainda, não vendeu.

 

P/1 – E tinha criação, plantação?

 

R – Tinha, sempre teve. Boi, vacas de leite, porco, pato. Ganso, sempre teve um ganso. Até o ganso, ele colocou meu nome no ganso. Chamava Kátia. Porque toda vez que minha mãe chamava “Kátia, levanta pra fazer o café!”, era a gansa que gritava: “Ká, ká!” Gritava. E o nome dela ficou “Kátia”. Porque toda vez que falava “Kátia!” pra eu levantar e acender o fogão a lenha, pra fazer o café, era ela que respondia. Então, nós tínhamos porco, galinha. Tinha bastante criação. Então, a nossa diversão eram os animais. Naquela época, assim, eu lembro que pra nós, crianças, não importava luxo. Nem TV. Eu lembro que, naquela época, eu não ligava pra TV, eu não ligava pra rádio, não ligava pra nada, só queria brincar e aprontar com os bichos, subir nas costas dos porcos (risos), das criações. E a gente só queria isso, só. Bagunça, mesmo. 

 

P/1 – Kátia, aproveitando que você falou do seu nome, você sabe como foi escolhido?

 

R – Então, na realidade meu nome era pra ser “Cássia”, não era pra ser “Kátia”. Era pra ser “Cássia” ou “Andréia”. Eu não ia gostar de “Andréia” (risos). De “Cássia” eu ia gostar mais. Demorei pra gostar de “Kátia”. Eu não gostava de “Kátia”. Eu gostava de “Regiane”, que é “Kátia Regiane”. Acho que “Regiane” tem mais a ver com a minha personalidade, que eu sou mais doce, assim, entendeu? Mais amável. E “Kátia” eu acho muito forte, é um nome muito forte. Então, eu não gostava do meu nome. Eu sempre gostava que me chamava de "Regiane" e não de “Kátia”. Até na escola as pessoas me chamavam de “Kate”, não de “Kátia”. Não gostava. Hoje em dia, a gente vai ficando mais velha e vai aprendendo a se aceitar do jeito que é. Se gostar do jeito que é. Aí hoje em dia eu gosto.

 

P/1 – E quando você era pequena você tinha um sonho de ser alguma coisa, quando crescesse? Ou isso não passava pela sua cabeça?

 

R – Tinha. Eu tinha um sonho, primeiro que eu tinha o sonho de ser delegada. Eu queria ser delegada, só que eu planejava os meus passos: eu planejava ser vigilante, depois ser policial, que eu sempre admirei muito o meu pai. Eu queria ser vigilante, policial e depois estudar pra ser uma delegada. Era o meu sonho ser uma delegada. Aí, com o passar do tempo, eu comecei a ver meu pai, que ele tinha o paquímetro, tinha o goniômetro, tudo em casa, as trenas e eu pegava e levava pra escola. E a professora ficava brava, porque a professora, no sítio, eu não sei ao certo se ela não conhecia paquímetro, então ela achava que era uma arma que eu levava. Que, na realidade, não deixa de ser, porque puxa, fica o ferrinho pra fora. E ela falava, mandava bilhete, eu levava escondido o paquímetro. Então, eu já gostava, via meu pai mexer, meu pai tinha paquímetro, então eu já gostava e eu sempre, igual eu falei, gostei de arte, mexer naquilo que não era pra eu mexer. Eu pegava e levava escondido. Então, eu sempre quis ser o que meu pai - eu sempre admirei muito o meu pai - queria. Tipo assim: não o que ele queria que eu fosse, mas tudo o que ele escolheu pra ele, eu queria também. Queria copiar dele. Então, eu sempre quis ser soldadora. Sonhava também, até esses dias eu estava lembrando, indo pro trabalho e lembrando, que eu sonhava em ter uma moto. Era o meu sonho. Eu me imaginava, desde os oito anos eu me imaginava em cima de uma moto, viajando. Hoje em dia eu tenho uma moto. Foi… assim que eu tirei a minha habilitação, foi a primeira coisa que eu comprei. Eu sempre tive moto. Amo moto. Então, pode ser algo simples pra algumas pessoas, mas sonho realizado. Então, é algo que eu amo, que eu gosto. Gosto demais de moto. E ser soldador. Quando eu fui fazer o curso de soldador… eu demorei muito pra ter coragem de fazer o curso de soldador. Quando eu fui fazer o curso de soldador, lembro que meu irmão caçula falou pra mim assim: “Não faça, Kátia. Não é coisa pra mulher. Você vai jogar o seu dinheiro fora, não tem lugar pra mulher, é uma área masculina”. E eu falei: “Mas eu quero”. E lembro que eu vim do norte do Paraná pra cá e daí eu fui trabalhar na Renault, terceirizado. E eu via aquelas faíscas de solda e falava: “Meu Deus, eu quero tanto, mas todo mundo diz pra mim que eu não vou conseguir, mas eu quero tanto, mas eu não vou conseguir, mas quero tanto” e ficava naquele dilema. E aí eu falei: “Quer saber?” Peguei acerto na empresa, fiz um monte de curso e falei: “Eu vou fazer”. Investi todo o meu dinheiro que eu tinha, que não era muita coisa, mas investi em bastante curso, que era pra eu conseguir entrar numa empresa boa. Em inspetor da qualidade, em solda e fui fazendo. Fiz de operador de empilhadeira também, na época, tudo que era voltado pra indústria. Mas o meu sonho era solda. E quando eu estava fazendo o curso de solda, estava só eu e uma moça na aula. E daí a moça desistiu, ficou só eu. E muitos termos que eles falavam lá da solda, eu não entendia, mesmo. Falava, assim, eu copiava ali, fazia cara de quem entendia, mas não estava entendendo nada (risos). E continuava, falei: “Vou continuar. Já entrei, já paguei, vou continuar. É o que eu quero”. Daí comecei a fazer as aulas. Quando eu estava acabando o curso, uma empresa achou interessante uma mulher e me deu oportunidade. Então, eu já saí do curso trabalhando como soldadora. Foi a minha primeira oportunidade como soldadora, na época. Eu saí pulando de alegria.

 

P/1 – E quando você era pequena, você via seu pai soldando?

 

R – Então, na realidade eu não o via soldando, porque ele trabalhava na Volks, então ele não tinha máquina de solda, nessa época. Ele trabalhava e eu o via indo, vindo, eu via os equipamentos dele, mas não chegava a vê-lo soldando. Então, eu via os conhecidos, os amigos, mas como meu pai não tinha máquina de solda em casa, então eu não via. Mas eu via as fotos, via, igual eu falei, paquímetro, essas coisas todas em casa e ele só falando nisso, então eu ficava só na minha imaginação, sonhando. Então, desde pequena, só sonhando e imaginando. 

 

P/1 – E qual são suas memórias, assim, as primeiras memórias da escola?

 

R – Bom, as primeiras memórias da escola são de São Paulo, quando meu pai nos levava pra escola, quando foi o jardim, porque naquela época meu pai trabalhava na Volks, e ele levava tanto eu, quanto minha irmã. Eu fazia o jardim e ela fazia… não lembro se era o pré ou era a primeira série, já. Ele nos levava pra escola e muitas vezes ele vinha em casa almoçar e levava a gente de viatura, então eu lembro muito disso, que eu falava: “Quero ir na viatura!” (risos) Nessa época, acho, ele já estava na - é. É. É isso mesmo - polícia, é isso mesmo.

 

P/1 – E na escola teve algum professor, alguma professora que marcou, assim, o seu período?

 

R – Teve a minha professora da segunda - é, vou falar da coisa boa - série, a professora Raquel. Já era da Adventista. Quando eu estudava na Adventista, a professora Raquel, que ela era muito bacana. Ela era uma professora muito doce, uma senhora. E daí ela tocava piano. E daí ela era uma professora muito gentil com a gente. Muito amável. E era uma professora, que às vezes, na escola, nessa época eu não era arteira na escola, eu era em casa. E na escola eu era tímida demais. E daí ela, na hora de ir embora, às vezes ela pegava e me levava até a casa dela, para que meu pai ou minha mãe… na realidade, era mais a minha mãe, nessa época, me pegasse lá na casa dela. Então, era uma professora, assim que, além de professora, tinha uma intimidade comigo de mãe. No caso, pela idade dela, era quase que vó, porque ela era bem senhora. Então, foi uma professora que me marcou muito, nessa época, pelo menos. Teve outras já mais adulta, mas nessa época, foi a professora Raquel, da segunda série.

 

P/1 – E como foi seguindo a sua formação, desde pequena, passando… crescendo, como que foi?

 

R – É, eu tive algumas dificuldades. Igual eu falei, eu era arteira em casa, mas na escola eu era muito tímida, muito fechada. Então, teve uma fase em que eu era boa em Português, mas, por exemplo, assim, em Matemática eu não era aquela grande coisa, sabe? Diferente dos meus irmãos, que sempre eram bons em Matemática. Então, eu demorei a desenvolver e acreditar que eu poderia conseguir também. E que Matemática, na realidade - hoje em dia eu vejo - é mais fácil que o Português, porque é por repetição, na realidade. Você vai fazendo, fazendo, fazendo, até que você consegue desenvolver. Que todo o mundo pode, também, mas eu enfrentei bastante dificuldades, até entender que eu também conseguiria.

 

P/1 – E nessa época, assim, com a timidez, como era, você tinha bastante amigo, tinha pouco, você ficava mais com seus irmãos, como era?

 

R – Era mais meus irmãos. Eu era bastante tímida. Nunca sofri bullying, graças a Deus, mas eu, dentro da sala, a timidez era excessiva, então eu só respondia a chamada, mesmo. Tinha vergonha de conversar, vergonha de apresentar trabalho. Era tímida, tímida excessiva. E quando saía no intervalo, daí era brincar. Eu me soltava muito quando eu conseguia ser “eu”, assim, nas brincadeiras. Eu era boa em bets, assim, queimada, futebol. Eu sempre fui muito boa nesse tipo de brincadeiras. Então, quando eu conseguia, na aula de educação física, eu podia me soltar, ser “eu”, ser a Kátia arteira, eu conseguia… espantava a timidez.

 

P/1 – Você me contou que, quando você foi pro sítio, com quinze anos, você já foi crescendo e daí você já estava pensando em trabalhar. Como foi esse momento de começar a trabalhar? Você começou com quinze anos ou foi depois? Como foi?

 

R – É, foi antes, na realidade. Quando a gente vai… quando a gente mora em sítio, na realidade se trabalha antes, porque se trabalha na roça, sempre ajuda. Então, a partir do momento em que nós fomos pro sítio, eu fui com onze anos, se eu não tô enganada… é, com onze anos que eu fui e fiquei até os quinze, no sítio. Então, você já vai e começa, você e seus irmãos, a trabalhar na roça e sempre ajuda a tirar leite, tratar dos porcos, tratar as galinhas, levantar cedo, é um… não é um serviço como na cidade, mas você está trabalhando. Então, eu já tinha a minha responsabilidade de levantar cedo, se eu não estava tirando o leite, cuidando das criações, eu estava fazendo comida dentro de casa, mais os irmãos. Aí, depois, eu tinha… quando eu tinha uns treze anos, eu já comecei a desenvolver o que eu tinha vontade, mesmo, trabalhar, ter o meu dinheiro e eu queria sair e ir pra cidade, eu comecei daí a pensar em sair pra cidade, trabalhar de babá. Na realidade, eu até fui um tempo, trabalhei dois meses, mas daí foi uma fase em que as pessoas ‘passaram a perna’ na gente e minha mãe falou assim: “Não, vou deixar vocês irem, pra vocês verem como é o mundo” e deixou eu e minha irmã ir, as pessoas também ‘passaram a perna’ na gente, ficamos dois meses trabalhando fora e voltamos (risos) pra dentro de casa. Porque é o mundo, com muita pouca idade, você não consegue. Vai buscar uma vida, não é assim. Aí que meu pai e minha mãe começaram a pensar: “Não, nós vamos ter que voltar pra cidade, pra encaminhar as meninas. Elas querem trabalhar, elas querem estudar, elas querem ter um futuro” e eles se obrigaram a deixar o sítio e vir pra cidade, pra encaminhar os filhos, pra pôr estudar, pra pôr… não que nós não estivéssemos estudando, mas assim, fazer um curso pra começar a trabalhar mesmo, porque no sítio não tinha como. No sítio, era roça e estudar. Nada mais.

 

P/1 – E como foi voltar pra cidade mais velha, assim? Você estudava no sítio?

 

R – Isso. Nessa época, nós estávamos fazendo… eu e minha irmã estávamos fazendo… porque meu pai sempre foi rígido com os estudos, então falava assim: “Tem que estudar”. Nessa época, eu e minha irmã estávamos fazendo o técnico em contabilidade. E meu pai e minha mãe, sempre foi bacana, assim, a parte deles, porque eles sempre estudavam, uma porque eles gostavam e outra, pra acompanhar a gente, eu e minha irmã, nós duas entrando em fase de adolescência e daí eles sempre estudavam, tanto que meu pai fez técnico em magistério... técnico em enfermagem. Assim, um entrava para estudar e o outro entrava junto também, só pra acompanhar e cuidar das meninas. Que era eu e minha irmã. Mas nessa época, voltando pra cidade... é que eu me casei cedo. Então, meio que meu pai se obrigou a nos encaminhar, porque eu casei cedo. Eu casei bem cedo. Eu casei nessa época.

 

P/1 – Com quinze anos?

 

R – Aham.

 

P/1 – Como você conheceu o seu marido?

 

R – É, ex-marido. Que, na realidade, acabei me separando. Conheci lá mesmo, no sítio, naquela época. Eles já eram moradores de lá e ele já era mais velho. Então, eu já o conheci de lá. E daí a gente… nós… acabei fugindo, na realidade. Ele foi o meu primeiro namorado. Acabei fugindo. Não é um capítulo muito bacana, porque foi uma arte que eu cometi, que eu entristeci meu pai e minha mãe. Muito mais meu pai porque, igual eu falei, eu amava demais minha mãe e meu pai, mas o meu pai, eu queria dar orgulho pra ele, muito orgulho, entendeu? E daí eu fui e acabei fugindo, porque eles não eram muito a favor do casamento. E aí eu acabei fugindo, fugindo de casa.

 

P/1 – E como foi casar tão nova, pra você?

 

R – Foi loucura (risos). Foi loucura, porque aí eu casei e daí a gente acha que é maduro… eu achava que eu era madura. Eu achava que eu era super madura. Não era de bagunçar, não era de matar aula. Eu achava que eu era super madura. E eu fugi e eu já queria ser mãe (risos). Queria ser mãe, queria ter filho. E quis engravidar e tive meu filho, meu primeiro filho. E foi muita loucura, daí você casa de repente e de repente você logo engravida e você é muito nova e você acha que tem maturidade, mas você não tem. Aí eu saí de perto dos meus pais. Igual eu falei, eu era muito, ali, grudada com eles, com meus irmãos, nunca tinha saído de perto. E de lá eu vim morar em Araucária. E daí é outra vida. Aí, longe da família, longe de tudo. Aí, tipo assim: não é que a pessoa é ruim, mas você não tem maturidade para um casamento. Você não tem maturidade o suficiente pra levar filho, família e mundo diferente. Você não está pronto, preparado. É muito difícil. E daí, no caso, eu tive depressão, nessa fase, porque aí, como eu sempre sonhei em fazer faculdade, estudar, eu falei que eu tinha sonhos e eu deitava, sonhando: “Eu quero ser isso, eu quero ser aquilo outro” e eu… e como meu pai sempre foi um pai dedicado, tanto ele quanto a minha mãe, tudo o que eles puderam fazer pelos quatro filhos, tanto de tirar deles e pagar escola particular, eles fizeram pra gente. O que eles fizeram por mim, eu não consigo fazer pros meus filhos. Então, eles nos deram estrutura, então eu senti que eu tinha jogado tudo fora, o que eles fizeram por mim. E nessa fase eu entrei em depressão e eu fiquei bem mal.

 

P/1 – E como foi se tornar mãe?

 

R – Então, foi algo maravilhoso, mas difícil. Difícil, aos dezesseis anos se tornar mãe, longe da minha mãe (risos), sozinha, em outra cidade, foi bem difícil. Morando em casa de outras pessoas, não era nossa casa. E foi bem difícil. Na época, foi muito difícil. Daí o meu filho ficou bem doentinho e eu também fiquei doente, quando ele nasceu e aí tive depressão pós-parto. Então, algo bom, que o filho sempre é benção, mas foi uma fase bem difícil. Mas, como tudo na vida, é um aprendizado e tudo passa, as coisas melhoraram e, graças a Deus, estamos… ele está aí, grandão, já homem.

 

P/1 – Como que é o nome dele?

 

R – Renan.

 

P/1 – E, Kátia, como foi nessa época, pra você? Você teve apoio? Você… como foi enfrentar esse período?

 

R – Então, nessa época que eu tive depressão, os meus pais não ficaram sabendo. Eu escondi bastante deles, porque eles moravam no norte do Paraná. Eu escondi deles, porque eu não queria que eles vissem - nesse ponto, eu era orgulhosa - que eu tinha feito errado, que eu fiz tudo errado. Eu não queria que eles vissem. Eu escondi tudo. Eu fiquei um ano e nove meses sem ver minha mãe e meu pai, só por telefone. Então, eles não sabiam que eu estava nessa situação. Eles não tinham conhecimento. Então, foi bem difícil passar sozinha, numa cidade que eu não conhecia. Aí quando… aí minha mãe teve um sonho. Minha mãe teve um sonho que eu estava muito mal, que eu estava muito triste e que eu estava dentro de uma casa, chorando. E que eu tinha sofrido um acidente de carro. E aí ela mandou minha irmã me procurar, porque ela não sabia onde eu morava. E ela mandou minha irmã me procurar. Aí, quando minha irmã me procurou, eu estava mesmo numa casa grande, tinha sofrido mesmo um acidente de carro na Rodovia do Xisto, em Araucária e minha mãe mandou… achou, daí meu pai veio e daí, quando meu pai veio eu estava numa situação difícil, nessa época eu já estava quase separando, estava com depressão, estava com problema no casamento. Culpa minha, também. Dos dois lados. Sempre, né, dos dois lados. E daí o meu pai veio e me buscou. Me buscou e me levou. E aí minha mãe começou a lutar junto comigo: “Não, você vai sair dessa situação, dessa depressão”. E começou, os dois, lutarem junto comigo. E daí levaram o meu ex-marido também, porque também eles não o abandonaram, levaram ele também, falaram: “Não, vocês dois…”, o levaram lá pro sítio, falou assim: “Não, vamos fazer o que nós pudermos pra resgatar, pra mudar a situação”. E daí nós fomos melhorando, melhorando, mas o casamento foi, foi, foi, a gente tentou mais um tempo, degringolou e não teve jeito, mas eu saí da depressão, ele também melhorou o lado dele, ele está bem hoje e graças ao bom Deus eu consegui sair da depressão. Então, assim, eu devo muito à minha mãe, que já não está mais aqui e ao meu irmão abaixo de mim, à toda a minha família, mas a minha mãe e o meu irmão abaixo de mim, que é esse meu irmão Marcos. Ele sempre tentou elevar a minha autoestima, nas fases mais difíceis: “Não, Kátia, você tem…”, sabe, que a depressão você fica triste, você já não gosta mais de você e a depressão é cruel, porque eu achava que tinha destruído a minha vida por eu, tipo assim, não ter valorizado aquilo que meu pai fez por mim. Tão nova, olha, veja bem como é a cabeça da gente, eu achava que tinha destruído a minha vida. Eu não tinha. Quanta vida eu tinha pra viver, hoje eu vejo. E na época eu achava, não, tinha acabado com a minha vida, tinha destruído a minha vida, já não tinha mais chance pra mim (risos). Eu pensava assim. E na época eu tinha tentado o suicídio por quatro vezes, quando a minha mãe veio me buscar, meu pai veio me buscar. Tinha tentado o suicídio por quatro vezes. Tive até, depois, outros problemas de saúde, por conta da tentativa de suicídio, com remédios muito fortes e venenos, coisas assim. E, assim, mas… daí esse meu irmão veio, lutou junto comigo: “Não”, minha mãe também: “Você vai sair dessa, não vai ficar trancada dentro do quarto” e, graças a Deus, Deus me tirou dessa, entendeu? Deus, primeiramente, depois minha mãe e esse meu irmão, que é mais do que um irmão pra mim.

 

P/1 – E aí, nessa época, depois que você foi melhorando, como seguiu sua vida? Você começou a trabalhar, você voltou a estudar? Como foi?

 

R – É, a primeira coisa foi tipo: quando eu saí da depressão, eu comecei a olhar à minha volta e tipo assim, as pessoas... como eu falo? Olhavam pra mim e falavam: “Nossa, Kátia, como você está diferente!”, mas tipo assim, para um lado ruim. Porque eu era muito diferente, eu era jovenzinha, eu era uma menina bonita. E eu meio que me acabei, na depressãonão me cuidava mais. E as pessoas não têm aquela sensibilidade, de olhar pro outro e tentar ajudar: “Vamos se maquiar, vamos arrumar seu cabelo, vamos te ajudar”. As pessoas não têm essa sensibilidade, infelizmente. E aí, cada vez que eu saía, assim… eu já tinha saído da depressão, mas cada vez que eu saía de casa, junto com a minha mãe, as pessoas tentavam abaixar a minha moral. Eu já não queria mais sair, minha mãe: “Não, você não pode dar ouvidos aos outros”. Minha mãe sempre me levantando. Então, a primeira coisa foi enfrentar o mundo real aí fora. Aí, depois, quando assim, quando eu consegui melhorar a minha autoestima e aprender a gostar de mim… minha mãe sempre cantava um louvor, que fala assim: “Aos olhos do Pai, você é uma obra-prima”. Porque é verdade. Aí eu aprendi a me amar. Então, quando você aprende a se amar, não importa o que os outros falem de você, se você é feia, se você está feia, ou o que as pessoas queiram falar sobre você. Aí, quando eu aprendi a me amar, as palavras dos outros não me importavam mais e hoje em dia não me importam mais. Tanto que, depois que eu saí da depressão, de tanto esse meu irmão me incentivar e minha mãe também, eu participo de corridas. Eu já fiz meia maratona, não ganhei ainda (risos). Espero um dia ganhar, mesmo que seja da terceira idade (risos). Mas eu corro bastante, gosto de correr, amo correr, desenvolvi esse hábito. Na realidade, meus pais sempre gostaram e sempre incentivaram, mas quando você entra em depressão, você abandona tudo. E esse meu irmão é atleta também. E ele sempre me puxava pro lado de academias, de corrida, de coisas assim. E isso também te anima. E foi assim que eu comecei a voltar a me gostar… esse meu irmão comprava roupa pra mim, eu falava: “Ah, não quero sair, não tenho roupa” “Vou comprar” “Não tenho tênis” “Vou comprar”. Então tudo o que aconteceu comigo, devo a Deus, ao meu irmão e à minha mãe, que me cercaram de todo o amor e carinho e me jogaram pra fora de casa: “Você vai sair, você vai na rua, você vai enfrentar. Você tem que enfrentar as palavras negativas, você tem que entrar por um ouvido e sair pelo outro, não pode se importar, entendeu?” Então, hoje em dia eu posso dizer que eu não me importo com o que as pessoas falam sobre mim. Até hoje, há algum tempo, mais ou menos um ano atrás, eu correndo na rua e eu ouvi um homem falando assim: “Não sei por que uma mulher seca dessa está correndo”. Aí eu ouvi uma vez, no outro dia ele falou de novo. Aí eu fui lá, aí eu cheguei na mercearia que ele estava e falei pra ele assim… aí cheguei ali, pertinho de casa… aí ele ficou todo sem graça, que ele percebeu que eu ouvi. Aí ele falou assim: “A senhora ouviu o que eu falei?” Falei: “Ouvi” “Ai, mas a senhora me perdoa, o que eu tenho a ver com a vida da senhora?”, eu falei: “Pois é, né? Olha, corrida é tão bom, porque limpa os ouvidos da gente, deixa a gente de bem com a vida” e daí ele me pediu 1001 desculpas, não precisou ser grossa, nada com ele. Então, assim, hoje em dia as pessoas podem falar o que quiserem de mim, eu dou risada junto. Eu não ligo mais, porque essa parte Deus já curou em minha vida. Eu não… não me afeta mais. Às vezes, algumas palavras podem até machucar, mas não entram mais no coração como antes, que me deixava depressiva, triste, magoada.

 

P/1 – E como foi - até você contou um pouco do seu sonho de ser soldadora, que você via, e fazia os cursos - da parte que você saiu da depressão até chegar nessa parte de, de fato, conseguir fazer todo o treinamento, para se tornar uma soldadora?

 

R – Então, nessa época, eu comecei a estudar bastante. Eu fiz bastante curso, meu pai me ajudou a pagar. Na época, eu ainda estava casada. Era meu pai e meus irmãos que sempre me ajudavam, meus irmãos mais novos, que eu sou mais velha que os dois meninos. E meu pai me ajudou a pagar. Eu fiz curso de vigilante, também. Lembra que eu falei que eu queria ser vigilante? Mas, tipo assim, eles meio que não queriam. Meu pai e meu irmão caçula não queriam que eu fosse soldadora, ainda, nessa época. “Não, vamos fazer o curso de vigilante. Vamos fazer o curso de vigilante, fazer aula de tiro, porque é mais… ainda tem espaço pra mulher”. Aí eu fui, fiz o curso de vigilante, fiz aula de tiro, entrei no Karatê, fui, fui, fui, quando eu fui trabalhar, não era o que eu queria. (risos) Entrei, era muito monótono, eu sou muito agitada, eu ficava: “Meu Deus, eu vou dormir aqui nessa porta” (risos). Não gostava. A aula de tiro, beleza, a aula de Karatê, beleza, mas o trabalho, não gostava. Aí falei: “Não, eu vou trabalhar como soldadora, mesmo. Eu vou fazer esse curso e eu mesma vou pagar”. Aí que eu fui e juntei o dinheiro, trabalhei em outra empresa, terceirizada, na Renault, como motorista, nuns carrinhos elétricos, dentro da Renault. Nessa época eu já tinha vindo pra cá, pra Curitiba, eu já estava em São José dos Pinhais. Eu vim trabalhar nesses carrinhos elétricos. Aí fiz o acerto na empresa. Foi na época que minha mãe faleceu. Minha mãe faleceu, ela não chegou a me ver soldando. Ela sabia do meu sonho, mas ela não chegou a ver. Então, daí, nessa época a minha mãe faleceu e quando ela faleceu eu peguei o acerto dessa empresa. E, assim, eu fiquei bem chateada com a morte dela, não esperava que ela fosse morrer tão jovem, com 45 anos. E era bem no auge, que eu estava sonhando, trabalhando, estava fora da depressão, ela tinha me ajudado muito. E daí eu estava bem, já. E daí, quando ela faleceu, assim que eu voltei do enterro dela, eu trabalhei uma semana nessa empresa e não consegui mais. Não consegui mais trabalhar, só chorava. Daí eu pedi a conta. Eu pedi a conta dessa empresa e com o acerto… pedi pra que eles me mandassem embora e, com o acerto, dei entrada em vários cursos. Dei entrada em vários cursos: “Inspetor da qualidade”, “Operador de empilhadeira”, nessa época, e “Soldador”. E fui estudar. E estudava de manhã, à tarde e sábado. Estudava direto. Pra não pensar, pra tentar esquecer. E, assim que eu acabei de fazer o curso de soldador, eu já consegui o serviço. Já entrei trabalhar numa empresa chamada _____ (44:44). Aí o dono dessa empresa chegou lá pedindo soldador e eles falaram: “Temos aqui uma mulher que está acabando de fazer o curso”. Aí ele foi lá, diz ele, depois me contou, que foi lá e viu eu fazendo o curso, soldando e ele falou assim: “Ah, vou dar oportunidade pra ela”. Aí ele me chamou pra fazer uma entrevista e eu até fui de terno, salto, (risos) essas coisas (risos). Aí, depois, quando eu fiz a entrevista, ele falou comigo: “Olha, da próxima vez que você for fazer uma entrevista, não faça assim, porque daí as pessoas vão achar que você é elegante demais. Pra você fazer uma entrevista pra um setor assim, você tinha que ir de tênis, de calça jeans”. Aí eu fiquei toda sem graça, mas graças a Deus, daí ele… tipo assim: eu passei, mas eu passei foi por Deus mesmo, porque eu tinha acabado de fazer o curso e estava nos “finalmentes”. Mas foi nessa época que eu consegui o… que eu comecei a trabalhar. Minha mãe nem chegou a ver, né? Mas o meu pai ficou todo feliz, porque ele sabia que era o meu sonho, que era o que eu queria e foi, assim, muito rápido. E foi acho que dois meses… menos, até. Menos de dois meses depois que a minha mãe faleceu. É, um mês e meio pra dois meses depois da morte dela, que eu comecei a trabalhar como soldadora.

 

P/1 – E você falou um pouco como seu pai ficou, mas como foi pra família, no geral, receber essa notícia de que você ia soldar, de que você tinha sido contratada como soldadora?

 

R – É, então… nessa época, morava só eu e minha irmã aqui em Curitiba, meu pai ainda morava no norte do Paraná. Aí ele ficou feliz, ele ficou surpreso, porque ele sabia que era… na época, era muito raro mulher trabalhar na área da solda. O meu irmão caçula, que era contra, falou: “Ah, parabéns Kátia. Se você conseguiu, que bom, né?” (risos) Não tinha muito o que falar, porque ele era bem contra, ele falava: “Não, você não vai conseguir, isso é uma área masculina”. O outro, meu irmão do meio, que sempre me deu força em tudo, falou: “É isso aí, as bênçãos de Deus correm atrás da gente, é isso aí mesmo, Deus abençoe você”, ficou todo feliz. Ele também não morava aqui. Quem morava aqui em São José dos Pinhais era só eu e minha irmã. Então, eles ficaram felizes. E daí, nessa época, eu acabei… eu estava me divorciando e acabei de resolver todas as coisas do meu divórcio e ficou só eu e meu filho. Então, ficou minha irmã e a família dela e eu e meu filho, aqui em Curitiba.

 

P/1 – E você lembra a primeira solda que você fez, como foi o sentimento?

 

R – Lembro. Foi de medo (risos). Foi de medo. De medo de ser mandada embora (risos). Foi de medo de ser mandada embora e de ele se arrepender, porque eu fiquei com muito medo, porque eu tinha recém acabado, mesmo, o curso e eu lembro que, quando eu fazia o curso, ele falava pra mim assim: “Olha, você vai ser muito boa em TIG”, mas eu fui contratada pra MIG (risos). Não era pra TIG. E na TIG ele falava pra mim: “Olha, você vai ser uma boa ‘tigueira’, porque você consegue fazer a solda bem certinha e, no fechamento, você faz bem”. Mas eu fui contratada pra MIG e as MIGs da empresa eram umas MIGs muito ruins. Era umas máquinas muito velhas, diferente do curso, tudo reguladinha, tudo diferente. Tudo é diferente do curso. No curso, as máquinas são tudo novinhas, bonitinha, chapinha limpa. Era tudo diferente. Eu fiquei morrendo de medo. Só que eu pedia muito auxílio. Eu chegava nos caras e falava: “Me ajuda, me ajuda a regular”. Eu sempre fui muito humilde, nesse sentido. Falava: “Olha, eu não sei fazer. Vocês me contrataram sabendo que eu estava no curso. Eu não sei fazer, me ajuda”. E, assim, eu agradeço a Deus que sempre teve um colega bom ali, pra me ajudar, pra… tipo assim, porque a gente tem que ser humilde, por onde a gente passa. Se a gente não sabe, a gente tem que pedir auxílio, pedir ajuda. Nessa época, tinha um colega meu que se chamava Isaías e ele era muito bacana, muito gente boa e daí ele me ajudava tanto a regular a máquina, porque nessa época eu não sabia mesmo, quanto a posição, a vazão do gás, tudo, regular. Então, nos primeiros dias, eu tinha muito medo. Me dava uma suadeira, porque não era como no curso, a soldinha na posição. Era tudo diferente.

 

(49:48) P/1 – E qual é a diferença, pra uma pessoa que não sabe, do TIG pro MIG?

R – Ah, é bem diferente, porque a MIG, geralmente, as pecinhas são pecinhas de bancada, são mais delicadas. É diferente. A MIG não, são peças mais brutas, geralmente. E depende muito da empresa, também. É solda sobre cabeça. E nessa empresa que eu entrei, era uma empresa pequena, então as máquinas eram ruins, a posição era ruim. Era tudo enferrujado, era você mesmo que arrumava as máquinas. Então, era bem… a situação era bem precária. Então, você tinha que saber… muitas vezes faltava até o EPI, nessa primeira empresa que eu entrei. Mas agradeço, por ter… pela oportunidade que eles me deram. Fiquei cinco anos lá. Pela oportunidade que eles me deram. Aprendi muita coisa lá. Lá eu aprendi não só solda, como guilhotina, dobradeira, policorte, nessa época. Aprendi muita coisa lá. Foi uma grande escola. E eu saía também, ia montar fora. Eles tinham serviço terceirizado com a Amanco, então aprendi bastante com eles. E eu acho, assim... eu acho não, foi muito importante trabalhar nessa empresa, porque quando você trabalha numa empresa que tem as máquinas tudo boas, tudo reguladinhas, você não aprende a arrumá-las. E o bom de eu ter trabalhado com máquinas ruins, é que eu aprendi a arrumá-las. Eu aprendi a abri-las, mexer, eu tive que aprender. Então, na época foi difícil, mas hoje eu vejo que foi uma escola. Que eu aprendi da maneira mais difícil, mas aprendi alguma coisa.

 

P/1 – E tinha outras mulheres nesse serviço, quando você trabalhava nessa empresa?

 

R – Não, na solda, não. Na solda, em todas as empresas que eu trabalhei até hoje, eu sempre fui a única mulher. Nessa empresa eu fui a primeira mulher. Depois trabalhei na Montana, também, eu fui a primeira mulher a entrar. Na Montana eram soldas de tratores, eu fui a primeira mulher a entrar, também. Eu fui a primeira mulher que eles deram oportunidade. E aí, depois de mim entrou outra mulher, depois que eu saí entrou outra mulher e trabalhou lá, mas aí não entrou mais nenhuma mulher. Porque quando é solda pesada, assim, não é toda mulher que se adapta. É mais na TIG, geralmente as mulheres ficam mais na TIG. E aqui na Rumo, também, por enquanto, aqui na Rumo de Araucária, eu sou a única mulher, ainda, na solda.

 

P/1 – E, pensando assim, tanto no primeiro emprego, quanto até hoje. No primeiro emprego como soldadora, você disse que os homens ajudavam, os seus colegas ajudavam. Mas você já sentiu o contrário, também? Que alguns falavam que você não ia conseguir? Ou sempre foi estimulando, assim?

R – Já senti. Já senti. Nessa empresa, mesmo, quando eu fiz o meu primeiro emprego, eu fiz o curso lá no… enquanto eu fazia o curso, tinha um rapaz que eu conheci lá no curso. Quando eu cheguei nessa empresa, que foi meu primeiro emprego, cheguei lá, dei de cara com o rapaz que eu fazia o curso junto. Só que esse rapaz já era soldador. Ele estava fazendo o curso só porque ele precisava do certificado. Era regra da empresa. E daí eu cheguei lá e falei: “Nossa, que bacana, está o cara aqui que me conhece e ele vai me dar uma força”. Quando eu cheguei na máquina, o que ele fez? Foi lá e desregulou tudo. Desregulou toda a máquina. E eu pensei assim: “Meu Deus do céu, agora lascou”. Aí eu comecei a relembrar aquilo que eu tinha aprendido no curso, que era recém, que era fresco, eu estava acabando ainda. E aí eu comecei a fazer aquela solda, aqueles ares, tá, tá tá, pipocar tudo, mas como eles sabiam que era o meu primeiro emprego, que eu estava recém-feito o curso, a solda não ficou muito bonita, não, pra ser bem sincera. Não ficou muito bonita, mas eles viram que eu sabia fazer e que eu poderia melhorar. Aí eu comecei a fazer uma soldinha meia feia, aí veio esse rapaz que chamava Isaías, que trabalhava na empresa e foi e me ajudou, falou: “Aqui é o arame. Dá uma reguladinha”. E falou baixinho pra mim e me ajudou, enquanto o encarregado saiu, ele me ajudou a regular. E a segunda solda do teste eu já consegui fazer uma soldinha melhor, porque ele me ajudou a regular, porque o outro foi lá, que estudava junto comigo e desregulou tudo. Aí, com o passar do tempo, que eu passei no teste, que eu fiquei na empresa, eu olhava pra ele e pensava: “É, você me sacaneou (risos). Você me sacaneou, quando eu entrei aqui”. O nome dele é Rogério. Não esqueço dele. “Você me sacaneou, quando eu entrei aqui”. Então, as pessoas que fazem coisas boas, te marcam. E as pessoas que fazem coisas ruins, também. E eles marcam, não pra você se vingar, mas pra você não ser igual. Pra você sempre fazer o seu melhor. Porque você vai ficar marcado na vida das pessoas. E que você fique marcado de forma boa. Você fica ali, guardado no coração, como uma pessoa que fez bem pra aquela pessoa.

 

P/1 – E quando foi que você começou a trabalhar na Rumo?

 

R – Eu comecei a trabalhar dia oito de dezembro. Está completando agora dez meses. Não faz muito tempo.

 

P/1 – E você já tinha trabalhado numa empresa ferroviária, assim? Como era antes?

 

R – Não, não tinha trabalhado. Eu tinha trabalhado em solda pesada, solda de trator. Solda suja, que é quando o material é sujo de tinta e você tem que reformar, como na Rumo é, que você tem que… não é peça limpa, como geralmente, na maioria das empresas as peças são limpinhas, então a solda consegue ser mais bonita. Então, na Rumo tem esse diferencial: você tem que saber, mesmo, soldar. Você tem que gostar, mesmo, de soldar ali e de andar sujo, porque ali você trabalha sujo. Então, as peças são tudo… geralmente é uma reforma de peças já pintadas. Então, a solda não sai aquela beleza, então você tem que ir lá queimar, você tem um trabalho a mais pra fazer a solda. Não é como você soldar numa peça limpinha, numa peça nova, na bancada, na posição. É solda sobre cabeça, é solda de qualquer jeito. Então, onde der, você tem que entrar na fresta e tem que soldar. Então, eu nunca trabalhei como na Rumo, não. Já trabalhei em lugares parecidos, mas em ferrovia, assim, vagão, não.

 

P/1 – E como o seu trabalho funciona hoje? Como é soldar lá, assim?

 

R – Ah, a nossa solda, não só o meu trabalho, como os demais, na realidade nós não somos só soldadores, nós trabalhamos na parte de caldeiraria também. Nós mexemos com maçarico, policorte, lixadeira, solda com eletrodo também, não só a MIG. Nós soldamos tubulação de encanamento de freio, então não pode vazar. É solda embaixo do vagão, solda sobre cabeça, solda em altura. Então, é chaparia, reforma. Daí a gente faz a peça, também, quando não tem. Então, é gostoso, é um serviço pesado. E a gente está cansado, porque é um serviço bem pesado, mas é um serviço, assim, diferente. É um tipo de solda que você não vai encontrar em outro lugar, porque é vagão. É um tipo de solda diferenciada. Então, você pode soldar, reformar o trator, caminhão, qualquer outro tipo de solda. Mas como vagão, é difícil você achar outro lugar que faça o mesmo tipo de serviço.

 

P/1 – E você lembra do seu primeiro dia na Rumo, como foi?

 

R – Lembro. O primeiro dia foi bem, assim, um pouquinho turbulento, porque não tinha nenhuma mulher ali, então era bem, assim, eles tinham um pouco de barreira pra entrada de mulher, ali, na nossa empresa. E eles estranharam um pouco e eu fiquei com bastante medo, (risos) porque era tudo diferente do que eu já tinha vivido, por mais que eu tenha mais de dez anos de solda. Era tudo diferente. E teve um momento que eu cheguei a duvidar se eu era capaz de fazer aquilo, porque era tudo peça muito grande, tudo muito pesado. E eu cheguei a duvidar, mas eu falei: “Não, eu vou enfrentar e vou conseguir. Com jeitinho a gente chega lá e a gente consegue”. Mas eu fiquei com bastante receio. Bastante.

 

P/1 – E o que significa, o que passa na sua cabeça, de ser a única mulher nesses ambientes? O que significa isso, pra você?

 

R – Ah, eu acho bacana, que a empresa está dando oportunidade pra nós, mulheres. Mostrando que nós também somos capazes. Não temos a força do homem, mas temos jeito. Com jeitinho a gente consegue, também. Ah, pra mim é importante, eu me sinto orgulhosa. Eu me sinto orgulhosa de ser uma mulher e muitas vezes as pessoas olharem pra gente e não dar nada pra gente e daí vê que você é capaz e você consegue também. Não só eu, como as outras demais que trabalham lá, então olha pra gente e vê que a gente consegue também. Chega lá e devagarzinho, com jeitinho, a gente faz também.

 

P/1 – E como foi abrir o seu espaço, conquistar o seu espaço na Rumo? Você me contou que foi um pouco assustador no começo, turbulento, mas como foi acreditar no seu trabalho e achar um espaço lá?

 

R – Ah, agora eu me sinto em casa, ali. Porque os meus colegas ali, principalmente do meu turno, tem uns da minha idade, tem outros mais novos e eu me sinto como se eles fossem meus irmãos, mesmo. E daí, no começo tinha, igual eu falei, uma certa resistência e tal. Mas agora já conhecem, eu tenho liberdade pra brincar e assim… eu sou tímida no começo e depois eu me solto. Eu ponho apelido e eles põem apelido em mim também. Então, assim, eu me sinto em casa. É assim que eu me sinto ali. Me sinto em casa. E eles me ajudam bastante e quando eu não consigo carregar um maçarico, eles vão lá e catam e carregam pra mim e me ajudam. E o líder vai lá e dá play na US pra mim, quando eu não consigo, quando eu tô apurada. Então, assim, eu me sinto super à vontade. É diferente das outras empresas, que você tem uma… “Ah, não, esse é o líder”, então aqui você tem que ter um certo… uma certa… fugiu a palavra, agora. Você tem que manter um certo grau de…   

 

P/1 – Hierarquia?

 

R – Isso. “Ali é seu líder”. Aqui, não. A gente tem um respeito, claro, mas a gente se sente em casa, todo o mundo é amigo. Se sente irmão, mesmo, família. É assim que eu me sinto. Falei com eles: “Nosso turno a gente se ajuda”. E eles me ajudam, eles vêm e nos ajudam também. Acaba o turno, todo o mundo vem e puxa a máquina de solda, puxa maçarico, enrola. Então, agora já não tem mais esse negócio “homem e mulher”, não tem mais isso. Todo o mundo se ajuda e brinca e põe apelido, enche o saco um do outro. Eu me sinto assim. É assim que eu me sinto. Eu não me sinto como se eles não fossem da minha família. Até um dia, se eu chegar a sair dali, vou sentir falta.

 

P/1 – E eu estava vendo que você é “soldadora I”. Tem diferença? Por que “soldadora I”? Tem diferença pra outros?

 

R – Não, é questão de salário, mesmo. Soldador I, soldador II, soldador III. Pelo menos ali, que eu sei, é só questão de salário. Porque o soldador I, II e III têm a mesma… tem o mesmo… faz a mesma coisa, faz a mesma função. Inclusive eu faço lá mais a parte de solda de encanamento. Encanamento de freio. Daí eles fazem o teste de freio e não pode vazar. Então, o que eu faço, o soldador III faz também. Então, é mais questão salarial, não é questão de que tipo de solda faz ou não, é questão de salário, mesmo. Porque você vai subindo, vai fazendo teste dentro da empresa e daí você vai subindo e melhorando questão financeira, mesmo.

 

P/1 – E como você vê a ascensão das mulheres no setor ferroviário e principalmente na Rumo, no lugar em que você trabalha, tem crescido? Como é?

 

R – Tem. Lá mesmo trabalha eu e uma técnica mecânica e uma mecânica. Então, assim, eu me sinto super à vontade, porque daí a gente, tipo, se nós pudermos conversar coisas de nós, mulheres… e eu acho assim, que nós, mulheres que trabalhamos nesse setor, nós temos uma cabeça... como é que eu falo, assim? Mais aberta. Eu penso, pelo menos. Que a gente pode brincar junto com eles e a gente entende um pouco o universo masculino e eles também entendem um pouco a gente. Então, eu me sinto feliz. Tipo assim, porque não é só eu que quero estar ali, eu quero que as minhas amigas também estejam. Então, eu tenho minhas colegas lá e nós somos amigas. Nos juntamos no banheiro e às vezes temos o nosso papo de mulher, nosso papo de maquiagem, de pele. Então, nós não deixamos de ser mulheres. Nós sempre temos que... as unhas, onde nós estamos fazendo, o que nós estamos fazendo, o cabelo, o que nós estamos fazendo pra cuidar da pele. Então nós sempre temos nossos papos de comadre.

 

P/1 – E como é conciliar, pra você, a Kátia pessoal, a Kátia mãe e a Kátia soldadora, no trabalho? Como é?

 

R – Então, eu não me vejo sendo diferente, porque eu sou soldadora porque eu amo minha profissão. Eu fiz técnico em eletromecânica porque eu almejo também chegar lá e também é o mesmo ambiente. Eu sou soldadora, mas a gente também… nós vivenciamos a parte técnica, também, do vagão. Então, eu não me vejo de outra forma, em casa, assim, sem trabalhar, sem estudar. Eu amo essa correria que a minha vida tem. Eu gosto de trabalhar, chegar em casa, cozinhar. Porque eu estudo, também. Eu também faço faculdade. Então, eu também gosto disso: estar crescendo, estar estudando. Eu não sei, eu não me vejo de outra forma. Eu sempre gostei, eu fui criada assim. Igual eu falei, meus pais sempre estudaram e eu não consigo me ver diferente. Cada um pensa de uma forma e tem uma necessidade e minha necessidade é essa: estar sempre buscando o crescimento, estudar, sem deixar minha casa, meus filhos de lado, meu esposo, porque eu sou casada novamente. O meu filho mais velho já é casado, porque eu tenho dois filhos. Então, eu não me vejo de outra forma.

 

P/1 – E quais são os principais aprendizados da sua trajetória profissional?

 

R – Nossa! Os principais aprendizados? É a perseverança. Perseverança. E eu aprendi que a gente tem que persistir, insistir, insistir, até conseguir. E você vai conseguir. Vai lutar, vai passar por partes difíceis, isso faz parte da vida, por momentos difíceis, mas você tem que persistir, insistir, até conseguir.

 

P/1 – E tem alguma história marcante do seu trabalho? Principalmente agora na Rumo, assim. Um dia marcante.

 

R – Deixe-me ver. Deixa eu puxar na memória. Deixa eu lembrar. Na Rumo? Ah, na Rumo, eu gosto bastante de trabalhar ali, mas marcante, marcante? Deixa eu lembrar.

 

P/1 – Se não tiver, também, não tem problema (risos).

 

R – Não, porque ali, é sempre bacana trabalhar ali, os colegas. A gente sempre está rindo, zoando um do outro, tirando sarro (risos). Às vezes nem parece trabalho. A gente trabalha, mas é feliz, ao mesmo tempo. Eu costumo dizer que sou uma pessoa feliz, então eu dou risada de graça (risos). Sou feliz à toa, de graça. Eu falo pros meus colegas, eles falam: “Por que você fica rindo tanto?” “Porque eu sou feliz, ué”. Então, um momento marcante, deixa eu ver. Ah, tem bastante coisas ali. Deixe-me ver… não tô lembrando.

 

P/1 – Não tem problema. Eu posso fazer outra pergunta, enquanto isso? Você falou que você está fazendo faculdade também. Eu queria saber como é que foi entrar, o que você está fazendo?

 

R – Ah, eu faço Engenharia Elétrica. E eu tô no… era pra eu estar no terceiro, já. Só que aí, como eu tive que mudar de faculdade, porque onde eu estava, o polo que eu estava encerrou e daí foi outro e daí o outro que eu entrei não estava acompanhando, não estava no grau que eu já estava. Aí eu tive que mudar de faculdade e daí eles sempre cancelam algumas matérias, então era pra eu estar no terceiro, mas estou no segundo, já no finalzinho do segundo. E assim, é bolsa. Eu ganhei bolsa e na época estava fazendo o técnico e falei: “E agora, como eu vou conciliar os dois? Mas eu vou fazer. Eu vou fazer. Era meu sonho fazer Engenharia Elétrica. Eu vou fazer, não vou deixar pra lá”. E daí eu fazia o técnico presencial, em Eletromecânica e a Engenharia era semipresencial. E aí eu comecei naquela loucura, acabei ficando doente, porque a gente fica estressado, com enxaqueca, eu tenho enxaqueca e aquela loucura toda e corria de um pro outro, de um pro outro. E acabei o técnico e fiquei agora só com a faculdade. Mas é um sonho realizado. Quer dizer, tô quase realizando. Um dia vou conseguir, mas eu já tô. Pra mim eu já considero realizado, porque eu já tô dentro. Pra terminar só falta um passinho, só. É o de menos.

 

P/1 – E quais foram as principais dificuldades, da sua trajetória profissional?

 

R – Olha, as principais dificuldades, assim: teve uma fase, quando eu ganhei meu filho, que eu fiquei… que eu pedi a conta no serviço. Então, nessa época foi difícil voltar ao mercado de trabalho, como soldadora. E nessa época eu trabalhei como operadora de empilhadeira e daí a solda se tornou um pouquinho difícil, por eu ter criança. Não sei se é isso, o que era, suponho eu que seja. E daí ficou um pouquinho difícil. E daí eu não conseguia nem a oportunidade de fazer teste, nessa época. E daí se tornou difícil, eu trabalhei bastante tempo como operadora de empilhadeira, trabalhei num hotel por um tempo, mas nunca deixei de trabalhar. Sempre trabalhando. Aí meu marido tinha uma serralheria, eu fui trabalhando com ele também, na solda e na calha. Mas na área profissional, foi nessa época. Eu tive que trabalhar um pouco sem registro também, por conta de ter meu filho pequeno, então o mercado não se abria, porque eu tinha pedido pra sair. Nessa época, foi difícil.

 

P/1 – E como você conheceu o seu atual marido? Como foi?

 

R – Então, ele era meu vizinho. Na realidade, depois da morte da minha mãe, eu já era soldadora e daí ele se mudou para o lugar em que eu morava. Só que eu tinha uma depressão, por causa da morte da minha mãe, eu estava… não chegava a ser uma depressão, mas aquela tristeza, depois da morte da minha mãe. E eu estava muito triste. E daí ele começou a fazer amizade com o meu filho. Meu filho já tinha dez anos, na época. E eu não queria saber de ninguém, porque eu tinha separado já e por causa da morte da minha mãe também, eu estava bem… daí eu o conheci, comecei a conviver com ele, daí ele fez teste nessa empresa que eu trabalhava e tal, então ele conhecia meus amigos trabalho, também. Mas nessa época a gente… tipo, nós não nos envolvemos, nós só nos conhecemos, nessa época. E aí ele pegou meu telefone, através do meu filho, porque ele queria levar meu filho pra comprar uma carne de javali, jacaré, sei lá que era, uma carne diferente. E aí diz ele que deu a desculpa de pedir meu telefone pro meu filho, pra ver se eu liberava meu filho pra ir num açougue com ele, pra comprar essa carne. Aí que ele descobriu meu telefone, mas acabou meu filho nem indo com ele. Aí eu me mudei de perto dele, daí ele ligou pra mim um dia e disse que gostava de mim, ainda falei pra ele que eu não queria, naquela época, me envolver com ninguém, por causa da situação que eu estava vivendo. Aí ele foi bem insistente. E como ele foi insistente, eu imaginei: “Bom, ele é uma pessoa que está querendo investir”. E daí ele teve amizade com meu filho e começou fazendo amizade com ele. E aí que eu resolvi começar a olhá-lo de forma diferente. Porque ele já estava insistindo, e falando, falando. A mãe dele também falou pra mim. Aí eu falei, então… foi num dia que teve um jogo do Brasil, acho que era isso. E aí a mãe dele me chamou pra ir lá conversar, pra eu ouvir o que ele tinha a dizer, que até então eu não deixava nem ele falar o que ele tinha a dizer pra mim (risos). E daí eu fui de uniforme, toda suja, porque eu já soldava, toda suja, com a cara suja. Porque quando eu tô trabalhando, eu entro em ônibus toda suja, eu nem ligo muito. E daí, quando eu cheguei lá na casa da mãe dele, tudo arrumado, todo mundo tomado banho, limpinho, fiquei até com vergonha. Toda suja, de sapato de bico de ferro, a cara toda encardida. Falei: “Meu”. Aí que eu que fui cair a ficha que eu estava toda suja, fiquei com vergonha. Aí que ele foi e falou que já era interessado, que gostava de mim e tal. E aí foi nesse dia que eu resolvi dar oportunidade pra ele, pra gente se conhecer. Aí acabou a gente se envolvendo, comecei a gostar dele, vi que ele era boa pessoa. E estamos aí até hoje.

 

P/1 – E aí você teve outro filho?

 

R – Tive outro filho.

 

R2 – Eu.

 

P/1 – E como foi se tornar mãe, de novo?

 

R – É, o meu outro filho já estava, nessa época, quando eu tive o mais novo, são quatorze anos e meio de diferença um pro outro. E aí eu tive esse aqui. Aí ele queria ter mais um filho, ter um filho. Daí eu tive esse. Aí já foi mais fácil. Já foi diferente, como da primeira vez. Eu estava mais madura, estava mais preparada para ter filho. E já foi bem diferente, tinha a mãe dele, a avó, tudo mais, por perto. Ele também. Então, já foi outra vida. Outro… o casamento estava mais preparado. Os dois estavam mais maduros.

 

P/1 – E como se chama o seu marido e o seu filho mais novo?

 

R – O meu esposo se chama Júlio César e o meu filho chama Davi Manoel.

 

P/1 – Kátia, o que você gosta de fazer no seu dia a dia? Como ele é?

 

R – Então, o meu dia a dia: eu acordo… até no meu trabalho, eles não acreditam. Às vezes eles me zoam. Eles falam pra mim que… eles me zoam, me enchem o saco, esses dias tive que fazer uma selfie e mostrar pra eles. Porque eu levanto - eu trabalho em revezamento de turno - quatro e meia e vou correr. E daí eles não acreditam. E eu falo pra eles: “Tem meu marido que é prova, os meus vizinhos que são provas”. Eles não acreditam em mim (risos). E eu levanto quatro e meia e corro. E daí tomo um banho e vou trabalhar. Então, eu sou uma pessoa bem agitada, eu gosto de dia, levantar assim. Eu levanto, corro, vou trabalhar, volto, quando eu estou no primeiro turno. Vou trabalhar, volto. Daí chego em casa, comida, casa. Meu marido me ajuda bastante também. Aí meu filho já chega da escolinha, às vezes eu passo e já o busco. Aí banho e daí agora eu tô fazendo faculdade, e está sendo online. E daí eu estudo e já, logo, dá a noite. Aí, nos finais de semana é mais os afazeres de casa e como eu moro numa área rural… é uma cidade, mas é área rural ao mesmo tempo. Então, é mais retirado, um pouquinho. Então, aqui é uma mini chácara, então nós temos quintal pra limpar, grama pra cortar. E o meu marido trabalha com calha, serralheria, então tem sempre um serviço novo pra fazer, tanto eu como ele. Então, final de semana eu tô estudando, limpando casa, cuidando do filho, então é sempre assim.

 

P/1 – E em que momento… assim, quando você está nos seus momentos de lazer, tem alguma atividade que você goste de fazer com seus filhos? Como é?

R – Ah, eu gosto de levá-lo no parque. Ele ama ir pro parque. Ele ama e ele gosta de correr também. Daí, quando eu vou correr, ele quer ir junto e daí eu quero que ele vá de bicicleta, porque ele é pequeno e ele quer correr também. E ele gosta de jogar bola e está sempre querendo que a gente jogue com ele, andar de bicicleta. Aí a gente o leva na rua, pra ele andar de bicicleta, parque, coisas assim. Aí a gente solta o cachorro, pra ele correr atrás. Ele gosta assim, porque como a gente mora em área rural, ele está sempre pro mato, brincando. Então, ele tem um pouco da infância que eu tive. E ele tem, eu ganhei de um colega meu, de trabalho, um galinho, que não dá pra ter galinha, criação, não dá pra cuidar. Aí ele fica com esse galinho, quer pôr o galinho até pra dormir no quarto (risos). Fica esse galinho correndo pelo quintal. Cachorro… então é assim: ele brincando, a gente brincando com ele. É o tempo todo assim.

 

P/1 – E me conta: como a pandemia mudou, alterou a sua rotina, o seu trabalho, a sua vida pessoal? Como foi?

 

R – Alterou, sim, bastante. No meu outro trabalho, chegou um ponto - antes de eu entrar na Rumo - de eu ter que pedir a conta do meu trabalho, coisa que nunca havia acontecido, porque o meu filho estuda meio período na escola pública e meio período na escolinha particular. E a escola particular fechou, porque não podia mais abrir. Daí ele não tinha mais com quem ficar. Daí ele saía da escola pública e ia pra particular. Então, eu podia trabalhar tranquila, sabia que ele estava guardadinho, estava na escola. Como a escola fechou, eu não tinha mais com quem deixar. Então, assim: coisa que eu nunca tive problema, com ele, com quem deixar, eu tive problema e tive que pedir a conta do meu trabalho, antes de eu entrar na Rumo. Eu tinha saído… antes de eu entrar na Rumo, tinha uma semana, uns dez dias que eu estava desempregada. E foi justamente por causa disso, eu fui e pedi a conta. E, graças a Deus, daí logo a escolinha voltou a funcionar. No dia que eu estava pedindo a conta, fazendo o exame demissional, a Rumo me chamou, mas eu já estava fazendo o exame demissional, falei assim: “Agora é tarde”. Estava fazendo o exame, já tinha pedido a conta no serviço. Aí, mas graças a Deus deu tudo certinho para eu entrar na Rumo. Atrapalhou também o meu curso técnico, porque eu estava nos últimos semestres, fazendo. E ele era presencial e eu tinha as aulas… fugiu agora, a palavra. Eu tinha as aulas com eles e daí eu não podia fazer as aulas dos materiais, as aulas práticas, eu não podia fazer. Eu tinha que fazer tudo online. Então, isso me prejudicou bastante. A faculdade não, porque por enquanto a faculdade é semipresencial, então eu posso recuperar alguma coisa, eu ainda tenho tempo. Mas o técnico, no finalzinho, prejudicou bastante. E é mais essa questão, porque aí o trabalho eu pedi a conta, mas graças ao bom Deus eu consegui outro. A escolinha dele, a pública, fechou mesmo, mas, assim, aqui em casa, nós puxamos bastante, então o que eu achei que ia ser ruim e iria atrasá-lo, tanto eu quanto meu esposo, nós dois o puxamos bastante e ele conseguiu aprender. Quando não era um, era outro ajudando, então ele conseguiu se desenvolver. Então, nesse ponto, graças a Deus, não o afetou, não. Ele está lendo bem, estudando bem. Então, nesse ponto, não. 

 

P/1 – E pensando, fazendo uma avaliação, o que a profissão de soldadora representa na sua história?

 

R – Bom, eu não me vejo fazendo outra coisa. Eu amo o que eu faço. E, sei lá, solda é muito importante pra mim. Eu não me vejo em outra área. É o meu ganha-pão. É onde eu sustentei meus filhos, o maior. Quando eu não tinha nada, nem ninguém, foi dali que eu consegui o sustento, pagava meu aluguel, prestação de carro, da minha moto, quando eu fui pai e mãe do meu filho sozinha. Então, assim, a solda foi muito importante pra mim. E eu amo o que eu faço. Eu sou realizada na solda, na indústria. Então, eu sou uma pessoa super realizada. Eu não me vejo fazendo outra coisa, não estando nesse meio. Eu estudo, eu tento melhorar, mas eu quero sempre estar nesse meio.

 

P/1 – E quais são os seus maiores sonhos, hoje?

 

R – Acabar a minha faculdade. Exercer a minha profissão, porque o meu sonho é ser engenheira, mas acima de tudo eu quero estar no chão de fábrica. Não quero estar em escritório, eu quero estar no chão de fábrica. Não me vejo atrás do computador, nada disso. Eu quero estar no chão de fábrica, estar junto com meus colegas. E profissionalmente é isso: eu quero estar junto com eles e quero que eles estejam junto comigo. E, se for na Rumo, melhor ainda (risos). 

 

P/1 – A gente está chegando no fim, já. Só tem mais duas perguntas. É mais pra saber se você queria acrescentar alguma história que eu não tenha te perguntado, alguma coisa que você lembrou, ou deixar alguma mensagem.

 

R – Então, você falou sobre algo que me marcou na Rumo. O que me marcou bastante ali na Rumo, que eu lembrei… bom, vou falar: quando eu entrei ali na Rumo, tinha um coordenador chamado João Paulo. Ele não está mais ali. E ele foi muito bacana. Eu passei… eu fiquei… quer dizer, ele passou pouco tempo pela minha vida, ali e ele foi uma pessoa muito bacana, não só comigo, como com todos os funcionários. Ele foi muito humano e ele não era somente um coordenador. Todo o mundo que o conhece sabe como ele era um ser humano diferente, diferenciado, mesmo. E ele me marcou assim porque, quando eu entrei ali, eles erraram no - coisas que acontecem, que podem acontecer com todo o mundo - meu salário. E daí eu fiquei sem receber o salário. E daí ele chegou em mim e falou: “Não, você pode ficar na sua casa, não precisa vir trabalhar. Não precisa vir trabalhar, porque não é erro seu, é erro do RH. Você fica em casa”. E eu falei: “Não, mas continuam abastecendo meu cartão de crédito, vou trabalhar”. E no outro mês houve outro erro. Houve um desconto maior. E ele foi lá e me ressarciu. E eu soube também da atitude dele, de outras atitudes dele, que ele ajudou financeiramente. Então uma pessoa que passa pela vida da gente, que marca, que é um superior seu e que tem atitudes, assim, não só com você, mas com outros funcionários e que não é coisa pessoal com você, que ele age com todos assim, isso marca você. Porque, geralmente, isso não é normal. Não é comum você conviver com líderes que te tratam de igual pra igual. E eu tenho sim convivido bastante na Rumo, igual eu falo, eu tenho tido bastante colegas que são mais que colegas, são irmãos. Tem a Elisângela, tem a Aline, tem o pessoal dali, então, assim, a gente… nós somos meio que uma família, mesmo. Então, eu me sinto super à vontade, ali, com eles.

 

P/1 – E o que você acha da proposta de mulheres que trabalham no mercado de transporte poderem contar a sua história, num projeto como esse, de memória, de história de vida?

 

R – Ah, eu acho superbacana. Está valorizando as mulheres. Tipo nós, mulheres. Está valorizando as nossas histórias. Nós passamos por bastante dificuldade, que não é fácil. Nós sabemos o nosso dia a dia: mãe, dona de casa, trabalhar fora, filho. E eu acho superbacana. Isso é algo que, sinceramente, me surpreendeu. Eu, quando contei hoje, lá, pros meus líderes, fiquei toda feliz, orgulhosa. Eles também ficaram felizes e orgulhosos: “Vai lá, Kátia!” Me liberaram mais cedo. “Vai lá, Kátia, vai mais cedo pra você fazer”. Eu fiquei, assim... como que eu falo? Na realidade, pra ser bem sincera, eu não acreditava que era verdade, eu acreditava que era um golpe (risos). Porque eu pensava assim: “Logo eu, meu Deus do céu? Logo eu?” Eu pensava assim: “O que eu tenho de mais, está entendendo? O que eu tenho a mais, entendeu? Nada”. Eu achei algo superbacana, superlegal.

 

(01:30:32) P/1 – E o que você achou de você ter contado a sua história? Um pedaço, porque pra contar a sua história inteira, a gente tinha que ter ficado quarenta anos aqui (risos). Mas o que você achou de ter contado um pedaço, as coisas que vieram na sua cabeça? Como foi pra você, esse momento?

 

R – Ah, eu achei bem legal. Pra ser bem sincera, eu me senti… como é que eu falo, assim? Eu senti que a minha vida, a minha trajetória, para alguém importa. Eu me senti emocionada (risos). Bem sincera. Pra ser bem sincera. Porque, poxa vida, a gente pensa assim… a gente passa pela vida e a gente pensa assim… né, a gente… quem a gente é? Nada. E eu me senti valorizada. Vou ser bem sincera, eu me senti valorizada. Eu me senti feliz, orgulhosa. Falei assim: “Nossa, será que eu sou… será que o que eu faço é tão importante assim, pra chamar a atenção das pessoas pra mim?” Tipo assim: porque a gente não se acha importante, né? A gente não se acha. Eu, às vezes, não me acho importante. O que eu sou? Nada. Então, eu me senti valorizada, pra ser bem sincera. Me senti valorizada, me senti feliz. Falei: “Logo eu, meu Deus?” Sou tão tímida, tão reservada, tão na minha. “Feliz” é a palavra.

 

P/1 – É isso. Que bom que você ficou… a gente também fica muito feliz. Eu agradeço muito. Foi muito bom passar esse momento com você, poder ouvir a sua história. Achei muito legal você contando sobre o seu sonho de ser soldadora. Foi, assim, bem bonito.

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