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História

Aos 60 anos, Nalvinha se formou ao lado dos jovens; tão jovem quanto eles

História de: Marinalva Pereira da Silva
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Nalvinha trabalhou no sisal na infância e adolescência. Na sua história, ela conta sobre sua participação no processo de organização da comunidade e do empreendimento com o beiju, valorizando essa tradição.

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História completa

Meu nome é Marinalva Pereira da Silva. Nasci na cidade de Valente, na Bahia em doze do dois de 1953.

O meu apelido é Nalvinha.Meu pai eu não conheci, quando ele faleceu eu era novinha, mas era produtor rural. Na época não existia aposentadoria. Minha mãe distribuiu os filhos pros irmãos, ela não tinha como criar. Ela ficou com quatro filhos e eu fui criada com um tio.

Eu já tinha seis anos na época que eu fui morar com eles. No fim, sendo a mais velha, eu tornei sendo a chefe da casa. Eu agradeço muito a eles, porque eles me deram uma boa educação na época. Trabalhei muito também, mas é o de todo pobre, tem que botar os filhos pra trabalhar. A família toda trabalhava no motor de sisal. A gente só fazia estender a fibra, que era o trabalho leve que tinha. Até 22 anos sempre trabalhando com sisal.

Parei de estudar. Depois, no ano de 2005, foi que eu retornei aos estudos. Eu vim pra Coité porque eu conheci meu marido lá em Valente, aí casei e vim. Depois que eu vim pra cá meu trabalho foi fazer beiju. Eu vendia na feira livre, em Conceição do Coité e em Santa Luz.

Rapaz, quando eu comecei, porque tudo é assim, tudo é o que a gente tem necessidade. Eu tinha precisão do dinheiro pra sobreviver e também do dinheiro pra adquirir alguma coisa que a gente não quer somente ganhar só o que comer, né? Precisa de ter casa, a gente precisava comprar um pedaço de terra, a gente precisava criar os filhos, dar educação. Então, pra mim, quando eu comecei a fazer, que continuei fazendo, já me sentia uma mulherona, porque já sabia fazer beiju, já sabia ir para as feiras vender e achei ótimo. Com a bacia na cabeça, a gente saía daqui umas três horas da manhã, umas três ou quatro mulheres que vendiam na feira. Umas duas horas [de caminhada], uma vez por semana, no dia de sexta-feira, que é o dia da feira em Coité.

[Depois], eu fui trabalhar de zeladora na escola de Onça. Aí eu já fui uma das fundadoras da associação de Onça. Eu sempre fui uma pessoa que, depois que eu tive meus filhos, que comecei amizade com o pessoal da comunidade, eu gostava de fazer aniversário, eu gostava de fazer as coisas assim pra ter muita gente. Porque na casa dos meus pais onde eu fui criada eles eram um povo pobre, mas tinha um achego de gente na casa. E quando eu vim pra aqui eu senti necessidade disso, porque antes a comunidade não era tão assim, achegado uns com os outros. Eu sentia aquela necessidade e fui chegando e conversando com o povo, aí se fundou a associação em Onça e fui sócia lá uns 15 anos. Passou a existir na Onça a casa de farinha elétrica, a gente se associava lá, apanhava as mandiocas daqui e levava pra fazer a farinha lá. De lá a gente fazia a farinha, tirava a goma e trazia pra cá pra fazer os beijus. E aí eu senti necessidade de ter uma na nossa comunidade. Eu fui ao secretário de agricultura na época, pedi a ele pra reativar a associação daqui, depois o pessoal da comunidade se juntou e a gente reativou a associação, foi em 98. A gente se filiou a Arco do Sertão e da Arco do Sertão tinha o pessoal do MOC, que foram elas que nos incentivaram a fazer o projeto do PAA.

Na região da gente quase todo mundo tem suas casinhas arrumadas, compram seus móveis dentro de casa, quem não tem carro tem uma moto, quase todo mundo. E sobrevive disso, é da renda que melhorou. O nosso sonho é vender em mercados grandes, nosso sonho não é parar. Eu disse às meninas aqui mesmo que eu não aguento mais trabalhar tanto, mas enquanto eu puder, eu disse a elas assim: “Todo mundo sabe que eu gosto de associação. E quando eu não puder ir pra reunião ou estar no meio de vocês, vocês me levam para eu estar sentadinha lá, mas eu quero estar vendo vocês”.

 

A gente não deixa o povo vir pra reunião só pra escutar. Às vezes tem gente que acha que a coisa é boa, que o que tá falando é coisa boa, mas tem outros que já acham que é blablabá. A gente também não deixa só aquele negócio cansado, só falar, só falar. Quando tem esses eventos vêm sócios e não sócios, vem o pessoal da comunidade.

A gente sempre conversa com os grupos. A gente diz assim: “A nossa geração já está ficando todo mundo mais velho, a gente precisa ir capacitando, tentar capacitar aquelas pessoas mais novas que não têm ainda trabalho fora, que ainda não têm trabalho, pra não ter que sair da comunidade”. A gente conversa com eles, se para os pais está dando pra sobreviver, se criaram eles na comunidade, então não tem necessidade da gente deixar jovem saírem da comunidade, trabalharem fora, ganhando, às vezes, o mesmo dinheiro que ganha na comunidade. O nosso pensamento é esse, trazer eles pra quando os velhos começarem a caducar já tem os jovens pra tomar conta (risos).

Era um programa que era pra ensino de adultos na Escola Agrícola. Eu fiquei com vontade de estudar, achava difícil por causa dos trabalhos, mas o ensino era só sábado e domingo. Eu me matriculei, foi no ano de 2005. O maior prazer foi ter ido buscar minhas notas na primeira escola que estudei, cheguei lá e achei minha pastinha, ô gosto na vida! Achei minha pastinha lá, chega estava amarelinha, foi o mesmo que ter voltado à infância. Voltei a estudar, estudei três anos na Escola Agrícola, Programa Saberes da Terra. Depois que concluí a oitava série eu digo: “Ah, eu já fui até aqui, agora vou continuar”. Fui pro colégio ali em Juazeirinho. Toda noite. Trabalhava, o ônibus passava aqui seis e pouco, me apanhava, e eu ia pra escola. Chegava onze e tanto.

Voltava de ônibus. Teve até gozação (risos). Teve um menino que me disse um dia: “Nalvinha, tu tá estudando?”, eu disse: “Tô!” “Vó disse que não sei pra quê tu quer mais estudo”. Eu não dei resposta a ele, porque ele não sabia nem o que estava dizendo. Aí eu conversei com ele, pra que eu queria o estudo. Eu disse a ele que eu ia pra uma reunião e eu tinha dificuldade em alguma coisa, conversei com ele o porquê que eu queria estudar. Ele disse: “Ah, tá bom”. Eu estudei mais dois anos no colégio, fiz o supletivo, me formei no ano de 2010. Fiz uma formatura que nem jovem, com meus amigos e tudo, foi ótimo.

Ah, mudou muito. Mudou, porque assim, a gente nunca aprende tudo, mas às vezes, antes de eu começar a estudar, eu ia numa reunião, tinha palavra que eu ficava lá pelejando pra entender o que era, lutando pra entender. Até hoje a gente ainda luta pra entender o que era. Mas depois que eu comecei a estudar, não aprendi tudo, mas teve o desenvolvimento, pra mim, desenvolvi até demais. Ficar velha, já perto de 60 anos e estudar, pra mim foi ótimo.

Eu queria falar sobre minha família, os vizinhos. Graças a Deus até hoje é a família que não me deu desgosto, tive três filhos, os filhos moram tudo pertinho da minha casa. Tenho neto rapaz, neta moça. Todo mundo me respeita. Tenho neto até que não é neto mesmo, mas pra mim é neto. E a comunidade. E a comunidade, que quando eu cheguei aqui, a comunidade me recebeu com respeito e até hoje todo mundo me respeita. E não sei se eu dou lugar de ser respeitada, mas a comunidade pra mim, a comunidade de Pedras hoje, e a cidade Conceição do Coité é tudo o que eu tenho, é tudo na vida. O meu sonho é ver todo mundo bem, eu vendo todo mundo bem...

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